segunda-feira, fevereiro 25, 2008

FIDEL, O DISCURSO ISENTISTA E A FILOSOFIA DOS EUNUCOS MORAIS


Três das quatro principais revistas semanais brasileiras estampam em suas capas, nesta semana, o mesmo assunto: a "renúncia" do ditador Fidel Castro, após 49 anos no comando da ditadura comunista de Cuba. A Veja resume tudo na chamada: "Já Vai Tarde". A Época mantém o tom anódino e imparcial: "Depois de Fidel". Coerente com seu papel de porta-voz oficioso das esquerdas, a Carta Capital parece lamentar a saída do tirano: "Cuba sem Fidel". A Istoé preferiu falar de lipoaspiração.

As três capas sintetizam três posições da imprensa brasileira. Três atitudes diante de um ícone das esquerdas do século XX. Com exceção da Veja e outras publicações "de direita", a postura da mídia nacional ante o regime de Havana tem sido ou o alinhamento total (Carta Capital) ou a defesa da "neutralidade" (Época). Das três posições, o apoio incondicional e a "imparcialidade" denotam, apenas, canalhice ideológica ou desonestidade intelectual. Ponto para a Veja. Ponto para a verdade.

Não vou analisar aqui o ponto de vista de revistas como a Carta Capital ou a Caros Amigos - verdadeiros panfletos esquerdóides travestidos de jornalismo, comprometidos até a medula com a roubalheira dos petralhas. Não vou me sujar comentando esse lixo. Creio que as opiniões por elas emitidas sobre Fidel, terrorismo islâmico, o mensalão, o escândalo dos cartões corporativos, Chávez e Morales são por demais conhecidas e por demais pedestres para merecerem ser rebatidas. A própria realidade se encarrega disso, revelando o nível de degradação moral a que chegaram seus editores. Em vez disso, vou me concentrar na cobertura da chamada imprensa "neutra", ou "imparcial", sobre a saída de cena do tirano do Caribe.

A atitude "isentista" cultuada por parte da imprensa brasileira em relação à ditadura cubana não tem nada a ver com compromisso com a verdade. Muito pelo contrário. Trata-se de uma posição também ideológica, uma concessão inexplicável às esquerdas. No caso, uma posição ideológica meio envergonhada, de quem se acanha diante de fatos irrefutáveis e se empenha em defender o indefensável. Basta lembrar. Quase todas as reportagens ou artigos sobre Fidel Castro começavam com o mesmo bordão: "Para uns, um ditador; para outros, um benfeitor". Ou seja: lembrava-se da falta de liberdade em Cuba, dos fuzilamentos, das prisões de dissidentes, apenas para em seguida fazer a observação compensadora: sim, o regime é ditatorial, mas deixou um legado de conquistas sociais. Sim, o regime é assassino, mas deu saúde e educação ao povo. Como eu já comentei aqui, uma articulista da Folha de S. Paulo, jornal que se orgulha de sua posição "isenta" e "equilibrada", Eliane Cantanhêde, chegou a escrever que é preciso "preservar os ideais" do regime cubano. Em outras palavras: é preciso reconhecer, em nome da "isenção" e do "equilíbrio" jornalísticos, que o regime castrista tem lá suas qualidades. É uma ditadura, mas uma ditadura camarada, "boa", "do bem"...

Estranho discurso esse, o da "isenção" política. Digo estranho porque ele só costuma ser aplicado às ditaduras de esquerda. Esse tipo de filosofia de eunucos morais não costuma valer para ditaduras de direita, como a de Pinochet no Chile, que aliás já acabou faz tempo, ao contrário da de Cuba, que apenas mudou de mãos. Que jornalista "neutro" teria coragem de escrever que regimes como o dos generais chilenos ou os de Hitler e Mussolini deixaram um legado importante de avanços sociais e econômicos, dizendo que é necessário "preservar esses ideais"? Claro está que esse discurso ambíguo, quando aplicado à ditadura cubana, não se sustenta. Primeiramente, porque em nenhum lugar está escrito que renunciar à democracia é o preço a pagar por justiça social (fosse assim, a Costa Rica e o Chile de hoje, para não falar de países como a Suécia e a Dinamarca, seriam terríveis ditaduras). E, principalmente, porque os tão decantados "avanços sociais" da ditadura cubana não passam de uma farsa. Como sabe qualquer pessoa que estudou um pouco de história de Cuba, a situação econômica do país antes da chegada de Fidel Castro ao poder era das melhores na América Latina, inclusive na área social. Havia uma boa relação médico-pessoa na ilha antes de 1958, e o analfabetismo, que Fidel Castro diz ter sido de 50%, era na verdade de 22%, um dos menores índices nas Américas (o Brasil, para se ter uma idéia, tinha quase a metade da população analfabeta, no mesmo período). Nenhum desses alardeados avanços foi conquista da ditadura cubana. Pelo contrário: na saúde, por exemplo, que é o carro-chefe da propaganda cubana no exterior, o que se tem visto é o declínio das condições sanitárias da população e o aparecimento, nos anos 90, de doenças antes erradicadas, devido à deficiência no consumo de proteínas (os cubanos, com seu bom humor apesar de tudo, costumam dizer que, em Cuba, há três problemas: o café-da-manhã, o almoço e o jantar). Por sua vez, o sistema educacional cubano pode ser qualquer coisa, menos ideal: além de não se poder ler o que se quer por causa da censura governamental, os estudantes cubanos são obrigados a passar por verdadeiras sessões de doutrinação ideológica e lavagem cerebral (não admira, portanto, que os companheiros petistas queiram reproduzir por estas plagas o sistema cubano, com cartilhas marxistas ensinadas às crianças nas escolas). Pergunto: que "educação de qualidade" pode conviver com a censura e a impossibilidade de pensamento independente?

Mas onde a retórica "isentista" mostra toda sua parcialidade disfarçada a favor da ditadura castrista é quando se debruça sobre as causas da situação calamitosa da ilha-prisão. Em nove de cada dez análises ou artigos, culpa-se o embargo norte-americano (às vezes chamado, com boa ou má fé, de "bloqueio") pela situação de penúria e indigência do país. Desse modo, nossa imprensa "isenta" apenas reproduz o discurso oficial castrista, servindo de caixa de ressonância de suas mentiras, ao responsabilizar um fator externo, os EUA (sempre ele, claro), pelas mazelas produzidas pela própria incompetência do regime socialista. Em primeiro lugar, o embargo norte-americano não impede que a ilha comercie livremente com 179 países (dados do Ministério das Relações Exteriores de Cuba), nem que os EUA sejam hoje, embora por vias tortas, um de seus principais parceiros comerciais, com US$ 1 bilhão enviado anualmente pelos gusanos de Miami a seus parentes na ilha-cárcere - uma das principais fontes de renda do regime, ao lado do turismo e da exploração de níquel e petróleo. O racionamento de alimentos, uma das principais contribuições cubanas ao atraso secular da América Latina, data de 1962, em plena época das vacas gordas soviéticas. Durante mais de três décadas, de 1960 a 1991, Cuba foi sustentada por uma polpuda mesada da ex-URSS. Estima-se que a ilha tenha recebido em ajuda econômica de seus antigos patrocinadores soviéticos algo em torno de US$ 100 bilhões - dinheiro suficiente para alavancar a economia de qualquer país. E, no entanto, o que a ditadura de Fidel Castro deixou como legado? Um país arruinado, empobrecido e sem perspectivas.

Tudo que ditadores como Fidel Castro e seu irmão Raúl desejam não é a adesão incondicional dos formadores de opinião dos países democráticos a suas teses totalitárias: é a imparcialidade, ou "isenção" dos mesmos diante de seus crimes. Ao contar com esse tratamento diferenciado, os donos do poder em Havana poderão ficar sossegados, pois saberão que sempre haverá quem procure compactuar com a tirania. Ainda que Cuba fosse um paraíso da saúde e da educação (o que está bem longe de ser verdade), ainda que a ilha-presídio estivesse submetida a "um cruel bloqueio genocida do imperialismo" (o que também é falso), não haveria motivo algum para tamanha condescendência. É uma pena que revistas como Época e o governo do Brasil não enxerguem essa realidade.

Chamar o ditador e assassino em massa Fidel Castro de ditador e assassino em massa não é uma opinião. É um fato. Assim como chamar Hitler ou Stálin de tiranos e genocidas não é uma questão de ponto de vista, mas de respeito à verdade da História. Não pode haver neutralidade diante do crime e da mentira. Pedir "isenção" diante do estupro de um país inteiro, como o que ocorre em Cuba há 49 anos, não é deixar de tomar posição: é colocar-se ao lado do estuprador. Fidel já vai tarde. Ponto para a Veja.

3 comentários:

João disse...

Polêmico, com toda a certeza. Mas não me parece um "Inimigo da afetação de qualquer espécie, da arrogância, do esnobismo e de outras frescuras do tipo". A questão não é ser isento perante a questão do Fidel, mas a Veja nada mais é do que uma revista "afetada"; nada mais faz do que expor uma opinião com defesas fracas e sem base argumentativa. Liberdade de imprensa não é sinônimo de mediocridade de matéria.

Luiz Maurício disse...

A Polêmica gerada por uma pessoa que se auto-denomina polêmico é no mínimo duvidosa. Tanto o autor deste blog quanto o senhor João são pessoas afetadas. Um por defender a direita Veja e o outro por defender a esquerda Carta Capital. Ambas as revistas (e eu repito ambas) possuem um jornalismo fraco e irregular. Para estar por dentro do assunto que discutem, resolvi ler a matéria sobre Fidel Castro das duas revistas. A Veja defende uma direita neoliberal e a Carta Capital uma esquerda de centro, mas acabam por convergir num jornalismo precário, de matérias fracas e pouco elucidativo. O capitalismo sempre aparece transvestido de “liberdade” e o socialismo sempre aparece transvestido de “igualdade”, mas pecam por serem ilusões oferecidas a sociedade. Não gosto do Mino Carta, Diretor de Redação da Carta Capital, assim como não gosto do Roberto Civita, Presidente e Editor da Veja. Considero-os tendenciosos e de opiniões por demais inconseqüentes. Não comento a revista Época, primeiro porque não a li e depois por não me interessar a sua neutralidade. Feito a presente introdução vamos as análises pertinentes de cada revista:

A Veja utiliza cada página que pode da revista para agradecer o fim do regime do Fidel, algo que considero altamente desnecessário. Quando realmente chega a matéria principal, peca pela escolha do jornalista Diogo Schelp, que confunde a defesa de um ponto de vista da revista com o direito de falar qualquer besteira que ele quer. Pouco me interessa se ele pensa que o Fidel é um farsante, tirano e assassino. Utilizar termos como subversão e dizer que Fidel “vive como um cônsul romano” (p.70) são puras alegorias da cabeça dele. Fora que a História (essa com H maiúscula) não é escolha deste jornalista, e se Fidel será ou não absolvido pela História não cabe a ele decidir. Por acaso o termo “céu dos comunistas” (p. 71) é alguma piada? Na minha opinião uma total falta de profissionalismo. Que entende ele de comunismo? Que sabe ele sobre Marx? Já por acaso tocou num livro deste autor? Pelas coisas que disse tal jornalista, eu duvido... Respondam-me aqueles que entendem do assunto: o que interessa o termo PIB e renda per capita num país socialista? Se a economia é planificada, pra que salários altos? Toda esta crítica feita pelo senhor Schelp não tem o menor cabimento em Cuba. O que pude perceber é que na defesa da liberdade, tal jornalista peca por não permitir a liberdade de escolha de um país seguir um outro regime que não seja o capitalismo. Que liberdade é esta que tanto fala? Ora, dizer que o regime castrista matou pessoas é uma verdade, outra é não permitir que os cubanos sejam socialistas. Mas a maior baixeza não veio de Schelp, mas sim do artigo inserido na matéria e assinado por Reinaldo Azevedo. Uma total falta de respeito do senhor Azevedo com Chico Buarque, Oscar Niemeyer e Frei Betto. Chamar o Chico de “um talentoso idiota moral” (p.78) foi a gota d’ água. O grande ponto alto da revista Veja foi a conversa com o cubano Héctor Palacios Ruiz, que soube falar de forma franca e respeitosa sobre um regime que não concorda.

A Carta Capital, apesar das acusações do autor deste blog, fez o mesmo tipo de jornalismo da Veja, mas evitou os ataques e opiniões pessoais do jornalista encarregado da matéria. Não perdeu com isto o ponto de vista da revista que é a defesa do regime cubano. A revista foi um pouco relevante quanto as mortes do regime, mas teve como ponto alto a conversa com Tariq Ali, que demonstra os pontos altos e baixos do regime cubano.

Apesar dos problemas do presidente Lula, com uma frase dele eu devo concordar: “Esse negócio de a gente ficar aqui do Brasil dizendo que bom é assim ou assado, vamos deixar que os cubanos cuidem do que eles querem para a política e vamos cuidar do que queremos para o Brasil. O que complica é quando cada um começa a dar palpite nas coisas dos outros. Aí pode dar conflito. Os cubanos têm maturidade para resolver todos os problemas, sem precisar de ingerência brasileira ou americana” (Caderno especial do jornal O Globo: “O Comandante Sai de Cena” de 20 de fevereiro de 2008, p.5). Lula está certo: os cubanos têm maturidade para decidirem seu próprio caminho. Assim como também diz o escritor Pio E. Serrano, exilado cubano desde 1974: “Reconduzir o país não é direito dos exilados”, “Esse papel quem deve desenvolver são os cubanos que se mantiveram em Cuba. Os exilados não têm esse direito”. (mesmo Caderno citado acima, p.8). Quem disse que o melhor caminho para Cuba é a democracia e a economia de mercado? Platão, o grande filósofo grego do século IV a.C., desconfiava abertamente da democracia como sendo o melhor regime. Ele tinha duras críticas à democracia e defendia um governo de filósofos. Não quero aqui implantar o governo de Platão em Cuba, mas defendo que se Cuba assim o quiser deverá continuar sendo Socialista. Fidel tinha um ideal de um mundo melhor. Não se pode dizer que sua ideologia deu totalmente certo, mas devemos louvar o ideal de um mundo melhor, por que não? Platão foi um dos maiores idealistas e acreditava no Bem como a idéia de maior valor. Em sua obra A República criou aquela que seria a polis ideal, pensando numa revitalização de seus cidadãos de uma Atenas em plena decadência política.

Ser “do contra” não é só dizer não acreditar em Deus, dizer ter opiniões fortes ou se auto-denominar polêmico (termo este que vem do grego polemikos – que quer dizer hostil, disposto à guerra, bélico). Ser “do contra” já se auto admite como a favor de algo. Ser “do contra” como se diz o autor deste blog com todo orgulho é ser totalmente a favor de um outro lado que ele considera obviamente melhor. Ouçamos, portanto, a voz da verdade deste cidadão. Verdade unicamente dele que ele pensa ser a melhor para todos nós, sem dar direito de escolha para os demais. Pois na defesa que ele faz da liberdade ele esquece de permitir que outros tenham o direito de ter outros pensamentos e escolhas políticas e ideológicas diferentes.

Sumaia Villela disse...

Acho que você deveria saber que o autor do quadro que ilustra seu comentário, o Goya, era revolucionário na sua época. Era simpático aos ideais da revolução francesa, que derrubou regimes monarquistas em diversos países e diminuiu seu poder nos que ainda o mantém.
Essa imagem é da invasão da Espanha pela França, e, apesar de ser favorável ao lema "liberdade, igualdade e fraternidade", Goya demonstrou com muita propriedade o horror provocado pela guerra e o massacre realizado pelos franceses. Mas, infelizmente, nada tem a ver com seu assunto, e acho desapropriado utilizar uma imagem que reflete outro tempo histórico para ilustrar um assunto contemporâneo.
Não vou tocar aqui nas discordâncias elementares que tenho, só queria enriquecer seu conhecimento, porque é uma obra de arte belíssima, mas que foi utilizada erroneamente, ao meu ver.