quarta-feira, agosto 05, 2009

"ELLE" ESTÁ DE VOLTA - COM AS BENÇÃOS DE LULA


Escrevi o texto a seguir em novembro de 2006 - quase três anos atrás. Na época, mesmo após o mensalão, o mito Lula - ou Lulla - ainda não se tinha esvanecido de todo, e ainda havia quem se escandalizasse com comparações entre ele e Collor - lembro que uma colega, para quem eu enviei o texto por e-mail, me ligou atônita, dizendo que eu havia perdido completamente a noção e viajado na maionese...

Pois é... Como ficou claro pela sessão do Senado de ontem, Collor e Lula nem escondem mais que estão do mesmo lado, no mesmo plano político-ideológico. Na sessão em apreço, o ex-caçador de maracujás, agora senador pelo impoluto PTB de Alagoas, mostrou que está de volta - e continua o Collor de sempre, cheio de empáfia e fanfarronice, vomitando mandonismo e vulgaridade. Tomou o microfone para falar grosso, como nos velhos tempos da República das Alagoas, mandando outro senador engulir e digerir o que dissera e reforçando a tropa de choque governista contrária à saída de outro ex-presidente, José Sarney, da presidência do Senado. Tudo com as bênçãos de Lula, seu mais novo aliado. Não duvido que, em alguns meses, elle aparecerá fazendo cooper em frente às câmeras, com aquelas suas camisetas, de mãos dadas com o Apedeuta em pessoa.

O texto é de quase três anos atrás. Mas, vocês facilmente verão, poderia ser escrito hoje. Faço apenas uma ressalva, no último parágrafo: Collor não durou somente dois anos. Na verdade, elle está de volta - pelas mãos de Lula.

Quão distante parece o tempo em que tudo era branco ou preto, quando Collor era apenas um filho da oligarquia mais atrasada e Lula, a esperança de redenção contra "tudo isso que está aí"... Hoje, o companheiro Collor é, ao lado dos companheiros Sarney e Renan Calheiros, o esteio do governo Lula da Silva. Quem mudou, Collor ou Lula? Uma coisa é certa: o primeiro, certamente, continua o mesmo.
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Poucas vezes as palavras de George Orwell em A Revolução dos Bichos foram mais adequadas para descrever o triste momento para o qual nos conduziu o lulismo:
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"Não havia dúvida agora quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco."

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LULA É PIOR QUE COLLOR

Em agosto de 2005, no auge dos escândalos de corrupção que atingiram em cheio a atual administração federal, a revista Veja publicou em sua capa uma foto do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sobre um fundo preto e com seu nome, escrito em letras garrafais em verde e amarelo: "Lulla", com o "l" dobrado. A intenção era associar a imagem de Lula a do ex-Presidente Fernando Collor de Mello, hoje sinônimo de corrupção. Muita gente certamente não gostou. Para muitos petistas e não-petistas, eleitores ou não de Lula, tal associação pareceu forçada e grosseira, para não dizer até mesmo mais um indício da onipresente "conspiração das elites e da mídia" contra o supremo mandatário da Nação. Para outros tantos, fiéis patrulheiros da correção política, pareceu algo simplesmente de mau gosto.

Um ano depois, quando o fedor da onda de denúncias - deflagrada por um personagem vindo das entranhas do Governo, é bom lembrar - parece ter-se dissipado, por única e exclusiva culpa da oposição, que acreditou ter derrubado em alguns meses um mito de três décadas, pode-se dizer, sim, que Veja errou. Não por ser descabida qualquer comparação entre Lula e Collor, mas pelo fato de que a revista igualou os dois. Lula não é igual a Collor. Ouso dizer: é pior.

Vejamos. Collor representava a velha política de sempre, as velhas oligarquias e o velho coronelismo travestido de "moderno". Era, como tal, um produto artificial, criação da grande mídia e principalmente da Rede Globo, ainda assustada com as "bravatas" - segundo o próprio Lula, depois de chegar ao poder - do então sapo barbudo. A "modernidade" do caçador de maracujás, portanto, era de fachada, pura pirotecnia. Além disso, por sua arrogância natural, seu jeito empolado e até mesmo por seu tipo físico, bem diferente do comum dos brasileiros, era fácil não ir com a cara delle.

Já Lula é pior, pois baseia seu inegável carisma em algo bem mais profundo e tenebroso do que uma bela estampa ou um jingle de campanha. Assim como Collor, ele convenceu a muitos que representa o "novo" na política, o lado bom e progressista, embora repita os métodos clientelistas e mandonistas velhos de guerra, tão antigos como o Brasil. Assim como Collor, ele usou e abusou do marketing para manipular o eleitorado e encobrir o próprio vazio de idéias. Mas, ao contrário de Collor, sua demagogia e seu populismo rasteiros estão alicerçados em bases culturais e psicológicas muito mais sólidas e menos superficiais, logo mais difíceis de erradicar.

Ao contrário de Collor, que criou um partido de aluguel para lançar-se às eleições presidenciais, Lula é fundador e dirigente de honra do PT - embora, nos últimos meses, tenha procurado desvincular sua imagem da do partido, como se uma coisa não tivesse nada a ver com a outra. Logo, não é um aventureiro, como o foram Collor e Jânio Quadros, mas um político profissional, figura de proa do auto-intitulado maior partido de esquerda do Hemisfério ocidental. Suas ações ou omissões, diferentemente de Collor, vêm chanceladas por uma visão ideológica articulada durante décadas e profundamente enraizada em vastos setores da população (veja-se, por exemplo, o funcionalismo público, a comunidade universitária e segmentos da Igreja Católica). Assim, se ele decide, de repente, rasgar a bandeira que defendeu durante um quarto de século para abraçar a mesma política econômica que um dia antes esconjurava - como fez em 2002, no maior exemplo de conversão sem confissão nem arrependimento registrado na História -, isso não é visto por muitos como desonestidade, mas como "realismo político". Do mesmo modo, se em 2006 escolhe como aliada uma legenda de aluguel criada por bispos evangélicos da Igreja Universal do Reino de Deus, isso é justificável. Em Lula, os defeitos viram virtudes, os vícios se tornam louváveis. É, portanto, um fenômeno muito mais perverso e sinistro, pois muito mais duradouro e desculpável aos olhos de nossa moral torta.

Era fácil detestar Collor por sua picaretagem explícita, sua origem social, suas gravatas Hermès ou suas fanfarronices. Lula, por sua vez, é admirado pelos mesmos motivos. Collor era criticável por ser uma figura "de fora", um outsider, e assim não nos sentíamos mal criticando-o, pelo contrário: sentíamo-nos vingados. Era, afinal, um farsante, um intruso que logo foi escorraçado da vida política, desmoralizado como corrupto e ridicularizado como o filhinho de papai megalomaníaco e narcisista que sempre foi. Aqueles que votaram sinceramente nele, esperando alguma saída em meio ao caos do final do Governo Sarney, podem dizer que foram enganados, e não precisam sentir nenhuma vergonha por isso.

Lula, ao contrário, será sempre o "líder operário", o "herói da classe trabalhadora", por mais mensalões, Marcos Valérios e Delúbios que apareçam. Não importa o quanto fique comprovado seu envolvimento com a corrupção que tomou conta do Governo - e as evidências são abundantes -, sempre haverá quem saia em sua defesa, como os artistas que justificaram recentemente as falcatruas da quadrilha petista, pois "não se faz política sem sujar as mãos". No caso de Collor, tal apologia da corrupção causaria um escândalo de proporções bíblicas. Mas não no caso de Lula. Quando achincalhávamos Collor, estávamos olhando para alguém com quem não nos identificávamos, e podíamos chamá-lo de ladrão a plenos pulmões, até com alegria. Com Lula, é diferente: sendo ele "do povo", um "autêntico líder popular", um "filho do Brasil" - como diz o título de sua mais conhecida hagiografia -, verdadeiro ídolo das massas e superstar da intelectualidade engajada, é muito mais dificil criticá-lo. Ao fazê-lo, estaríamos criticando não um mero charlatão, um simples histrião oportunista, mas nós mesmos, que alimentamos o mito de que ele seria uma espécie de Messias. Por outro lado, a explicação simplista de que "o poder corrompe" não cola, pois talvez em nenhum outro caso na História, ficou tão claro que o poder, em vez de corromper, revela e desmascara. Mesmo assim, sempre haverá quem encontre alguma finalidade nobre na sua corrupção, algum fim que justifique os meios.

Isso é tão verdade que os índices de popularidade de Lula continuam altos. Sua reeleição é quase certa. Lula, se reeleito, deverá sua vitória nas urnas a um programa assistencialista. Com ele, inaugurou-se uma nova era: a do "bom assistencialismo" (o nosso), em oposição ao "mau assistencialismo" (o dos outros). A população está ciente da gravíssima crise moral que assolou as mais altas instâncias da República - seria preciso morar na Lua para imitar o Presidente e dizer que não sabe de nada - mas mesmo assim votará no homem que chefia o Governo mais corrupto da História do Brasil. A conclusão é um duro golpe em nossa auto-estima: em nossa lista de valores, a honestidade não ocupa os primeiros lugares. A barriga vem primeiro. E se o Governo que dá a esmola e rouba o dinheiro público é do Lula e do PT, então está tudo bem. Lula rouba, mas faz.

Nenhum outro político brasileiro desde Getúlio Vargas na época do Estado Novo foi objeto de um culto da personalidade tão forte quanto Lula. Mesmo sem jamais ter ocupado nenhum cargo executivo antes de alcançar a Presidência, qualquer palavra sua adquiria imediatamente, para uma parcela crescente da sociedade, status e força de lei. Não lhe faltou sequer o toque dramático do martírio: filho de migrantes pobres nordestinos, preso no DOPS etc. Quem tem hoje trinta anos ou mais e era criança ou adolescente nos anos 80 cresceu sob a sombra dessa figura barbuda, de língua presa e fala rouca, repleta de erros de português - um atrativo a mais, na visão de muito intelectual stalinista -, sempre vociferando contra o governante de plantão e "a zelite". Quando se eleva alguém assim tão alto, quando se sacrifica dessa maneira a capacidade crítica em favor da glorificação do "líder", é bom desconfiar. De Lula se perdoava tudo, a ponto de ainda se considerar "preconceito elitista" chamar a atenção para um dado básico de sua biografia - sua já notória preguiça intelectual, elevada à categoria de culto da ignorância. Com seu ar de superioridade ética, pairando acima do bem e do mal, misto de Gandhi e Fidel Castro, Lula se tornou um ídolo pop. Em 2003, no auge da histeria lulista, chegou-se a pensar em lançar sua candidatura ao Prêmio Nobel da Paz. Que outro político já virou letra de rock por causa de uma frase sua ("Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou...")?

Tão longe chegou o culto da personalidade do ex-operário-que-virou-Presidente que já se fala em uma nova ideologia, o lulismo, como substituto do petismo, que afundou até o pescoço no lamaçal ético. O fato de Lula ter passado incólume ao vendaval de 2005 prova a força do mito. Cobriu-se a figura do ex-metalúrgico de uma aura de santidade e pureza que lhe foi dada carta branca para que brincasse com o País do jeito que bem entendesse e não precisasse dar nenhuma satisfação para ninguém, o que traz a marca de um viés nitidamente autoritário. Collor agia como um oligarca provinciano, esbanjando caipirice? Pois Lula comporta-se como um novo-rico, deslumbrado com o poder. Collor foi denunciado por ter colocado dinheiro público na sua residência particular, a Casa da Dinda? Pois Lula permitiu que seu filhinho tungasse 5 milhões do Estado para turbinar sua empresa de fundo de quintal. Fernando Henrique foi execrado por gastar muito em viagens oficiais? Pois Lula multiplicou as viagens, torrou dinheiro num avião novo e, de quebra, ainda deixa os amiguinhos de seus filhos passearem de graça num jatinho da FAB de vez em quando para alguma farra. Collor sofreu impeachment por causa do tráfico de influências que seu tesoureiro, PC Farias, fazia no Governo? Pois Lula não só permitiu todo tipo de maracutaia, como espalhou dinheiro do mensalão pelos corredores do Congresso. A diferença é que Collor foi de antemão condenado pelo tribunal da opinião pública, enquanto que Lula tem essa opinião pública - nós, enfim - na palma da mão, graças aos esforços gramscianos de décadas de doutrinação política pela turma do PT. Lula é uma força muito mais funesta, porque diz muito mais sobre nossos vícios de origem, nosso fisiologismo, nossa dissimulação, nossa malandragem. Ele é a prova de nosso fracasso.

Collor foi um raio num dia de céu claro. Lula é uma tempestade que assola o país há três décadas. Collor durou pouco mais de dois anos. Lula continuará nos assombrando, lépido e fagueiro, por muito tempo ainda. Collor foi uma ilusão. Lula é o Brasil. O pior do Brasil.

Olha eu aí de novo


A PIAUÍ publicou minha carta sobre o ensaio de Slavoj Zizek que analiso em post anterior (ver meu texto "Slavoj Zizek, ou: o dever de enterrar a hipótese comunista", de 16 de julho). Está lá, na página 64 da última edição da revista (n. 35, agosto de 2009). Publicou, mas não por inteiro. Quero crer que tenha sido mesmo por motivos "de clareza e espaço", como diz a nota da redação da revista (espaço eu até entendo, mas clareza... sei não). De qualquer maneira, como aqui neste blog felizmente não existe a famigerada figura do copy-desk, reproduzo a seguir o conteúdo integral e sem cortes da minha missiva (detalhe: as partes podadas na versão publicada pela revista vão em vermelho). Fica aqui o registro, para quem quiser comparar.
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De:
Gustavo Henrique Marques Bezerra (ghmb_2003@hotmail.com)
Enviada: terça-feira, 21 de julho de 2009 19:32:23
Para:
cartas@revistapiaui.com.br; redacao@revistapiaui.com.br

O ensaio de Slavoj Zizek na PIAUÍ n. 34 cairia bem melhor no Granma, o jornal oficial do partido comunista cubano, ou do MOCQMV (Movimento dos Órfãos do Comunismo que Querem o Muro de Volta). O autor parece repetir o tempo todo o refrão daquela música do Raul Seixas, "Tente Outra Vez". Por acaso ele acha que um erro, se repetido, produz um acerto? Que papo furado é esse de que é preciso defender a "hipótese comunista"? Será que cem milhões de mortos em nome dessa utopia/distopia não foram o bastante? Que lengalenga é essa de comunismo como "inclusão dos excluídos"? Será que Zizek nunca ouviu falar em coisas como o Gulag, os expurgos de Stálin, o paredón e a nomenklatura? E que conversa mole é essa do Sr. Alain Badiou, que afirmou que "sem a Idéia comunista, nada no devir histórico e político tem qualquer interesse para um filósofo"? Quer dizer que a Filosofia, desde Platão e Aristótéles, nada mais é do que um departamento de propaganda do comunismo? Quando é que vocês vão deixar de bancar a "tribuna livre da luta de classes" da New Left mais rançosa e bocó e mostrar que são mesmo independentes, publicando textos de autores "conservadores" e "de direita", em vez desses neomarxistas de galinheiro? Ah, façam-me o favor! Comunismo nunca mais. Nem como hipótese.

segunda-feira, agosto 03, 2009

DE IGNORÂNCIAS E IMBECILIDADES - CARTA A SUA EXCELÊNCIA


Excelentíssimo Sr. Presidente da República,
Luiz Inácio Lula da Silva,

Escrevo sem a menor ilusão de que V. Excia. irá pôr os olhos nesta carta um dia, pois é fato sabido e notório que V. Excia. nunca leu nada em toda sua existência, fato, aliás, de que se orgulha muito e pelo qual é incensado. Mas faço-o assim mesmo, pois, como ficará claro pelo que vem a seguir, além de "ignorante" e "imbecil" - adjetivos com que V. Excia. brindou os que criticam seus planos sociais, em especial o Bolsa Família -, sou, também, um teimoso incorrigível. Além de alguém que não se ajusta muito bem a esses novos tempos, inaugurados com toda pompa e fanfarra desde que V. Excia. assumiu a presidência da República, em 2003, e nos quais coisas como lógica e coerência, para não falar da moral e da pura e simples vergonha na cara, são diariamente desmoralizadas por gente como V. Excia. e os que o cercam.

Como mencionei no início, V. Excia. chamou, em uma inauguração-comício em Belo Horizonte em 31 de julho, os críticos do Bolsa Família de "ignorantes" e "imbecis". Classificou com esses epítetos os que insistem em não enxergar os óbvios benefícios sociais de programas como esse. Negou, também, com a costumeira veemência, que se trata de um programa assistencialista. Como já escrevi aqui, diversas vezes, que o Bolsa Família não passa de um estelionato eleitoral, feito para angariar votos dos miseráveis enquanto os mantém atrelados à caridade estatal - algo, enfim, que está longe de ser algo novo na política brasileira -, não vejo problema algum em reconhecer que, quando V. Excia. se referiu a "ignorantes" e "imbecis" estava, obviamente, falando de pessoas como este que vos escreve. Visto, assim, a carapuça.

Aliás, não apenas visto a carapuça, como a reivindico. Sua fala somente reforçou minha convicção de que o Bolsa Família, assim como os demais programas do governo de V. Excia., é mesmo uma enorme farsa, o maior engodo eleitoreiro da História do País, como disse outro dia o Jarbas Vasconcelos. Não, não digo isso porque eu esteja ressentido com V. Excia. por ter-me chamado de "ignorante" e "imbecil" - ser xingado por V. Excia., mesmo indiretamente, é, para mim, motivo de orgulho e honra. Tampouco o faço porque esteja chateado por ter ficado de fora de alguma nomeação por um aliado seu no Senado via algum ato secreto, ou da distribuição de cargos em alguma estatal com base em critérios, digamos, pouco republicanos - únicos motivos, desconfio cada vez mais, pelos quals alguns políticos ainda se colocam na oposição ao governo de V. Excia. Nada disso. Faço-o porque, como direi?, eu concordo com V. Excia. Sim, concordo plenamente, em gênero, número e grau. Concordei durante vinte e cinco anos, aliás. Período no qual V. Excia., então o principal líder da oposição no País, não se cansava de verbalizar a mesma opinião que eu sempre tive sobre o assistencialismo, e que agora ataca de forma tão furibunda.

Quem tem mais de trinta anos deve se lembrar. Não faz tanto tempo assim, V. Excia e seu partido, o PT, investiam pesadamente contra o assistencialismo como forma de combater os males sociais. Afirmavam, na época, e eu concordava e concordo totalmente, que distribuir dinheiro ou cestas básicas é o mesmo que dar esmolas, não passa de um lenitivo. Além disso - as palavras ainda estão frescas em minha memória -, não cansavam de repetir, em alto (e mau) português, que o assistencialismo era apenas uma forma encontrada pelas classes dominantes ("as elites", como gosta de dizer V. Excia.) de promover o conformismo e adiar as necessárias transformações sociais. O importante era mudar as estruturas, ou, como dizia didaticamente meu professor de História da 5a série, não somente dar o peixe, mas ensinar a pescar. Com o tempo, esse discurso se refinou, até atingir, na época do governo do anterior de V. Excia., um nível realmente impressionante: dar dinheiro aos pobres, na forma de programas como o Bolsa Escola (base do Bolsa Família), era, então, uma "medida compensatória para minimizar os efeitos negativos do reajuste neoliberal". Essas palavras ainda ressoam em meus ouvidos, como se tivessem sido ditas ontem. Aliás, em termos históricos, elas foram, sim, ditas ontem. O que mudou, de lá para cá, para justificar virada tão repentina e radical?

Pois bem. Sou um "ignorante" e um "imbecil", segundo V. Excia., porque não consigo compreender, por mais que me esforce, por que o que ontem era denunciado por V. Excia. como assistencialismo é hoje um programa de "transferência de renda". Nunca fui muito bom em economia, mas sei que dar dinheiro a alguém não transfere nem cria renda coisa nenhuma - esta só é criada quando se gera emprego. O Bolsa Família, até onde eu sei, dá dinheiro às populações mais carentes. Logo, pode até ter um efeito positivo no curto e médio prazos, permitindo que as famílias mais pobres comprem uma geladeira mais moderna, ou façam uma refeição melhor. Mas daí a gerar ou transferir renda vai uma diferença muito grande. A longo prazo, que é o que interessa, programas semelhantes não ajudam a gerar ou a transferir renda a quem quer que seja, mas apenas estimulam aquilo mesmo que V. Excia. e a companheirada denunciavam com tanto vigor há poucos anos: o conformismo e a manutenção do status quo. Em outras palavras: o governo dá o peixe, mas não oferece nenhuma alternativa para que quem o recebe saia da situação em que se encontra. Pelo contrário: o governo de V. Excia. não se cansa de repetir que o programa está sendo aumentado e que irá incluir tantos milhões a mais de famílias. Ora, se o programa é para transferir renda e retirar pessoas da pobreza, como se diz, então o normal não seria que menos pessoas, e não mais, precisassem dessa ajuda governamental? Já se tem notícia de muita gente, principalmente no Norte e no Nordeste, que, com os 85 reais que recebe do Bolsa Família, resolveu mesmo largar o emprego e viver de brisa - ou melhor, da caridade estatal. Com isso, apenas perpetua-se um ciclo vicioso de nossa sociedade, que, como se sabe, nunca foi muito chegada num batente para ganhar a vida, preferindo mil vezes o leite emanado das tetas do Estado. V. Excia., que deixou de trabalhar há mais de trinta anos para desde então somente fazer política, é, aliás, um exemplo disso. O Bolsa Família é hoje o carro-chefe do governo de V. Excia., tendo sido o fiel da balança para sua reeleição e de seus aliados (gente boa e honesta como Sarney, Collor, Jader Barbalho e Renan Calheiros, entre outros), assim como o principal responsável por seus altos índices de popularidade. Outro dia, aliás, V. Excia. chegou a dizer, sem dúvida pensando em sua candidata para 2010, que o Estado deve ser uma "mãe". Se isso não é assistencialismo - e clientelismo, e fisiologismo, e demagogia, e perpetuação da pobreza e do atraso etc. -, o que é, então?

Entendo que nenhum desses argumentos irá fazer qualquer diferença para V. Excia., que, como já disse, não se dará ao trabalho de ler esta carta. Não interessa, para V. Excia., lembrar que outro dia seu discurso foi outro, sobre o mesmo assunto. Não interessa a V. Excia., certamente, vir a público e admitir, sem meias palavras, que tudo que V. Excia. fez na vida, desde que entrou para a política, foi enganar os otários, adotando no dia seguinte o discurso e a política que condenava na véspera, desde que esse discurso e essa política lhe rendessem dividendos eleitorais. Foi assim com o "discurso da ética na política", que antes a esquerda rejeitava como moralismo udenista, e que o partido de V. Excia., seguindo uma tendência geral, adotou integralmente após se abrir a possibilidade concreta de chegar ao poder após 1992 - e que V. Excia., que tem o apoio de Collor e Renan Calheiros, não fez outra coisa senão desmoralizar desde que subiu a rampa do Planalto. Foi assim também com a política econômica do governo anterior, que V. Excia. passou anos atacando como "neoliberal", e que, uma vez no poder, tratou de copiar ipsis literis.
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Em todas essas viradas de discurso, ficou claro que V. Excia. jamais foi contra a corrupção, ou o neoliberalismo, ou o que quer que seja - era contra apenas os governantes de plantão, os quais, por infelicidade, não eram V. Excia. Isso era simplesmente imperdoável, pois, como está claríssimo agora, impedia a Vossa Excia. fazer precisamente aquilo que, se estivesse no lugar deles, certamente faria, afastando-o de colher as glórias do poder. Assim, quando V. Excia. vociferava contra a corrupção ou a política econômica "neoliberal", não o fazia por nenhum compromisso moral ou programático, mas somente por oportunismo, por estratégia ou esperteza política. E, em nenhum dessas casos, ao mudar radicalmente o discurso, houve qualquer tipo de retratação, nenhuma confissão ou arrependimento, como fazem aqueles que sinceramente se convertem a um novo credo. Ao invés disso, V. Excia. chegou mesmo a fazer graça, admitindo, com um sorrisinho, que tudo que fizera antes de chegar ao poder fora apenas bravata. Com isso, reconheceu que o discurso anterior era tão-somente instrumental, e visava unicamente à tomada do poder. Com o assistencialismo, não é diferente.

Mas isso ainda não é o pior. Que V. Excia. esteja irritado com quem vê em seu governo apenas a repetição de velhos vícios e taras políticas nacionais, que existem nestas terras desde Cabral, é até compreensível. Aliás, não se espera de um governo, qualquer que seja, que não se defenda de críticas. Até aí eu consigo entender. Só não entendo, de jeito nenhum, é que tenha saido exatamente da boca de V. Excia. os dois epítetos utilizados para classificar seus críticos. Principalmente o "ignorantes". Ora, até as pedras da rua sabem que V. Excia. nunca foi lá muito chegado às luzes do conhecimento, e quem quiser se certificar disso é só verificar qualquer uma das inumeráveis gafes, cretinices e batatadas pronunciadas por V. Excia. nos últimos seis anos - como dizer que quer expandir o Mercosul "da Patagônia até a Terra do Fogo", por exemplo. Mais que isso: V. Excia. é responsável por um verdadeiro culto da ignorância, assumido gostosamente por uma legião de intelectuais (!) bajuladores em torno de sua pessoa, e segundo o qual o conhecimento adquirido "na universidade da vida" vale mais do que qualquer diploma. V. Excia., desde que deixou o sindicato, teve tempo e oportunidades de sobra para correr atrás e compensar sua formação escolar deficiente, que, como todos sabem, não passou da 4a série primária. Por que não o fez? Será que ler, estudar, assim como criticar o assistencialismo, é para "ignorantes" e "imbecis"?

Páro por aqui. Creio que o que escrevi aí em cima dá bem uma idéia do que penso a respeito de mais essa demonstração de boçalidade de V. Excia. Ter como presidente um sujeito que nunca leu um livro na vida, e que se orgulha e faz apologia da própria ignorância, já é motivo mais que suficiente para perplexidade. Ver esse mesmo sujeito chamar de "ignorantes" e "imbecis" quem chama as coisas pelo nome, é algo simplesmente impossível de descrever em palavras. É o reino do esquecimento e da estupidez, governado por um ignorante, a serviço da imbecilidade.
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Respeitosamente (ao cargo, não à pessoa),
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Gustavo ("Blog Do Contra")
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P.S.: Para ser justo, é preciso admitir que há duas áreas no governo Lula que mantêm uma certa coerência com o discurso petista anterior a 2002: a política externa e as chamadas políticas para as "minorias". Quanto à primeira, de fato a propaganda esquerdista original está sendo aplicada quase in totum, na forma de antiamericanismo tosco e de cumplicidade indisfarçável com tiranos, genocidas e terroristas. No segundo caso, os esquerdistas hoje no poder se dedicam ao máximo em rasgar o artigo 5 da Constituição, segundo o qual todos são iguais perante a lei, ao patrocinarem tentativas de segregar os indivíduos segundo critérios de cor, raça ou preferência sexual, instituindo cotas e privilégios em lugar de direitos. Isso mostra que, com Lula e seus sequazes, estamos mesmo num beco sem saída: se mudam o discurso, são farsantes e hipócritas; se o mantêm, são autoritários e intolerantes. Se ficar o bicho come; se correr, o bicho pega.

AINDA HÁ JORNALISTAS EM BERLIM. AINDA BEM


Eis um texto que você não lerá na Caros Amigos, nem na Carta Capital, nem em nenhum site ou blog mantido pela petralhada. É uma prova de que, felizmente, nem todo mundo caiu na esparrela da lenda da "luta armada como resistência democrática", que nos vem sendo impingida pelos atuais donos do poder, com sua farra de indenizações sem o menor pudor. Merece ser lido e relido nas faculdades de História, como um texto de desintoxicação ideológica. Um antídoto contra os freis bettos e sáderes da vida.

Da coluna de Augusto Nunes na Veja.com, em 26/07. Os grifos são meus.
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Nenhum de nós lhes deve nada. Eles nos devem tudo, a começar pela vida

"Ainda bem que a gente não chegou ao poder: se isso acontecesse, teria de devolver no dia seguinte”, disse Vladimir Palmeira, em maio do ano passado, num debate entre veteranos de 1968. “A gente sabia muito pouco, não tinha preparo para governar país nenhum”. Certíssimo. “A gente não tinha nem mesmo um projeto de poder”. Errado. Os comandantes do movimento estudantil (e, sobretudo, seus mentores na clandestinidade) tinham um projeto, sim. Tão claro quanto perverso: substituir a ditadura militar pela ditadura do proletariado.

Quem não tinha projeto de poder era a “massa de manobra”, como se referiam os chefes à multidão de jovens ingênuos, generosos, anônimos, que repetiam palavras-de-ordem cujo real significado ignoravam e cumpriam ordens e instruções vindas de cima. Os soldados rasos lutavam pela liberdade. Os comandantes planejavam suprimi-la. O rebanho sonhava com a ressurreição da democracia. Os pastores queriam muito mais, confirma Daniel Aarão Reis, ex-militante do MR-8, ex-exilado e hoje professor de História na Universidade Federal Fluminense.

“As esquerdas radicais não queriam restaurar a democracia, considerada um conceito burguês, mas instaurar o socialismo por meio de uma ditadura revolucionária”, fala de cadeira Aarão Reis, principal ideólogo de uma dissidência do PCB que desembocou no MR-8. “Não compartilho da lenda segundo a qual fomos ­ o braço armado de uma resistência democrática. Não existe um só documento dessas organizações que optaram pela luta armada que as apresente como instrumento da resistência democrática”.

Recrutados na massa de manobra, os alunos dos cursinhos intensivos de revolução ainda estavam na terceira vírgula de O Capital e no quinto parágrafo de Engels quando descobriam que desistir das aulas semanais era crime sem perdão. “Ele desbundou”, desdenhavam os mestres de qualquer discípulo sumido. Meia dúzia de panfletos de Lenin depois, os aprendizes descobriam que se haviam tornado oficiais do exército mobilizado para sepultar o capitalismo e conduzir o povo ao paraíso comunista.

Muitos se diplomavam sem sequer desconfiar da grande missão. Mas gente como Vladimir Palmeira tinha idade e milhagem suficientes para saber que perseguia um regime ainda mais selvagem, brutal e infame que o imposto ao Brasil. Conviviam com tutores de larga milhagem. O sessentão Carlos Marighela, por exemplo, ensinava aos pupilos da ALN a beleza que há em “matar com naturalidade”, ou por que “ser terrorista é motivo de orgulho”. Deveriam todos orgulhar-se da escolha feita quando confrontados com a bifurcação escavada pelo AI-5.

A rota certa era a esquerda, avisavam os que nunca tinham dúvidas. Passava pela luta armada e levava à luz. A outra era a errada. Passava pela rendição vergonhosa e levava à cumplicidade ostensiva com os donos do poder. Ou, na menos lamentável das hipóteses, aos campos da omissão onde se amontoavam desertores da guerra justa. A falácia foi implodida pelos que se mantiveram lúcidos, recusaram a idiotia maniqueísta e percorreram o caminho da resistência democrática.

Estivemos certos desde sempre. Desarmados, prosseguimos o combate contra quem os derrotara em poucos meses. Enquanto lutávamos pela destruição dos porões da tortura, eles se distraíam em cursinhos de guerrilha ou no parto de manifestos delirantes. Estavam longe quando militares ultradireitistas tentaram trucidar a abertura política. Só se livraram do cárcere e do exílio porque conseguimos a anistia, restabelecemos as eleições diretas e restauramos a democracia. Nós vencemos. Eles perderam todas. Alguns enfim conseguiram tornar-se contemporâneos do mundo ao redor. Quase todos permaneceram com a cabeça estacionada em algum lugar do passado. E voltaram com a pose dos condenados ao triunfo.

Fantasiados de feridos de guerra, os sessentões de 68 se apropriaram de indenizações milionárias, empregos federais, mesadas de filho mimado. Com a velha arrogância, seguem convencidos de que quem está com eles tem razão. Passa a fazer parte da esquerda, formada por guerreiros a serviço das causas populares. Quem não se junta ao bando é inimigo do povo, lacaio dos patrões, reacionário, elitista, golpista vocacional. O comportamento e a discurseira dos dirceus, franklins, dilmas, genoínos, palmeiras, garcias, tarsos, vannuchis e o resto da turma confirmam: passados tantos anos, estão prontos para errar de novo. Infiltrados no governo de um presidente que não lê, não sabe escrever, merece zero em conhecimentos gerais e faz qualquer negócio para desfrutar do poder, eles aparelharam o Estado e vão forjando alianças com o que há de pior na vizinhança para eternizar-se no controle do país. Se não roubam , associam-se a ladrões. Se não matam, tornam-se comparsas de homicidas.

Sequestradores da liberdade e assassinos da democracia jamais deixam de sonhar com o pesadelo. Não têm cura. Nenhum democrata lhes deve nada. Eles é que nos devem tudo, a começar pela vida.

sexta-feira, julho 31, 2009

A ÚLTIMA DOS BOLIVARIANOS: ARMAS, SÓ SE FOR PARA AS F.A.R.C.


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou ontem que está preocupado com o acordo militar entre a Colômbia e os EUA. Ele não vê com bons olhos a presença de militares norte-americanos no país vizinho. O acordo prevê o acesso destes a três bases colombianas por mais dez anos. Ao lado de Hugo Chávez, da Venezuela, e de outros presidentes latino-americanos, Lula pretende levar o tema para discussão no âmbito do Conselho de Defesa Sul-Americano, órgão pertencente à UNASUL - União Sul-Americana (uma espécie de OEA mais à esquerda, sem os EUA). Para Lula, o acordo militar pode provocar uma corrida armamentista no continente etc. etc.

Realmente... Os EUA, mesmo com Obama, são um perigo. Imaginem só, um acordo militar com a Colômbia? Onde já se viu isso? Só porque, reparem, o país enfrenta há mais de quarenta anos os narcobandoleiros das FARC, a maior organização terrorista do Ocidente, responsável por milhares de mortes e inúmeros seqüestros, além da maior parte da cocaína produzida no mundo? E que recebem - como mostram PROVAS abundantes - ARMAS de países vizinhos, como a Venezuela (vejam mais adiante)? Como? A Colômbia, assinando um acordo militar com o Tio Sam para se defender dessa ameaça? Que absurdo, não acham?

Ainda mais porque, vejam só que coisa!, o tal acordo militar, segundo Lula, pode acarretar uma corrida armamentista na América do Sul, o que não é bom para ninguém. É verdade... Afinal, como todos sabem, é a Colômbia de Álvaro Uribe a grande encrenqueira da região, servindo de instigadora da instabilidade na América Latina, com seu apoio em dinheiro a movimentos golpistas no continente e a governos antiamericanos como os de Evo Morales e Rafael Correa. Ora, ora: só porque a vizinha Venezuela, sob a batuta de Chávez, esse grande democrata, comprou um lote de caças russos Sukhoi, além de milhares de fuzis russos, e assinou acordos até com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad (!), que quer ser uma potência nuclear, a Colômbia agora também quer se armar para enfrentar um inimigo interno que prometeu destruir a democracia e transformar o país numa ditadura comunista? Só porque Chávez, QUE ARMA A NARCOGUERRILHA COLOMBIANA, já interveio diretamente em vários países da região, o último deles Honduras, para exportar a sua "revolução bolivariana"? Só porque o laptop do número dois das FARC, Raúl Reyes, morto em março de 2008, revelou detalhes escabrosos de contatos secretos entre a organização terrorista e membros do alto escalão dos governos da Venezuela e do Equador? Só por isso o presidente colombiano quer assinar um acordo militar com os EUA? Mas que sujeito mau esse tal de Uribe, heim?

Lula, como sempre, dá seu total respaldo ao companheiro Chávez contra mais essa perfídia de Bogotá. Ele está com Chávez e não abre. Há alguns dias, foi noticiado com alarde (menos no Brasil, onde a notícia passou praticamente despercebida) que lança-foguetes antitanque AT-4, de fabricação sueca, foram encontrados nas mãos de narcoterroristas das FARC (ver foto acima). Foi constatado que as bazucas vinham de um lote entregue na década de 80 pela fabricante SAAB Bofors Dynamics ao (adivinhem quem) exército da Venezuela. Por causa da revelação, o governo da Suécia suspendeu imediatamente qualquer venda de armas à Venezuela e, assim como o da Colômbia, exigiu explicações de Hugo Chávez, que ele deve até agora. Em vez de explicar o que lança-foguetes do exército venezuelano faziam num acampamento das FARC, Chávez preferiu cortar relações com a Colômbia, e agora grita contra o acordo miltar de Bogotá com os EUA. Lula, também, está indignadíssimo com o acordo. Mas não com o apoio - militar, inclusive - de Chávez às FARC, nem com os dólares que estas doaram a Rafael Correa do Equador. Contra isso, ele não deu um pio. Nem dará (a propósito: o Tribunal Penal Internacional acabou de protocolar um pedido de informações ao Brasil sobre as atividades das FARC no País. Mas isso você também não verá no Jornal Nacional).

O quê? A Colômbia, uma democracia, assinando um acordo militar com o diabo imperialista? De jeito nenhum! Acordo, só se for para fornecer armas às FARC, esses anjos de idealismo e pureza. De preferência, de forma escondida, secreta, clandestina, para não dar muito na vista e garantir, com a cumplicidade de certa imprensa mancomunada ou covarde, uma certa "plausible deniability", ocultando o que a cada dia fica mais evidente. Assim, fingindo-se de "vegetarianos", jogando areia nos olhos de todos, os companheiros poderão continuar posando de "moderados" e até mesmo se oferecerem para "mediar" futuras negociações entre uma parte e outra, em que pese o óbvio comprometimento com um dos lados - o lado das FARC, obviamente. Agindo assim, é garantido, ninguém vai perceber o engodo. Afinal, esse pessoal do Foro de São Paulo é expert nesse tipo de coisa. Não é, Lula?
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Assinar acordo militar com os EUA? Não pode: é um crime de lesa-pátria e uma agressão à soberania - é o que dizem os bolivarianos e seus aliados. Já fornecer lança-foguetes aos narcoterroristas das FARC... Por que não lhes dar logo a bomba atômica?

quinta-feira, julho 30, 2009

A AMÉRICA LATINA EXPLICADA DIDATICAMENTE


Imagem meramente ilustrativa
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Digamos que o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, resolvesse mudar radicalmente as instituições do país, de modo a garantir, via uma série de plebiscitos, sucessivas reeleições até o ano de 2021 (ou mais além, sabe-se lá). Para tanto, ele subordina, mediante uma série de medidas legais, os demais poderes da República, o Judiciário e o Legislativo, acabando, na prática, com a separação de poderes no país. Não contente com isso, Uribe decide fechar um canal de TV oposicionista, enquanto ameaça jornalistas de prisão, usando os mais variados pretextos legais. Enquanto isso, organiza a criação de milícias armadas, formadas por militantes fiéis a seu ideário político, que não hesitam em intimidar e agredir fisicamente a oposição.
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Não satisfeito em assegurar seu poder internamente, Uribe resolve usar as riquezas do país para intervir abertamente nos assuntos de países vizinhos. Passa então a distribuir fartamente dinheiro a grupos políticos de direita na Bolívia e no Equador, ajudando a eleger os presidentes nesses dois países. Faz o mesmo no Paraguai e na Argentina, inclusive com malas recheadas de dólares. Onde enfrenta resistência a seu projeto expansionista, como no Peru, trata de apoiar, também com largas somas em dinheiro, uma tentativa de golpe por um grupo ultra-nacionalista e racista que resulta em várias mortes. Ele quer porque quer se impor como um novo Napoleão, o senhor absoluto do continente latino-americano.
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Suponha que Álvaro Uribe, indo mais longe em seu projeto de exportar a "revolução adamsmithsoniana" (também conhecida como "capitalismo do século 21"), apóia de forma explícita a tentativa de golpe civil de um seu aliado em Honduras. Este, visando a repetir o que ele, Uribe, fez na Colômbia, convoca um referendo ilegal e inconstitucional, chocando-se com os demais Poderes, sendo por eles deposto, num movimento de resistência cívico-militar que conta com o apoio da maioria da população. O aliado de Uribe, deposto, tenta voltar ao poder, e conta para isso com o apoio declarado de seu mentor, que inclusive ameaça intervir militarmente no país caso seu aliado não seja reconduzido ao cargo e mude a Constituição para eternizar-se no poder. Uribe planeja, inclusive, um banho de sangue, para que seu aliado seja restituído ao trono. O plano macabro tem até um nome: "Plano Bogotá".
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Imagine ainda que as forças armadas da Venezuela, em uma operação de combate aos narcoterroristas de extrema-direita que operam a partir de território colombiano, apreendem um laptop do número dois da organização, morto em combate, no qual constam provas irrefutáveis de que altos funcionários do governo Uribe mantêm contatos regulares com os terroristas, aos quais fornecem proteção e abrigo. O caso provoca uma grave crise diplomática entre os dois países, que por pouco não resulta em guerra aberta.
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Pouco tempo depois, o exército da Venezuela descobre provas concretas, apreendidas com os narcoterroristas, de que lança-foguetes de fabricação sueca, pertencentes ao exército da Colômbia, foram parar nas mãos dos tais narcoterroristas de extrema-direita que atuam contra o governo de Caracas. As provas de que os mísseis apreendidos com os paramilitares de direita foram repassados pelo exército colombiano são contundentes e irrefutáveis, mas Uribe nega tudo, e, numa manobra diversionista, até rompe relações com a Venezuela, acusando a vítima.
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Entenderam aonde eu quero chegar?
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Pois é, caro leitor. Se você captou a mensagem, então entenderá perfeitamente a pergunta que vem a seguir:
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SE FOSSE ÁLVARO URIBE VÉLEZ, E NÃO HUGO CHÁVEZ FRÍAS, O AUTOR DAS FAÇANHAS DESCRITAS ACIMA, SERÁ QUE A ATITUDE DO GOVERNO LULA (e da OEA, e da ONU, e da União Européia, e de Barack Hussein Obama...) SERIA A MESMA? CONSEGUEM VISLUMBRAR O ESCÂNDALO?
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Quem tem olhos para ver e cérebro para pensar já sabe a resposta. Para os demais, nem desenhando.

quarta-feira, julho 29, 2009

PERGUNTAR NÃO OFENDE

Aí vão algumas perguntas que NÃO serão feitas neste dias:
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- Se o presidente do Paraguai, o pai de muitos paraguaios Fernando Lugo, fosse "de direita", e não um "hermano" e "companheiro" da trupe bolivariana, o governo Lula teria engolido com tanta facilidade suas exigências no novo acordo sobre Itaipu (o "acordo Lu-Lu")?
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- O mesmo com relação a Evo Morales, o índio de araque e cocalero boliviano: fosse ele um político conservador e liberal, teria sido a mesma a reação (ou falta de reação) do governo Lula da Silva ante a expropriação das refinarias da Petrobras na Bolívia em 2006?
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- Se Rafael Correa, o aprendiz de Chávez que manda no Equador, fosse, digamos, um direitista, o governo brasileiro teria agido da mesma forma diante do seqüestro, ordenado pelo governo daquele país, de dois funcionários brasileiros de uma empreiteira, alguns meses atrás?
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- Fosse Manuel Zelaya, o bigodudo de Honduras, outra coisa senão um convertido ao bolivarianismo chavista, e os que o derrubaram fossem, digamos, companheiros de esquerda, estaria o Brasil condenando com tanta veemência o movimento que o destituiu e defendendo seu retorno ao poder sem condições?
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- Se o presidente da Venezuela fosse outro que não o coronel Hugo Chávez Frías, teria o Brasil justificado como justificou o fechamento arbitrário de uma rede de rádio e TV que desagradava ao governante do país?
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E, finalmente:
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- Se a Colômbia fosse governada não por Álvaro Uribe, mas por companheiros bolivarianos do Foro de São Paulo, e estivesse sob cerco de paramilitares de direita que recebem apoio e armas, inclusive mísseis, de governos vizinhos, o Brasil manteria sua neutralidade no conflito, como afirma Marco Aurélio Top Top García? Mais: ignoraria solenemente essa clara ingerência externa no país?
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Ou, em Português mais claro:
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AFINAL, OS CONCEITOS DE NÃO-INTERVENÇÃO E DE AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS, BEM COMO DE SOBERANIA E DE INTERESSE NACIONAL, TÃO CAROS À DIPLOMACIA BRASILEIRA - E PILARES MESMO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS -, SÓ VALEM PARA PAÍSES QUE NÃO SEJAM GOVERANDOS POR "COMPANHEIROS"? PARA ESTES, TUDO É PERMITIDO? É ISSO MESMO?
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É óbvio que todos sabemos a(s) resposta(s). Por isso as perguntas não serão feitas. Não convém fazê-las. Isso, afinal de contas, é para blogueiros reacionários como eu.
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É... Pelo visto, a companheirada mandou mesmo a lógica e a coerência para a Cuba que os pariu.

terça-feira, julho 28, 2009

POR QUE NÃO SOU ISENTO


Em dois textos meus, publicados aqui alguns dias atrás, esmiucei a falácia relativista, o truque filosófico que, sob a capa da "neutralidade" e da "imparcialidade" ou "isenção", procura negar a própria verdade, indo mesmo contra os fatos mais elementares para se refugiar numa postura "nem-nem" (de "nem isso, nem aquilo"). Tentei mostrar que, por trás dessa atitude de aparente "equilíbrio", tão ao gosto de muitos jornalistas e pessoas "sofisticadas", o que existe, na verdade, é o medo de ferir suscetibilidades politicamente corretas ou, então, a pura e simples covardia moral. Mostrei, com exemplos facilmente demonstráveis, que tal discurso relativista quase sempre visa a justificar tiranias, estando vinculado, atualmente, a um discurso de esquerda. Agora vou retomar esse tema, que me apaixona, para mostrar como o relativismo, sobretudo em política, é uma fraude.

O exemplo que eu dei para demonstrar a falácia essencial do discurso relativista é, na verdade, uma pergunta. Vou recordá-la: Por que ditaduras de direita, como a de Pinochet no Chile, são execráveis, mas as de esquerda, como a dos irmãos Castro em Cuba, não o são? O mesmo pode ser indagado sobre as ideologias: Por que condenar o nazi-fascismo é justo e correto, mas fazer o mesmo com o comunismo é extremismo de direita? Em outras palavras: Por que os que defendem uma visão "equilibrada" e "neutra" em relação a Cuba e ao comunismo não adotam o mesmo discurso "imparcial" em relação a outras ditaduras de sinal ideológico trocado?

Pois bem. Mesmo não tendo recebido, até o momento, nenhuma resposta a essas perguntas - e, provavelmente, continuarei sem resposta -, vou reforçar o que quero dizer com mais uma pergunta, adaptada ao momento que estamos atravessando na América Latina. Lá vai: Por que é justo e correto, em nome da "isenção" e da "imparcialidade", condenar o "golpe" que derrubou Manuel Zelaya em Honduras, mas não dizer uma palavra sobre o que ele quis fazer - e continua querendo - com a Constituição do país? Ou, dito de outro modo: Por que os que, dizendo-se "neutros", condenam o "golpismo" naquele país não estendem sua condenação ao golpismo bolivariano de Zelaya e seu mentor, Hugo Chávez?

Novamente, desafio qualquer um a responder essa pergunta. Desafio qualquer pessoa a justificar, com argumentos racionais sólidos, a posição adotada pela OEA, ONU, União Européia, Lula e Barack Obama em relação à crise em Honduras. Mesmo desconfiando que esperarei em vão por uma resposta, repito aqui o desafio. Mesmo assim, vou esperar. Sou paciente.

Ao contrário dos que pregam a "neutralidade" entre a corda e o pescoço, não uso esse truque barato para esconder minhas intenções. Afirmo e declaro abertamente, para quem quiser saber, que não sou, nem quero ser, "neutro", "imparcial", "isento" ou coisa que o valha. Aliás, repudio radicalmente esses rótulos. Não porque eu seja o "dono da verdade", mas por uma questão, se quiserem, de coerência. Quando se trata de ditaduras, por exemplo, acredito que só há uma atitude correta a tomar: a condenação total, sem ambigüidade e da forma mais clara possível. Isso significa condenar TODAS as ditaduras, não importa que cor ideológica tenham. Para mim, Hitler, Stálin, Fidel e Pinochet devem estar no mesmo círculo do inferno, com agravantes para quem matou mais ou ficou mais tempo no poder (como Fidel em comparação com Pinochet, que, perto daquele, era um mero aprendiz). O mínimo que espero dos que se dizem "neutros" e "imparciais", portanto, é que condenem igualmente ambos os lados. Se se limitam a condenar apenas um lado, como geralmente ocorre, então sua "imparcialidade" não passa de preferência ideológica disfarçada. Se deixam de condenar qualquer um dos lados, declarando-se neutros, então essa neutralidade é simplesmente omissão diante do crime, logo uma forma de cumplicidade com o mesmo. Em qualquer caso, trata-se de um engodo e uma mentira.

Além disso, não sou isento por motivos, também, de Lógica. Darei um exemplo didático. Digamos que dois cientistas divergem radicalmente um do outro em relação a um fenômeno natural, como, por exemplo, o movimento da Terra: um, defensor da tese heliocêntrica de Ptolomeu, afirma que a Terra gira em torno do Sol; o outro, apegado à tese geocêntrica, defende o ponto de vista contrário, ou seja, é o Sol que gira em torno da Terra. Diante dessa controvérsia, há duas situações possíveis: 1) os dois lados estão errados; e 2) um dos lados está certo e o outro, errado. Os dois contendores podem estar errados - não é o que ocorre nesse caso específico, mas pode ocorrer -, mas, em hipótese alguma, os dois lados podem estar certos sobre o assunto. A conclusão, óbvia até para quem ignora completamente as duas teorias astronômicas, só pode ser a seguinte: um dos lados está certo e o outro, errado. Simplesmente não é possível que a verdade esteja "no meio".

Hoje em dia, esse exemplo pode até parecer banal, visto que todos sabemos, graças à evolução da Ciência, que é a Terra que gira em torno do Sol, e não o contrário. Mas, trezentos anos atrás, quando essa teoria foi levantada por Galileu Galilei diante da Inquisição, não havia como constatar, empiricamente, que ela fosse verdadeira. Foram necessários séculos até que cálculos complexos e o desenvolvimento da Astronomia, com telescópios cada vez mais possantes, pusessem por terra a tese geocêntrica, demonstrando com provas concretas, de forma cabal e irrefutável, o engano dessa teoria. Hoje, a tese heliocêntrica é dominante, e ninguém, a menos que queira passar por lunático, se atreve a colocá-la em dúvida. Mas, na época de Galileu, era uma questão de "opinião", o que o levou a retratar-se, sob pena de morrer na fogueira, diante do Tribunal da Inquisição. O mesmo pode ser dito de várias teses hoje tidas como científicas, como a existência das bactérias e a seleção natural: ninguém, pelo menos ninguém que se pretende racional, as questiona. Mas, um dia, elas foram apenas "pontos de vista".

Creio que o exemplo citado acima é suficiente para demonstrar a falsidade do relativismo como o oposto e a negação da verdade. E isso tanto em Ciência quanto em Política. Sim, é certo que Política não é Ciência, e que envolve, ao contrário desta, uma dose muito maior de subjetividade. Mas é inegável que ditaduras são ditaduras, assim como terrorismo é terrorismo, e que adotar uma postura relativista em relação a esses dois fenômenos não tem nada a ver com a verdade. Muito pelo contrário. É por me negar a condescender com quem pratica o crime e não esconder minha opinião a respeito que eu não sou isento. Chamem-me de parcial, se quiserem. Só não me chamem de mentiroso ou covarde. Entre a corda e o pescoço, eu torço contra a corda.

sexta-feira, julho 24, 2009

LULA E A BANALIDADE DO MAL

É da filósofa alemã Hannah Arendt um dos conceitos mais importantes e influentes do século XX, o da "banalidade do mal". Este surgiu quando Arendt cobriu como jornalista o julgamento do criminoso nazista Adolf Eichman em 1960, em Jerusalém. Eichman, um dos responsáveis pela implementação da "Solução Final" de Hitler, fora capturado por um comando israelense na Argentina, onde vivia escondido desde o final da guerra, e enviado a Israel para julgamento. Sobre suas costas pesava parte da culpa pelo extermínio de seis milhões de judeus nos campos de concentração do regime hitlerista.

Muitos esperavam, Hannah Arendt inclusive, ver em julgamento uma espécie de monstro de maldade e vileza, um sádico cruel e sanguinário. Pois Arendt, que era judia, se surpreendeu, assim como todo o mundo, quando viu, no banco dos réus, não o que se poderia esperar de um assassino monstruoso, mas um sujeito absolutamente comum, pai zeloso e pacato, um burocrata frio e cinzento, incapaz de ação e pensamento próprios, e que o tempo todo se escudou num único argumento: fez o que fez não porque odiasse suas vítimas, mas porque assim fora ordenado por seus superiores hierárquicos. Em outras palavras: deportou milhares de judeus para campos de concentração não porque nutrisse qualquer sentimento genocida, mas simplesmente porque era seu dever como funcionário do Reich fazê-lo. Para ele, Eichman, enviar milhares de velhos, mulheres e crianças para a morte era apenas mais uma tarefa, como carimbar documentos ou organizar um fichário - ele mostrou mesmo um certo orgulho de sua eficiência. O contraste chocante entre a personalidade apagada de Eichman e a enormidade dos crimes que lhe foram imputados levou à idéia da "banalidade do mal", que Arendt desenvolve em seu livro Eichman em Jerusalém.

O conceito de banalidade do mal me vem à mente com freqüência desde que Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência da República, em 2003. Não, não estou comparando o Apedeuta ao criminoso nazista. Ainda não perdi a noção de proporcionalidade, algo que parece desconhecido para muitos que apóiam o atual governo brasileiro, e que não vêem contradição alguma em reclamar de um editorial de jornal que chamou de "ditabranda" um regime político que matou 424 pessoas em 21 anos e aplaudir, ao mesmo tempo, uma tirania que ja dura 50 anos e fez cerca de cem mil mortos. Ao contrário desses, sei que os crimes são diferentes, tanto em suas proporções, quanto em suas circunstâncias. Mas é inevitável não lembrar de Hannah Arendt e de sua perplexidade ante a frieza burocrática de Eichman quando me deparo com a sucessão interminável de escândalos de corrupção que constituem a marca registrada do governo Lula da Silva e, principalmente, com a maneira como ele lida com esses fatos.

Guardadas as devidas proporções, tanto em um caso como em outro o que se vê é uma banalização total da idéia de bem e de mal, de certo e de errado. Desde que assumiu o poder, Lula não tem feito outra coisa senão jogar na cara de todos que o elegeram e que não o elegeram que está se lixando para o que as convenções da moral e da ética estabeleceram como bom e justo, escarnecendo de tudo que nos foi ensinado como mais sagrado desde a mais tenra infância ("não mentir" e "não roubar", para começo de conversa).

O último dos escândalos a freqüentar o noticiário, os quais, por já se tornarem corriqueiros, nem parecem mais causar indignação, é a crise no Senado Federal decorrente das denúncias contra seu atual presidente, José Sarney, que usou e abusou do cargo para nomear parentes em atos secretos. Com o intervalo de alguns dias, Lula disse que Sarney, um aliado fundamental do governo,"não pode ser tratado como se fosse uma pessoa comum", reclamou que "é preciso levar em conta sua biografia", e tentou minimizar as acusações de que ele é alvo, queixando-se dos que as vêem "como se fosse um crime de pena de morte". Nesse último caso, sob a aparência de hierarquização do crime, o que ele quis, na verdade, foi justificar a impunidade e o nepotismo. No primeiro caso, zombou da igualdade de todos perante a lei, justificando uma mentalidade colonial. Ao apelar para a biografia de Sarney, exigindo-lhe respeito, somente reforçou a velha idéia, tão velha quanto o Brasil, do "sabe com quem esta falando?" Em todos os casos, uma amostra explícita de escárnio em relação à opinião pública.

Por falar em biografias, vale a pena dar uma olhada na de Lula. Ele construiu sua biografia em cima de uma serie de mitos, o maior deles o de que ele e seu partido, o PT, eram a parte sadia e "ética" da política brasileira. Como tal, especializou-se, durante mais de duas décadas, em enlamear a reputação de adversários políticos, enquanto construía cuidadosamente a própria. Até outro dia - até 2002, para ser mais exato -, o atual presidente da República tinha uma opinião muito diferente sobre o atual presidente do Senado (está no Youtube para quem quiser ver um vídeo daquela época, em que Lula se refere a Sarney com adjetivos não menos suaves do que "pai dos ladrões", entre outras delicadezas). Agora, com a cara mais lavada do mundo, pede respeito a seu aliado.
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Em sua marcha para o Planalto, os petistas não pouparam meios: reputações foram destruídas, carreiras foram arruinadas. Conquistado finalmente o poder, após três tentativas frustradas e uma passagem inexpressiva pelo Congresso, Lula assumiu-se de forma explícita como um cínico bravateiro. A partir de então, o que antes era a esperança de renovação da política no Brasil e o partido mais ético da História nacional mostrou-se, na verdade, apenas mais do mesmo. Uma gigantesca máquina de cooptação política, feita de troca de favores e do mais puro fisiologismo, com sua sucessão de mensalões, valeriodutos, dossiês, renans, jaders e severinos - a maior máquina de sujar e lavar reputações da História do Brasil.

Se a "conversão" de Lula e do PT ao fisiologismo mais escrachado de velhas raposas como Sarney e partidos como o PMDB demonstra alguma coisa de forma clara e definitiva, é que o único critério petista em relação a seus aliados é o seguinte: Está comigo? Então pode tudo. Não está comigo? Então tome denúncia sensacionalista, tome calúnia e difamação. Esse é o único critério da política petista, é sua motivação básica. Nisso Lula e o PT superam todos os que os antecenderam. Inclusive em termos de inteligência. À diferença de FHC, em relação a quem nutre um indisfarçável complexo de inferioridade, Lula não pode sequer pedir que esqueçam o que escreveu. Simplesmente porque ele nunca escreveu - nem leu - nada na vida.
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Vale a pena aqui analisar um pouco mais de perto a evolução do pensamento esquerdista em relação à corrupção. Trata-se de algo bastante instrutivo. Para fins didáticos, pode-se dizer que o "discurso ético" das esquerdas passou por três fases distintas:

1a Fase: "O partido dos trabalhadores" - Essa primeira fase cobre quase toda a história dos partidos esquerdistas no século XX e se encerra no final dos anos 80. Durante esse período, as esquerdas consideravam as denúncias de corrupção uma mera manifestação de "moralismo udenista" e uma "afetação pequeno-burguesa". O mais importante era combater as injustiças sociais e derrubar o capitalismo, fonte de todos os males. Tudo o mais era secundário e deveria se subordinar a esse objetivo glorioso. Foi nesse período que se consolidou no imaginário coletivo a imagem clássica do esquerdista como revolucionário radical, sempre pronto a convocar uma greve.

2a Fase: "O partido da 'ética na política'" - Tem início com o impeachment de Collor, em 1992. Caracteriza-se por uma mudança radical em relação ao discurso anti-corrupção: se antes denunciar a roubalheira era visto com suspeitas pelos esquerdistas como uma demonstração de udenismo, agora abria-se, pela primeira vez em décadas, a perspectiva de as esquerdas chegarem ao poder. Estas então abraçam os mesmos slogans que condenavam antes em seus adversários da direita, adotando entusiasticamente o discurso da "ética na politica". Com isso, também, tentaram afastar-se da imagem radical construída nos anos anteriores, aproximando-se das classes médias. A idéia agora era que a "ética" era representada por eles, os esquerdistas, enquanto seus adversários, a "direita", estavam identificados indelevelmente com a corrupção. É esse o período áureo do denuncismo petista, encarnado por figuras como o procurador do Ministério Público Luiz Francisco de Souza (lembram dele?), que se especializou em usar os holofotes da mídia para jogar lama de forma irresponsável em figuras proeminentes do governo FHC que anos depois seriam inocentadas de qualquer acusação pela Justiça. Nos anos seguintes, o "discurso ético" seria praticamente o único discurso das esquerdas, abaladas e desorientadas momentaneamente pelo colapso do comunismo e pela queda do Muro do Berlim, tendo sido empregado sistematicamente, até a exaustão, durante os anos do governo de Fernando Henrique Cardoso, condenado no tribunal esquerdista por suas alianças espúrias com Antônio Carlos Magalhães e o ex-PFL (o "Fora FHC" foi o mote desse periodo).

3a Fase: "Todos fazem igual" - Comeca em 2003, com a chegada de Lula à presidência da Republica. Desde então, a inflexão esquerdista em relação à corrupção ocorreu de maneira muito mais radical. Com a explosão de casos escandalosos como o do mensalão e (muitos) outros, tornou-se impossível para os esquerdistas no poder sustentarem o discurso da "ética na política". Constatada sua inutilidade, este foi logo abandonado, em favor das realidades do poder. Inicialmente, a reação de Lula e dos petistas foi a de qualquer um pego com a boca na botija: tentaram negar as denúncias, atribuindo-as a uma fantasmagórica "conspiração das elites e da mídia". Em seguida, veio o "não vi nada, não sei de nada" e o ainda menos convincente "fui traído". É nesse momento que ocorre uma nova virada: sai de cena o "partido mais ético da História do Brasil" e entra o "todos fazem igual". Não sendo mais possível manter a máscara de bons-moços, não resta nada aos petistas e seus aliados senão espalhar lama para todos os lados, de modo a que, todos enlameados, seja impossível para o cidadão médio perceber as diferenças entre eles, os esquerdistas, e os demais políticos. Assim, nivelados todos por baixo, os petistas garantem sua impunidade, tal qual o bandido que, pego em flagrante delito, grita "pega ladrão" na esperança de que possa, assim, desviar a atenção de todos e escapar de fininho.
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Com efeito, esse passa a ser, desde então, o discurso ofical petista para defender-se de qualquer crítica e justificar a bandalheira, enquanto o velho dogma esquerdista que considera as denúncias mera "afetação moralista burguesa" é, dialeticamente, ressuscitado. Hoje, Lula e seus aliados apegam-se a esse discurso com sofreguidão, não concebendo nada mais sofisticado do que dizer-se iguais aos demais partidos (antes diziam-se diferentes de todos) e que "ninguém é santo". Se antes apostavam na revolução ou no exclusivismo ético, a aposta agora é no cinismo e no esquecimento.
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A tática parece estar dando certo, como demonstram os índices de popularidade de Lula, sempre nas alturas. Na cabeça da maioria dos brasileiros, educados na escola do clientelismo e do assistencialismo fisiológico, a corrupção petista e a associação com figuras como Sarney e Collor não passam de "coisas da política". Como pequenos maquiavéis, acreditamos que entre um governo corrupto de direita e um governo corrupto de esquerda, o segundo é melhor. Mas esse maquiavelismo tosco esquece-se de um fato essencial. A banalização da corrupção pelos companheiros petistas, se tem efeitos deletérios a curto e médio prazo, a longo prazo é simplesmente catastrófico. Lula e o PT não são apenas o que há de mais sujo e imoral já surgido na política brasileira - faço essa afirmação literalmente, e desafio qualquer um a mostrar um governo que tenha alcançado o nível de excelência do governo Lula em matéria de saque dos cofres públicos -; trata-se de um governo que, ao banalizar a corrupção, introduziu o cinismo na vida cotidiana, levando a um rebaixamento institucional sem precedentes na História do Brasil. Em outras palavras: conseguiram desmoralizar a própria corrupção, tida hoje como algo perfeitamente normal e aceitável.
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Não foram somente os hábitos e costumes políticos brasileiros que sofreram um rebaixamento, mas o nível moral da população e a saúde das instituições democráticas que foram afetados seriamente, talvez de forma irreversível. Não por acaso, a alternância no poder, base mesma da democracia, foi diariamente ameaçada pelos petistas, que insistiram no terceiro mandato de Lula até o limite do possível. Do mesmo modo, instituições antes tidas como sérias e símbolos de rebeldia e resistência cívica, como a UNE, viraram exemplos do mais abjeto servilismo ao poder (falando nisso, onde estão os "carapintadas" que saíram às ruas pedindo a saída de Collor em 92? Aliás, Collor é hoje aliado e amigo de Lula, com quem compartilha até palanque).

O resultado disso tudo é o embotamento moral de todos, mergulhados num oceano de mentiras e de bravatas vistas como a coisa mais normal do mundo. Esse sentimento anda de mãos dadas com a perplexidade, que termina levando à indiferença, à crença generalizada de que, não importa quem esteja no poder, são todos farinha do mesmo saco - o "todos fazem igual". Nessas condições, a sucessão quase diária de denúncias e escândalos, ao invés de gerar indignação, provoca apenas tédio e uma sensação anestesiante e entorpecedora de impotência, pois afinal "são todos a mesma coisa". Ou, então, leva à fórmula pragmática de Paulo Betti ("não se faz política sem meter a mão na merda"). Ao propagar esse tipo de mentalidade cínica e conformista, o petismo triunfou completamente (a propósito: não gosto de política; nem por isso sou indiferente ao assunto - não se pode ser indiferente diante da nojeira).

Com Lula, a mentira e a corrupção se tornaram verdadeiros objetos de culto. Estamos sob o domínio do mal. Da banalidade do mal.

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P.S.: Quanto a Adolf Eichman, os juizes israelenses não se sensibilizaram com a justificativa de que estava apenas cumprindo ordens: ele foi condenado à morte e enforcado. Para os que o julgaram, o mal não podia ser banalizado. É uma pena que nesta parte do mundo a escrita seja diferente.

quinta-feira, julho 23, 2009

O FIM DO MITO OBAMA


O que dizer do que vem em seguida? Só uma coisa: eu avisei.
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Sei que parece meio arrogante dizer isso, mas eu já sabia que ia acontecer. Já sabia que, mais cedo ou mais tarde, o rei iria ficar nu, o príncipe iria virar sapo. Só não esperava que isso fosse acontecer tão rápido.
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Do blog do Reinaldo Azevedo. Os grifos são meus.

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OBAMA JÁ ERA!

Em Honduras, a história ofereceu a Barack Obama, presidente dos EUA, a chance de começar a pôr termo ao chavismo sem derramar uma gota de sangue e sem a intervenção direta de Washington na política interna de um país aliado. Mas Barack Hussein não quis. Não quis porque parte de sua força — e do mito criado em torno de sua figura — deriva justamente do ódio que muita gente, mundo afora, devota aos EUA. Sim, os que odeiam o que aquele país representa — incluindo nativos — criaram a metafísica Obama. E agora Barack Hussein é um tanto refém dessas demandas antiamericanas, antiimperialistas, anti-Ocidente… Cada um chame como quiser. Mas o fato é que ele está pautado pela obsessão de ser visto como “confiável” por aqueles que odiavam em George W. Bush não apenas os seus erros e exageros, mas também os seus acertos. Odiavam George. W. Bush porque ele era presidente dos EUA, não porque fosse “republicano”, “reacionário”, “direitista” ou o que seja. Esses eram apenas rótulos que serviam para disfarçar a real natureza do rancor.

Sim, senhores! Barack Hussein é refém da necessidade de fazer o que Bush NÃO faria, mesmo que aquele, eventualmente, pudesse, ocupando a cadeira da Casa Branca, fazer a coisa certa. Quem age assim é escravo de expectativas alheias. Na verdade, por mais que se tente fazer do atual presidente dos EUA um evento singularíssimo, sinto dizer que ele não existe como indivíduo. É a construção de uma época, e essa personagem das circunstâncias se mostra mais disposto a ser conduzido por elas do que a conduzi-las. Não é um líder, é um liderado; não conduz, é conduzido.

No episódio, observe-se, com um pouco mais de tarimba — e, quem sabe?, com a eventual colaboração de quem já esteve lá —, Hillary Clinton, a secretária de Estado, tentou ao menos uma certa neutralidade, apostando nas eleições vindouras, quem sabe na sua antecipação, para esfriar a crise. E o chavismo estaria devidamente denunciado. Mais do que isso: o alerta teria sido dado à safra de novos golpistas da América Latina. Eles agora não recorrem mais aos militares, mas às urnas — e, com elas, pretendem corromper, inclusive, a disciplina castrense. Assim se deu na Venezuela, na Bolívia e no Equador. Na Nicarágua, o mesmo Daniel Ortega dá início a um novo surto de autoritarismo.

Mas Obama e seus radicais não quiseram saber. Ignoraram solenemente o golpe que Zelaya estava dando em Honduras, de que sobejam provas, e trataram como golpistas os que encaminharam a solução prevista na Constituição. Afinal, assim fizeram todos, não é? Então Obama faz também. Porque ele é o presidente desse estranho consenso. E Hillary endureceu a posição. Sob o silêncio cúmplice e constrangedor dos EUA, ninguém menos do que o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, previu, justificou e estimulou o confronto armado. Chávez intervém abertamente no país. Cento e vinte agitadores estrangeiros já foram presos, a maioria vinda da Venezuela e da Nicarágua. De Manágua, Zelaya prega abertamente o que chama de “insurreição”, numa clara violação de qualquer princípio internacionalmente consagrado.

Obama parece disputar com Chávez a primazia do discurso contra o governo provisório de Honduras. E os delinqüentes já perceberam que ele é fraco e se deixa pressionar por ondas de opinião. Quando o mundo ficou chocado com as evidências de fraude nas eleições iranianas, ele se animou um tanto e deu um declaração contrária a medidas de força adotadas por aquele governo. Ali Khamenei acusou a interferência americana no país, e o que fez Barack Hussein? Correu para se justificar, oferecendo as evidências de que o outro não falava a verdade. Em matéria de política externa, Obama é um garotinho assustado, de calças curtas. Alguém fala alto, e ele treme os lábios para tentar se explicar.

No caso de Honduras, Chávez e a ditadura cubana acusam, claro — e por que não o fariam — a eventual interferência americana em favor do governo provisório (o que, obviamente, é mentira), e Obama endurece as ações contra os hondurenhos para provar a seus adversários (que, parece, no íntimo, ele gostaria de ter como aliados) que eles estão errados. A exemplo do que escrevi anteontem, se Barack Hussein ficar oito anos no poder — o que rezo para não acontecer —, o país que tem sido o principal fiador das democracias e que tem garantido a segurança do Ocidente estará de joelhos, justificando-se perante ditaduras, entendendo-lhes os motivos, condescendendo com as ruas “razões”.
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Não! Obama nem precisava ter-se alinhado com o que chamam “governo de fato” de Honduras. Teria bastado a secretária de Estado dizer que a melhor maneira de assegurar a democracia é zelar por ela, no estrito cumprimento das leis; teria bastado a secretária de estado dizer que os EUA não apóiam golpes de estado de nenhuma natureza, muito menos aqueles embalados numa farsa eleitoral, que frauda a legalidade; teria bastado a secretária de estado enviar observadores ao país para verificar se a Constituição estava ou não sendo respeitada. Mas não se fez nada disso.
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Obama decidiu ser o coadjuvante no picadeiro, que pode vir a se manchar de sangue, em que Chávez é o palhaço principal. Observem que, até agora, não se viu uma palavra sua ou de Hillary contra a interferência do ditador em Honduras. Nada! Interferência que não precisa ser atribuída ao presidente venezuelano. Ele a confessou.
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Narcoestados
Sabe-se, ademais, agora com provas, que as Farc deram dinheiro para a eleição de Rafael Correa no Equador. O mesmo narcoterrorista que confessa a doação declarou em vídeo que documentos provando a colaboração de Chávez com a narcoguerrilha também tinham ido parar nas mãos das autoridades colombianas. Evo Morales está criando um novo “departamento cocalero” na Bolívia, na fronteira com o Brasil. Anteontem, um avião carregado de cocaína caiu um Honduras. O novo governo já havia denunciado que o país se tornara rota de traficantes venezuelanos, que pousavam livremente suas aeronaves no país. .

Há indícios (no caso de Chávez e Correa, há provas) de que esses governantes estão fazendo uma parceria com o narcotráfico na América Latina — ou, se quiserem, com o narcoterrorismo. Não se trata de uma ilação, mas de dados. Não obstante, Obama parece empenhado em conquistar esses “líderes”. E que se note: o Brasil é aliado de toda essa gente e é uma das vozes mais estridentes contra o que chama “golpe” em Honduras.
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Obama, com efeito, já é aquele que foi sem nunca ter sido. Se Honduras resistir, terá sido só pela sua coragem. Se sucumbir, terá sido pela covardia de Barack Hussein — ou, na hipótese menos generosa, pela sua conivência com o bolivarianismo. Este senhor nunca será muito mais do que o chefe de uma ONG. É uma pena que a ONG da hora é a tal América.

Que Deus tenha piedade de Honduras, já que o presidente dos EUA se ausentou por uns tempos.

quarta-feira, julho 22, 2009

PARA QUE SERVE A U.N.E?


Responda depressa: para que serve a UNE (União Nacional dos Estudantes)?

Opção A: Para representar, como entidade autônoma e suprapartidária, os legítimos interesses dos estudantes, lutando pela melhoria da educação em todos os níveis, de forma democrática e pluralista;

Opção B: Para ser um apêndice do governo federal, de quem recebeu R$ 10 milhões desde 2004, e claque eleitoral de petistas e esquerdistas;

Opção C: Para servir de trampolim para a carreira política de seus presidentes, todos, desde 1979, pertencentes ao mesmo partido - o PCdoB (detalhe: eleitos pelo voto indireto);

Opção D: Para fazer farras homéricas com o dinheiro público, regadas a muito álcool, sexo e drogas - inclusive tomando banho pelado ao ar livre e depredando colégios públicos.

Se você respondeu a Opção A, você está se referindo a algo que deveria existir, mas que, infelizmente, não existe; ou então você, provavelmente, vive em outro planeta. Se escolheu qualquer uma das demais opções, você acertou na mosca: é exatamente para isso que a UNE serve atualmente. E só.

A UNE realizou seu último "Congresso" (chamemos assim) há alguns dias, em Brasília. Foi uma festa. Ou melhor: uma esbórnia. O Correio Braziliense publicou matéria sobre o que ocorreu. Eis alguns trechos:

Por Erika Klingl:
Garrafas de bebidas alcoólicas, preservativos, drogas e muito lixo. Nada disso combina com escola. Mas, a uma semana do retorno das aulas, foi esse o cenário encontrado pela Secretaria de Educação do Distrito Federal nos 10 centros de ensino usados pelos mais de 6 mil universitários que ficaram hospedados na cidade em virtude do Congresso da União Nacional dos Estudantes (1)(UNE), entre quarta-feira da semana passada e domingo. “A gente viu uns jovens tomando banho na horta das crianças e eles ainda fizeram as necessidades em cima das plantações”, lamentou a diretora do Centro de Ensino Fundamental 01, do Lago Norte, Claudia Regina Justino Fernandes.

Mais adiante:

A horta tinha sido preparada em seis meses de trabalho com os alunos de 1ª a 6ª série do ensino fundamental. E agora, de acordo com Cláudia, com a volta às aulas, o monitor responsável pela horta, Leandro Nunes, vai ter que replantar tudo. “Não podemos permitir que as crianças comam as verduras nem mexam na terra contaminada”, completa. Cláudia conta ainda que esse foi apenas um dos problemas da presença dos estudantes na escola. “Esperávamos 400 alunos e vieram mais de 600. Muitos tomaram banhos nus no pátio da escola e constrangeram os funcionários e vizinhos. Além disso, nunca vi tanta sujeira. E a escola estava pronta para a volta às aulas”, lamenta.

Mais:

Problema semelhante ocorreu na Escola Classe do Varjão. Lá, estudam crianças de cinco a 12 anos. “Foi uma pena ver tudo sujo e alguns projetos danificados. As plantas do Ciência em Foco, por exemplo, foram todas destruídas”, conta o servidor administrativo Éder da Silva. Ele chegou a chamar os coordenadores da escola quando notou que havia consumo de drogas no ambiente. “Escola não é para isso”, completa.

Finalizando:

“Isso ocorreu em todas as escolas que eles usaram. Foi lamentável e preocupante porque deu para ver que eles não valorizam o patrimônio público”, observa a funcionária da Regional de Ensino de Brasília responsável pela acomodação dos alunos da UNE, Isabelmille Costa Militão Carneiro. De acordo com ela, a secretaria esperava receber 4 mil alunos e, no decorrer do congresso, mais de 6 mil foram alojados. (...)

A UNE já virou um assunto, literalmente, fecal. Fazer as necessidades fisiológicas em hortas plantadas por crianças em escolas públicas é o de menos. Seria somente um caso, vá lá, de falta de higiene e desrespeito ao patrimônio público. Coisa de porcalhões, enfim. Mas a nojeira deixada pela UNE vai além disso. No mesmo congresso, BANCADO COM O DINHEIRO PÚBLICO, os remelentozinhos da UNE aplaudiram até fazer calo na mão - adivinhem - o Apedeuta em pessoa, que compareceu à abertura do bundalelê. Foi a primeira vez que um presidente da República compareceu a um Congresso da UNE (também foi a primeira vez que um presidente da República foi convidado). Foi recebido por uma claque animada por slogans como "Lula, guerreiro do povo brasileiro" e gritos de "Dilma presidente!", puxados pela "presidente" da UNE, uma gaúcha de 27 anos com piercing no umbigo, militante do PCdoB, que passou a "presidência" a um - adivinhem - militante do PCdoB, de 27 anos, estudante universitário do primeiro semestre (!). Com 27 anos e no primeiro semestre da faculdade? Isso mesmo. Para ser militante da UNE, não é preciso sequer ser estudante. Basta ser idiota.

Fico cá pensando o que achariam disso os fundadores da UNE, lá no ano de 1938. O que pensariam ao ver a entidade que sempre se orgulhou de sua rebeldia e independência e de ter lutado pela democracia, primeiro no Estado Novo varguista, depois no regime militar, transformada numa correia de transmissão e comitê eleitoral do governo, dedicando-se a promover orgias com o dinheiro público? A UNE, um aparelho do PCdoB há três décadas - onde mais esse partido teria essa força eleitoral? -, é hoje mais um departamento do governo, com um discurso completamente chapa-branca, vivendo da mitologia criada em torno de 1968 e de regabofes pagos pelos impostos dos trouxas. Não admira que seus congressos sirvam apenas para ratificar o apoio incondicional ao companheiro Lula e como uma oportunidade para um desregramento total dos sentidos, se é que vocês me entendem... O extravasamento dos baixos instintos, nesse caso, vai além dos namoricos e das rodinhas de maconha, chegando à política. Ou melhor: à politicagem, mistura de política com sacanagem. Uma das "manifestações" dos filhotes de Che Guevara foi, para vocês verem, contra a CPI da Petrobras - que, por acaso, era uma das patrocinadoras da festança.

Enquanto, por estas bandas, o "movimento estudantil" tupiniquim afunda no peleguismo mais descarado, na Venezuela ele renasce com toda força, saindo às ruas contra um governo despótico e lutando por aquilo que foi esquecido no Brasil: democracia.

Quando a UNE não faz na entrada, faz na saída.

Para que serve a UNE?

segunda-feira, julho 20, 2009

APERTANDO A TECLA SAP: A CRISE EM HONDURAS

Manifestação popular a favor do novo governo de Honduras:
golpe, só se for bolivariano, diz a "comunidade internacional"
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Vamos lá. Desta vez vou tentar ser o mais didático possível.

Imagine que o presidente da República foi eleito democraticamente. Na época da eleição, ele vence com um programa político e econômico conservador, "neoliberal". Lá pelas tantas, porém, ele muda de idéia, e passa a defender uma mudança radical nas regras da Constituição. Quer porque quer convocar um referendo, no qual se decidirá se ele poderá ou não reeleger-se.

O referendo é julgado ilegal e inconstitucional pela Suprema Corte e pelo Congresso do país, uma vez que a Constituição proíbe terminantemente a reeleição. Mesmo assim, o presidente - chefe do Poder Executivo - ignora a decisão dos demais Poderes (Legislativo e Judiciário) e ordena às Forças Armadas que o ajudem na convocação do tal referendo.

Os comandantes das Forças Armadas se recusam a obedecer uma ordem ilegal e inconstitucional, e fazem a única coisa que lhes resta fazer em um caso assim: depõem o presidente e o expulsam do país (a Constituição não prevê o impeachment). Um governo provisório então é formado, com o presidente do Legislativo à frente. O novo governo promete realizar eleições na data marcada, tal como estabelecido pelas leis do país.

Apesar disso, a maioria dos governos estrangeiros, e até mesmo a ONU, tacha o sucedido de "golpe" e não reconhece o governo provisório. Em vez disso, exige que o presidente deposto retorne imediatamente ao país e seja restituído no cargo. Não há qualquer garantia de que, uma vez de volta, ele não irá tentar violar mais uma vez a Constituição - pelo contrário: a expectativa é que ele insista no referendo ilegal, trazendo mais desordem e instabilidade. Enquanto isso, alguns governos vizinhos intervêm abertamente, enviando militantes para organizar uma revolta, talvez sangrenta, em favor do presidente deposto em nome da ordem constitucional. Este declara que, caso não seja reinstalado no poder o quanto antes, haverá uma guerra civil, e prega abertamente a insurreição.

Quem acompanha as notícias com olho crítico e não bovinamente já deve ter adivinhado de que país estou falando. Trata-se, claro, de Honduras. O presidente deposto, claro está, é Manuel Zelaya, "El Bigodón".

Talvez eu não tenha sido suficientemente claro. Vamos recapitular, então, o que vai acima:

- Um presidente, eleito democraticamente, tenta, porém, jogar a democracia no lixo e convoca um referendo visando com isso a eternizar-se no poder, segundo o modelo bolivariano;

- A Justiça e o Legislativo hondurenhos, em defesa da Constituição ultrajada, declara a consulta ilegal e inconstitucional;

- Em claro desrespeito à Constituição e à separação de poderes, Zelaya insiste no referendo e tenta usar as Forças Armadas do país para atingir seu objetivo;

- Diante dessa clara tentativa de violação da ordem constitucional - por parte de Zelaya -, e tendo em vista que a Constituição de 1982 não prevê o impeachment, o Parlamento, o Judiciário e as Forças Armadas, com o apoio da maioria da população, decide afastar o presidente e instala em seu lugar um governo provisório, que promete manter o calendário eleitoral. O presidente deposto é declarado traidor da pátria e é avisado que, se voltar ao país, será preso e julgado como tal.

Agora, responda: quem, nessa história toda, é o "golpista", o "gorila", o violador da legalidade e da ordem constitucional? O Congresso e o Judiciário hondurenhos, que agiram estritamente dentro da legalidade e da Constituição, ou Manuel Zelaya, que, em um arroubo de bolivarianismo, tentou violar a legalidade e tornar-se um novo Hugo Chávez ou um novo Evo Morales? Quem tentou um golpe civil ou quem impediu que isso acontecesse, preservando a democracia?

Vou refazer a pergunta, em bases ainda mais didáticas. O que é golpe: 1) salvaguardar as leis do país contra um governante que quer violá-las; ou 2) usar a própria democracia para rasgar a Constituição e se instalar no poder como um tiranete?

Mais: é justo e correto um governo legal e democrático ser condenado e isolado internacionalmente, a ponto de ser ameaçado de intervenção armada por parte de dois governos vizinhos - a Venezuela e a Nicarágua - e a "comunidade internacional" silenciar diante disso? Onde está o discurso da não-intervenção e da autodeterminação numa hora dessas?

As conclusões, lógicas e inexoráveis, dos acontecimentos em Honduras são as seguintes (segundo os que condenaram o "golpe militar" em Honduras):

- Rasgar a Constituição em Honduras - ou na Venezuela, ou na Bolívia, ou no Equador... -, pode; afastar quem tenta fazê-lo para salvaguardar a democracia, não;

- Rasgar a Constituição em nome do bolivarianismo nao é golpismo; impedir que isso aconteça, é;

- As Forças Armadas não são uma instituição profissional e apartidária, a serviço da Constituição, mas uma milícia partidária, a serviço da "revolução bolivariana";

- Isolar internacionalmente o governo provisório de Honduras, pode; fazer o mesmo com Cuba ou a Venezuela, não;

- Ameaçar de agressão armada outro país, a ponto de enviar militantes e arruaceiros profissionais para causar o caos, e inclusive planejar um banho de sangue, pode - desde que seja em Honduras;

- Democracia se resume a ganhar as eleições; depois disso, pode-se fazer qualquer coisa - inclusive acabar com a democracia.

Das duas uma: 1) ou a ONU, a OEA, o governo Lula e Barack Hussein Obama perderam completamente a noção do que é legal e ilegal, do que é democracia e golpismo, e nesse caso estão loucos, ou 2) não perderam, e, nesse caso, são cúmplices conscientes do projeto golpista boliviariano. Vocês escolhem.

Acho que desta vez eu desenhei. Ou será que não está claro ainda?