quinta-feira, setembro 17, 2009

O DOM DE ENGANAR: UM VERMELHO-E-PRETO COM UM RACIALISTA


Ah, como é tedioso escrever sobre certas coisas... A tal política de cotas raciais nas universidades, por exemplo. Como se diz lá em minha terra: pense num assunto chato. Mas alguém tem que fazer, infelizmente. Ainda mais diante de um texto como o que vem a seguir, de autoria de José Jorge de Carvalho, professor da UnB e coordenador de um certo INCT (Instituto de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa do CNPq).

O leitor verá que os, por assim dizer, "argumentos" do professor Carvalho são mesmo de tirar o chapéu... e lamentar, balançando a cabeça, como se faz num enterro. Nesse caso, os defuntos são a lógica, o bom senso e a honestidade intelectual, impiedosamente assassinados pelo emérito professor no altar da política de cotas racistas, digo raciais, nas universidades.

Vamos lá. O texto foi publicado na Folha de S. Paulo de hoje, 17/09, com o título "Cotas: uma nova consciência acadêmica". Ele vai em vermelho, eu vou em preto (sem trocadilho).

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ENQUANTO cresce o número de universidades que aprovam autonomamente as cotas, a reação a esse movimento de dimensão nacional pela inclusão de negros e indígenas vai se tornando cada vez mais ideológica, exasperada e descolada da realidade concreta do ensino superior brasileiro.
Note-se que o texto já começa com uma afirmação peremptória: o sistema de cotas, aprovado autonomamente e de dimensão nacional (logo, só pode ser coisa boa, né?, é o que está implícito na frase), é "pela inclusão de negros e indígenas". A dedução é a seguinte: como as cotas são "pela inclusão", quem se opõe a tal sistema só pode ser contra a inclusão, esse é o raciocínio. Portanto, só pode ser um racista, um troglodita elitista, um canalha abjeto... ou seja: já se começa delimitando qual é o lado "do bem" e o lado "do mal", sem espaço para qualquer nuance. Além disso, o leitor verá que o autor sabe o que está dizendo quando fala em reação ideológica, exasperada e descolada da "realidade concreta" (existe uma realidade abstrata? eu não sabia...). Adiante.

Em um artigo recente ("O dom de iludir", "Tendências/Debates", 9/9), Demétrio Magnoli citou fragmento de um parágrafo de conferência que proferi na Universidade Federal de Goiás em 2001. Mas ele suprimiu a frase seguinte às que citou -justamente o que daria sentido ao meu argumento, que, da forma como foi utilizado, pareceu absurdo.
Magnoli, para quem não sabe, é autor de um livro excelente, recém publicado, Uma gota de sangue: história do pensamento racial, uma resposta bem escrita e solidamente embasada às falácias dos racialistas. Recomendo-o a quem quiser saber mais sobre o assunto. Vejamos que frase ele suprimiu na palestra do ilustre professor.

Sua transcrição truncada fez desaparecer a crítica irônica que eu fazia ao tipo de ação afirmativa de uma faculdade do Estado de Maine, nos EUA. O tema da conferência era acusar a carência, naquele ano de 2001, de políticas de inclusão no ensino superior brasileiro, fossem de corte liberal ou socialista.
Hmmm... Uma palestra acadêmica que tem por tema "acusar a carência de políticas de inclusão" no ensino superior já é de se estranhar. Mas, políticas de inclusão de corte liberal? Confesso que nunca tinha ouvido falar disso. Até onde eu sei, as políticas liberais têm por finalidade eliminar qualquer forma de distinção, seja racial ou qualquer outra, com base no princípio de que todos são iguais e merecem, portanto, iguais oportunidades. O contrário do que está por trás de qualquer política de "inclusão", como a defendida pelo professor Carvalho e pelos militantes racialistas.

Magnoli ocultou dos leitores o que eu disse em seguida: "Quero contrastar isso com o que acontece no Brasil.Como estamos nós? A Universidade de Brasília tem 1.400 professores e apenas 14 são negros". É 1% de professores negros na UnB.

E quantos são os docentes negros da USP? Dados recentes indicam que, de 5.434 docentes, os negros não passam de 40. Pelo censo de identificação que fiz em 2005, a porcentagem média de docentes negros no conjunto das seis mais poderosas universidades públicas brasileiras (USP, Unicamp, UFRJ, UFRGS, UFMG, UnB) é 0,6%.
Ah, então foi isso que Magnoli "ocultou dos leitores"? Nesse caso, tenho de dizer: ele fez mal, muito mal mesmo. Porque, se tivesse mencionado a frase inteira, teria muito mais argumentos para derrubar de vez a militância racialista.

Em primeiro lugar, como o professor Carvalho chegou à conclusão de que 1% dos professores da UnB são negros? Teria ele usado o mesmo critério extremamente científico do sistema de cotas já vigente naquela universidade, e perguntado, um por um, aos professores: "você se declara negro?". Essa é uma questão fundamental, que está, aliás, na essência do debate sobre as cotas.

Mas OK, confiemos nos "dados recentes" mencionados pelo professor (que não diz de onde os tirou... hmmm). Digamos que 1%, ou menos, do corpo discente das universidades é formado por legítimos exemplares da raça de ébano. Seria preciso perguntar, nesse caso, se os 99% restantes seriam todos brancos. Não é possível haver, no meio de todos esses, alguns mulatos, ou cafuzos, ou asiáticos, ou, sei lá, "moreninhos", ou de cor indefinida? Melhor dizendo: no conjunto da população brasileira, que é essencialmente mestiça, como identificar quem é negro, e quem não é? E, mesmo que os números estejam corretos - vejam como estou sendo bonzinho... -, como dizer que essa disparidade se deve a alguma forma de discriminação, ou preconceito, RACIAL? A resposta cabe aos militantes racialistas e cotistas.

Essa porcentagem pode ser considerada insignificante do ponto de vista estatístico e não deverá mudar muito, pois é crônica e menor que a flutuação probabilística da composição racial dos que entram e saem no interior do contingente de 18 mil docentes dessas instituições. Para contrastar, a África do Sul, ainda nos dias do apartheid, já tinha mais professores universitários negros do que nós temos hoje. Se não interviermos nos mecanismos de ingresso, nossas universidades mais importantes poderão atravessar todo o século 21 praticando um apartheid racial na docência praticamente irreversível.

É esta a questão central das cotas no ensino superior: a desigualdade racial existente na graduação, na pós-graduação, na docência e na pesquisa.
Primeiro, uma exclamação: Nossa! Eu não sabia que, na África do Sul da epoca do apartheid, havia mais professores negros do que no Brasil. Passada a supresa, vem a pergunta: será que isso ocorria porque a população da África do Sul, tanto hoje quanto nos dias do apartheid, é majoritariamente negra, ao passo que, no Brasil, definir o grau de negritude de alguém é uma questão, para dizer o mínimo, complicada? Será que o professor levou em conta essa variável?

Já sabemos que, segundo o professor Carvalho, há racismo no Brasil. Aprendemos também que o Brasil é pior, no quesito "inclusão racial", do que a África do Sul dos tempos do apartheid. Agora ele nos brinda com a afirmação de que, "se não interviermos nos mecanismos de ingresso" (ou seja: se não instituirmos um sistema de carteira de identidade racial, oficializando o racismo), as universidades brasileiras continuarão sendo um ambiente onde impera a discriminação e o racismo (ele fala em "apartheid racial")... Raciocínio genial, não acham?

Pensar na docência descortina um horizonte para a luta atual pelas cotas na graduação.Enquanto lutamos para mudar essa realidade, um grupo de acadêmicos e jornalistas brancos, concentrado no eixo Rio-São Paulo, reage contra esse movimento apontando para cenários catastróficos, como se, por causa das cotas, as universidades brasileiras pudessem ser palco de genocídios como o do nazismo e o de Ruanda!
Viram como são malvados os que criticam o racialismo? Agora qualquer um que se opuser ao sistema de cotas raciais, apontando a incongruência inerente a esse sistema, é um "branco" do "eixo Rio-São Paulo"... (só faltou dizer que é um "reacionário", um "elitista", ou - meu xingamento predileto - "de direita"). Também pudera: para se opor a coisa tão maravilhosa, a idéia tão genial, só sendo mesmo alguém da "elite branca sulista" etc. Pois é... Se havia alguma dúvida de que os racialistas iriam acabar levando a uma forma de separação da sociedade com base em raça, etnia ou o que seja, não existe mais. Aí está: é a divisão racial em ação.

Mas a forçação de barra a favor das cotas não pára por aí. Não, não é "por causa" das cotas que as universidades se tornarão um palco de genocídios como o nazista e o ruandês (pelo menos, espero que não). A questão é: se não fosse por sistemas de classificação racial, como o existente na Alemanha nazista e em Ruanda, os massacres ocorridos nesses países muito provavelmente não ocorreriam. Ou, colocando de forma mais didática: como seria possível matar um judeu, ou um tutsi, sem um sistema que os identificasse? (Por exemplo:a estrela amarela, no caso dos judeus). Se a pessoa tem, em sua carteira de identidade, o adjetivo "negro" (ou branco, ou amarelo, ou cor-de-jambo-maduro), e se, por causa dessa classificação, ela se distingue das demais, obtendo privilégios na seleção para o vestibular ou para um emprego público, convenhamos, a probabilidade de surgirem ressentimentos por conta disso é bem maior. Em Ruanda, começou assim.

Como não podem negar a necessidade de alguma política de inclusão racial, passam a repetir tediosamente aquilo que todos sabem e do que ninguém discorda: não existem raças no sentido biológico do termo. Primeiro: quem exatamente "não pode negar a necessidade de alguma política de inclusão racial"? Eu, pelo menos, a rejeito categoricamente, acho um contra-senso e uma estupidez num país mestiço. Para mim, a única política de "inclusão" aceitável é aquela que leva em consideração o mérito pessoal, e não a cor da pele (ainda mais autodeclaratória). Segundo: vejam que o próprio autor reconhece que raças não existem. Mais adiante, porém, ele fala outra coisa completamente diferente.

E, contrariando inclusive todos os dados oficiais sobre a desigualdade racial produzidos pelo IBGE e pelo Ipea, começam a negar a própria existência de racismo no Brasil.
Vejamos: segundo dados do IBGE de setembro de 2006, a população declaradamente - atentem para o "declaradamente" - "preta" e "parda" tem menos escolaridade e um rendimento médio equivalente à metade do recebido pela população "branca". Já a taxa de desocupação dos "pretos" e "pardos" (11,8%) é superior à dos "brancos" (8,6%). Segundo o IPEA, os números não são muito diferentes.
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Visto assim, parece que o Brasil é mesmo um país racista, onde impera a desigualdade racial. Mas olhemos mais de perto os números. Eles apontam a existência de um problema crônico brasileiro: a desigualdade de renda e o desemprego, que é maior nas camadas mais pobres da sociedade. Estas, em sua maioria, são constituídas do que o IBGE chama de "pretos" e "pardos". Mas o que os números dizem sobre a existência ou não de RACISMO no Brasil? Que número oficial ou dado estatístico afirma, categoricamente, que os negros são mais pobres e têm menos acesso ao emprego não por serem POBRES, mas porque são NEGROS (ou "pretos" e "pardos")? Em vão se achará qualquer estimativa, oficial ou não, sobre isso. Por um motivo simples: é IMPOSSÍVEL chegar a qualquer conclusão, com base em estatísticas, sobre a existência ou não de racismo na sociedade brasileira. Há apenas uma maneira de se constatar isso: mediante a introdução de um sistema de classificação racial, como se pretende com as cotas nas universidades.

Fugindo do debate substantivo, os anticotas optam pela desinformação e pelo negacionismo: raça não existe, logo, não há negros no Brasil; se existem por causa das cotas, não há como identificá-los; logo, não pode haver cotas.
Exemplo claro de sofisma, de raciocínio completamente sem pé nem cabeça. O fato de não existirem raças no sentido biológico não quer dizer que não existam negros no Brasil. Isso é falso. O que se está dizendo é que raça é um conceito ideológico, não biológico, e que, no Brasil, houve miscigenação; logo, é difícil definir quem é negro e quem não é, em primeiro lugar. A maior prova disso é o próprio sistema de cotas, baseado em critérios subjetivos e autodeclaratórios: negro é quem "se diz" negro etc. A associação entre as cotas e a existência ou não de negros no Brasil só pode ser entendida como desonestidade pura e simples.

Em suma, o que os cotistas e racialistas estão dizendo é: raça não existe, logo, precisamos criá-la; negando a miscigenação que torna difícil, senão impossível, qualquer sistema de identificação racial no País - instituindo o racismo oficial, em outras palavras.

Raças não existem, mas os negros existem, sofrem racismo e a maioria deles está excluída do ensino superior. Felizmente, a consciência de que é preciso incluir, ainda que emergencialmente, só vem crescendo -por isso, a presente década pode ser descrita como a década das cotas no ensino superior no Brasil. Começando com três universidades em 2002, em 2009 já são 94 universidades com ações afirmativas, em 68 das quais com recorte étnico-racial.

Vivemos um rico e criativo processo histórico, resultado de grande mobilização nacional de negros, indígenas e brancos, gerando juntos intensos debates, dentro e fora de universidades. Os modelos aprovados são inúmeros, cada um deles tentando refletir realidades regionais e dinâmicas específicas de cada universidade.
O que quer dizer a frase "raças não existem, mas os negros existem"? Ora, não é preciso ser gênio para saber que "negro" (ou branco, ou amarelo etc.) é uma definição racial - logo, ideológica, não sociológica. Dizer que existem negros, em contraposição a brancos, é, quer queiram quer não, traçar um corte na sociedade, separando-a por raça, o que já foi desmoralizado pela biologia. É o mesmo raciocínio que levou ao apartheid e as leis "Jim Crow" no sul dos EUA até os anos 60. A isso soma-se a vitimização, que tem por objetivo consolidar a idéia de "raça (mais uma vez) oprimida" - "vítima de racismo", "excluída do ensino superior" etc. O discurso que vem depois, de caráter triunfalista, nem merece comentário: não passa de propaganda mais vulgar, de proselitismo mais vagabundo e vigarista. E daí que são 94, e não três, as universidades que adotam hoje o sistema de cotas? Isso não mostra o acerto do sistema; pelo contrário: só mostra a gravidade do problema.
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Essa nova consciência acadêmica refletiu positivamente no CNPq, que acaba de reservar 600 bolsas de iniciação científica para cotistas. Se o século 20 no Brasil foi o século da desigualdade racial, surge uma nova consciência de que o século 21 será o século da igualdade étnica e racial no ensino superior e na pesquisa.
Errado! Se depender dos militantes racialistas, o século XXI será o século da desigualdade étnica e racial. Não somente no ensino superior e na pesquisa, mas em todos os setores da sociedade.

Os racialistas não têm somente o dom de iludir, como diz Demétrio Magnoli: têm também o dom de distorcer, de falsear, de enganar. Eles não vão sossegar enquanto não instituírem um sistema de classificação racial semelhante ao que existiu na África do Sul ou que existe na Índia, onde perdura a divisão por castas. Querem porque querem dividir a população brasileira em raças. O nome disso é racismo. Ponto.

Não lembro o nome do autor da frase seguinte, mas nunca ela foi tão verdadeira: "A melhor maneira de combater a desigualdade racial é combater... a desigualdade racial!"

segunda-feira, setembro 14, 2009

O FALSO LAICISMO A SERVIÇO DA INTOLERÂNCIA (OU: O COMANDO DE CAÇA AOS CATÓLICOS)

Pastor da Universal chuta imagem católica na TV:
"Em nome do 'Estado laico': xô satanás!"
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Ontem à noite, parei o olho no programa Domingo Espetacular, da Rede Record de televisão. Em geral não perco meu tempo assistindo a esse tipo de atração (?) domingueira - ainda mais uma da emissora do "bispo" Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), e apresentada pelo "independente" Paulo Henrique Amorim. Mas abri uma exceção, pois o assunto me chamou a atenção. O programa apresentou extensa reportagem - chamemos assim - sobre um tema, digamos, polêmico: a Concordata que está para ser assinada no Senado entre o Brasil e a Santa Sé - de forma totalmente manipulada e distorcida, visando a desinformar e induzir o espectador.

Raras vezes vi exemplo tão claro de propaganda ideológico-religiosa travestida de jornalismo - e jornalismo, se é para dizer assim, da pior qualidade. Até para os padrões da Record a, digamos, reportagem passou de todos os limites da empulhação e da desonestidade. Quem assistiu ficou com a nítida impressão de que a tal Concordata é um acordo "para beneficiar e privilegiar a Igreja católica", um "atentado contra a diversidade religiosa", uma "ameaça contra o Estado laico", até mesmo um "retrocesso rumo à Idade Média".

Já escrevi aqui antes, e não custa repetir, que não tenho qualquer simpatia especial pela Igreja católica, assim como por qualquer religião. Mas nem por isso vou me calar diante de uma farsa grotesca, uma clara tentativa de manipulação. Quando a emissora dos "bispos" da IURD - comprada com o dinheiro dos fiéis, segundo denúncia do Ministério Público - fala em "tolerância" e em "defesa do Estado laico", é bom desconfiar. A campanha da IURD/Record contra a Concordata Brasil-Santa Sé não tem nada a ver com a defesa do laicismo e da diversidade religiosa. Tampouco o acordo a ser celebrado com o Vaticano constitui qualquer ameaça à separação entre religião e Estado. Toda a gritaria contra o acordo não passa de óbvio exagero, fruto de colossal ignorância ou de deliberada má-fé. Digo por quê.

Alem do fato de que, em momento algum a Concordata foi apresentada como um tratado entre dois Estados (e não entre o Estado brasileiro e uma religião, como foi sistematicamente repetido), a, vá lá, "reportagem" - é preciso inventar palavras novas para fenômenos como esse - cita os Artigos 6 e 7 do Acordo, como uma das "provas" do alegado "tratamento privilegiado" que seria concedido à Igreja católica no Brasil. O que dizem os Artigos? Dizem o seguinte:

Artigo 6:

As Altas Partes reconhecem que o patrimônio histórico, artístico e cultural da Igreja Católica, assim como os documentos custodiados nos seus arquivos e bibliotecas, constituem parte relevante do patrimônio cultural brasileiro, e continuarão a cooperar para salvaguardar, valorizar e promover a fruição dos bens, móveis e imóveis, de propriedade da Igreja Católica ou de outras pessoas jurídicas eclesiásticas, que sejam considerados pelo Brasil como parte de seu patrimônio cultural e artístico.

Artigo 7:

A República Federativa do Brasil assegura, nos termos do seu ordenamento jurídico, as medidas necessárias para garantir a proteção dos lugares de culto da Igreja Católica e de suas liturgias, imagens e objetos cultuais, contra toda forma de violação, desrespeito e uso ilegítimo.

& 1: Nenhum edifício, dependência ou objeto do culto católico, observada a função social da propriedade e a legislação, pode ser demolido, ocupado, transportado, sujeito a obras ou destinado pelo Estado e entidades públicas a outro fim, salvo por necessidade ou utilidade pública, ou interesse social, nos termos da Constituição brasileira.

O que há de contrário à liberdade de culto e de crença e à separação entre religião e Estado nos dois Artigos reproduzidos acima? O seguinte, segundo a IURD/Record: o patrimônio da Igreja católica (igrejas, mosteiros, conventos, peças sacras etc.) não faz parte do patrimônio cultural e artístico brasileiro. Logo, não tem nada que ser protegido pelo Estado.

Ora, até mesmo o mais ateu dos historiadores (e eu, como ateu e formado em História, sou insuspeito para falar) é obrigado a reconhecer que a Igreja católica teve um papel preponderante na formação histórica e cultural brasileira. Basta ir a qualquer cidade do País que essa influência saltará aos olhos, revelando-se no próprio nome dos lugares (São Paulo, São Sebastião do Rio de Janeiro, São Salvador, Baía de Todos os Santos, Belém etc.). A arte do período colonial, sem o substrato católico, perderia completamente qualquer sentido: as esculturas de Aleijadinho, por exemplo, assim como toda a arte do barroco mineiro do século XVIII, que constituem inegavelmente patrimônio artístico e cultural do Brasil, são inseparáveis do patrimônio da Igreja católica. Sem falar no fator demográfico - a maioria esmagadora da população no Brasil é cristã, tendo a herança católica incorporada a seu referencial cultural. O catolicismo teve um papel fundamental na formação cultural e histórica do povo brasileiro - isso, queiramos ou não, é inegável. Daí porque nos tribunais e repartições públicas se costuma pendurar um crucifixo nas paredes, e não uma estátua de Buda ou um verso do Corão (embora isso não seja proibido, nem deveria).

Portanto, não é absurdo nenhum querer que o Estado proteja o patrimônio artístico e cultural da Igreja como parte da cultura brasileira. E isso não tem nada a ver com qualquer tentativa de "privilegiar" o catolicismo: fosse o Brasil um país majoritariamente muçulmano, ou budista, e o patrimônio a ser protegido pelo Estado seriam mesquitas e pagodes. Trata-se, na verdade, de regularizar uma situação já existente de fato: cabe sim ao Estado, através de suas instituições artísticas e culturais, proteger o patrimônio artístico e cultural do País, seja ele uma igreja ou mosteiro do século XVI, seja um terreiro de candomblé - até mesmo os horrendos templos da IURD, com seu estilo arquitetônico "greco-goiano", podem, um dia, entrar na lista.

Mas entende-se: para quem já chutou ao vivo uma imagem de santa na televisão, o Artigo 7 da Concordata Brasil-Santa Sé, que fala em proteger os lugares de culto e objetos católicos de qualquer tentativa de violação ou desrespeito, é mesmo inaceitável; é mesmo de uma "intolerância" sem tamanho com outros credos...

Em seguida, a reportagem encasqueta com o Artigo 11 da Concordata. Este seria o mais perigoso, segundo a IURD/Record, à preservação da laicidade estatal e à liberdade de culto e de crença no Brasil. Aqui os, digamos, "repórteres" a serviço do "bispo" foram um pouco mais além: usando os recursos típicos da linguagem televisiva, como destacar partes de um texto em detrimento de outras, eles tentaram mostrar que o Artigo, ao estabelecer o "ensino religioso" (= católico) nas escolas públicas, é uma clara violação da Constituição brasileira. De fato, quem tiver lido somente o que foi mostrado na TV saiu convencido que, com a Concordata, todas as crianças serão obrigadas, no horário de aula, a rezar o pai-nosso e ir à missa. Por isso, faço questão de reproduzir, aqui, o texto integral do referido Artigo. Ei-lo:

Artigo 11

A República Federativa do Brasil, em observância ao direito de liberdade religiosa, da diversidade cultural e da pluralidade confessional do País, respeita a importância do ensino religioso em vista da formação integral da pessoa.

§1º. O ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, em conformidade com a Constituição e as outras leis vigentes, sem qualquer forma de discriminação.

Atentem para as partes em negrito. Fiz questão de grifá-las para deixar claro que, nesse caso, a emissora do empresário da fé Edir Macedo não se limitou a mentir de forma descarada: ela OMITIU, proposital e deliberadamente, parte essencial da questão, de forma a mostrar o Artigo 11 da Concordata como uma ameaça à liberdade de culto e de crença. Por meio de manipulação, a reportagem tentou induzir os espectadores a acreditarem que o Brasil está para assinar um acordo que irá privilegiar uma religião, instituindo, de forma obrigatória, o ensino católico nas escolas. Quem ler o texto, porém, verá que não é nada disso: não só o ensino não será necessariamente católico, como será facultativo (ou seja: estuda quem quiser, sem qualquer forma de discriminação). A Record enganou o público. Mais uma vez, diga-se.

Mas a mentira não parou por aí. A fim de reforçar, na mente do público-alvo, que a Concordata será a versão moderna da Inquisição medieval, os "jornalistas" da IURD/Record fizeram comparações com o vigente em outros países. Quando se referiram a Israel, um país ameaçado diariamente pelo fanatismo islâmico, a forçação de barra chegou ao ridículo: a reportagem mostrou cenas de escolas religiosas islâmicas, as madrassas, de onde saem muitos homens-bomba, tentando fazer uma associação entre o terrorismo islamita e a proposta de ensino religioso da Concordata. Sem comentários...

Para dar um verniz de "imparcialidade" ao que estava sendo dito, foram colhidos depoimentos, além do presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (que disse que a Concordata era um "retorno ao século XVIII"), de alguns líderes religiosos: um pastor da Assembléia de Deus (colocar alguém da IURD seria dar muito na vista), um mulá muçulmano (que falou em árabe) e uma representante da ONG "católicas pelo direito de decidir". Todos foram unânimes em sua condenação à Concordata, mostrada sempre como uma ameaça ao Estado laico. Durante toda a reportagem, não se viu nenhum padre ou bispo católico falando a respeito.

Ao longo de toda a matéria, a condenação à Concordata foi apresentada como a defesa intransigente da laicidade e da liberdade de culto e de crença, contra uma tentativa de "privilegiar" uma religião em detrimento de outras. Mas o que ficou claro é que, por trás da resistência ao Acordo, está um falso laicismo, um preconceito anticatólico. Na verdade, é mais que isso: trata-se de, em nome da diversidade religiosa, opor-se à livre concorrência entre as religiões, do mesmo modo que muitos se opõem à livre concorrência no mercado. Ou seja: a oposição à própria noção de diversidade e pluralismo religiosos. O oposto exato da idéia de laicidade. .Ou se

Se tem algo que a atual campanha contra a Concordata Brasil-Santa Sé demonstra com clareza é que, para atacar a Igreja católica, vale qualquer arma, até mesmo fingir-se de laico. Muita gente inteligente, em nome de supostos ideais iluministas, está se deixando enganar por essa conversa mole, aderindo ao CCC - Comando de Caça aos Católicos.

A IURD tem o direito a se opor à Concordata com a Santa Sé. Tem o direito, inclusive, de fazer lobby no Congresso para que esta não seja aprovada, o que fazem os deputados e senadores a ela ligados. Pode-se, inclusive, questionar o ensino religioso nas escolas públicas, tendo em vista até mesmo questões práticas e sua inaplicabilidade (haverá um professor para cada religião? etc.). Mas isso não dá a ninguém o direito de mentir e enganar o público. Que a neopentecostal IURD, conhecida por suas "fogueiras santas de Israel" e por seus "exorcismos" feitos com sal grosso, sem falar nos chutes a imagens de santas e na maneira, digamos, empresarial como encara a fé, se arvore em defensora da "tolerância" contra o "obscurantismo" católico é mesmo um sinal dos tempos. É algo que só vem provar que religião e política - e religião e jornalismo - realmente não combinam.

sexta-feira, setembro 11, 2009

O DIA EM QUE O MUNDO ACORDOU


Se tem uma imagem do 11 de setembro que não me sai da retina, não é a dos aviões atingindo o World Trade Center em Manhattan, nem a das pessoas se atirando das janelas em desespero para a morte, nem a das Torres Gêmeas desabando em meio a um inferno de fogo, poeira e escombros. Todas essas imagens, terríveis e espetaculares como são, não superam outra, bem mais prosaica. É a foto de um grupo de jovens modernosos, provavelmente americanos ou europeus, assistindo a tudo de camarote, do outro lado do Rio Hudson, como se estivessem vendo um show de TV, com ar blasé. Despreocupados. Impassíveis. Indiferentes.

Essa imagem, realmente surreal, me marcou profundamente. A meu ver, ela sintetiza e define com precisão a maneira como muita gente, dentro e fora dos EUA, encarou e encara até hoje o que ocorreu em Nova York e Washington, naquela manhã ensolarada, oito anos atrás. Como se estivessem falando sobre a balada da noite anterior, o grupo moderninho, muito à vontade, conversa despreocupadamente. O país está sendo atacado, diante de seus olhos, mas parece que eles não estão nem aí: é como se o que estivesse ocorrendo há apenas alguns quilômetros de distância não lhes dissesse respeito em absoluto. Creio que um deles, olhando-se bem a foto, parece até estar sorrindo, fazendo graça com o ocorrido. É a imagem perfeita da acomodação em meio à catástrofe, do tédio em meio ao caos. A indiferença em relação à dor dos outros, como dizia Susan Sontag - ironicamente, uma das estrelas do esquerdismo chique nova-iorquino. Indiferença ainda mais absurda e surrealista, pelo fato de o "outro", no caso, ser americano.

Centenas de livros foram escritos e dezenas de filmes foram feitos sobre o maior atentado terrorista da História, mas pouco se falou, até agora, sobre aquilo que considero um dos motores, senão o principal motor, da tragédia. Refiro-me à maneira absolutamente negligente - eu diria mesmo criminosa - como o tema do terrorismo foi tratado durante anos, e que deu ensejo ao que os terroristas fizeram naquela terça-feira. A foto do grupinho conversando despreocupadamente enquanto, do outro lado do rio, milhares de pessoas morriam uma morte horrível ilustra isso perfeitamente.

Pouca gente se dá conta, mas o ovo da serpente terrorista contra os EUA - contra a civilização, na verdade - foi chocado bem antes, durante anos. O governo de Bill Clinton (1992-2000), enrolado em charutos eróticos e estagiárias fogosas, desprezou a ameaça que se gestava no Oriente Médio, na forma da Al-Qaeda e de Bin Laden. Quando os aviões se espatifaram contra as Torres Gêmeas, Bin Laden já havia declarado guerra contra "os judeus e os cruzados" havia cinco anos, e sua rede terrorista já havia atacado alvos norte-americanos antes (as embaixadas no Quênia e na Tanzânia, em 1998, e o navio USS Cole, em 2000), com centenas de vítimas fatais. Mas a resposta do governo democrata se limitara a algumas declarações inócuas e a alguns mísseis atirados contra alvos no deserto no Afeganistão e no Sudão - no caso deste último, até isso foi bastante condenado à época, pois os mísseis americanos teriam atingido supostamente uma fábrica de remédios mantida pelo governo islamita de Cartum. O FBI e a CIA, ao que consta, já haviam tido a oportunidade de capturar Bin Laden, mas o plano fora abortado, ao que parece, porque as autoridades norte-americanas consideravam o milionário saudita uma figura menor, um peixe pequeno no mar do terrorismo internacional. Não era, enfim, politicamente correto, nem conveniente, caçar e eliminar fanáticos muçulmanos escondidos em algum cafundó do Afeganistão. Era mais importante, para Clinton e a quinta-coluna democrata infiltrada na Casa Branca, prosseguir na autoflagelação simpática aos outros países do que enfrentar para valer assassinos de turbante. Ao mesmo tempo, Clinton e sua secretária de Estado, Madeleine Albright, esforçavam-se para reaproximar-se de governos como o da Coréia do Norte.

Por isso, não fiquei exatamente surpreendido quando os EUA foram, finalmente, atacados - pela dimensão e método do ataque, certamente, mas não pelo atentado em si. Do mesmo modo, não me surpreendi quando vi as manifestações de júbilo na internet - inclusive por e-mail - pelo sucedido nos EUA naquele dia fatídico. Não estranhei, principalmente, as inúmeras teorias conspiratórias que pulularam naqueles dias, sempre na mesma toada - os ataques teriam sido forjados pelos próprios EUA, para deflagar uma guerra contra o Islã e se apoderar do petróleo do Oriente Médio etc. etc. -, que tinham em comum o fato de apresentarem os EUA sempre como o lado agressor, jamais como vítima (é incrível o que o antiamericanismo faz na cabeça das pessoas). Nada disso me surpreendeu, embora me cause asco até hoje lembrar a forma calhorda como muita gente considerada inteligente comemorou (sem aspas) a morte de quase três mil pessoas. Durante oito anos, pelo menos, o governo dos EUA fez vista grossa ao avanço do terrorismo islamita, baixando a guarda para seus inimigos. Era questão de tempo até que um ataque daqueles fosse lançado contra a maior potência do mundo. Quando finalmente ocorreu, todos foram pegos desprevenidos, e, desconhecendo o inimigo, apontaram o dedo para os próprios EUA.

O 11 de setembro demonstrou da pior maneira possível que a negligência em relação ao terrorismo islamita e o antiamericanismo andam lado a lado. Uma nota insistentemente tocada naqueles dias dizia que, com os atentados, os EUA estavam "colhendo o que plantaram", isto é, estavam sendo alvos de uma reação legítima por causa da política de Washington no Oriente Médio etc. Ninguém pareceu muito preocupado com a fragilidade intrínseca a esse tipo de argumento (o que tem a ver a política exterior norte-americana com a recompensa de 72 virgens no paraíso, por exemplo?), nem com o fato de que isso significa justificar o terrorismo, colocar-se no mesmo patamar moral de Bin Laden. Mas uma coisa é preciso admitir: tendo em vista a omissão escandalosa do governo Clinton no tocante ao combate ao terrorismo, assim como o primado da visão politicamente correta, os EUA realmente "colheram o que plantaram" em 11 de setembro de 2001.

Durante algum tempo, após os ataques nos EUA, pareceu que o mundo havia finalmente acordado para o perigo do terrorismo islamita, a maior ameaça à civilização desde a queda do comunismo. A forma como todo o povo norte-americano se uniu, deixando de lado diferenças e picuinhas partidárias (inclusive esquecendo-se, momentaneamente, da leviandade democrata, que propiciou os atentados), foi algo que, até hoje, me causa arrepios de admiração. (A escritora italiana Oriana Fallacci escreveu que, se os atentados tivessem ocorrido na Itália, os políticos de lá teriam aproveitado a ocasião para se devorarem entre si - acredito que no Brasil não seria diferente). Mas isso, infelizmente, durou pouco. Logo o velho antiamericanismo deu o ar de sua graça (ou desgraça), manifestando-se já no momento em que os EUA decidiram caçar Bin Laden e derrubar os fanáticos do Talibã no Afeganistão. A partir daí, a união e a solidariedade demonstradas nos primeiros dias após os ataques deram lugar, cada vez mais, à demonização de Jorjibúxi, algo que a invasão do Iraque e a derrubada de Saddam Hussein em 2003, em vez de ajudarem a diminuir, só atiçaram. E isso malgrado o fato de que nunca mais os EUA sofreram nenhum atentado terrorista semelhante, embora tentativas não tenham faltado. É que solidariedade com o gigante atacado, tudo bem. Já punir os responsáveis pelo ataque... Isso, não: isso é "imperialismo".

Desde então, os dias de reação enérgica contra o terrorismo parecem cada vez mais distantes. A luta contra o terrorismo islamita deixou de ser uma prioridade, voltando aos níveis do governo Clinton. A "guerra ao terror de Bush" - sempre entre aspas, sempre acrescida do nome do ex-presidente norte-americano, como se de uma causa da civilização não se tratasse - passou a ser vista com cada vez mais descrença e sarcasmo, e hoje questões como o status de Guantánamo ou a prática do waterboarding para arrancar informações dos terroristas presos tomaram o lugar da luta contra o terrorismo islamita nas manchetes. De certa forma, voltou-se aos tempos pré-11 de setembro, com o ressurgimento do mais nefasto antiamericanismo, que agora se apresenta com o rótulo de "respeito às diferenças", com o qual se tenta disfarçar a tolerância com o terror islamita, visto como uma forma de "resistência" contra a "opressão do imperialismo ocidental". Com a ascensão de Babaca Obama e de Hillary Clinton ao poder, esse retrocesso se completou.

Quase nada se sabe sobre as pessoas na foto que ilustra esse texto. Mas uma coisa é certa: poucas imagens simbolizam melhor a falta de consciência do perigo, a negligência e a indiferença em relação à ameaça terrorista. Isso custou milhares de vidas em 11 de setembro de 2001. Custará muitas outras vidas mais, se depender de quem está atualmente na Casa Branca.

quinta-feira, setembro 10, 2009

O COROA DO RIO (OU: "VOU APERTAR, MAS NÃO VOU ACENDER AGORA"...)


Um video que já está circulando no Youtube - é uma pena que eu não o tenha aqui para mostrar (ainda não aprendi como colocar no blog) - mostra o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, em seu melhor estilo. Com aquele seu coletezinho esperto (ou "ixxxpééérrrrto", em bom carioquês) ele, muito à vontade (bastante à vontade, de fato...), aparece, todo serelepe, dando um "recado pra rapaziada".

Em um show de reggae da banda Tribo de Jah na Chapada dos Veadeiros - que melhor lugar haveria? -, o Coroa do Rio, bastante animado, aproveita para fazer um de seus discursos mais eloqüentes a favor do meio ambiente ("Viva a Amazônia", "Viva Bob Marley", Viva Chico Mendes"). Em seguida, ao lembrar de recente decisão judicial na Argentina que descriminaliza o porte e consumo pessoal de canabis, Minc, sabe-se lá por conta de qual estranho mecanismo mental (ou não), emenda o discurso ecológico com a defesa entusiasmada da "descriminalização do usuário" (!), enquanto alguém na platéia grita "Maconha! Maconha! Pré-Sal! Pré-Sal!" (!?). Conclama a todos, então, a fazerem um momento "paz e amor", abraçando e beijando quem estiver ao lado, o amigo, a namorada, o namorado... No final, com a fala engrolada, Minc termina o discurso bamboleando, todo pimpão, ensaiando uns passinhos de reggae geriátrico.

No palco - lugar onde ele se sente melhor do que em qualquer outro, sem dúvida -, Minc ainda exortou a platéia juvenil: "Não vamos deixar queimarem a Amazônia!" Queimar a Amazônia, não. Queimar a Amazônia, não pode, diz Minc. Só a Amazônia.

De todos os ministros do governo Lula, Carlos Minc é, certamente, o mais divertido. O mais lúdico, digamos assim. E não quero dizer com isso algo necessariamente bom. Muito pelo contrário. É certo que um ministro não deve se isolar em seu gabinete, mas um mínimo de compostura, um mínimo de decência, é esperado. Não é o caso de Minc, que prefere dar show para as câmeras - e um show de péssima qualidade.

Não nego as credenciais de Minc para falar de ecologia, embora o tema não me entusiasme nem um pouco. Aliás, sempre desconfiei que essa é uma daquelas causas feitas sob medida para os esquerdistas fazerem proselitismo barato contra o "cruel sistema capitalista" (e o fato de ele, Minc, ter chamado os produtores rurais de "vigaristas" parece corroborar essa impressão). Que ele, Minc, também tenha em seu currículo o fato de ter sido militante da mesma organização terrorista de esquerda a que pertenceu Dilma Rousseff nos anos 60 também não é algo, como direi?, particularmente abonador. Assim como não é o fato de ele já ter dado pitaco até sobre a proibição católica do aborto, investindo-se, assim, da condição de especialista em teologia. Tudo isso é bastante revelador sobre a pessoa e - principalmente - o personagem. O Coroa do Posto Seis (ou "Posssto Seixxx") já participou da "marcha da maconha" no Rio, e não esconde de ninguém que acha que a "descriminalização do usuário" (sic) é o melhor caminho para "acabar com essa hipocrisia que está aí". Penso que, nesse assunto, ele está sendo, pelo menos, sincero. Acredito mesmo que ele pratica o que prega. O que explica, diga-se, muitas de suas opiniões.

A descriminalização das drogas é uma dessas idéias que, aparentemente, dizem uma coisa, mas cujo efeito na prática é exatamente outro. Seus defensores a justificam como uma questão de liberdade individual, e alguns deles, mais intelectualizados, não raro apelam mesmo, de boa ou má fé, para alguns pensadores liberais do século XIX, como John Stuart Mill. Ocorre que tal idéia é exatamente o oposto da liberdade, cujo corolário inseparável é a responsabilidade individual - o que é freqüentemente esquecido. Com efeito, nada mais contrário à noção de responsabilidade - e, portanto, de liberdade - do que o vício em maconha ou em cocaína. Principalmente quando se sabe que é esse vício, queiram ou não os defensores da "descriminalização" como Carlos Minc, que alimenta o narcotráfico nas favelas. Sem falar no tráfico internacional. Ainda espero algum especialista no assunto, fã ou não de Bob Marley, me convencer como tal medida, se aplicada no Brasil, irá contribuir para diminuir o tráfico e a violência, quando se sabe que a questão não depende de um único país. Pelo contrário: é um tema realmente mundial. Ou se libera em todos os países, ou não se libera em nenhum. (Basta olhar para o paraíso dos maconheiros, a Jamaica, que tem alguns dos piores índices de criminalidade do continente.) Até lá, o consumo de maconha e outras substâncias ilícitas é mais do que um assunto privado: é conivência e cumplicidade com o crime, ponto final. Falta de responsabilidade, se é para ser menos duro.

Minc, aliás, dá um exemplo claro dessa falta de responsabilidade. Se tivesse guardado suas opiniões para si, ou mesmo dito o que disse em casa, num ambiente particular, perante uma platéia de amigos, poder-se-ia afirmar que se trata de um ponto de vista pessoal dele, Minc, sem maiores consequências. Mas não. Ele fez uma declaração pública, em cima de um palco, em um show de reggae, deixando clara sua posição sobre o assunto. Posição, vale lembrar, não dele unicamente, mas de um ministro de Estado. Era, enfim, o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, fazendo a apologia das drogas, crime previsto em Lei. A pena é de 5 a 15 anos de prisão.

O hábito de fumar maconha ou de ingerir outras substâncias alucinógenas caminha lado a lado com a falta de responsabilidade. Quem diz isso não é um "reaça", um "careta": é alguém que preferiu colocar a coerência acima de qualquer outra consideração. Basta atentar para o seguinte fato: na hora de defender a "descriminalização", os apreciadores do fumacê rotulam qualquer crítica que lhes for dirigida como direitista, reacionária etc. Quando, porém, estão estrebuchando por causa dos efeitos da droga, fazem questão de exigir que o Estado cuide deles. Isso, aliás, já ocorre, pois a mesma Lei que eles tanto gostam de atacar como "conservadora", lhes garante a assistência médica gratuita em caso de algum problema decorrente do que é, na verdade, uma escolha pessoal, uma opção de cada um. E isso com o seu, o meu, o nosso suado dinheirinho. A questão é: se fumar um beque é uma questão de liberdade individual, como dizem, por que fazer a sociedade pagar por esse vício? Se tivessem um mínimo de coerência, deveriam abdicar de qualquer tratamento ou assistência médica estatal, em troca da "liberdade" de curtir um baseado.
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Ainda que fosse só Carlos Minc, mas o problema é maior do este ou aquele membro do governo. Há algumas semanas, Lula esteve na Bolívia, onde manteve reunião com o cocaleiro Evo Morales, seu companheiro. Na ocasião, o presidente brasileiro deixou-se fotografar ao lado de Morales, com um enorme colar em volta do pescoço, feito com folhas de coca. Desde que Morales assumiu a presidência, a produção de cocaína no país, e sua exportação para o Brasil, só vêm aumentando. Agora entendi por que Lula chamou Carlos Minc para ser ministro.
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O Coroa do Rio deve ter fumado todo o Código Penal antes de fazer seu discurso e sua dancinha. E não fez efeito algum. É isso aí, rapaziada.

FRASE DO DIA

"A diferença entre um filho da puta de extrema-direita e um filho da puta de extrema-esquerda é que o primeiro sabe que é filho da puta; o de extrema-esquerda vai sempre se achar um santo, um São Francisco de Assis". - Do livro Elsa, a Garota, de Sérgio Rodrigues (Nova Fronteira, 2009).

quarta-feira, setembro 09, 2009

AS DUAS TRAIÇÕES DO "CABO" ANSELMO

Reproduzo a seguir texto de Olavo de Carvalho, publicado ontem, 08/09, no Diário do Comércio. O leitor curioso verá que muita coisa que ele diz eu já adiantei em dois posts meus anteriores, o que mostra que estou longe de ser um mero repetidor, como alguém chegou a insinuar outro dia, do pensamento do "filósofo autonomeado" e maior inimigo das esquerdas brasileiras. Não sou "olavete", assim como não sou "reinaldete" ou "mainardete". Mas, se quiserem pensar assim, fiquem à vontade, não dou a mínima.
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Na verdade, como já escrevi aqui, tenho algumas divergências pontuais com O. de C. Mas, para o caso que aqui interessa, isso é irrelevante. O texto dele sobre a entrevista que o "Cabo" Anselmo deu na TV Bandeirantes é, como tudo o mais que ele escreve, preciso, incisivo, quase brutal em sua sinceridade. Prestem atenção a como Anselmo responde à pergunta de se ele se considera um traidor: é uma das respostas mais cortantes que alguém já deu a um entrevistador.
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De fato, sempre que o tema dos "anos de chumbo" da ditadura militar é retomado, o que se vê é uma duplicidade moral, uma tendência quase automática a condenar a "direita" e enaltecer os feitos da "esquerda", tida como sacrossanta e inatacável. O texto de Olavo de Carvalho ajuda a demolir esse mito, mostrando que, quando se fala do "Cabo" Anselmo, o que vem à mente é sua traição à luta armada de esquerda, quando ele foi, na verdade, duplamente traidor - da esquerda radical e, principalmente, das Forças Armadas: primeiro em 1964, como líder da baderna que levou à queda do governo Goulart; depois, ao passar para o lado de uma organização terrorista de extrema esquerda, que lutava para transformar o Brasil numa nova Cuba ou numa Coréia do Norte.
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Os entrevistadores, infelizmente, não foram capazes de se colocar acima da visão simplista e grosseira difundida pelas esquerdas: preferiram focar no Anselmo "traidor da luta armada", não no Anselmo líder da revolta dos marinheiros ou guerrilheiro castrista. Também quase não tocaram nos motivos ideológicos que levaram Anselmo a trocar de lado - a desilusão com o socialismo quando esteve em Cuba, antes de retornar ao Brasil e ser preso. Se é verdade que ele aceitou ser informante da polícia por medo de morrer, não é menos verdadeiro que ele o fez também por não querer para o Brasil o mesmo que viu na ilha-prisão dos irmãos Castro, onde sobra censura e falta até papel higiênico.
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Se há algo que a histórica entrevista de Anselmo demonstrou com exatidão, é que os jornalistas brasileiros estão escravizados a um duplo código moral, como diz O. de C.: um para a "direita" - implacável, radical, intransigente - e outro, para a "esquerda" - a quem absolutamente tudo é permitido. Poucas vezes se viu maior duplicidade, maior servilismo, ainda que involuntário, aos cânones esquerdistas.
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Leiam - e vejam - e tirem suas próprias conclusões. Os grifos são meus.

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DOIS CÓDIGOS MORAIS

A entrevista do Cabo Anselmo ao programa “Canal Livre” (TV Bandeirantes, 26 de agosto, http://www.averdadesufocada.com/index.php?option=com_content&task=view&id=2267&Itemid=34) é um dos documentos mais importantes sobre a história das últimas décadas e mereceria uma análise detalhada, que não cabe nas dimensões de um artigo de jornal. Limito-me, portanto, a chamar a atenção do leitor para um detalhe: o confronto do entrevistado com os jornalistas foi, por si, um acontecimento revelador, talvez até mais que o depoimento propriamente dito.
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Logo de início, o apresentador Boris Casoy perguntou se Anselmo se considerava um traidor. Ele aludia, é claro, ao fato de que o personagem abandonara um grupo terrorista para transformar-se em informante da polícia. Para grande surpresa do jornalista, o entrevistado respondeu que sim, que era um traidor, que traíra seu juramento às Forças Armadas para aderir a uma organização revolucionária. A distância entre duas mentalidades não poderia revelar-se mais clara e mais intransponível. Para a classe jornalística brasileira em peso, o compromisso de um soldado para com as Forças Armadas não significa nada; não há desdouro em rompê-lo. Já uma organização comunista, esta sim é uma autoridade moral que, uma vez aceita, sela um compromisso sagrado. Nenhum jornalista brasileiro chama de traidor o capitão Lamarca, que desertou do Exército levando armas roubadas, para matar seus ex-companheiros de farda. Traidor é Anselmo, que se voltou contra a guerrilha após tê-la servido. Anselmo desmontou num instante a armadilha semântica, mostrando que existe outra escala de valores além daquela que o jornalismo brasileiro, com ares da maior inocência, vende como única, universal e obrigatória.
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O contraste mostrou-se ainda mais flagrante quando o jornalista Fernando Mitre, com mal disfarçada indignação, perguntou se Anselmo não poderia simplesmente ter abandonado a esquerda armada e ido para casa, em vez de passar a combatê-la. Em si, a pergunta era supremamente idiota: ninguém – muito menos um jornalista experiente – pode ser ingênuo o bastante para imaginar que uma organização revolucionária clandestina em guerra é um clube de onde se sai quando se quer, sem sofrer represália ou sem entregar-se ao outro lado. Conhecendo perfeitamente a resposta, Mitre só levantou a questão para passar aos telespectadores a mensagem implícita do seu código moral, o mesmo da quase totalidade dos seus colegas: você pode ter as opiniões que quiser, mas não tem o direito de fazer nada contra os comunistas, mesmo quando eles estão armados e dispostos a tudo. Ser anticomunista é um defeito pessoal que pode ser tolerado na vida privada: na vida pública, sobretudo se passa das opiniões aos atos, é um crime. Não que todos os nossos profissionais de imprensa sejam comunistas: mas raramente se encontra um deles que não odeie o anticomunismo como se ele próprio fosse comunista. Essa afinidade negativa faz com que, no jornalismo brasileiro, a única forma de tolerância admitida seja aquela que Herbert Marcuse denominava “tolerância liberdadora”, isto é: toda a tolerância para com a esquerda, nenhuma para com a direita.
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Mais adiante, ressurgiu na entrevista o episódio do tribunal revolucionário que condenara Anselmo à morte. Avisado por um policial que se tornara seu amigo, Anselmo fugira em tempo, enquanto os executores da sentença, ao chegar à sua casa para matá-lo, eram surpreendidos pela polícia e mortos em tiroteio. De um lado, os entrevistadores, ao abordar o assunto, tomavam como premissa indiscutível a crença de que Anselmo fora responsável por essas mortes, o que é materialmente absurdo, já que troca o receptor pelo emissor da informação. De outro lado, todos se mostraram indignados – contra Anselmo – de que no confronto com a polícia morresse, entre outros membros do tribunal revolucionário, a namorada do próprio Anselmo. Em contraste, nenhum deu o menor sinal de enxergar algo de mau em que a moça tramasse com seus companheiros a morte do namorado. Entendem como funciona a “tolerância libertadora”?
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A quase inocência com que premissas esquerdistas não-declaradas modelam a interpretação dos fatos na nossa mídia mostra que, independentemente das crenças conscientes de cada qual, praticamente todos ali são escravos mentais da auto-idolatria comunista.
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Ao longo de toda a conversa, os jornalistas se mantiveram inflexivelmente fiéis à lenda de que os guerrilheiros dos anos 70 eram jovens idealistas em luta contra uma ditadura militar, como se não estivessem entrevistando, precisamente, a testemunha direta de que a guerrilha fôra, na verdade, parte de um gigantesco e bilionário esquema de revolução comunista continental e mundial, orientado e subsidiado pelas ditaduras mais sangrentas e genocidas de todos os tempos. Anselmo colaborou com a polícia sob ameaça de morte, é certo, mas persuadido a isso, também, pela sua própria consciência moral: tendo visto a verdade de perto, perdeu todas as ilusões sobre o idealismo e a bondade das organizações revolucionárias – aquelas mesmas ilusões que seus entrevistadores insistiam em repassar ao público como verdades inquestionáveis – e optou pelo mal menor: quem, em sã consciência, pode negar que a ditadura militar brasileira, com todo o seu cortejo de violências e arbitrariedades, foi infinitamente preferível ao governo de tipo cubano ou soviético que os Lamarcas e Marighelas tentavam implantar no Brasil? Ao longo de seus vinte anos de governo militar, o Brasil teve dois mil prisioneiros políticos, o último deles libertado em 1988, enquanto Cuba, com uma população muito menor, teve cem mil, muitos deles na cadeia até hoje, sem acusação formal nem julgamento. A ditadura brasileira matou trezentos terroristas, a cubana matou dezenas de milhares de civis desarmados. Evitar comparações, isolar a violência militar brasileira do contexto internacional para assim realçar artificialmente a impressão de horror que ela causa e poder apresentar colaboradores do genocídio comunista como inofensivos heróis da democracia, tal é a regra máxima, a cláusula pétrea do jornalismo brasileiro ao falar das décadas de 60-70. Boris Casoy, Fernando Mitre e Antonio Teles seguiram a norma à risca. Desta vez, porém, o artificialismo da operação se desfez em pó ao chocar-se contra a resistência inabalável de uma testemunha sincera.
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Conhecendo as muitas complexidades e nuances da sua escolha, Anselmo revelou, no programa, a consciência moral madura de um homem que, escorraçado da sociedade, preferiu dedicar-se à meditação séria do seu passado e da História em vez de comprazer-se na autovitimização teatral, interesseira e calhorda, que hoje rende bilhões aos ex-terroristas enquanto suas vítimas não recebem nem um pedido de desculpas.
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Moral e intelectualmente, ele se mostrou muito superior a seus entrevistadores, cuja visão da história das últimas décadas se resume ao conjunto de estereótipos pueris infindavelmente repetidos pela mídia e consumidos por ela própria. O fato de que até Boris Casoy, não sendo de maneira alguma um homem de esquerda, pareça ter-se deixado persuadir por esses estereótipos, ilustra até que ponto a pressão moral do meio tornou impossível a liberdade de pensamento no ambiente jornalístico brasileiro.

terça-feira, setembro 08, 2009

AGORA SOMOS TODOS BOLIVARIANOS


Chavista em ação nas ruas de Caracas:
democrático até demais, segundo Lula...
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O governo brasileiro, de Luiz Inácio Lula da Silva, está muito preocupado com os rumos políticos da América Latina. Está receoso, sobretudo, diante de uma grave ameaça que paira sobre a paz e a segurança na região. Uma ameaça realmente letal, que o fez inclusive solicitar a convocação de uma reunião especial da UNASUL - a União dos Países Sul-Americanos - realizada há alguns dias em Bariloche, Argentina. Diante de ameaça assim tão séria, acredita Lula, é preciso mobilizar todos os esforços, unir todos os governos.

Que grave ameaça é essa, capaz de provocar arrepios em Lula? Seriam as freqüentes ingerências de Hugo Chávez nos assuntos internos dos países vizinhos, inclusive com a descoberta de que está fornecendo armas pesadas aos comunonarcoterroristas das FARC? Seriam os constantes atentados à liberdade de imprensa na Venezuela, com a declaração de Chávez de que irá fechar dezenas de canais de rádio no país que dizem o que ele não gosta de ouvir? Seria a aliança militar de Chávez com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad, cujo ministro da Defesa está na lista de procurados pela Interpol por explodir um centro judaico e algumas dezenas de pessoas em Buenos Aires nos anos 90? Seria o fato de que a Bolívia, sob a liderança entusiasmada de Evo Morales, está se tornando uma imensa plantação de coca para exportação para os promissores mercados das favelas brasileiras? Não. O que tira o sono de Lula e seus áulicos não é nada disso. É o acordo militar assinado entre... a Colômbia e os EUA.

O acordo Colômbia-EUA, como quem lê notícias sabe, prevê a permissão de uso, a militares norte-americanos, de sete bases colombianas nos próximos dez anos. Lula acha isso um absurdo. Acha que um país soberano, como é a Colômbia, não tem nada que se aliar aos gringos, e que isso pode vir a ser uma ameaça à Amazônia etc. etc. Está tão preocupado com o assunto que, na reunião da UNASUL em Bariloche, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, teve de corrigi-lo, afirmando que, ao contrário do que disse nosso Guia Genial, não há "bases americanas" na Colômbia (as bases são colombianas, o acordo prevê apenas o direito ao acesso a elas por parte de militares americanos - e, ainda que as bases fossem de Tio Sam, a Colômbia tem o direito de cessão, assim como qualquer outro país). Mas nada disso adiantou: com o apoio de grande parte da imprensa, já se escolheu o "perigo" do momento: as "bases americanas" às portas da Amazônia.

Lula está preocupado, principalmente, porque o acordo foi assinado entre o governo da Colômbia, que não reza pela cartilha esquerdista-bolivariana do Foro de São Paulo, que ele criou em 1990 junto com Fidel Castro para "restabelecer na América Latina o que se perdeu no Leste Europeu", e o governo dos EUA que, mesmo com o companheiro Babaca Obama à frente, ainda é, bem, os EUA... O que o move não é, obviamente, qualquer preocupação genuína com a segurança do hemisfério, nem com a Amazônia. Se alguém tem alguma dúvida, que dê uma olhada na maneira realmente enérgica com que o governo brasileiro condenou igualmente a aliança militar de Chávez com os aiatolás iranianos, e inclusive o anúncio de que a Venezuela irá ajudar o programa nuclear do Irã (Ahmadinejad só prometeu varrer Israel do mapa, mas deixa pra lá...). Ou a reação realmente veemente do governo brasileiro diante da revelação de que armas, inclusive foguetes, venezuelanas foram encontradas num acampamento das FARC, e que estas deram dinheiro a Chávez e a Rafael Correa do Equador. É... Ameaça mesmo é o acordo entre a Colômbia e os EUA para combater o narcotráfico. Aliança militar, segundo Lula, só com amantes da paz e da liberdade, como Ahmadinejad e Vladimir Putin.

Todos os dias lemos e ouvimos elogios rasgados ao "pragmatismo" de Lula, à sua "moderação", em comparação com os arreganhos autoritários de Chávez, Morales, Correa etc. etc. Há mesmo quem diga que Lula é uma alternativa ao chavismo, um anteparo, podendo servir de mediador etc. Pena que faltou combinar com os fatos. Lula já declarou que, na Venezuela, há "democracia até demais" e, graças aos bons ofícios de Marco Aurélio Top Top Garcia, o Brasil adotou a corajosa posição de se declarar "neutro" entre o governo colombiano e as FARC, entre outras demonstrações de "pragmatismo" e "moderação" do mesmo naipe. Ou seja: Lula, Chávez, Morales, Correa e Ortega, para não falar no padre comedor Fernando Lugo do Paraguai, estão no mesmo barco, no mesmo lado: o da "revolução bolivariana". Até a The Economist, ao que parece, começou a acordar para essa realidade. Tenho apenas uma dúvida: quem é o líder, Lula ou Chávez. Se o critério a ser levado em conta for o histrionismo e a exibição na mídia, a resposta é, certamente, Chávez. Mas se for a antigüidade e o nível de bajulação por parte da intelligentsia, bem como a capacidade de dissimulação, não tenho dúvida: o estrategista, o chefe, é Lula. Até porque, numa guerra, a tropa de choque vai na frente, e o general fica na retaguarda.

Fatos como a grita geral contra o acordo Colômbia-EUA, em contraste com o silêncio acabrunhado acerca do apoio escancarado de Chávez ao narcotráfico e ao terrorismo, assim como a condenação praticamente unânime ao governo constitucional de Honduras em favor do retorno do golpista Manuel Zelaya ao poder, não deixam qualquer margem à dúvida: seja na versão hardcore chavista, seja em sua forma light lulista, a verdade é que agora somos todos bolivarianos. Pobre América Latina: tão longe de Deus, tão perto de Chávez e Lula.

quinta-feira, setembro 03, 2009

WOODSTOCK: UM RETRATO NA PAREDE


Nunca fui muito ligado em música. Principalmente, na música dita "jovem", rock, pop, hip-hop, essas merdas todas. Houve uma época em que até tentei me interessar pelo assunto, e cheguei a comprar alguns discos - era o tempo dos discos de vinil, antes da chegada do CD às lojas. Gostava especialmente de Led Zepellin e The Doors - estes últimos, principalmente, por causa do filme de Oliver Stone de 1991, de que na época eu gostei mas que depois aprendi a abominar, como toda a obra desse diretor, aliás. Mas foi menos por interesse genuíno do que pela onda da adolescência, período em que costumamos pensar e agir com os hormônios e não com o cérebro. Fui a pouquíssimos shows de rock e, ao contrário da maioria dos caras de minha idade, nunca quis ter uma banda. Sempre preferi os filmes e os livros aos discos. Pelo menos, aqueles - principalmente os livros - me dizem muito mais. Até hoje é assim.

Sei que o que vou dizer a seguir poderá parecer algo meio fora de moda, e vai certamente decepcionar algumas pessoas. Se for assim, paciência. Entre frustrar as expectativas dos outros e violentar a própria consciência, fico com a primeira opção. Mas o fato é que a "comemoração" dos 40 anos do Festival de Woodstock, lembrado à exaustão no mês que passou, é uma dessas coisas que me enchem de um tédio irreprimível, de uma vontade danada de dormir e só acordar quando tudo estiver terminado. Não gosto de hippies, nunca gostei. E não é só pela falta de asseio pessoal ou pela vagabundagem - na verdade, confesso até sentir uma pontinha de simpatia pelo estilo de vida bicho-grilo: afinal, quem não quer sair por aí, cabelos ao vento, sem lenço nem documento, em harmonia com a natureza etc.?... Mas não, não é por isso que não simpatizo com os ripongas desta e de eras passadas. Detesto sobretudo a romantização, a visão mitificada que se tem até hoje sobre essa época, como repudio qualquer mitificação, sobre quem ou o que quer que seja.

Para começo de conversa, o que há para se comemorar? Uma frase bastante repetida sobre Woodstock é que "se você lembra do que rolou no festival, então é porque você não esteve lá". Isso diz muito sobre o que realmente aconteceu naqueles três dias de "música, sexo, drogas, paz e amor". Sobre música, já falei antes, tenho pouco a dizer. Quanto ao sexo, as orgias romanas e casas de swing de hoje em dia não deixam muito a desejar, e francamente não vejo muito sentido em glamourizar um bundalelê ao ar livre. O mesmo para o consumo de drogas. Para mim, Woodstock nada mais foi do que uma imensa rave, com gente suja, pelada e bolada de tanta maconha e LSD. Um festival de piolhos e de lama, regado a canabis.

Na verdade, o que se celebrou em Woodstock não foi qualquer "rebeldia", mas o escapismo, a pura e simples irresponsabilidade juvenil, com uma embalagem "psicodélica". Quem assistir aos filmes sobre o evento poderá constatar: ninguém ali fala coisa com coisa, estão todos muito doidões para pensar e articular uma frase coerente, e até mesmo para curtir a música. Uma das performances mais famosas, a de Joe Cocker cantando "With A Little Help From My Friends", dos Beatles, não deixa dúvidas: o cantor estava pra lá de Bagdá. Uma opinião estúpida diz que sua apresentação foi tão boa por causa das drogas que ele tomou antes de subir ao palco. De fato, sua performance foi tão genial que durou uns vinte anos, mais ou menos - período em que ele lutou para se livrar do vício em cocaína que quase o fez cantar no além.

Os que ainda hoje lucram horrores com a nostalgia hippie ou se mortificam por não terem nascido ou serem jovens demais quando houve o festival dizem que Woodstock foi um momento importante dos anos 60, o auge da contracultura e da "geração paz e amor", "da era de Aquário" etc. etc. Acho tudo isso uma bobagem sem tamanho, uma babaquice. Quando assisto a algum vídeo sobre Woodstock, ou sobre qualquer festival de rock do período, o que vejo é muita sujeira, muito lixo, vagabundagem e culto às drogas. Basta ver o que aconteceu com os principais´nomes da música no período, como Janis Joplin, Jimi Hendrix e Jim Morrison: todos mortos por overdose aos 27 anos de idade. É essa a rebeldia, o grande grito revolucionário daquela geração: se entupir de drogas pesadas até morrer sufocado com o próprio vômito...

O culto às drogas é, de fato, o maior legado de Woodstock. E não há nada de romântico ou pitoresco nisso. Da maconha e do LSD, consumidos em quantidades astronômicas naqueles dias, até a cocaína, o ecstasy e o crack que hoje infestam as ruas das grandes e até das pequenas cidades, há uma linha inegável. Já escrevi aqui antes, quando analisei a herança de 1968 - outro momento mitificado até não se poder mais da História recente -, que a "expansão da consciência", um dos maiores mantras do período, defendido pelo guru da contracultura Timothy Leary, é um dos pilares sobre o qual foi erguido mais tarde o tráfico de drogas nas favelas cariocas. De início algo típico de jovens entediados das classes média e alta dos países desenvolvidos, o vício na maconha e na cocaína foi logo imitado, como tudo o mais, pelas classes mais pobres, que aprenderam a lucrar com o vício dos playboys e filhinhos-de-papai. O resultado são cerca de 50 mil mortes por ano no Brasil.

É, sou um "careta", não vejo beleza alguma em torrar os neurônios com fumaça de erva ou em "viajar" ao som de The Who ou Jimi Hendrix com os olhos vidrados. Aliás, acho uma afetação e uma boiolice essa tietagem, esse endeusamento das figuras do período, transformadas em totens do que se convencionou chamar de "contracultura" ou "udigrúdi". Sem falar no papo besta sobre "libertação individual" e "contra o sistema", que não passa de um socialismo de botequim, um marxismo de galinheiro. Curiosamente, na mesma época em que Janis Joplin se esgoelava em Bethel, Fidel Castro proíbia o rock e mandava a polícia bater nos hippies em Cuba. Depois, o ditador cubano percebeu o "sex-appeal" da cultura dos sixties e mandou erguer, cinicamente, uma estátua de John Lennon em Havana. Isso mostra como a cultura hippie é facilmente apropriada até por quem a despreza.

Mas o que particularmente mais abomino nos hippies é o pacifismo bocó, que na época estava no auge por causa da Guerra do Vietnã. Se há algo que eu sempre refutei e que procuro desmascarar, é o pacifismo. Foi o pacifismo que preparou o terreno para algumas das piores tragédias da humanidade (quem quiser saber do que estou falando, estude a História da Conferência de Munique antes da Segunda Guerra Mundial). Com suas flores e visual colorido, os hippies, muito fumados e cheirados, não se deram conta de que estavam agindo como inocentes úteis de quem jamais teve qualquer compromisso com a paz, muito pelo contrário. O pacifismo seria muito interessante se não houvesse quem dele se aproveitasse do outro lado da Guerra Fria.

Essa mistura de culto às drogas-pacifismo-socialismo-de-miolo-mole deixou raízes profundas. Uma das estrelas do festival, o guitarrista mexicano Carlos Santana, apareceu há alguns anos na cerimônia da entrega do Oscar em Los Angeles com uma camiseta estampada com um enorme rosto de Che Guevara - outro ídolo daquela geração. Indagado por que escolhera aquela camiseta, ele soltou a seguinte pérola: "Che Guevara é paz, Che Guevara é amor, bicho!" Santana foi um dos que viveram intensamente aqueles dias em Woodstock. Na verdade, ele ainda está lá.

Hoje, há vários woodstocks pelo mundo. Todos os anos, é realizado, em um lugar diferente, o Forum Social Mundial, a Woodstock esquerdista-bolivariana. Há algumas semanas, houve uma Woodstock em Brasília, na forma de um Congresso estudantil, da UNE. Em todas essas ocasiões, rolou muito sexo, drogas e rock'n roll. Rolou muita imundície e desrespeito também, como puderam constatar os alunos das escolas públicas do Distrito Federal que serviram de dormitório-motel-boca de fumo-lixeira-latrina dos "estudantes" bancados com dinheiro público. Há dez anos, em 1999, empresários espertalhões quiseram reeditar, no mesmo lugar, o festival de Woodstock, ocorrido 30 anos antes: o resultado foi caos, vandalismo e violência.

Se fosse somente isso, já seria demais. Mas o legado de Woodstock vai além. Ao culto da irresponsabilidade e ao individualismo sem deveres ou coletivismo sem direitos ("maconha pode; cigarro, não"...), some-se o rebaixamento moral da sociedade. O relativismo cultural, vindo com a filosofia New Age e a onda "pós-moderna", levou a uma situação de embotamento mental, que se expressa hoje em fenômenos como o politicamento correto e o multiculturalismo. Em especial, a moda "espiritualista" oriental, com seus gurus indianos e lamas tibetanos sorridentes, levou a um misticismo estéril e idiota, a uma negação total da racionalidade, fazendo a alegria de todo tipo de charlatão, de Osho a Paulo Coelho. Agregue-se a isso um rebaixamento intelectual, com a gíria rapidamente tomando o lugar da Gramática e às vezes criando até uma nova língua: entre o "pô" e o "aí, bicho", as maiores expressões intelectuais dos hippies, e o "tá ligado" da molecada autista de hoje em dia, existe uma inegável relação, provavelmente resultante da queima de neurônios pela ação da maconha e de outras substâncias. O resultado é uma geração inteira incapaz de emitir uma opinião, e até mesmo de formar uma frase com sujeito e predicado.

Tudo isso pode parecer só ranhetice de minha parte, pura implicância minha com os bichos-grilos. Podem pensar assim, se quiserem. Mas faço questão de dizer: entre a "contracultura" e a Cultura - com "C" maiúsculo -, eu prefiro mil vezes esta última. Todos os discos dos Beatles e trinados de Mick Jagger, juntos, não valem um soneto de Camões. Prefiro Shakespeare a Janis Joplin; Homero a Jimi Hendrix; Voltaire a Jim Morrison. E prefiro analisar a realidade, e não fugir dela. Woodstock não passa de um retrato na parede. Um retrato embolorado. Que fique por lá mesmo.

A RAÇA COMO IDEOLOGIA

É isso o que se quer para o Brasil?
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O Itamaraty tem passado por algumas mudanças nos últimos anos. Em especial, as novas regras de seleção e admissão à carreira diplomática, antes muito rígidas, estão sendo apresentadas como prova da maior "democratização" do acesso à carreira, considerada "elitista". De fato, nos últimos anos, com o aumento do número de vagas e outras modificações - algumas bem polêmicas, como o fato de o Inglês deixar de ser eliminatório no concurso (eco de um velado - ou nem tanto - antiamericanismo?)-, rostos bem diferentes do usual no ambiente itamaratiano começaram a ser vistos nos corredores da augusta Casa de Rio Branco.

Até aí, beleza. A entrada de mais gente na carreira, com perfis e origens diversos do que se costuma ver, é certamente bem-vinda. É, sem dúvida, uma amostra do que se convencionou chamar de "diversidade regional e cultural" do povo brasileiro etc. - embora eu continue a não ver qualquer relação entre essa diversidade e o fim da exigência, no concurso, do pleno domínio do idioma de Shakespeare. Descontado esse detalhe, tem havido mesmo, vá lá, uma "democratização" da carreira, que tem ficado, digamos assim, mais parecida com o povo brasileiro. Não discuto isso. A diplomacia, assim como o serviço público em geral, deve mesmo ter a cara do País (quer dizer, se é que o Brasil tem uma cara...). O problema é até onde se está disposto a ir para atingir esse objetivo.

Desde 2002, o Instituto Rio Branco (IRBr), responsável pela formação dos diplomatas brasileiros, tem um programa de "ação afirmativa" que concede bolsas de 25 mil reais a candidatos que pretendem ingressar na carreira diplomática. A concessão das bolsas, lê-se no último edital do programa (2008), disponível no site do IRBr, dirige-se aos candidatos que atenderem os seguintes requisitos: além de ser brasileiro nato (item 2.1. do edital), o item 2.2. estabelece que o candidato deve, obrigatoriamente, "Ser afro-descendente (negro), condição a ser expressa por meio de autodeclaração".

Epa! Peraí! Como assim, "afro-descendente (negro)"? E, ainda por cima, "por meio de autodeclaração"!?

Deixando de lado o fato de que a África é o berço da humanidade (logo, biologicamente falando, todos somos, por definição, afro-descendentes), tenho algumas dúvidas a respeito do caráter imparcial e científico desse método de seleção. O fato de que, para entrar na carreira, o candidato deve primeiramente declarar-se negro, e esse critério autodeclaratório ser considerado prova irrefutável de negritude, depõe, a meu ver, contra a própria noção de "afro-descendente (negro)" que se quer adotar em um país como o Brasil. Seria o pardo, ou mulato (ou cafuzo, ou mameluco etc.) que, por ter, digamos, um bisavô "negro" ou o cabelo meio pixaim, se considera, portanto, negro? Mas ele não poderia, pelo mesmo critério, declarar-se branco, ou mestiço? E se ele tiver, digamos, um irmão gêmeo univitelino, com a mesma cor de pele e dos cabelos, mas que, por qualquer motivo que seja, não se "sente" afro-descendente e prefere declarar-se de outro modo? (Aliás, isso já aconteceu, tempos atrás, na Universidade de Brasília, onde vigora há algum tempo o sistema de cotas raciais, criando uma situação surrealista.) Convenhamos, a coisa fica meio difícil. Se a idéia é mostrar que o Brasil é um país racista e compensar uma parcela da população que estaria impedida, por motivos raciais, de entrar para o serviço exterior, esse sistema, ao exigir do candidato um atestado verbal de raça, prova exatamente o contrário. Se somos mesmo racistas, então por que o sujeito deve "declarar-se" negro para ser considerado como tal?

Tendo em vista essa dificuldade, os idealizadores do programa crêem ter encontrado a solução perfeita. No capítulo referente aos critérios de avaliação, ao lado das provas de conhecimentos, há uma parte que fala de uma "Entrevista Técnica" à qual o candidato deverá submeter-se. Na entrevista - "técnica", claro -, o candidato será avaliado a partir de uma série de fatores. Juntamente com a formação acadêmica e a adequação e viabilidade do Plano de Estudos e Desembolso (valor de cada item: 10 pontos), encontra-se a seguinte pérola de justiça, verdadeiro achado da inteligência humana: no ponto "d", 6.3.6., lê-se que será levada em conta, como critério de avaliação, a (abre aspas) "experiência pessoal do candidato como afro-descendente (negro)". E, ao lado, o valor do critério: "20 pontos"...
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Entenderam? Como no Brasil é difícil definir quem é negro e quem não é - daí a idéia genial da "autodeclaração" -, bolaram uma outra idéia mais genial ainda: negro é quem tem uma "experiência pessoal" a relatar. Em outras palavras: é quem se "sente" negro, e pronto! Genial, não? Trocando em miúdos: quem estiver se "sentindo" mais "negro" na hora da entrevista, quem tiver acordado no dia com uma "consciência" maior sobre sua "negritude" e tiver uma história comovente de preconceito a contar, leva a vaga. Coisa de Einsteins!
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Fico imaginando a seguinte situação - na verdade, imaginar é modo de dizer, pois tal situação já é uma realidade -: dois candidatos, com o mesmo perfil, apresentam-se ao programa. Ambos recebem as mesmas notas em todas as avaliações escritas, chegando empatados à hora da entrevista. No momento de responder à questão sobre sua "experiência como negro", um deles, que se "sente" negro, relata que já foi vítima de preconceito etc. e tal. O outro, cuja "consciência negra" não é tão forte, afirma não ter nenhuma história de discriminação a contar. Adivinhem quem levará a vaga.

O exemplo citado acima não é ficticio, não fui eu que inventei: é algo que está realmente ocorrendo. O que ele prova é que, sob a égide de movimentos políticos e do pensamento politicamente correto, a raça, no Brasil, virou uma questão ideológica. Se fosse um sistema de tribunal racial baseado tão-só na cor da pele, como era na África do Sul da era do apartheid, já seria um absurdo a ser execrado. Mas a questão, por estas bandas, vai muito além: ser "negro" no Brasil, além de critério de desempate em concurso público, é uma ideologia - a ideologia do vitimismo. Não basta, segundo essa visão, ter a pele mais escura, ou o nariz achatado: é preciso ser "vítima de preconceito". E nem precisa provar. Basta dizer: "uma vez me chamaram de 'crioulo' na escola, ou de 'neguinho'". Pronto! Está aí o "verdadeiro negro", o legítimo "afro-descendente", para o qual todas as portas do serviço público devem ser abertas. Quanto a avançar pelos próprios méritos... bom, melhor deixar pra lá: afinal, isso não é algo que contribui para a "democratização" da carreira...

Não duvido que por trás de programas de "ação afirmativa" como o que vem sendo implementado no Itamaraty estejam boas intenções. Mas, como já disse e repito, boas intenções, infelizmente, não são garantia de bons resultados e de um futuro radiante. Escolher alguém por ser "afro-descendente" - ou índio, ou gay, ou torcedor do Santa Cruz -, por um critério absolutamente subjetivo ("eu me sinto discriminado" etc.), em um país essencialmente mestiço como o Brasil, não é só um contra-senso: é a oficialização do preconceito e da discriminação racial. Mais: é a entronização da burrice. Entre dois candidatos, o que se "sente" menos "negro" do que o outro é preterido. Se isso não é racismo - e um racismo oficial, com a chancela do Estado -, o que é então?

Se um dia eu quiser largar o Itamaraty e buscar outra carreira no serviço público, já sei o que fazer: sendo nordestino e sem conexões políticas ou familiares importantes, vou me apresentar, na hora da entrevista "técnica", vestido com chapéu de couro e gibão de vaqueiro, dançando um xaxado e falando "ó xente" com o sotaque bem carregado. Se me perguntarem sobre minha "experiência como nordestino", direi que já me senti, sim, discriminado, que já me chamaram de "pau-de-arara" e "cabeça-chata", e já fizeram chacota com meu modo de pronunciar as letras "t" e "d" em "titia" e "coitadinho". Direi ainda que me "sinto" muito mais nordestino do que os outros candidatos que porventura também o sejam, e que, por vir de uma região mais pobre, tive menos acesso aos recursos existentes nas outras regiões. Só para garantir, vou forçar a barra e direi que o Nordeste é vítima constante de preconceito por parte dos grandes centros (a "periferia da periferia"). Tenho certeza de que, com esse papo, chegarei, pelo menos, a ministro de Estado. Quiçá a presidente da República.

quarta-feira, setembro 02, 2009

A ESCOLHA DE ANSELMO




Acima: José Anselmo dos Santos
Abaixo: O "Cabo" Anselmo
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Em meu último post, relatei minha surpresa ao ver, em pleno domingo à noite, uma entrevista na televisão com o "Cabo" Anselmo. Expliquei por que o fato é histórico, e deixei clara minha opinião sobre o assunto. Agora, que assisti ao vídeo inteiro da entrevista (quem quiser pode assistir aqui: http://www.band.com.br/canallivre/videos.asp), posso dizer com toda segurança: no domingo à noite, 30 de agosto de 2009, o "Cabo" Anselmo morreu. Em seu lugar, nasceu - ou melhor: renasceu - o ex-marinheiro de primeira classe José Anselmo dos Santos.

Durante toda a entrevista, Anselmo tentou separar o máximo possível o homem do mito criado em torno de sua pessoa, mito ainda hoje cultivado, como epitome da traição, pela historiografia de esquerda (o que significa, no caso do Brasil, por quase toda a historiografia). Apesar de algumas reticências - ele ainda vive escondido, e em alguns momentos dá a impressão de que sabe mais do que está falando -, a meu ver ele atingiu esse objetivo. Quem estava ali, falando para as câmeras de TV, era um ser de carne e osso, não o personagem inventado pelas esquerdas como justificativa para a derrota da luta armada.

A trajetória de Anselmo é um tapa na cara dos que ainda acalentam a ilusão juvenil de que os "guerrilheiros" eram heróicos combatentes pela liberdade. Sua história é importante e merece ser ouvida porque demonstra que a realidade da luta armada no Brasil nos anos 60 e 70 foi muito mais complexa do que se ensina há décadas nas escolas. Uma história sem nenhuma glória, feita de muito sangue e horror. E não apenas de um lado, como se pensa até hoje.

Antes que alguém o julgue - o "Cabo", não o homem -, e certamente muitos o farão, creio que é importante citar alguns fatos para compreender a história de Anselmo, suas trajetória e opção ideológica.

O primeiro fato a ser levado em conta é que a guerrilha era um caminho sem volta. Uma vez membro de uma organização terrorista de esquerda, não havia como sair, a não ser pela morte. Esta poderia vir ou pelas mãos da repressão política, ou - o que é bem menos conhecido - pelas dos próprios companheiros de organização, que não hesitariam em "justiçar" (ou seja: assassinar friamente) qualquer militante que mostrasse qualquer sinal de vacilação ou que ousasse discordar dos métodos da guerrilha. Isso aconteceu, e não foi somente uma vez. O ex-dirigente comunista Jacob Gorender, em seu livro Combate nas Trevas, narra quatro desses casos (é possível que haja outros, inclusive contabilizados até agora como "vítimas da repressão"). Os grupos armados de esquerda não eram nenhuma convenção de escoteiros: eram seitas ultra-stalinistas de fanáticos dispostos a tudo para atingir seus objetivos, e que não admitiam qualquer defecção em suas fileiras, a qual era punida com a morte. O relato de Anselmo não deixa dúvidas sobre isso. Ele descreve como a organização a que pertencia - a VPR - era inflexível e compartimentada, e que a idéia de abandonar a luta estava simplesmente fora de cogitaçao, acarretando risco de morte. Ao ser preso, em 1971, e colocado diante da escolha entre colaborar com os policiais e ser morto por eles, ele provavelmente já alimentava dúvidas sobre a luta armada e a esquerda, que parece que surgiram quando ele esteve treinando guerrilha em Cuba. Desiludido com a esquerda, ameaçado de morte pela repressão e impossibilitado de deixar a guerrilha na qual não mais acreditava e que já considerava perdida, não restou outra saída a ele senão trair e tentar sobreviver.

Outra coisa que passa geralmente despercebida é que Anselmo não foi o único traidor infiltrado nas fileiras esquerdistas no período. Houve outros, até mais eficientes do que ele. Alguns são conhecidos, outros preferem até hoje manter-se nas sombras (será que é porque continuam na mídia e não abandonaram ainda a militância esquerdista? Mistério...). De acordo com documento das Forças Armadas, por exemplo, o grupo Movimento de Libertação Popular (MOLIPO), uma dissidência da ALN de Carlos Mariguella surgida em Cuba, foi exterminado devido à ação de um agente infiltrado em suas fileiras ainda na ilha caribenha - até onde se sabe, o massacre de seus militantes não teve nada a ver com Anselmo. O que se sabe, e Anselmo admite, é sua participação no aniquilamento da VPR, única organização, além da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, de que ele fez parte. No entanto, nada se compara, em intensidade, ao ódio que lhe é devotado pelas esquerdas.
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A verdade é que grande parte da animosidade que lhe é dirigida pelos esquerdistas se deve ao fato de que Anselmo não foi somente um delator. Foi alguém que fez uma opção ideológica consciente, e que se tornou, desde então, um símbolo de desilusão política. Se ele trairia sem ter sido preso antes é algo que só ele pode responder. Mas, a julgar pelos seus depoimentos, sua desilusão com a esquerda é genuína e começa bem antes, mais precisamente no período em que ele esteve em Cuba e pôde vivenciar, durante algum tempo, a verdadeira realidade do "socialismo real". Ele faz questão de enfatizar: em Cuba, ele percebeu que a guerrilha estava lutando por um regime muito mais ditatorial, verdadeiramente totalitário, e decidiu não tomar parte nessa luta. O problema é que era tarde demais para pular fora, ele já estava envolvido até o pescoço. É isso, mais até do que a delação em si, o que a esquerda até hoje não perdoa - e jamais perdoará, pois esta não é a prática da esquerda. É o fato de ele, Anselmo, ter feito autocrítica, concluindo, pesarosamente: "fui um otário".

É fácil rotular a atitude de Anselmo como uma canalhice, até mesmo como covardia. Afinal, traidores, seja de que lado estiverem, nunca são bem vistos, e o que ele fez, concorde-se ou não com sua opção ideológica, foi traição. Mas o mesmo não fez Lamarca, ao desertar de um quartel carregando um arsenal inteiro de presente para a luta armada? Lamarca, inclusive, não se limitou a fazer isso, tendo sido o autor de várias mortes, inclusive de um tenente da PM assassinado a coronhadas após ter sido capturado, indefeso e com as mãos amarradas (um crime de guerra, portanto). No entanto, Lamarca é visto como um herói, e até recebeu uma condecoração post-mortem a general do Exército, com todas as honras, enquanto Anselmo ainda luta para restituir sua dignidade. Dificíl entender. Ou melhor: não é difícil, não.

Como eu disse antes, é fácil tachar Anselmo com a pecha de traidor, espião, agente infiltrado etc. Difícil é colocar-se na pele dele, um ex-militante que se deu conta, tardiamente, que a causa em que estava envolvido estava fadada ao fracasso, ou levaria, na hipótese improvável de vitória, a algo muito pior do que o regime contra o qual lutava. Parafraseando Roberto Campos, entre os anos de chumbo e os rios de sangue, ele escolheu a primeira opção.

Anselmo não se orgulha do que fez, mas não se arrepende. Nisso, ele demonstra muito mais honestidade do que a legião de "ex-militantes" e "ex-presos políticos" que torram a paciência e ofendem a inteligência alheia com relatos de supostos heroísmos em defesa de uma causa que insistem em apresentar, contra todas as evidências históricas, como democrática e até libertária. Em certo sentido, é lícito afirmar que, com sua traição, Anselmo fez muito mais pela volta da democracia no País do que os que assaltavam bancos, sequestravam diplomatas estrangeiros e explodiam bombas. Estes, ao contrário do que dizem, não tiveram qualquer participação na redemocratização do Brasil. Já os militares, que os perseguiram, aceitaram devolver o poder aos civis.

Para ficar mais claro o que quero dizer e facilitar a compreensão da escolha de Anselmo, aí vão outros fatos. Desafio qualquer pessoa a provar que o que vem em seguida é falso:

- O regime militar brasileiro, que durou 21 anos, matou 424 pessoas, com o atenuante de que a maioria - repito: a maioria - eram terroristas ou tinham algum tipo de conexão com os terroristas de esquerda. Estes mataram, por sua vez, cerca de cem pessoas, com o agravante de que muitas de suas vítimas eram pessoas inocentes - alvos "simbólicos", mortos pelo único motivo de serem militares ou estrangeiros (ou as duas coisas), ou simples transeuntes, culpados de estarem no lugar errado e na hora errada ("danos colaterais").

- Todos - absolutamente todos, sem exceção - que pegaram em armas contra as ditaduras comunistas, como a cubana e a soviética, e que foram capturados na luta, foram mortos pela repressão estatal ou mofaram na prisão, muitos deles por décadas, jamais tendo sido anistiados ou perdoados. O mesmo não pode ser dito dos que pegaram em armas contra o regime militar no Brasil. Estes, além de terem sido anistiados, jamais cumpriram penas maiores do que sete ou oito anos de cadeia, e continuam vivos - e "bem vivos", como demonstram as indenizações milionárias que alguns receberam -, inclusive ocupando atualmente altos postos no Estado.

O que está acima são fatos, não são opiniões. Tentem refutá-los, se puderem. Advirto que será mais fácil descobrir a cura da AIDS e do câncer. Diante dessas considerações, convenhamos, fica muito mais difícil condenar o "Cabo" Anselmo.