terça-feira, setembro 30, 2008

A VERDADEIRA CRISE É MENTAL

Como já escrevi aqui, não sou especialista em economia. Inclusive, e isso admito até com certo pudor, não gosto muito do assunto. Mas a quantidade de besteira que li nos últimos dias sobre a crise do mercado financeiro nos EUA, que ontem atingiu em cheio a Bolsa de São Paulo, agravada pela decisão do Congresso dos EUA de não aprovar o pacote de 700 bilhões de dólares de Bush para ajudar o sistema, por parte de especialistas e simples militantes de esquerda travestidos de analistas sérios, me obriga a tocar nesse tema, que sempre considerei bastante árido e enfadonho.

A primeira frase que ouvi, mal iniciada a quebradeira nos bancos nos EUA, e que desde então tem sido repetida insistentemente, foi o "fim do neoliberalismo". Isso virou um verdadeiro mantra dos adeptos da visão esquerdista, ou simplesmente antiliberais - há um antiliberalismo de direita, senhores! vide a ditadura militar brasileira, por exemplo. "E agora, liberais?", é o título de um artigo de um professor da UNICAMP que leio hoje na Folha de S. Paulo. Em suma, fica parecendo que a culpa da crise foi deles, dos "liberais", os defensores da "mão invisível" e da desregulamentação do mercado, e que a crise seria o resultado, como diz o autor do artigo, de uma gigantesca "operação ideológica", e não dos mecanismos próprios ao sistema capitalista, que convive com crises cíclicas e periódicas. Tudo isso para defender uma idéia só: o "neoliberalismo" morreu e Keynes - ou Marx - estavam certos.
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Será mesmo? Será que é verdade que a crise atual, a primeira da era do capitalismo global, é a prova da ineficiência do livre mercado e da necessidade da mão visível do Estado? Como não poderia deixar de ser, os advogados da tese intervencionista, muitos deles lamentando até hoje a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS, começaram a botar o pescoço para fora, e do alto de suas cátedras universitárias - onde muitos não precisam nem trabalhar para viver -, já defendem uma maior regulamentação do mercado, inclusive no Brasil, país em que capitalismo sempre foi sinônimo de dirigismo e protecionismo estatal, não de livre empresa. Para isso, utilizam os mais intrincados argumentos. Para posar de analistas imparciais, lembram que Nicolas Sarkozy, o presidente da França que não tem nada de esquerdista, defendeu a maior regulamentação estatal dos bancos. Como se o dirigismo fosse característica unicamente da esquerda. Um filósofo conhecido meu escreveu um texto fazendo uma comparação meio literária entre a bancarrota dos bancos e a obra-prima de Goethe, que narra um pacto entre Fausto e o diabo - no caso, os cidadãos comuns que foram lesados pela crise teriam sido enganados e jogados na rua da amargura pelos gatos gordos do mercado financeiro, os "especuladores" tão condenados por Lula, assim como o personagem de Goethe foi enganado pelo tinhoso. Teria sido o Mefistófeles liberal, com suas promessas sedutoras de enriquecimento rápido e de delícias sem fim, o grande responsável pela ruína econômica de milhões de pessoas na terra do "deus-mercado"...
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Não é preciso ser economista ou expert em mercados financeiros para perceber a falácia desse tipo de argumentação. A crise, na verdade, é uma oportunidade de ouro para os inimigos do capitalismo e da própria democracia - e olhem que as duas coisas não são sinônimos - propagandearem suas teses. A pretexto de criticar as reais ou supostas falhas do liberalismo econômico, trata-se na verdade de atacar o próprio capitalismo e a própria noção de liberdade individual que lhe é inerente. Esse tipo de satanização do capitalismo já é um dado cultural, um elemento de nossa própria cultura. Somos ensinados, desde criancinhas, a valorizar não a iniciativa individual, mas a "solidariedade" supostamente encontrada nos regimes socialistas, e a considerar o individualismo e o lucro um pecado, e a "distribuição de renda", mesmo que não haja nada a se distribuir, o valor supremo. Isso, de certo modo, já se tornou um lugar-comum, invadindo até mesmo as novelas de TV (alguém já viu um vilão de novela que não seja um empresário, por exemplo?). Daí não surpreende que muitos insistam em enxergar no capitalismo nada mais do que cupidez e avareza, e no "socialismo", seja ele "real" ou não, um antídoto para todos os males do universo. Mesmo que seja um antídoto muito pior do que a doença, pois deixou um saldo de uns 100 milhões de cadáveres no século XX...

É essa visão demonizadora do capitalismo, de base religiosa e cultural, e não qualquer análise estrutural e científica da economia e da presente crise, sem falar na safadeza ideológica pura e simples, o que está por trás dos anúncios do "fim do neoliberalismo". De acordo com essa concepção, a culpa - outro forte elemento religioso - seria do próprio sistema, visto sempre como um ente diabólico e meio sobrenatural, dirigido por corporações sinistras e indivíduos gananciosos e sem escrúpulos, e que, deixado por si mesmo (ou seja: sem a direção do braço estatal), despertaria o pior nos seres humanos, transformando-os em monstros de ganância e de egoísmo, interessados somente em seus ganhos pessoais e sem o menor compromisso com a "coletividade"... A antítese desse inferno seria, obviamente, o "paraíso" socialista. É essa a conclusão a que nos induzem os críticos esquerdistas do "neoliberalismo". Fica claro que estamos diante de mais uma tentativa ideológica de torcer os fatos para que estes se adaptem à cosmovisão marxista.

Não sou liberal. Pelo menos, não em economia. Não acho que a riqueza e o dinheiro, mas sim a liberdade, seja o fim de qualquer associação política. Para os liberais econômicos, adeptos da religião do livre mercado, este é a solução de todos os problemas - para eles, a China, por exemplo, com seu sistema político comunista e sua economia capitalista, é o melhor dos mundos. Creio que esse é um dos maiores erros que se poderia cometer, e que acaba dando munição aos inimigos da sociedade aberta. Para mim, ao contrário, a liberdade de comércio é apenas uma faceta da democracia, embora indispensável. Não que o capitalismo seja inseparável da democracia - o capitalismo pode conviver com regimes ditatoriais, como na China -, mas, certamente, não há democracia sem capitalismo. Pelo menos até o momento não surgiu nenhum regime democrático que não fosse, ao mesmo tempo, capitalista. Nem surgirá um dia, atrevo-me a dizer.

É isso, em minha opinião, o que torna o capitalismo um sistema superior a qualquer coisa até agora engendrada pelo engenho humano: além da sua capacidade de sair revigorado após cada crise, o fato de que a democracia só pode existir - e isso a história do século XX mostrou à exaustão - em um sistema de livre mercado e livre iniciativa. E é por isso, também, que qualquer defesa do dirigismo estatal cheira a autoritarismo. É isso, e não porque eu queira um dia chegar a ser o CEO de alguma multinacional e ter uma frota de BMWs na garagem, o que me leva a defender o sistema capitalista.

Enfim, sinto dizer, senhores esquerdistas, mas o mundo não vai acabar. A crise que ora assola os mercados norte-americanos e ameaça provocar um colapso certamente passará, como passaram todas as outras. A crise mental que tomou conta de milhões de pessoas, entorpecidas por um antiliberalismo tosco e um antiamericanismo primitivo e idiota, porém, nos acompanhará por muitos anos ainda. Pelo menos enquanto houver quem sonhe com a volta do Muro.

Um comentário:

@ MAIORIA SILENCIOSA: P.A.S. disse...

Caro Gustavo

Quando encontrei o seu blog, assustei-me e pensei, que estava a olhar para a própria sombra, um blog ovelha dolly,coroa da minha causa "causa vossa"!

Depois de um período de reflexão e de revolução, de um grande globo mapa-mundo, acalmei-me, porque as terras de Vera Cruz, não são decisivamente os antípodas deste nosso velho pequeno mundo.

Um abraço irmão do http://causavossa.blogspot.com e estarei atento ao clone "Do Contra", desse lado do Atlântico.

P.S. e continue a não acreditar nessa conversa anti-liberal, porque a crise é o mercado a autoregular-se e a autoregenerar-se. Países demasiado intervencionados não tem esses problemas, porque deixam os seus povos na mais pobre e vil tristeza...ou "Chaviana" demência! A crise capitalista foi provocada pelo aparecimento de especulação financeira, mas e as novas relações e o crescimento explosivo dos novos países emergentes, a alteração do modelo energético mundial, etc... mas nenhum melhor modelo conheceu o mundo, onde a liberdade gera democracia e o conhecimento frutifica como na grande nação dos "founding fathers"...apesar dos defeitos! Os abutres paternalistas, reguladores, manipuladores, aproveitadores da coisa pública, aproximam-se, mas serão afastados pelo novo fôlego capitalista que virá com a nova revolução energética!