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quinta-feira, setembro 26, 2013

OS PIORES LIVROS QUE FIZERAM A CABEÇA DE MUITA GENTE (VERSÃO BRASILEIRA)

Estava devendo o post a seguir há bastante tempo, como complemento ao texto OS PIORES LIVROS QUE FIZERAM A CABEÇA DE MUITA GENTE (http://gustavo-livrexpressao.blogspot.gr/2010/03/os-piores-livros-que-fizeram-cabeca-de.html). Demorei porque a lista é longa, e, diante de tantas gemas, a maior dificuldade está em selecionar as mais representativas. Nos quesitos ruindade acadêmica, parcialidade ideológica e indigência mental, o Brasil está bem suprido: nesse particular, o país ocupa certamente os primeiros lugares em qualquer ranking mundial, ao contrário dos resultados dos exames de desempenho escolar da ONU. Eis os piores livros de autores nacionais que mais influência exerceram no Brasil nos últimos cento e tantos anos:


- A Ilusão Americana, Eduardo Prado (1890) - Certidão de nascimento do antiamericanismo tupiniquim, ganhou status de obra "cult" entre os acadêmicos em parte porque foi o primeiro livro censurado pela República (em 1893, pela ditadura de Floriano Peixoto). Espécie de bíblia dos inimigos do "império estadunidense", quase sempre gente ressentida e movida pela inveja do "gigante do Norte", serve tanto à direita (o autor era monarquista) quanto à esquerda. Sobretudo a esta, que transformou o ódio aos EUA numa espécie de religião e num álibi para o atraso do Brasil em diversas áreas ("a culpa é dos outros" etc.). É, assim, uma espécie de precursor de As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, a bíblia dos idiotas latino-americanos (hoje rebatizados de "bolivarianos").  
- Por Que Me Ufano do Meu País, Conde Afonso Celso (1900) - Pequeno livro fundador do ufanismo nacional (também conhecido como "chupa, mundo!" ou "síndrome-do-comigo-ninguém-pode"), ou seja, a mania megalômana do brasileiro de achar que o Brasil é o melhor país do mundo, com o melhor povo, o melhor clima, os melhores rios, o melhor hino, a bandeira mais bonita etc. etc. É a base para todo tipo de patriotada a que os brasileiros se entregam alegremente de vez em quando, embalados por uma Copa do Mundo ou pelo marketing do governo megalomaníaco de plantão, tanto de direita (o regime militar) quanto de esquerda (os governos petistas de Lula-Dilma). Ironicamente, tem epígrafe em inglês (My country, right or wrong - ou seja: "Meu país, certo ou errado", o que, como lembrou Millôr Fernandes, é o mesmo que dizer "minha mãe, sóbria ou bêbada"). O post-scriptum poderia ser a frase de Samuel Johnson: "O nacionalismo é o último refúgio do canalha".
 

- Brasil, Colônia de Banqueiros, Gustavo Barroso (1934) - Leitura obrigatória nas escolas militares durante muitos anos, é uma verdadeira síntese do pensamento reacionário nacionalista muito em voga no Brasil nos anos 30, culpando uma "conspiração dos banqueiros internacionais" pelos problemas do país (seu subtítulo é "História dos empréstimos brasileiros de 1824 a 1934"). O autor, historiador renomado, era, além de dirigente e ideólogo da Ação Integralista Brasileira (a versão cabocla do fascismo), conhecido antissemita, chegando a traduzir do francês Os Protocolos dos Sábios de Sião, livro que não fica muito longe, em matéria de propaganda antijudaica e conspiracionista. Mais uma prova de que o nacionalismo rombudo e irracional é comum aos dois extremos ideológicos.
 
 
- O Cavaleiro da Esperança, Jorge Amado (1942) - Hagiografia do caudilho comunista Luiz Carlos Prestes escrita pelo autor de Tieta e de Gabriela na época em que militava no Partido Comunista (o velho PCB). Jorge Amado chegou a ser eleito deputado federal pelo "Partidão" em 1945. Nessa época, escrevia coisas sob encomenda, como tarefa ditada pela direção do partido, que o via como um bom relações-públicas. Somente despertaria do delírio totalitário e largaria a canoa furada do comunismo depois de 1956, com a revelação dos crimes de Stálin por Krushev. Antes, escreveu essa sua contribuição à criação do culto da personalidade de Prestes, o frustrado (e extremamente incompetente) Stálin tupiniquim.
 
 
- Geografia da Fome, Josué de Castro  (1946) - Não é exatamente um livro ruim (traz algumas informações importantes sobre um tema que era até então pouco estudado), mas merece estar na lista pelo uso que dele fizeram os esquerdistas, sobretudo o PT, que o transformou numa espécie de justificativa intelectual para programas inócuos e demagógicos como o finado "Fome Zero" (alguém lembra?) e o "Bolsa-Família", o maior programa de compra de votos do mundo. O autor, funcionário da ONU, entrou para o panteão de heróis da esquerda não tanto pelo que escreveu (poucos leram seus livros, como o clássico Geopolítica da Fome), mas por ter proporcionado um tema a ser explorado por demagogos e populistas de plantão. De qualquer modo, o assunto está um tanto quanto desatualizado: no Brasil de hoje, o maior problema dos pobres não é a fome, mas a obesidade - culpa, em parte, do agronegócio, tão demonizado pela esquerda. 
 

- O Mundo da Paz, Jorge Amado (1951) - Livro tão ruim que o próprio autor mandou retirar de sua lista de obras completas, por pura vergonha de tê-lo escrito. Seguindo a trilha do "realismo socialista", presente em sua biografia de Prestes e em sua trilogia stalinista Os Subterrâneos da Liberdade (1954), o baiano comete aqui um dos elogios mais grotescos e acríticos das ditaduras comunistas do Leste Europeu, a começar pela ex-URSS e por seu então líder, o ditador Josef Stálin, que o autor enaltece como o "guia, mestre e pai", o "maior gênio da humanidade" etc. Por coisas como essa, Jorge Amado, que se desfiliaria poucos anos depois do PCB, foi galardoado com o prestigiadíssimo (para os comunistas) "Prêmio Stálin"... Sem comentários.


- O Mundo do Socialismo, Caio Prado Junior (1962) - Assim como O Mundo da Paz, trata-se de um elogio desbragado e idiota das ditaduras comunistas (sobretudo URSS e China), que o autor, um dos principais ideólogos comunistas brasileiros, via como exemplos não somente de eficiência técnica e justiça social, mas também de democracia (!!!). Explicitamente panfletário, assim como seu URSS: Um Novo Mundo (1934), chega ao ponto de transcrever trechos de resoluções de congressos do Partido Comunista da União Soviética, a fim de provar que a terra do Gulag e do KGB era o paraíso na Terra...  Um modelo de propaganda ideológica e de desonestidade intelectual que seria seguido por bajuladores de ditaduras comunistas como a de Cuba.


- A Revolução Brasileira, Caio Prado Junior (1966) - Considerada uma das obras mais importantes do autor, comunista oriundo de tradicionalíssima família da elite paulista, até hoje é debatida nos círculos de esquerda. Causou furor em seu tempo, pois contrariava a tese então dominante no PCB, da existência de "restos feudais" no Brasil que deveriam ser varridos por uma revolução em duas etapas, "democrático-burguesa" etc., defendendo, em vez disso, que o Brasil já era capitalista. Por incrível que pareça, foi preciso um comunista escrever um livro para que a esquerda brasileira descobrisse esse fato óbvio.


- Minimanual do Guerrilheiro Urbano, Carlos Mariguella (1969) - Como o nome indica, trata-se de um "minimanual", escrito de forma pedagógica e de afogadilho pelo ex-deputado comunista e líder terrorista sobre as melhores técnicas para matar, emboscar, sequestrar, assaltar bancos etc. Adotado por grupos terroristas internacionais como as Brigadas Vermelhas italianas e o Baader-Meinhof alemão-ocidental (e também por bandidos comuns), virou uma espécie de obra "cult" entre os círculos radicaloides de extrema esquerda nos anos 70, mais como um símbolo do que pelos ensinamentos nele contidos, totalmente irreais (Mariguella acreditava que o guerrilheiro deveria ser um super-homem, por exemplo: deveria saber pilotar aviões, conhecer criptografia etc.). O próprio autor provou a inocuidade de suas ideias, ao ser morto numa emboscada policial em São Paulo - uma morte previsível para quem defendia a emboscada como método de luta política. 

  
- Dependência e Desenvolvimento na América Latina, Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto (1969) - Seus detratores petistas não gostam de lembrar, mas o "neoliberal" FHC sempre foi um intelectual de esquerda. Nesse livro, considerado sua magnus opus, o sociólogo defende aquela que seria uma das principais taras ideológicas da esquerda latino-americana na segunda metade do século XX: a chamada "teoria da dependência", de matriz leninista, segundo a qual a pobreza de um país é determinada pela "exploração imperialista" e pelas "perdas internacionais", como se o comércio entre países fosse um jogo de soma zero. Justifica em cada linha o conselho atribuído a FHC quando na Presidência da República: "esqueçam o que escrevi". É o único livro escrito por autor brasileiro (em co-autoria com o sociólogo chileno Enzo Faletto) que consta da lista de "Os Dez Livros que mais Comoveram o Perfeito Idiota Latino-Americano".


- Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire (1974) - Obra que marcou gerações de professores e estudantes no Brasil, é a Bíblia dos pedagogos brasileiros. Basicamente, é um panfleto de auto-ajuda marxista embalado numa linguagem de sistema pedagógico, introduzindo conceitos como "luta de classes", "revolução" e "classe operária" na sala de aula. Seu "método" de alfabetização de adultos baseado em Marx foi adotado pelo sistema de educação brasileiro nas últimas cinco décadas. Não surpreende, portanto, que não se conheça, até hoje, o nome de nenhuma pessoa que foi alfabetizada por seu "método" revolucionário. Tampouco surpreende que o Brasil esteja em penúltimo lugar no ranking mundial de educação.  Mesmo assim, o autor foi endeusado até o limite do possível, tendo sido escolhido postumamente, em 2012, o "patrono da pedagogia nacional" pelo governo petista de Dilma Rousseff. Faz sentido. 
 

- A Ilha, Fernando Morais (1976) - Reportagem que, se teve o mérito de romper o isolamento informativo sobre Cuba, vigente no Brasil desde 1964, serviu para divulgar a lenda da ilha comunista como um paraíso dos trabalhadores. O autor ficou rico escrevendo (favoralmente) sobre o comunismo, como em Olga (1985), o que lhe rendeu, além de uma gorda conta bancária, um mandato de deputado pelo PMDB de Orestes Quércia, um dos políticos mais corruptos do Brasil em todos os tempos. Atualmente, é lulista e amigo do peito de José Dirceu e companhia. 

 
- Da Guerrilha ao Socialismo: a Revolução Cubana, Florestan Fernandes (1979) - Série de apostilas transformadas em livro por um dos maiores ideólogos esquerdistas do Brasil, considerado "o pai da sociologia brasileira". Ajudou a consolidar o mito do regime castrista humanista e democrático, que prende, tortura e mata, mas o faz em nome da humanidade.

 
- Genocídio Americano: a Guerra do Paraguai, Julio José Chiavenato (1979) - Obra que pretendeu ser uma "denúncia" da Guerra do Paraguai (1864-1870), a qual mostra como um massacre ("genocídio") em que Brasil, Argentina e Uruguai, seguindo ordens do imperialismo da Inglaterra, destruíram o Paraguai, que teria pago em sangue por ser um país supostamente próspero e independente. Tal mito, divulgado pela esquerda durante décadas, foi totalmente desmentido por pesquisas posteriores. Desde então, está desmoralizado como obra histórica séria. 
 
 
Igreja: Carisma e Poder, Leonardo Boff (1984) - Livro que, inspirado na radicalização à esquerda de parte do clero na América Latina depois do Concílio Vaticano II (1962-65), é uma das referências da autoproclamada "teologia da libertação", tentativa herética oportunista de infiltrar o marxismo na Igreja Católica que teve bastante influência nos anos 70 e 80, principalmente no campo. Leonardo Boff, um de seus principais ideólogos, foi condenado em boa hora ao silêncio obsequioso pelo Papa João Paulo II em 1985 e, vendo que não poderia transformar o Vaticano numa Comunidade Eclesial de Base (CEB), num sindicato ou numa filial do PT, desligou-se da Igreja, trocando-a por Fidel Castro. Continua assessorando os dirigentes petistas, tendo-se reinventado, desde então, como autor de livros de auto-ajuda e guru ecológico. 

 
- Brasil: Nunca Mais, Arquidiocese de São Paulo (1985) - Embora importante como registro histórico e denúncia das violações dos direitos humanos pela ditadura militar, peca por não se referir, em nenhum momento, aos crimes da esquerda armada. Serviu, assim, como uma luva para os propósitos revanchistas dos que querem reescrever a História às custas dos cofres públicos.
 

- Fidel e a Religião, Frei Betto (1985) - Monólogo em forma de entrevista do ditador mais amado da esquerda brasileira, por um dos expoentes da "teologia da libertação", um frei dominicano que se autointitula "irmão em Cristo e em Castro" (sic). Um monumento à sabujice e à devoção sem limites a tiranos assassinos.


- Convite à Filosofia, de Marilena Chauí (1994) - Livro didático que, assim como O Que é ideologia?, da mesma autora, deseducou uma geração inteira de estudantes brasileiros do ensino médio. É uma espécie de bê-á-bá do pensamento marxista disfarçado de manual filosófico. A autora, verdadeira musa intelectual do PT, já chegou a dizer que, quando Lula fala, o mundo se ilumina. Em compensação, odeia a classe média.
 

- O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro (1995) - Último livro de Darcy Ribeiro, antropólogo que começou no PCB, foi ministro da Casa Civil de João Goulart e ficou famoso pela criação da UnB e por sua associação com o caudilho Leonel Brizola nos anos 80, quando defendia a beleza e funcionalidade das favelas, "a verdadeira habitação brasileira". Síntese das teorias populistas do "socialismo moreno" brizolista, parte da ideia de que o Brasil, devido a características raciais únicas, seria uma "nova civilização", superior a todas as outras (sobretudo aos EUA, dos quais o autor negava qualquer contribuição cultural significativa). Uma das fontes da "cultura da periferia" que hoje infesta as rádios e tevês do país. 
 
 
- Formação do Império Americano, Moniz Bandeira (2005) - Versão antiamericana da formação dos EUA, por um expoente do antiamericanismo verde-amarelo. Descreve a ascensão do Gigante do Norte como uma marcha ininterrupta de saque e guerras por um vilão da política internacional, e os demais países, como vítimas passivas do "imperialismo ianque". Basta citar que coloca no mesmo patamar o presidente Franklin Roosevelt e o ditador Adolf Hitler. Precisa dizer mais? (P.S.: Virou leitura obrigatória no Itamaraty.)
 
Menções honrosas:


- Lula, o Filho do Brasil, Denise Paraná (2003) - Hagiografia do ex-sindicalista e principal beneficiário do Mensalão. Uma ode ao operário filho de uma mulher que nasceu analfabeta. Virou filme, o fracasso mais caro já feito no Brasil. Assim como o governo do personagem em questão, o mais corrupto da História do Brasil.
 

- A Vida quer é Coragem, de Ricardo Batista Amaral (2011) - Na trilha do Chefe, o Poste também ganhou uma biografia elogiosa. Metade relato dos anos de "formação política" como militante de organizações terroristas nos "anos de chumbo" da ditadura militar, metade narrativa da campanha presidencial de 2010, tenta vender a ideia da "presidenta" ultra-preparada e competente, que doou generosamente a juventude pela luta "por um Brasil melhor" etc. O título é uma pérola de ironia involuntária.
 

- Os Últimos Soldados da Guerra Fria, Fernando Morais (2011) - Elogio da deduragem em forma de thriller político. Veja aqui: http://gustavo-livrexpressao.blogspot.gr/search?q=elogio+da+deduragem
 

- Todos os de Emir Sader: Infelizmente não foi possível selecionar nenhuma obra desse autor. Qualquer livro dele merece constar de qualquer lista de piores, no Brasil ou alhures.

segunda-feira, maio 28, 2012

SUGESTÃO DE LEITURA

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Para quem não tem medo de mudar de idéia (ou seja: para quem não tem medo de pensar).

Fica a dica.

terça-feira, fevereiro 14, 2012

O LIVRO QUE PRECISA SER ESCRITO

E aí, "jornalistas" a soldo do cleptolulopetismo, quem se habilita?

Uma pequena resposta a um panfleto mentiroso, escrito por um farsante, que está circulando na praça.


sábado, dezembro 17, 2011

CHRISTOPHER HITCHENS, A MORTE DE UM INTELECTUAL "DO CONTRA"

Corria o ano de 2003, poucos meses após a derrubada do ditador Saddam Hussein pelas forças da coalizão anglo-americana, quando foram divulgadas fotos mostrando soldados dos EUA claramente abusando de prisioneiros iraquianos. Em imagens chocantes, presos eram mostrados amontoados, nus, cobertos de fezes, encapuzados, ameaçados por cães e em poses obscenas, enquanto sorridentes carcereiros, entre os quais uma jovem franzina de 21 anos de idade, pareciam divertir-se como se estivessem num churrasco. Logo o local dos abusos, a prisão de Abu Ghraib, viraria sinônimo, na imprensa mundial, de tortura e arbitrariedade.

Em meio à onda de revolta geral que se seguiu à publicação das fotos, a opinião que mais se ouviu foi que Abu Ghraib deitava por terra, definitivamente, a justificativa de que a guerra era necessária para derrubar uma tirania e instalar, em seu lugar, a democracia. Como demonstrava o escândalo, os americanos seriam iguais a Saddam etc. e tal.

Foi então que, no meio do clamor universal de condenação aos EUA, um escritor e jornalista britânico, com longos anos de militância na esquerda e conhecido por sua defesa intransigente dos direitos humanos - escrevera um livro com duros ataques ao ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger, que considerava um criminoso de guerra - publicou um artigo em que, destoando radicalmente da onda mundial anti-EUA, ousava afirmar que, desde a invasão do Iraque e a queda do regime tirânico de Saddam, o respeito aos direitos humanos dos prisioneiros em Abu Ghraib aumentara drasticamente.

Como assim?, perguntaram-se muitos, atônitos. Simples, meus caros, prosseguia o autor do artigo: após a guerra, os americanos compraziam-se em humilhar e expor os prisioneiros em cenas degradantes; na época de Saddam, nenhum desses presos sairia vivo da prisão.

Em outras palavras: Abu Ghraib era agora um centro de torturas; antes, era um matadouro humano. Além do mais, os soldados americanos que aparecem nas fotos judiando dos presos que deveriam guardar responderam a processos e foram condenados, algo impensável na época de Saddam. Alguém poderia negar que houvera uma evolução?

Quem era esse escritor, jornalista e crítico literário que ousou desafiar assim um consenso mundial, do qual faziam parte a totalidade da esquerda, o New York Times, ONGs, a "Velha Europa", o papa etc.?

Seu nome era Christopher Hitchens.

No último dia 15, Hitchens, inglês de nascimento, morreu de câncer, aos 62 anos, nos EUA, país que (para horror de muitos de seus críticos) adotara como seu há alguns anos. Uma perda irreparável para todos aqueles que prezam a lucidez e o bom senso, pontuado por generosas doses de polêmica, que eram sua marca registrada.

Hitchens foi um dos poucos, praticamente o único public intellectual, ou intelectual público - figura absolutamente inexistente no Brasil, onde predominam os palpiteiros ou os ideólogos de quinta categoria do tipo emir sáder e frei betto - a não fazer coro com os que condenaram de antemão a intervenção anglo-americana no Iraque em 2003.

Na ocasião, ele defendeu ardentemente a mudança de regime em Bagdá como um imperativo da democracia e dos direitos humanos em face de um tirano sanguinário, que tinha em sua ficha corrida duas guerras e milhares de mortes em décadas de terror absoluto.

Por causa disso, ele, Hitchens, apanhou um bocado de seus pares, que pareceram não se importar com a contradição de falarem em nome da humanidade e, ao mesmo tempo, defenderem a permanência no poder de um facínora como Saddam. Hitchens, ao contrário deles, pode ser acusado de muitas coisas, menos de falta de coerência.

Poucos escritores de nossa época conseguiram revelar, com tanta verve e com tanta ênfase, a idiotia do antiamericanismo, sua completa miopia política e moral, que leva autoproclamados defensores da liberdade a se colocarem como escudo entre os EUA e regimes fascistas regidos por tiranos homicidas.

Raros são os intelectuais que, assim como Hitchens, desafiaram consensos fabricados em nome de princípios, não dando a mínima para a opinião do rebanho e para convencionalismos politicamente corretos. O fato de ser George W. Bush o presidente dos EUA não o deixou cego para o caráter realmente demoníaco (embora ele, Hitchens, fosse ateu) da ditadura de Saddam.

Tenho em Christopher Hitchens uma de minhas referências. Nem tanto por suas idéias, que quase nada tinham de originais (era um divulgador, não um filósofo). Mas, acima de tudo, por sua atitude de rebeldia intelectual, baseada no confronto da maioria e no pensar com a própria cabeça.

Como polemista, ele era nada menos do que brilhante. Com a mesma lógica implacável com que defendia a derrubada de Saddam (cujo regime totalitário, ao contrário de muitos que se opuseram à guerra, ele conheceu de perto nos anos 70), Hitchens ajudou a demolir mitos como Madre Teresa de Calcutá e, em livros magistrais como A vitória de Orwell e Carta a um jovem contestador, firmar posição em defesa dos ideais democráticos. Era, enfim, um intelectual sem peias ideológicas, um espírito livre lutando pela liberdade - um verdadeiro "do contra".

Hitchens era ateu, e um cínico veria em sua morte prematura uma espécie de castigo divino (o que só reforçaria, desconfio, seu ateísmo - para quê um deus que fulmina os que não se curvam perante Ele?). Ninguém tentou, assim como no caso de Voltaire, chamar um padre. Sabiam que seria inútil. (Li que, em seu leito de morte, em estado terminal de câncer, ele queria falar de literatura.)

Honestamente, porém, acho essa característica de Hitchens - seu ateísmo - a menos interessante de suas qualidades. Muitos conhecem sua obra principalmente por causa do livro Deus não é grande que, juntamente com outras obras de autores como Richard Dawkins, Daniel Dennet e Sam Harris, tornou-se um best-seller da literatura ateísta que, de uns anos para cá, virou moda.

Pessoalmente, acho esse seu livro mais fraco, embora a premissa por trás dele seja interessante - em um momento em que se vê a ascensão de movimentos fanáticos e do fundamentalismo religioso, que atingiu o auge em 11 de setembro de 2001, um autor atrevido vem e ousa afirmar, com todas as letras que não, Deus não é grande, e que é melhor e mais saudável (mental e fisicamente) viver sem essa invenção de padres, rabinos e mulás...

Como polêmica, o livro é certamente eficaz, mas é raso filosoficamente, concentrando-se nos aspectos exteriores da religião, particularmente na forma como leva pessoas em outras circunstâncias boas e sensatas a cometer toda sorte de loucuras e insanidades em nome da fé. Além do mais, Hitchens ignorava que a militância ateísta e anti-religiosa pode ser um instrumento para tolher a liberdade, como demonstram as ex-repúblicas comunistas e alguns "movimentos" atuais, que, em nome dos direitos de minorias, pretendem calar a maioria que reza (sim, estou me referindo aos talibãs do gayzismo e assemelhados). Prefiro o Hitchens ácido polemista político, inimigo declarado dos chavões e lugares-comuns esquerdistas que, por ter partilhado um dia, conhecia tão bem e demolia com tanta competência.

Tais fatos à parte, o mundo perde com a morte de Christopher Hitchens. Perde em inteligência, perspicácia, incredulidade, inconformismo e, acima de tudo, em espírito crítico e independência intelectual. E fica, infelizmente, um pouco mais parecido com o Brasil de hoje.

sexta-feira, setembro 02, 2011

O ELOGIO DA DEDURAGEM

Perigosos terroristas e mercenários de extrema direita financiados pela CIA, segundo Fernando Morais


Acabou de sair, pela Companhia das Letras, o novo livro do badaladíssimo Fernando Morais, Os Últimos Soldados da Guerra Fria. Segundo a sinopse que li num site, o livro narra a história de uma rede de espiões a serviço da ditadura comunista cubana infiltrados em grupos de exilados anticastristas nos EUA durante os anos 90 - uma história que, por si só, vale a pena ser lida.

Ainda não comprei o livro, mas, pelo que andei vendo e lendo na internet, já posso fazer uma idéia do que se trata. Principalmente de quem são os "heróis" e os "bandidos" dessa história, segundo Morais. E já posso adiantar que, pelo menos quanto a um dos lados, a coisa cheira a engodo, a falsidade, a mistificação.

Se depender do autor de Chatô e Corações Sujos, pode-se facilmente deduzir que o livro pode até ser boa leitura, cheio de revelações saborosas e lances cinematográficos, mas dificilmente o leitor terá em mãos uma obra jornalística que possa ser chamada, por mínimo que seja, de isenta ou imparcial. Muito pelo contrário.

Conhecido chavista e castrista, assim como o famoso guerrilheiro de festim e mensaleiro José Dirceu (de quem, aliás, falava-se até um dia desses que estaria planejando uma biografia), Fernando Morais pode ser qualquer coisa, menos um escritor "neutro". Ainda mais em se tratando de regimes como o dos irmãos Castro, a ditadura mais longeva do Ocidente, por quem nutre uma indisfarçável admiração a ponto da tietagem explícita (como quase toda a esquerda tupiniquim, diga-se). Morais já tratou do tema antes, em um livro publicado em 1976 - A Ilha - que, se teve o mérito de ser a primeira obra escrita por um autor brasileiro sobre Cuba em muitos anos, em pleno governo militar do general Geisel, traz o estigma indelével de ter ajudado a construir a mitologia esquerdóide sobre a tirania castrista, uma velha tara da esquerdopatia latino-americana. Mais tarde, ele daria outra contribuição valiosa à hagiografia esquerdista nacional, em sua biografia da agente comunista alemã (era espiã do serviço secreto militar soviético) Olga Benario - que virou um péssimo filme, por sinal. Assim como em A Ilha Morais pinta a ditadura cubana com tintas benévolas e virtuosas (como se uma ditadura benévola e virtuosa fosse algo possível), em Olga, ele mostra a primeira mulher de Luiz Carlos Prestes como uma heroína e mártir da esquerda revolucionária dos anos 30 etc. e tal. Só faltou cantar a Internacional ao ritmo de salsa.

Em Os Últimos Soldados da Guerra Fria, pelo visto, Morais segue o mesmo figurino esquerdista consagrado em seus outros best-sellers. Basta ver como ele se refere, em todas as entrevistas que concedeu até agora sobre o livro, aos alvos da espionagem cubana nos EUA - os membros da comunidade exilada na Flórida. "Desertores", "traidores", "terroristas", "mercenários" e "milícias de extrema direita" são os adjetivos que ele usa para definir os exilados (só faltou o gusanos - "vermes" -, que é a maneira habitual como a propaganda oficial cubana se refere aos inimigos da tirania). A missão dos agentes cubanos a serviço de Fidel Castro infiltrados entre eles seria, assim, "evitar ataques terroristas contra Cuba" (127 em cinco anos, segundo contabilidade de Morais, que não diz quantos morreram nesses ataques). Até ser desmantelada, com a prisão de vários desses espiões pelo FBI em 1998, essa operação, chamada de Rede Vespa, teria sido responsável por impedir "dezenas de atos terroristas" etc.

Não ponho em dúvida que, entre os cerca de 2 milhões de cubanos exilados nos EUA desde que em 1959 Fidel e Raúl Castro tomaram o poder e instalaram uma ditadura comunista na ilha caribenha, haja grupos de extrema direita e mesmo terroristas. Certamente, eles existem, e já cometeram atentados (alguns deles, como Orlando Bosch e Luís Posada Carriles, contra vítimas civis). Mas uma coisa é admitir esse fato; outra coisa é enaltecer o trabalho de espionagem de uma tirania contra exilados em um país estrangeiro. E parece que é exatamente isso o que Fernando Morais faz em seu novo livro.

Fico pensando como seria recebido um livro que elogiasse, por exemplo, a Operação Condor, a cooperação clandestina entre as ditaduras militares do Cone Sul da América Latina contra seus inimigos exilados nos anos 70. O autor de semelhante peça seria execrado (com razão) como um crápula e um canalha, e coberto com os piores adjetivos. Entre os alvos visados pelos serviços secretos militares estavam grupos terroristas de extrema esquerda que praticavam atentados, alguns dos quais, como os Montoneros argentinos e o MIR chileno, estavam organizados na Junta de Coordenação Revolucionária (JCR, uma espécie de precursora do Foro de São Paulo). E não há, pelo menos na vasta bibliografia de esquerda, nenhuma obra que os chame de mercenários e terroristas. Gostaria que alguém me explicasse por que isso só vale para os cubanos de Miami. Assim como adoraria saber por que nenhuma dessas obras chama abertamente o que existe em Cuba de ditadura. Muito agradeceria também se me explicassem por que os policiais e militares que participaram da Condor são execrados, enquanto que os espiões cubanos presos nos EUA são louvados como heróis em Cuba.

"Alto lá, seu agente do imperialismo ianque! A Operação Condor matou vários exilados; seu objetivo era liquidar fisicamente os opositores das ditaduras militares no exílio, ao contrário da Rede Vespa" etc. - poderia gritar o patrulheiro esquerdista, erguendo sua carteirinha de militante. Pois bem, companheiro! Tenho aqui duas questões a fazer: 1) se o objetivo da rede de espiões cubanos na Flórida era "evitar atos terroristas", como diz Morais, como eles fariam isso? Certamente, não seria pelo convencimento, mas pela eliminação física (sequestro, assassinato ou o que seja) dos terroristas - ou seja: exatamente o que fazia a DINA chilena do general Pinochet; e 2) em 1996, Fidel Castro ordenou o afundamento de uma balsa com dezenas de refugiados cubanos que tentavam escapar da ilha-prisão. Várias pessoas morreram. Eram todas terroristas?

No mesmo ano de 1996, no auge da "guerra secreta" contra os "mercenários" anticastristas descrita por Morais, o Coma Andante deixou clara sua determinação de defender o povo cubano, mandando derrubar um avião do grupo de exilados Hermanos al Rescate, que havia penetrado o espaço aéreo cubano. O que o levou a tomar essa decisão tão patriótica? O avião - vejam vocês - estava atirando... panfletos! Uma terrível ameaça terrorista, como se vê. (Para não falar dos cerca de 17 mil fuzilados desde 59, como os três pobres-diabos executados em 2003 por tentarem fugir do país, assim como centenas de presos politicos e as Damas de Blanco... todos perigosíssimos bandidos contrarrevolucionários, claro.)

Posso estar enganado, mas desconfio que esses fatos ficaram de fora da narrativa de Fernando Morais ou, se foram mencionados, o são de forma superficial, ou mesmo como uma justificativa para os atos da ditadura cubana. Se for esse o caso, fica a pergunta: por que não justificar também os crimes da Operação Condor? Quem sabe Fernando Morais, com seus inegáveis talento literário e veia investigativa, resolva um dia escrever um livro sobre isso. Mas aí acho que já estou sonhando alto demais...

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Ainda SaraMAGO, o mago do "comunismo hormonal"...


Ah sim, no "debate" de alguns dias atrás da Folha de S. Paulo, citado em meu último post, o grande humanista José Saramago também deitou falação sobre o tal acordo ortográfico, ratificado pelo Apedeuta algum tempo atrás. Disse o mago do "comunismo hormonal":

"Em princípio, não me parecia necessário. De toda forma, continuaríamos a nos entender. O que me fez mudar de opinião foi a idéia de que, se o português quer ganhar influência no mundo, tem de adotar uma grafia única. Se Portugal tivesse 140 milhões de habitantes, provavelmente teríamos imposto ao Brasil a nossa grafia. Acontece que os 140 milhões estão no Brasil, e o Brasil tem mais presença internacional. Perderíamos muito com a idéia de que o português é nosso, nós o tornaríamos uma língua que ninguém fala. Quando acabou o "ph", não consta que tenha havido uma revolução."

Saramago é a favor do acordo ortográfico. Eu sou contra. Ele está certo, claro, porque é um Prêmio Nobel, e eu sou um joão-ninguém. Mesmo assim, não posso deixar de estranhar mais essa pérola do filósofo de Lanzarote.

Em primeiro lugar, se o objetivo da estrovenga é facilitar o nosso entendimento, e, com ou sem o referido acordo, continuaríamos a nos entender do mesmo jeito, então qual a utilidade do mesmo? Difícil entender. Mais difícil ainda é compreender a lógica por trás da afirmação de Saramago, de que, para obter influência no mundo, o português teria que adotar grafia única. Primeiro, porque não me consta que é por meio de acordos e penadas do tipo que um idioma irá aumentar sua influência mundial (caso isso ocorra com o português, será um caso inédito na História). Segundo, porque o inglês não tem grafia única nos dois lados do Atlântico - veja a grafia de "harbor" e "harbour", por exemplo -, e isso não o impediu de ser a língua dominante nos negócios. Terceiro, se o critério para unificar a grafia devesse ser o número de habitantes por país, como sugere Saramago, o padrão lingüístico deveria ser o vigente no Brasil, que tem mais habitantes do que qualquer outro país lusófono. Ou seja: em vez de "voo" ou de "leem", como querem obrigar-nos todos a escrever a partir de agora, deveria ser adotado o "vôo" e o "lêem", tal qual se usa no Brasil. Quarto, e finalmente, não são 140, mas 190 milhões de habitantes...

O acordo é uma bobagem, uma inutilidade que só vai empobrecer, e não enriquecer, a língua de Camões. Com ele, o colorido das diferenças dará lugar ao artificialismo de uma decisão burocrática. Além disso, com ou sem o acordo, continuaremos a escrever e a falar errado - apenas precisaremos adaptar nossos erros às novas regras. Muito mais útil do que mudar as regras me parece seria simplesmente melhorar o nível do ensino de Português nas escolas (veja a imagem acima). Mas isso dá trabalho, é mais fácil "unificar" tudo apondo uma assinatura num pedaço de papel... Enfim, trata-se de uma tolice enorme, quase tão monumental quanto a egolatria de Saramago. Mas nada disso importa, pois Saramago é um Nobel e é um gênio, e sua palavra tem força de Lei. Falar mal dele, e do acordo ortográfico, é coisa de gente "do contra" como eu.

terça-feira, dezembro 02, 2008

SARAMAGO, O COMUNISTA HORMONAL


José Saramago é, como todos sabem, o maior nome atual das Letras Portuguesas. Mesmo assim, vou pedir licença e falar mal desse monumento. Mais uma vez, vou cometer esse sacrilégio. Quem sou eu para desancar Saramago? Eu não sou ninguém, claro. Não sou nada. Saramago, por sua vez, é tudo. Afinal, ele é, como Oscar Niemeyer, uma figura venerável, acima do bem e do mal, e, como tal, se acha no direito de dizer qualquer coisa e será certamente ouvido - e levado a sério. Além de tudo, é um Prêmio Nobel. Um gênio. Já eu, bem... sou apenas um blogueiro, e o que digo deve fazer alguma diferença, talvez, para a meia dúzia de abnegados que me lêem. Mas vamos lá, na humildade.

Alguns dias atrás, Saramago esteve no Brasil, onde participou de um debate promovido pela Folha de S. Paulo. Bem, debate é maneira de dizer. Saramago, na verdade, fez um comício. Figuras como ele, totêmicas, não debatem: simplesmente falam. E ponto. Saramago falou pouco de Literatura, como é de seu feitio, e muito de política. Resumidamente, o sábio de Lanzarote repisou para uma platéia atenta e embevecida de mais de 300 pessoas suas teses favoritas: "a história da humanidade é um desastre", começou sua arenga, e "não merecemos a vida", ponderou, pessimista. Repetiu para si mesmo que "Marx nunca teve tanta razão quanto agora", ao se referir à atual crise econômica mundial. Em dado momento, ele deu uma definição de si mesmo e de sua opção ideológica - como direi? - bastante lírica: "Sou aquilo que se pode chamar de comunista hormonal. O que isso quer dizer? Assim como tenho no corpo um hormônio que me faz crescer a barba, há outro que me obriga a ser comunista." Ao final de sua palestra, uma integrante da platéia, demonstrando todo seu senso crítico e pretendendo falar em meu nome, gritou bem alto, enquanto Saramago terminava de falar: "Em nome de todos os brasileiros, obrigada por existir".

Tenho algo em comum com Saramago: também acho que a humanidade não merece viver. Mas, ao contrário do gênio, sou bem mais modesto em minhas intenções assassinas. Para mim, apenas uma parte da humanidade, uma parte ínfima aliás, deveria partir desta para melhor (ou pior). Refiro-me aos tiranos e genocidas - gente como Stálin, Mao Tsé-tung e Fidel Castro, que, assim como Saramago, acreditavam/acreditam que a humanidade também não presta e trataram de exterminar todos aqueles que não lhes agradavam. Uns 70 milhões, no caso de Mao, mais uns 35 milhões no de Stálin, e uns 95 mil no de Fidel. Assim como Saramago, esses líderes compartilhavam/compartilham do credo comunista. E, assim como Saramago, eles se excluíam/excluem da humanidade que querem despachar para o túmulo. Afinal, como diria Sartre, o inferno são os outros.

Saramago faz a apologia da morte. A apologia do genocídio, da destruição física de milhões de seres humanos. Mas e daí? Ele é um grande humanista. Truculento e insensível, claro, é quem o critica. Como este que escreve estas linhas.

Mas a parte de que eu mais gostei da palestra de Saramago foi sua confissão de que é um "comunista hormonal". Ele confirmou, assim, aquilo de que eu já suspeitava há tempos: o comunismo é mesmo uma doença. Um distúrbio dos hormônios, segundo o grande escritor. Deve ser mesmo. Somente uma alteração hormonal, ou genética, poderia produzir delírios como o "homem novo" ou a "ditadura do proletariado", que só geraram opressão e morte em escala industrial. Um hormônio que obriga pessoas aparentemente racionais a ser comunista, assim como faz crescer a barba, só pode ser um defeito congênito, uma aberração da natureza. Um amigo meu - aliás, simpatizante esquerdista - certa vez usou a expressão "socialista hormonal" para se referir à manada de revolucionários juvenis que pululam nas escolas e universidades e no que se convencionou chamar de "movimento estudantil". Gostei na hora da expressão, e a adotei. Já tendo sido eu mesmo um desses idiotas - felizmente, curado a tempo -, sei bem a influência dos hormônios na cabecinha de um adolescente entediado e com raiva do mundo. O esquerdismo, como já disse, é uma doença infantil, um sarampo ou uma catapora. O que causa estranheza são senhores de idade provecta vomitando essas sandices - e sendo aplaudidos por isso.

Vejam bem, não estou falando do Saramago literato, do Saramago escritor - sua literatura, aliás, com seus períodos longuíssimos sem vírgulas nem parágrafos, me diz muito pouco, quase tão pouco quanto os livros de Paulo Coelho, embora reconheça seu mérito literário em relação a este último. Estou falando do Saramago ideólogo, ou, mais precisamente, da persona política que Saramago criou para si próprio. Um misto de profeta apocalíptico e defensor empedernido do stalinismo, sempre pronto a espezinhar o "sistema" quando tem oportunidade, ao mesmo tempo em que fecha os olhos, voluntariamente, para os piores crimes já cometidos contra a humanidade. Não por acaso, atrevo-me a dizer, um de seus livros mais conhecidos se chama, exatamente, Ensaio sobre a cegueira... Já o título de outro livro seu, Ensaio sobre a lucidez, não parece muito adequado para definir o autor.

Além de comunista, Saramago é ateu. É outra coisa que temos em comum. No entanto, ao contrário do sábio português, não pretendo substituir o Todo-Poderoso por tiranos, ou por mim mesmo. Os marxistas, como Saramago, passaram décadas bombardeando os ouvidos alheios com a frase de que a religião é o ópio do povo. Melhor fez Raymond Aron, ao chamar o marxismo de o "ópio dos intelectuais". Saramago, com seu comunismo glandular, que o diga.
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Saramago é um gênio, um medalhão, um peito galardoado. Como tal, acostumamo-nos a enxergá-lo com o temor e a reverência próprios de devotos. Qualquer crítica que lhe for dirigida toma, assim, ares de blasfêmia, de crime de lesa-divindade. É mais um sintoma de nosso atraso intelectual, de nossa estupidez, de nossa babaquice sem limites.

terça-feira, outubro 28, 2008

JOSÉ SARAMAGO, OU ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA... DO ESCRITOR!


José Saramago é o maior nome atual das Letras Portuguesas. É o único falante da língua de Camões a ostentar um Prêmio Nobel de Literatura em sua sala de estar. Ele é uma dessas pessoas veneráveis, que se tornam ainda mais veneráveis diante da ignorância generalizada da maioria da população, mais ou menos como é, entre nós, um Oscar Niemeyer ou um Chico Buarque: um "sábio", enfim. Por isso, tudo que ele diz, mesmo que seja sobre a melhor maneira de fritar um ovo, ganha automaticamente, para muita gente, status de Dogma Revelado. Para essas pessoas, Saramago é um oráculo: sua palavra tem quase a força de Lei.

Ontem Saramago deu uma entrevista coletiva - claro sinal de que o personagem em questão é um VIP, pois só VIPs, como Saramago e Paris Hilton, dão entrevistas coletivas - sobre o lançamento do filme Ensaio sobre a Cegueira, do diretor brasileiro Fernando Meirelles, em Lisboa. Embora a entrevista fosse sobre o filme e o livro homônimo de Saramago que o inspirou, em certo momento o guru português deixou de lado a Literatura e enveredou por seu passatempo preferido: fustigar o capitalismo. Ao comentar a atual crise financeira que abala as bolsas de valores no mundo inteiro, Saramago, o arauto do anticapitalismo literário, saiu-se com a seguinte pérola: "Karl Marx nunca teve tanta razão como agora". Sobre o desbloqueio do dinheiro que está sendo efetuado agora para salvar o sistema financeiro, afirmou o ganhador do Nobel de Literatura de 1998: "Onde estava todo esse dinheiro? Estava muito bem guardado. Logo apareceu, de repente, para salvar o quê? Vidas? Não, os bancos". Acrescentou ainda, não se sabe se com tristeza ou com júbilo, que "as piores conseqüências ainda não se manifestaram".

Ah Saramago, Saramago... Desculpem a frase que já virou um hit, mas não consigo evitar: por que não te calas? Sempre que o escritor português fala em outra coisa que não Literatura (leia-se: Política ou Economia), quem fala não é o escritor, mas o ideólogo, o devoto de teses obsoletas e descartadas pela História. Nesse particular, diga-se, ele não está sozinho: para ficar apenas nos latino-americanos que também já levaram o Nobel, Pablo Neruda, por exemplo, era um stalinista de babar na gravata (como diria Nelson Rodrigues), e Gabriel García Márquez é um tiete de Fidel Castro (assim como Saramago, aliás um comunista empedernido que chegou a anunciar seu rompimento com a castradura cubana em 2003, depois que Fidel mandou fuzilar três pobres-coitados e prender 78 dissidentes, mas voltou atrás pouco depois, acometido de delirium totalitarium). Agora, com a crise das bolsas, o sábio lusitano aproveita para prestar sua reverência ao velho Marx.

É verdade que Marx previu, sim, as crises periódicas do capitalismo - que o próprio capitalismo, mediante a intervenção pontual (e não-permanente) no mercado trata de sanar -, mas daí a dizer que ele "estava certo", vai uma certa distância. A não ser que se considere o remédio prescrito por Marx para tais situações, assim como para todos os problemas da humanidade - a estatização completa dos meios de produção, a ditadura do proletariado - a saída mais racional para crises como a que estamos vivenciando. A História, essa mestra implácável, já tratou de mostrar que, nesse caso, o "remédio" é muito pior do que a doença. Mas para Saramago isso não importa. Afinal, nas ditaduras comunistas do Leste Europeu, como sabemos, não havia crises do mercado. Pelo simples motivo de que não havia mercado, ora! Alguém aí está disposto a seguir o conselho de Marx - e de Saramago - e cortar a cabeça para acabar com a enxaqueca?

Saramago é comunista. Talvez o último que sobrou, ao lado de Oscar Niemeyer. Isso significa que ele é um humanista, certo? Que é alguém que se preocupa com "vidas", como ele diz, e não com bancos (claro que não as vidas perdidas das cem milhões de pessoas que sentiram na pele - literalmente - todo o "humanismo" marxista na ex-URSS e na China de Mao, mas isso, como já disse acima, não importa). Enfim, um exemplar superior da espécie humana, como dizia aquele argentino barbudo que gostava de fuzilar pessoas e que virou estampa de camiseta... Daí essa sua indignação com o desbloqueio do dinheiro para salvar não "vidas", mas "bancos". Acho estranha essa fixação dos esquerdistas em separar a vida humana, o bem mais precioso, do que seria o pérfido sistema financeiro, dominado por tubarões, só interessados em dinheiro. Principalmente porque isso parece ir de encontro ao que o próprio Marx preconizava. Afinal, não foi ele quem defendeu, durante toda sua vida, que eram as condições materiais de existência que possibilitavam as condições espirituais, a própria vida humana, enfim? E a tal "ajuda aos bancos", tão condenada por Saramago, não visa justamente a impedir o colapso do sistema, que levaria consigo à ruína não dos gatos gordos do sistema financeiro - os "bancos", enfim -, mas de milhões de correntistas e pessoas comuns, que se veriam, caso os bancos quebrem, na rua da amargura? Em suma, não seriam as vidas dessas pessoas comuns, muitas sem dinheiro no banco, que estariam sendo resgatadas também? Que coisa cruel, o capitalismo, não é mesmo?

À certa altura da entrevista coletiva, Saramago foi indagado sobre o vínculo entre o tema de seu romance e a crise financeira. Ele respondeu: "sempre estamos mais ou menos cegos, sobretudo, para o fundamental". Ele sabe disso por experiência própria.