quarta-feira, maio 28, 2008

Resposta a um leitor muito caridoso


Comentário a meu texto "O Bolsa-Família precisa acabar. Para o bem dos pobres", de 18 de março (o autor assina como "anônimo"):

"bem percebesse q o seu forte naum eh compreender a necessidade do carente

fala lah pro pai de familia q tah na seca ,tem 5 filhos pequenos pra criar e naum consegue emprego e q recebe a bolsa familia q ele tah sendo comprado o bolsa- familia tem q acabare q apatir de agora ele vai ter q si virar pois ele naum vai mais recebr o unico auxilo q ele tinha de sustntar a sua familia

acho tambem q vc naum compreendeu q o bolsa familia exige q as crianças estejam na escola e tenham acompanhamento medico. O bolsa familia eh uma das unicas esperanças q esses miseraveis tem de mudar a sua condiçao de pobrezacriaça na escola eh o primeiro passo para um brasil melhor vc naum acha?

e o bolsa familia eh um programa q naum visa a manuntençao da pobreza e sim uma escapatoria

revise as sua fontes de pesqisapara um professor de historia o seu ponto de vista eh bem estaguinado

Sexta-feira, 23 de Maio de 2008 22h50min00s BRT"

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Para quem, assim como eu, teve dificuldades em compreender em que língua foi escrito o comentário acima, faço um favor e o traduzo para o idioma de Camões:
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"Bem, percebe-se que o seu forte não é compreender a necessidade do carente. Fala lá para o pai de família que está na seca, tem 5 filhos pequenos para criar e não consegue emprego e que recebe a Bolsa-Família que ele está sendo comprado, que o Bolsa-Família tem que acabar e que a partir de agora ele vai ter que se virar, pois ele não vai mais receber o único auxílio que ele tinha para sustentar a sua família!

Acho também que você não compreendeu que o Bolsa-Família exige que as crianças estejam na escola e tenham acompanhamento médico. O Bolsa-Família é uma das únicas esperanças que esses miseráveis têm de mudar a sua condição de pobreza. Criança na escola é o primeiro passo para um Brasil melhor, você não acha?

E o Bolsa-Família é um programa que não visa à manutenção da pobreza, e sim uma escapatória. Revise as suas fontes de pesquisa. Para um professor de História, o seu ponto de vista é bem estagnado".

Traduzido o texto para a língua de Eça de Queiroz e Machado de Assis, vamos à minha resposta:

Esses petistas são mesmo estranhos. Durante mais de duas décadas eles vociferaram contra o assistencialismo, afirmando que este não passava de um instrumento da "zelite" e do capitalismo para manter o povão anestesiado e impedir a tão sonhada mudança social (a "revolução", diziam). Agora que estão no poder, mudaram completamente o discurso em relação a isso também. E usando os mesmos "argumentos" das elites que diziam combater, arrogando-se em porta-vozes das "necessidades dos carentes"...

Fico intrigado: mudaram os petistas ou mudou a realidade? Ou será que mudaram ambos? Ou, o que é mais provável, não mudou nem uma coisa nem outra - pelo contrário, tudo continua exatamente como sempre foi, apenas o Estado é que mudou de mãos?...

Concordo plenamente que criança na escola é o primeiro passo para mudar o País para melhor. Mas isso não tem nada a ver com o Bolsa-Família, assim como não tem nada a ver com os petistas. Países que alcançaram um alto nível de desenvolvimento na educação, como a Coréia do Sul, atingiram essa meta sem precisar de nenhum programa assistencialista do tipo. O Bolsa-Família não passa de um instrumento paternalista e eleitoreiro de reprodução da pobreza, a serviço dos interesses partidários dos "companheiros". Além do mais, se o governo do presidente Lula estivesse realmente interessado em melhorar a educação, poderia começar por ele próprio, voltando aos bancos escolares. Seria um primeiro passo muito importante, sem dúvida. Sem falar que, pelo visto, o autor do comentário, pela excelência do Português em que este foi escrito, deve ter sido um dos beneficiados pelo Bolsa-Família...

Fico aqui pensando... Que governo - e ainda mais um governo do PT, com seu apego ao populismo e à demagogia mais rasteiros - renunciaria voluntariamente à oportunidade de continuar manipulando uma ampla clientela de miseráveis estadodependentes, atrelados a ele por um programa assistencialista e paternalista, agindo assim contra seus próprios interesses? Quê? Voto de cabresto? Imagina...
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O mecanismo político por trás do Bolsa-Família e outras Bolsas semelhantes é bastante conhecido. Passei um tempo na Venezuela. Lá, o companheiro Hugo Chávez também está implementando uma série de programas assistencais, chamados "missões". Depois de alguns anos, constatou-se que a desigualdade, em vez de diminuir, aumentou. A dependência política da população em relação ao Estado, porém, aumentou consideravelmente, ao mesmo tempo em que o clientelismo e a corrupção. Hoje, as "missões" são um dos principais instrumentos de manutenção do poder do caudilho Hugo Chávez. Alguma coincidência com um certo país e um certo presidente de língua presa?

Pois é. Como se vê, preciso revisar minhas fontes de pesquisa. Afinal, como diz o leitor caridoso que escreveu o comentário, estou mesmo "estaguinado"...

3 comentários:

Stefano disse...

Isso é que é prestígio: o próprio Presidente te mandou um comentário!

José Ricardo Weiss disse...

Gustavo.

Também acredito, como disse o candidato a apedeuta que comentou seu texto, que você deve mudar suas fontes: passe a usar Verdana para publicar seus textos.

O que esse pessoal da "luta di claces" não entende é que só existem duas classes (que não são a burguesia e o proletariado): o governo e o povo.

E que, numa democracia, o povo TEM que fazer valer os seus direitos - e existem mecanismos legais para tanto, que podem ser apresentados às câmaras municipais, estaduais o federais - e NÃO precisa de assistencialismo barato para melhorar de vida. Há formas mais corretas de gerar melhorias, como, por exemplo, a diminuição da carga tributária sobre o emprego formal para as empresas.

Eles não entendem que a grande maioria da população, diferentemente deles que adoram se aboletar num carguinho público qualquer prá ficar mamando no dinheiro que NÓS pagamos de impostos, quer pescar e não ganhar o peixe - embora isso não seja universal, porque sempre haverá o calhorda que prefere uma graninha fácil ao trabalho duro, como eu mesmo constatei com uma empregada doméstica que tive, que pediu as contas tão logo conseguiu o bolsa-família (e eu lhe pagava 2 SMs por seis horas de trabalho diárias, de segunda a sexta).

Augusto Araújo disse...

he he

o Stefano acertou