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segunda-feira, março 31, 2014

1964: 50 ANOS DEPOIS - O QUE ELES DISSERAM


Hoje faz 50 anos do golpe/revolucão/contragolpe/contra-revolução de 1964. Como de hábito, vamos cansar de ler na imprensa artigos enaltecendo o governo democrático de João Goulart e demonizando os militares (e civis) que o depuseram por pura maldade etc.  Pensei em escrever um longo texto rebatendo essa visão maniqueísta da História, mas lembrei que já fiz isso há exatos cinco anos (ver aqui: http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2009/03/falacias-sobre-1964.html). Vou, portanto, me limitar a transcrever o que alguns personagens daquele período disseram a respeito.
 
Tancredo Neves, sobre o governo João Goulart:
 
Seu governo vinha cedendo às pressões populistas, e o seu programa de reformas era aproveitado para as agitações de todos os tipos. Nos campos e nas cidades, a exacerbação dos espíritos na luta ideológica criava os mais graves problemas ao presidente e a seus ministros no tocante à manutenção da ordem.
 
A rebelião dos marinheiros marcou o ápice dessa crise. Procuramos então o presidente e juntos analisamos a delicada conjuntura. Ele me pediu sugestões, e eu lhas dei: a expulsão dos marinheiros rebelados dos quadros da Marinha e a consequente abertura de inquérito para apurar e definir responsabilidades; a extinção do PUA – Pacto de Unidade Sindical, uma articulação sindical – e dos Grupos dos 11 de Brizola. E o provimento efetivo do Ministério da Guerra por um general de Exército que inspirasse as Forças Armadas [...].
 
O presidente recusou as minhas sugestões, achando que, se as adotasse, estaria se despojando de parcelas consideráveis de sua autoridade. Discutimos e não chegamos a nenhum acordo.
Nesse dia fiquei sabendo que o presidente João Goulart iria receber uma homenagem dos sargentos. Considerei o fato da maior gravidade e fiz tudo pra frustrar essa solenidade, sem nada ter conseguido. (1) 
Trecho da biografia do líder comunista Carlos Mariguella, escrita pelo jornalista Mário Magalhães:
Prestes não desconhecia intenções golpistas de Jango. Sobrinho de Miguel Arraes, governador de Pernambuco, Humberto de Alencar escreveu ao tio em 22 de fevereiro, narrando diálogo com Giocondo Dias: “[Os comunistas] acham que JG [João Goulart] continua com o plano do golpe e que isso deve, de agora por diante, entrar nas nossas análises”. Na noite de 13 de março, Arraes se despediu do jornalista Janio de Freitas com um prognóstico:
“Ou vem um golpe da direita ou um do Jango.”
 
O dirigente pecebista Jacob Gorender criticaria Prestes, em 1966: “O elemento golpista se manifestou através do apoio aos planos continuístas do presidente”. (2) 
Ainda Jacob Gorender, membro do Comitê Central do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB):
Tornou-se corrente na literatura acadêmica a assertiva de que, no pré-64, inexistiu verdadeira ameaça à classe dominante brasileira e ao imperialismo. Os golpistas teriam usado a ameaça apenas aparente como pretexto a fim de implantar um governo forte e modernizador.

A meu ver, trata-se de conclusão positivista superficial derivada de visão estática das coisas. Segundo penso, o período 1960-1964 marca o ponto mais alto das lutas dos trabalhadores brasileiros neste século, até agora. O auge da luta de classes, em que se pôs em xeque a estabilidade institucional da ordem burguesa sob os aspectos do direito de propriedade e da força coercitiva do Estado. Nos primeiros meses de 1964, esboçou-se uma situação pré-revolucionária e o golpe direitista se definiu, por isso mesmo, pelo caráter contra-revolucionário preventivo. A classe dominante e o imperialismo tinham sobradas razões para agir antes que o caldo entornasse. (3) 

José Stacchini, ex-militante comunista:

[...] Goulart queria uma ditadurazinha para uso próprio, supondo que ia subir montado nas costas dos sindicatos. Porém êstes, ainda a UNE, parlamentares "nacionalistas" e outras correntes do gênero, trabalhavam mesmo num outro sentido. Esperavam o momento em que Jango montasse: dariam então uma corcoveada e, com ajuda estrangeira, instalariam aqui um paraíso no melhor estilo cubano. (4)
Notas:
(1) MORENO, Jorge Bastos, A história de Mora: a saga de Ulysses Guimarães, Rio de Janeiro: Rocco, 2013, pp. 69-70.
(2) MAGALHÃES, Mario, Mariguella: o guerrilheiro que incendiou o mundo, São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 292.
(3) GORENDER, Jacob, Combate nas trevas, 5a edição, São Paulo: Ática, 1998, pp. 72-73.
(4) STACCHINI, José, Março de 1964: mobilização da audácia, Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1965, p. 38.

domingo, novembro 04, 2012

RECORDAR É VIVER

O que vai a seguir é uma seleção de vídeos sobre a maior farsa da História política do Brasil, um cidadão que há quase quatro décadas frequenta o noticiário. Trata-se de uma modesta contribuição minha à preservação da memória nacional. Nela, pretendo lembrar aos brasileiros desmemoriados o que dizia há alguns anos e quem é um estranho personagem que fez sua carreira denegrindo e atacando adversários e se dizendo o único verdadeiro representante do bom, do belo e do justo abaixo da linha do Equador.

Acometidos de estranha amnésia, muitos eleitores parecem ter esquecido completamente de quem se trata. Faço questão, portanto, de lembrar-lhes esse fato, mediante as próprias palavras do personagem. Aquele que Celso Amorim chama de "nosso guia" e que muitos consideram um "gênio".
 
Sobre o bolsa-família:
 

Sobre o Real (e Collor):

Sobre a prisão, em 1980 (ele recebeu uma indenização do Estado por isso):


Sobre o aquecimento global (uma aula de geografia):


Sobre o Mensalão:


Sobre os Sarney:


Sobre si mesmo (ao falar de outros políticos):

terça-feira, outubro 09, 2012

CINISMO OU LOUCURA?


Tive a sorte (ou o azar) de nascer numa cidade e num estado onde o PT jamais chegou ao poder. Digo sorte e azar ao mesmo tempo porque, se por um lado isso me livrou de sentir na pele as "maravilhas" do "jeito petista de governar" (como o aparelhamento do Estado pelo partido e a roubalheira desenfreada "em nome dos trabalhadores"), por outro lado permitiu a eles - os petistas de lá - terem a caradura de ainda posar de “éticos” e “contra tudo isso que está aí”, repetindo o mesmíssimo discurso petista de antes do mensalão. Ofendendo a inteligência e abusando, assim, da paciência alheia.

Isso mesmo. Ainda há petistas que enchem a boca para falar de ética... e sem ruborizar.

De tanto ver esse pessoal se lamuriando após perder nas urnas, já identifiquei um padrão. E posso dizer com certeza: petista não sabe perder. Nem o que é democracia.

Basta atentar para o seguinte (onde o partido não venceu, ou onde ainda é minoria):

- Culpam sempre a "ignorância do eleitor" (como se o único "voto consciente" fosse o dado a eles, petistas); é a velha teoria (elitista, pra variar) de que "o povo não sabe votar";

- Chamam todos – todos! – os outros candidatos de corruptos (logo quem...); é a velha ladainha do "ninguém presta, só eu" (lembram?);

- Quando não contestam a legitimidade do resultado – a única eleição válida, para eles, é a que ganham –, lamentam não terem conseguido derrotar o "poder econômico" (justo o PT, que se aliou com Maluf nessas eleicões...).

Tudo isso para não terem de reconhecer o óbvio: o povo não os quis (isso eles não podem aceitar, pois afinal eles são a "vontade do povo"...).

Enfim, um comportamento claramente antidemocrático (a democracia existiria apenas para que eles, petistas, cheguem ao poder).

O mesmo se aplica aos demais partidos autoproclamados de esquerda (PSOL, PSTU etc.).

Este ano os petistas tomaram uma surra nas capitais que já governaram, como Porto Alegre (RS) e Belo Horizonte (MG) - locais visitados durante a campanha, coincidência ou não, pela presidenta-gerenta. Sem falar em Recife (PE), onde o vexame foi ainda maior. É que nesses lugares os eleitores já conhecem o PT, e portanto ficou mais dificil manter a pose de contestadores e inimigos do "sistema". Já nas cidades em que sempre foram um poder marginal (e não "marginais do poder", como disse o ministro Celso de Mello, do STF), a máscara de bons-moços ainda não caiu, e ainda há gente ingênua ou desmiolada o suficiente para levá-los a sério. 
 
Realmente, ganhando ou perdendo, a cara de pau - ou a loucura - da petralhada não tem limites. Enquanto houver tolos, haverá petistas.

quarta-feira, setembro 26, 2012

LULA: O COMEÇO DO FIM

 
"Este não é o fim, e pode mesmo não ser o começo do fim, mas é, certamente, o fim do começo". - Winston Churchill
 
O Brasil está mudando. E para melhor.
 
Alguns fatos apontam para essa conclusão otimista. Primeiro, o julgamento do mensalão, que começou morno e que parecia caminhar para terminar em pizza, parece que é para valer. Apesar da ausência inexplicável no banco dos réus do capo di tutti cappi, e de algumas questões mal resolvidas (como os constantes arranca-rabos entre Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski), as condenações, bem ou mal, estão saindo. Caiu por terra, assim, de forma acachapante, a tese defendida há sete anos por Lula e seus asseclas, segundo a qual o mensalão não existiu (ou foi uma "conspiração das elites e da mídia golpista" etc.). É algo positivo, sem dúvida. Ao que parece, o Brasil está aproveitando a chance de deixar de ser o país da impunidade.
 
Outro fato positivo, e simbolicamente mais importante, foi a recusa de alguns partidos da base aliada do governo de referendar uma nota a favor do ex-presidente - e enfatizo aqui o "ex-presidente", porque parece que ele não entendeu que não é mais presidente da República - Luiz Inácio Lula da Silva contra as acusações de Marcos Valério, feitas à revista VEJA, de que ele, Lula, não só sabia, como foi o mentor e chefe do esquema do mensalão. A nota, denunciaram os líderes de alguns partidos aliados, foi-lhes arrancada à base da coação pelo presidente do PT, Rui Falcão.
 
Não sei se vocês perceberam, mas o que está descrito aí em cima é algo absolutamente inédito: pela primeira vez em dez anos, e mesmo antes, um grupo de políticos (ainda por cima, aliados) recusou-se a fazer o papel de aduladores do Apedeuta. Pela primeira vez desde que este apareceu na vida política nacional, há mais de trinta anos, políticos aliados se negaram a bajulá-lo. Depois de décadas sendo sistematicamente paparicado, incensado, endeusado por legiões de políticos, artistas e intelectuais, Luiz Inácio Lula da Silva teve de ouvir um "não" como resposta. Não é pouca coisa.
 
Não é segredo para ninguém que o culto da personalidade de Lula já atingiu níveis realmente stalinianos, superando mesmo o de Getúlio Vargas na época da ditadura estadonovista. Em vários textos, escrevi sobre isso. É algo inseparável da criação de seu mito político, que se alimenta tão-somente de um misto de esquerdismo inercial e complexo de culpa das elites (já falo sobre isso). Agora, ao que tudo indica esse mito começa a desbotar, gerações de vigaristas ou de idiotas bem-intencionados estão vendo, finalmente, que o ídolo tem pés de barro. O reizinho está ficando nu. 
 
De vez em quando ouço alguém dizer, como que justificando para si mesmo o fato de se ter deixado enganar por tanto tempo: "Lula é um gênio". Comparam-no, assim, a um Einstein, um Newton, um Galileu. Um gênio instintivo, um gênio da política etc. etc. Ora essa! Nada mais equivocado e, diria mesmo, nada mais cretino. Dizer que Lula é um gênio é uma forma de alimentar o culto da personalidade criado em torno do Filho do Barril. É um insulto aos verdadeiros gênios, e é uma maneira de isentar-se de culpa pela construção do mito, a maior farsa política da História do Brasil.

Não, Lula nunca foi um gênio. É, sim, um demagogo, um político esperto que se aproveitou da boa-fé de milhões de incautos para chegar onde chegou e fazer o que fez. Um populista espertalhão, de escassa cultura e igual inteligência, que teve a sorte - e que sorte! - de encontrar pela frente um povo despolitizado e uma elite intelectual sequiosa de endeusar mais uma figura "popular". Lula teve a fortuna (no sentido maquiavélico do termo, e também pecuniário) de contar com os préstimos involuntários de uma oposição abúlica, que desperdiçou a oportunidade de retirá-lo do poder por impeachment (oportunidade que ele, Lula, jamais desperdiçaria). Junte-se a isso a amnésia que caracteriza o eleitorado brasileiro, uma mídia simpática e um fugaz crescimento econômico - construído sobre bases anteriormente estabelecidas - e se terá um retrato fiel da "genialidade" de Lula.

Em vão se buscará em Lula, desde sua aparição no cenário político nacional, uma única palavra sábia, alguma frase inteligente ou uma análise mais aprofundada sobre qualquer assunto. Vejam os registros. Não há nada, absolutamente nada: apenas velhos chavões esquerdistas, quando na oposição, slogans soprados por algum intelectual marxista, repetidos e adaptados à situação do momento. Nem um resquício, por menor que seja, de pensamento próprio ou original. Sem falar nos seus adversários políticos de ontem, como Sarney, Collor ou Maluf, hoje seus fiéis aliados. Em tudo isso, um grande vazio de idéias, sem qualquer conteúdo, embalado numa imagem messiânica de "líder popular", vindo de baixo e semi-analfabeto (por vontade própria, mas lembrar esse fato não é "politicamente correto"...). Gênio? 

Até o tão propalado carisma de Lula tem muito de falso e de artificial. Lula tornou-se líder carismático em contraste com os políticos mais tradicionais, velhas raposas vindas das oligarquias ou tecnocratas insossos como José Serra, tendo sido incensado mais por seus defeitos do que por qualquer qualidade, aliás inexistente. Por exemplo, seus erros de português, inaceitáveis num político tradicional, e mesmo num cidadão comum razoavelmente instruído, nele se converteram numa virtude a ser explorada, uma prova de sua origem "do povo" - criticá-lo por isso seria "preconceito elitista" etc. (Aliás, criticá-lo por qualquer motivo foi, durante decênios, um delito de lesa-santidade.) Que Lula só fale errado por ter desprezado a própria educação, e que se desconheça um único livro que tenha lido em toda sua vida porque escolheu, por vontade própria, ser limítrofe, é algo que passou completamente despercebido, um fato omitido até hoje pelos devotos da seita lulopetista. Lula foi erguido às mais altas posições - messias, oráculo, Deus - sem que nada o qualificasse a tanto. Ao contrário, foi escolhido exatamente por não ter nenhuma qualidade.
 
Tanto Lula é um homem sem qualidades que o mito lulista precisa, para existir, reescrever constantemente a história. Lula já disse que a democracia brasileira é fruto da luta do PT, o que é mentira - o PT nem existia em 1979, quando a Lei de Anistia, que agora muitos querem revogar, foi aprovada, após intensa campanha popular e democrática. Nos anos seguintes, o partido da estrela vermelha dedicou-se a promover greves, muitas delas irresponsáveis e eleitoreiras, tendo expulsado três parlamentares que votaram em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral em 1985 (o candidato do regime militar, talvez profeticamente, era o hoje aliado Paulo Maluf) e se recusado a assinar a Constituição de 1988. Lula, aliás, foi deputado federal constituinte, mas quase ninguém se lembra disso. Uma vez no governo, Lula surfou na onda alheia da estabilidade econômica, a qual se opõs quando era oposição -, apropriou-se das conquistas de outros e registrou, em cartório, a fundação do Brasil. Se conseguiu safar-se do julgamento do mensalão (não sem antes tentar coagir e chantagear um ministro do STF), foi não por seus próprios méritos, que não os tem, mas por obra e graça de uma legião de áulicos e adoradores, dispostos a tudo para alimentar o culto à sua personalidade. Lula foi "blindado".  

O mais irônico de tudo é que Lula é uma criação das elites - as mesmas elites que ele adora achincalhar em seus discursos. Foram as elites, foi a burguesia brasileira, a intelligentisia da USP e da PUC, as marilenas chauí, os emir sader, os frei betto, além de um exército de artistas e jornalistas, que criaram o personagem. É nesses setores que se encontram seus devotos mais ardorosos. Celso Amorim, por exemplo, chama-o de "nosso guia". Marta Suplicy declarou recentemente que Lula é Deus. Isso mesmo: Deus. Nada menos. É a elite, mais do que o povão, que adora rir de suas piadas chulas, e que vê sabedoria e inteligência onde só há platitudes e frases desconexas.

Já em 1979, o grande dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues apontava para esse fenômeno de sabujice coletiva, ao dizer, em entrevista à revista Playboy: "Vocês [os jornalistas] acham que o Lula é um Napoleão, um Gêngis Khan. Mas a verdade é que ele, Lula, não fez nada, rigorosamente nada". Lula não precisou fazer nada para chegar onde chegou: sempre achou quem fizesse o serviço sujo por ele - e inclusive quem por ele se sacrificasse, como Delúbio Soares, que já declarou que encara a prisão como um "dever partidário".

Diante de tanta mediocridade, agora cada vez mais exposta sem os confetes e o brilho do poder, os que um dia acreditaram no Lula redentor da humanidade - os que mantêm um resquício de pudor, pelo menos - recolhem-se com vergonha, num silêncio acabrunhado. Silêncio que aumenta diante da continuação de Lula que é Dilma Vana Rousseff. Nada mais natural que Lula tenha escolhido, para sucedê-lo, uma nulidade como Dilma Rousseff. Nulidades atraem nulidades.
 
Triste do país que já teve um Lula no mais alto cargo da nação. Triste do país que entroniza a vulgaridade, a safadeza, a cupidez e a ignorância. Lula já vai tarde. Este pode não ser seu fim. Mas que seja, pelo menos, o começo do fim.

sábado, maio 05, 2012

O DEVER DE SER IMPOPULAR

Faz algum tempo resolvi adicionar uma lista de seguidores em meu blog. Algumas pessoas - quase todas, por mim totalmente desconhecidas - se inscreveram, e seus nomes desde então constam na lista. Na última vez que vi, contei 56 delas.
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Não faço propaganda do blog, de modo que o fato de ter 56 seguidores de certa forma me surpreende. Mesmo assim, um leitor que se sentiu ofendido por algo que escrevi, na falta de algo mais sólido para refutar o que eu disse, acreditou ter achado um argumento infalível para me desmoralizar: "Nossa, você só tem isso de seguidores?" (eram menos na época). Como se houvesse alguma relação entre a quantidade de gente na lista e a veracidade ou legitimidade do que eu tinha escrito...
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Vivemos num mundo obcecado pela popularidade. Muito mais do que ser sábio ou inteligente, ou simplesmente sensato, é a idéia de ser "popular" o que move a imensa maioria da humanidade. É essa motivação, mais do que qualquer coisa (até mais, desconfio, do que o dinheiro), o que leva tanta gente a se lançar tão sôfrega e desesperadamente em busca da "fama". Basta dar uma rápida olhada na internet para ver a quantidade de gente competindo para ser o "mais popular" - o que significa, no caso, ter mais seguidores no Twitter ou no Facebook.
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Considero tudo isso uma grande besteira. Como qualquer pessoa que se der ao trabalho de ler um texto meu poderá facilmente perceber, não dou a mínima para o que pensa a multidão. Meu critério para averiguar a verdade ou falsidade de um argumento é outro. Não escrevo para conseguir a aprovação de quem quer que seja, nem para ter seguidores. Não sou líder de seita, nem estou em busca de um emprego público, nem tenho qualquer compromisso além daquele com minha própria consciência. Também não sofro de carência afetiva - meus pais podem ficar tranqüilos, pois não correm o risco de ser processados por "abandono afetivo", essa nova moda jurídica (aliás, uma estupidez sem tamanho). Tampouco me inscrevi para um concurso de popularidade.
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Além disso, para ser popular é preciso seguir algumas regras básicas, que não estou disposto a obedecer. A primeira delas é dizer apenas o que a platéia quer ouvir. Principalmente, jamais ter idéias próprias. Se tiver alguma, esconda-a, guarde-a para si mesmo, como no célebre conto de Machado de Assis, Teoria do Medalhão. Enfim, siga sempre a onda e o rebanho, colocando-se sempre do lado da maioria. Acima de tudo, jamais seja um dissidente. Faça isso e você será um cara legal, popular e cheio de amigos. 
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Não sou, obviamente, o primeiro nem o único a rejeitar esse caminho fácil, optando, em vez disso, por não esconder o que penso e afrontar os consensos fabricados. A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1979-1990), por exemplo, foi, enquanto governou, extremamente impopular. Difícil imaginar alguém mais detestado, mais execrado, mais vilipendiado do que ela. 
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Fiquei pensando nisso enquanto assistia a A Dama de Ferro ("The Iron Lady"), em que Mrs. Thatcher é interpretada de forma magistral por Meryl Streep (que, mais que merecidamente, levou o Oscar de melhor atriz este ano).  Thatcher era um poço de antipatia e arrogância. Pouquíssimas pessoas, mesmo seus colaboradores mais próximos, podem ser consideradas seus amigos. E por quê? Porque ela tinha - tem - algo que falta à maioria dos políticos: princípios.
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Filha de um dono de mercearia (o que significa, pelos padrões britânicos, alguém "vindo de baixo"), e não rezando pela cartilha esquerdista (as feministas, aliás, odiavam-na: afinal, ela não saía por aí queimando sutiãs), a conservadora Thatcher teve de lutar, desde o princípio, por aquilo em que acreditava. No caso dela, idéias consideradas um anátema pelo estabishment político do Reino Unido dominado pelo receituário do Partido Trabalhista (o PT de lá), que estava arrastando o país para o abismo.
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Quando Thatcher assumiu a chefia do governo, no final dos anos 70, a Inglaterra era um país decadente, com uma economia periclitante e obsoleta, fortemente marcada pela miopia estatista que levava o governo a subsidiar minas de carvão deficitárias. Thatcher acabou com isso.  Mandando ás favas os dogmas socializantes, e reconhecendo a necessidade de medidas urgentes para recuperar a economia, ela tratou de implementar o mais radical e rigoroso programa de austeridade da História do país, acabando com uma mamata de décadas. "Não existe tal coisa chamada 'sociedade'; existem indivíduos", costumava dizer. Com isso, obviamente, ela angariou uma legião de inimigos, tendo de enfrentar uma guerra declarada da esquerda e dos sindicatos, que não lhe deram um dia de trégua. O então poderoso sindicato dos mineiros, liderado pelo superpelego Arthur Scargill (uma espécie de Lula britânico dos anos 80), convocou uma greve de um ano para tentar derrubá-la. No final, Thatcher venceu, os sindicatos foram derrotados e a esquerda, desmoralizada. Graças às reformas liberais thatcheristas, o Reino Unido hoje não produz carvão, mas softwares de computador.
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Também no front externo, Thatcher deixou sua marca. O apelido de "dama de ferro", aliás, foi-lhe dado pelos dirigentes da defunta União Soviética, os quais viram nela, ao contrário de muitos líderes ocidentais, uma adversária de princípios e valores inflexíveis. Diferentemente de políticos mais simpáticos e sorridentes como o presidente dos EUA, Jimmy Carter (1977-1981), Thatcher não se deixou intimidar pela URSS, e ao lado do sucessor de Carter, o republicano conservador Ronald Reagan - outra bête-noire dos esquerdistas do mundo inteiro -, formou a dupla que enfrentou o império do mal comunista em defesa da democracia.  Desnecessário dizer, mas tanto Thatcher quanto Reagan foram alvos do ódio implacável da esquerda - e são considerados, hoje, os dois líderes ocidentais mais importantes do final do século XX.
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Greves, distúrbios de rua, atentados terroristas do IRA... tudo isso a Dama de Ferro inglesa, a mulher mais odiada da Europa, enfrentou sem medo e sem recuar um milímetro. Como não hesitou um só instante em mandar as tropas britânicas expulsar os militares argentinos que, num surto patrioteiro que agora ameaça repetir a peronista Cristina Kirchner, invadiram em 1982 as ilhas Falklands/Malvinas.  Devido a essa derrota humilhante imposta aos hermanos, a ditadura militar argentina chegou ao fim. Graças a Thatcher, hoje os argentinos não correm mais o risco de serem seqüestrados, torturados e assassinados pelos esquadrões da morte fascistas.
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É bom lembrar de Margaret Thatcher, principalmente no Brasil, principalmente num momento como o atual. Como indicam as reações orgásticas da esquerda tupiniquim a cada pesquisa de opinião, ser popular, no Brasil, é tudo. Os índices de popularidade do governo Dilma Rousseff, assim como ocorreu com o ex-presidente Lula, não param de subir, para delírio dos petistas, que acham que ser popular é prova de "bom governo". O fato de o general Garrastazu Médici ter sido extremamente popular é convenientemente esquecido nessa hora. (Os devotos petistas, aliás, confundem popularidade com prestígio, duas coisas bem diferentes.)
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Se Thatcher tivesse se deixado pautar pelas pesquisas de opinião, não teria feito as reformas que fez, e que modernizaram a encalacrada economia inglesa. Tampouco teria decidido retomar as Falklands, e a ditadura militar argentina provavelmente não teria acabado. Do mesmo modo, possivelmente ela não teria levado adiante uma política externa anti-soviética e anticomunista, que ajudou a apressar o fim da Guerra Fria. De fato, alguém como Thatcher não teria lugar na política brasileira. Se fosse no Brasil, país de convicções dobráveis, Thatcher, com sua fidelidade a princípios e firmeza de caráter, não teria sido eleita sequer para a Câmara de Vereadores de Catolé do Rocha.
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Se há algo que a trajetória de Thatcher demonstra, ao ser contrastada com figuras como Lula ou Dilma Rousseff, é que políticos de direita são execrados em sua época, para serem reconhecidos e admirados pela posteridade; já os de esquerda, que contam com a simpatia de setores importantes da imprensa, das artes e da intelectualidade, são louvados e endeusados quando estão no poder (ou na oposição), somente para serem duramente julgados no tribunal da História. 
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Em outras palavras, há dois tipos de políticos, como há dois tipos de pessoas: os que adulam o povo e os que fazem o que se deve fazer. Os primeiros querem aplausos, pensando nas próximas eleições; os outros, querem resolver os problemas do país, pensando nas gerações futuras. É a diferença entre um demagogo e um estadista.
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O bom estadista é aquele que, entre aplicar medidas necessárias mas impopulares e o populismo que rende aplausos momentâneos mas que gera conseqüências funestas no futuro, escolhe a primeira opção. Margaret Thatcher foi uma estadista. Já os lulas, as dilmas e as cristinas kirchner, melhor nem perguntar o que são.