quarta-feira, novembro 08, 2006

VOTEI NO LULA


Votei no Lula. Lulei. Não troquei o certo pelo duvidoso. Lula-lá. De novo. Com a força do povo.

Mas como? Eu não era um anti-petista roxo, um crítico ferrenho da companheirada? Calma, calma. Respondo, com toda tranqüilidade: votei no Lula justamente por isso. Porque sou anti-lulista. Porque sou anti-PT. Porque não agüento mais ver a cara de pau do Lula e de seus asseclas. Porque estou de saco cheio de todas suas mentiras, desculpas esfarrapadas, embromações, mensalões, dossiês, valeriodutos, delúbios, aloprados e afins. Sou um inimigo assumido do povo, um reacionário, um direitista, um porco neoliberal capitalista, um troglodita fascista, leitor da Veja e agente da CIA. Quero que Lula e os petistas se ferrem. Por isso votei no Lula.

Difícil de entender? O.k., eu explico.

Votei no Lula porque descobri, analisando a trajetória de Lula e do PT, algo que está na cara, mas que quase ninguém viu até agora: que o melhor jeito de desmascarar essa raça é dando-lhes poder. Enfim, porque sou um quinta-coluna declarado. Não, não estou louco. Pensem comigo: se não fossem reeleitos, Lula e o PT iriam ser tentados a voltar ao velho figurino pré-2002, quando então botavam banca adoidado de donos da verdade e da moral, de únicos e legítimos representantes do Bem no sistema solar. Certamente, se fossem derrotados, estariam agora alegando terem sido vítimas de alguma marmelada, de alguma cabala ou conspiração sinistra das forças direitistas e reacionárias "que dominam há 500 anos a política deste país" etc. Estariam choramingando que quatro anos foi pouco para fazer "tudo que é preciso fazer neste país" e teriam, assim, um álibi perfeito. Voltariam a nos atormentar com suas ladainhas e churumelas pseudo-revolucionárias, esbravejando contra o "sistema", os tucanos, "a zelite" etc. Alguém sente falta disso?

Com a reeleição, os lulo-petistas perderam esse álibi. No poder, assim como os esquerdistas em geral, facilmente deixam à mostra o telhado de vidro. Lula não têm mais com quem se comparar e distorcer todo tipo de estatística, como foi useiro e vezeiro em fazer no seu primeiro mandato em relação ao governo FHC. Agora, será obrigado a comparar-se a si mesmo, o que é o mesmo que comparar o ruim com o ruim. Bastaram quatro anos para que o patrimônio ético do PT fosse pelo ralo e para que Lula, de quase-santo que era, virasse para muita gente aquilo que sempre foi: um politiqueiro populista e demagogo vulgar, igual a tantos que por aí há, e que não sabe ou finge não saber de nada que acontece a sua volta. O mito Lula, este ainda persiste, firme e forte, pois é impossível erradicar em quatro anos uma lenda como a que foi criada em torno de sua figura em três décadas, mas é só uma questão de tempo para que Lula vire suco de vez. Estou esperando esse dia com sofreguidão. Aguardem e verão.

Ainda bem que Lula venceu as eleições. Serão mais quatro anos de escândalos, frustações, acobertamentos, banditismo, chicanas, tongas e milongas de todo tipo, cor e sabor. Mais evidências de envolvimento da turma da pesada do Planalto com a roubalheira vão aparecer, mais casos escabrosos de corrupção virão à tona. O governo vai continuar a reivindicar para si as glórias da estabilidade econômica, da qual o PT foi o maior adversário em outros tempos. A política social vai continuar a repousar num programa assistencialista e paternalista. Da parte dos radicalóides que ora apoiam o governo, haverá choro, grito, ranger de dentes. Haverá algumas defecções, é claro, assim como adesões, como as dos neo-companheiros Roseana Sarney, Jader Barbalho e Fernando Collor. O MST e outros "movimentos sociais" vão cobrar a fatura dos últimos quatro anos, pressionando pela mudança da política econômica. Lula vai continuar a gesticular e a fazer discursos vazios e megalomaníacos para a intelectualidade deslumbrada e a patuléia ignara, na base do "sabe" e do "ou seja", e a dizer que, claro, lógico, óbvio, não sabia de nada. Nesse meio tempo, vai-se tentar achar um bode expiatório para as tramóias do lulo-petismo (um novo santo, quem sabe?), e Lula, todo pimpão, vai continuar viajando, churrasqueando e bebendo uísque. Na política externa, o Brasil vai continuar no seu caminho luminoso rumo à liderança dos países emergentes, recusando garbosamente ser humilhado pelos EUA – mas não pela Bolívia. Lulinha vai continuar dando mostras de seu formidável talento empresarial. Paulo Betti e Marilena Chauí continuarão a ser os intelectuais orgânicos do lulo-petismo, e poderão até ser recompensados com algum carguinho comissionado em algum Ministério. No final, tudo será como dantes no quartel de Abrantes, e alguém – com certeza, um chato – vai se lembrar de perguntar, depois que a festa acabar: todo esse barulho, e para quê?

Os lulo-petistas, é claro, não dão a mínima para nada disso. Estão tão fascinados com o "pudê" que não percebem que, a cada voto que Lula ganhou no segundo turno, mais fundo cavaram sua cova, contribuindo para corroer o maior mito político de que se tem notícia na História do Brasil. Se fossem inteligentes (espertos sei que são, mas esperteza não é inteligência, assim como malandragem não é sabedoria), teriam rezado para que o Picolé de Chuchu ganhasse a parada. Com isso, perderiam o poder, mas teriam de volta o pouco que sobrou do lulo-petismo, a utopia esquerdista e messiânica, além da mania de ser palmatória dos males do mundo. Se Alckmin vencesse, seria apenas mais um governinho tucano mixuruca, e eles poderiam voltar a bater com vontade, arrastando atrás de si uma legião de revoltados, frustrados, iludidos ou entediados.

Com Lula no poder, o brilho da legenda áurea lulo-petista não demora a sumir. Por isso, eu antes era contra ele chegar ao governo, mas agora quero que ele fique, até como castigo. É claro que nem ele nem os companheiros que o cercam perceberam a burrada que fizeram. Para eles, não importa que, daqui a quatro anos, Lula vai sair do governo com sua imagem mais arranhada do que hoje, assim como está mais arranhada hoje do que em 2002. O poder não apenas desmascara. Ele também cega.

Claro que essa minha decisão foi irresponsável e impatriótica. Claro que foi algo masoquista, até suicida. Não importa. Na luta contra o lulo-petismo, todas as armas são válidas. Até ajudar Lula a se reeleger. Os lulo-petistas ainda vão afundar o Brasil. Mas, com isso, vão afundar junto, livrando a humanidade e o bom senso de sua incômoda presença. Creio que este é um preço justo a pagar por um pouco de sanidade.

Um comentário:

Lucas Clivati disse...

Enquanto isso o bolso deles continua ficando cada vez mais estufado.
E é claro que o do povo cada vez menos.