quinta-feira, novembro 06, 2008

VITÓRIA DO RACISMO


"Eu tenho um sonho... de que um dia na América um homem seja julgado por seu caráter, e não pela cor de sua pele" - Martin Luther King

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Se eu não for linchado na rua por uma multidão de esquerdistas furiosos depois deste texto, vou me convencer que vivemos realmente em um país democrático. Mas, se a linguagem não foi inventada para que digamos a verdade ou o que realmente pensamos, então deveria ser desinventada. Vamos lá.

Agora que todos (ou quase todos) choraram e se emocionaram, agora que os comentaristas da Globo ficaram com a voz embargada após repetir, 236 vezes em um único dia, a palavra "histórica" para se referir à vitória de Barack Obama, agora que Arnaldo Jabor deve estar abrindo uma garrafa de champagne pela vitória de seu candidato e pela derrota de McCain e de Sarah Palin, eu digo: a vitória de Obama foi uma vitória do racismo.

Isso mesmo. Você leu certo. Obama ganhou porque os EUA são um país profundamente racista. Infelizmente.

A vitória de Barack Hussein Obama nas eleições presidenciais norte-americanas está sendo apresentada como uma vitória dos direitos civis e da tolerância racial, um fato histórico, o primeiro presidente negro dos EUA etc etc. Beleza. Tal fato seria realmente impensável quarenta anos atrás, e a eleição de Obama, por esse ângulo, é mesmo, vá lá, "histórica". É uma prova de que a democracia americana é mesmo para valer, ao contrário do que se verifica em outras latitudes. Até aí eu concordo. Mas daí a dizer que a eleição não teve nada a ver com fatores de raça, e que seu resultado não decorreu de uma hábil manipulação emocional, e não de qualquer debate racional, em torno desse fator específico - a cor da pele do candidato -, vai uma grande diferença. Obama ganhou, entre outros motivos, porque é negro.

A que se deve o triunfo de Obama? Fundamentalmente, a quatro fatores: 1) a quantidade pantagruélica de dinheiro despejado em sua campanha, que lhe permitiu praticamente monopolizar a atenção da mídia, numa proporção de quatro para um em relação ao candidato adversário; 2) o culto da personalidade criado e explorado em níveis stalinistas em torno de sua figura por uma campanha de marketing eficientíssima e baseada em nada mais do que em palavras vazias e em slogans altissonantes ("change", "yes, we can"), fortes porque não querem dizer rigorosamente nada; 3) a crise financeira mundial; e 4) a chantagem racial.

Foi esse último fator, a meu ver, o fiel da balança da eleição presidencial deste ano nos EUA. Senão, vejamos. Se não foi pelo fator epidérmico, que outro motivo levou Obama à presidência dos EUA? Experiência? Ele não tem. Idéias? São extremamente vagas. Caráter? É no mínimo duvidoso, depois de ter passado a campanha inteira tentando (com a ajuda da grande imprensa) se esquivar de perguntas embaraçosas e se distanciar de figuras ao lado das quais sempre esteve, como Jeremiah Wright e Bill Ayers, e até mesmo de apresentar sua certidão de nascimento num processo judicial. Sobra a cor da pele. E a aura de Messias iluminado que guiará todos à terra onde jorra leite e mel.

Durante toda a campanha, Obama se esquivou do papel de "candidato negro" (ou "afro-americano"), dizendo-se apenas o candidato da "mudança", sem conotações raciais. Mas é inegável que o fato de ser negro pesou em sua campanha. Obama escolheu o dia 28 de agosto - mesmo dia do discurso "I have a dream" de Martin Luther King, em 1963 - para lançar oficialmente sua candidatura a presidente. O clima de endeusamento de sua figura apenas reforçou esse estereótipo racial. Fosse ele branco e de olhos azuis, casado com uma loura com cara de Barbie como a mulher do McCain, dificilmente seu discurso de "mudança" teria o mesmo impacto. Não deixa de ser racismo, mesmo que um racismo com o sinal trocado.

Os negros são 13% da população dos EUA. Foram somente eles que votaram em Obama? Claro que não. A maioria da população americana - branca e protestante - votou nele também. Isso significa que seu voto foi uma demonstração de tolerância e de união de toda a nação, certo? Sim e não. Sim, porque a união em torno de Obama, por um lado, transcendeu as fronteiras raciais. A tese racialista ("vitória dos negros"), assim, cai por terra. Não, porque foi justamente o fato de não ser branco, juntamente com a massiva campanha propagandística que o apresentava como o candidato "da mudança", o que levou muitos americanos brancos "progressistas" a cederem à chantagem racial (Obama era o candidato das minorias oprimidas e dos direitos civis; logo, votar em McCain seria votar no racismo e na Ku-Klux-Klan, escreveu Arnaldo Jabor). Além disso, para muitos, Obama foi eleito não porque é negro, mas porque encarnou o anti-Bush. Foi por isso que muitos brancos, e inclusive muitos republicanos, votaram nele, e não em McCain. Pode-se discutir se o fizeram pelo motivo certo (pessoalmente, acho que não), mas o fato é que, apesar disso, a eleição de Obama deve-se, também, ao fato de ele ser negro.

Negro e "de esquerda", diga-se. Basta lembrar um fato. O governo Bush - sim, Bush - já contava com dois negros proeminentes em seu primeiro escalão. Colin Powell e Condoleeza Rice - negra e mulher - exerceram o mesmo cargo, de secretário de Estado, o segundo na hierarquia da República mais poderosa do planeta. E nem por isso se viu nada semelhante, em grau de histeria, ao que se tem visto desde que foi anunciada a vitória de Barack Obama. Pelo menos não me lembro de se ter repetido na imprensa americana e mundial, até enjoar, loas ao "primeiro secretário ou secretária de Estado negro" da história americana etc. Isso se deve, claro, ao fato de a presidência ser um cargo muito mais importante, e carregar um simbolismo muito maior. Mas só em parte. O fato de Obama se apresentar como o anti-Bush e anti-republicano por excelência, é óbvio, fez aqui toda a diferença. Foi por isso que ele foi apoiado, entre outros, por Louis Farrakhan, Hugo Chávez e Ahmadinejad. Ao fator racial deve-se somar o fator ideológico.

Escolhi como epígrafe a este texto a célebre frase de Martin Luther King, que se tornou uma espécie de mantra do movimento pelos direitos civis nos EUA nos anos 60. Ela resume exatamente o que eu quero dizer. Desde que foi eleito, Obama está sendo ligado constantemente à figura de Luther King, e a essas palavras em particular. Pois a frase do líder negro assassinado em 68 significa exatamente o contrário do que representa Obama. Ele não foi eleito por seu caráter, nem por suas idéias, mas pela cor de sua pele. Martin Luther King deve estar se revirando no túmulo.

Um comentário:

Humberto disse...

Desculpe ser tão sincero quanto você, mas quando ignora os fatos que levaram Obama à presidência dos EUA, colocando-o como um produto de meia dúzia de jornais, e não que esses conglomerados tivessem se rendido às suas superiores virtudes em relação ao seu oponente, você age como um “apedeuta”, termo muito caro à ti. Só o fato de ter convencido os democratas a escolhê-lo tirando a forte candidata Hillary da parada, já fica difícil aceitar a argumentação de mero produto de márquetim. Se o TSE deles leva em banho-maria sobre sua procedência, por que criar caso? É muito difícil de a justiça eleitoral deixar correr até o candidato ser eleito pra depois barrá-lo porque não cumpriu algum ritual anterior, principalmente um candidato eleito por ampla maioria e “pelo mundo”.
Pela sua insistência, parece que quer destituí-lo de qualquer maneira. Se seu governo(de Obama) se mostrar medíocre, são outros 500, mas ele tem impressionado não só seus confrades, como parte de seus oponentes, os direitistas, e isso não é pra qualquer um.
Obama não quis entrar pelo espinheiro de uma campanha focada em raça porque além de perigosa não era seu escopo, deixou sua tez de lado e se identificou como “pós raça”(uma coisa assim). Não foi eleito por ser negro, mas apesar de ser negro. Impos seu discurso não se fazendo de coitadinho por ser um negro discriminado, rejeitado.
Se você continuar escrevendo o que escreve, defendendo o que defende, cuidado, você pode acabar como articulista da Veja, é a sua cara. As belezas que se vê lá, confundem-se com suas posições.
Fiquemos assim: sei que você não concordou com nada do que escreví assim como também não concordo com seu ponto de vista. Sem problemas.
Deix'eu ir que já provoquei demais.
Um abraço.