quarta-feira, junho 09, 2010

LULA, O SÁBIO


"Nós conseguimos em 18 horas o que os EUA não conseguiram em 31 anos", vangloriou-se o reformador do planeta e maior especialista em geopolítica desde Haushoffer. Ele está se referindo, claro, ao "acordo histórico" assinado em 17 de maio entre Brasil, Turquia e Irã, e que foi implodido logo em seguida pelas sanções da ONU ao regime de Mahmoud Ahmadinejad, confirmadas nesta quarta-feira por 12 votos contra dois e uma abstenção no Conselho de Segurança. "Trouxemos o Irã para a mesa de negociação", é a toada triunfalista que não pára de ressoar. Afinal, não era o que o mundo queria?, indaga candidamente o comandante do mundo, para emendar, logo em seguida, com a cara mais lavada do universo, quase aos berros: pois eu fui lá e fiz!

Fez nada. Ou melhor: fez sim, mas papel de palhaço. De bobo da corte. De idiota útil da arena internacional. Um verdadeiro trapalhão, para dizer o mínimo. Ou cúmplice mesmo de um regime terrorista e potencialmente genocida, para ser menos caridoso.

Não, Lula e seus capachos não conseguiram "em 18 horas o que os EUA não fizeram em 31 anos". Não, ele e Celso Amorim não "trouxeram o Irã para a mesa de negociação". O que conseguiram, o que fizeram, foi apenas dar mais tempo a Ahmadinejad para que ele continue a fazer o que vem fazendo, e que motivou as sanções da ONU: enganar o mundo, negando-se a se submeter às inspeções da AIEA e continuando a enriquecer urânio para seu programa nuclear secreto. Mas não contavam com a pronta reação do mundo civilizado.

Com ou sem o tal "acordo", que Lula e sua equipe de propaganda festejaram, para usar uma expressão da moda, como a conquista de uma Copa do Mundo, o Irã continuará a enriquecer urânio para obter a bomba atômica. Com ou sem o "clima de confiança" cuja criação o Itamaraty insiste em dizer ter sido o objetivo do "acordo", o regime dos aiatolás continuará desdenhando a ONU e a AIEA. Isso não é assim porque eu quero que seja. Foi o próprio porta-voz da Chancelaria iraniana, no dia seguinte à assinatura do "acordo" em Teerã, que deixou isso bem claro. Ahmadinejad e sua Guarda Revolucionária, que é quem de fato controla o programa nuclear iraniano, não foram trazidos para a mesa de negociação coisa nenhuma. Até porque renunciar à bomba atômica está fora de cogitação por parte de Ahmadinejad, para ele é algo inegociável. Com as sanções, isso fica mais difícil.

Lula está mentindo, como sempre, e sabe que está mentindo. Mas, como das outras vezes, tanto no plano externo como internamente (lembram do mensalão?), ele acha que vai se dar bem e convencer a muitos idiotas, que não faltam, repetindo essas mentiras. Foi assim no caso de Honduras, onde até hoje há quem jure que o Brasil apoiou um democrata contra golpistas, e não o inverso. E está sendo assim agora, inclusive com o vazamento malandro de uma carta de Barack Obama, que supostamente instruiria o governo brasileiro a assinar o tal "acordo" com Teerã nos moldes do que foi firmado em 17 de maio, o que é mais uma grossa mentira (a carta não faz qualquer referência a aceitar que o Irã continue a enriquecer urânio, muito pelo contrário). Com os lulistas é assim: se "eles" (os EUA) não nos deixam posar de independentes, nós os criticamos por não terem nos deixado seguir à risca o que dizemos que eles nos mandaram fazer... É a "independência" antiamericana da diplomacia petista em ação.

Lula se comporta como se o mundo fosse um sindicato, e como se o Irã fosse uma democracia. Sua visão do que seria um acordo de paz no Oriente Médio não vai além de uma negociação salarial entre empresários e uma assembléia sindical no ABC paulista. Ou, então, de uma troca de cargos com os partidos da base alugada de seu governo. Seu conhecimento sobre política internacional e, em particular, sobre os problemas do Oriente Médio, é zero. Daí suas platitudes sobre conseguir, com seu charme e suas piadas de porta de fábrica, o que outros mais poderosos do que ele não conseguiram. Daí sua conversa mole sobre trazer o Irã para a "mesa de negociação". Daí sua comparação, feita no ano passado, entre os manifestantes torturados e assassinados pela polícia religiosa após a fraude nas eleições presidenciais iranianas e uma torcida de futebol cujo time perde um jogo. É esse "O Cara"? É esse o "político mais influente do mundo", segundo a Time? (na verdade, um dos, mas vá explicar isso para os lulistas...).

Nunca na história do mundo houve uma diplomacia tão patética quanto a do governo Lula. Nunca o Brasil colecionou tantos fracassos memoráveis, transformados em vitórias por uma imprensa chapa-branca e complacente. Nunca houve um presidente tão fanfarrão e tão absurdamente mentiroso e megalomaníaco. Nunca um completo ignorante se pavoneou tanto de ser um sábio e professor de relações internacionais. E nunca tantos caíram nesse conto-do-vigário. Nunca tanta gente endossou a loucura, tomando-a por sabedoria. E assim será, por muito tempo ainda. Pelo menos enquanto houver quem diga amém a essas fanfarronadas.

Um comentário:

Ítalo Viana disse...

Antes de tudo, parabéns! Acho louvável a crítica como exercício de cidadania e como forma de exercitar a mente. Também me considero um "do contra". Pois bem, li as diversas críticas ao Irã e contra seu programa nuclear, pois o mesmo estaria planejando destruir Israel. Pergunto: e daí? Os EUA combatem o "terror" e têm bomba atômica, por que o Irã não pode combater o terror de Israel, que corretamente indigna-se com o holocausto, mas promove algo semelhante contra os palestinos? Não seria Israel do mesmo bando terrorista dos que assolam o mundo? E os EUA com suas guerras desastrosas no Kwait, Afeganistão e Iraque, não são terroristas? São. Sou contra as guerras, por óbvio, mas entendo que os conflitos no Oriente são bem mais complexos do que definir qual o Regime, se democrático ou não, de cada país.