quarta-feira, março 12, 2008

Resposta a um leitor "viajante"- III

Nos últimos dias um leitor muito engraçado resolveu encasquetar comigo e com meu blog. Tudo começou quando eu tive a ousadia de retrucar um comentário dele, no qual o dito-cujo defende a ditadura de Fidel Castro em Cuba com argumentos, digamos, "acadêmicos" (eu ia escrever simiescos, mas eles falam por si mesmos). Não é que o sujeito parece que não quer desistir de ser desmoralizado? Como sou uma pessoa de coração mole, satisfaço mais uma vez sua vontade e sua carência de atenção, que talvez tenha um laivo masoquista.

Vamos lá. Ele vai em vermelho. Meus comentários em seguida:

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Sr. Bezerra,

O Senhor está no Céu.

A cada dia que passa o senhor se torna mais hilário! Colocar um macaco falando ao telefone (HA!HA!HA!) que engraçado!!! Presumo que o macaco seja eu. Que legal! Muito bom argumento! Excelentíssimo argumento!

A foto do macaco ao telefone (cujo nome, por sinal, é Bobo) não é argumento. É uma foto de um macaco ao telefone. Tem gente que não sabe a diferença. Vestiu a carapuça. Hehehe.
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A propósito, desta vez coloquei uma foto de um burro num retrato da Mona Lisa. Talvez o sujeito se reconheça nele também.
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Não preciso concordar com o Chico Buarque para discordar da posição do senhor Azevedo de usar xingamento como argumento. Não preciso xingar meu adversário para discordar da posição dele. Prefiro utilizar-me do dialogo do que a agressão verbal ou visual. Este método de Schopenhauer para mim já está mais do que ultrapassado...

Idiota moral não é xingamento. É constatação. Conhece outra expressão melhor para definir quem morre de amores por um ditador? Ou deveríamos nos render aqui à moda "politicamente correta" ("chamar o defensor de um tirano de idiota moral: ai, que horror...")? Assim como Reinaldo Azevedo, tenho aversão a essa filosofia de socialites. Prefiro ser sincero e chamar as coisas - e as pessoas - pelo nome.

Para mim, matar inocentes é matar inocentes, não existe outro termo. Esta história de morte acidental e morte intencional é conversa pra boi dormir. Se um país bombardeia o outro é óbvio que inocentes vão morrer e tais mortes são intencionais sim, apesar de que muitas vezes são escondidas pelos líderes bombardeiros.

Nesse caso, devemos acabar com qualquer distinção, em Direito Penal, entre dolo (com intenção) e culpa (sem intenção). Se é "conversa para boi dormir", então não deve haver qualquer distinção entre o Hamas e Israel, ou entre Bin Laden e "Jorgibúshi". Ou seja, entre o serial killer que mata indiscrimidamente pessoas inocentes e o policial que, na tentativa de detê-lo, mata acidentalmente um refém. Dizer que "é tudo a mesma coisa" (ou seja: que há equivalência moral entre um e outro) é uma das maiores provas de degeneração moral a que alguém pode chegar. Não é à toa que o nosso amigo cita, como luminares, os delinqüentes políticos contumazes Noam Chomsky e Tariq Ali. Que senso de justiça!

Ah, e para mim, apoiar ditadores é apoiar ditadores, viu? Com ou sem Platão.

Não concordo com as matanças do regime de Fidel Castro. Nunca disse isto, como se pode comprovar em todas as linhas que escrevi. Dizer que eu concordo com as mortes que aconteceram no regime de Fidel é pura interpretação da tua cabeça o que demonstra uma maneira esperta de deturpar as palavras que digo. Meus parabéns!

Tem certeza? Deixe-me refrescar sua memória.

Às 19h45 do dia 29/02/2008, nosso amigo escreveu o seguinte:

"O que pude perceber é que na defesa da liberdade, tal jornalista [Diogo Schelp, da Veja] peca por não permitir a liberdade de escolha de um país seguir um outro regime que não seja o capitalismo. Que liberdade é esta que tanto fala? Ora, dizer que o regime castrista matou pessoas é uma verdade, outra é não permitir que os cubanos sejam socialistas".

No mesmo post, à mesma hora e dia, ele escreveu também:

"Apesar dos problemas do presidente Lula, com uma frase dele eu devo concordar: “Esse negócio de a gente ficar aqui do Brasil dizendo que bom é assim ou assado, vamos deixar que os cubanos cuidem do que eles querem para a política e vamos cuidar do que queremos para o Brasil. O que complica é quando cada um começa a dar palpite nas coisas dos outros. Aí pode dar conflito. Os cubanos têm maturidade para resolver todos os problemas, sem precisar de ingerência brasileira ou americana” (Caderno especial do jornal O Globo: “O Comandante Sai de Cena” de 20 de fevereiro de 2008, p.5). Lula está certo: os cubanos têm maturidade para decidirem seu próprio caminho. [...] Quem disse que o melhor caminho para Cuba é a democracia e a economia de mercado? [...] Não quero aqui implantar o governo de Platão em Cuba, mas defendo que se Cuba assim o quiser deverá continuar sendo Socialista."

Traduzindo: o sujeito apóia e defende a ditadura castrista em Cuba, e inclusive cita o Apedeuta em pessoa para justificar essa sua posição, afirmando que a continuidade da tirania é assunto exclusivo dos cubanos, que têm a "liberdade de escolha" de serem ou não súditos de um regime totalitário. Regime este, é bom lembrar, que produziu uma pilha de 95 mil cadáveres em 49 anos de existência, com todas as liberdades abolidas. Uma pérola de lógica, certamente. É o mesmo que dizer que outras ditaduras igualmente totalitárias, como a de Hitler na Alemanha e a do Khmer Vermelho no Camboja, deveriam ser deixadas em paz, pois, afinal, era a "vontade do povo" ser escravizado e trucidado... E o sujeito ainda diz que "não concorda com as matanças de Fidel Castro"? (!). É esquecimento ou cara-de-pau mesmo?

Minha discussão é sobre Estado. É claro que os governantes se utilizam da força para governar. Qualquer líder necessita da força para governar. Como você bem lembrou Maquiavel disse isto. E antes dele Platão já havia feito. Mas a questão não é se os governantes se utilizam ou não da força, mas de que maneira. A Força, bem lembra Maquiavel deve ser utilizada com parcimônia, pois aqueles que abusam da força acabam derrubados por seus próprios súditos. Como exemplo disso ele demonstra no capítulo XIX vários Imperadores romanos que foram mortos por abusar do uso da força. O argumento certo de Maquiavel é que o governante se apóia em seu povo. Tal argumento foi posteriormente incorporado pelos liberais e modificado para “todo poder emana do povo”, como você disse. Não creio que Maquiavel fosse um liberal, portanto, não vejo problema em utilizá-lo para justificar um regime totalitário. Mesmo assim, NÃO foi isto que fiz ao citar Maquiavel. O que quis dizer (e você se esforçou para não entender) é que a um governante só pode se manter no poder se tiver o apoio do seu povo, pois não há como se manter no poder se for odiado pelo povo que governa. E o povo é representado pela sua maioria numérica e não pela minoria (2 é menor do que 11).

E a minha discussão é sobre a tirania de Fidel Castro. Não é sobre o Estado como um ente abstrato, como um ideal platônico ou mesmo maquiavélico. Já que o que você quis dizer é que um governante só pode se manter no poder se tiver o apoio de seu povo, então a dedução lógica é que Fidel Castro só está no poder desde 1959 porque o povo cubano o ama. Nesse caso, ainda espero uma resposta para a pergunta que eu fiz no post anterior: já ouviu falar nos CDRs, nas UMAPs, na G2 etc.?...

Você diz ter falado de Platão no texto anterior. Sim, eu verifiquei que você apenas citou-o junto de Stalin e Mao Tsé-Tung. Isso só reforça o teu desconhecimento do nome de Platão. Que tal discutirmos a proposta de Platão para o regime da polis que não seja a democracia? Não é porque ele não era a favor da democracia que ele era contra a liberdade. Isso é uma demonstração imatura sobre o assunto. Ou porque não discutimos a questão da areté no âmbito da polis e suas implicâncias sobre os cidadão que moram nesta. Ou podemos falar da autarquia e o kairós de cada cidadão de assumir seu lugar na polis. Ou ainda a diferença entre Estado de Justiça e Estado de Força. Ou da importância da dikaiosyne para a boa ordem da polis. Tudo isto está em Platão. Que tal falarmos sobre isto? (Acho que você não vai querer, né? Discutir Estado pra valer, utilizando seus principais teóricos e não apenas a opinião pessoal não é muito a tua praia).

Pois é, admito meu desconhecimento sobre Platão. É difícil entender um autor de mais de 2 mil anos atrás quando ele é utilizado dessa maneira para justificar uma tirania totalitária, inclusive com o argumento da "liberdade de escolha" dos indivíduos optarem por não terem nenhuma liberdade... É algo dificil de compreender, é preciso admitir. Também nunca fui muito bom em grego. Como sou ignorante nessas coisas, me contento em saber a diferença entre democracia e ditadura, ou entre um pato e um cachorro. Coisa que, pelo visto, muita gente ainda não conhece ou finge desconhecer. É esta a minha praia.

Quanto a existência ou não do teu (Peraí! Sou "senhor", "você" ou "tu"? Deixa pra lá...) blog, ela não é questionável dentro dos padrões virtuais. Meu questionamento é sua existência no mundo real. Aqui você e eu também somos apenas personagens e não agentes. Nada (e eu enfatizo no nada) do que escrevemos aqui fará alguma diferença no mundo real. A discussão do meio virtual como veículo do Real é uma discussão presente da Comunicação Social. Quanto a contestação do nome do teu blog é uma analise que faço perante a linguagem que você utiliza aqui. Ou você tem medo da semiologia? Considero o meio virtual fraco para qualquer tipo de argumento. Tudo que faço é me divertir com os seus “argumentos” e a tentativa de fazer uma gozação com a minha cara. Isso não passa de um jogo que você faz com a platéia para me desmoralizar. Uma atitude baixa, mas válida. Eu encaro!

Muito interessante... De fato, morro de medo da semiologia. Principalmente quando é utilizada por Ignorantes Soberbos e leitores metidos a bobinhos (auto-proclamados) para justificar, com um palavrório pernóstico recheado de helenismos, o injustificável. Prefiro ficar com minha baixeza mesmo, recusando-me a ver virtude numa ditadura que só produziu sofrimento e miséria. Tem gente que acha isso meio cafona e pouco sofisticado. Fazer o quê? Paciência.

Enfim, eis um resumo das opiniões de nosso sapientíssimo amigo leitor de orelhas de Platão e Maquiavel:

- A ditadura cubana é o produto da "liberdade de escolha" dos cubanos, que optaram por não terem mais nenhuma liberdade de escolha sob Fidel Castro;

- Como, segundo Maquiavel, a fonte última do poder é a vontade do povo, a conclusão lógica é que ditaduras como a de Fidel (e a de Hitler, e a de Stálin, e a de Mao Tsé-Tung) só existem ou existiram porque o povo as ama e deseja;

- Ao serem impedidos de manifestar livremente suas opiniões, e inclusive de saírem do país, ao serem presos, torturados e fuzilados, os cubanos - assim como os alemães sob o nazismo e os russos sob o stalinismo - estão exercendo sua "liberdade de escolha";

- Pelos motivos acima, devemos concordar com as palavras sábias do Apedeuta, que, em mais uma aula de amor à democracia, defendeu o "direito" de Cuba ser uma ditadura;

- Também por tudo isso, e pelo fato de o fulano ter lido Platão e Maquiavel e ser um especialista em semiologia, esse blog não tem qualquer influência sobre o Mundo Real;

- Logo, este blog é só um mundinho de fantasia e deveria deixar de existir.

É mole ou querem mais?

4 comentários:

Anônimo disse...

Tadinho Gustavo, me deu até pena. Acho que ele só leu A República e O Príncipe na vida...e ainda tenta mostrar conhecimento falando dos detalhes na vida da pólis...me deu pena. Gustavo, pq vc não indica uns outros livrinhos pra ele??? E quanto ao seu blog não fazer nenhuma diferença no mundo real, pelo menos no meu mundo ele faz diferença.
Abraços e continue escrevendo....

Rodolfo Mello disse...

Essa discussão já passou dos limites, Gustavo. Concordo com a tua opinião de ser contra a ditadura de Fidel Castro, mas não posso concordar com o teu posicionamento de ser a favor dos crimes cometidos pelos Estados Unidos e Israel. Não acho que toda morte deve ser punida igualmente, mas considero que deve haver sempre punição. Assim como o homicídio culposo e doloso exigem penas diferentes, os crimes de morte acidentais e morte intencionais deveriam ambos serem punidos. Obviamente os intencionais deveriam ter uma punição maior, mas isto não exclui a punição dos crimes de morte acidental. Por que deveríamos permitir que alguns países sejam mais fortes que os outros? Não sou a favor do terrorismo, mas não acho que se deva permitir e concordar com os abusos de força exercidos pelos Estados Unidos e Israel.

Stefano disse...

Caro Gustavo

Mais uma resposta/aula/chinelada exemplar...E já tinha outro na fila, olha só!
Keep the good work!

Abraços deste admirador.

Luiz Maurício disse...

Gustavo Henrique Marques Bezerra,

Agora que você confessou a sua baixeza, não preciso mais escrever nada. Pessoas que se utilizam de golpes baixos são capazes de tudo para terem razão, mesmo sem a terem. Com esse tipo de gente é preciso ter cuidado. Acusam as outras pessoas de tudo que elas não disseram e se utilizam da retórica para exporem interpretações errôneas do pensamente do outro.

Meu caro, esperava mais de você. Esperava que pudessemos conversar sem baixezas da tua parte. Contra isso eu não tenho porque continuar.

Abraço.