sexta-feira, setembro 28, 2007

EM DEFESA DO CAPITALISMO


"A diferença entre capitalismo e socialismo é que, no capitalismo, se você leva um chute, você pode reclamar; no socialismo, se você leva um chute, você tem que aplaudir". (Reinaldo Arenas, Antes que anoiteça)

Eu não sei nada de economia. Se dependesse unicamente de meus conhecimentos sobre o assunto, eu jamais teria conseguido ser aprovado no concurso do Itamaraty. Tirando um pouco de História econômica e alguns rudimentos sobre macroeconomia, sou completamente ignorante na matéria. Sem falar que sempre detestei lidar com números, contas, esse tipo de coisa. Até hoje não sei a diferença entre fundo de renda fixa e caderneta de poupança, por exemplo. Brinco sempre que, se alguém quiser perder dinheiro, é só me entregar o comando de um negócio que eu o levo à falência em dois tempos. Como Lula ou Che Guevara na época em que era o manda-chuva da economia em Cuba, sou incapaz de tocar até uma birosca de esquina. Sou o que se pode chamar de um anticapitalista nato, o avesso de um empresário.

Quem me vê assim, totalmente desapegado desses assuntos mundanos, inclusive de minhas finanças pessoais, pode até pensar que eu seria um simpatizante da esquerda, um crítico feroz do capitalismo e da sociedade de consumo. Pois sou exatamente o contrário. Minha relativa ignorância em assuntos econômicos e falta de praticidade burguesa não me impedem de enxergar aquilo que é óbvio: que, com todos os seus defeitos - que não são poucos -, o capitalismo é o único sistema econômico e social compatível com a democracia e a liberdade do indivíduo. Disso, sim, eu entendo alguma coisa. Pelo menos eu acho.

A primeira virtude do sistema capitalista é, paradoxalmente, seu maior defeito: nele, tudo gira em torno do dinheiro, do vil metal. Nada de títulos de nobreza ou de ligações familiares (e por aí se vê quanto o Brasil está longe de ser, ainda, um país capitalista...). O que vale mesmo, o que realmente importa, é quanta bufunfa você tem no bolso ou no banco. Isso, que é um anátema para muitos românticos e para os padres católicos, foi uma verdadeira revolução, certamente a mais importante dos últimos quinhentos anos. O capitalismo, que muita gente confunde ignorantemente com ambição e egoísmo puro e simples, no sentido religioso da palavra, é fruto da grandiosa explosão criativa do Renascimento e da expansão comercial européia iniciada no século XI, que levou ao fim o antigo sistema feudal, com suas obrigações e privilégios, e estabeleceu em seu lugar um sistema inteiramente novo, baseado nas concepções do Humanismo e na prosperidade individual. Foram essas idéias que produziram a Reforma religiosa do século XVI e permitiram à humanidade, pela primeira vez na História, libertar-se das amarras sociais que impediam o desenvolvimento da consciência pessoal. O lucro mediante o trabalho, a iniciativa empresarial, o livre comércio, o florescimento da individualidade, o espírito empreendedor, decorrentes em grande parte da ética protestante - como diria Max Weber -, tudo isso é produto direto, inseparável, do capitalismo. Não por acaso, até o maior inimigo do sistema capitalista, Karl Marx, inicia seu texto mais famoso enaltecendo o papel profundamente revolucionário desempenhado pela burguesia ao longo da História.

Claro que um sistema assim, alicerçado na iniciativa individual e não em laços de sangue ou feudais, só poderia florescer em um modelo político que garantisse os interesses particulares contra a ingerência esmagadora e sufocante do Estado todo-poderoso. Num primeiro momento, um Estado forte, absolutista, chefiado por um monarca de direito divino como Luís XIV na França ou Elisabeth I na Inglaterra, foi necessário para minar as bases da velha autoridade feudal e eclesiástica e garantir os interesses dessa classe de comerciantes. Esse Estado, porém, logo esgotou sua utilidade, passando de garantidor para um entrave ao andamento dos negócios. Em seu lugar, surgiu então um novo sistema político, baseado não mais na autoridade suprema e incontestável do Rei sobre seus súditos, mas no conceito de Estado-Nação, nos direitos universais dos cidadãos. Esse sistema, que perdura desde então nos chamados países civilizados, é a democracia.

Fiz toda essa digressão histórica porque, há pelo menos noventa anos, a esquerda se apropriou do discurso da defesa da democracia. Mais: chegou mesmo a mudar completamente o sentido da palavra, alterando seu significado original. Assim, ditaduras totalitárias como os regimes comunistas do Leste Europeu se auto-intitulavam "democracias populares" e governos populistas como o de Hugo Chávez na Venezuela se autodenominam "democracias participativas e protagônicas". Aprendi a desconfiar de todas as tentativas de se adjetivar a democracia, mesmo que seja para descrevê-la como "democracia democrática". Democracia é democracia. E ponto. O resto é ditadura, disfarçada ou não.
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Os esquerdistas afirmam que o capitalismo não tem nada a ver com democracia porque ele pode existir tanto em regimes democráticos quanto em ditaduras, como a dos militares no Brasil em 1964-1985 ou a do Chile sob o general Pinochet. É uma meia verdade, o que significa uma meia mentira. Sim, o capitalismo floresceu em alguns setores, durante esses regimes, principalmente no caso do Chile, onde se adotou, de forma pioneira a partir dos anos 70, uma série de reformas liberais da economia, paralelamente à repressão política. Mas o fato inegável é que tais regimes sempre se mostram, a longo prazo, um entrave ao desenvolvimento do livre mercado. Tanto que existem sempre a título provisório, com a perspectiva de um dia darem lugar ao retorno da normalidade democrática. No caso do regime militar do Brasil, assistiu-se a um crescimento fenomenal de alguns setores - obras públicas, principalmente - dependentes do apoio estatal, em detrimento de áreas em que a livre iniciativa e a livre concorrência fazem toda a diferença (um exemplo é o setor de informática, artificalmente congelado por uma absurda "reserva de mercado" durante décadas). Não por acaso, foi durante a ditadura militar brasileira, anticomunista e antiesquerdista, que ocorreu o maior inchaço do setor público-estatal da economia no País - algo do agrado, certamente, dos esquerdistas que estão hoje no poder.
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Assim como conviveu, dos séculos XVI ao XVIII, com o absolutismo monárquico e o Antigo Regime Colonial, o capitalismo pode conviver durante algum tempo com regimes autoritários, como as ditaduras militares latino-americanas dos anos 60 e 70, estabelecidas para conter o avanço da esquerda anticapitalista e antidemocrática. Mas seu livre florescimento, por suas próprias características, só pode ocorrer em bases democráticas. O socialismo, por sua vez - e aqui me refiro aos "socialismos reais" do século XX, como o da ex-URSS e o de Cuba -, só pode existir em bases ditatoriais, totalitárias. Aliás, a destruição da democracia, em todas as suas vertentes, é a sua base, seu alicerce fundamental. Pode existir capitalismo sem democracia? Certamente que sim. Mas não pode haver democracia sem capitalismo. A recíproca não é verdadeira.

O capitalismo não é superior apenas porque faz os melhores carros e barbeadores elétricos, ou porque é o único sistema capaz de gerar - e distribuir - riqueza, mas principalmente porque é o único sistema social, até o momento, compatível com as noções de democracia e de liberdade. Não somente a democracia no sentido estritamente político, a democracia do voto, mas a democracia social, a possibilidade de mudar de classe ou de grupo socioeconômico, para cima ou para baixo. Para tanto, é imprescindível a existência de um ordenamento jurídico e político sólido, capaz de garantir, ao mesmo tempo, os interesses dos ricos e dos que almejam sê-lo um dia, alicerçado em regras e princípios impessoais e na defesa das liberdades básicas do cidadão: liberdade de escolha, de consciência, de crença, de expressão, de associação, de reunião, de ir e vir etc. Não é a democracia que é boa porque permite o livre mercado; é o livre mercado que é bom porque permite a democracia. Em suma, o capitalismo é melhor porque é o único sistema que possibilita uma sociedade aberta e democrática. Como tal, é incompatível com o patrimonialismo, o familismo e outras chagas tão conhecidas da sociedade brasileira. Até o momento em que escrevo estas linhas, ninguém apresentou coisa melhor.

Durante muito tempo, hesitei em reconhecer a relação inegável entre democracia e capitalismo, assim como entre desenvolvimento econômico e capitalismo. Ainda influenciado pelas teses marxistas, insistia em negar o fato óbvio de que os regimes socialistas, a pretexto de promover a igualdade, apenas mataram a liberdade e geraram somente atraso e opressão. Hoje, alguns anos e muitas leituras depois, percebo com cada vez mais nitidez o que muitos políticos, demagogos e tecnocratas relutam em admitir: que as diferenças entre os países ricos e pobres não decorrem do capitalismo, mas da falta dele (nos países pobres, bem entendido) e que as noções de livre empresa e de propriedade privada são inseparáveis da democracia (se têm alguma dúvida, comparem as trajetórias políticas dos EUA, o maior país capitalista de todos os tempos, e da Europa nos últimos duzentos anos).

É claro que o sistema capitalista, com sua ênfase na propriedade e no lucro, não está livre, como já disse, de defeitos. Mas, no balanço geral, esses defeitos, tal como os vícios individuais, acabam gerando benefícios coletivos. O principal deles é a própria democracia. As leis do mercado e a livre concorrência, se geram problemas, abrem ao mesmo tempo enormes oportunidades a quem está disposto a pagar o preço e correr riscos. As desigualdades inevitáveis que daí decorrem são plenamente compensadas, em minha opinião, pela liberdade que lhes é inerente. Os marxistas e seus "companheiros de viagem" adoram falar em revolução, mas a verdade é que o único sistema verdadeiramente revolucionário é o que querem destruir. No socialismo, todos são escravos do Estado revolucionário. No capitalismo, cada um pode fazer sua própria revolução individual. E, se levam um chute no meio do caminho, podem gritar. Ao contrário do que ocorria nas "democracias populares" que pretenderam substituí-lo.

7 comentários:

Anônimo disse...

só pode um burgues filho da puta pra criar uma merda dessa,,,,
viva a igualdade social viva che

Flávio André disse...

Concordo plenamente como você. O capitalismo é o melhor dos sistemas e viva a democracia. E craças a ela você está escrevendo isso. Vai fazer isso na China ou em Cuba! Pobres são os povos desses países que sob a ditadura desses governos não tem a liberdade de decidir sobre sua vida e escolhas.

Flávio André disse...

Concordo plenamente. Viva a democracia com o capitalismo! E graças a essa democracia, temos o direito de pensar e expor nossas opiniões. Vai fazer isso em Cuba, China ou outro país comunista!

Anônimo disse...

VIVA O SOCIALISMO!!

VIVA!
VIVA!!

Bruna disse...

Liberdade sempre, a favor da ideologia de Bakunine! /o/

Anônimo disse...

Vocês que querem socialismo ou anarquismo, só querem porque querem ser rico, somente isso, ricos!! Ideolesados!!

Anônimo disse...

Gustavo, seu blog é excelente... Parabéns
Lucas