segunda-feira, novembro 10, 2008

ESQUERDISTAS REACIONÁRIOS

Hitler e Stálin em caricatura de 1939, referente ao "pacto de não-agressão" entre os dois ditadores. A esquerda alia-se a fascistas e terroristas, enquanto chama a todos os outros de "reacionários"


Mahmoud Ahmadinejad mandou uma carta de felicitações a Barack Obama por sua vitória na eleição presidencial americana. Ahmadinejad é o presidente do Irã. O Irã é dominado, desde 1979, por uma teocracia islâmica ferozmente antiocidental e antiamericana, que pune com chibatadas as mulheres que mostrarem os cabelos em público e executa quem desobedece as leis religiosas. O país está há anos desenvolvendo um controvertido programa nuclear. Em seus discursos, Ahmadinejad defende, entre outras coisas, que Israel deve ser varrido do mapa. Obama já anunciou que quer conversar com Ahmadinejad. Este, claro, está feliz com a eleição de Obama. A imprensa do mundo todo, o New York Times à frente, igualmente encantada, saudou o aceno de Obama a Ahmadinejad como uma esperança de paz entre os dois países.
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Na mesma semana em que Ahmadinejad enviou sua saudação a Obama, o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, declarou esperar, ao referir-se às perspectivas das relações entre os EUA e a Rússia, que elas melhorem daqui para a frente, porque Obama é, afinal, "jovem, bonito e bronzeado". A expressão pegou mal. A imprensa italiana e mundial gritou "horror, horror" e acusou Berlusconi pelo que julgou uma imperdoável manifestação de racismo. Só faltou pedirem sua cabeça numa bandeja de prata.
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O clamor que se ergueu por causa da declaração supostamente racista de Berlusconi contrasta abertamente com o silêncio sepulcral da imprensa dita "progressista" do Ocidente em relação às declarações claramente anti-semitas e genocidas de Ahmadinejad sobre Israel, a única democracia do Oriente Médio. É que Berlusconi é um direitista, logo um reacionário. Já Ahmadinejad é um "combatente contra o imperialismo". Ah, bom.

Ahmadinejad prega abertamente a destruição de um país e o extermínio de sua população, propondo nada menos do que a reedição do Holocausto nazista. No entanto, ninguém na imprensa chique e de esquerda parece dar muita bola para isso. Estão mais preocupados com o escorregão verbal de Berlusconi, que foi quase crucificado porque se referiu, de uma maneira considerada politicamente incorreta, à cor da pele de Obama. Em um caso, há claramente a apologia do genocídio; em outro, há no máximo uma expressão infeliz de um político trapalhão. Pergunto: quem é o reacionário, Ahmadinejad ou Berlusconi?

Os esquerdistas do mundo todo estão extasiados com a vitória de Obama. Vêem nele um novo Messias, alguém acima do bem e do mal. Esquerdistas também se acham acima do bem e do mal. Julgam-se imbuídos de uma missão histórica especial, em nome da qual podem subordinar tudo: a ética, a democracia, a lógica. Crêem-se, enfim, o lado bom da humanidade, os heróis do bem, do justo e do belo, defensores de boas causas. Enfim, gente bonita e maravilhosa, tolerante e multicultural, aberta às diferenças - gente, além de tudo, bastante sofisticada, que gosta de jazz... Todos os que não partilham de seu credo, a "direita", não passam de um bando de reacionários e imperialistas, racistas, caipiras, bandidos e canalhas. Assim é também nos EUA, país que, com a eleição de Obama, ficou mais bananeiro, mais caudilhesco e terceiro-mundista, como lembrou Diogo Mainardi.

Essa impressão, que tenho há anos, foi reforçada nas últimas semanas, devido ao êxtase generalizado da oba-obamania. Uns três ou quatro dias atrás, recebi um e-mail de uma pessoa que se declarou confusa diante de um fato da realidade a que poucos prestam atenção. A questão que formulou foi a seguinte: se os conservadores americanos são protecionistas, nativistas e isolacionistas, como são geralmente descritos na mídia, então por que a esquerda americana - que votou em massa em Barack Obama - se opõe à intervenção no Iraque e no Afeganistão? A própria remetente do e-mail admite que a pergunta é meio "idiota". Eu discordo. De idiota, a pergunta não tem nada. Pelo contrário: ela demonstra o nível de empulhação e de vigarice ideológica associado à canonização de Obama, e como isso ajuda a encobrir o reacionarismo da esquerda.

Sim, a esquerda é reacionária. Por que digo isso? Porque os fatos não mentem. Vejam só. Nos EUA, país do livre comércio, quem é mais protecionista: os democratas ou os republicanos? Resposta: os democratas. Se têm alguma dúvida, pesquisem quem, no Congresso dos EUA, votou contra e quem votou a favor da manutenção dos subsídios aos agricultores norte-americanos. Os que torceram por Obama imaginando que ele seria mais aberto ao livre comércio com os países em desenvolvimento terão uma surpresa. Perguntem também qual dos dois candidatos, McCain ou Obama, fez a única referência ao Brasil durante a campanha, defendendo tarifa zero para o etanol brasileiro nos EUA. Vou dar uma dica: não era o candidato da "mudança"...

E quem é mais nativista e isolacionista? Historicamente, seriam os republicanos, a "direita", certo? Também não é bem assim. Pelo menos desde o 11 de setembro, desde que Bush mandou invadir o Afeganistão e o Iraque, como parte de sua estratégia de implantar a democracia à força no Oriente Médio para combater o terrorismo, essa escrita mudou radicalmente. Os republicanos de fato eram conhecidos por se oporem a aventuras externas, desejando limitar-se - isolar-se, é a palavra - à área de influência dos EUA, as Américas. Os democratas, por sua vez, desde o governo de Woodrow Wilson (1913-1921) se notabilizaram pelo que se chamou, depois, de "intervencionismo messiânico", a defesa de uma postura mais assertiva dos EUA, inclusive no campo militar, nas relações internacionais. Foi com base nessa postura intervencionista norte-americana que o país foi às duas guerras mundiais, contra a vontade dos isolacionistas, e foi criada a Liga das Nações, embrião da futura ONU. Pois bem. Com os atentados de 11 de setembro e a ascensão dos "neoconservadores" do Pentágono e da Casa Branca - Wolfowitz, Rumsfeld, Perle, Cheney etc. -, essa divisão entre "isolacionistas" e "intervencionistas" deixou, na prática, de existir. Ou melhor: os opositores da guerra, os "progressistas" americanos, sob o pretexto do "multilateralismo", assumiram inteiramente a atitude isolacionista, colocando-se ao lado de regimes como o do Irã e da Coréia do Norte. Os "falcões" de Bush, por sua vez, tomaram para si o cetro do intervencionismo, e nesse ínterim derrubaram duas ditaduras, levando a democracia para lugares que jamais a tinham conhecido em mais de três mil anos de História. Quem é progressista? Quem é reacionário?

Esse é o grande paradoxo dos tempos modernos: em nome da segurança, a "direita" americana, os Bush e McCain da vida, tomaram a dianteira da luta pela democracia e pelos direitos humanos no mundo. Já a esquerda, os "liberais" e "progressistas", perfilam-se ao lado das forças mais atrasadas e obscurantistas do planeta, justificando o terrorismo islamita e a tirania em países como Cuba e Coréia da Norte. Em outras palavras, defendem em Londres e em Nova York o que não têm coragem de defender em Teerã e Pyongyang. Mais uma vez, pergunto: quem é reacionário, Ahmadinejad ou Sarah Palin?

Já apontei essa contradição antes, mas vale a pena repetir: antes, os EUA eram atacados porque davam apoio a ditaduras. Eram acusados, então, de intervencionistas e anti-democráticos. Agora, os EUA são criticados por derrubar ditaduras. Até hoje não sei se é para criticar os EUA por não terem agido contra ditaduras ou por terem agido para acabar com elas, como fizeram no Iraque e no Afeganistão. Ainda espero que algum filósofo da USP me explique essa estranha dialética.

O mesmo vale para o comércio internacional. Sabe-se que os democratas costumam ser mais protecionistas do que os republicanos. No entanto, a eleição de Obama foi saudada pela esquerda mundial como o começo da redenção para os países menos desenvolvidos. A mesma esquerda dos mesmos países que costumam se queixar do protecionismo das grandes potências bate palmas, porém, para o protecionista francês José Bové, o maior inimigo das exportações brasileiras para a União Européia. Já desisti de cobrar coerência da esquerda há muito tempo. Também já desisti de indagar se, para os esquerdistas, o protecionismo é algo bom ou ruim.

Os esquerdistas, muitos dos quais torceram por Obama, vêem o capitalismo como um problema, não como a solução. Nos últimos dois séculos, o capitalismo retirou milhões de pessoas da miséria e permitiu o surgimento de regimes e sociedades democráticas. O socialismo, onde quer que se tenha instalado, só gerou opressão política e pobreza, agravando-a onde ela já existia e instalando-a onde ela era inexistente. Qual dos dois é progressista? Qual dos dois é reacionário?

Nada disso, claro, importa para os esquerdistas. Afinal, para eles, reacionários são Bush e McCain, não Bin Laden e Fidel Castro. Não surpreende que Ahmadinejad esteja tão contente com a eleição de Obama. Não surpreende que a esquerda tenha visto isso como um bom sinal.
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Se algo é bom para a esquerda, não é bom para a humanidade.

Um comentário:

Diego Oliveira disse...

Prezado Gustavo Bezerra, parabéns por mais este excelente texto.

Tenho vinte anos e já há alguns meses acompanho com grande interesse o seu blog, o qual, devo dizer, foi uma das referências para que eu me livrasse de meu socialismo hormonal.

Continue o bom trabalho com o Blog "Do Contra".