sábado, setembro 18, 2010

O BRASIL QUE PRESTA E O BRASIL QUE NÃO PRESTA


Existe o Brasil que presta. E existe o Brasil que não presta.

O Brasil que presta trabalha e produz, com o próprio esforço e pagando impostos. O Brasil que não presta quer apenas locupletar-se na máquina estatal.

O Brasil que presta respeita e defende a democracia, como um fim em si mesmo. O Brasil que não presta acha que ela só existe para beneficiar a própria grei, e usa os meios da democracia para destruí-la.

O Brasil que presta considera essencial a tolerância e a alternância democrática de poder. O Brasil que não presta não convive bem com a crítica, e apregoa a extirpação do adversário político.

O Brasil que presta defende a lei, o estado de direito e a meritocracia. O Brasil que não presta debocha da lei e promove o aparelhamento do Estado por uma multidão de apaniguados.

O Brasil que presta valoriza a liberdade de expressão e acredita que sem ela não há democracia. O Brasil que não presta usa a liberdade de imprensa quando na oposição, para, quando no governo, tentar impor a censura e o controle dos meios de comunicação.

O Brasil que presta acredita que o papel da imprensa é noticiar e fiscalizar. O Brasil que não presta acha que o papel da imprensa é tecer loas e bater palmas para o governo.
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O Brasil que presta acha intoleráveis mensalões, dossiês, aloprados e violações de sigilos fiscais. O Brasil que não presta transforma crime em "factóide" e procura desqualificar denúncias fundamentadas como "golpismo" e "pregação moralista".

O Brasil que presta considera a democracia e os direitos humanos valores universais. O Brasil que não presta se alia a tiranos e assassinos, criminalizando a dissidência.
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O Brasil que presta defende a não-intervenção como um princípio das relações internacionais. O Brasil que não presta intervém nos assuntos internos de outro país para tentar impor um golpista, apresentando-o como um democrata, e democratas como golpistas.
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O Brasil que presta considera o realismo essencial para a política externa. O Brasil que não presta quer fazer política de grande potência sem o ser, confundindo realismo com megalomania.

O Brasil que presta procura manter um mínimo de coerência. O Brasil que não presta se apropria das conquistas dos outros, que antes condenava, sem qualquer confissão ou arrependimento. E se alia a quem antes repudiava como o que há de pior na política, sem qualquer vergonha ou constrangimento.

O Brasil que presta repudia o coronelismo e o clientelismo. O Brasil que não presta vê como normal a compra de consciências por um prato de lentilhas.

O Brasil que presta considera o preparo e a capacidade intelectual fundamentais para um governante. O Brasil que não presta acha que o marketing compensa qualquer deficiência, usando e abusando da propaganda ufanista para tentar vender uma nulidade como uma estadista.

O Brasil que presta acha que o papel do presidente da República é governar. O Brasil que não presta acha que a função principal deste é fazer campanha para sua candidata, durante e após o expediente.

O Brasil que presta busca colocar-se acima das questões partidárias, separando-as dos assuntos de governo. O Brasil que não presta confunde propositalmente Estado e partido, transformando o primeiro num puxadinho do último.

O Brasil que presta acredita que todos são iguais perante a lei. O Brasil que não presta acha que alguns são mais iguais do que outros, dividindo a sociedade em raças e grupos distintos, estabelecendo o racismo por meios oficiais.

O Brasil que presta acredita que invadir e depredar propriedades é crime. O Brasil que não presta acha que impedir a invasão e depredação é "criminalizar movimentos sociais".

O Brasil que presta aprende com os erros do passado. O Brasil que não presta se recusa a admitir que um dia errou e tenta reescrever a História - e ainda lucrar financeiramente com isso, numa orgia de indenizações milionárias por escolhas políticas do passado.

O Brasil que presta tem programa de governo e um projeto de nação. O Brasil que não presta tem apenas um projeto de poder, visando eternizar-se nele.

O Brasil que presta defende mão firme contra o crime. O Brasil que não presta mantém relações com terroristas e narcotraficantes (e berra quando isso é mencionado).

O Brasil que presta acha que ninguém está acima da lei. O Brasil que não presta posa de messias e divide a sociedade em pessoas comuns e aliados políticos, para os quais tudo é permitido.

O Brasil que presta exige punição para corruptos e ladrões do dinheiro público. O Brasil que não presta diz ''não sei nada, não vi nada'' e ''fui traido'' - e bota a culpa na imprensa.

O Brasil que presta segue regras. O Brasil que não presta acha que tudo é válido, e que a única coisa proibida é perder as eleições e o poder.

O Brasil que presta quer apenas que o Estado não atrapalhe e o deixe em paz. O Brasil que não presta acha que o Estado deve controlar a vida do cidadão, e depende da máquina governamental para fazer bons negócios.

O Brasil que presta considera a honestidade um valor em si. O Brasil que não presta cultiva a ambigüidade moral e o relativismo para os seus.

O Brasil que presta desconfia das ideologias. O Brasil que não presta usa a ideologia sempre que lhe é conveniente, como uma forma de colocar os ricos contra os pobres (por exemplo, chamando denúncias de corrupção de "conspiração das elites").

O Brasil que presta tem vergonha até de fazer oposição ao governo (não deveria ter). O Brasil que não presta não tem limites, nem tem vergonha de nada. Só de perder o poder.

O Brasil que não presta usa a própria origem social como álibi para cometer falcatruas e para fugir da responsabilidade. O Brasil que presta acha que mais importante do que a origem pobre é ter vergonha na cara.

O Brasil que não presta se orgulha de não ter estudado quando pôde, e faz o culto da ignorância. O Brasil que presta acha que isso é um insulto aos pobres que estudam.

O Brasil que não presta acha pragmatismo e sabedoria querer que todos esqueçam o que disseram e fizeram no passado. O Brasil que presta acha que isso é oportunismo e sem-vergonhice.

O Brasil que não presta confunde bom governo com popularidade, e urna com tribunal. O Brasil que presta acredita que uma coisa não tem nada a ver com a outra.

O Brasil que não presta acha que o problema do Brasil é o ''excesso de liberdade'' da imprensa. O Brasil que presta acha que o problema do Pais é o excesso de liberdade do Brasil que não presta.

O Brasil que presta acha que democracia pressupõe a pluralidade e o contraditório. O Brasil que não presta acha que democracia deve ser uma competição entre semelhantes.

O Brasil que presta tem princípios. O Brasil que não presta só tem conveniências.

Se o Brasil fosse um país sério, e não uma terra de abestados e tiriricas, a parte que presta estaria no poder. E a que não presta estaria fora da política. Ou na cadeia.

Em alguns dias, os dois Brasis irão se enfrentar nas urnas. A julgar pelo que dizem as pesquisas, sairá vencedor o Brasil que não presta, o Brasil da mentira, do crime e da corrupção. É que este tem militantes. O outro Brasil, o Brasil que presta, tem, se tanto, eleitores.

2 comentários:

Diego disse...

Este é o melhor texto que eu li até hoje neste blog. Excelente. Meus sinceros parabéns.

Prof. Lima Campos Jr. disse...

Bastaria apenas compreendermos que o estado de direito é algo inegociável e que, na democracia, as vontades pessoais nao podem se sobrepor ás istituiçoes, contudo, em uma siciedade de massa, o mais provável é que vejamos como resultado dessas eleiçoes a troca da legalidade por um prato de comida.