domingo, janeiro 27, 2008

ANTONIO GRAMSCI, OU COMO FAZER AMIGOS E INFLUENCIAR PESSOAS


"Quem controla a mente humana, controla a realidade" (George Orwell, 1984)


O ex-primeiro-ministro da antiga Alemanha Ocidental, Konrad Adenauer, certa vez disse uma frase que, em sua aparente simplicidade, resume tudo. Era mais ou menos assim: "É uma pena que a inteligência humana seja limitada, enquanto a estupidez não conhece limites".

Fico pensando nessa frase, que li há muito tempo, toda vez que tento debater sobre o cenário político atual latino-americano, em especial sobre a esquerda, no Brasil e no mundo, e alguém me vem com argumentos do tipo: o conjunto da esquerda brasileira já abandonou por completo a idéia de revolução socialista; com exceção de alguns grupelhos radicalóides, a esquerda nacional já se acomodou perfeitamente à democracia e ao capitalismo; todo esse papo sobre revolução continental e Foro de São Paulo não passa de simples paranóia e delírio de um punhado de reacionários e saudosistas dos tempos da Guerra Fria etc etc.

Esse tipo de wishful thinking, que se tornou um verdadeiro mantra após a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS, não resiste ao menor sopro de crítica. Ignoro se meus interlocutores já ouviram falar em Gramsci - desconfio que não -, mas o fato é que os argumentos mostrados acima apenas parecem reproduzir, sem tirar nem pôr, as idéias principais gramscianas.
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O italiano Antonio Gramsci (1891-1937), um dos maiores teóricos marxistas do século XX - alguns o consideram o maior ideólogo comunista depois de Lênin -, foi o fundador do Partido Comunista Italiano, até poucos anos atrás o maior do Ocidente. Autêntico amarelão ideológico, no dizer de Reinaldo Azevedo, Gramsci é uma espécie de Dale Carnegie das esquerdas. Em seus escritos, ele tratou de adaptar o pensamento marxista à época da comunicação de massa, defendendo que a tomada do poder pelos comunistas poderia ocorrer não necessariamente por meio da insurreição armada, tal como ocorrera na Rússia em 1917, nem mesmo pela simples via legal e eleitoral, mas por um processo de conquista gradativa das instituições, particularmente da superestrutura intelectual e espiritual da sociedade. Em outras palavras, os revolucionários comunistas, segundo Gramsci, deveriam concentrar seus esforços não exclusivamente na luta política direta pelo poder do Estado, mas, principalmente, na conquista de espaços e na busca pelo controle, a partir de dentro, da mídia, das artes, das ciências - enfim, da vida intelectual e cultural em geral. A dissimulação é parte importante nesse processo: em vez de palavras de ordem por um governo socialista, por exemplo, deveriam ser usadas expressões como "governo democrático e popular", ou "em defesa da paz", ou, ainda, "inclusão social", ainda que os objetivos dos marxistas sejam exatamente o inverso. Palavras como "comunismo" e "revolução" estariam, assim, proibidas - o importante era construí-las na prática cotidiana, através da propaganda. Nada, portanto, de sair por aí defendendo, em alto e bom som, a derrubada imediata da burguesia e a tomada do poder pela classe operária. A propaganda é sempre mais eficaz quando não parece propaganda.
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Desse modo, além de disfarçar os reais propósitos dos revolucionários, o método gramsciano visa a criar as bases para a revolução sem falar em revolução, para o estabelecimento do comunismo sem precisar falar abertamente em comunismo, e todo aquele que ouse denunciar esse esquema solerte de solapamento da democracia é imediatamente tachado de reacionário ou paranóico. A esse processo, levado adiante pelos "intelectuais orgânicos" do proletariado - o partido -, Gramsci chamou de conquista da hegemonia. Um esquema quase perfeito, brilhante em sua sonsice sem limites.
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Como fica claro pelas idéias de Gramsci, o verdadeiro campo de batalha em que as esquerdas tratam de construir seu poder hoje em dia não são as instituições do Estado, como o Parlamento e as eleições. É a mente humana. Não se toma o poder apenas pela força, mas pela persuasão, pelo convencimento. É pelo controle mental, pela repetição incessante de slogans e chavões, que se pode alcançar o tão sonhado controle da realidade. Isso demanda um trabalho longo e prolongado de infiltração e doutrinação ideológicas, que ocorre de forma lenta, solerte, anestésica, quase imperceptível, nos principais setores da superestrutura. Esse trabalho pode durar anos, ou mesmo décadas. O objetivo é que, no decorrer desse processo, os objetivos do partido revolucionário - o príncipe moderno, na definição de Gramsci, que a retirou de Maquiavel - venham a constituir-se, nas palavras do próprio Gramsci, "em um imperativo moral, um substituto do imperativo divino".

Recentemente, reli 1984, de George Orwell, um de meus livros preferidos. A certa altura do romance, O'Brien começa a explicar a Winston qual a finalidade da tortura que lhe estava sendo aplicada em nome do Ingsoc, o Partido. Não se tratava de simplesmente forçar o prisioneiro, pela dor e pelo medo, a confessar-se herege ou autor de crimes imaginários, como na Inquisição medieval ou na ditadura stalinista soviética. O objetivo, explica O'Brien, era fazer o prisioneiro acreditar que era efetivamente culpado de um crime monstruoso (a "crimidéia", ou crime do pensamento), a fim de aceitar o poder do Ingsoc. Era, enfim, fazê-lo amar o Grande Irmão. Isso porque - conclui O'Brien - o controle sobre a mente humana, a ponto de fazê-la acreditar que dois mais dois são cinco, é o fundamento mesmo do poder do Partido.

Não sei se Orwell conhecia os escritos de Gramsci. Mas, ao narrar de forma tão contundente os mecanismos de dominação totalitária, descreveu à perfeição a maneira como a ideologia esquerdista, marxista e totalitária, vem penetrando há pelo menos oito décadas as mentes das pessoas no Ocidente, conforme o esquema preconizado por Gramsci. Tal esquema de condicionamento mental quase pavloviano já avançou tão profundamente sobre as consciências dos indivíduos que a maioria esmagadora da população é mantida na mais completa ignorância de sua existência, embora ele possa ser facilmente percebido em todos os lugares: nas escolas, no cinema, no teatro, na literatura, nas igrejas, nos sindicatos etc. Eis um exemplo que julgo bastante didático: você, que lê essas linhas, conhece algum professor universitário ou artista de renome, ou qualquer outro "formador de opinião" no Brasil, que se diga abertamente de direita e a favor do capitalismo? Por outro lado, quantos você conhece que enchem a boca e estufam o peito para proclamar, aos quatro ventos, suas convicções esquerdistas, ou, pelo menos, simpáticas às teses de esquerda?

Quando à estupidez humana se soma a capacidade ilimitada dos herdeiros de Marx e Lênin de mudarem de cara e de roupa para enganarem os incautos, convencendo-os de que seus propósitos não são antidemocráticos, o resultado é meio caminho andado para o estabelecimento de um Estado totalitário. No Brasil, esse processo encontra-se em estágio bastante avançado, como demonstra a hegemonia (no sentido gramsciano do termo) do discurso "politicamente correto" em questões tão díspares como racismo, homofobia e meio ambiente, a ponto de ser necessário, para revertê-la, proceder a uma verdadeira reprogramação neurolingüística. O silêncio obsequioso da quase totalidade da imprensa brasileira a respeito da cumplicidade do governo Lula da Silva em relação aos narcoterroristas das FARC e ao Foro de São Paulo, assim como a elevação de figuras como Oscar Niemeyer e Luiz Fernando Veríssimo à condição de faróis intelectuais da nacionalidade, são apenas a ponta de um gigantesco iceberg. Há pelo menos trinta anos, já estamos todos dominados, inconscientemente, pela retórica esquerdista. Assim como o personagem principal de 1984, aprendemos todo dia que dois mais dois são cinco.

Um comentário:

joab disse...

Ola

Fico intrigado com pessoas pertencentes ao neo-liberalismo americano. Assim como o autor do blog. Alguem que necessite de ter opinioes sempre contrarias para sentir-se bem no mundo onde vive, para deixar no ar uma mascara de 'PENSADOR'.E isso se dá em suas postagens pelo fato da sua força de vontade de mostrar que não entende muito de economia ou algo assim. Bom acho que um ex-professor de historia não deveria entrar em tantos detalhes sobre sistemas economicos para não fugir do real.Mas isso é caracteristica de pessoas que em todo tempo procuram ser DO CONTRA como forma de satisfação pessoal.Como se "eu não sou como a maioria".Detalhes cientificos então!uau. Quanta besteira.É incrivel como todos têm um pouco de MEDICO, LOUCO e CIENTISTA.Basta nós, formados em ciências elaborarmos um argumento falacioso com premissas ridiculas para uma cambada de historiadores dizerem ser verdade ou não.É incrivel.Acho que procuramos um ramo de estudo e as vezes perguntamos a alguem mais preparado sobre algo que não conhecemos. Não podemos sair por ai dizendo ser verdade um tema que sequer temos um mediocre conhecimento.Mas como ja disse outrora, isso é um problema de satisfação pessoal de quem quer opinar sobre todos assuntos mesmo não tendo conecimento algum sobre ele. Abraços.