sábado, dezembro 07, 2013

OS RESSENTIDOS COM OS FATOS (RESPOSTA A UMA ALMA MUITO SENSÍVEL...)

Não crianças, esse velhinho de barba à esquerda na foto não é o Papai Noel...

Como previsto, meu último texto, "Mandela, o avesso do mito", deixou algumas pessoas chateadas. Algumas delas escreveram comentários em meu blog, acusando-me de (vejam só) racista, nazista etc. "Boa gente mesmo era o Hitler", escreveu um leitor anônimo, talvez acreditando estar fazendo com isso uma ironia. Outro, menos sardônico, mas nem por isso menos obtuso, comentou que o blog deveria ter parte com a Opus Dei, a CIA ou o que seja... Enfim, os xingamentos de praxe. Nada de novo no front, cavalheiros.
 
Um que ficou mordido pelo que escrevi foi um certo Giovane Martins. Ele enviou um link para um texto que escreveu no blog dele, o Blog do Giovane. Levado pela curiosidade, fui lá ler o texto. E quê! Lá pelas tantas, tive uma surpresa. Pois não é que o rapaz, em seu artigo, cita o meu texto (e meu blog)? Mais surpreso ainda fiquei ao ver que o autor não refuta absolutamente NADA do que escrevi. Isso mesmo: ele se referiu a um texto de minha autoria, de forma crítica (o tom é crítico), mas se isenta de dizer por quê. Praticamente diz que escrevi um monte de bobagem, mas não explica. Afirma, e pronto. Mais: ele despreza solenemente os fatos que mencionei sobre Mandela. Não só os despreza, como proclama isso abertamente! É que o Giovane é uma alma sensível, um rapaz que coloca as emoções acima da razão, como ele mesmo diz. Já eu, ao contrário, sou uma pessoa de coração duro, um brutamontes insensível, que ainda se apega aos fatos, vejam só... Entenderam? Eu também não.
 
Mesmo sabendo que textos desse tipo não merecem resposta, pois lhes falta um mínimo de honestidade intelectual (ao acusador recai o ônus da prova, como se diz em juridiquês), faço questão de compartilhar com vocês meus comentários sobre o que o tal Giovane escreveu. Vocês perceberão que ele se omite de analisar o teor de meu artigo, e se concentra, em vez disso, numa argumentação, digamos, emotiva... Fazendo jus ao nome deste blog, vou na direção contrária, e analiso seu texto racionalmente, linha a linha, ponto a ponto, reproduzindo-o aqui na íntegra (vai em vermelho, meus comentários vão em seguida).
 
Vejam que "maravilha", que peça impecável de argumentação lógica:
 
Os ressentidos contra Nelson Mandela
Os problemas começam já com o título escolhido, "Os ressentidos contra Nelson Mandela". Além do uso meio esquisito do adjetivo mais complemento ("ressentidos contra" é pleonasmo dos mais grosseiros...), fica a pergunta: "ressentidos" por quê, cara-pálida? Tirando os defensores mais empedernidos do apartheid, a quem o autor estaria se referindo? Por que alguém estaria "ressentido" com a morte do ex-líder do CNA?

Aliás, é inútil buscar no texto do Giovane alguma pista a respeito de quem ele está falando exatamente. Ele não explica. Aliás, ele não explica nada.     

Nelson Mandela morreu. O homem que pôs fim ao Apartheid, um dos regimes mais violentos e preconceituosos da história humana, sem provocar o derramamento de sequer uma gota de sangue de qualquer indivíduo, morreu*.
Em três linhas, duas afirmações equivocadas. Vamos lembrar:
 
1) Quem pôs fim ao apartheid não foi um ser iluminado chamado Nelson Rolihlahla Mandela. Foi, sim, um conjunto de fatores históricos, dentre os quais a libertação de Mandela da prisão, em 1990. Pode-se citar, aí, a intensa pressão internacional sobre o regime da minoria branca (até boicote esportivo houve), o fim da Guerra Fria, a visão de governo do presidente Frederik de Klerk, que teve a grandeza de libertar Mandela (e foi por isso agraciado com o Prêmio Nobel da Paz junto com ele, em 1993) etc. Enfim, o regime acabou por vários fatores, não pela ação de um homem (ou super-homem, como muitos parecem querer crer).  
 
2) Da libertação de Mandela, em 1990, até pouco depois de sua eleição para a presidência, em 1994, foram assassinadas dezenas de pessoas na África do Sul por motivos raciais e políticos, tanto por parte de racistas brancos quanto de militantes do CNA (que jamais renunciou oficialmente à luta armada até sua libertação). Nesse período, o país esteve à beira de uma guerra racial. Tanto que Mandela apelou a seus correligionários e buscou promover a reconciliação entre brancos e negros. E nisso, é preciso reconhecer, ele foi realmente grande. Portanto, não foi um processo totalmente pacífico, "sem o derramamento de sequer uma gota de sangue de qualquer indivíduo".

O que está acima são fatos, eu não os inventei. Mas Giovane não quer saber de fatos.

O homem que foi preso político por 27 anos, e que durante esse tempo, ficou 18 anos em uma cela de cinco metros quadrados, faleceu. Acho que já deixei claro que Nelson Mandela se foi. Porém, isso é uma mentira: o ex-presidente da África do Sul está mais vivo do que nunca, não fisicamente, mas simbolicamente. 
Dizer que líder A ou B "não morreu", pois está "vivo simbolicamente" etc. soa desagradavelmente semelhante ao culto da personalidade - nesse caso, uma forma de necrofilia. Os chavistas, por exemplo, sempre que se referem a Hugo Chávez, falam não em morte, mas na "desaparição física" do "comandante supremo"... Se eu acho isso bom? Preciso mesmo responder?

Toda a comoção gerada em torno da morte do líder sul-africano o torna mais vivo ainda, já que nesse momento, suas ideias, sua força de vontade, seu exemplo de vida e toda sua inteligência estão dentro do coração de pessoas do mundo inteiro.
Isso é culto da personalidade em sua forma mais pura. Já podem pedir sua canonização.
 
O que eu acabei de escrever vai causar raiva em algumas pessoas de coração mais duro, as que se dizem "racionais", que colocam a razão à frente da emoção o tempo todo e que, provavelmente, se dão mal diante da arte, como a dança a poesia, o teatro etc.
Não sei quanto aos outros, mas a mim afirmações como a que está acima causam não raiva, mas espanto. A vida e morte de Mandela não são assunto da arte, da dança, da poesia ou do teatro (bom, talvez do teatro...), mas da política. E Mandela, meus senhores, era um político, quer queiram quer não. Não era um pintor, um bailarino, um poeta ou um ator (bom, talvez ator sim...). Era um político. Po-lí-ti-co. Quem morreu foi Nelson Mandela, não Brad Pitt ou Roberto Carlos.   
 
Ao contrário do que pensam estes indivíduos, a capacidade de limitar as emoções em relação a razão não os deixa em uma posição favorável diante das pessoas que são mais sensíveis.
???? Quem escreveu isso, Zíbia Gasparetto?
 
Pelo contrário: as emoções podem nos dizer mais do que a própria razão.
Hummm... é mesmo? Não em política. No terreno da política, as emoções são uma péssima conselheira. Quando se abandona a razão em política e se dá lugar à emoção, aos instintos, o resultado geralmente é o aparecimento de líderes populistas e demagogos. E quando isso acontece, pior para a democracia. Assistam aos filmes dos comícios nazistas, por exemplo: não há ali um pingo de razão, somente emoção. Emoção pura, à flor da pele. Certamente, se as multidões alemãs que idolatravam Hitler tivessem deixado um pouco de lado as emoções e parado para pensar, a humanidade teria sido poupada do que veio depois. Não me peçam para jogar a razão no lixo, por favor.

(E antes que digam: por favor, não pensem que estou comparando Mandela a Hitler. Isso é um insulto à inteligência. Estou lembrando o papel da manipulação das emoções no culto à personalidade. Não me façam apertar a tecla SAP, OK?)
 
Vou dar um exemplo fácil e recorrente: uma pessoa adora comer carne e sua razão lhe dá vários motivos para continuar fazendo isso; mas quando essa pessoa visita um matadouro, nunca mais consegue comer carne, por mais que seu lado racional lhe diga que comer animais não vai lhe fazer mal. Agora essa pessoa está diante de um problema ético, não de saúde, e quem lhe diz isso são seus sentimentos. Em outras palavras, as emoções podem ensinar o que a razão achava que já sabia. 
Exemplo estranho, esse. Primeiro, porque não conheço ninguém, a começar por eu mesmo, que adora comer carne movido pela razão, mas pela fome, pelo apetite, que não tem nada de racional. Pelo contrário: trata-se de um instinto, um sentimento literalmente visceral, portanto alheio à razão. Aliás, se formos usar a razão nesse caso, evitaríamos comer carne, devido aos danos que daí podem advir para a saúde (colesterol etc.), como não param de repetir os médicos e os programas de TV. Segundo, porque quem come carne sabe muito bem como ela é produzida, tanto que há casos incontáveis de pessoas que não perderam em nada o apetite por um bom churrasco após visitar um matadouro (quem já morou em fazenda sabe disso). E isso não tem nada a ver com insensibilidade para com os pobres bois e carneiros, mas com a fome, pura e simplesmente. Em outras palavras, esses exemplos não esclarecem nada. O que não é de se estranhar, já que o autor afirma desprezar a racionalidade, como afirma adiante.
 
Agora se preparem, pois vem a parte que cita o texto que publiquei, e que pretende ser uma "crítica" a ele.
 
Após o falecimento de Nelson Mandela, percebi várias pessoas gritando contra aqueles que estão "o endeusando", sempre com a justificativa de que não se deve ser tomado pelas emoções. Uma publicação que me chamou a atenção vem do Blog do Contra, de caráter conservador, que deve ser conhecido por apenas uma meia dúzia de pessoas (assim como o meu), mas que expôs, em um post intitulado "Mandela, o avesso do mito", toda a bobagem que é o culto à racionalidade.
Quanto aos outros, não tenho o que dizer, só falo por mim e por minhas palavras. Critico o endeusamento de Mandela, agora elevado à condição de santo após a morte, pelos motivos que expus no meu texto. Ou seja: não somente pelo emocionalismo do momento, mas, principalmente, porque esse culto da personalidade não condiz com os FATOS. Assim como todos os demais, o de Mandela se baseia na mentira e na manipulação ou omissão da verdade.
 
O autor diz que o "culto à racionalidade" que ele identifica em meu texto é uma "bobagem". Devo concluir, então, que a sabedoria está com o culto à irracionalidade? 
 
(Nem tudo no texto dele é irracional, justiça seja feita. Pelo menos ele acerta ao dizer que meu blog tem caráter conservador - embora duvide que ele saiba o significado dessa palavra. Quanto a ser conhecido por apenas meia dúzia de pessoas, nunca parei para contar. Nem dou a mínima para isso.) 
 
Não vou fazer qualquer resenha ou análise dos "fatos sobre o Mandela" que o autor do texto descreveu.
Como assim? Não vai analisar o que eu disse? Então por que citou o texto (inclusive dando o título etc.)? Não vai refutar nada do que eu escrevi mas ainda assim critica? Confesso que agora fiquei confuso. Deve ser a primeira vez que alguém fala mal de um texto sem o refutar.
 
Pouco me importa se o ex-presidente da África do Sul foi amigo do Fidel Castro, se os políticos que o sucederam fracassaram ou não, ou se o CNA (Congresso Nacional Africano) tornou-se uma máfia.
Giovane pouco se importa, mas EU me importo. Eu e qualquer outra pessoa com um mínimo de respeito aos fatos e à lógica. Mandela está sendo louvado e endeusado como um herói da liberdade e da democracia. Como tal, espera-se de um tal personagem um mínimo de coerência. Ser amigo pessoal de tiranos como Fidel Castro, Muamar Kadafi e Robert Mugabe (o ditador mais antigo da África na atualidade) é não apenas falta de coerência, mas de decência, de respeito pelos milhares de vítimas das ditaduras comandadas por esses canalhas. Mandela jamais disse um "ai" em defesa dos direitos humanos nos países tiranizados por esses carniceiros. Pelo contrário: sempre os defendeu com ardor, chamando-os inclusive de "irmãos" e atacando os que condenavam seus abusos (postei inclusive um vídeo mostrando isso). Se Giovane acha fraco um argumento baseado na razão, use as emoções então: impossível não ficar com o coração apertado diante dos mais de 100 mil mortos pela ditadura comunista cubana, muitos fuzilados ou devorados por tubarões ao tentar fugir da ilha-prisão. Ou com um nó na garganta ao lembrar as famílias de brancos que tiveram seus membros assassinados e suas propriedades roubadas ou destruídas por turbas insufladas por Mugabe no vizinho Zimbábue. Ou os incontáveis torturados e assassinados pelo regime e as meninas violentadas no harém particular do "amigo e irmão" coronel Kadafi (este último, deve estar esperando por Mandela no além). 
 
Outra coisa: Thabo Mbeki e Jacob Zuma, os desastrosos sucessores de Mandela, não são apenas seus sucessores: são seus herdeiros, seus afilhados políticos. Foi graças a ele, Mandela, que eles chegaram ao poder e transformaram o país num paraíso da corrupção, da AIDS e do banditismo político. O mesmo vale para o CNA, essa gangue que há duas décadas vive de sugar o Estado. O autor pode estar se lixando para isso, mas eu não.  

Os artifícios e os argumentos utilizados contra o Nelson Mandela são idênticos aos que estão sendo adotados contra outras figuras que também estão ganhando visibilidade como o Ministro Joaquim Barbosa: fala-se do que pessoas ligadas a ele fizeram, ou do que ele fez dentro da lei e que possa parecer imoral, como se isso o tornasse um terrorista. O que foi dito no blog em questão também não é novidade, todo mundo já viu ou ouviu algo parecido nas últimas 24 horas, ou em outras ocasiões semelhantes. 
Confesso que poucas vezes vi tamanha imaginação num texto que deveria ser sobre uma figura política recém-falecida. O que, meu Deus do céu, tem a ver as minhas críticas ao endeusamento de Mandela com os ataques dos petralhas ao Joaquim Barbosa? Vai saber...
 
Posso estar enganado, devido ao estilo um tanto quanto evasivo do texto, mas se o autor está se referindo ao que Mandela fez no passado, antes de ser preso ("fala-se do que pessoas ligadas a ele fizeram, ou do que ele fez dentro da lei e que possa parecer imoral, como se isso o tornasse um terrorista"), então aproveito para repetir: ele foi preso por ter organizado atos TERRORISTAS (atentados à bomba, assassinatos etc.) à frente da organização Umkhonto we Siwe (Lança da Nação), o braço armado do CNA, do qual ele foi comandante.  Trata-se de um fato. Mas o autor despreza os fatos.

Portanto, a novidade argumentativa não existe neste texto. Já aturamos estes [SIC] sujeitos por muito tempo, sempre lutando contra o pensamento "das massas", sempre procurando uma posição de rebeldia social, mas incessantemente dizendo a mesma coisa. Porém, o que eles ainda não perceberam, é que  a rebeldia das ideias está em pensar criticamente, caso a caso, ao invés de pensar e falar de acordo com suas ideologias políticas. Quem se diz "de esquerda" ou "de direita" torna-se mais previsível e entediante do que um jogo da velha. 
Outro parágrafo estranho, típico de um texto cujo autor mandou a razão às cucuias. Primeiro, não pretendi apresentar nenhuma "novidade argumentativa" em meu texto, apenas recuperar fatos em geral omitidos. Fatos, aliás, que não têm nada de novo, muito pelo contrário. Não sei o que o autor quer dizer com "rebeldia social" - esse termo, para mim, tem mais a ver com os esquerdistas de botequim e marxistas de galinheiro, gente que usa o sobrenome "Guarani-Kaiowá" no Faceboook e que considera Mandela um santo. Estou em outra. Se a tal "rebeldia das ideias", como ele diz, está em "pensar criticamente", então devo concluir que o autor não é nada rebelde, pois deixou o pensamento crítico completamente de lado em seu texto/ode/louvor a Mandela, renunciando a analisar o caso em questão... Quanto a se dizer "de esquerda" ou "de direita" ser algo previsível ou entediante, concordo, tanto que prefiro que digam o que sou ideologicamente. Acho mais chato, porém, quem foge de definições, insistindo no nenhumladismo e no encimadomurismo militante (que, no Brasil, não passa de uma forma de esquerdismo envergonhado). A propósito, qual a ideologia do autor: radical de centro?   

Não citei o texto do Blog do Contra só para dar minha opinião sobre posições políticas. Também não sai da minha cabeça que se a educação fosse melhor, não passaríamos por isso, teríamos mais intelectuais de verdade, que sabem modificar o mundo com suas palavras. Citei o texto porque além da má qualidade na educação e das posições políticas tortas, estamos sendo atingidos por um furacão de pessoas ressentidas. Mas ressentidas com o que, ou quem?
Boa pergunta: ressentido com o quê? com quem? Fiz a mesma pergunta no começo deste texto. Giovane cita levianamente meu texto para fazer uma ilação, segundo a qual eu faria parte do "furacão de pessoas ressentidas". Escrevi minha crítica aos adoradores de Mandela por honestidade intelectual, movido pelo desejo de defender a verdade histórica, que a meu ver está sendo omitida para dar lugar a uma mistificação. Que alguém veja nisso algum traço de "ressentimento" é algo que só pode ser explicado por... bem, escolham a explicação.
 
Deixando de lado o blablablá paulofreiriano sobre educação (!?), que parece tirado de alguma cartilha do MEC (quais seriam "intelectuais de verdade" para o autor: Emir Sader? Marilena Chauí? Frei Betto?), gostaria de voltar ao motivo que me levou a escrever esta resposta: por que o autor citou criticamente o meu texto, se não embasa nenhuma de suas críticas a ele? (Estou quase indagando se seria por "ressentimento", mas deixa pra lá...). Enfim, por que alguém se daria ao trabalho de mencionar um texto de um blog, diz que não concorda com o que o texto diz e logo em seguida afirma que não irá fazer qualquer análise sobre o teor do texto em questão? Alô? 
 
O ressentimento também deve ser analisado caso a caso. O mundo dá motivos para que fiquemos ressentidos o tempo todo. Mas o que é interessante, é que os ressentidos geralmente se deram mal em algum campo da vida e resolvem descontar nos outros; assim, o ressentimento também tem uma pitada de inveja. 
OK, admito: escrevi que Mandela foi amigo de ditadores porque sou um ressentido. Afirmei que ele foi terrorista na juventude porque sou um invejoso. Só fiz isso porque não ganhei aquele carrinho de controle remoto que o Juquinha ganhou quando eu tinha sete anos. Por isso desconto no Madiba. Agora espero ver os fatos que citei serem refutados. Vou ter de esperar muito?
 
Nelson Mandela ficou preso por quase um terço de sua vida, em condições precárias. Sofreu com o preconceito, com a violência e o autoritarismo dos brancos racistas, e mesmo assim, saiu da prisão e não ficou ressentido. Conseguiu pensar em um meio de começar a promover a igualdade na África do Sul sem partir para a guerrilha, reconhecendo o próprio erro que cometeu no passado. Colocou seu plano em prática, e fez revolução sem sangue. Virou presidente, fez da África do Sul uma democracia e comandou o país por cinco anos, resistindo ao impulso natural de qualquer líder revolucionário, de tomar o poder e não sair mais, tornando-se um novo ditador. Não fracassou em nenhum ponto. Nem na própria saúde ele fracassou: viveu 95 anos, mais do que muita gente que lava as mãos sempre que encosta em um cachorro. 
Esse é o único parágrafo que fez alusão a fatos (que o autor desdenha, aliás). Fatos, aliás, que cito em meu texto sobre Mandela. Sim, ele foi encarcerado por 27 anos. Sim, ele teve o bom senso e a sabedoria de renunciar ao terrorismo e de promover a reconciliação nacional na África do Sul. Sim, ele soube reconhecer os erros (na verdade, os crimes) do passado, e criou até uma comissão da verdade para expor as atrocidades cometidas pelos dois lados do conflito.  Sim, ele ajudou a transformar a África do Sul numa democracia. Tudo isso é verdade. A pergunta é: e o resto que escrevi em meu texto, não é verdade? Só uma parte da verdade é o que conta? 
 
A propósito: Oscar Niemeyer morreu com 105 anos de idade, dez a mais do que Mandela. E morreu um completo idiota em política, louvando as glórias do camarada Stálin... É mais uma prova de que nem sempre a idade traz sabedoria. Às vezes viver mais significa ter mais tempo para errar mais. Mandela viveu 95 anos. Teve tempo de sobra para reconhecer seus erros e se desculpar por eles. Mas preferiu não fazê-lo. Poderia ter morrido maior do que foi. Pena.
 
Por isso, a morte de alguém como o Mandela gera tanta comoção. Gera comoção porque não o teremos mais providenciando mudanças tão importantes; gera comoção porque o mundo perdeu um herói (sim, ele é um herói), um ser humano que serve de exemplo para todos nós. Por outro lado, é essa comoção que provoca o ressentimento daqueles que não querem ver ninguém por cima.
 
Eles esperam que a sociedade haja [SIC] de forma indiferente diante da morte de quem tem poucos defeitos, como o Nelson Mandela. Um fracassado só elogia outros fracassados, e espera que todos façam a mesma coisa. É insuportável, para ele, ver tanta gente emocionada por uma única pessoa.
A morte de Mandela gerou comoção porque ele era um símbolo, e pouco mais do que isso. Um símbolo de uma causa - a luta por "liberdade", "paz" ou "democracia" - com a qual nem sempre ele foi coerente. Quanto a gerar mudanças importantes, desde 1999 que ele não fazia mais nada na área. Desde então, acomodou-se ao papel de ícone de celebridades, recebendo gente do showbiz e roqueiros deslumbrados. Servia de "exemplo para todos nós"? Na oposição a um regime racista e na defesa da reconciliação nacional, sem dúvida nenhuma. Nisso, ele foi herói. Na amizade com ditadores e na herança política? Difícil.
 
Então, meu caro Giovane, "é essa comoção que provoca o ressentimento daqueles que não querem ver ninguém por cima"? Teoria interessante. Quer dizer que apontar um lado obscuro da biografia de alguém, ainda mais alguém transformado em santo e herói sem mácula pela esquerda mundial e pela maior parte da imprensa, é simplesmente ter ressentimento? Vai ver é por isso que alguns artistas no Brasil querem proibir biografias não-autorizadas. Os biógrafos devem ser todos uns fracassados, uns ressentidos, que não podem ver ninguém "por cima"... 
 
Por isso, pregam pela [SIC] racionalidade. Dizem "sejamos racionais", e logo depois propagam uma série de bobagens sem sentido.
Acabei de descobrir que defender a racionalidade e propagar bobagens sem sentido são coisas semelhantes. Em tempo: quando o Giovane vai apontar as bobagens que eu digo em meu texto?  (Notem que ele diz "racionalidade", e não "racionalismo", que é algo diferente.)
 
Tentam racionalizar suas emoções, mas também fracassam nisso, já que o ressentimento, que é uma mistura de raiva, inveja e outros sentimentos ruins, sempre acaba se sobressaindo.
"Racionalizar as emoções"... Entramos agora no reino das considerações psicanalíticas. Só assim para tentar explicar por que alguém escreve um texto atribuindo a crítica ao culto da personalidade de um líder morto a "uma mistura de raiva, inveja e outros sentimentos ruins"... Freud explica (ou não). 
 
Felizmente, como escrevi no começo do texto, Mandela não morreu. Ele é um imortal, e hoje somos milhares de Mandelas no mundo todo. Não precisamos nos preocupar com sua ausência, pois já absorvemos o Mandela que admiramos, assim como os ressentidos absorveram o "lado ruim" do Mandela. 
Nossa! Agora quase fiquei emocionado. "Mandela não morreu, é imortal" ou "Somos todos Mandela" bem que poderiam virar slogans da moda. Aliás, acho que vi um cartaz na TV dizendo mais ou menos isso. O mesmo disseram os chavistas quando morreu o caudilho Hugo Chávez. É um motivo a mais para manter o senso crítico em relação a endeusamentos do tipo.
 
Sempre que alguém pedir para que você não haja [SIC] com os sentimentos, fuja desse ressentido. O iluminismo já acabou, e faz tempo. 
Vou terminar imitando o Giovane: Sempre que alguém pedir que você AJA com os pés e não com a cabeça, fuja desse desmiolado. O totalitarismo e o culto da personalidade já acabaram, e faz tempo. Pelo menos, deveriam ter acabado. 
 
Agora chega, né? Melhor parar por aqui. Afinal, ao contrário do que pensa o Giovane, tenho coração mole.

2 comentários:

João José Horta Nobre disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gustavo disse...

Caro João José Horta Nobre,

Muito interessante o link. É importante lembrar fatos chocantes como esse, para mostrar que a verdade é sempre mais complexa do que muitos pensam. Infelizmente os devotos de Mandela não dão importância aos fatos.

A propósito: escrevi um texto sobre Mandela e, em resposta, um rapaz escreveu um texto sobre mim. Devo estar ficando importante... hehe