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domingo, dezembro 15, 2013

ABAIXO OS PAIS DA PÁTRIA

A imagem da semana. Deveria ser a de todos os dias.
 
Três fatos da semana que passou merecem ser comentados. São os seguintes:
 
1 - a morte do líder anti-apartheid sul-africano Nelson Mandela ou, mais precisamente, a onda de mistificação histórica que se lhe seguiu, com contornos necrofílicos e de verdadeiro culto da personalidade, assunto de que tratei aqui em vários textos;
 
2 - a derrubada de uma estátua de Lênin, o líder da Revolução bolchevique de 1917 na Rússia e fundador da finada URSS, por um grupo de manifestantes que protestavam contra o governo pró-russo de Viktor Yanukovich, em Kiev, Ucrânia, e
 
3 - as revelações bombásticas do ex-secretário nacional de Justiça, o delegado da Polícia Federal Romeu Tuma Júnior, em livro recém-lançado (Assassinato de Reputações), entre as quais a existência de uma fábrica de dossiês no governo petista contra adversários políticos e o fato espantoso de que Luiz Inácio Lula da Silva foi um informante do DOPS, a polícia política do regime militar, nos anos 70 e 80 - o que o transforma, provavelmente, na maior farsa da História política do Brasil (além de testemunha indispensável a ser ouvida na "comissão da verdade" criada ironicamente para denunciar os crimes da ditadura militar).
 
Não escolhi as três notícias por acaso. Elas estão intimamente relacionadas, assim como os personagens em questão. Não obstante as diferenças óbvias existentes entre os três, Mandela, Lênin e Lula foram ou são líderes populares e carismáticos, com legiões de seguidores devotos e fanáticos. No caso de Mandela, as imagens do funeral não deixam qualquer margem à dúvida de que o personagem transformou-se, graças a um eficiente trabalho de endeusamento e desinformação, num semideus, sem qualquer relação com a realidade. O mesmo no que diz respeito a Lênin durante os anos da URSS. Quanto a Lula, partilha com os outros dois a aura de líder popular e ídolo da esquerda, apesar (ou, talvez, por causa) da montanha de denúncias de corrupção, que não param de se acumular. Enfim, os três são, cada um a seu modo, "pais da pátria". (Essa foi uma das expressões mais usadas na imprensa para se referir a Mandela, o "pai da nação sul-africana" etc.)
 
Aí está mais um bom motivo para destoar da multidão e não deixar de lado o senso crítico, que parece ter sido abandonado por grande parte da imprensa nesses dias. Tirando talvez os founding fathers, os pais fundadores dos EUA (que, mais do que um país, é uma ideia), desconfio de qualquer político (aliás, desconfio dos políticos em geral) que se apresentem, e que sejam considerados como, "pais da pátria". Por motivos que acredito serem óbvios.

Em primeiro lugar, o pai da pátria, o líder carismático e personalista, está sempre acima e à frente da população, colocando-se, assim, acima da própria democracia. Não deve ser por acaso que todos os países em que se cultuam líderes desse tipo - Bolívar na Venezuela; Gandhi na Índia; Jinah no Paquistão; Mao na China; Ho Chi Mihn no Vietnã; Nasser no Egito; Ataturk na Turquia; Perón na Argentina; Getúlio Vargas (ou, mais recentemente, Lula) no Brasil - têm problemas sérios com a democracia, ou ainda estão engatinhando no terreno democrático. Em geral, regimes totalitários ou países subdesenvolvidos ou do Terceiro Mundo (como eram chamados antigamente). É que a democracia é um sistema político essencialmente impessoal, baseado no império da lei e nas instituições, e não em homens fortes, do tipo caudilhos iluminados, que combinam mais com ditaduras.

Mesmo que o líder seja associado a causas irrepreensíveis como a luta contra o racismo, pela paz e pela democracia (o que não era bem o caso de Mandela, como procurei mostrar em meus textos anteriores), o fato é que a democracia, como forma de governar e filosofia política, é incompatível com o caudilhismo e o culto da personalidade, sob qualquer de suas formas. A democracia não combina com pais da pátria.

Em segundo lugar, o culto a caudilhos políticos, assim como a pop stars, é sempre algo irracional, baseado no emocionalismo e não nos fatos. A idolatria a Mandela - para ficarmos apenas no assunto que dominou as manchetes - não foge à regra, ancorando-se em doses cavalares de paternalismo e na infantilização das massas, que choram a morte do "paizinho" Madiba até com mais fervor do que se fosse alguém da família. Nos últimos anos, depois que deixou o governo em 1999, Mandela não fez mais do que estimular, mesmo indiretamente, esse tipo de comportamento irracional e infantilizado, ao qual não falta mesmo certo elemento erótico (vi um comentarista da Globo derramar-se melosamente em elogios ao sorriso de Mandela, "o mais bonito que já vi"...). Não há como negar o elemento de farsa nesse fenômeno. (Farsa bem ilustrada pelo episódio cômico-surreal do impostor que se fez passar por intérprete de sinais na cerimônia em homenagem a Mandela. Este, na verdade um esquizofrênico, tentou depois se justificar, dizendo que viu "anjos" no estádio de futebol... Um fenômeno de alucinação coletiva, na verdade.)  
 
Ao contrário do cada vez mais desacreditado Lênin, nem Mandela nem Lula foram derrubados do pedestal em que foram colocados por décadas de propaganda e bajulação por setores da política e da imprensa. É provável que a verdade sobre Mandela continue obscurecida durante muitos anos, pelo menos enquanto houver políticos e celebridades dispostos a continuar sustentando a mentira do líder pacifista e democrata (que comandou uma organização terrorista e era amigo de ditadores, é bom lembrar). Já Lula, o maior ícone da esquerda brasileira nas últimas quatro décadas, tem sua máscara retirada um pouco a cada dia, e as revelações de Tuma Júnior são uma marretada a mais no muro de mistificação erguido em torno do "maior líder operário da História do Brasil".

(E que marretada! O que torna ainda mais inexplicável que, com exceção da Veja, nenhum outro órgão da "mídia conservadora e capitalista" tenha dado publicidade às denúncias, as mais graves desde o mensalão, e que mereceriam, por isso, pelo menos uma edição especial do Fantástico... Até o momento em que escrevo estas linhas, reina um silêncio ensurdecedor sobre o assunto.)

Finalmente, como o segredo de aborrecer é dizer tudo (houve até um bobalhão que me chamou de "ressentido" por ter exposto fatos sobre Mandela...), aí vai uma história interessante, que a meu ver ilustra bem o mecanismo psicológico por trás do culto da personalidade, e que vale para os três casos citados acima.

Conta-se que, logo após a revelação dos crimes de Stálin (até então, o Mandela da esquerda mundial), em 1956, um velho militante comunista brasileiro, adaptado aos novos ventos de mudança que sopravam de Moscou, assim definiu o culto à personalidade do "camarada" Stálin, o paradigma de todos os cultos da personalidade, e que era chamado geralmente de "pai" pelos comunistas do mundo inteiro até ser desmascarado como o tirano sanguinário que era: "- Em minha cidade, quando alguém chama outro homem de pai sem que seja seu pai biológico ou adotivo, damos um nome a isso: filho da puta"

Definição que cabe bem a quem esconde fatos para edulcorar biografias. 

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Com este texto, completo mais de MIL posts publicados no blog. A maioria, de minha própria lavra. Espero ter contribuído, de alguma maneira, para romper o muro de silêncio e de estupidez que cerca os assuntos que abordei. Acho que vou dar um tempo no blog. Tenho outros projetos a que quero me dedicar. Assim, deixo já aqui meus votos de boas festas e de um bom ano, com mais lucidez e menos assuntos para comentar (embora saiba que isso será difícil; afinal, "eles" não param...). A todos que me acompanharam até aqui, UM FELIZ NATAL E UM EXCELENTE 2014!    

quarta-feira, dezembro 11, 2013

UMA CONFISSÃO ASSUSTADORA

Não crianças, esse senhor no video acima não está cantando uma canção de ninar...


Recebi um comentário muito curioso e revelador do Giovane Martins, o rapaz que acha que sou um ressentido/ofendido/vingativo/contra-todo-mundo-o-tempo-todo porque citei aqui alguns fatos pouco lembrados sobre Nelson Mandela, o novo santo dos politicamente corretos. Ele - mais uma vez! - não rebate nada que escrevi, mas mesmo assim se acha no direito de postar em minha area de comentários. E ainda faz uma revelação estarrecedora sobre si mesmo.
 
Pensei em não publicar, em parte porque não merece resposta, como tudo que ele escreveu, e em parte por piedade. Sim, piedade. Afinal, o Mandela-boy mostra em seu comentário um lado bastante funesto de sua personalidade. Ele praticamente confessa não estar nem aí para coisas como paz, liberdade, democracia e direitos humanos (e isso porque ele se diz uma pessoa muito sensível, uma boa alma, o moço...). Fico compadecido diante de quem se detona dessa maneira. Mas acho que vale a pena responder, para mostrar o nível de certos pseudo-filósofos da internet. 
 
Não é todo dia que alguém escreve algo tão desabonador sobre si mesmo. Para azar do Giovane, eu prestei atenção ao que ele disse. Vamos lá.
 
Gustavo,

Você parece escrever partindo do princípio de que seus leitores não sabem história. Eu não. Todo mundo sabe da história do Mandela, e eu nunca a neguei. Meu texto não analisa isso.
 
Não sei quanto a quem lê o blog, mas a maioria ignora História, sim. Sobretudo a história da África do Sul (a de Mandela então, nem se fala). Basta ver a mistificação em torno da figura do "pai da nação sul-africana", que os textos do rapaz apenas reforçam.
 
Querem exemplos? Vamos lá, didaticamente:

- Quantos que estão entoando cânticos de louvor ao "pacifista" Mandela sabem que ele foi comandante de uma organização terrorista?
 
- Quantos sabem que foi pelo motivo acima, e não "por se opor ao apartheid", que ele foi preso e condenado? 

- Quantos sabem de atentados como o de Church Street? 

- Quantos sabem dos milhares de assassinatos cometidos pelo CNA contra brancos e negros?

- Quantos sabem o que era necklacing?
 
- Quantos sabem que o "democrata" Mandela era amigo de tiranos (e aplaudia tiranias)?
 
- Quantos sabem que ele foi comunista?
 
- Quantos sabem que o CNA virou uma máfia, e que os herdeiros de Mandela, como o estuprador Jacob Zuma, são bandidos?
 
- Quantos sabem que a desigualdade social na África do Sul só aumentou depois do fim do apartheid? (e não, não estou defendendo o regime do apartheid, por favor...)
 
Enfim, quantos conhecem os fatos acima? (um artigo interessante é esse aqui: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1758)
 
Giovane, pelo que ele mesmo diz, não está nessa categoria. Pelo contrário: ele diz que não nega a história do Mandela. E AQUI ESTÁ A PARTE MAIS ESCANDALOSA DO QUE ELE ESCREVEU. Se ignorasse os fatos sobre a vida de Mandela, ou se os negasse, seria melhor para ele, ele sairia melhor na fita. O problema é que o sujeito confessa que sabe dos fatos e NÃO SE IMPORTA. Como ele mesmo disse no primeiro texto: "Pouco me importa se o ex-presidente da África do Sul foi amigo do Fidel Castro, se os políticos que o sucederam fracassaram ou não, ou se o CNA (Congresso Nacional Africano) tornou-se uma máfia." Lembra disso, Giovane? Foi você que escreveu.
 
Ou seja: o camarada conhece as atrocidades do CNA, as relações de Mandela com ditadores assassinos, sua filiação ao comunismo, seu legado desastroso... e não dá a minima! Vê as pessoas louvando Mandela como um pacifista e um democrata, sabe que isso não é verdade, mas está se lixando!

Confesso que poucas vezes vi alguém se rebaixar desse jeito. É assustador!

Devo deduzir, das palavras acima, que o problema do moço é pior do que eu imaginava. Se ele desconhecesse os fatos que citei, teria pelo menos uma desculpa. Poderia alegar ignorância. Como não é o caso, não tem esse álibi.
 
Meu texto analisa quem procura se colocar contra a sociedade o tempo todo, mostrando uma atitude infantil de quem precisa chamar a atenção. Mais do que infantil, é, sim, uma atitude ressentida diante da sociedade e uma atitude de autoafirmação. Por que ficar contra todo mundo o tempo todo?

Que curioso. Eu achava que tinha escrito um texto sobre o Mandela, mas Giovane parece estar mais preocupado com minhas "intenções"... (eu, heim? da última vez que me perguntaram isso engatei um namoro sério...) Só isso para explicar essa lengalenga de ter escrito um texto (em que cita um texto meu) para "analisar" quem fica "contra a sociedade o tempo todo" etc. 

Então  lembrar fatos ignorados pela maioria e denunciar um culto da personalidade é "ficar contra a sociedade o tempo todo"? Isso é mostrar "uma atitude infantil de quem precisa chamar a atenção"? É ter "uma atitude ressentida diante da sociedade"? uma "atitude de autoafirmação"? Pensei que estava apenas lembrando fatos. Historiadores e biógrafos, portanto, são todos ressentidos e attention-seekers...

Outra coisa: quem está "contra todo mundo o tempo todo"? Não sou niilista. Defendo, sim, o que a maioria, infelizmente, despreza ou desconhece, e faço isso com base em fatos e argumentos (para os quais o jovem está se lixando). E o faço por amor à VERDADE (o que ele também despreza, como admite). Nietzsche (que está longe de ser meu filósofo favorito) dizia que somente sabe admirar quem sabe desprezar. Desprezo cultos à personalidade porque admiro e prezo a inteligência (Giovane, pelo que escreveu, pensa exatamente o oposto). Isso é "ficar contra todo mundo o tempo todo"? 

Em seguida, o pobre rapaz repete que está cantando e andando para a História. E defende uma teoria no mínimo curiosa:
 
Por este motivo, não vou refutar o que você diz, pois eu já conheço a história do Mandela. E sei que quem "endeusa" o Mandela como você diz, procura seguir o exemplo bom dele. O lado ruim que se foda, todo mundo já conhece e todo mundo sabe que foi um erro. É muito difícil, pra você, entender isso?
 
OK, Giovane. Já percebi que você não vai refutar nada que eu escrevi. Já vi que você não se dá bem com os fatos e a lógica. Já conhece a história e não dá a mínima para ela... Tanto que não vê nenhum problema em endeusar (sem aspas) um personagem politico desdenhando fatos pouco edificantes de sua biografia. Devo deduzir, então, que, como os devotos de Santo Mandela só enxergam o lado bom dele, e que o lado ruim que se foda, eu poderia seguir esse exemplo e só enxergar o "lado bom" de figuras como Hitler ou Stálin, já que eles também teriam tido um "lado bom"... Sim, porque fodam-se os fatos, como você disse. E vejam que Mandela tinha sim, virtudes, que não nego. Mas desprezar fatos pouco convenientes em nome de um culto da personalidade me parece coisa de gente deslumbrada e descerebrada. E pedir que se aceite isso é algo difícil de entender. Difícil, não: impossível. 
 
Por favor, não me diga para refutar fatos. Eu já te expliquei a mesma coisa várias vezes e é só isso que você soube responder. O próprio texto que você postou agora, diz a mesma coisa o tempo inteiro, ler ele [SIC] foi um tédio. Não fique agindo como um burro, por favor.
 
terça-feira, 10 de dezembro de 2013 10:47:00 BRT
 
Meu caro, quando se escreve um texto sobre um personagem público (ou sobre qualquer outro assunto), o mínimo que se espera é que tal análise se baseie em fatos. Mas OK, já que Giovane não se dá bem com fatos, e que acha que lembrar fatos é coisa de gente burra, gostaria de saber por que se meteu a escrever sobre esse assunto. Sim, pois o assunto é Mandela, certo? Pelo menos esse é o tema de meus textos. O rapaz me citou, e somente por isso respondi. E lhe desafiei a refutar o que escrevi. Sim, sei que isso é um tédio. Fatos são tediosos. Mais divertido é mandar o senso crítico às favas e seguir a onda de oba-oba necrofílica. Ignorance is a bliss, como se diz por aí. Mas estou em outra. Prefiro pensar. 
 
ExcluirEu ia pedir para o tal do Giovane deixar de agir como um idiota. Mas desconfio que seria inútil. Quem não liga para a verdade não merece sequer esse tipo de conselho. Nem merece mais atenção.
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P.S.: Em tempo: quem estava ontem na cerimônia em homenagem a Mandela era alguém que também procura seguir somente o lado bom dele, sem dar bola para outros fatos menos luminosos de sua vida. Estou falando de Raúl Castro, o hermano-en-jefe da ilha-prisão de Cuba. Ele também quer que os fatos se fodam. Não somente os fatos, mas o povo que ele tiraniza há mais de cinco décadas juntamente com o irmão, outro amigão do peito de Mandela. Eles querem todos que a História se foda. Mas, para o azar deles, estou aqui para defendê-la.