segunda-feira, março 16, 2009

OS CRIMES DOS COMUNISTAS


É, lá vou eu de novo. Mais um texto sobre o comunismo e os comunistas? Mais um. Fazer o quê? Ao contrário da maioria das pessoas, que preferem assistir ao BBB, eu me interesso por História.

Está para ser lançado um livro que, espero, vai dar o que falar. É Elza, a garota, do jornalista e escritor mineiro Sérgio Rodrigues (Nova Fronteira). Por trás do título singelo, até juvenil, está uma das histórias mais escabrosas e, estranhamente, menos conhecidas da História do Brasil. Uma história que encerra importantes lições.

O livro, metade romance, metade reportagem, conta a trajetória de Elza Fernandes, codinome de Elvira Cupelo Colônio, jovem analfabeta do interior de São Paulo, com idade registrada de 21 anos (na verdade, tinha 16), que aderiu ao então ilegal Partido Comunista do Brasil em meados da década de 30. Elza era a companheira do então secretário-geral do PCB, Antônio Maciel Bonfim, codinome "Miranda". Como tal, ela foi presa junto com o amante pouco depois do fracassado levante comunista de novembro de 1935, a chamada Intentona Comunista, que eclodiu inicialmente em Natal e em Recife e foi decretada no Rio de Janeiro por ordem de Luiz Carlos Prestes e da Internacional Comunista, que enviara vários agentes para o Brasil com a missão de desfechar o golpe para a tomada do poder. Na violenta repressão que se seguiu, muitos comunistas e simpatizantes foram presos, como o próprio Prestes, e vários mortos. Elza Fernandes, talvez por ser menor de idade, foi logo solta.

Para a direção do PCB, era urgente achar um bode expiatório para o fracasso da revolta. Este foi encontrado na figura de Miranda, durante décadas apresentado pela versão oficial do Partido como o único responsável pela débâcle. Mas isso não era o suficiente para "lavar a honra" do Partido.

As sucessivas prisões dos militantes só poderiam ser o resultado de algum trabalho de infiltração, de alguma traição interna, acreditavam os comunistas. E quem se ajustava melhor a esse papel do que a companheira de Miranda, a jovem e ingênua Elza? Afinal, ela passara pouco tempo na prisão, tendo sido liberada logo em seguida... Em liberdade, ela visitou Miranda na cadeia várias vezes, e levara e trouxera mensagens do companheiro. Não demorou para que a direção do PCB, com Luiz Carlos Prestes à frente, chegasse à conclusão: Elza era uma traidora. Escondido na clandestinidade, Prestes deu o veredicto: Elza precisava morrer.

A sentença foi cumprida pouco depois: aos 16 anos de idade, a perigosíssima Elza Fernandes foi atraída a um encontro com membros do Partido, sendo então estrangulada e enterrada no quintal de uma casa de subúrbio no Rio de Janeiro. Não faltou sequer o detalhe macabro: antes de enterrá-la, os assassinos quebraram sua espinha, dobrando seu corpo em dois, para que coubesse no saco de aniagem com o qual a enterraram. Preso pouco depois do crime, em março de 1936, Prestes, o festejado "Cavaleiro da Esperança", cantado em verso e prosa, negou até morrer, em 1990, contra todas as evidências, que partira dele a ordem para matar Elza. Assim como negou até a morte que a intentona de 35 fora planejada na URSS, e que recebera dinheiro de Moscou para desfechá-la - fatos que se revelaram verdadeiros há alguns anos, como demonstra o livro de William Waack, Camaradas (Companhia das Letras, 1993).

A morte de Elza Fernandes é considerada a maior mancha na história do PCB. Mas não foi a única. Houve vários outros assassinatos - "justiçamentos", como prefere chamá-los essa turma - cometidos por militantes comunistas no Brasil, tanto de agentes da repressão (militares, policiais) como de outros militantes, acusados vagamente de traição. Quantos? Não se sabe. Há casos em que até a data e o nome da vítima permanecem desconhecidos. O militante Hércules Corrêa, que foi por anos do Comitê Central do PCB, narra em livro (Memórias de um stalinista, Ed. Ópera Nostra, 1994, página 73) um caso particularmente escabroso, de um membro do partido assassinado e cujo corpo foi derretido com ácido em uma banheira... Durante o regime militar, como se sabe, houve também vários casos de militantes de organizações armadas de esquerda que foram "justiçados" por seus próprios companheiros, como Márcio Leite de Toledo, fuzilado à queima-roupa em 1971, em pleno centro de São Paulo, por outros membros da ALN (Ação Libertadora Nacional). Como esse, houve vários outros casos, narrados por Jacob Gorender em seu livro Combate nas Trevas (Ed. Ática, 1987). Em todos eles - todos - não se comprovou absolutamente nada de concreto contra as vítimas; elas foram mortas com base não em provas, mas em meras suspeitas de traição, ou, como no caso de Márcio, de divergências com outros militantes. No mais absurdo deles, revelado recentemente em outro livro, um membro do PCdoB foi morto a tiros, na chamada guerrilha do Araguaia, após ter sido condenado à morte pelo "tribunal revolucionário" pelo terrível crime contrarrevolucionário de... ter um caso com outra companheira, casada com outro membro do Partido!

Por que nenhum desses casos, embora conhecidos em detalhes como o de Elza Fernandes - quem quiser saber mais, é só procurar na internet -, causa tanta indignação e tanto furor quanto os de comunistas ou seus simpatizantes mortos no Brasil? Por que o caso de Elza não teve, por exemplo, a mesma repercussão do de Olga Benario, a agente alemã da Internacional Comunista que teve uma filha com Prestes e que foi entregue por Getúlio Vargas para morrer num campo de concentração nazista na Alemanha, e que já virou até filme? (Aliás, o assassinato de Elza é até citado no filme que saiu recentemente sobre Olga Benario - bem en passant, claro, sem mencionar a responsabilidade direta de Prestes no episódio, como convém -, mas sem querer suscitar a mesma reação emocional na plateia. Pior: o filme, baseado no livro do quercista Fernando Morais, chega mesmo a flertar com a tese de que Elza era mesmo uma espiã infiltrada no Partido...). Enfim, por que o caso de Elza, apesar da abundância de provas, permanece até hoje relativamente pouco conhecido, visto mais como um embaraço do que um crime nefando?

A resposta, pelo menos para quem tiver um mínimo de interesse na História, não é muito difícil de encontrar. Os crimes cometidos pela esquerda, entre nós, sempre foram vistos com muito mais indulgência do que os de seus adversários de direita por um motivo muito simples: ao contrário da direita, a esquerda brasileira detém a hegemonia da vida cultural e intelectual do Brasil. Isso foi o resultado de um processo de décadas, que começou com o antigo PCB, e atingiu o ápice com o PT de Lula et caterva. Nem é preciso citar nomes aqui: todos os conhecem. Basta perguntar a você mesmo, que lê estas linhas, que autor você leu em sua aula de História ou de Ciências Sociais, ou que professor você teve no segundo grau ou na faculdade, que não era, ou não se declarava, um inimigo jurado das "elites" e do "imperialismo"... Compare-os agora com quantos autores você leu que eram abertamente "de direita".

Segundo a visão incutida em gerações pela intelligentsia esquerdista, ditaduras sempre são de direita, jamais de esquerda. Alguns dias atrás, dois professores da USP (portanto, de esquerda) causaram uma polêmica ao criticarem asperamente um artigo na Folha de S. Paulo que chamava de "ditabranda" o regime militar de 64 - os mesmos professores, curiosamente, não têm peias em negar a mesma classificação de ditadura a regimes como o de Cuba. Até hoje, aliás, há quem se recuse a chamar Fidel Castro, por exemplo, de ditador, a despeito do meio século de ausência total de liberdade na ilha de Cuba e dos quase cem mil cubanos que ele mandou para o túmulo. Sem falar, claro, em ícones da esquerda tupiniquim como Oscar Niemeyer, para quem Stálin era uma flor de pessoa, sempre a cantar a e dançar alegremente com seus amigos...

Logo, é natural que os crimes perpetrados pela esquerda, como o assassinato frio de Elza Fernandes, sejam considerados não como crimes, mas ora como "erros", um simples embaraço, ora como algo necessário. Jamais como o que de fato foram - assassinatos frios e covardes. Isso faz parte de um processo de desumanização do inimigo, que os comunistas são pródigos em identificar em seus adversários ideológicos, jamais neles próprios. Em outras palavras, segundo a visão esquerdista, as vítimas do PCB ou do paredón em Cuba não eram sequer seres humanos: eram inimigos de classe, e pronto. A morte deles, portanto, era uma "necessidade"; já a de qualquer comunista, ao contrário, é uma tragédia. Recentemente, o governo federal deu seu respaldo oficial a essa perversão moral: um livro publicado com estardalhaço pelo governo Lula apresenta, caso a caso, uma relação de todos os mortos por motivos políticos no Brasil nas mãos de agentes da repressão política do regime militar de 1964, e cujas famílias receberam fartas indenizações do governo por causa disso. Quanto às pessoas "justiçadas" pela esquerda no mesmo período, o livro não menciona nenhuma delas. É que os cadáveres escolheram o lado errado.

Assim como se manipula a História, manipula-se a linguagem. Em um processo semelhante à novilíngua de George Orwell, em seu livro 1984, assassinatos, quando praticados pela esquerda, não são assassinatos, mas "justiçamentos"; do mesmo modo, assaltos a banco, como os praticados pela esquerda radical nos anos 60 e 70, nos quais morriam inclusive inocentes transeuntes, não são assaltos, são "expropriações"... E assim por diante, quase ninguém discute esses termos. Já os crimes cometidos contra a esquerda são crimes mesmo. A questão é: por que somente eles?

Por tudo que está escrito aí em cima, um livro sobre um obscuro assassinato de uma pobre adolescente cometido a mando do maior ícone do comunismo no Brasil, mais de setenta anos atrás, é certamente muito bem-vindo. Demonstra que o mundo não é assim tão preto-e-branco quanto nos acostumamos a pensar que é, desde nossa mais tenra infância - ou talvez seja, mas com o sinal invertido.

2 comentários:

Sempre em Trânsito disse...

Muito interessante o blog, conteúdo inteligente e layout bacana.

Parabéns!

Anônimo disse...

Gustavo,

Uma sugestão: por que vc não escreve um texto sobre o José Guilherme Merquior e a visão que ele tinha da intelectualidade brasileira ? O que acha ?