quinta-feira, março 05, 2009

CRUZANDO A LINHA: MAIS UM LEITOR JUSTIFICA A BARBÁRIE TERRORISTA


Fiquei alguns dias longe da internet. Foi o suficiente para que alguns leitores me brindassem com uma saraivada de comentários, especialmente sobre meu último post. Agradeço a todos. Embora seja impossível responder a todos os comentários, e embora este blog não seja um fórum de debates, faço questão de não deixar alguns leitores sem resposta. É o caso de um certo "Leo", que escreveu um comentário a meu último post que é, para dizer o mínimo, curioso.

O tema do post é o conflito entre Israel e o Hamas, que eu prefiro chamar de luta de Israel contra o terrorismo - pois o chamado "conflito israelo-palestino", como já afirmei aqui em outras ocasiões, deixou de existir há tempos, pelo menos desde os Acordos de Oslo em 1993. O tal leitor, que é anarquista - conheço todas as manhas dessa turma, acreditem -, começa seu arrazoado com uma frase que eu subscrevo sem titubear, afirmando que estamos "impregnados de uma esquerda burra, que não atenta em momento algum para a realidade que a cerca" e que defende "o terrorismo como uma simples revolta". Mas logo em seguida ele comete a seguinte frase: "Mas devemos também confessar a burrice da direita que defende a violência do estado como uma forma de sobrevivência de seu povo" (sic). E critica o dono deste blog, "estritamente maniqueísta, do tipo 'ou você está comigo ou contra mim'" etc.

O que vem em seguida é uma longa, longuíssima, arenga ideológica sobre o mundo ser pleno movimento, e que em política o movimento se dá pela revolução, que o Estado é um grande mito que deve ser posto em questão, e que não existe revolução sem derramamento de sangue etc. etc. etc... Enfim, uma lengalega anarcóide-juvenil supostamente libertária que não merece ser transcrita integralmente. Basta dizer que todo o trololó sobre o Estado ser isso ou aquilo e sobre a Revolução Francesa e etcétera e tal desemboca na seguinte ideia brilhante: "Israel deve ser derrubado por uma revolução também! Islâmica talvez, através do Hamas, e quando este pensar em constituir um estado, deve ser derrubado por uma nova revolução. Devemos pensar na mudança sempre e não em manter um mesmo pensamento contra o movimento." E isso porque, em nome dessa mesma "revolução" e desse mesmo "movimento", afirma o leitor: "Nenhum Estado deve se manter. Devemos derrubar, construir e novamente derrubar. Sempre! Que se matem judeus e islamitas! Que derrubem o Brasil! O sangue deve jorrar!"
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Pois é, minha gente... O que foi mesmo que eu disse no último post, sobre cruzar a linha e achar que, a partir daí, tudo é permitido? Como se vê pelo comentário acima, tem gente que acredita realmente nisso. Tanto que creem piamente que encontraram a solução para um dos problemas mais complexos da atualidade. Que solução seria essa? Simples: a briga não é entre o Estado de Israel e os fanáticos islamitas que querem varrê-lo do mapa (ou seja: querem passar a fio de espada a sua população)? E o Estado não é, como dizia Bakunin, um mal a ser extirpado? Então... que se matem todos, ora! Que o Hamas e o Hezbollah atinjam seus objetivos, e cortem a garganta de cada cidadão israelense - judeu ou não, homem, mulher, velho, criança -, fazendo correr rios de sangue. Mais que isso: que o Irã também cumpra sua promessa de riscar Israel do mapa, e lance logo uma bomba atômica sobre Telaviv. Mais ainda: que se extermine todo judeu da face da terra, que sejam todos confinados em guetos e em campos de concentração, onde virarão sabão e alimentarão fornos crematórios, como tentou fazer um dia um sujeito de voz esganizaçada e bigodinho engraçado... Por que não? Afinal, é tudo em nome da "revolução", do "movimento". Ou, como se dizia antigamente, da liberdade individual, da Anarquia, enfim... Como é mesmo aquele ditado, "os fins justificam os meios"? Pois é...

Confesso que, de todos os delírios esquerdóides já engendrados por mentes certamente doentias, o anarquismo é o que mais me fascina. Devo dizer que tenho até, lá no meu íntimo, uma certa simpatia platônica pela ideia anarquista - extinção do Estado, liberdade individual irrestrita etc. Afinal, algo que eu nunca consegui entender é por que alguns indivíduos merecem um tratamento diferenciado, especial, por causa da quantidade de dinheiro que possuem na conta bancária ou do cargo que ocupam. Durante um certo tempo, em minha adolescência, flertei com a ideia de mandar tudo isso às favas. Só que, como acontece também com o comunismo, logo percebi que, entre a ideia e a realidade, ou entre o ideal e o real, existe uma grande diferença.

Sempre achei estranho que, em nome de um ideal elevado - a igualdade comunista ou a liberdade individual, por exemplo -, algumas pessoas estejam dispostas a sacrificar tudo, inclusive esses mesmos ideais. Os comunistas, falando em igualdade, erigiram os regimes mais desiguais e iníquos da História. No caso dos anarquistas, muitos deles não hesitariam em usar todos os meios para conseguir a abolição do Estado - inclusive meios autoritários. No final do século XIX e começo do século XX, era comum militantes anarquistas colocarem em prática suas idéias libertárias e antiestatistas esfaqueando padres e atirando bombas em restaurantes cheios. Um desses anarquistas, chamado Ravachol, ficou famoso na França por sua prática de defender a liberdade individual assassinando velhinhos e roubando prostitutas... Pelo visto, os anarquistas do século XXI são mais sofisticados: em vez das bombas de fabricação caseira e dos atos de terrorismo individual do passado, agora se colocam do lado de fanáticos religiosos e defendem o genocídio de um povo inteiro em nome de seus ideais elevados... Grandes humanistas!

Isso tudo apenas prova o seguinte: o caráter da sociedade que se quer alcançar está indissoluvelmente ligado aos meios escolhidos para se chegar a esse fim. Se você começa, em nome de uma sociedade mais justa e mais livre, assassinando pessoas inocentes ou mesmo justificando a barbárie genocida e terrorista, você poderá alcançar qualquer coisa, menos uma sociedade mais justa e mais livre. No máximo, conseguirá um banho de sangue.

O leitor defende o fim de Israel, até mesmo por uma revolução islâmica, como a pregada pelo Hamas, aliás apoiado e sustentado pelo Irã. Lembrei imediatamente de um fato mais próximo historicamente de nós, a queda do xá do Irã em 1979. Quem tiver mais de 40 anos vai lembrar que a totalidade da esquerda mundial, e inclusive os anarquistas, saudou a revolução islâmica do aiatolá Khomeini como uma aurora de liberdade. Deve ter sido mesmo, porque, mal os aiatolás se instalaram no poder, as primeiras vítimas dos pelotões de fuzilamento dos pasdaran xiitas foram os - adivinhem! - comunistas e esquerdistas em geral... Pelo visto, esse pessoal não aprende mesmo. Daí porque eu concordo plenamente com o que leitor diz sobre a esquerda burra, que não enxerga a realidade em sua volta.

Eu, da minha parte, não preciso dizer o que acho disso tudo. Afinal, este é um blog maniqueísta, do tipo "ou está comigo ou contra mim", não é mesmo?

***
Eu não poderia terminar este post sem mencionar também outro leitor, o Felipe, uma boa pessoa. Ele não é anarquista como o leitor a quem eu respondi acima, mas pacifista. Ele é contra, por princípio, qualquer violência, venha de onde vier. O que significa ser contra não apenas os atentados e homens-bomba do Hamas, mas a reação militar de Israel, pois os mísseis israelenses, como ele diz de forma veemente, "destroem habitações inocentes (...), matam (querendo ou não) crianças e demais inocentes!" etc. etc. Em suma: para ele, os dois lados, Israel e o Hamas, se equivalem moralmente, estão igualmente errados.

Comovido e sensibilizado por esse alto grau de justiça, que eu, infelizmente, por ser "maniqueísta", sou incapaz de alcançar, resolvi escrever uma cartinha ao novo primeiro-ministro de Israel, com cópia para os principais líderes do Hamas. Creio que, se eles seguirem direitinho o que está na carta, teremos finalmente a paz na região, e todos viverão felizes para sempre. Eis a carta:

Excelentíssimo premiê Benjamin Netanyahu,

Venho, por meio desta, humildemente apresentar a Vossa Excelência e ao povo de Israel um plano de paz perfeito para a região do Oriente Médio, que, garanto, irá pôr fim a seis décadas de derramamento de sangue, na maioria inocente, entre Israel e seus inimigos.

Meu plano, que foi elaborado após horas e horas de profunda reflexão lendo e relendo os comentários que me foram feitos pelo Felipe em meu blog, consiste em um único ponto. Ei-lo:

Renúncia total do uso da força por parte de Israel - Em outras palavras, a cada homem-bomba palestino, a cada atentado homicida-suicida do Hamas ou do Hezbollah, Israel não mais responderá com tanques e tropas. Em vez disso, agirá de forma muito mais inteligente, muito mais racional: simplesmente não reagirá a nenhuma violência que lhe for dirigida; não fará nada.

Com isso, asseguro a Vossa Excelência, o Hamas e o Hezbollah, bem como os governos que os apóiam e financiam, como o Irã, desistirão de uma vez por todas dos atentados e do objetivo jurado de destruir Israel e transformar sua população num monte de cadáveres. Eu garanto.

Além disso, ao não mais reagir e caçar os responsáveis pelos ataques, Israel finalmente poderá contar com a simpatia e o apoio dos meios de comunicação mundiais, não incorrendo mais na indignação da opinião pública por ocasionalmente, na perseguição aos culpados, atingir civis inocentes usados por estes como escudos humanos. Eu também garanto.
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Pode ser que, no começo, essa tática apresente alguns inconvenientes, como, por exemplo, o aumento de mortes do lado israelense. Mas asseguro em nome de Gandhi e de Martin Luther King que a não-violência trará resultados positivos, se não nesta, pelo menos na próxima vida. Os possíveis mortos se tornarão mártires de uma boa causa e, principalmente, as condolências não serão substituídas por protestos, como acontece hoje em dia.

A tática acima mencionada é 100% garantida, é infalível. Basta Israel abandonar completamente sua política de defesa, derrubando o muro que o separa da Faixa de Gaza e da Cisjordânia e dialogando com o Hamas e o Hezbollah, que esses grupos entregarão suas armas e abandonarão a luta armada. Garanto que o resultado será a paz e a segurança para os israelenses, que poderão então viver tranquilos e sem medo de ser explodidos por um foguete ou um homem-bomba.

Para tornar concreta essa iniciativa, que - repito - é a mais racional e inteligente que se pode conceber, estou pedindo ao meu leitor Felipe que vá à Faixa de Gaza conversar com os líderes do Hamas e convencê-los desse plano. Afinal, sabemos que eles são todos boas almas também, e só esperam uma oportunidade dessas para desistir de seus objetivos genocidas e abraçar o pacifismo.

Respeitosamente,

Gustavo (Blog "Do Contra")

P.S.: A mensagem acima está sendo enviada também ao Hamas, ao Hezbollah e ao presidente Ahmadinejad, do Irã. Também está sendo psicografada, por meios espirituais, a Adolf Hitler - embora desconfio que, nesse último caso, infelizmente não haverá nenhum resultado concreto, pois não inventaram ainda um pacifismo com efeitos retroativos...

Um comentário:

Leo disse...

Suas considerações estão corretas, exceto no ponto que quero unicamente a destruição de Israel. Meu comentário (aqueles que tiverem a curiosidade leiam abaixo) foi em defesa do movimento e contra o Estado. Desta forma, sou contra o Irã, Brasil e futuramente o Hamas, quando este constituir um Estdo próprio. Não existe ideal algum pelo bem individual e bla bla bla sem sentido sobre a genealogia de uma moral ou um mundo idílico e melhor. O homem tem uma natureza má e através das épocas promove revoluções em pró de mudanças, sejam elas boas ou ruins. Não colocamos uma burguesia nojenta no poder através da revolução Francesa? Agora devemos derrubá-la e colocar algo diferente, que ninguém ainda tentou. Nada de comunismo ou socialismo. Apenas algo novo que derrube este estado permanente em que estamos...