domingo, outubro 04, 2009

OS BOLIVARIANOS NÃO SE CANSAM DE MENTIR


Eu sei que o assunto é chato. Eu sei que ninguém quer falar a respeito. Mas é preciso. Nem tudo na vida é sombra, água fresca e roquenrol. Infelizmente.

A patacoada promovida pelo governo Lula e por Hugo Chávez em Honduras, com a transformação da embaixada brasileira em QG do golpismo bolivariano, entrará para a História como um momento triste para a verdade. Poucas vezes se mentiu tanto, e tão descaradamente, para justificar uma tentativa de estupro constitucional como se fosse a defesa da democracia. Poucas vezes se viu na História maior desfaçatez, maior inversão da realidade. E poucas vezes se viu tanta gente engolir impensadamente tantas falsidades como se fossem fatos, e desprezar fatos como se não passassem de propaganda.

Primeiro, os bolivarianos de aqui e de alhures venderam a idéia de que a deposição de Manuel Zelaya em 28/06 foi um "golpe". Os jornais passaram, então, a se referir, insistentemente e de forma sistemática, aos que expulsaram Zelaya do poder como "golpistas", "governo golpista", ou "governo de facto" - com "c" de cascata -, enquanto Zelaya era o "presidente deposto", "presidente democraticamente eleito" ou mesmo - o cúmulo da cara-de-pau - "presidente constitucional"... No começo, a estratégia deu certo - muita gente comprou a tese de que houve mesmo um "golpe" em Honduras, e que Zelaya, tadinho, foi expulso do poder por ser um democrata, um amante das leis e da liberdade... Mas bastou alguém fazer o que ninguém tinha feito até então - ler a Constituição de Honduras - para que ficasse claro quem é o golpista, e quem agiu para cumprir a Lei. Aí a fraude veio à tona.

Fossem os esquerdistas pessoas normais, com um pingo de consciência moral e um mínimo de sentido de decência, e, diante de desmascaramento tão evidente, teriam pelo menos se calado e colocado a viola no saco. Mas não. A cada mentira sua desmascarada, inventam imediatamente outra, que substitui a anterior, e assim indefinidamente, até a eternidade. Sua tática se resume no seguinte: mentir, mentir, mentir. Sempre. O tempo todo. Até que a mentira, de tão repetida, se torne verdade, como dizia Goebbels.

Diante da simples leitura do que está escrito na Constituição da República de Honduras, o argumento do "golpe" convence cada vez menos os incautos (apesar disso, eles sempre existirão, tenham certeza). Daí porque os cabos eleitorais do bigodudo Zelaya e de seu mestre Hugo Chávez resolveram partir para outra. Não batem mais na tecla do "golpe" - pelo menos não tanto quanto antes -, nem tentam mais negar que a "materialização" de Zelaya na embaixada brasileira em Tegicugalpa - convertida em palanque zelayista - foi planejada pelos governos de Lula e de Chávez e constituiu uma aberta violação da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas e da soberania hondurenha. Em vez disso, insistem em comparações fajutas, a fim de sustentar a farsa.

Não sendo mais capazes de esconder o fato óbvio de que Manuel Zelaya, ao convocar um plebiscito ilegal para decidir sobre sua reeleição, tentou rasgar a Constituição hondurenha, fazem, agora, a seguinte comparação: FHC mudou a Lei para reeleger-se em 1998, e o presidente colombiano Álvaro Uribe também deseja alterar a Constituição da Colômbia para garantir um terceiro mandato. Não são ambos, portanto, golpistas? Não são, também, a seu modo, bolivarianos?

Não! Nem FHC, nem Álvaro Uribe, pertencem à mesma laia de Manuel Zelaya, Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correia. E não é preciso ser do PSDB ou concordar com a reeleição de FHC ou com o terceiro mandato de Uribe para perceber isso. Na verdade, esse é mais um motivo para ser contra a reeleição, pois apenas dá ensejo a que os inimigos da liberdade defendam suas teses antidemocráticas e tentem confundir ainda mais a opinião pública.

A questão é desonesta, como tudo que vem dos bolivarianos, por várias razões. Em primeiro lugar, o fato de um governante ter mudado a Lei para reeleger-se, por mais que se discorde dessa iniciativa (e discordo totalmente, pois acredito que não se deve mudar as regras no meio do jogo), não faz dele, necessariamente, um caudilho bananeiro e liberticida. Não se pode colocar no mesmo saco personagens e situações completamente diferentes: a reeleição de FHC, assim como o terceiro mandato para Uribe, discutíveis como são, não podem ser equiparados ao projeto chavista-bolivariano. Este é um projeto revolucionário, que visa não somente à perpetuação do tiranete no poder - notem bem: perpetuação, e não somente um segundo ou terceiro mandato presidencial -, mas à total e completa subordinação dos demais poderes constitucionais e de toda a sociedade ao poder central. Comparar o golpe civil tentado por Zelaya em Honduras ou o realizado por Chávez na Venezuela à reeleição de FHC ou ao projeto continuísta de Uribe na Colômbia é o mesmo que comparar uma bomba de nêutrons a um traque. Quando FHC ou Uribe tentarem destruir as instituições democráticas do país, dando uma ordem ilegal ao comandante do Exército, em clara afronta a uma determinação do Supremo Tribunal, bem como exportar a "revolução bolivariana", poderemos conversar a respeito. Até lá, o que há é apenas falsidade e manipulação, nada mais.

FHC e Uribe podem ser acusados de muita coisa, menos de serem inimigos da democracia. O mesmo não pode ser dito do projeto lulista do terceiro mandato, de que se falou durante algum tempo, mas que, infelizmente para os lulistas, não vingou, pois as instituições brasileiras, felizmente para nós, ainda não deixam. A idéia do terceiro mandato de Lula era um atentado à democracia porque tinha mais a ver com Chávez do que com FHC. O lulismo, aliás, tem tudo a ver com o chavismo, sendo na verdade sua face mais light e "respeitável". Mesmo essa face "moderada" do lulismo, porém, caiu por terra com a trapalhada do Itamaraty em Honduras.

Como já disse aqui, pouco a pouco a verdade vai se impondo na questão de Honduras, e cada vez mais pessoas se dão conta das mentiras e falsificações da gangue zelayista-chavista-lulista. Até o Senado Federal, em geral uma casa de horrores, parece ter acordado para o que está acontecendo na América Latina, tendo seu Comitê de Defesa e Relações Exteriores recusado a entrada da Venezuela no MERCOSUL, com base na cláusula que garante o compromisso dos países do bloco com a forma democrática de governo. Os bolivarianos brasileiros, é claro, também mentem nesse assunto: alegam que a questão não é o governo de Chávez, mas um país, a Venezuela, cuja entrada no MERCOSUL renderia frutos econômicos à organização etc. etc. Balela. Só quem não tem a mínima idéia do que é o regime chavista, ou quem está mancomunado com ele até o pescoço, pode dizer esse tipo de coisa. Não há separação entre o "país" e o "regime": aceitar a Venezuela no bloco seria avalizar o regime chavista, assim como aceitar a Alemanha de Hitler seria o mesmo que aceitar o nazismo. Chávez já deixou claro, para quem quiser saber, que pretende eternizar-se no governo, e que não pensa em deixá-lo antes do ano de 2021 (!). Será que o MERCOSUL ainda existirá nessa data?

Vejam que os bolivarianos nem escondem mais que Zelaya tentou um golpe em Honduras, e que foi deposto por causa disso. Também nem discutem mais se a Venezuela de hoje é ou não uma ditadura. Agora se agarram ao argumento de que "outros fizeram o mesmo" para justificar a volta de Zelaya ao poder. Com isso, revelam uma notável conformidade entre as políticas externa e interna: se você lembrou, ao ler o que está aí em cima, de um certo presidente que tentou justificar os escândalos de corrupção em seu governo com base na afirmação de que "todos fazem igual", não pensou errado.

É somente a persistência da mitologia esquerdista, ou a ignorância mais absoluta, que explicam o porquê de tanta gente ainda insistir na tese de que houve golpe em Honduras. Se os militares de outras épocas tivessem agido diante de governos populistas e esquerdistas com o mesmo profissionalismo e o mesmo respeito à Constituição com que agiram os militares hondurenhos, a América Latina teria sido poupada de muitos horrores e misérias. Mesmo aqueles, porém, aceitaram sair de cena. O mesmo não pode ser dito dos bolivarianos. Para eles, é o poder total, ou poder nenhum.

É isso que mais preocupa os bolivarianos, o que mais lhes tira o sono: pela primeira vez, um país disse não a suas investidas totalitárias, colocando-se firmemente em defesa da democracia contra um caudilho que tentou violá-la. É esse certamente o "perigoso precedente" de que falou Barack Hussein Obama há algum tempo: o que temem é que se repita em seus países o que ocorreu em Honduras, isto é, que o Congresso e o Judiciário, com o apoio da maioria do povo, saiam em defesa da Lei e os botem para correr. Chávez, Morales, Correia, Ortega etc.: podem colocar as barbas de molho. É isso o que o povo de Honduras está dizendo ao mundo.

sábado, outubro 03, 2009

COMPLEXO DE GRANDE POTÊNCIA


Foi Nelson Rodrigues quem cunhou uma expressão definidora do caráter nacional brasileiro. Segundo o genial cronista e dramaturgo - melhor cronista, em minha opinião, do que dramaturgo -, o brasileiro sofria de um terrível "complexo de vira-latas", que o impedia de ver a verdadeira grandeza do País e o levava a se humilhar perante os outros países, principalmente os europeus, os quais sempre enxergava de uma posição inferior. Segundo Nelson Rodrigues, foi a vitória na Copa do Mundo da Suécia em 1958 - a primeira conquista mundial do futebol verde-e-amarelo -, mais do que qualquer outra coisa, que lavou a alma do povo brasileiro e começou a sepultar o "complexo de vira-latas" que o amofinava e inibia. Finalmente, o mundo descobria o nosso valor: éramos bons em algo, o futebol; mais que bons, éramos os melhores do mundo, sem dever nada a ninguém.

Para muitos, o complexo de vira-latas de que falava Nelson Rodrigues se resume a um sentimento de inferioridade perante o estrangeiro, uma certa subordinação abjeta ante o que vem de fora. É parcialmente verdade. O complexo de vira-latas não se encerra na auto-depreciação em face do mundo exterior, nem na tendência em valorizar somente o que procede de além-fronteira. Na verdade, à luz do que vemos presenciando, o complexo de vira-latas pode manifestar-se de maneira bem diferente, na forma de nacionalismo. Digo mais: talvez nunca, em toda a História deztepaís, o complexo de vira-latas se manifestou de forma tão eloqüente e vigorosa quanto agora.

Um traço do complexo de vira-latas é, como disse acima, o apequenamento ante os grandes e poderosos. Outro, de que quase não se fala, é o seu oposto exato: isto é, a megalomania, a mania de grandeza. Nisso somos craques, assim como na auto-indulgência. Passamos, diretamente e sem escalas, da prostraçao à grandiloqüência, da extrema modéstia ao orgulho exacerbado. Trata-se, de fato, de uma característica esquizôfrenica do brasileiro. Para nós, não há meio-termo: ou somos os melhores e maiores do mundo, ou somos uns pés-de-chinelo. Ou o "gigante adormecido", deitado eternamente em berço esplêndido, ou o "Brasil Potência", que nada, nem ninguém, é capaz de segurar.

Hoje, vivemos um dos momentos "Brasil Potência" que caracterizam o complexo de vira-latas nelsonrodrigueano. A forma como o governo Lula e o povo em geral reagiram à escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016 - com uma explosão de nacionalismo bocó e de euforia ufanista não vistos desde os tempos do "milagre" econômico dos anos Médici -, atesta isso de maneira cabal e cristalina. Lula e os petralhas não perderam tempo em se apropriar também das Olimpíadas, vendendo a escolha do Rio como uma "vitória do governo" - mais: como uma "vitória sobre Obama" (esperteza: como a cidade foi escolhida, dizem que foi graças a Lula e seus asseclas; se fosse Madri, diriam que foi "preconceito"). Agora vão aproveitar para capitalizar em cima dos Jogos. Preparem-se para mais uma corrente pra frente, mais um arroubo ultra-patriótico, com muito samba-exaltação, muitas musiquinhas irritantes à Don & Ravel, com a reprodução incessante de videos promocionais e imagens de cartão-postal, mostrando um Rio de novela das oito, habitado somente por gente feliz e bem-nutrida, sem favelas, nem meninos de rua, nem tiroteios, nem arrastões, nem balas perdidas, nem tráfico de drogas. Até quando queremos ser grandes, somos uns vira-latas. Na verdade, somos vira-latas porque queremos ser grandes, porque transformamos o "ser grande" numa obsessão nacional, em nome da qual vale até maquiar a realidade.

Sob a batuta de Lula e da propaganda petista, viramos todos uns policarpos quaresmas, uns nacionalisteiros caricatos e ridículos (diria Nelson Rodrigues: uns dragões de penacho, eternamente a desfilar na parada de 7 de setembro). Qualquer novidade, mesmo sem ser novidade, adquire, graças aos feitiços do marketing, essa religião moderna, ares de mudança revolucionária, que irá afetar para sempre os destinos não só do Brasil, mas de toda a humanidade. Lula assumiu o governo prometendo "mudar a geografia comercial do mundo", como se fosse um novo Alexandre, o Grande, ou um novo Napoleão - como se isso fosse, enfim, um ato de vontade, o resultado de um decreto ou de uma portaria governamental. Durante algum tempo, falou-se muito no etanol como o caminho para a "revolução energética" que iria fazer e acontecer e colocar o Brasil na vanguarda tecnológica mundial. Depois, com a descoberta do pré-sal, rapidamente mudou-se o foco, e o tema sumiu dos holofotes. Menos o ufanismo, que continuou o mesmo. A diferença é que agora o Brasil virou uma "potência petrolífera". E não simplesmente mais uma potência, mas a "maior do mundo". E isso também internamente: não basta reunir vários programas engavetados há anos numa sigla grandiloqüente; é preciso criar "o maior programa de aceleração do crescimento da História do País". Não é suficiente compilar uma série de programas assistencialistas num único; deve-se fazer "o maior programa social da História da humanidade". E por aí vai. Não basta anunciar uma nova política: é preciso dizer que ela é a maior e a mais importante de todos os tempos; é preciso revesti-la com o rótulo e a aura da grandiosidade. Não duvidem: em breve, o governo estará fazendo campanhas do tipo: "rumo à maior Olimpíada da História do Universo". O Brasil tornou-se pequeno demais para a retórica lulista.
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É no plano externo que o complexo de vira-latas, transformado, por um mecanismo psicológico, em complexo de grande potência, se manifesta com mais intensidade. O País de fato tem aumentado bastante sua presença internacional nos últimos anos - de 1% de participação no comércio mundial, passamos para 1,1%, um salto enorme -, e o governo festeja a substituição do G-8 pelo G-20 como a prova de que o Brasil "é agora respeitado entre os grandes" etc. e tal - como se a entrada em cena de países como a China e a Índia fosse o resultado dos bons esforços de Lula. No Itamaraty, o "pensar grande" virou um verdadeiro dogma. Para realizar a obsessão de tornar o Brasil membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o governo topa qualquer parada. Inclusive reconhecer a ditadura comunista chinesa como economia de mercado ou, para "aproximar-se do mundo árabe", apoiar - e ver ser derrotado - um antissemita e queimador de livros para dirigir a UNESCO. Vale tudo: desde fechar os olhos para o terrorismo narcotraficante das FARC e para as investidas do caudilho fanfarrão Hugo Chávez contra a democracia na Venezuela e em outros países até justificar a fraude eleitoral e a repressão no Irã e transformar a embaixada brasileira em Honduras em comitê político de um golpista bolivariano. Tudo para emergir como líder dos países em desenvolvimento contra os "países ricos" e, em especial, contra os EUA - a uma política externa assim tão protagônica não poderia faltar o indispensável elemento do antiamericanismo e do terceiromundismo ("só não somos grandes por causa 'deles'"...). Aqui, o complexo de vira-latas se demonstra pela idéia fixa de equiparar-se às grandes potências, de fato copiando-as - pensamento típico de mentes realmente colonizadas.

Assim como parece obcecado em se comparar a outros países, carregando consigo a bandeira do patriotismo mais rançoso e extremado, Lula insiste em comparar seu governo às administrações anteriores. Nisso, ele não consegue esconder seu complexo de inferioridade. Aliás, é curioso: a megalomania às vezes convive com o vitimismo e o coitadismo, outros traços marcantes do complexo de vira-latas. Lula usa o tempo todo sua condição de ex-operário, ex-retirante nordestino e semi-letrado (aqui não dá para colocar o "ex" antes) para dizer-se mais preparado para governar o Brasil. É o vira-latas que, uma vez de terno e gravata, deixa-se deslumbrar pelas sereias do poder, e acredita-se o dono do mundo. E ai de quem falar isso: é um "preconceituoso"...

Dialeticamente, como dizem os professores marxistas da USP, o complexo de grande potência traz em si sua própria negação. A obsessão pela grandeza é típica dos nanicos e dos insignificantes. Somente os pequenos, os inseguros, sentem a necessidade de se proclamarem grandes. Quem é verdadeiramente grande e poderoso não precisa disso, não fica alardeando por aí sua superioridade. Ou, como se diz no popular, "se garante". Os pequenos, recalcados e ressentidos, não: precisam provar o tempo todo que são grandes; precisam agitar-se, falar grosso, dizer que fazem chover.

Certa vez, quando eu era criança, fiquei impressionado com uma estória que li, ou que me foi contada, não lembro bem: era uma vez um sapo que se achava o maioral da lagoa. Um dia, ele viu um boi e ficou com inveja porque o boi era maior do que ele. Para não ficar atrás, ele resolve inflar o papo até alcançar o tamanho do boi. De tanto inflar, ele acaba explodindo. A moral da estória é que não se deve dar um salto maior do que as pernas. É uma fábula sobre vaidade e soberba. E sobre baixa auto-estima.

sexta-feira, outubro 02, 2009

CAMPEÕES DO UFANISMO


Mudam-se os tempos, mas alguns costumes permanecem os mesmos
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Como todo mundo já deve saber, o Rio de Janeiro foi escolhido como sede da Olimpíada de 2016, derrotando Madri, a capital da Espanha, por 66 votos a 32. Como todo mundo também já deve saber, não se falará de outra coisa por alguns dias, e Lula e seus cumpinchas vão aproveitar para usar e explorar politicamente o fato como se fosse uma vitória deles próprios, ou - o que é ainda menos verdadeiro -, como se a escolha do Rio fosse uma prova de que o Brasil agora é um dos "grandes" do mundo, tendo finalmente adentrado o seleto clube dos ricos e poderosos (o México, que sediou uma Olimpíada em 1968, está aí para mostrar uma história diferente). Também correrá muito dinheiro nas obras, claro, e os superfaturamentos dificilmente vão se limitar aos 10%.
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É claro que isso que estou dizendo é inútil, não fará qualquer diferença diante de mais essa patriotada da Era Lula. Esses são tempos difíceis para quem tenta manter um mínimo de racionalidade. Vamos ter de agüentar mais uma onda de ufanismo festivo e patrioteiro, na linha "Pra Frente Brasil", que deixaria ruborizado o general Médici. Mas é exatamente por isso que insisto em escrever e em ser "do contra". Pelo menos enquanto eu tiver um cérebro que funcione.

Assim, para não deixar passar em branco esse acontecimento cívico, bem como para fazer jus ao nome deste blog, faço questão de dar minha contribuição à elevação da auto-estima nacional, tão abalada nos últimos tempos por coisinhas sem importância como o mensalão ou a trapalhada de nossa diplomacia em lugares como Honduras. Vou transcrever um post meu de 31/10/2007, que escrevi logo após a notícia de que o Brasil sediará a Copa do Mundo de 2014. Vocês verão que alguns personagens, como Lula e Paulo Coelho, são os mesmos. Meus argumentos contra mais esse oba-oba, também.

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COPA DO MUNDO PARA QUÊ?

Com muita pompa e circunstância, a FIFA anunciou ontem, dia 30/10, que o Brasil será a sede da Copa do Mundo de 2014. Como não poderia deixar de ser, o evento foi prestigiado por várias importantes autoridades brasileiras. Lá estavam eles, na cerimônia oficial: Lula, a ministra Marta Suplicy, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, o craque Romário e o (o.k., vamos dar um desconto) escritor e "mago" Paulo Coelho. Os brasileiros celebraram o acontecimento histórico. Em São Paulo, foram soltos milhões de balões de gás no estádio do Morumbi. No Rio de Janeiro, uma multidão celebrou a notícia, no Cristo Redentor, vestida de verde-amarelo, agitando bandeirinhas.

É preciso desconfiar sempre desse tipo de oba-oba. Sobretudo se, na mesma ocasião, estão reunidos Lula, Marta Suplicy, Ricardo Teixeira, Romário e Paulo Coelho. Lula estava mais feliz do que pinto no lixo. Marta Suplicy exibia um sorriso de orelha a orelha, mostrando as virtudes do Botox. Ricardo Teixeira enfatizou as oportunidades de investimentos e as belezas naturais do Brasil. Romário fez um discurso enaltecendo o caráter pacífico e hospitaleiro do povo brasileiro. Paulo Coelho comparou uma discussão sobre futebol na mesa de bar a uma relação sexual. Até agora não entendi o que ele quis dizer com isso. Assim como até hoje não consigo entender o que ele diz em seus livros.

O anúncio de que o país vai sediar a Copa do Mundo de 2014 foi recebido com festa no Brasil, claro. Brasileiro gosta dessas coisas. Somos como o louco da aldeia, que corre alegremente atrás da banda, pulando e cantando, mesmo sem saber do que se trata. Não queremos saber o que está sendo festejado, queremos apenas festejar. Sempre achei que esta é a raiz de todos os nossos problemas, nossa principal falha de caráter. Os brasileiros fariam bem se fossem mais desconfiados. Se fossem mais céticos. Mais críticos. Mais tristes. Mais introspectivos. Mais circunspectos. Seríamos certamente um povo mais evoluído, um povo mais civilizado, se fôssemos menos crédulos. Menos festeiros. Menos ufanistas. Menos alegres. Menos cordiais. Menos tolerantes. Menos reverentes. Menos patrioteiros. Menos deslumbrados. Menos otimistas. Menos bananeiros. Enfim, menos ordinários, menos vagabundos, menos cafajestes, menos safados. Se fôssemos um pouco mais inteligentes, perceberíamos facilmente que estamos diante de mais uma patacoada. Seríamos um povo melhor, um país melhor, sem dúvida. Haveria menos corrupção, menos roubalheira, menos bandalha. Com certeza, não haveria Lula. Não haveria Marta Suplicy. E, acima de tudo, não haveria Paulo Coelho.

O Brasil não vai ganhar nada com a Copa do Mundo. Muito pelo contrário. Basta lembrar o que foram os Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro. O que houve ali foi um festival de pilantragem, com milhões gastos em obras faraônicas e superfaturadas. Se fosse realizada uma CPI para apurar todas as mutretas, toda a farra com o dinheiro público ocorrida no Pan, o governo não duraria uma semana. Sem falar que é muito difícil se entusiasmar com esportes eletrizantes como o pólo aquático e o softball. Passei todo o Pan assistindo a velhos DVDs, torcendo para que os Jogos acabassem logo. A única coisa boa do Pan foi a vaia a Lula no Maracanã. E mesmo assim foi um prazer efêmero, pois, na mesma ocasião, o público também vaiou a delegação dos EUA e aplaudiu a de Cuba. Acabo de ouvir no rádio que a previsão é que se gaste a bagatela de 6 bilhões de dólares na Copa de 2014. Anote aí: o Brasil não vai ganhar nada com a Copa.

Sempre achei que, assim como Lula e Paulo Coelho, o futebol é a nossa desgraça, é a perdição do Brasil. Poucos esportes conseguem ser mais emburrecedores, mais idiotizantes. Não é por acaso que somos pentacampeões mundiais. Não é por acaso que somos os melhores do mundo. Se existe algo em que somos verdadeiramente bons, é em correr atrás de uma bola e colocá-la dentro de três paus na pequena área. É a nossa verdadeira vocação nacional, nosso asset, nossa vantagem comparativa. Há países que se especializaram em fazer bons carros. Outros, em produzir filmes em série. Outros, ainda, em dar ao mundo bons escritores, filósofos e cientistas. Nós fabricamos jogadores de futebol. O futebol está no nosso sangue, no nosso DNA. Faça um teste. Pergunte a qualquer moleque de qualquer favela ou periferia, de qualquer cidade do Brasil, e ele lhe dará de cor toda a escalação da seleção brasileira, e ainda se achará no direito de distribuir conselhos ao técnico. Pergunte, em seguida, quem proclamou a independência do Brasil e por quê, ou qual a capital da Bolívia, e ele ficará mudo como um poste. Ou como uma bola. Não é por acaso também que Lula é fã de futebol e torcedor entusiasmado do Corinthians. Não é por acaso que ele é o Presidente da República.

Sei que esta é uma causa perdida, e que ninguém vai deixar de esperar avidamente por 2014 nem de torcer para a seleção brasileira por causa destas minhas palavras. Mas alguém tem que dizê-las. Mesmo que o Brasil se sagre campeão, mesmo que vença todos os jogos de goleada, ainda assim sairemos perdendo. Ficaremos mais burros, mais idiotas, mais deslumbrados e terceiro-mundistas. Soltando balões de gás no Morumbi. Ou vestidos de verde-amarelo, agitando bandeirinhas.

A FARSA DE HONDURAS


Cada vez fica mais difícil para os lulo-bolivarianos esconder o que já se tornou mais que óbvio: a encrenca em que o governo Lula se meteu em Honduras é o maior fiasco da diplomacia brasileira, entre tantos outros fracassos que têm sido colecionados pelo Itamaraty, nos últimos anos. Talvez, o maior de toda a História, desde o Barão do Rio Branco.

Aos poucos, a verdade vai se impondo, abrindo caminho em meio às camadas e camadas de mentiras que foram despejadas pela chamada grande imprensa, em conluio com a propaganda chavista-zelaysta-bolivariana, desde o dia 28 de junho. Aqui e ali, já começam a surgir vozes que ousam destoar da manada, rasgando o véu de unanimismo burro que tentou inverter a realidade e apresentar golpistas como democratas, e democratas como golpistas.

A primeira de todas as falácias que está sendo desmontada como um castelo de cartas é que houve um golpe de Estado, ou golpe militar, em Honduras, cuja vítima teria sido Manuel Zelaya. Isso foi repetido até a exaustão pela imprensa escrita, falada e televisionada, e parte da opinião pública, anestesiada pelo bombardeio midiático, comprou a tese sem pensar - chegou-se a apresentar, como principal argumento de que houve golpe, o fato (?) de que Zelaya teria sido preso de pijamas... como se isso caracterizasse golpe de Estado! (nesse caso, o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, que foi filmado sendo preso em casa, no meio da noite e vestindo pijamas, foi certamente vítima de golpe). Na verdade, não houve golpe algum, a não ser o tentado por Zelaya - e que ele deseja reeditar, com a ajuda de Lula. Como já demonstrei aqui, uma simples consulta à Constituição de Honduras é suficiente para comprovar que Zelaya foi destituído porque tentou violá-la de maneira escandalosa (em especial os Artigos 42, 237, 239 e 242), e que o "governo de facto" agiu para que a Lei fosse cumprida. Ou seja: basta consultar a Carta Magna do país para saber que os verdadeiros golpistas são Zelaya e seus apoiadores, e não Roberto Micheletti.

Assim que surgiu a notícia de que Zelaya estava entrincheirado na embaixada do Brasil, que ele transformou em seu QG político para pregar a insurreição no país, apareceu a tese, sistematicamente repetida pela turma lulista, de que o Brasil estava agindo assim por causa de sua importância - ou, como gostam de dizer os diplomatas, devido ao "aumento de seu protagonismo político no continente, em virtude da ação ousada do governo Lula" etc. etc.

É mais uma balela, tornada mais ridícula ainda por causa do tom patrioteiro e ufanista no qual vem embalada. Ao permitir que Zelaya, um sujeito que além de tudo não parece bater bem da bola (ele afirma ser vítima de emissões de "radiação de alta freqüência" por "mercenários israelenses", por exemplo), usasse a embaixada brasileira como seu comitê político, o governo Lula trocou os pés pelas mãos, patrocinando uma das maiores trapalhadas diplomáticas de todos os tempos. E isso pelos seguintes motivos:

Primeiro, porque interveio diretamente nos assuntos internos de outro país, jogando a não-intervenção e o respeito à soberania na lata do lixo (violando, assim, o Artigo 19 da Carta da OEA e a própria Constituição do Brasil) e desqualificando-se, portanto, como possível "mediador" da crise - esperança que alguns ainda insistem em ter, apesar dos fatos.

Segundo, porque tornou-se responsável, automaticamente, por qualquer violência que vier a ocorrer no país: se Honduras mergulhar na guerra civil, tal como desejam Zelaya e sua trupe, a culpa recairá inteiramente sobre o governo do Brasil.

Terceiro, porque colocou em risco a segurança dos funcionários da embaixada e da comunidade brasileira residente em Honduras, a qual se tornou alvo de hostilidades por parte dos cidadãos hondurenhos, indignados pela violação à sua soberania e pelo apoio brasileiro declarado a um político que tentou rasgar a Constituição para perpetuar-se no poder.

Quarto, e finalmente, porque Lula, Celso Amorim e Marco Aurélio Top Top Garcia deixaram cair a máscara cultivada cuidadosamente até agora, de que seriam a face "moderada" e "responsável" da esquerda na América Latina, mostrando-se, na verdade, cúmplices ativos de Hugo Chávez e de seu projeto megalômano de exportar a "revolução bolivariana". A partir de agora, ficará muito mais difícil para os analistas internacionais convencerem o público que Lula constitui uma "alternativa" light e democrática aos arreganhos totalitários de Hugo Chávez e cia. Em suma, caiu por terra a tese da esquerda "vegetariana", como um anteparo à esquerda "carnívora".

Tão escancarada está sendo a violação da soberania de Honduras pelos governos do Brasil, Venezuela e Nicarágua, que até mesmo o queridinho dos bolivarianos, o terceiromundista Barack Hussein Obama - o presidente dos sonhos de Ahmadinejad e de Muamar Kadafi -, parece ter compreendido que o apoio a Zelaya foi longe demais e o representante dos EUA na OEA criticou como irresponsável sua volta ao país, reconhecendo o óbvio. Falta apenas reconhecer outro fato óbvio: que o movimento para derrubá-lo do poder foi desfechado para preservar a Lei.

A pantomima lulo-bolivariana em Honduras parece não ter fim. Agora os apoiadores de Zelaya investem em atacar o governo "de facto" - na verdade, de fato e de direito - de Honduras pelas medidas de estado de sítio no país. Sabem que o rótulo de "golpista" não cola mais, e precisam encontrar outra forma de enganar e manipular a opinião pública. Acreditam que conseguirão isso mostrando cenas de policiais contendo manifestantes zelayistas e levando todos a se indignarem contra o fechamento provisório de emissoras de rádio e TV em Honduras (o dono de uma delas, a principal emissora pró-Zelaya do país, declarou que Hitler deveria ter exterminado todos os judeus do mundo... É esse tipo de gente que Lula e Amorim querem ver no poder em Honduras.) É uma pena que, assim como no caso do "golpe" que não houve, os lulo-bolivarianos não leram a Constituição de Honduras. Se o fizessem, aprenderiam que medidas como essa, assim como o próprio estado de sítio, estão previstas na Carta Magna, como ações temporárias infelizmente necessárias para defender as instituições nacionais em caso de perigo - como é exatamente o caso.

Mas entende-se: os lulo-bolivarianos são contra fechar rádios e emissoras de TV, de forma temporária e para preservar a Lei. Eles são a favor mesmo é de fechar as rádios e jornais que os desagradam de forma permanente, como está fazendo Hugo Chávez e como fez Fidel Castro em Cuba. O que eles não suportam é quem pense diferente deles. É quem não compartilhe suas mentiras.

Em Honduras, Lula, Chávez e Ortega fizeram uma aposta arriscada. Contando com o apoio da OEA e da ONU, sem falar no governo Obama, acreditaram que todos engoliriam a tese do "golpe" e do Zelaya "democrata" e "mártir da democracia". Então, contrabandearam-no para dentro da embaixada brasileira, convertida em bunker do chavismo. Acharam que isso criaria um fato consumado, diante do qual o governo provisório hondurenho, acossado pelo isolamento internacional, teria que ceder. Pensaram, enfim, que seria um passeio. Não contavam com a resistência heróica do povo hondurenho, cuja maioria absoluta - mais de 70% - é radicalmente contra ou indiferente a Zelaya e a seu projeto de transformar o país em sua fazenda pessoal. Não acreditaram em nenhum momento que o governo interino lhes daria um ultimato para que decidisse o status de Zelaya, ficando, assim, com duas alternativas: ou lhe concede o asilo, caso em que ele teria de cessar sua agitação política e abandonar sua pretensão de retomar o poder na marra, ou o entrega de vez às autoridades hondurenhas, para que seja julgado por seus crimes. Em qualquer caso, Lula et caterva sofreram uma dura derrota: ainda que consigam reinstalar Zelaya no poder com todos os poderes, como ele deseja, já estão desmascarados como defensores de um golpista e inimigo da democracia. Quebraram a cara. Sim, os golpistas foram derrotados - os verdadeiros golpistas.

A cada dia fica mais claro para um número maior de pessoas quem são os verdadeiros golpistas em Honduras. Fica claro também que o Brasil perdeu uma excelente oportunidade de não compactuar com uma gigantesca farsa ou, pelo menos, de ficar calado. O governo Lula será motivo de chacota por ter aderido de forma tão escrachada ao golpismo bolivariano, servindo de homizio a um caudilho bananeiro. O rei está nu. Como diz o ditado: "malandro demais se atrapalha".
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O governo Lula enterrou definitivamente o que restava de sua credibilidade em Honduras. É uma pena que quase ninguém esteja prestando a devida atenção.

quinta-feira, outubro 01, 2009

FOLCLÓRICOS, DELIRANTES E... PERIGOSOS


Saindo um pouco, e ao mesmo tempo não saindo, da questão de Honduras - onde o governo brasileiro assumiu definitivamente o papel vergonhoso de embaixador do chavismo -, leio na VEJA desta semana uma reportagem muito interessante, de autoria de Fábio Portela, sobre o grupo mais esquisito e folclórico da política brasileira: o bloco de partidos nanicos de esquerda, que insistem no delírio de que o marxismo não morreu e que o capitalismo, este sim, está condenado inexoravelmente a desaparecer, e em outras sandices do tipo.

O texto, intitulado "O Socialismo Não Morreu (Para Eles)" e ilustrado com uma caricatura de Karl Marx no leito da UTI recebendo cuidados médicos de alguns representantes dessa fauna exótica, aborda os membros do credo esquerdista da única maneira possivel a alguém com a cabeça sobre os ombros: com a pena da galhofa, como diria Machado de Assis. A coleção de chavões repetidos como dogmas pelos Lênins e Trotskys brasileiros, como um tal Zé Maria, do PSTU - "O importante é a revolução. Ela está chegando, e nós estamos preparados. Haverá uma insurreição do povo. Vamos derrubar o governo e mudar o regime" etc. -, de tão risível, só pode ser recebida com escárnio. Os esquerdopatas brasileiros são mesmo uns tontos - ou militontos, como já escrevi aqui, perdidos em delírios revolucionários e eternamente à espera do D. Sebastião bolchevique que irá matar o dragão capitalista e abrir as portas para um futuro brilhante sob a ditadura do proletariado. Gente como Zé Maria, Ivan Pinheiro (do minúsculo PCB), Heloísa Helena (PSOL), Renato Rabelo (PCdoB) e um tal Rui Costa Pimenta (de um tal PCO) estão muito além do alcance de qualquer racionalidade. Não há dúvida que se trata de um caso de hospício. Não há nenhuma divergência quanto a isso.

O problema, porém, está em que a reportagem de VEJA parece se esquecer de um fato essencial: há loucos mansos e há loucos perigosos. Existem os doidos divertidos e os doidos de se botar camisa-de-força. E os extremistas de esquerda, ainda que sejam uns débeis mentais, não têm nada de mansos ou de malucos-beleza. Muito pelo contrário.

A revista erra, e erra feio, a meu ver, quando acrescenta ao quadro patético dos bolcheviques tupiniquins a seguinte observação: "Os esquerdistas radicais formam um grupo tão curioso quanto inofensivo". E: "As ideias disparatadas desses partidecos dão certo colorido à democracia brasileira, nada mais. Ao sonharem com o pesadelo da restauração socialista, seus militantes conseguem apenas criar para si próprios uma imagem folclórica".
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é que está. Malucos, delirantes, ridiculos, idiotas, isso os radicais esquerdistas são mesmo. Mas inofensivos, de jeito nenhum! Inofensivos, coisa nenhuma!
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Do mesmo modo, é óbvio que as idéias que defendem são disparatadas, mas que "dão um certo colorido à democracia brasileira", é algo discutível. A menos que a cor em questão seja o vermelho-sangue, o vermelho-genocídio.
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Talvez seja um reflexo da época em que fui simpatizante de uma organização trotskista, lá pelos meus vinte e poucos anos, mas o fato é que não consigo enxergar os esquerdistas radicais, bem como os esquerdistas em geral, como gente normal, ou como pessoas com quem se possa conviver em sociedade, sem manter com eles um pé atrás, como se deve manter com quem rasga dinheiro, ouve vozes ou baba pelo canto da boca. Se tem uma coisa que aprendi, é que não existe comunista inofensivo, assim como não existe nazista inofensivo. Assim como não existe charlatão inofensivo, aliás.
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Não custa nada lembrar: Hitler era considerado por muita gente séria, antes de chegar ao poder, um maluco, um fanfarrão ou um palhaço, nada mais do que isso. A mesma visão tinham muitos sobre Hugo Chávez, e alguns ainda têm. Esquecem-se, assim, que o fato de o sujeito ser um bufão ou acreditar em duendes não o torna menos propenso à irracionalidade, ou à concretização de suas ameaças. Ocorre exatamente o contrário: é justamente por serem uns imbecis, uns doidos de pedra, que os esquerdistas radicais, assim como seus primos nazistas, são perigosos e precisam ser vigiados.

É um erro gravíssimo subestimar a capacidade da esquerda de espalhar terror e destruição, com base no caráter obviamente delirante de suas idéias. É mais que um simples erro, na verdade; trata-se de um cacoete ideológico: ninguém em sã consciência deixa de ficar minimamente preocupado quando um grupo de skinheads e adoradores da suástica aparece nas ruas, defendendo abertamente o extermínio de judeus e outras minorias. Com efeito, ninguém deixaria de levar a sério essas ameaças dos neonazistas, mesmo estando eles organizados em grupelhos ridículos e inexpressivos. Suas idéias, delirantes como são, não seriam consideradas inofensivas, e as autoridades ficariam alertas contra qualquer demonstração de intolerância da parte deles. E é assim que deve ser: nenhuma pessoa, pelo menos nenhuma pessoa decente, deixaria de defender vigilância cerrada sobre os discípulos de Hitler, e a imprensa vez ou outra alerta para esse fenômeno com matérias bombásticas e sensacionalistas. Então por que, com os adeptos do credo comunista, que deixou um rastro de mais de cem milhões de mortos, deve-se agir de maneira diferente?

Fala-se muito em fim do comunismo, em morte do comunismo etc. Mas vejam que curioso: o nazismo e o fascismo desapareceram há quase setenta anos e ainda hoje o espectro desses regimes totalitários assombra a Europa, gerando apreensão nos países democráticos. Já o comunismo deixou de existir como realidade estatal há vinte anos, e já é dado como morto e enterrado, como uma coisa pertencente unicamente ao passado. E isso mesmo apesar da existência, ainda hoje, de ditaduras comunistas como em Cuba e na Coréia do Norte, e guerrilhas narcomarxistoterroristas como as FARC. Não vejo como não enxergar nisso um duplo padrão ideológico, uma certa negligência ou cumplicidade em relação ao comunismo. Se uma pessoa com problemas mentais se mutila e diz ter sido atacada por neonazistas em algum país europeu, ou se aparecem cartazes com a suástica, a gritaria é geral e imediata: fala-se em renascimento do nazismo etc. etc. Se, por sua vez, alguém denuncia o perigo de uma nova onda comunista na América Latina, apontando a natureza intrinsecamente genocida e totalitária do comunismo, é imediatamente tachado de louco ou de extremista de direita. É nesse momento que se faz sentir o peso da ação das patrulhas esquerdistas: todos fazem questão de alardear seu antifascismo, mas ninguém tem coragem de se dizer, em público, anticomunista. Essa negligência em relação a uma ideologia que matou milhões chega a ser suspeita: é mesmo uma fórmula para o suicídio.

Um mantra repetido incessantamente é que qualquer condenação ou preocupação com o comunismo é exagerada e significa apenas reacionarismo porque, afinal de contas, os esquerdistas radicais não passam de uma minoria insignificante, são apenas uma meia dúzia de gatos pingados excêntricos e saudosistas, sem qualquer influência sobre a realidade etc. É um erro terrível. Primeiro, os comunistas sempre foram minoria - foi assim também na época da Guerra Fria, nos países ocidentais -, e nem por isso a "ameaça vermelha" (sempre com aspas) era inexistente (o caso de Cuba é exemplar). Segundo, e o mais importante, são precisamente as minorias, e não as massas acéfalas e amorfas, que conduzem a História e fazem as revoluções, já dizia o próprio Lênin. Foi assim na Rússia, em 1917 - onde os bolcheviques, apesar do nome (que em russo significa maioria), estavam longe de constituírem a maioria do movimento revolucionário russo, e mesmo do movimento operário, até às vésperas da tomada do poder. Foi assim também na China, no Leste da Europa, em Cuba, enfim, em todos os países que tiveram a infelicidade de se transformarem em tiranias comunistas: são minorias de militantes profissionais, seguindo uma disciplina rígida, que tomam de fato o poder político e instalam a ditadura. O povo, as massas, a maioria da população, limita-se a assistir a tudo passivamente, ou a ser conduzido como gado. O movimento, porém, é sempre levado adiante por um pequeno grupo, de maneira subterrânea e legal ao mesmo tempo. Nesse processo, essa minoria trata de impingir, gradativamente, sua visão de mundo, de forma quase anestésica, a fim de alcançar aquilo que o maior teórico marxista depois de Lênin, o italiano Antonio Gramsci, chamou de "hegemonia", "ocupando espaços" na imprensa, nas escolas, nas artes etc., transformando-se, assim, em maioria ideológica. Até que, quando se dão por si, as pessoas estáo repetindo mecanicamente, sem pensar e sem o saber, as platitudes marxistas - desprezando a ameaça da esquerda radical, por exemplo, substituindo a vigilância necessária pela troça que alivia. No Brasil, esse processo está bastante adiantado, como pode facilmente perceber qualquer um que visitar um departamento de Ciências Sociais em qualquer universidade pública ou mesmo privada brasileira.
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Um outro lugar-comum repetido com ares de verdade revelada afirma que se preocupar com o comunismo hoje é um absurdo, pois este não passa de uma ideologia obsoleta e ultrapassada, pertencente ao museu das idéias. É uma tese falsa pela seguinte razão: algo obsoleto, como um vídeocassete ou uma máquina de escrever, é algo que cumpriu uma função por um determinado tempo, que teve uma utilidade durante um certo período, e depois caiu em desuso. Não é esse o caso do comunismo, que ruiu não porque fosse "obsoleto", mas porque constitui uma ideologia incompatível com a noção de liberdade humana. Afirmar que o comunismo não passa de uma ideologia embolorada pode até servir para sublinhar a superioridade do sistema capitalista sobre o dirigismo estatal, mas significa admitir que, em certa época e em certo lugar, as idéias de Marx e Lênin tiveram uma função importante, até mesmo humanitária - algo que a pilha de cadáveres que deixaram pelo caminho desmente de maneira rotunda. É inegável que o capitalismo é superior ao socialismo, e que as idéias de Marx e Engels cheiram a mofo. Mas isso não quer dizer que se deve baixar a guarda.

É por essas e outras que, diante dos marxistas de galinheiro brasileiros, eu prefiro conter o riso, mesmo sabendo-o difícil, e prestar atenção no que dizem os zés marias e heloísas helenas da vida. Mesmo correndo o risco de prestar involuntariamente um serviço a esses lúnáticos, dando-lhes alguma importância, prefiro fazer isso a me refugiar numa cálida e despreocupada hilaridade, que acalma a consciência, mas cega para o perigo. Acredito que com doidos pode-se até dar umas risadas, mas jamais aceitaria uma carona de um deles. Contra os inimigos da liberdade, principalmente os insanos, toda cautela é pouca. Do contrário, teremos motivos não para rir, mas para chorar.

terça-feira, setembro 29, 2009

UMA ANÁLISE PURAMENTE JURÍDICA SOBRE A CRISE EM HONDURAS


Sei que muita gente já não agüenta mais ouvir falar na crise em Honduras, ainda mais agora, quando o governo brasileiro se converteu em porta-voz do golpismo bolivariano. Mas insisto no assunto. Sua importância transcende, como disse no último post, os limites do país. Também estou ciente que, por mais que eu exponha argumentos provando, por A mais B, que não houve golpe de Estado, muito menos "golpe militar", coisíssima nenhuma, e que o único golpista no caso é Manuel Zelaya, ainda haverá quem pense que só estou dizendo isso porque sou um, como é mesmo?, "conservador", "direitista", "reacionário" - enfim, um "lacaio do imperialismo ianque" (embora o imperialismo ianque, nesse caso, esteja mais pro lado de Zelaya...). Ou, para ser mais sutil, porque tenho uma visão demasiadamente parcial, turvada por uma opção ideológica etc. etc.

Então, para essas pessoas, preparei um texto diferente. Para que não me chamem de "radical", "parcial", "tendencioso", ou outro adjetivo semelhante, não vou apresentar, aqui, nenhum argumento contra Manuel Zelaya e seus apoiadores Lula e Hugo Chávez. Não vou expressar nenhuma opinião. Vou me limitar a reproduzir o que diz a Lei - de Honduras e internacional -, e compará-la com os fatos. Somente isso. Nada mais. As conclusões ficam por conta de quem ler.

Comecemos com a Constituição da República de Honduras. Lá está escrito, no Artigo 42:

ARTICULO 42.

- La calidad de ciudadano se pierde:
(...)
2. Por prestar ayuda en contra del Estado de Honduras, a un extranjero o a un gobierno extranjero en cualquier reclamación diplomática o ante un tribunal internacional;
3. Por desempeñar en el país, sin licencia del Congreso Nacional, empleo de nación extranjera, del ramo militar o de carácter político;
4. Por coartar la libertad de sufragio, adulterar documentos electorales o emplear medios fraudulentos para burlar la voluntad popular;
5. Por incitar, promover o apoyar el continuismo o la reelección del Presidente de la República; (...)


Lembremos os fatos: em 28 de junho passado, Manuel Zelaya, então presidente de Honduras, convocou um plebiscito para decidir sobre sua reeleição ao governo. Com isso, incitou, promoveu e apoiou o continuísmo e a sua reeleição como presidente da República. A Constituição diz: quem fizer isso perde a qualidade de cidadão. Ou seja: deixa de ser cidadão hondurenho. Mais claro, impossível.

O Artigo 237 estabelece qual é a duração do período do mandato presidencial:

ARTICULO 237.

- El período presidencial será de cuatro años y empezará el veintisiete de enero siguiente a la fecha en que se realizó la elección.

Lembrando: Manuel Zelaya afrontou o Artigo 42, que pune com a perda da cidadania hondurenha quem incitar ou promover a reeleição presidencial. O Artigo 237 reforça essa idéia, deixando claro que o mandato é de quatro anos. Novamente: claro, claríssimo.

Agora, leiam o que diz o Artigo 239 da Constituição da República de Honduras:

ARTICULO 239.

- El ciudadano que haya desempeñado la titularidad del Poder Ejecutivo no podrá ser Presidente o Designado.

El que quebrante esta disposición o proponga su reforma, así como aquellos que lo apoyen directa o indirectamente, cesarán de inmediato en el desempeño de sus respectivos cargos, y quedarán inhabilitados por diez años para el ejercicio de toda función pública.

A redação é um pouco abilolada, e pode até causar uma certa confusão sobre quem seria "presidente" ou "designado". Mas o que está dito aí em cima não dá margem à dúvida: quem propor a mudança do que está na Lei perde de imediato o cargo que exerce. Ou seja: quando houve o tal "golpe" contra Zelaya, quando ele foi preso e expulso do país de pijamas, segundo foi dito ad nauseam nos últimos meses, ele já havia perdido o mandato, já não era mais presidente da República. A Lei deixa claro que o mandato presidencial é de quatro anos e que quem incitar o continuísmo ou a reeleição do presidente da República - o que Zelaya fez - perde até a cidadania. Quem diz isso não sou eu: é a Constituição do país.

Zelaya, diante do que está acima, alega que o disposto nos Artigos 42 e 239 se aplica a outros funcionários, menos ao presidente da República. Em outras palavras: a Lei vale para todos, menos para ele, Zelaya. Ou seja: o bigodudo acredita que está acima da Lei. Acho que isso diz tudo.

Dito de outro modo: Zelaya cometeu uma falta absoluta contra a Carta Magna de seu país, inabilitando-se, portanto, para continuar na presidência. Quem deve, nesse caso, assumir a presidência? A Constituição também prevê isso:

ARTICULO 242.

- Si la falta del Presidente fuere absoluta, el Designado que elija al efecto el Congreso Nacional ejercerá el Poder Ejecutivo por el tiempo que falte para terminar el período constitucional. Pero si también faltaren de modo absoluto los tres designados, el Poder Ejecutivo será ejercido por el Presidente del Congreso Nacional, y a falta de este último, por el Presidente de la Corte Suprema de Justicia por el tiempo que faltare para terminar el período constitucional.

Quem é o presidente atual de Honduras? Chama-se Roberto Micheletti, que antes ocupava o cargo de presidente do Congresso. Diante do afastamento do titular por violar a Lei, ele assumiu as rédeas do governo, para completar o mandato presidencial, conforme diz a Carta Magna. Também se comprometeu a realizar as eleições presidenciais, tal como está previsto no calendário eleitoral, inclusive com candidatos ligados a Zelaya. Tudo conforme a Constituição hondurenha. Mas, para grande parte da imprensa internacional, Zelaya foi vítima de "golpe" e Micheletti é o chefe de um governo "golpista". Será que os redatores dos jornais leram a Constituição de Honduras antes de dizer isso? Pelo visto, não.

E assim continua a Constituição de Honduras, que parece que ninguém leu. O Artigo 245 afirma, por exemplo:

ARTICULO 245.

- El Presidente de la República tiene la administración general del Estado: son sus atribuciones:
1. Cumplir y hacer cumplir la Constitución, los tratados y convenciones, leyes y demás disposiciones legales; (...)
37. Velar porque el Ejército se apolítico, esencialmente profesional y obediente; (...)

Mais uma vez, vamos recordar os fatos: ao convocar o plebiscito declarado ilegal e inconstitucional pela Suprema Corte do país, Zelaya deixou de cumprir os Artigos 42, 237, 239 e 242 da Constituição de seu país. Também violou abertamente o que está no Artigo 245, primeiro porque rasgou a Lei e segundo, porque ordenou ao comandante do Exército que levasse adiante o tal plebiscito, contra determinação legal do Judiciário e do Congresso, tentando usar as Forças Armadas do país como sua milícia particular. Creio que também não há o que se discutir aqui.

Já vimos que o que ocorreu em Honduras em 28/06 não foi golpe, não foi quartelada: foi um movimento para preservar a Lei. Agora, vejamos o que diz a Lei internacional sobre o "abrigo" concedido pelo governo brasileiro a Zelaya.

O governo brasileiro, em conluio com Hugo Chávez e Daniel Ortega, deu guarida a Zelaya e a mais uns 300 militantes seus, que ocuparam o prédio da embaixada brasileira em Tegucigalpa. Desde então, Zelaya transformou a embaixada em seu escritório político, insuflando a insurreição no país. Não é um asilado político, condição em que não poderia abrir a boca para falar de política, mas um, como disseram Lula e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, "hóspede oficial" do governo brasileiro. Tendo a embaixada virado um QG de Zelaya, de onde ele coordena a ação de seus partidários no país, está caracterizada a intervenção brasileira num assunto interno de Honduras, o que contraria frontalmente todas as convenções internacionais vigentes. Vejamos o que diz a respeito a Carta da OEA, a mesma OEA cujo secretário-geral, o socialista chileno José Miguel Insulza, condenou duramente o "golpe" que derrubou Zelaya e exige seu "imediato retorno" ao poder em Honduras.

Artigo 19:

Nenhum Estado ou grupo de Estados tem o direito de intervir, direta ou indiretamente, seja qual for o motivo, nos assuntos internos ou externos de qualquer outro. Este princípio exclui não somente a força armada, mas também qualquer outra forma de interferência ou de tendência atentatória à personalidade do Estado e dos elementos políticos, econômicos e culturais que o constituem.

Esse Artigo foi citado infinitas vezes, nas últimas cinco décadas, para condenar o "imperialismo" norte-americano no caso de Cuba. Estranhamente, não vi ninguém no governo brasileiro, ou em qualquer governo, mencionar esse artigo, ou o princípio da não-intervenção, no caso de Honduras.

Já falei da Constituição hondurenha e da Carta da OEA. Agora vamos ao Artigo 4 da Constituição brasileira de 1988:

Art. 4. A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios:
I – independência nacional;
IV – não-intervenção;
V – igualdade entre os Estados;
VII – solução pacífica dos conflitos.


O que está aí em cima, eu nem precisaria dizer, não fui eu que inventei: não é fofoca, não é opinião, não é propaganda. É o que está na Lei. Ponto.
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Então, ainda crêem que Lula e Celso Amorim estão certos e agindo, no caso de Honduras, em conformidade com o Direito Internacional? Ainda têm alguma dúvida sobre quem é golpista e quem agiu para defender e preservar a Lei? Sobre quem rasgou a Lei e quem agiu para que ela fosse cumprida?

Pouco a pouco, o rosário de mentiras sobre a crise em Honduras vai se desfazendo. Pouco a pouco, a verdade vem à tona, embora ainda timidamente, abrindo caminho em meio a um oceano de propaganda e desinformação. Até o representante do governo Obama na OEA parece ter percebido que o apoio escancarado a Zelaya já está dando muito na vista, e começou a criticar a irresponsabilidade dos governos brasileiro e venezuelano em patrocinarem a volta do bigodudo. Falta reconhecer o óbvio, porém: que golpista é ele, Zelaya, e não Micheletti, como os artigos acima - todos violados por Zelaya e seus cúmplices internacionais - deixam claro.

Um jurista baiano do começo do século passado disse certa vez que, fora do Direito, não há saída; que, fora do Direito, só há a barbárie. Nunca essas palavras foram tão verdadeiras.

segunda-feira, setembro 28, 2009

RESPOSTA AO LEITOR - SOBRE HONDURAS, ZELAYA, OBAMA, ESQUERDA, DIREITA ETC...

Um leitor, o Zan, me escreve solicitando que eu esclareça alguns pontos confusos na confusa e, ao mesmo tempo, claríssima situação em que o governo Lula se envolveu em Honduras. Respondo com prazer, pois percebo que suas dúvidas são pertinentes e ele parece estar sinceramente em busca de respostas que o permitam pensar com a própria cabeça e ver a realidade, turvada pela lavagem cerebral sistematicamente realizada pela imprensa dita "séria" sobre a questão nos últimos meses. Creio que suas dúvidas são as de muitas pessoas, nesses dias sombrios.
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Zan me pergunta por que Obama está a favor da retomada do poder pelo golpista bolivariano Manuel Zelaya em Honduras. Que interesse, enfim, teria o governo dos EUA em apoiar um sujeito que é aliado de Chávez etc.
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Caro Zan, suas dúvidas já foram por mim respondidas. Escrevi um texto aqui no dia 7 de julho, pouco mais de uma semana após o "golpe" que expulsou Zelaya do poder em Honduras, que acredito as respondem plenamente. Basta acessar o link: http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2009/07/nova-doutrina-monroe-segundo-barack.html. Você perceberá, ao ler o post, que o antiamericanismo, essa doença infantil do esquerdismo, chegou à Casa Branca.
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Zan também diz estar confuso, pois não sabe dizer onde fica a direita e onde fica a esquerda no imbróglio hondurenho. Quanto a isso, tenho a dizer o seguinte: se você considera ser de "esquerda" defender o solapamento das instituições democráticas por meio de plebiscitos, mudando a seu bel-prazer cláusulas pétreas da Constituição a fim de se perpetuar no poder e instaurar uma ditadura caudilhesca e personalista, com um discurso vigarista de "justiça social" e um antiamericanismo tosco, então Manuel Zelaya, assim como Hugo Chávez e Barack Obama, que apóia essa palhaçada, são inegavelmente de esquerda. Se, ao contrário, você considera ser "de direita" colocar-se intransigentemente em defesa da Democracia e das liberdades públicas e individuais, a favor da Constituição e do governo das leis, e não dos homens, contra a maré chavista-bolivariana que quer transformar a América Latina numa fazendona de Hugo Chávez, então, não há dúvida, você é de direita. Eu já fiz minha escolha.
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Zan tem a mesma dúvida em relação ao apoio do esquerdista Lula ao "direitista" José Sarney. Ele me pergunta: se Sarney era da ARENA e do PDS, partidos de sustentação do regime militar, como pode hoje ser um dos principais aliados de Lula da Silva, o herói da classe operária?
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Também já respondi a essa questão em vários outros posts. Mas a retomo, para fins didáticos. A primeira coisa a ter em mente é que Lula e o PT - a esquerda, portanto - têm um único compromisso, um único, digamos, ideal: o PODER, custe o que custar, da maneira como for. Durante umas duas décadas, o caminho para o poder foi construído com um discurso ideológico, contra a "direita". Depois, a partir dos anos 90, assumiu outra forma: a defesa da "ética", antes desprezada como um discurso "moralista burguês". Com isso, enganaram muita gente, conquistando eleitores. Finalmente, hoje, Lula e o PT, uma vez no poder, deixaram cair a máscara, admitindo que tudo que disseram antes era apenas bravata, governando com base em alianças com quem antes chamavam de ladrão e outras coisas mais, como Sarney e Collor. Ou seja: era tudo - a defesa da democracia e da ética etc. - um discurso puramente instrumental, importante porque útil, não porque acreditavam nele.
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Trocando em miúdos: não importa, para os lulistas, se o sujeito foi aliado dos militares, se é coronel, bandido, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, bicheiro ou traficante de drogas: o importante é o "pudê", e só. O único critério para definir o caráter de alguém, para essa gente, é o seguinte: é meu aliado? então pode tudo; não é meu aliado? então, tome porrada!... Ou seja: se antes Lula e o PT jogavam lama em seus adversários, apresentando-se como os únicos "puros" em meio a tantos políticos safados, hoje fazem questão de dizer que são iguais a todos, redimindo quem antes esculhambavam. Desse modo, garantem a maior base de apoio possível ao governo, ao mesmo tempo em que podem dizer que fazem isso "pelo bem de todos". Não foi por acaso que alguém disse que o PT é a maior lavanderia de reputações já surgida no Brasil.
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À primeira vista, isso parece simples desonestidade e cafajestagem, mero oportunismo e falta de princípios políticos. Desonestidade, além de cafajestagem e oportunismo (os lulistas preferem dizer "pragmatismo"), é claro que é, mas não devemos nos deixar levar pelas aparências. Há, na verdade, uma coerência lógica e diabólica nessas idas-e-vindas todas. É a mesma coerência que fez Zelaya, um latifundiário e "direitista", aderir ao discurso bolivarianiano, tido como de esquerda. É, na verdade, uma tática: não se trata tão-somente de mentir e enganar o público, mas de mentir e enganar tendo em visto um supremo ideal - o poder. É por esse motivo que Lula se identifica tanto com Chávez e Fidel Castro, assim como com Collor e Renan Calheiros.
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Finalmente, Zan: é claro que, quando eu disse que Lula deveria entregar Zelaya à Justiça hondurenha, fiz isso apenas para ilustrar a situação. É óbvio que o Apedeuta não fará isso. Lula e Zelaya fazem parte do mesmo plano, assim como Chávez e, me convenço cada vez, Obama. Ele entregaria Zelaya, ou pelo menos lhe concederia o status de asilado político (nem isso ele é), se tivesse algum compromisso com a Democracia e com a vergonha na cara. Em vez disso, prefere transformar a embaixada do Brasil em Honduras em escritório político de Zelaya, para que o bigodudo insufle a guerra civil no país. Espera, na verdade, que o governo hondurenho invada a embaixada, para ter assim uma desculpa e gritar contra esse "ataque à soberania" brasileira - fazendo todos esquecerem a agressão brasileira à soberania de Honduras. (Aliás, é engraçado: se o Brasil não reconhece o governo hondurenho, por que "exige" que ele não invada a embaixada?)
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É isso. Espero que tenha ajudado a esclarecer essas questões.

sábado, setembro 26, 2009

O QUE ESTÁ EM JOGO EM HONDURAS


Desculpem se o texto a seguir parecer muito sério e mal-humorado. Mas o assunto exige. Trata-se de algo sério, muito sério mesmo. Sério demais para ser tratado com uma linguagem amena ou em tom de blague ou de ironia.

Há mais coisas em jogo na atual crise política em que o Brasil se meteu em Honduras do que supõem nossas vãs diplomacia e filosofia de botequim.

A coisa é grave. Muito grave. Gravíssima. Eu diria mesmo que é a situação mais grave e perigosa envolvendo o Brasil em décadas.

O que está verdadeiramente em jogo não é somente o destino da pequenina e pobre Honduras. É o destino de toda a América Latina. Melhor dizendo: é se o continente deve sucumbir à maré chavista-bolivariana ou se deve resistir e preservar as instituições e a forma democrática de governo. Mais: é o próprio conceito de democracia como governo das leis, e não dos homens, que está sendo colocado em questão.

Se Manuel Zelaya retomar o poder em Honduras, tal como querem Lula e Hugo Chávez, isso significará o seguinte:

- um presidente da República - em Honduras ou em qualquer país -, a pretexto de que foi eleito pelo povo e de forma democrática, terá carta-branca para convocar um plebiscito declarado ilegal e inconstitucional pelos demais poderes do país para reeleger-se e substituir a vontade de povo pela sua própria, rasgando, assim, a Constituição e desfechando, portanto, um golpe civil;

- um movimento cívico para deter essa tentativa de violar a ordem constitucional e preservar a Carta Magna, que proíbe terminantemente qualquer tentativa de reeleição, levado adiante pelo Legislativo e pelo Judiciário, com o apoio da maioria da população, será considerado não uma mobilização a favor da democracia, mas um "golpe de Estado";

- para reinstalar no poder o presidente golpista deposto, declarado traidor da pátria segundo a Constituição, um governo estrangeiro poderá intervir abertamente nos assuntos internos do país, mediante ameaças de uso da força militar, e inclusive planejando um banho de sangue, violando seu espaço aéreo e enviando militantes armados para promover a insurreição;

- um governo estrangeiro também poderá patrocinar a volta clandestina do golpista deposto, abrigá-lo junto com uma multidão de militantes em sua embaixada, e permitir a transformação desta em quartel-general de onde ele possa insuflar a guerra civil no país - uma clara violação da soberania nacional e da não-intervenção, princípios que devem reger as relações entre os Estados e que ficarão reduzidos, assim, a palavras vazias;

e, finalmente,

- estará provado que violar a Lei Máxima do país, em nome da "revolução bolivariana" ou do que seja, NÃO é golpe, e que defender a Constituição (e, portanto, a democracia) é "golpismo" e "extremismo de direita".

Entenderam a gravidade da situação? Ou será que fui muito sutil?

O bolivarianismo já se apoderou de Venezuela, Bolívia, Equador, Cuba, Paraguai, Argentina, Nicarágua e El Salvador. E também do Brasil, onde a máscara de bom-mocismo de esquerda light ou "vegetariana" do governo Lula caiu por terra diante da militância ativa pró-Chávez e, agora, pró-Zelaya, do Itamaraty. Essa onda populista e autoritária ameaça vários outros países da região, como Peru e Colômbia (onde está representada pelos narcoterroristas das FARC, que contam com o apoio de Chávez e Correa e com a "neutralidade" de Lula), e tentou apossar-se de Honduras. Mas lá os bolivarianos esbarraram num problema: Zelaya tem o apoio de menos de 30% da população e, ao contrário do que ocorreu em outros países, não conseguiu botar no bolso o Congresso e a Suprema Corte, além dos militares, que mantiveram sua independência em relação ao Executivo. Daí que o país tenha podido se mobilizar e expulsá-lo do poder, onde pretendia - e pretende, com a ajuda do Brasil - eternizar-se. E isso os governos da região aliados de Chávez, como o de Lula, simplesmente não podem perdoar: daí porque trataram imediatamente de tentar esmagar Honduras, não reconhecendo o novo governo e cortando qualquer ajuda ao país. Mas Honduras resiste bravamente, tal qual aldeia gaulesa, a esse ataque à sua soberania.

Enquanto isso, enquanto Lula e Chávez intervêm abertamente e violam a soberania de Honduras, com o apoio de Barack Hussein Obama (parece que o bolivarianismo chegou ao "império", finalmente), esses mesmos governantes, em nome dos mesmos princípios de "respeito à soberania" e "não-intervenção", são capazes de juntar no mesmo parágrafo num discurso na ONU, como fez Lula, a "volta à democracia" em Honduras e a defesa do fim do embargo norte-americano a Cuba, onde vigora há cinqüenta anos uma das tiranias mais opressivas do planeta. Fazem mais, e preparam o caminho para o retorno da ditadura castrista à Organização dos Estados Americanos. Alguém aí pensou em duplo padrão moral e em hipocrisia?

Na crise de Honduras, a diplomacia brasileira está desempenhando um dos papéis mais vergonhosos de sua História, papel este que macula a tradição de Rio Branco. Como se não bastasse ter dado abrigo a um gólpista, ao que tudo indica tendo participado do plano secreto que o reintroduziu no país, o governo Lula permitiu que sua representação diplomática em Tegucigalpa se convertesse num escritório político e num palanque para que Zelaya incite a rebelião e o confronto no país. Desse modo, interveio diretamente na realidade política de um Estado soberano, um delito seríissimo à luz do Direito Internacional, além de ter colocado em risco a integridade física da comunidade brasileira residente naquele país, que se tornou alvo de hostilidade por causa disso. Mais: o governo brasileiro tornou-se responsável por todo o sangue que for derramado em Honduras.

Apesar disso, e como sempre resta uma esperança, ainda há uma chance de o Brasil se redimir e sair com alguma dignidade do imbróglio que ajudou a agravar em Honduras: basta entregar ao governo constitucional hondurenho - o governo de Roberto Micheletti - o golpista Manuel Zelaya, para que ele responda perante a Justiça pelos crimes que cometeu, conforme a Lei que ele tão despudoradamente tentou violar, ao convocar uma consulta ilegal e inconstitucional. Mais precisamente, Zelaya deve responder pela violação dos Artigos 42, 237 e 239 da Constituição da República de Honduras, que punem com a perda automática do mandato e da própria cidadania hondurenha qualquer um que tente mexer na Lei para mudar as regras das eleilções e propor a reeleição. Até o Jornal Nacional parece ter acordado para esse detalhe, que passou até aqui praticamente despercebido, tendo mudado, aparentemente, o tratamento dispensado ao "governo de fato" de Roberto Micheletti (de "governo golpista", este passou a ser chamado de "governo interino"; menos mal, mas não é o bastante: trata-se do governo de facto e de jure de Honduras). Feito isso, ou seja, uma vez entregue Zelaya para julgamento, Lula e Celso Amorim deveriam humildemente pedir desculpas ao povo hondurenho por terem se imuscuído num assunto interno de seu país, além do mais apoiando um golpista como se este fosse um democrata.

Essa é a única maneira de o Brasil preservar um mínimo de respeitabilidade na questão, perante o povo de Honduras e perante a História. Mas sei que, infelizmente, isso não vai acontecer. Lula está comprometido demais com os bolivarianos para realizar esse gesto de grandeza. Quem já inventou a desculpa de que não sabia de nada nos casos do mensalão e dos aloprados, para não falar dos mais recentes (Sarney etc.), certamente não vai se dar ao trabalho de desculpar-se por mentir também no plano internacional.

Tenho uma aversão quase instintiva à linguagem panfletária, tão apreciada pelos esquerdistas. Considero o estilo dos manifestos políticos, além de estilisticamente pobre, um insulto à inteligência. Mas, acredito, não há método mais adequado para reverter a lavagem cerebral que se fez nos últimos meses sobre a questão de Honduras senão repetir alguns slogans. Creio que essa é a melhor maneira de fixar em algumas mentes alguns fatos básicos, sistematicamente ignorados ou distorcidos. Por isso, sugiro as seguintes palavras de ordem, caso alguém esteja pensando em fazer alguma manifestação:

- NÃO HOUVE GOLPE DE ESTADO EM HONDURAS!

- EM DEFESA DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DE HONDURAS!

- VIVA A RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA HONDURENHA!

- PELO FIM DO BLOQUEIO E DO CERCO INTERNACIONAIS A HONDURAS!

- LULA, CHÁVEZ, ORTEGA, OBAMA, ONU, OEA ETC.: RESPEITEM A SOBERANIA DO POVO HONDURENHO!

- ABAIXO O GOLPISMO BOLIVARIANO!

- NÃO AO CAUDILHISMO! NÃO AO TOTALITARISMO!

- VIVA A DEMOCRACIA! VIVA O GOVERNO DA LEI, E NÃO DOS HOMENS!

- TIREM AS MÃOS DE HONDURAS!
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- FORA ZELAYA! FORA CHÁVEZ! FORA LULA!

quinta-feira, setembro 24, 2009

HONDURAS: O BRASIL A SERVIÇO DO GOLPISMO BOLIVARIANO




Vou logo avisando: se você é uma Poliana lesa, do tipo que acha que os governos só querem o nosso bem e que avisos contra as intenções totalitárias de certos políticos não passam de "rumores de internet", ou de devaneios de alguns doidos solitários de extrema-direita, então não leia este texto. Não perca seu tempo, nem o meu. Você não vai gostar do que vou dizer. Pior: poderá concordar com o que está escrito aqui e, nesse caso, seu mundo cor-de-rosa virá abaixo.
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Está feita a advertência. Vamos lá.
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Se ainda restava alguma dúvida de que o governo Lula está comprometido até o último fio de barba com a corriola bolivariana que quer destruir a democracia na América Latina, os acontecimentos em Honduras a enterraram para sempre. Se havia ainda alguma ilusão no lulismo como uma alternativa "moderada" e "vegetariana" ao radicalismo carnívoro chavista, os fatos desta semana demonstraram com didatismo que ambos estão do mesmo lado, fazem parte do mesmo plano totalitário para subverter as instituições e instalar regimes antidemocráticos no continente.
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O abrigo ao golpista bolivariano Manuel Zelaya - subitamente promovido a "vítima de golpe" e a democrata - na embaixada do Brasil em Tegucigalpa vem demonstrar aquilo que venho afirmando há tempos neste blog: que Lula, Chávez, Castro, Morales, Correa, Ortega, Lugo, Kirchner, Funes, a OEA, a ONU (com o Secretário-Geral Miguel d'Escoto) e Babaca Obama estão todos irmanados, fazem todos parte do mesmo time. Em que pesem diferenças pontuais ou cosméticas, todos esses senhores têm um único e mesmo objetivo final: a substituição de governos democráticos por ditaduras personalistas e caudilhescas, regidas pelos princípios emanados do Foro de São Paulo.
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Ao conceder o refúgio a Zelaya, o governo brasileiro rasgou o último véu que lhe dava alguma respeitabilidade e que encobria sua cumplicidade com o projeto bolivariano. Zelaya, o próprio chanceler Celso Amorim admitiu, não está na embaixada do Brasil - para onde se mudou com a mulher e mais uma penca de militantes - na condição de asilado político. Não lhe foi concedido asilo, em primeiro lugar, porque ele não está sendo vítima de perseguição política, ocasião em que o asilo é previsto segundo a lei internacional, e desde que o asilado se comprometa a não se envolver em atividades políticas. Pelo contrário, Zelaya entrou no país, clandestinamente e com o apoio de Hugo Chávez, para retomar o poder - na porrada, se preciso. Para tanto, ele transformou a embaixada do Brasil em seu escritório político, de onde está insuflando a insurreição e a guerra civil no país. Além disso, há fortes indícios de que a entrada de Zelaya em Honduras foi planejada durante visita dele ao Brasil, há cerca de um mês. Em outras palavras: a embaixada do Brasil virou um QG do golpismo bolivariano, e o Brasil está interferindo, juntamente com Chávez e Daniel Ortega, nos assuntos internos de Honduras. Pergunto: onde foram parar os princípios da não-interferência e do respeito à soberania?
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As evidências de que o aparecimento de Zelaya na embaixada do Brasil não ocorreu por acaso se acumulam a cada dia, assim como as desculpas esfarrapadas para encobrir a participação do Brasil no deflagrar da crise. Ontem vi o senador Aloízio Mercadante dizer com a cara mais séria do mundo (a mesma com a qual "revogou o irrevogável" no caso Sarney, há apenas alguns dias), que Zelaya escolheu a embaixada brasileira por causa do "papel de relevância e da respeitabilidade do Brasil no cenário internacional". Sei... O que o excelentíssimo senador não explicou é a estranha coincidência do fato com a ida de Lula às Nações Unidas. No dia seguinte, lá estava Lula, discursando na Assembléia-Geral da ONU, no seu elemento. Sobre o que ele falou? Além de vociferar contra os "golpistas" que expulsaram o companheiro Zelaya e pedir seu "imediato retorno" ao poder, ele aproveitou para defender, pela enésima vez, o fim do embargo norte-americano a Cuba... Se eu acreditasse em gnomos, diria que foi mera coincidência. Como não acredito, digo que foi uma manobra orquestrada.
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Lula deixou claro, ao falar para a imprensa, que "não podemos mais aceitar golpes" (menos os bolivarianos, claro). Justificou o abrigo a Zelaya na embaixada como se fosse a coisa mais natural do mundo. O Brasil de fato assumiu a vanguarda no cerco a Honduras. Desde que Zelaya foi deposto e expulso do país, em 28/06, o governo brasileiro cancelou a emissão de vistos a cidadãos hondurenhos e, há alguns dias, encabeçou uma manobra para expulsar o representante do "governo de fato" hondurenho do Conselho de Direitos Humanos da ONU (onde, aliás, o Brasil faz boa figura, defendendo governos democráticos como os de Cuba e do Sudão...). Para mostrar que está mesmo comprometido com os valores democráticos, nosso Líder Iluminado encontrou-se com o iraniano Mahmoud Ahmadinejad em Nova York. Coroando uma semana cheia de glórias para a diplomacia brasileira, o candidato apoiado pelo Brasil para a direção da UNESCO, o egípcio Farouk Hosni - o mesmo que disse que queimaria livros israelenses - foi derrotado (vejam como a política externa do governo Lula é um sucesso: entre a desonra e a derrota, escolheu a desonra - e teve a derrota...). Lula já está questionando a legitimidade do resultado que sair das eleições previstas para acontecerem em novembro em Honduras, por serem organizadas pelo "governo de fato". Logo ele, Lula, que reconheceu a vitória fraudulenta de Ahmadinejad nas eleições no Irã, antes mesmo dos aiatolás daquele país, e que comparou as mortes de manifestantes pró-democracia pela polícia iraniana a um arranca-rabo entre vascaínos e flamenguistas... Decisão típica de democratas, sem dúvida.
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Agora, com a embaixada em Tegucigalpa cercada por militares, os bolivarianos brasileiros tentam transformar o fato em motivo de patriotada, advertindo contra qualquer ataque ao prédio da representação brasileira. Deveriam ter pensado nisso antes de terem dado abrigo a um golpista, metendo-se na realidade interna do país e jogando a não-intervenção na lata de lixo. É certo que o prédio da embaixada, assim como a integridade física do pessoal brasileiro ali instalado, é inviolável. Assim como é a soberania de Honduras, que o governo Lula, ao permitir que Zelaya use a embaixada para fazer comício e instigar seus militantes, violou abertamente. De fato, a embaixada, por ser território brasileiro no exterior, deve ser preservada e protegida - de ser usada como base para um político golpista atiçar a guerra civil no país, em primeiro lugar. Já começou a correr sangue em Honduras, e a conta dos mortos e feridos deve ser entregue a Lula (e a Chávez, e a Ortega, e a Obama etc.).
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É preciso que fique claro, até que todos entendam: golpista é Zelaya, não Roberto Micheletti. O "golpe" foi defechado para impedir que Zelaya levasse adiante um referendo declarado ilegal e inconstitucional pelo Judiciário e pelo Legislativo do país. A Constituição de Honduras, embora vaga em alguns pontos importantes, deixa claro que quem insistir em mudar a lei para reeleger-se perderá automaticamente o mandato e será considerado traidor da pátria. Foi por isso que Zelaya caiu. Quem é golpista?
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Realmente, estranho "golpe" esse, desfechado pelas Forças Armadas com o apoio total do Congresso e do Judiciário para preservar a Constituição do país, ameaçada por um referendo ilegal e inconstitucional... Até onde eu sei, golpes de Estado são seguidos, quase sempre, do fechamento do Congresso e da instauração de alguma forma de ditadura militar, com censura permanente à imprensa, prisões arbitrárias de opositores políticos e, em alguns casos, tortura e fuzilamentos. Nada disso se verificou, até agora, em Honduras. E isso mesmo com todo o cerco internacional e midiático ao país. Também deve ser o primeiro golpe em toda a História que manteve o calendário eleitoral - eleições presidenciais estão previstas para ocorrer em 29 de novembro, e o governo provisório promete entregar o poder ao vitorioso nas urnas. O mesmo não pode ser dito de países tratados com carinho devocional por Lula e outros governantes esquerdistas, como Cuba. Foram as instituições de Honduras - o Congresso, o Judiciário, e, sim, as Forças Armadas, que também fazem parte da sociedade -, com o apoio da maioria da população, que se mobilizaram e destituíram Zelaya. Este foi deposto para que a lei fosse cumprida. Se um dia houve, na História da América Latina, um movimento verdadeiramente popular e democrático, foi esse.
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De fato, os "golpistas" cometeram um erro grave: deveriam ter prendido Zelaya, levando-o a julgamento, em vez de tè-lo expulsado do país. Com isso, deram ensejo a que os bolivarianos de todos os matizes explorassem ao máximo a estória de que Zelaya foi "seqüestrado e expulso no meio da noite, de pijamas etc." - como se isso, e não a ruptura da legalidade constitucional, caracterizasse golpe de Estado. Subestimaram o alcance e a capacidade de mobilização da maré chavista-bolivariana, que já controla nove governos na América Latina, e conta com o apoio, ou com a leniência covarde, de Lula e de Obama. Desse modo, permitiram que Zelaya, do exterior e com o apoio confesso de Chávez e oculto de Lula, preparasse o caminho para o retorno ao país e promovesse, pela propaganda sistemática, uma inversão da realidade, apresentando-se e sendo apresentado como líder democrata, enquanto a defesa das instituições e da Constituição em Honduras era transformada em "golpismo".
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Esse tipo de charlatanismo chegou ao ponto do absurdo, com Lula e seus asseclas falando em "volta à democracia", como se o que Zelaya tentou fazer antes de ser expelido do poder - rasgar a Constituição - correspondesse a um comportamento democrático. O mesmo fizeram os deputados do PSOL e do PCdoB que leram um manifesto de "solidariedade ao povo hondurenho" em frente à embaixada de Honduras em Brasília, exigindo o retorno de Zelaya ao poder - o que ele tenta fazer na marra. Se os bolivarianos brasileiros se dessem ao trabalho de ler a Constituição hondurenha, aprenderiam que esta deixa claro, nos artigos 237 e 239, que o presidente que tentar mudar as regras do país para reeleger-se perde automaticamente o mandato e até a cidadania. A propósito, onde estavam Lula e Celso Amorim, bem como os parlamentares do PSOL e do PCdoB, quando Zelaya estava afrontando acintosamente as instituições do país?
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Para os gorilas de esquerda, a democracia se encerra no ato de votar. Daí porque acham que o "governante eleito pela vontade do povo" tem carta-branca para fazer o que quiser - inclusive acabar com a democracia, se assim lhe der na telha. Acreditam que esta é um simples instrumento para tomar o poder, ou para fazer a "revolução", depois da qual, encerrada sua utilidade, não hesitarão em dela se desfazer, como um trapo velho. Era assim que pensava Hitler. E é assim que pensam os Chávez, Zelayas e Lulas de hoje.
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Resumindo, em negrito e em letra de fôrma, no caso de alguém ainda não ter entendido:
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PELA PRIMEIRA VEZ NA AMÉRICA LATINA, UM PAÍS SE LEVANTOU CONTRA O SOLAPAMENTO DA DEMOCRACIA PELO POPULISMO CHAVISTA. PELA PRIMEIRA VEZ, HOUVE UMA MOBILIZAÇÃO BEM-SUCEDIDA PARA EXPULSAR UM CAUDILHO BOLIVARIANO QUE TENTOU ESTUPRAR A CONSTITUIÇÃO VISANDO A ETERNIZAR-SE NO PODER. PELA PRIMEIRA VEZ, O CHAVISMO FOI RECHAÇADO EM UM PAÍS, DE FORMA LEGAL E CONSTITUCIONAL. E ESSE PAÍS, QUE LUTA A DURAS PENAS PARA CONSOLIDAR SUA FRÁGIL DEMOCRACIA, É ALVO DA HOSTILIDADE E DO ISOLAMENTO INTERNACIONAIS POR ESSE MOTIVO. ENQUANTO ISSO, A TIRANIA TOTALITÁRIA DE CUBA, UMA DAS DITADURAS MAIS ODIENTAS DO PLANETA, É TRATADA A PÃO-DE-LÓ NA ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS, E LULA TROCA AFAGOS COM O ANTISSEMITA E NEGADOR DO HOLOCAUSTO AHMADINEJAD NAS NAÇÕES UNIDAS.
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O que está aí em cima, desnecessário dizer, não é nenhum segredo; é algo fácil de constatar. Não é opinião, é algo que pode ser verificado com uma simples pesquisa de notícias na internet. Parte da imprensa brasileira sabe que o que está acima é verdade, mas, por covardia, prefere se calar. Para não ser tachada de "reacionária" ou "direitista", cede à patrulha e prefere ignorar os fatos.
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O governo Lula se orgulha da "ousadia" de sua política externa, da qual a transformação da representaçao diplomática brasileira na capital hondurenha em escritório de agitação política de Manuel Zelaya seria um exemplo. Pena que isso se expresse no apoio a ditadores e a aprendizes de ditador, bem como à destruição da democracia em outros países. Quando é para fazer coro contra os "países ricos" em reuniões internacionais, o Brasil se mostra muito valente. Quando se trata de condenar tiranias como a cubana e a iraniana e firmar posição em defesa da democracia, porém, a diplomacia brasileira é, para dizer o mínimo, bastante tímida. De leão, o Brasil vira um gatinho. Defender a liberdade e os direitos humanos em Cuba, na Venezuela e no Irã - isso, sim, seria a maior prova de ousadia que se poderia dar.
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Há algumas semanas, a The Economist publicou matéria de capa em que perguntava: "De que lado está o Brasil?" Creio que a crise em Honduras responde essa pergunta.