segunda-feira, julho 12, 2010

DIPLOMACIA SEM PRINCÍPIOS


Uma vitória da humanidade. É assim que pode ser descrito o anúncio da libertação de 52 presos políticos pela ditadura dos irmãos Castro em Cuba.

No mesmo dia do anúncio oficial, o psicólogo e dissidente cubano Guillermo Fariñas decidiu encerrar sua greve de fome, que durava 135 dias. Ele resolvera deixar de se alimentar até que a tirania castrista libertasse cerca de vinte dissidentes. Seu combalido corpo tornou-se o único espaço que encontrou para protestar e pedir liberdade, num lugar onde isso é proibido e punido com cadeia.

A vitória, claro, é parcial. Os presos libertados estão sendo expulsos do país, e ainda há mais de 100 presos de consciência na ilha-cárcere, segundo dados oficiais do próprio regime. Tampouco se deve imaginar que a castradura cubana - a mais antiga ditadura do Ocidente - irá afrouxar o cabresto, permitindo, por exemplo, eleições livres e plurais e acabando com a censura à imprensa. Mas o significado da soltura dos dissidentes vai muito além desses fatos. Trata-se de uma vitória sobre o cinismo. Sobre a hipocrisia. Sobre o deslavado apoio a ditaduras. Como tal, foi uma dura derrota - mais uma - do governo Lula.

Enquanto o governo da Espanha e a Igreja Católica intermediavam a libertação dos presos de consciência cubanos, Lula et caterva paparicavam ditadores na África. Sob Lula, o Brasil alardeia sua intenção de ser um protagonista na arena internacional. A idéia de protagonismo internacional de Lula é posar para fotos ao lado de tiranos asquerosos como Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, o Canibal, ditador há mais de três décadas da Guiné Equatorial. Não passa pela restauração das liberdades democráticas.

Como costumam fazer os petistas, eles tentaram jogar areia nos olhos de todos e sequestrar a glória alheia. Marco Aurélio Garcia inventou que o governo espanhol, ao patrocinar a soltura dos prisioneiros, estava "pegando carona" no que o governo do Brasil vem fazendo. O que o governo do Brasil vem fazendo é garantir seu aval incondicional à tirania castrista, sem dar a menor bola aos direitos humanos. Surpreendido pela informação de que a Igreja Católica também se envolvera no episódio, titubeou. Já Celso Amorim também tentou transformar mais uma humilhação em vitória. "Nosso estilo é mais discreto", afirmou o chanceler, fiel a seu estilo. Mesma discrição o governo Lula não teve ao tentar impor um golpista em Honduras e ao justificar a repressão no Irã, entre outras importantes contribuições à História Universal da Infâmia.

Lula se gaba de sua amizade com Fidel e Raúl Castro, mas não fez nada para libertar os 52 presos políticos cubanos. Pior que isso: apóia incondicionalmente o regime ditatorial. Seus subordinados, ao tentarem justificar o périplo pelas ditaduras africanas, apelaram para um pragmatismo de mercearia, dizendo que "negócios são negócios". Como se a diplomacia pudesse ser reduzida ao comércio, e como se pragmatismo fosse sinônimo de advogar para ditadores. Celso Amorim foi além, e chamou de "pregação moralista" a defesa dos direitos humanos nesses países. Como se apoiar politicamente regimes que matam e torturam opositores correspondesse a uma moral superior, e como se as relações comerciais justificassem, ou mesmo exigissem, esse apoio político.
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Mesmo do ponto de vista friamente pragmático, é impossível justificar o apoio político a tiranias. No caso cubano, o Brasil perdeu uma oportunidade de se tornar protagonista internacional. Poderia ter empenhado a tão decantada influência de seu presidente na questão, mas em vez disso prefere dar seu aval a acordos fajutos para dar tempo a Mahmoud Ahmadinejad para continuar enganando o mundo e construindo em segredo a bomba atômica.

Se presos políticos estão sendo soltos em Cuba, isso não se deve a Lula, muito menos a qualquer suposta benevolência da ditadura castrista. Deve-se, isto sim, a pessoas como Guillermo Fariñas, um homem de princípios, que não trafica sua consciência por "negócios". Fariñas colocou sua vida em risco por uma causa justa, a dos direitos humanos, entrando em greve de fome por 135 dias (e sem bala Paulistinha) por algo em que acredita. E Lula e Celso Amorim, em que acreditam? Em apoiar ditadores.

A política do governo brasileiro em relação a Cuba é vergonhosa. É um dos capítulos mais vergonhosos de uma política externa em si vexaminosa. Se o governo Lula se omitisse na questão dos direitos humanos em Cuba, já seria grave o bastante. Mas o fato é que ele vai além: apóia abertamente as violações aos direitos humanos na ilha-prisão do Caribe. Em fevereiro último, Lula esteve em Cuba. Na ocasião, insultou a decência e a humanidade ao culpar o dissidente Orlando Zapata Tamayo por sua própria morte em uma greve de fome, e ao comparar os presos políticos cubanos a bandidos. No dia mesmo em que Zapata morria, ele posou sorridente ao lado do decrépito Fidel Castro. Lula não usou seu tão alardeado prestígio e cacife internacionais para ajudar a libertar os presos políticos cubanos, assim como não vai mexer uma palha para libertar os mais de 100 prisioneiros restantes. Alguém ainda tem dúvidas sobre de que lado ele está?

A História lembrará de Orlando Zapata Tamayo e de Guillermo Farinãs como heróis na luta pela liberdade. Já Lula e seus bajuladores serão lembrados como cúmplices de tiranos e assassinos. Em nome de um fantasioso papel protagônico e de um realismo de fachada, que mal esconde seu caráter ideológico, elevaram o apoio ao que de pior existe na humanidade à condição de linha-mestra de sua política externa.
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"Estes são os meus princípios. Se não gosta deles, tenho outros". A frase é do humorista americano Groucho Marx, um mestre do nonsense. Ao ultrapassar todos os limites do cinismo, a diplomacia lulista tem-se esforçado para mostrar que é possível ir além do absurdo.
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O Brasil tem, finalmente, uma diplomacia sem princípios.

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