sábado, novembro 17, 2007

UM POMAR DE FRUTOS PODRES


Vejam vocês como são as coisas. Alguns dias atrás, publiquei aqui um artigo meu sobre o cala-boca histórico que o Rei Juan Carlos da Espanha aplicou no Napoleão de hospício e tiranete bananeiro Hugo Chávez. Na ocasião, eu afirmei, sem a menor intenção de ser profeta, que o PT em breve se manifestaria de algum modo a favor de Chávez. Pois mal eu desliguei o computador e comecei a me preparar para curtir uns dias de sossego no feriadão prolongado e Sua Excelência, o Apedeuta em pessoa, já saiu dizendo que a Venezuela é um modelo de democracia plebiscitária e que não vê nada de errado em (atenção senhores parlamentares!) um governante querer ficar no poder por um tempinho a mais... Para justificar esse elogio do continuísmo, nosso Guia Genial citou os exemplos de governantes que ficaram um bom tempo no poder, como Margaret Thatcher e Felipe González. Nem eu, em meus delírios paranóicos, cheguei a pensar em algo assim.

No mesmo dia das afirmações pró-Chávez de Lula, leio um artigo do Secretário de Assuntos Internacionais do PT, Valter Pomar, no qual ele defende o ditador - já é ditador, como afirmei antes, e sem aspas - e associa a monarquia espanhola ao fascismo. No artigo, Pomar lembra, com ares de historiador, que a República espanhola foi esmagada por um levante fascista, que restaurou a monarquia na Espanha. O atual monarca espanhol, Juan Carlos, que passou a maior bronca em Chávez em Santiago do Chile, foi coroado após a morte do ditador Francisco Franco, em 1975, e "jogou um papel no mínimo controverso no processo de redemocratização", escreveu Pomar. Em outras palavras, "que autoridade moral tem um monarca (Juan Carlos) para mandar calar a boca de alguém que foi eleito pelo povo (Chávez)?", pergunta Pomar.

Três importantes lições resultam das palavras de Lula e do Chanceler de seu partido, o PT. A primeira é que o atual governante brasileiro não perde a chance de agir como porta-voz e defensor de seu colega e parceiro Hugo Chávez, ao ponto de justificar seu projeto ditatorial com tons falsamente democráticos. A segunda é que Lula não mais esconde de ninguém suas pretensões continuístas, no que se espelha em ninguém menos do que seu companheiro venezulano. A terceira, bem clara no artigo de Pomar, é que o método por excelência da esquerda, e do PT em particular, é a mentira e a fasificação histórica.

Deixemos de lado, por ora, a colossal desfaçatez de chamar democrático um regime como o venezuelano, em que a divisão de poderes, por exemplo, já deixou há muito de existir. Ou a monumental ignorância em não enxergar qualquer diferença entre os planos totalitários de um caudilho megalomaníaco de perpetuar-se no poder e os mecanismos do sistema parlamentarista em países como Inglaterra e Espanha, onde o primeiro-ministro pode permanecer vários anos no cargo (ou alguns meses ou mesmo dias, dependendo do voto de confiança ou não do Parlamento). A verdadeira chave para se compreender a posição do governo brasileiro em relação a Chávez e à Venezuela não está nas frases de botequim de Lula, nos seus "sabe" e "ou seja", mas nas palavras de Valter Pomar. É nelas que está sintetizada a visão de mundo petista, bem expressa na forma como distorce a história para ir em socorro a um de sua grei.

Em primeiro lugar, não foi "um levante fascista" que levou ao fim da República espanhola proclamada em 1931, como afirma Pomar, mas principalmente as divisões e lutas internas entre as próprias forças republicanas. Estas compreendiam um leque bastante amplo e heterogêneo de correntes políticas e ideológicas, que iam desde democratas liberais até comunistas servis a Moscou, passando por trotskistas e anarquistas. Ao longo dos três anos que durou a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), esses setores não deixaram de se digladiar, com os comunistas, por exemplo, promovendo verdadeiros expurgos nas fileiras republicanas, muito mais prejudiciais à causa da República do que as ofensivas militares nacionalistas (para quem quiser ter um painel do que foram as atrocidades cometidas pelos republicanos, em especial dos comunistas a mando de Stálin, durante o conflito espanhol, recomendo a leitura do excelente A Batalha da Espanha, de Antony Beevor). Os petistas já se especializaram em distorcer a história pátria, apresentando, por exemplo, a luta armada dos anos 60 e 70 como um movimento "contra o autoritarismo e pelo retorno das liberdades democráticas". Agora distorcem também a história de outros países.

Quanto ao papel de Juan Carlos no processo de redemocratização da Espanha após a morte do generalíssimo Franco, mais uma vez fica revelada a profunda ignorância ou a compulsão em falsificar a História por parte dos petistas. Qualquer estudante de ginásio espanhol conhece a data de 23 de fevereiro de 1981, quando um tenente-coronel da Guarda Nacional, de pistola em punho, invadiu o Parlamento espanhol e tentou dar um golpe de Estado para restaurar a ditadura. Naquele momento, fazia somente seis anos da morte de Franco e a democracia espanhola, ainda extremamente frágil, apenas engatinhava. Pois bem. Naquela ocasião, o que fez o "fascista" Juan Carlos? Foi à televisão e, num pronunciamento histórico, condenou a tentativa golpista e conclamou a nação a se unir em torno da democracia, o que retirou qualquer legitimidade ao golpe. Desde então, a Espanha achou seu lugar no concerto dos países democráticos, tendo sabido reconciliar-se com seu passado e encontrado seu caminho de modernidade e prosperidade. Para tanto, vem contando com um sistema político sólido e pluralista, balizado pela figura moderadora do Rei que, em um momento de grave crise político-institucional, soube reconduzir seu país nos rumos da democracia. Foi esse o "papel no mínimo controverso" de Juan Carlos de Borbón no processo de redemocratização da Espanha.

Valter Pomar pergunta que autoridade moral tem Juan Carlos de mandar Chávez calar-se. Além de o Chanceler do PT aparentemente se esquecer que foi Chávez que estava impedindo, com seus insultos a Aznar e seu monólogo interminável, o primeiro-ministro Rodríguez Zapatero de tomar a palavra (daí o já famoso "por qué no te callas?"), pode-se responder: com a mesma autoridade moral que o levou a ordenar os militares sublevados a voltarem aos quartéis em 1981 na Espanha. Militares estes com quem o coronel tem muito mais em comum do que querem fazer crer seus defensores brasileiros.

Nada disso, é claro, seria dito por petistas como Valter Pomar se Juan Carlos tivesse, em vez de mandado Chávez calar-se, feito elogios à sua ditadura disfarçada. Já disse antes que chamar alguém de fascista é a maneira preferida dos esquerdistas de desqualificar seus adversários e impedir o debate. Já afirmei também que, ao mesmo tempo em que se proclamam os únicos verdadeiros defensores da democracia, eles servem de banda de música e de tropa de choque de regimes que tratam de aboli-la. É o caso da Venezuela de Chávez e da Cuba de Fidel Castro, para citar os dois maiores exemplos atuais. Com isso, nossos esquerdistas apenas repetem os métodos do fascismo, que eles fingem combater, os quais consistem exatamente em utilizar a democracia para destruí-la. Desse Pomar, só podem vir frutos podres.

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