quinta-feira, agosto 06, 2009

NÃO BASTA SER ATEU: É PRECISO SER TOLERANTE

Como já andei escrevendo aqui, mais de uma vez, não creio em Deus, nem no Diabo, nem em Céu, nem em Inferno, nem em santos, nem em milagres, nem na Virgem Maria, nem na ressurreição, nem em assombração ou em alma do outro mundo. Nem acredito em Jesus Cristo, Maomé, Buda, espíritos, orixás, gnomos, duendes, no Zé Pilintra ou no Caboclo Sete Flechas, nem em Lula ou Obama. Também já deixei claro, para quem quiser saber, que não tenho absolutamente nada contra alguém por professar esta ou aquela religião, e que considero um direito sagrado, com o perdão da palavra, a livre manifestação e expressão do sentimento religioso - desde que seja, claro, nos marcos do Estado de Direito Democrático. Em outras palavras: não creio em Deus, nem tenho qualquer religião, mas defendo com unhas e dentes o direito de outras pessoas - a maioria, e sempre será - de acreditarem e professarem suas crenças sem serem por isso molestadas.
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Compreendo que essa minha postura nem sempre é facilmente entendida, e pode gerar alguma confusão. Afinal, ser ateu e defender a tolerância em relação aos fiéis e a liberdade religiosa não é uma contradição? Sendo a Razão superior à fé, não deve impor-se sobre esta? Não é assim que pensam os ateus?
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Nada disso! Pelo menos, não é assim que eu penso a respeito desse assunto. Na verdade, não há qualquer contradição entre ser ateu - pelo menos se você não é um "ateu" religioso - e praticar a tolerância em relação a quem não o seja. Aliás, acho mesmo que é por causa disso que me descobri, lá pelos meus 14 anos de idade, descrente e ateu: porque jamais engoli a maneira terrivelmente irracional e intolerante com que as pessoas de meu convívio pessoal, quase todas católicas - católicas à brasileira, mas católicas (fui criado num ambiente predominantemente católico, como a maioria dos brasileiros) -, encaravam quem pensasse diferente delas. Na realidade, cresci num ambiente social e doméstico em que as idéias-força da religião - a crença na existência de Deus, em primeiro lugar - eram e são consideradas verdadeiras por si mesmas, sem necessidade de comprovação, unicamente pelos três pilares em que se assentam todas as religiões: a tradição, a autoridade e a revelação (como jamais tive o privilégio de ser brindado com esse terceiro elemento, aprendi desde cedo, por minha própria conta, a desconfiar dos outros dois; desde então, não parei mais). Num ambiente assim, é fácil imaginar, era e é simplesmente impensável, a mais nefanda das heresias, que alguém, ainda mais um adolescente com idéias meio esquisitas, tivesse a audácia de se declarar ateu. Católico não-praticante, ou mesmo agnóstico, vá lá, é até aceitável. Mas, ateu? Aí não, isso não se pode aceitar. Não é algo que se possa admitir nas melhores - nem nas piores - famílias.
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Mas voltemos ao motivo deste texto. Como eu ia dizendo, não existe contradição alguma entre ser ateu e tolerar as crenças religiosas (o inverso, ou seja, ser crente e tolerar quem não o seja, convenhamos, é um pouco mais complicado). Essa minha convicção fica ainda mais forte diante da atual "onda atéia" que invade as livrarias. Na internet, já existem grupos que apregoam abertamente o ateísmo. Há, inclusive, uma certa Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, uma espécie de ONG. É interessante que exista esse tipo de coisa, e é bom que esteja havendo esse debate num país em que o ateísmo, infelizmente, ainda é um tabu, e onde dizer-se ateu em público ainda significa ser visto como a própria encarnação do demo e até mesmo arriscar-se a uma sessão forçada de exorcismo com sal grosso. Mas não deixo de sentir um certo desconforto, uma sensação de que alguma coisa aí não está certa, quando me deparo com "movimentos" desse tipo.
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Quem me chamou a atenção para essa questão foi Reinaldo Azevedo, mais uma vez. Em seu blog, ele abriu um debate interessante, ao criticar, com sua lógica habitual e implacável, a decisão de uma juíza no Rio de Janeiro que, atendendo a uma solicitação de uma ONG supostamente defensora da diversidade religiosa, manifestou-se contrária à exibição de símbolos religiosos, como crucifixos, em tribunais e demais repartições públicas. À primeira vista, tal decisão judicial parece estar perfeitamente de acordo com o fato de o Estado ser laico - essa é, aliás, a principal justificativa para a ação da ONG contra os crucifixos -, e confesso que, durante muito tempo, achei estranha a presença de crucifixos em tribunais, o que, pensava, colocava em dúvida a própria imparcialidade da Justiça. Mas, lendo o que escreveu Reinaldo Azevedo, e mesmo não sendo católico (ou, talvez, exatamente por isso), concluí que ele está certo, mais uma vez. A questão não é que o Estado deva deixar de ser laico - ele precisa sê-lo, é o que diz Reinaldo -, mas que cassar e caçar símbolos religiosos em repartições públicas é que está em contradição com esse princípio democrático. Como bem lembra Reinaldo, o ateísmo pode ser uma janela para o totalitarismo, logo o contrário da tolerância:
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Incrível, reitero, como se pode, em nome da razão, abrir as brechas para o pensamento totalitário. Notem bem: o estado brasileiro não é ateu. Não é um estado que, como o chinês e o cubano — dois paraísos para quem fica nervoso quando vê um crucifixo em órgão público — se declare ateu. Ele é laico! Isso quer apenas dizer que não se orienta segundo a lógica, as necessidades e a mística de uma religião. Mas a Constituição brasileira PROTEGE as religiões e o culto religioso. NÃO HÁ UMA LEI IMPONDO CRUCIFIXO NAS REPARTIÇÕES. Aliás, nas que tenho visitado, são cada vez menos freqüentes. QUANDO HÁ LÁ UM CRUCIFIXO E UMA BÍBLIA, NO MAIS DAS VEZES, OS OBJETOS SÃO ECOS DE UM TEMPO EM QUE ESSAS ESFERAS NÃO ERAM TÃO SEPARADAS. Mas é só memória. É só história!
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Tenho algumas diferenças de opinião pontuais com o autor das linhas acima. Ele é católico praticante; eu, não. Mas, sou obrigado a dizer, ele está certíssimo nessa questão, como costuma acontecer. A presença de crucifixos em repartições do Estado não implica qualquer violação do princípio da separação entre governo e religião. Não se trata de uma imposição legal, mas de simples exercício de livre manifestação da liberdade religiosa - protegida por Lei. No mais das vezes, é uma simples questão cultural, já incorporada à cultura brasileira, como é a Páscoa e o Natal. Faço minhas as suas palavras.
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Há quem acredite que basta se dizer ateu - ou anticristão, ou antimuçulmano, ou antibudista - para que tenha gravado na testa automaticamente o selo de "progressista" e defensor da Razão contra as trevas da obscuridade religiosa e da intolerância. Nada mais equivocado. Há uma diferença, nada desprezível, entre o ateísmo baseado no ceticismo científico e racional - no qual eu procuro me situar - e uma postura militante antirreligiosa. É a mesma diferença entre a racionalidade e a irracionalidade, ou entre o ceticismo e o fanatismo. Este pode ser, inclusive, antirreligioso ou ateu, mas jamais racional. Mesmo que diga agir em nome da Razão, como os jacobinos na época da Revolução Francesa, e os marxistas depois deles. Minha experiência em uma seita revolucionária de extrema-esquerda há uns quinze anos me ensinou, a duras penas, que nem todo fanatismo é, necessariamente, religioso, e que os ateus não detêm o monopólio da tolerância. O contrário de obscurantismo não é o ateísmo, mas a razão - não a razão dos revolucionários, a Razão com R maiúsculo elevada a objeto de culto por Robespierre, mas a pura e simples racionalidade humana.
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Isso fica claro quando se observa o que dizem e como agem muitos "ateus" da atualidade. Em primeiro lugar, de onde retiraram a idéia de que o atéismo é um "movimento", a ponto de se organizarem em uma ONG? A meu ver, ser ateu é uma questão de foro particular, uma opção filosófica, assim como a própria religião, aliás. Daí o caráter intolerante de ações como a da juíza carioca, o que a meu ver expressa apenas uma forma de preconceito anticristão - sendo o Estado laico e não sendo obrigatória a presença de crucifixos em repartições públicas, por que então proibi-los? (O mesmo pode ser dito da lei que proibiu véus muçulmanos nas escolas públicas francesas - se não são obrigatórios por Lei, qual o sentido em serem proibidos?) Do mesmo modo, não me sinto representado, mas, ao contrário, fico até constrangido, com iniciativas como o "Dia do orgulho Ateu". Esse tipo de coisa é uma idiotice. Além de copiar o "Dia do orgulho Gay", outra bobagem, fruto do politicamente correto, o dia escolhido - 12 de fevereiro, aniversário de Charles Darwin - demonstra o grau de estupidez a que se chegou em nome de uma causa aparentemente correta. Se tivessem lido A Origem das Espécies, os ateus de carteirinha de hoje veriam que Darwin, hoje elevado à condição de sumo-sacerdote do culto ateísta graças, em parte, a autores como Richard Dawkins, não tinha nada de ateu. Muito pelo contrário: tendo sido, durante toda sua vida, um cristão devoto (estudou, na juventude, para ser pastor protestante), é ele o autor da teoria do "design inteligente", hoje tão atacada pelos chamados neodarwinistas como o oposto exato da teoria da seleção natural, da qual ele foi o principal - mas não o único, nem o primeiro - formulador. Os defensores da tolerância certamente também se surpreenderiam ao constatarem que seu ídolo, um homem do século XIX, era um rematado racista e defensor do extermínio de raças inferiores. É por essas e outras que não participo de nenhum movimento.
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Repito: sou ateu, mas repudio a tentativa de se tratar os ateus como mais uma minoria, como os negros ou os gays, a quem se deveria, por qualquer motivo que seja - a "reparação de uma dívida histórica" etc. -, conceder privilégios especiais, acima do direito de livre manifestação e opinião religiosa da maioria. Do mesmo modo que não aceito que negros e gays imponham suas agendas políticas aos demais indivíduos, instituindo, por exemplo, uma polícia do pensamento para coibir pretensas manifestações "racistas" ou "homofóbicas" - o que significa tolher, na prática, o direito de um padre ou pastor de citar passagens da Bíblia que condenam o homossexualismo -, não posso aceitar que, em nome do ateísmo, se coíba a liberdade religiosa. A tirania da fé não deve ser substituída pela tirania da razão.
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Do mesmo modo, também, não posso deixar de notar, na onda atual de ativismo ateu, um claro viés anticristão. Será que os que hoje gritam contra a presença de crucifixos em tribunais fariam o mesmo se, em vez de crucifixos, o que estivesse pendurado na parede fosse, digamos, uma imagem de Iemanjá ou de um Preto Velho? O que diriam se, em vez de um símbolo católico, fosse uma imagem de Buda ou um texto do Corão? Ser ateu no Brasil ou nos EUA, países cristãos e onde vigora a separação entre Estado e religião, é fácil. Difícil é ser ateu no Irã.
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Não se trata apenas de uma atitude de tipo meio-termo, "moderada", na linha "sou ateu (ou agnóstico), mas respeito todas as religiões" etc. Essa atitude é, no máximo, hipócrita. Ser ateu é não reconhecer a verdade da religião, a primeira e maior de todas a crença em um super-ser onisciente e onipotente, criador do Universo. Trata-se, isso sim, de reconhecer um direito fundamental da pessoa humana - o direito a ser católico ou protestante, hindu ou muçulmano, direito este, felizmente, assegurado por Lei no Brasil - sem abdicar, naturalmente, de meu direito igualmente inalienável de não acreditar em nada disso, e guiar-me, em vez da fé, pela razão, sem querer impô-la a ninguém. Do mesmo modo que reconheço e defendo o direito dos crentes, espero que reconheçam e defendam meu direito a pensar diferente.
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Proclamar o ateísmo, com base em argumentos pretensamente racionais e científicos, e não aceitar ou não permitir que os crentes professem livremente sua fé é trocar uma forma intolerante de pensar por outra, talvez até mais funesta. Muitos que se dizem ateus parecem se esquecer que, se vivemos atualmente, nesse limiar de século XXI, uma nova onda de fanatismo e de terrorismo religiosos, o século XX foi o mais ateísta da História, com Estados totalitários que tentaram banir, pelo uso sistemático do terror, a idéia de Deus da mente das pessoas. A ponto de a religião se tornar, em vários países comunistas, o último bastião de resistência contra a opressão ditatorial e em defesa da liberdade. Se, hoje em dia, milhares morrem trucidados pelas bombas da Al-Qaeda ou em sangrentos confrontos interreligiosos na Nigéria ou no Paquistão, milhões pereceram sob o comunismo, transformado em ideologia oficial e em religião secular (atéia) de metade do mundo.
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Não sou contra ninguém por ser cristão, ou judeu, ou muçulmano, ou seja lá que fé tiver. Sou contra quem é intolerante. E, muitas vezes, o que ocorre é que a intolerância parte de quem diz agir em nome da tolerância. Para esses, em nome da luta contra a fé e o obscurantismo, tudo passa a ser permitido - inclusive ser intolerante. Não faço parte dessa turma.
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Na verdade, cada vez mais percebo que a minoria a que pertenço é bem outra. Em seu blog, Reinaldo Azevedo não pára de fustigar os esquerdistas e politicamente corretos, dizendo que a minoria mais perseguida da atualidade tem as seguintes características: é homem, branco, heterossexual e católico. Com exceção do último aspecto, me encaixo perfeitamente no padrão. Posso mesmo afirmar que sou a "minoria da minoria": a minoria de um homem só, por assim dizer. Nem por isso vou sair por aí exigindo "direitos" acima dos outros mortais.
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Termino com as seguintes palavras de Reinaldo Azevedo, que me fizeram pensar em escrever este texto. Creio que elas expressam bem o que eu quis dizer:
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Uma coisa é ser agnóstico; outra, distinta, é considerar mera estupidez o que não pode ser explicado pela razão; uma coisa é ser ateu; outra, distinta, é achar que os crentes merecem a fogueira — ainda que seja a da desmoralização. Uma coisa é ser laico e advogar um estado idem; outra, diferente, é perseguir as religiões e os signos religiosos. Uma coisa é defender firmemente que a religião não degenere em fanatismo e sectarismo; outra, distinta, é perseguir fanática e sectariamente os que fazem questão de evidenciar a sua religião.
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Só tenho uma coisa a dizer sobre o que está aí em cima: assino embaixo!

4 comentários:

Diego disse...

Concordo com a maior parte do texto, e me parece que o direito aos crucifixos nas repartições públicas é justificada não só pelo aspecto cultural, mas principalmente pela maioria demográfica dos católicos nominais e dos cristãos em geral.

Mas fica comigo a pergunta: o que Reinaldo Azevedo (e você) pensam sobre a concordata - a meu ver abusiva - entre o Vaticano e o Brasil? Será que não é tão indevido quanto quanto a proibição judicial dos crucifixos? A "minoria perseguida" católica estaria nesse caso sendo indevidamente beneficiada?

Will Antonucci disse...

Devo agradecê-lo por esse post brilhante.
Achei que eu era o único ateu que discordava desse fanatismo ateísta em que todos devem ser "convertidos" ao ateísmo e que quem tem religião é burro. Acho que o ateísmo deve ser alcançado pelo ser humano a partir do uso da razão,num processo gradual de reflexão,compreensão e aceitação.

Muito obrigado pelo melhor texto que eu já li.

L disse...

Nada nem ninguém me convence que você é ateu. Boa tentativa de tentar "nos mostrar a luz", mas não, pelo menos comigo não colou. Vá converter outro.

Johnny disse...

Este texto escrito por um ateu, com pensamento de tolerar liberdade do religioso de exercer a sua crença e de ver o mundo na visão religiosa.
Este autor este texto, vai além de tolerar a fé do religioso, quero dizer, que este ateu tem de fato uma visão além do seu tempo, para o bem maior para a humanidade. Ele avança muitos anos a frente ao seu tempo do século 21(ainda muita atrasada por causa dos preconceitos em que tem forças retrogradas). Ele escreveu um texto excelente. Eu gostei de visto isso.
Parabéns para ele, pois tem a visão mais coerente sobre as coisas do mundo relacionada ao julgamento correto sobre a sociedade e as soluções para a humanidade.
Este texto é humanitário e libertador.

Eu sou cristão-calvinista, também tolero e defendo a liberdade de pensamentos individuais de cada pessoa, seja atéia ou religiosa.
Não é bom caçar a fé dos religiosos, também não é bom chamar de loucos os ateus.