sexta-feira, fevereiro 08, 2008

CONHECENDO "O VELHO"

Certa vez, no distante e bastante mitificado ano de 1968, o dramaturgo maldito e cronista genial Nelson Rodrigues estava numa festa de grã-finos. Ele gostava de freqüentar tais lugares, e tinha especial obsessão por certos personagens dessa fauna exótica, como "a grã-fina de narinas de cadáver". Dez em cada dez presentes àquele sarau da fina flor da grã-finagem carioca se declarava marxista ("como é marxista a nossa elite!"). Havia mesmo, entre os convivas, uma "amante espiritual de Guevara", vejam só.

A festa estava cheia de bons marxistas. Só se falava de Marx e sua incrível capacidade intelectual etc., etc. Na época, chamava-se a isso "esquerda festiva" (hoje seria algo como a beautiful people, os politicamente corretos de todos os tipos, defensores das cotas raciais e eleitores de Lula e do PT). Eram tão marxistas, aliás, que discutiam mesmo a furunculose de Marx, a quem chamavam, em tom reverente e ao mesmo tempo quase familiar, de "O Velho". Sabendo disso, o famoso reacionário - o único escritor brasileiro, que eu saiba, a ostentar com orgulho esse título - chamou a todos para ouvirem "umas piadas bacanérrimas". Pondo as mãos no bolso, retirou algumas notas que havia rabiscado e, disposto a provocar aquelas mentes tão ilustradas, tão iluminadas, tão progressistas, começou a lê-las para todos ouvirem. Eis algumas das frases:
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- "O imperialismo é a tarefa dos povos dominantes - Alemanha, França, Inglaterra, Estados Unidos";

- Sobre os EUA: "o país mais progressista do mundo";

- "Contra o imperialismo russo, a salvação era o imperialismo britânico";

- "O defeito dos ingleses é que não são bastante imperialistas";

- "O colonialismo é progressista porque os povos domináveis e colonizáveis só têm para dar a estupidez primitiva";
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- Sobre o budismo: "o culto bestial da natureza";

- Sobre a China: uma "civilização que apodrece";

Sobre a vitória dos EUA contra o México, em 1848:

- "Presenciamos a conquista do México E REGOZIJAMO-NOS PORQUE ESTE PAÍS, FECHADO EM SI MESMO, dilacerado por guerras civis, e negando-se a toda evolução, seja precipitado violentamente no movimento histórico. No seu próprio interesse, terá que suportar a tutela que, desde este momento, os Estados Unidos exercerão sobre ele";

E continuava:

- "A Alemanha é um povo superior e os latinos e os eslavos, mera gentalha";

- Ainda sobre os eslavos: "Povos piolhentos, estes dos Bálcãs, povos de bandidos";

- Sobre os búlgaros, em particular: "um povo de suínos", que "melhor estariam sob o domínio turco";

- Sobre os povos eslavos, em suma: "povos anões", "escórias de uma civilização milenar";
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- E, finalizando: "A expansão russa para o Ocidente é a expansão da barbárie".

A cada frase daquelas, o público fremia de indignação mal-contida. Que absurdo! Que intolerância! Que deslavada apologia do imperialismo e do racismo!, pensavam. Quem teria escrito tamanha barbaridade? Hitler? Goebbels? Mussolini? Franco? O general Médici? Após ler por duas horas para os indignados da "festiva", o dramaturgo, recuperando o fôlego, embolsou as notas e perguntou: "Vocês ouviram. O autor ou autores citados já morreram. Quero saber se teriam coragem de cuspir na cova de quem escreveu tudo isso." Perguntou ainda: "Quem pensa assim, e escreve assim, é um canalha?"

A resposta dos presentes foi fulminante: "É um canalha!".

Nelson Rodrigues ainda os advertiu:

"Calma, calma. São dois os autores! Vocês têm certeza de que são dois canalhas? E canalhas abjetos?"

Novamente, os marxistas de salão ali presentes foram unânimes e enfáticos na resposta. Sim, os autores eram dois canalhas da pior espécie. Canalhas abjetos. Se vivos fossem, os convivas não hesitariam em pular sobre seus pescoços e chupar-lhes as carótidas. Sim, escarrariam, felizes, sobre seus túmulos. Sapateariam, feito possessos, em suas covas, maldizendo-os para sempre.
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Foi então, sem que pairasse qualquer dúvida, que o dramaturgo alçou a fronte e revelou os nomes dos dois canalhas: Karl Marx e Friedrich Engels. Silêncio na sala. Nelson Rodrigues repetiu: "Marx e Engels, os dois pulhas, segundo vocês".

Desnecessário dizer que os grã-finos da "festiva" ficaram totalmente embasbacados com a revelação. Marx e Engels, os criadores do "socialismo científico", os deuses da revolução, "eram paladinos fanáticos do imperialismo, do colonialismo, admiradores dos ianques, russófobos". Tanto que escreveram o seguinte: "A revolução proletária acarretará um implacável terrorismo até o extermínio de todos esses povos eslavos".

Retirei o episódio acima de uma crônica de Nelson Rodrigues, "O Velho", publicada em O Globo de 3/5/1968 e que consta do livro A Cabra Vadia: Novas Confissões (Rio de Janeiro: Agir, 2007, páginas 172-176). Quem tiver interesse em se aprofundar no assunto, recomendo ler as cartas de Marx e Engels, que podem ser facilmente encontradas em sebos e bibliotecas públicas, em edições antigas e emboloradas de suas Obras Completas.

Os grã-finos de Nelson Rodrigues, e isso ele queria dizer, não entendiam patavina de Marx e Engels. Liam sobre os dois, conversavam sobre os dois, até escreviam sobre os dois, mas não tinham a menor idéia do que eles pensavam de verdade. Entre eles, é bom que se diga, não havia somente socialites de cabeça oca, mas também "poetas, romancistas, sociólogos, ensaístas. Intelectuais da mais alta qualidade". O marxismo, para eles, como para a maior parte da intelectualidade brasileira, era uma moda de salão, nada mais. As passeatas, àquela época, eram o "must". Todos queriam ser de esquerda, parecer de esquerda, usar o vocabulário e os ornamentos da esquerda. De fato, dizer-se marxista, ou pelo menos de esquerda, passou a ser, entre nós, uma verdadeira religião, uma obrigação moral. Daí os personagens impagáveis que ele criou: o "padre de passeata", a "freira de minissaia", a "estagiária da PUC", "o marxista de galinheiro" e por aí vai.

Ninguém sabia o que era ser de esquerda, de verdade. Nem então, e nem hoje. Atualmente, os esquerdistas estão no poder no Brasil. Entre eles, há muitos que se dizem e se consideram marxistas, até marxistas-leninistas. Falam ou pretendem falar em nome do povo, dos oprimidos, contra o imperialismo e a dominação dos fortes sobre os fracos etc., etc. Exatamente o oposto do que afirmavam Marx e Engels. Para esses dois, somos todos uns bárbaros, uns primitivos, uns comedores de banana, uns suínos, uns piolhentos, mais insignificantes do que ratos. Estaríamos melhor debaixo da dominação de algum povo superior, como os alemães ou os norte-americanos. É impressionante como certas coisas não mudaram. Quem, dentre a companheirada hoje no governo, teria a coragem e a sinceridade de admitir que seus ídolos são dois defensores ferrenhos da escravização de povos inteiros, do racismo, da exploração desenfreada, da guerra, do genocídio? Dois canalhas da pior espécie. Canalhas abjetos.

Nelson Rodrigues dizia que certas verdades somente confessamos numa entrevista imaginária, à meia noite, num terreno baldio, à luz de archotes, tendo apenas uma cabra vadia por testemunha. Eis uma verdade que só assim confessamos: "somos analfabetos em Marx, dolorosamente analfabetos em Marx". Os esquerdistas, os mais analfabetos de todos.

Um comentário:

Media Sem Média disse...

Artigo fresquinho! Muito bom. Eu estava perguntando-me se esta pérola estaria perdida nos arquivos de um blog.
Muito bom!