terça-feira, junho 03, 2008

1989, O ANO QUE NÃO COMEÇOU


De repente me deu uma vontade danada de escrever sobre meus 15 anos...

Não que eu seja um nostálgico. Já escrevi que textos confessionais não são meu forte, e sobre minhas reservas em relação a esse gênero literário. Mas, diante de certos fatos transcedentais que se confundem com minha própria biografia, fica difícil, quase impossível, não falar na primeira pessoa. Particularmente, não acho que minha vida pessoal interesse a alguém, a não ser que traga em si uma lição importante. Se me perguntarem se me orgulho ou me envergonho de alguma coisa que vivi, responderei que não tenho orgulho, nem vergonha, de meu passado. Tenho-o apenas, e isso me basta. Não o relembro por vaidade, nem por saudosismo, mas porque acredito ser possível extrair dele alguns ensinamentos para a vida.

Num artigo intitulado "Como me tornei um reacionário" (22/06/2007), relembrei um momento particularmente marcante de minha adolescência e começo de juventude, quando me envolvi com um grupelho sectário ultra-esquerdista. Isso foi nos meus 18, 19 anos. Mandei o texto por e-mail a um dos "revolucionários" de minha convivência, nesse período. A resposta dele, e meus comentários à sua resposta, estão aqui: (http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2007/11/dilogo-entre-um-revolucionrio-de.html).

O que mais me chamou a atenção no texto do meu ex-camarada, hoje professor universitário, foi que ele pediu que eu... não o escrevesse mais (!). Algo lamentável, a meu ver, pois nos priva da possibilidade de um diálogo frutífero, no qual ele teria a oportunidade de tentar me convencer da verdade incontestável de suas teses revolucionárias, as quais, ao que parece, ele continua fiel. Disponho-me, inclusive, a abrir meu blog para suas ponderações sobre o tema. Mas, pelo visto, ele deve estar tão convicto de que alcançou a Verdade Revelada que prefere guardá-la para si...

Desde o artigo e a resposta (ou não-resposta) de meu interlocutor, fui voltando cada vez mais no tempo, puxando o fio de minha memória, num processo quase proustiano de regressão. Retornei ao começo de minha adolescência, quando ainda estava no secundário. Mais especificamente, ao ano de 1989.

Eu tinha, então, 15 anos de idade. Foi quando comecei a me interessar pelas teses de esquerda, e, em especial, pelo marxismo. Exatamente. Em 1989. No mesmo ano em que os regimes marxistas do Leste Europeu caíram por terra, um a um, num processo iniciado anos antes na ex-URSS, que viria ela mesma também a desaparecer, em 1991. Por mais incrível que possa parecer, minha conversão às idéias marxistas e revolucionárias ocorreu justamente no ano em que o Muro de Berlim se transformou em ruínas e as ditaduras comunistas viraram sorvete.

Contradição? Incongruência? Nem tanto. Eu era trotskista. Um de meus livros de cabeceira, nesse período, era A Revolução Traída, de Trotsky. O trotskismo é o sebastianismo das esquerdas. Ele mantém acesa a esperança na vitória da revolução socialista - que, aliás, tem que ser internacional e permanente -, ao mesmo tempo em que se distancia do "socialismo real" implantado na ex-URSS e em países como a China e em Cuba. Estes são "Estados operários burocraticamente degenerados", na definição de Trotsky quando se referia à ex-URSS sob Stálin, seu pior inimigo. Trotsky era diferente. Era revolucionário e comunista, mas também crítico da URSS. Além disso, era um mártir: fora assassinado a mando de Stálin no México, em 1940, com um golpe de picareta na testa, por estar incomodando a nomenklatura soviética (por alguma razão inconsciente, os mártires estão sempre certos, são sempre lutadores da liberdade...). O colapso dos regimes comunistas ("stalinistas", segundo pensávamos) do Leste Europeu era, na verdade, um fato positivo, uma "revolução de fevereiro". Faltava apenas uma liderança revolucionária sincera e conseqüente, pensávamos, para a vitória da "segunda revolução", a de outubro (quando os sovietes tomaram o poder na Rússia). Não surpreende, pois, que os fatos de 1989 no Leste Europeu parecessem confirmar, em minha mente, a justeza das teses trotskistas, que eu abracei com paixão. Para tristeza de meus pais e espanto de todos que me conheciam, eu me tornei um revolucionário marxista.

Para um jovem como eu, parecia que eu tinha achado a fórmula ideal. Bastaria permanecer fiel às idéias de Trotsky - e, por extensão, de Lênin, Marx e Engels - que, eu acreditava, tudo se esclareceria. Bastaria explicar às pessoas, de forma paciente, serena, firme e persistente - e como éramos persistentes! - que a Revolução Russa fora traída e corrompida, que a URSS jamais fora socialista, e todos compreenderiam, a verdade viria à tona, tudo ficaria claro como água. Todos perceberiam que a "restauração do capitalismo" no Leste Europeu há muito fora profetizada por Trotsky, e que tudo não passava de uma "nova fase da luta revolucionária mundial dos trabalhadores" que culminaria, claro, no triunfo mundial do "verdadeiro socialismo", o socialismo de Marx, Lênin e Trotsky, supostamente prostituído por Stálin e seus acólitos. Em 1993 ou 1994 conheci um grupo de estudantes que se declaravam marxistas e gastavam suas tardes de sábado discutindo a literatura socialista. Diziam-se revolucionários e adeptos das teorias de Marx e de Trotsky. Aí estão os que vão fazer a revolução comigo, pensei.

Lancei-me então, juntamente com meus novos camaradas, numa vertiginosa rotina de reuniões e discussões que duravam dias inteiros, geralmente em locais como o sindicato dos professores da cidade, ou no campus da universidade - por alguma razão que até hoje desconheço, os professores e estudantes eram tidos como os futuros revolucionários e coveiros do capitalismo... Lembro bem. Minha disposição para o proselitismo em nome da Revolução não tinha limites. Certa vez, entrei eu e meu camarada numa sala de aula - o curso era Direito - para tentar convencer os estudantes a se juntarem a nós no glorioso caminho da revolução proletária. Tentei explicar, didaticamente - eu tinha acabado de ler "O Estado e a Revolução", de Lênin -, que o objetivo final dos comunistas era a abolição do Estado, após um período necessário de transição, a ditadura do proletariado, que levaria à extinção das classes sociais e da própria luta de classes, na sociedade comunista perfeita... Fui recebido com olhares de espanto. Extinguir o Estado? Ditadura do proletariado? O que esses caras estão falando? "Vocês não leram Marx", foi a minha resposta...

Achávamos que a História estava de nosso lado. A ignorância da maioria das pessoas sobre o que fora a Revolução Russa e seus principais personagens, como Trotsky e Stálin, era algo que, além de irritante, parecia confirmar nossas crenças. Ao mesmo tempo, investíamos contra o "reformismo" do PT e afins, denunciando sistematicamente o oportunismo eleitoreiro e o "centrismo" dos partidos de esquerda tradicionais, que considerávamos contra-revolucionários e mancomunados com o governo "neoliberal" de FHC... Mais ou menos como fazem o PSTU e o PSOL hoje em dia, só que de forma muito mais radical (os outros partidos de ultra-esquerda, aliás, também eram alvo constante de nossa metralhadora giratória, pois jamais os considerávamos, por um motivo ou outro, suficientemente de esquerda...). Já naquela época eu achava os petistas, e Lula em particular, um bando de farsantes, mas pelos motivos errados. O fato de eu ter conhecido, nessa época, o "ideólogo" principal daquele grupo extremista e ultra-sectário, um professor da USP (ou da PUC, não lembro exatamente) de barbas brancas e fundador do PT - do qual se desligou depois -, foi algo que me encheu de vaidade e reforçou minha convicção de que eu estava no caminho da revolução. Afinal, ali estava, diante de mim, o Lênin brasileiro...

Não é preciso muito esforço mental para perceber que estávamos imbuídos de uma fé religiosa e messiânica, uma crença fanática em nossa "missão histórica" de "conscientizar as massas" e constituir a "vanguarda política da luta pela libertação do proletariado"... Mas, na época, eu não pensava desse jeito. Acreditava, ao contrário, que o marxismo era uma espécie de panacéia, uma fórmula mágica que bastava evocarmos para exorcizarmos todas as forças contrárias e alcançar o tão sonhado pote de ouro... De acordo com essa nossa leitura, o materialismo histórico e o materialismo dialético eram capazes de responder a todas - repito: todas - as questões da humanidade, da vida e da morte, do céu e da terra.

As relações internacionais, por exemplo, eram muito fáceis de ser explicadas. Havia nações exploradoras, de um lado, e nações exploradas (ou "semicoloniais"), de outro. Pronto! As nações exploradoras (EUA, Japão, Israel etc.) eram ricas e poderosas porque sugavam o sangue das nações exploradas, como o Brasil. Mas isso não queria dizer que fôssemos nacionalistas. Pelo contrário: nosso norte era a Revolução Russa, que considerávamos o modelo de todas as revoluções. A burguesia nacionalista dos países atrasados, acreditávamos, era incapaz de levar adiante a luta contra o imperialismo, assim como a burguesia russa fora incapaz de levar adiante a luta contra o czarismo em 1917.

Tive a oportunidade de comprovar a aplicação desse esquema, quando os EUA (a nação exploradora) intervieram militarmente no Haiti (a nação explorada), em 1994, em mais uma das crises humanitárias que já viraram rotina naquele infeliz país do Caribe. Na ocasião, meus camaradas não titubearam nem um minuto: era preciso defender a "nação explorada" e opor-se à "invasão imperialista", mesmo que isso significasse perfilar-se ao lado do ditador haitiano de plantão. "O importante são os fins", foi-me explicado. Nessa época, eu já começava a alimentar algumas dúvidas em relação àquele palavreado ultra-radical. Mas também para isso havia remédio: minhas dúvidas eram um resquício de minha "formação pequeno-burguesa". Ah, bom. Então respirava aliviado.
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Quando se tratava de "avaliação de conjuntura" (outra expressão comum nessa época), a análise não era menos sofisticada. Começava sempre com a mesma frase: "O capitalismo, em sua fase final de decomposição...". Pois é. Uma das melhores definições de esquerdista que já li é a seguinte: um sujeito para quem, se os fatos contrariam suas idéias, pior para os fatos. Eu era exatamente assim.
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Durante muito tempo acreditei nesse conto-de-fadas. Após perder contato com aquele grupo, passaram-se uns dez anos até que eu percebesse o óbvio: que aquilo era uma roubada, uma bad trip, a maior em que alguém pode embarcar. Por causa dessa bobagem, fiquei imune ao que se passava no mundo na época. Demorou algum tempo ainda para que me rendesse a constatações simples, mas que se tornam difíceis de ser assimiladas num cérebro intoxicado de literatura marxista. A questão da democracia, por exemplo. Custou-me muito admitir que esta constitui um fim em si, e não apenas uma técnica para tomar e manter-se no poder. Foi necessário certo esforço intelectual de minha parte para perceber que todas as críticas e denúncias de meus ex-camaradas contra o stalinismo não se baseavam em nenhum amor pela democracia ("uma formalidade burguesa"), mas simplesmente no ressentimento de quem se viu derrotado numa disputa política. Assim como foi necessária alguma honestidade para reconhecer que o comunismo, em todas as suas vertentes, é inseparável da montanha de 100 milhões de cadáveres que produziu no século XX. Como escreveu Arthur Koestler: "O problema dos trotskistas é que eles são anti-stalinistas, mas não são antitotalitários" ("democratismo pequeno-burguês", diriam meus ex-camaradas).

Tenho, pelo menos, uma boa desculpa, além de minha juventude e inexperiência, para essa minha falta de sintonia, na época, com o mundo em minha volta: assim como meu pensamento tomou um rumo diametralmente oposto às grandes transformações ocorridas a partir de 1989, no Brasil tampouco conheceu-se processo semelhante. Pelo contrário: o ano de 1989, no Brasil, simplesmente ainda não começou. Por aqui, ainda se cultuam os velhos mitos e chavões da geração 68, a do flerte com o totalitarismo. Nos anos 90, de forma atabalhoada com Collor e depois tímida, quase pedindo desculpas, com o "neoliberal" FHC, tentou-se levar adiante algumas reformas estruturais, mas estas esbarraram sempre na visão anacrônica que considera "privatização" um anátema e "abertura" um palavrão. Infelizmente, a Constituição de 1988 permanece eivada de um fortíssimo ranço ideológico populista e antiliberal, que impede o avanço do País em áreas cruciais, como as relações trabalhistas, por exemplo. Se ela tivesse sido adotada alguns meses depois, talvez não vivêssemos ainda sob a sombra do estadossauro.

Hoje, como vocês sabem, não acredito em marxismo, nem em qualquer outro "ismo" que se proponha a mudar o mundo e a natureza humana. Em vez de revolução e ditadura do proletariado, acredito em coisas como democracia, liberdade de expressão e direitos humanos. Artigos que - e como me custou perceber isso! - só podem existir numa sociedade de mercado e livre concorrência. Ou seja: no capitalismo. Claro, para meus ex-camaradas de utopia, isso faz de mim um reacionário, um troglodita fascista, um burguês maldito, um verme desprezível. Meu lugar, portanto, só pode ser a masmorra, o gulag, o paredón. O Brasil parou em 1988. Meus ex-camaradas, por sua vez, pararam um pouco antes. Em 1917, para ser mais exato.

Sempre que me perguntam, em tom de brincadeira, o que eu faria se descobrisse que um filho meu se transformou num militante esquerdóide, desses de babar gritando slogans em alguma manifestação da UNE contra Bush e o "neoliberalismo", eu respondo: não faria absolutamente nada. Aliás, para ser franco, acharia até interessante, um passo necessário em seu amadurecimento pessoal. Digo sempre que as idéias esquerdistas são como um sarampo, uma catapora: é preciso ter sido acometido dessas enfermidades infantis para se ver imunizado delas para o resto da vida. Se o meu filho(a) persistir nessa doença cerebral por um tempo excessivamente longo, digamos após os 25 anos, aí sim terei motivos para ficar preocupado...

Minha experiência - felizmente, breve - com o marxismo coincidiu com o início da demolição, em nível mundial, das fantasias socialistas. De lá para cá, o mundo mudou (pelo menos nesse aspecto) para melhor, assim como eu, que felizmente me livrei das viseiras ideológicas do passado e comecei a pensar com minha própria cabeça. Infelizmente, porém, o mesmo não ocorreu com o Brasil. Por essas plagas, 1989 ainda não começou. É uma pena.

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P.S.: Devo o título deste artigo ao Augusto Araújo, um leitor perspicaz. Comentando meu texto "1968, o ano que precisa acabar", Augusto lembrou que, ao contrário de 1968, 1989 sequer começou entre nós. Corretíssimo.

Um comentário:

Augusto Araújo disse...

Obrigado novamente pela menção Gustavo.

Olha, o pessoal da esquerda (PSOL e mesmo PT), diz uma avalanche de cliches sobre o caso.

Dizem q na URSS o q ocorreu foi um capitalismo de estado. Que as utopias libertárias nao morreram, Que nao eh o fim da História

Cara, vc jah deve ter percebido q nao eh facil debater com esse povo.

De forma q ficam uns 6 duzia deles de uma lado, uns milhares (os tais alienados, segundo eles) q nao estao nem aí pra esquerda, direita, capitalismo, socialismo, etc , e pra debater com eles tem uns dois pra uns duzentos deles

daí q muitas vezes nao há debate e ocorre o pensamento único esquerdista. Isso é negativo, ainda mais agora q filosofia e sociologia vao ser obrigatórios.

abs!