quarta-feira, novembro 08, 2006

LULA É NOSSO KIM JONG-IL


No mês passado, a Coréia do Norte fez um teste nuclear. Com isso, deixou o mundo em polvorosa, causando medo em escala planetária. O motivo de tanto barulho é a natureza do regime norte-coreano: liderada pelo "Estimado Líder", Kim Jong-Il – uma figura de filme B, com seu cabelo espetado e saltos plataforma, que herdou o poder do pai, o "Grande Líder", Kim Il Sung, e que desde então assusta o mundo com suas bizarrices –, a Coréia do Norte é uma ameaça para a humanidade.

A Coréia do Norte é, ao lado da ilha de Cuba, uma das últimas ditaduras stalinistas do planeta. Lá, não há liberdade. O ditador Kim Jong-Il manda com mão de ferro, à frente do único partido político no poder. A filosofia imperante, uma mistura de marxismo-leninismo e confucionismo, exige do povo obediência cega, servidão total ao Estado. Também não há pão. Estima-se que, nos últimos anos, milhões de pessoas morreram de fome no país, assolado por calamidades naturais e pela incompetência do regime. De vez em quando, este resolve lançar um foguete, como um meio de chantagear os países das redondezas e arrancar deles alguma ajuda em dinheiro ou comida. O governo de Pyongyang é acusado dos mais variados crimes, inclusive narcotráfico e lavagem de dinheiro. No Japão, existe até um Ministério dedicado exclusivamente a investigar o destino de cidadãos japoneses seqüestrados para lavagem cerebral por agentes norte-coreanos. A Coréia do Norte é, em suma, um câncer. É o inferno na terra.

Lula é nosso Kim Jong-Il. Exagero? Sim, se considerarmos o regime democrático brasileiro, que felizmente nada tem a ver com o norte-coreano. Não, se levarmos em conta a dimensão e a intensidade da mitologia criada em torno dos dois líderes. Assim como o ditador norte-coreano, Lula tem atrás de si uma gigantesca máquina político-partidária e ideológica, responsável, durante anos, por forjar sua imagem de "herói da classe trabalhadora" e de "pai dos pobres". Assim como ele, sua figura tornou-se um ícone quase religioso, graças a décadas de culto à personalidade. Na Coréia do Norte, reza a propaganda oficial que, certo dia, o "Estimado Líder", do alto de uma montanha, fez chover sobre uma área que sofria com a seca. No Brasil, a propaganda petista se encarregou de criar uma lenda semelhante. Lula pode até não fazer chover, mas é capaz de convencer a muitos que, desde que chegou ao governo, vai correr leite e mel nas barrancas do Rio São Francisco.

É inegável a origem totalitária do mito lulista. Suas raízes mais remotas podem ser identificadas na política stalinista do "obreirismo", ordenada por Moscou aos partidos comunistas do mundo inteiro na década de 30. De acordo com essa política, os dirigentes partidários deveriam ser pessoas de baixa extração social, oriundas das classes populares, ou seja, "autênticos proletários". Desde então, tornou-se regra medir seu grau de comprometimento com a "causa do povo" pelo critério, extremamente científico, da origem social. O resultado dessa política para a esquerda foi, é claro, desastroso, privando-a de seus elementos mais inteligentes e capazes (sim, eles existiram), em favor de indivíduos escolhidos apenas por andarem sujos, mal vestidos e falarem errado. O ex-militante comunista Leôncio Basbaum assim descreveu a atitude de muitos intelectuais da época em relação a essa política: "Lambiam-se de ver um ‘verdadeiro proletário’, ‘autêntico’, ‘legítimo’, o operário ideal, forte na sua humildade, inteligente na sua ignorância" (Uma Vida Em Seis Tempos, Ed. Alfa-Omega, 1976, p. 76). Qualquer semelhança com os relatos hagiográficos da infância pobre de Lula, que ele brande como uma credencial incontestável para governar o País, é mais que mera coincidência. Junte-se a isso uma boa dose de marketing e alguns traços culturais da sociedade brasileira, como o messianismo e o paternalismo, e eis o mito Lula em toda sua plenitude.

Tal mito tem raízes também no conceito do "bom selvagem", de Montaigne e Rousseau, o qual, acrescido do tempero bolchevique, transformou-se no "bom revolucionário", como escreveu Carlos Rangel num livro infelizmente pouco lido, Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário. Assim como aquele, este é um ser puro e angelical, dotado de um altruísmo e de um desprendimento que o faz até cometer erros, mas que são plenamente justificados em nome da "causa". O "bom revolucionário", assim como os índios, as crianças e os débeis mentais, tem o privilégio da inimputabilidade: para atingir o fim a que se propõe – a redenção social – todos os meios, inclusive a corrupção, aparecem como legítimos e louváveis. O "bom selvagem", aliás, pode até cometer erros, nunca crimes. E não venham dizer que esse mito tem raízes populares. Se o "obreirismo" foi uma invenção do stalinismo, o "bom revolucionário" é fruto do sentimento de culpa das elites instruídas. Lula é nosso "bom revolucionário".

Só quem ignora completamente décadas de mistificação e de empulhação ideológicas por parte da turma da foice e do martelo pode se dar ao luxo de se dizer perplexo com o banditismo lulo-petista. A mentira e a dissimulação eram parte inseparável da estratégia leninista para a tomada do poder. Não sou eu que o digo, mas os próprios comunistas. Para fazer a revolução, dizia Lênin, os revolucionários não deveriam se deter ante qualquer escrúpulo moral: a mentira, a calúnia, o roubo, a chantagem, o assassinato, eram considerados não em termos de proibições morais, vistas como simples "preconceitos burgueses", mas somente por sua utilidade, ou não, para atingir o fim almejado. À semelhança da moral, os comunistas não tinham nem têm com a democracia um compromisso filosófico, mas utilitário e instrumental. Sua defesa da democracia, quando ocorre, não resulta da percepção de que esta constitui, nas palavras de Churchill, o "pior regime possível, excetuando todos os outros", mas somente e na medida em que isso os ajude a alcançar o poder. Para isso, todos os meios – todos – são válidos, pois, como dizia Trotsky, um especialista na ética bolchevique, "moral é tudo que conduza à revolução; imoral é tudo que a impeça". Assim, o que são os R$ 30 mil mensais para os deputados ou o R$ 1,7 milhão do dossiêgate diante do objetivo maior de mudar "este país"? Que importância têm os mensalões, valeriodutos, caixas dois, sanguessugas, dólares na cueca, dossiês, se é para "fazer as coisas que precisam ser feitas"? Em nome da "moral revolucionária", os comunistas produziram 100 milhões de cadáveres. Os lulo-petistas produziram o mensalão.

É isso que torna os desmandos e a corrupção do governo Lula-PT menos graves, até desculpáveis, aos olhos de grande parte da população, do que os desmandos e a corrupção de, por exemplo, Collor ou Maluf. Afinal, ao contrário destes, Lula é "de esquerda", embora provavelmente não saiba o que isso significa. Diferentemente de Collor, Maluf ou ACM, Lula tem atrás de si a CUT, o MST, várias ONGs e até a Igreja Católica. Enfim, um exército devoto de padres de passeata, intelectuais stalinistas, esquerdistas festivos, artistas vendidos, estudantes profissionais e sindicalistas broncos, além de milhões daquela massa amorfa e maleável chamada "simpatizantes". O mesmo motivo que fez tanta gente justificar e até aplaudir os crimes do totalitarismo comunista é o que leva cidadãos aparentemente honestos a fecharem os olhos para as trambicagens dos lulo-petistas.

De tal modo e tão profundamente o catecismo marxista-leninista penetrou nas consciências "bem pensantes" ou, simplesmente, incautas que até mesmo para criticar Lula usamos conceitos extraídos de cartilhas esquerdistas. Mesmo um crítico implacável de Lula e do PT como Arnaldo Jabor, em entrevista a um jornal, disse ser contra Lula, ao mesmo tempo em que elogiou José Serra, porque "este sim, é um autêntico líder de esquerda". Ou seja: até para atacar o lulo-petismo, alguns de seus críticos acabam resvalando para a defesa de uma suposta superioridade moral ou ideológica da esquerda, seguindo os passos de Heloísa Helena. De tal forma está entranhado em nosso inconsciente coletivo a noção maniqueísta de que a "esquerda" é o "bem" e a "direita" é o "mal" que mesmo os que romperam com o lulo-petismo são levados a repetir, sem saber, velhos chavões das esquerdas. Gramsci venceu.

Alguém poderia dizer que eu carrego nas tintas em minha crítica ao lulo-petismo. Que Lula e o PT, afinal de contas, não são nem nunca foram traiçoeiros comunistas comedores de criancinhas ou bebedores do sangue da burguesia. Respondo que o lulo-petismo é herdeiro direto da tradição bolchevique. São os próprios lulo-petistas que o dizem: até o momento em que escrevo estas linhas, o PT não produziu – ao contrário dos ex-partidos comunistas e socialistas europeus – um documento oficial renegando as ilusões marxistas, condenando abertamente as atrocidades dos regimes socialistas e aderindo filosoficamente à democracia representativa e à economia de mercado (a "Carta aos Brasileiros", de 2002, não vale: foi só para ganhar as eleições). Pelo contrário: preferem manter intocado o figurino esquerdista, fingindo que o Muro de Berlim não caiu e insistindo em adjetivar a democracia como "burguesa", "elitista" etc. O resultado é um ensopadinho ideológico, sem sal nem tempero, que não diz exatamente a que veio, mas que não ousa romper com sua fonte radical. Basta ver a origem dos principais cardeais do lulo-petismo: Zé Dirceu, Marco Aurélio Garcia e Dilma Rousseff não começaram suas carreiras num clube de escoteiros, mas em organizações com nomes sugestivos como Movimento de Libertação Popular, Partido Operário Comunista e Vanguarda Armada Revolucionária. Quem muito fuma cachimbo, a boca entorta.

Se há uma ideologia que guia a ação dos lulo-petistas, esta se resume em uma só palavra: o PODER. É esta a sua verdadeira causa, a razão de suas vidas. Em seu nome, assim como os comunistas antes deles, são capazes de esconder por anos suas reais intenções, convertendo-se àquilo que antes condenavam com ardor, sem se confessarem nem se arrependerem do credo anterior (quem não lembra das "bravatas" de Lula, admitidas por ele próprio depois de chegar à presidência?). Falta-lhes legitimidade.

Para disfarçar seus reais propósitos, os comunistas costumavam esconder-se por trás de palavras de ordem aparentemente anódinas, como a defesa da "paz" ou da "democracia". Do mesmo modo, diante da perspectiva do poder, é comum os lulo-petistas se apresentarem com um discurso mais ameno, do tipo "Lulinha paz e amor". Quando são acuados, porém, rapidamente deixam cair a máscara, recuperando a velha ladainha da luta de classes e acusando seus acusadores de estarem a serviço de algum poder oculto. Em seu livro-depoimento à jornalista Denise Paraná, o ex-presidente do PT José Genoíno – antes um parlamentar respeitado, visto como um dos mais "moderados" do partido – assim se defende das denúncias que o pegaram em cheio no ano passado: é tudo coisa das "elites" e da "mídia", inconformadas com o sucesso (?) da administração Lula-PT e interessadas em solapar o "governo que mais fez pelo povo na História deste país" etc. Sobrou até para o pessoal do Pânico na TV... Em nome do "pudê", os lulo-petistas se transfiguram, passando rapidamente do figurino "paz e amor" para o terrorismo eleitoral, repetindo uma tática de que eles próprios já foram vítimas no passado, ou para a megalomania triunfalista. Não importa que o próprio Lula já tenha dito que não é de esquerda. O mito lulo-petista o é, assim como o apego ao poder, que teve em Lênin e Stálin seus maiores expoentes. É inútil tentar classificar o lulo-petismo ideologicamente. A dissimulação, a malandragem, são seus corolários básicos. As ideologias, no Brasil, não passam de uma desculpa para que os políticos se locupletem.

É isso que explica a desfaçatez com que os lulo-petistas descartam as denúncias mais escabrosas contra eles. Não importa o quanto se apresentem provas de seu envolvimento na roubalheira, sempre haverá quem se deixe levar pelo conto de que tudo não passa de um "complô das elites e da mídia" ou coisa parecida. Para Lula, exigir que se apure a origem da dinheirama apreendida com os "aloprados" que tentaram comprar um dossiê fajuto para prejudicar seus adversários é "ter saudades da época da tortura". Querer que os fatos sejam esclarecidos, então, é "golpismo". A retórica lulo-petista é uma eterna apologia do crime, mediante o mais cínico vitimismo ou as mais delirantes e paranóicas teorias conspiratórias. Se Lula for flagrado assaltando uma velhinha na rua à mão armada, haverá quem acredite que foi armação da direita. Ou que ele estava fazendo isso para dar aos pobres.

Assim como os comunistas fizeram no passado, os lulo-petistas se autoproclamaram os representantes do bem sobre a terra, os únicos verdadeiros defensores da probidade ética e da democracia, quando são, na verdade, seus maiores inimigos. Que ninguém se engane: se Lula ainda não enveredou abertamente pelo caminho de um Hugo Chávez ou de Fidel Castro – por quem, aliás, não esconde sua admiração –, é porque as instituições brasileiras não deixam. Felizmente, as coisas são mais democráticas do que as pessoas.

Por exigir a apuração da origem do dinheiro no caso do dossiê, Tarso Genro comparou Geraldo Alckmin ao ex-ditador chileno Augusto Pinochet. Lula, por sua vez, vira e mexe se compara a Tiradentes e a Jesus Cristo. Os lulo-petistas são ruins de comparação. Alckmin não é Pinochet, assim como Lula não é Tiradentes nem Jesus Cristo. Ele é, isto sim, nosso pequeno candidato a ditador, nosso medíocre Stálin caboclo. Um Kim Jong-Il tupiniquim, sem bomba atômica nem salto plataforma. E com muita lábia.