quinta-feira, setembro 11, 2008

DE SETEMBROS E SETEMBROS

"Apenas uma terça-feira como outra qualquer..."


Hoje é 11 de setembro. Uma data que, por antonomásia, já se tornou sinônimo de barbárie e de demência. Não só para gente como eu, "reaças" e "direitões", que insiste em enxergar diferença entre bem e mal, entre um pato e uma porca (com ou sem batom, para fazer uma homenagem ao Obama). Também os esquerdistas, o "lado bom da humanidade", como eles não se cansam de se autoproclamarem, celebram, a seu modo, a data. No caso, porém, o setembro deles é outro, o país também: Chile, 1973.
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Então, para fazer uma homenagem a esse pessoal, como a que o professor Carlão fez em relação aos mortos do World Trade Center, eu publico aqui um texto do pensador francês, recentemente falecido, Jean-François Revel sobre o golpe de Pinochet no Chile. O texto, escrito em 1983, é o melhor resumo que eu já li até hoje do que realmente aconteceu naquele país.
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A tradução é minha. Quem quiser ler no original em francês, é só acessar aqui: http://s.huet.free.fr/kairos/aletheia/jfrev4.htm.
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Boa leitura!


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Quando o general Pinochet matou a democracia, ela já estava morta...
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Jean-François Revel


No momento do décimo aniversário do golpe de estado que custou a Salvador Allende ao mesmo tempo seu poder e a vida, e ao povo chileno a democracia, é chegada a hora de tentar uma análise séria da tragédia de 1973 e de suas causas? Duvido. As paixões, as barreiras ideológicas, ainda o proíbem, receio. A esquerda internacional, depois de dez anos, se aferra a uma versão dos fatos e a uma somente: Allende foi derrubado e assassinado por um complô militar-fascista apoiado pelos Estados Unidos, e quem quer que queira fazer o balanço das responsabilidades do governo da Unidade Popular se vê acusado de cumplicidade com Pinochet.

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A esquerda, no mundo inteiro, desejava ver uma experiência de socialismo democrático ser enfim bem-sucedida; ela tinha dito tanto que a prudência de Allende no Chile constituía essa experiência, que lhe foi impossível atribuir o fracasso a outra coisa que causas puramente artificiais. Entretanto, bem antes do golpe de estado, todos estavam a par da deterioração da situação ao mesmo tempo econômica e política. Sabia-se quão graves eram a inflação, demencial até para a América Latina, a penúria alimentar, o racionamento, as grandes manifestações de caminhoneiros a quem faltavam peças sobressalentes ou de donas-de-casa batendo suas panelas, porque não encontravam mais no mercado do que enchê-las. Mas a esquerda não carecia de explicações taxativas para tudo isso: o caos econômico provinha do complô das multinacionais e dos bancos que organizavam o "bloqueio" do Chile e lhe cortavam as linhas de crédito para asfixiá-lo.
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Quanto aos manifestantes, eles eram evidentemente lançados na rua pela CIA. Ora, admitindo-se mesmo que os serviços especiais estrangeiros tenham podido fornecer os manifestantes, mal se vê como dezenas de milhares de cidadãs e cidadãos de camadas incontestavelmente médias e modestas tenham podido ser assim mobilizados sem ser empurrados por um autêntico descontentamento popular. A tese é absurda e aliás antimarxista.
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Quando os mineiros das minas de cobre que a Unidade Popular tinha acabado de nacionalizar (o processo tinha começado antes, sob a presidência democrata-cristã de Eduardo Frei) entraram em greve contra o regime, eu encontrei socialistas em Paris que me explicaram que esses operários tinham sido subornados pela embaixada dos Estados Unidos! Quanto às linhas de crédito, há muito tempo que se demonstrou que elas nunca foram realmente cortadas. As dívidas chilenas tinham sido várias vezes reescalonadas, novos créditos consentidos e, quando Allende foi assassinado, ele dispunha, ó paradoxo!, de mais facilidades em divisas fortes do que qualquer um de seus predecessores. A falência econômica resultou, pois, mais de causas internas do que de causas externas.
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O mesmo vale para a falência política, a decomposição do Estado, as ilegalidades numerosas que já tinham sufocado o funcionamento da democracia antes que o exército fizesse. Quando Pinochet matou a democracia no Chile, ela já estava morta. O país estava em uma situação de pré-guerra civil. O regime tinha no começo procurado de toda boa-fé traçar um caminho legal rumo à mudança da sociedade. Poderia tê-lo feito, sabendo-se que Allende tinha sido eleito com apenas 36% do voto popular? Muito rápido ele esbarrou nas resistências da sociedade civil e tentou submetê-las, empurrando o proletariado urbano a um comportamento revolucionário de "ruptura".
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A Unidade Popular se pôs a combater não somente os grupos privilegiados, mas as classes médias, destruindo um capital humano raro na América Latina e que se tinha formado em meio de uma lenta maturação. Mais do que um meio de distribuição da renda, o racionamento se tornou um instrumento de vigilância e de fichamento das pessoas. Milhares de revolucionários profissionais estrangeiros, provenientes do continente latino-americano e de outros continentes, se infiltraram, com a cumplicidade do governo, em todas as atividades, para as dirigir seguindo normas puramente políticas que anunciavam o partido único. O próprio exército não estava ao abrigo da subversão subterrânea, no momento mesmo em que Allende, em abril de 1973, nomeava generais em seu governo para que eles o ajudassem a submeter o caos em que afundava o país.
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A escola pública foi submetida a um monolitismo ideológico e autoritário. É que o partido socialista chileno, e em particular sua ala esquerda, o MIR, não era somente de reformistas ou sociais-democratas. O partido era marxista-leninista em sua doutrina e bem pouco diferente, por seus métodos, de seu aliado comunista.
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À véspera do golpe de estado, Salvador Allende já não podia mais manter no poder de forma democrática a Unidade Popular tal como ele a tinha constituído. Ele vislumbrava um governo de união nacional com a democracia cristã, solução que foi rechaçada pelo partido socialista e pelo partido comunista. Pensava em um referendo que ele teria inevitavelmente perdido, pois os pretensos ganhos eleitorais realizados pela Unidade Popular nas municipais de março de 1973 tinham sido devidos em parte à fraude e não lhe tinham dado ainda assim a maioria. Restavam possíveis seja a guerra civil, seja a passagem ao sistema totalitário do partido único de tipo castrista, o que tinha exigido o apoio de pelo menos uma parte do exército, seja o putsch em um sentido fascista. Sabe-se que, infelizmente, foi esse último que prevaleceu. Mas os dois outros não teriam sido menos catastróficos.
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Hoje, quando Pinochet vacila, quando ele é obrigado por seu turno a evoluir, do mesmo modo aliás que outros ditadores de direita, na Argentina, na Turquia, no Paquistão, desejemos que a esquerda se mostre capaz de aproveitar de novo esta chance histórica sem demência ideológica, em um quadro de um retorno "à espanhola" rumo à democracia.

Um comentário:

Leonardo Larrossa disse...

É... a esquerda não soube aproveitar de novo essa chance histórica. Ao menos não na América Latina. Para o azar de Revel, ele viveu o suficiente para ver isso.