terça-feira, setembro 11, 2007

ATEUS E "ATEUS"


A, talvez, meia dúzia de abnegados que presta atenção no que escrevo neste blog já deve ter notado que um dos alvos preferidos de minhas invectivas são os esquerdistas em geral e, em particular, os comunistas. Também devem ter atinado, se leram o texto anterior, para o fato de que, desde meus 14 ou 15 anos de idade - passando, claro, por várias fases de amadurecimento intelectual, que foram do marxismo juvenil até o ceticismo liberal - coloco-me filosoficamente no lado daquela ínfima minoria da humanidade que, ao contrário de George W. Bush e Osama Bin Laden, afirma aberta e orgulhosamente não crer em Deus e em outras ficções criadas pela religião. Daí que algum deles possa ter ficado um pouco confuso, entendo. Afinal, como posso ser ao mesmo tempo anticomunista e ateu? Como o texto anterior pode ter dado margem a uma intepretação equivocada ou maliciosa, e como essa aparente contradição foi responsável por algumas noites insones, faço questão de colocar os pingos nos is.

O problema me foi suscitado pelo livro de Richard Dawkins, Deus, um delírio, que li de um fôlego só, com curiosidade e prazer. À certa altura, após demolir um por um os postulados religiosos que afirmam a existência de Deus (e do Diabo), demonstrando a natureza intrinsecamente irracional e anticientífica da fé, e ao defender a possibilidade de uma moral atéia - ou seja, de um senso moral, de bem e de mal, advindo não da religião, com suas noções de pecado e culpa, mas de um saudável ceticismo humanista -, o autor depara com a seguinte pergunta: "E Hitler e Stálin? Não eram ateus?" A pergunta, maliciosa, traz embutido o seguinte raciocínio: 1) ambos os tiranos eram ateus, e 2) o fato de terem sido ateus explicaria as crueldades indizíveis que cometeram.

A tese, é claro, é um sofisma dos mais vulgares. Com relação a Hitler, Dawkins derruba com eficiência a lenda de que o ditador nazista era ateu, demonstrando de maneira irrefutável, inclusive com declarações do próprio Adolf Hitler, que ele era, isto sim, uma espécie de místico devoto, certamente teísta. Logo, a idéia de que a religiosidade seria um antídoto contra perversões morais e atrocidades políticas - a tese subjacente à pergunta acima mencionada - fica completamente demolida, pelo menos no caso do nazismo. O problema é quando Dawkins esbarra nos crimes do stalinismo.

Ao contrário do que insinua a pergunta que Dawkins se propõe a responder, Hitler certamente não era ateu, e seus crimes eram motivados, na realidade, por uma crença (no caso, a idéia de "pureza de raça") que ele considerava inspirada divinamente e que, por sua irracionalidade, só pode ser descrita como religiosa. Isso está fora de dúvida. Mas e Stálin? Sim, o que dizer do tirano comunista, responsável por um dos regimes mais assassinos de todos os tempos, e cujo número de vítimas, ao lado de outros criminosos em série como Mao Tsé-Tung, Pol Pot e Fidel Castro, na verdade seus êmulos, ultrapassa tudo que as ditaduras de direita, inclusive a nazista na Alemanha, fizeram no século XX? Dawkins afirma que, diferentemente de Hitler, Stálin era, sim, ateu, mas não há nenhuma prova de qualquer relação entre seu ateísmo e as atrocidades por ele praticadas. Enfim, ele não acreditava em Deus, mas isso não tem nada a ver com o que ele fez ou deixou de fazer.

Confesso que o argumento de Dawkins não me satisfez nem um pouco, e que essa é a parte mais fraca do livro (no mais, excelente). Ele está certo ao apontar o falso ateísmo de Hitler. Mas, talvez por sua formação acadêmica - a biologia evolucionista, e não a ciência política ou a filosofia -, parece desconhecer os aspectos essenciais da ideologia totalitária comunista, de que Stálin foi o maior praticante. Em primeiro lugar, é preciso responder a pergunta: afinal, os comunistas, como Stálin e Pol Pot, são ou não são ateus? A resposta é sim e não.

Sim, pois os comunistas, em todos seus matizes, partem de uma filosofia política - o marxismo-leninismo, o materialismo histórico e dialético - que exclui a idéia de Deus, ao afirmar deterministicamente o primado das relações materiais - no caso, econômicas - sobre todas as demais (a superestrutura). Em outras palavras, a crença religiosa, para os comunistas, é mero reflexo de uma situação de miséria material, da infra-estrutura econômica da sociedade. Elimine-se essa base material da carência religiosa - derrubando o capitalismo e impondo, em seu lugar, um regime comunista - e se eliminará, por conseguinte, a própria razão de ser da religião, o "ópio do povo", segundo célebre definição atribuída a Marx. Daí porque a religião e o marxismo, ao contrário do que dizem os padres bobalhões da teologia da libertação, são incompatíveis.

Mas não, Stálin e os comunistas não podem ser definidos como ateus, pelo menos não no sentido em que o eram figuras como Bertrand Russell e Albert Einstein, sem falar no próprio Richard Dawkins. O motivo é o seguinte: embora Lênin e Stálin se declarassem abertamente ateus, o regime que implantaram na Rússia e que foi depois exportado para outros países no Leste Europeu, por suas próprias características - partido único no poder, eliminação sistemática de qualquer forma de oposição, imposição de um pensamento único, mobilização permanente e compulsória da população, mediante a substituição do pensamento crítico pela repetição mecânica de slogans - só pode ser implantado e conservar-se apelando para o que há de mais irracional, de mais supersticioso, na natureza humana. O fanatismo político, exacerbado pela propaganda, foi um traço fundamental desses regimes. Trocando em miúdos: não queriam eliminar Deus, mas substituí-lo. No caso, pelo Partido e pelo Estado todo-poderosos, identificados como a única e mesma coisa.

Essa associação entre o Partido e o Estado - não é que o Partido seja parte do Estado, ele é o próprio Estado, e vice-versa -, a imposição do controle estatal sobre todos - absolutamente todos - os aspectos da vida social e particular dos indivíduos, é o que torna os regimes comunistas muito semelhantes, em sua estrutura básica, a ditaduras teocráticas como a do Irã e do Afeganistão sob os Talibãs. Não por acaso, todos os regimes comunistas instituíram o culto da personalidade do Líder, mantido graças a um ultra-eficiente sistema de repressão, espionagem e propaganda. Em todos eles - novamente, todos, sem exceção -, imperou um sistema político baseado numa tentativa radical de engenharia social, que não se limitava a alterar substancialmente as estruturas políticas ou econômicas, mas a própria mente das pessoas e, no limite, a própria natureza humana, criando um "homem novo". Para atingir esse objetivo, eivado de aspectos herdados da cosmovisão religiosa judaico-cristã - o paraíso terrestre, o dia do julgamento, a redenção final pelo expurgo dos "impuros" etc. - os regimes comunistas não hesitaram em criar rígidas estruturas calcadas no modelo religioso, instituindo uma verdadeira religião estatal, completa, com um sumo-sacerdote (Stálin, Mao etc.), clero (os intelectuais e ideólogos do Partido), iconografia (estátuas, pinturas, imagens - como a de Trotsky representado como S. Jorge matando o dragão capitalista, mostrada acima), hagiografia (os mártires e heróis da "causa") e uma liturgia própria (os ensinamentos e rituais do Partido, com uniforme, hino, desfiles etc.). E, assim como as religiões, trataram de criar sua própria lenda, distorcendo e falsificando a História para melhor ajustá-la a seus objetivos revolucionários. Ao mesmo tempo, buscaram eliminar a religião por decreto, mais por medo da concorrência e para suprimir a liberdade de pensamento do que por compromisso com a verdade (em Cuba, Fidel Castro chegou a proibir a festa de Natal por trinta anos, e o Estado era até recentemente oficialmente ateu, como em todas as demais "democracias populares" do Leste Europeu. Além disso, em países como China e Vietnã ainda hoje pode-se ser preso por rezar em público). Que ninguém se iluda: o comunismo não é um humanismo. Muito pelo contrário: é a supressão do homem, o esmagamento do indivíduo e da liberdade em favor do culto ao Deus-Estado, ao Deus-Partido, ao Deus-Stálin.

Mas atenção! Isso não significa que o comunismo, embora compartilhe com a religião alguns traços comuns, seja, ele mesmo, uma religião. A religião baseia-se na idéia de um outro mundo, um mundo além-túmulo, sobrenatural, que os comunistas rejeitam. À diferença de cristãos, muçulmanos, judeus ou budistas, os comunistas não se restringem à idéia de um paraíso imaginário após a morte, mas projetam esse paraíso num futuro distante, na sociedade comunista sem classes e sem Estado, onde o indíviduo, como afirmava Marx, ocupará seu tempo pescando e escrevendo peças de teatro. A religião idealiza um paraíso num plano metafísico e imaterial; o comunismo, por sua vez, promete realizar esse paraíso aqui na Terra, mesmo se esse objetivo conduza, literalmente, ao inferno (como de fato ocorreu em todos os países que tiveram a infelicidade de se transformarem em ditaduras do proletariado). Essa é a diferença fundamental entre a crença religiosa e a ideologia comunista, o que de modo algum a torna mais racional. Basta olhar seus pressupostos principais. Qual a base racional e científica, por exemplo, da crença marxista na inevitabilidade do socialismo e no futuro comunista da humanidade? Como explicar afirmações como essa senão pela fé, por uma crença cega, pelo triunfo da vontade sobre a realidade (e ainda deram a essa farsa monumental o nome pomposo de "socialismo científico"...)?

Richard Dawkins é ateu, e não há qualquer dúvida quanto a isso. Seu ateísmo está alicerçado numa sólida base racional e científica, balizada pela busca incessante da verdade - a raison d'être da ciência. Já os seguidores de Marx e Lênin não são, certamente, religiosos no sentido estrito da palavra, mas é óbvio que estão muito longe de se nortearem pelo mesmo compromisso com a razão e o humanismo. Assim como os astecas e outros povos da Antigüidade, eles também cultuam seus deuses. E, a exemplo daqueles, são deuses sangrentos, que exigem terríveis sacrifícios humanos.

3 comentários:

Rodrigo disse...

Muito bom o artigo. Aí vai o link do livro do Dawkins! http://www.4shared.com/file/26403389/4a68d13f/Deus_um_Delirio_-_Richard_Dawkins_-_Versao_Completa.html?s=1

Deixa abrir, espera uns 30 s e clica em Download file.

Grande abraço!

Anônimo disse...

A questão é retórica: imaginemos um mundo onde todos seríamos cristãos, todos, sem exceção, com variação em grau apenas. Como seria esse mundo? Eu acho que a acusação (mesmo as mais sofisticadas) contra o ateísmo embutem gratuitamente a idéia de que no Cristianismo (fico só nesse por conta da retórica) estaremos livres disso ou daquilo. Ou, usando uma expressão que aparece repetidamente em Dawkins e outros: a religião surfa na gratuidade de que ela está livre de... (acrescenta-se aqui todas as acusações contra o ateísmo).

Anônimo disse...

Stalin problema? Po^nham um teólogo crsitão bebado e ele descobre as razões religiosas desse "santo"! Estaline de pequenino atirado para um seminário religioso-cristão. E ali viveu a meninice até adolescência, quase até ser homem. Dizem ... que o ambiente daquela estrutura religiosa (à semelhança do seminário que o joão paulo II fechou na Áustria????)não era recomendável para rapazes! Isto é, na fase em que se formam os valores e interiorizam valores e conhecimentos, estaline foi encharcado do melhor cristianismo (na altura não se usava o termo pedofilia ...). Portanto, como marxista, colado a cuspe, foi um fracasso, mas como cristão, foi fabuloso ! Fodel Castro, tem uma história semelhante. Mau marxista e bom cristão. MAO e Polt Pot, foram o que foram sempre os asiáticos (os japoneses na II guerra mundial, eram muito pacifistas e meiguinhos ...). Os textos de Mao o que possuem de marxismo? O testamentário de marx, foi apelidado por Lenine, de renegado ... Kaustsky, NUNCA APOIOU Lenine. Plekanov idem ... Lenine, de famílias cristãs, sempre muito bom aluno e cristão, até entrar na universidade (onde czar mandara enforcar o seu querido irmão mais velho, órfãos recentes).
Se não fosse o Marketing ideológico tudo isto podia ser contado como desvios do judeo-cristianismo! Mas, sempre bíblico. Sempre! Maldito virus !