quinta-feira, dezembro 11, 2008

O FIM DE UM MITO


Recebi o seguinte comentário, de alguém que prefere manter-se anônimo, sobre meu texto "Zumbi, o escravocrata", publicado aqui em 20/11:

"buscar argumentos em fatos isolados para esconder os preconceitos culturais tradicionais burgueses de uma elite não superam o precoceito vigente, e tomar uma posição destas nõa resolve e nem contribui para a solução do paroblema. o debate é outro,não sei como deixam colocar na net tais afirmações!
Publicar este comentário. Recusar este comentário."

Vamos tentar analisar o que o autor do comentário acima quer dizer. A que "fatos isolados" ele se refere? Vou explicar: à revelação, feita por pesquisadores, de que Zumbi dos Palmares, o maior símbolo da luta dos negros contra a escravidão no Brasil, era, ele mesmo, dono de escravos. Daí vem todo o trololó ideológico sobre "esconder os preconceitos culturais tradicionais burgueses de uma elite" etc etc.

Pois é. Para o distinto leitor que me mandou o comentário, o fato de Zumbi, o símbolo principal do "movimento negro" no Brasil, ter sido um escravocrata é de somenos importância. É, como ele diz, um "fato isolado", que não retira a gravidade da questão racial no Brasil, um país, como todos sabem, tão racista quanto a África do Sul nos tempos do apartheid... Em outras palavras: e daí que Zumbi tinha escravos? O importante é que o racismo existe e a luta continua, companheiro. A-hã.

Fico aqui pensando: imaginem se fosse descoberto que Martin Luther King era, na verdade, um tremendo racista, ou que Gandhi era, sei lá, um belicista e admirador de Hitler? O que diriam os seus seguidores? Será que continuariam a venerá-los como ícones? Ou será que, lá em seu íntimo, colocariam a mão na consciência e começariam a duvidar de suas convicções?

Trocando em miúdos: o que diria um "militante negro", com cabelo Black Power e retrato de Malcolm X na parede do quarto, diante da revelação de que Zumbi, na verdade, vivia cercado de mucamas e de molequinhos, todos negros como ele, que passavam o dia a atender-lhe todos os caprichos e a tirar-lhe bichos de pé? O que diriam diante de um Zumbi gordo, refestelado numa rede, sendo servido por um cortejo de serviçais para os quais tinha sempre à mão uma palmatória, em caso de necessidade de um corretivo por algum erro cometido? O que diriam de um Zumbi sinhozinho da casa-grande, e não líder rebelde da senzala?

A revelação de que Zumbi era dono de escravos, assim como o fato de que havia negros escravizadores - sim, negros escravizadores! estudem a História - muito antes de os primeiros portugueses chegarem à África, não é um simples fato isolado. Pelo contrário: é uma revelação da maior importância, que demonstra a que ponto de empulhação intelectual chegou o tal "movimento negro" no Brasil, o qual, como vários outros "movimentos" do tipo, já transformou a "reparação histórica" numa fonte de culpa eterna e numa verdadeira indústria (literalmente falando).

A figura de Zumbi foi utilizada por décadas por esse movimento para defender seus pontos de vista e, como tal, era intocável. Um filme dos anos 80 retrata o líder do Quilombo dos Palmares como um mártir da luta pela liberdade e contra a escravidão. Trata-se de um símbolo, um verdadeiro mito: não por acaso, a data de sua morte - 20 de novembro - foi adotada há anos, pelo calendário oficial, como o "Dia da Consciência Negra", em contraposição ao 13 de maio, Dia da Abolição, do qual hoje quase ninguém se lembra. Agora, com o fim desse mito, fica claro que a única liberdade pela qual Zumbi lutou era a própria, não tendo nada contra a escravidão em si. O mínimo que se pode esperar daí é que o 20 de novembro seja definitivamente enterrado e esquecido. Será que depois disso aquela faculdade que só aceita alunos "afro-descendentes" vai manter o mesmo nome?

Caiu mais um mito dos militontos esquerdistas brasileiros. Pena que estes não costumam aprender muito com a História. Em vez disso, tentam até censurar a internet. O Brasil não é um país racista, embora os "militantes negros" desejam que ele seja. É esse o debate.

Nenhum comentário: