sexta-feira, maio 18, 2007

"NOSSOS" F.D.P. E OS "DELES"


O cubano Luís Posada Carriles é um assassino frio e sanguinário. Em 1976, ele foi o autor de um crime monstruoso: fez explodir, em pleno ar, um avião de passageiros da empresa Cubana de Aviación, matando todos seus 73 passageiros e tripulantes. Em 1997, ele confessou a autoria dessa atrocidade, assim como a de uma série de atentados à bomba em vários hotéis em Cuba, que resultaram na morte de um turista italiano e em onze feridos. Durante uma reunião da Cúpula Ibero-Americana no Panamá, em 2000, ele foi detido e condenado a oito anos de prisão (tendo sido indultado pelo governo panamenho em 2001) por ter entrado no país com documentos falsos e explosivos, supostamente para tramar contra a vida de Fidel Castro.

Luís Posada Carriles é um terrorista, um cão raivoso, um monstro. É o Osama Bin Laden de Cuba.

Esta semana, o quase octogenário Posada Carriles foi libertado nos EUA, depois de pagar uma fiança de 350 mil dólares. Desde que ele foi preso em 2005, por entrar ilegalmente no país, os governos de Cuba e da Venezuela, que querem sua extradição, acusam os EUA de estarem protegendo um perigoso criminoso internacional. Nesse mister, foram acompanhados por vários órgãos de imprensa, inclusive conservadores, que não tardaram em comparar a posição dos EUA no "caso Posada Carriles" com a atitude norte-americana em relação a outros terroristas procurados, como Osama Bin Laden, e aos detidos na base de Guantánamo. Nessa visão, o terrorista cubano parece comprovar, aos olhos de muitos, aquilo que se convencionou chamar de "duplo padrão" dos EUA no tratamento da questão do terrorismo. Como escreveu, em editorial, o jornal El Tiempo, da Colômbia, em 14/05/2007:

"Posada Carriles se converteu no símbolo de que ser qualificado de terrorista depende da agenda exterior dos EUA. Com muito menos evidência, mantêm-se em Guantánamo centenas de muçulmanos ‘suspeitos’ de terrorismo, aos que se negam os mesmos direitos que deixaram livre o cubano. Dupla moral que tira autoridade ao campeão da guerra global contra o terrorismo".

E, finalmente:

"Washington parece estar parodiando neste caso o que Theodore Roosevelt disse uma vez sobre o ditador nicaragüense Anastasio Somoza (pai): ‘É um f.d.p., mas é nosso f.d.p" (Grifo no original).

As duras palavras do editorial transcrito acima trazem uma parcela importante de verdade. Uma parcela significativa, mas que nem por isso compreende a verdade integral, toda a verdade.
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Refiro-me à forma claramente oportunista e demagógica com que governos tirânicos costumam utilizar a questão do terrorismo como uma arma retórica para reforçar seu poder e criminalizar qualquer oposição. No caso específico de Posada Carriles – um, repito, perigoso terrorista, que deve ser detido, julgado e condenado por seus crimes –, a manipulação, levada a cabo pelo regime que ele quer destruir – a ditadura de Fidel Castro – é explícita e chega a extremos de cinismo.

Para muitas pessoas, ingênuas ou mal-informadas, poderia parecer que o regime de Havana estaria sinceramente preocupado em tirar de circulação facínoras e criminosos contra a humanidade. Uma análise honesta, porém, deixa claro que não é nada disso. É tudo mais uma mise-en-scène, mais uma encenação do ditador cubano, nos mesmos moldes das gigantescas manifestações "espontâneas" orquestradas pela polícia da ditadura para mostrar a "unidade" do povo cubano em torno do Líder e louvar as glórias do regime na Plaza de la Revolución.

A manipulação da questão pelo regime castrista ocorre em duas frentes: uma interna, e outra, externa. Vejamos cada uma delas, começando pelo plano interno.

Há, como se sabe, vários grupos de oposição à ditadura de Fidel Castro, sobretudo entre os dois milhões de exilados cubanos que vivem hoje no exterior, tangidos pela Revolução que, tendo começado democrática, terminou comunista. A maioria deles, tendo à frente figuras da resistência como Oswaldo Payá e Raúl Rivero, é pacífica e se opõe terminantemente ao terrorismo, não só por razões políticas – como forma de luta contra ditaduras, o terrorismo é, como se verá a seguir, uma tática ineficaz e contraproducente –, mas também, e sobretudo, morais. Posada Carriles não tem nada a ver com esses grupos, assim como Carlos Mariguella e Carlos Lamarca não tinham nada a ver com Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. Mesmo assim, para o regime de Havana, todos esses grupos, todos os que se opõem a ele, são gusanos – literalmente "vermes", traidores, bandidos, espiões da CIA, mercenários a soldo do imperialismo, criminosos que não merecem nenhuma consideração ou qualquer direito –, assim como, para a ditadura militar brasileira (1964-1985), todos os que se opunham a ela eram tachados com o rótulo bastante elástico de "subversivos". Em Cuba, basta ser a favor de eleições livres, dizer qualquer palavra que não agrade ao Líder, e se estará carimbando um passaporte para a cadeia.

O terrorismo é o maior aliado das ditaduras, tanto de direita quanto de esquerda. Não apenas o terrorismo de Estado – o terrorismo apoiado e patrocinado pelos serviços secretos de países como Irã, Síria, Líbia, Coréia do Norte e, também, Cuba –, mas também e, quiçá principalmente, o terrorismo contra o Estado, contra esses regimes. Tanto aquele quanto este atendem aos objetivos do tirano de plantão: aquele, por razões óbvias; este, por fornecer um pretexto para a intensificação da repressão e, assim, justificar a própria tirania. Foi assim em todas as ditaduras – absolutamente todas – que se viram um dia sob ataque de grupos terroristas, e a ditadura cubana não é exceção. E isso não é de hoje: foi justamente um atentado contra Lênin, em 1918, que desencadeou o terror bolchevique, que descambaria, anos mais tarde, nos grandes expurgos stalinistas na ex-URSS.

Assim como o regime militar brasileiro usou os atentados de grupos revolucionários – apoiados, entre outros, por Cuba – para apertar ainda mais o nó da repressão, estendendo-a a toda a população civil, os ataques de Posada Carriles e de organizações como a Alpha 66 acabam servindo aos propósitos do sistema político que querem atingir. Do mesmo modo que, durante a ditadura militar no Brasil, os generais no poder utilizavam a luta armada de extrema-esquerda como uma justificativa para o endurecimento da repressão, sufocando assim toda e qualquer oposição política, a ditadura comunista de Fidel Castro se vale de gente como Posada Carriles para reforçar a perseguição a seus opositores, inclusive os mais pacíficos (de quebra, o ditador ainda posa de vítima de uma agressão, perpetrada por um "agente do imperialismo ianque" – e muitos parvos, intoxicados pela propaganda castrista, assinam embaixo). Mais uma vez, comprova-se a teoria da ferradura, segundo a qual os dois extremos, cedo ou tarde, terminam se encontrando, usando, além dos mesmos métodos, os mesmos argumentos.

Um exemplo recente desse tipo de manipulação ocorreu em março de 2003, quando o ditador cubano se aproveitou do seqüestro de uma balsa por três pobres-diabos que queriam fugir da ilha-prisão para meter na cadeia, de cambulhada, 78 dissidentes políticos pelo crime de, entre outras coisas, emprestarem livros considerados "subversivos". A cada ação desse tipo, o regime cubano responde com mais repressão, mais censura. Nesse sentido, assim como o tão falado "bloqueio" dos EUA contra a ilha, Posada Carriles é uma verdadeira bênção para Fidel Castro – é mesmo um dos maiores advogados do totalitarismo castrista. Graças a tipos como ele, o regime continua a negar à sociedade qualquer vislumbre de democracia, como se esta fosse incapaz de enfrentar a ameaça terrorista – algo, aliás, desmentido por exemplos como o da antiga Alemanha Ocidental e da Itália nos anos 70 e 80, as quais não tiveram de abrir mão das liberdades e garantias constitucionais para derrotar o Baader-Meinhof e as Brigate Rosse.

O segundo front de manipulação, o externo, se manifesta da seguinte maneira: como ambos os lados são acusados da prática de atos terroristas e de violarem os direitos humanos, não faria sentido acusar o regime de Cuba por esses crimes, pois seus inimigos – os EUA – "fazem o mesmo". É a velha tese da "equivalência moral" entre os terroristas e os que os combatem, defendida por luminares do antiamericanismo e da idiotice esquerdista como Noam Chomsky e Ignácio Ramonet. Ao contrário, porém, do que dizem esses faróis da sabedoria anticapitalista, anti-EUA e antiglobalização, não há equivalência moral entre o terror de grupos como o Hamas e a Al Qaeda e o contraterror de Israel e dos EUA. Pelo mesmo motivo de que seria preciso ser um sicofanta e um completo canalha para enxergar qualquer equivalência moral entre um serial killer que mata de forma intencional e indiscriminada e o policial que, na tentativa de detê-lo, mata ou fere acidentalmente pessoas inocentes.

Diferentemente das democracias, como os EUA e Israel, que se vêem obrigadas a lançar mão de táticas semelhantes a dos terroristas para caçá-los e puni-los, enfrentando assim um duro dilema moral e político - e tornando-se alvo de duras críticas por causa disso -, as ditaduras estão livres desses escrúpulos de consciência. Apóiam abertamente o terror como forma de luta, e justificam esse apoio usando o terrorismo oposto como desculpa. Mais: fornecem refúgio e até mesmo consideram como heróis os terroristas a seu serviço. Sob o pretexto de denunciar o "duplo padrão" dos países ocidentais na luta contra o terrorismo, o que pretendem é justificar o próprio terrorismo contra os EUA e o Ocidente – ou seja, uma forma bastante sutil e oportunista de duplo padrão e de dupla moral. Aqui também, os que aplaudem a ditadura cubana se revelam grandes tolos ou excelentes atores, seguindo fielmente o ensinamento de Lênin, o pai espiritual de todos os ditadores do século XX: "Acuse-os do que você faz; xingue-os do que você é".

Assim como ocorre com a questão do terrorismo, a "politização" dos direitos humanos – uma queixa contumaz de regimes como o de Fidel Castro, sempre que é chamado a responder pela falta de liberdade na ilha – parte de governos como o dele, não de seus adversários. A tirania cubana já encontrou a fórmula para desviar a atenção das contínuas violações dos direitos humanos na ilha – basta olhar para o outro lado. Para que se preocupar com coisas como democracia e liberdade de expressão, essas formalidades burguesas, se os EUA não fazem sua parte? Para que pedir liberdade para os presos políticos e o fim da repressão e da censura, se os EUA têm Guantánamo e Abu Ghraib etc.? (curiosamente, Fidel Castro e sua camarilha justificam esse discurso sob a alegação da defesa da "soberania" de Cuba – soberania que, pelo visto, depende de que política seguirá Washington...). Em suma, tal fórmula pode ser assim resumida: se os gringos podem, então tudo é permitido. Algo muito conveniente, sem dúvida!

Há um outro elemento de manipulação no caso de Posada Carriles, malandramente explorado pela ditadura castrista: como os EUA e Cuba estão rompidos há mais de quarenta anos – desde 1977, há um escritório de representação de interesses em cada país, mas não há relações diplomáticas – e como, por conseguinte, os dois Estados não têm acordo de extradição, os EUA ficam com uma batata quente nas mãos. Como Fidel sabe que eles não podem, mesmo que quisessem, entregar Posada Carriles, pois este não duraria cinco minutos em Cuba, aproveita para fazer demagogia, apresentando os EUA como "protetores" de um terrorista cruel. Isso porque o sistema judicial cubano, qualquer pessoa razoavelmente informada sabe perfeitamente, não é nenhum modelo de justiça e imparcialidade: basta lembrar os inúmeros casos de interferência do "Comandante" em julgamentos de "contra-revolucionários", para garantir a condenação dos mesmos, ainda que não houvesse prova alguma contra eles. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Huber Matos e Pedro Díaz Lanz, revolucionários de primeira hora, falsamente acusados por toda sorte de crimes por se oporem à guinada comunista da Revolução Cubana.

É irônico que um regime como o de Fidel Castro ainda queira erguer a voz para falar de terrorismo. Logo ele, que desde 1959 vêm apoiando guerrilhas e terroristas em praticamente todos os cantos do mundo, desde os Tupamaros uruguaios até grupos radicais palestinos e separatistas canadenses de Quebec. Sem falar, claro, naqueles que são certamente os maiores terroristas que já apareceram no continente latino-americano: as FARC colombianas, que tiveram durante anos na ditadura cubana, juntamente com o narcotráfico, seu principal esteio e fonte de inspiração ideológica. A falta de pudor do tirano do Caribe o leva a atirar às favas qualquer sentimento de humanidade, ao mandar explodir no ar, em 1996, um avião civil de um grupo de exilados que sobrevoava o litoral de Cuba, por exemplo. Certamente, ele se sente acima do bem e do mal, pois sabe que sempre contará com os préstimos daqueles que preferem desviar o olhar – afinal, estão ocupados demais apontando os podres, reais ou não, dos EUA.

Quando as torres gêmeas do World Trade Center ruíram, em 11 de setembro de 2001, não faltou quem dissesse que os ataques teriam sido parte de um grande complô arquitetado pelo próprio governo dos EUA para provocar uma "guerra contra o Islã" e se apossar dos poços de petróleo do Oriente Médio. Ainda hoje, há pessoas inteligentes que acreditam piamente nisso. É estranho, portanto, que quase ninguém pense algo parecido quando se trata de terroristas como Posada Carriles e da ditadura totalitária de Fidel Castro em Cuba, o único a se beneficiar desses atentados – ainda mais porque a informação em Cuba, ao contrário dos EUA, é totalmente controlada pelo Estado onipresente e onisciente. Ou seja: pelo próprio Fidel Castro.

Os EUA são freqüentemente acusados de usar "dois pesos e duas medidas" na questão do terrorismo e dos direitos humanos. Afirma-se que Posada Carriles, assim como Somoza, Pinochet e outros, é, para os norte-americanos, um "son of a bitch", mas é "our son of a bitch". De qualquer maneira, figuras como ele são universalmente execradas, tanto por seus inimigos como por seus supostos protetores. Já os que cometem atrocidades contra os EUA são louvados e tratados como heróis ou, como no caso dos homens-bomba palestinos, mártires – um passo para a santidade –, por esses mesmos regimes que acusam os EUA de double standards. Basta olhar para os exemplos cultuados pelas esquerdas, como Che Guevara – um dos assassinos mais frios de que se tem notícia, responsável por centenas de fuzilamentos no paredón em Cuba – e Carlos, o Chacal, o pen pal de Hugo Chávez, que o considera um "combatente da liberdade". No caso dos EUA e seus aliados, pode-se alegar um cínico pragmatismo. No desses últimos, porém, o que há é um fanatismo cego – ou safadeza ideológica mesmo.

"El sueño de la razón produce monstruos...", "o sono da razão produz monstros", é o título de uma célebre gravura de Goya. A instrumentalização do terrorismo e dos direitos humanos por ditaduras como a de Fidel Castro é um dos exemplos mais evidentes de como a sublimação da razão em favor de uma tirania leva ao entorpecimento político e moral de pessoas que, em nome do antiamericanismo, estão dispostas a justificar ou a fazer vista grossa ao terrorismo e à ditadura, desde que sejam "de esquerda". Em geral, são os mesmos que aplaudem o regime comunista cubano, mas que, estranhamente, não desejam governos semelhantes para seus próprios países.

Fidel Castro prometeu uma revolução democrática em Cuba e fez outra, comunista e totalitária. Para tanto, exilou, encarcerou e mandou fuzilar milhares de pessoas, muitas das quais antigos companheiros de revolução, que ousaram protestar contra essa colossal impostura. Não satisfeito em enganar a todos e em impor a mais longa ditadura pessoal do planeta, arrastou seu país, que era um dos mais prósperos das Américas, a uma situação de miséria e indigência totais. Hoje, ele se utiliza do terrorismo, em todas as suas vertentes, para continuar enganando os incautos e manter-se para sempre no poder, negando ao povo cubano a possibilidade de escolher sobre seu próprio destino. Agiu e age, portanto, como aquilo de que acusa seus adversários. Enfim, um autêntico filho-da-puta.

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P.S.: Agradeço ao meu colego Evandro Araújo por ter-me enviado o editorial citado acima, que me deu a idéia de escrever este texto. Ele me pediu para acrescentar que ele não necessariamente corrobora minha análise. Nem precisaria dizer isso, pois caso concordassem comigo eu não justificaria o nome deste blog. Mas aí está o registro. Obrigado, Evandro!

2 comentários:

Il grande chef disse...

Very interesting blog!
Kisses

Nina Delfim disse...

Assim como o tráfico da cocaína sustenta a economia de vários países, a manipulação da informação sustenta o trafego do imperialismo.

VIVA A REVOLUÇÃO CUBANA!