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quinta-feira, junho 20, 2013

NOTAS SOBRE UMA "REVOLUÇÃO" IMAGINÁRIA (2)


Voltando a como esse bafafá todo começou: concordo que a questão não se resume aos 20 centavos de aumento da passagem de ônibus em SP. Quem conhece o tal "Movimento Passe Livre" sabe muito bem que não é isso o que move esse pessoal. Eles estão se lixando pra esse tipo de coisa. Os objetivos deles, na verdade, são bem mais, digamos, revolucionários (e, portanto, inconfessáveis)... Só não vê quem não quer.
 
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Aposto o quanto quiserem que, dentro de alguns dias, algum "intelequitual" marxista/socialista/gramsciano de galinheiro, filiado ao PT ou ao PSOL e provavelmente da USP ou da PUC, vai aparecer com altas "análises" do que está acontecendo no Brasil, tentando provar por A mais B que os protestos constituem uma nova forma de expressão de revolta das massas exploradas/oprimidas contra o "neoliberalism...o", o "capitalismo selvagem", as "corporações", o FMI, o Marco Feliciano etc. Vão falar tudo, menos o essencial: que o povo está de saco cheio de Dilma e dos petralhas. Somente está confuso e não sabe direito o que quer e contra o quê está protestando, pois não tem quem o represente e o lidere numa hora dessas, já que o país não tem oposição. Vão se aproveitar disso e tentar usar as manifestações a favor das teses esquerdistas, como a própria Dilma tentou fazer em seu discurso surrealista de ontem. Querem apostar como isso vai acontecer?

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Meus parabéns aos manifestantes em SP que impediram ontem um grupo de militantes de um partideco comunista jurássico infiltrado no movimento de se apropriar do protesto, deixando claro que a manifestação era apartidária. É por aí. Não se pode deixar que esses bocós esquerdopatas sequestrem os protestos para suas agendas totalitárias. Agora só falta encontrarem um rumo para as manifestações, deixando claro que se trata de uma revolta contra O GOVERNO DE DILMA ROUSSEF e tudo que ele representa, como a impunidade de Lula e a farra com o dinheiro público na Copa. No momento em que aparecer uma faixa gigantesca dizendo FORA DILMA ou LULA NA CADEIA eu pego o primeiro avião e me junto aos protestos.
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Agora parece que todos acordaram para o fato de que a Copa do Mundo vai ser um desperdício monumental de dinheiro público. Não gosto de me gabar, mas se tivessem lido meu blog em 2007, teriam descoberto isso faz tempo.

Como os fatos não param de mostrar, eu estava certo. De novo. Infelizmente.

Taí a prova do crime: htt
p://gustavo-livrexpressao.blogspot.gr/2007/10/copa-do-mundo-para-qu.html
 
P.S.: No texto, eu estava sendo modesto: na época, falava-se que a brincadeira iria custar 6 bilhões de reais aos cofres públicos. A última estimativa bota a conta em 28 bilhões (e contando). Pois é...
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DA SÉRIE "PERGUNTAR NÃO OFENDE":

O que tem a dizer a filósofa (!) Marilena Chauí sobre os protestos no Brasil?
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Aí vem um bobinho e me escreve o seguinte:

" Fora Dilma" e quem vamos colocar lá? Aecio, Serra, Marina, Fernando Paes ? ; me desculpe mas se eles sequer são capazes de fazer uma oposição decente e mostrar um contraponto as ideias do PT, não merecem o meu voto."

Tirando a parte da oposição que nao honra as calças que veste - uma papinha de alface sem sal feita de aécios, serras e marinas -, o rapaz parece querer se fazer de besta. O FORA DILMA, assim como o LULA NA CADEIA, dariam um Norte aos protestos, que até o momento não passam de uma onda contra-tudo-e-contra-nada-ao-mesmo-tempo. Sem falar que seria a quebra de um tabu. Nem precisa ser impeachment.

A proposito, alguém lembrou "de quem colocar lá" no "Fora Collor"? E nos inúmeros "Fora FHC" dos anos 90, alguém lembrou desse detalhe?
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PERGUNTAR NAO OFENDE...
Se o tal "Movimento Passe Livre" é realmente um movimento "pacífico", como se apresenta e como diz parte da imprensa, então por que até agora não condenou o vandalismo em SP?
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O discurso ontem de dona Dilma elogiando (!?) os manifestantes (???!!!) deveria entrar pra História como uma dos mais surreais de todos os tempos. Ficou parecendo que o que está acontecendo nas ruas não tem nada a ver com o governo dela. E o pior é que tem gente na imprensa que achou o máximo (!!!).

Depois a Grande Vaiada foi se encontrar em reunião com - adivinhem quem! - LULA e o marqueteiro Joã
o Santana... Sobre o que conversaram? Será que foi sobre as tarifas de ônibus em SP?

E até agora não vi nenhuma faixa de FORA DILMA nos protestos. Somente vandalismo e slogans anódinos, que não querem dizer nada. Parece mesmo que as manifestações viraram uma grande Terra do Nunca. Muito calor e pouca luz. Que pena.
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A pergunta que não quer calar: cadê a UNE? Não são eles que gostam de protestos?

Aliás, alguém viu o Sérgio Cabral por ai? E Fernando Haddad, por onde anda? Tem político que só aparece no hora do aplauso...
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Jornalistas agredidos, lojas saqueadas, bancos depredados, carros incendiados... Não, isso não é manifestacao. É fascismo. Ponto.
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Não faltam motivos para protestar no Brasil, e inclusive para exigir a queda do governo, como a roubalheira petista e a gastança indecente com eventos inúteis e idiotas como a Copa do Mundo. Por isso é lamentável constatar que as manifestações estão sendo sequestradas por grupos radicais ultra-esquerdistas que orbitam em torno do PT e degeneraram numa onda de vandalismo sem sentido, que parece ter como único objetivo desviar a atenção do essencial e fazer quebra-quebra para provocar a reação da PM e depois posar de vítima da "violência policial" etc. O que aconteceu ontem em SP e no RJ deixou isso claro para quem ainda pensa.

Sinto-me muito à vontade pra dizer isso, pois desde o início desconfiei da sinceridade dos "manifestantes" em SP, que, divididos entre provocadores radicais e uma massa de idiotas úteis, queria o "passe livre" nos transportes públicos (?!). O resultado é que a coisa toda acabou virando uma onda de protestos confusos e sem foco, onde cabe literalmente de tudo, com reivindicações vagas e muitas vezes incoerentes e contraditórias ("contra a corrupção", "contra os políticos", "contra o capitalismo", "por um mundo melhor" etc.). Nessas condições, eu ficaria surpreso se seitas esquerdóides como o PSOL não tentassem se apropriar dos protestos
, como de fato está acontecendo.

Ainda há tempo, porém, para reverter essa situação: basta os manifestantes abandonarem os slogans abstratos e, de forma apartidária, isolarem os baderneiros infiltrados e se concentrarem no que realmente importa, dando nomes aos bois. Por exemplo: "LULA NA CADEIA", "FORA DILMA" (não necessariamente impeachment), "POR UMA OPOSIÇÃO DE VERDADE", "CHEGA DE PT" ou "CADEIA PARA OS MENSALEIROS". Aqui e ali, alguém timidamente e de forma individual lembra essas reivindicações, mas até agora não vi nenhuma delas se transformar em bandeira de luta capaz de arrastar multidões. Enquanto isso não acontecer, sinto dizer, a tendência é que os protestos virem uma oportunidade perdida.
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Sugestão de faixa para os protestos:

"LULA LÁ... NA CADEIA!"

Então? Bora pra rua?

quarta-feira, janeiro 02, 2013

A DÉCADA PERDIDA – POR MARCO ANTONIO VILLA

A década perdida

31 de dezembro de 2012
MARCO ANTONIO VILLA - O Estado de S.Paulo

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 foi recebida como um conto de fadas. O País estaria pagando uma dívida social. E o recebedor era um operário.

Operário que tinha somente uma década de trabalho fabril, pois aos 28 anos de idade deu adeus, para sempre, à fábrica. Virou um burocrata sindical. Mesmo assim, de 1972 a 2002 - entre a entrada na diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e a eleição presidencial -, portanto, durante 30 anos, usou e abusou do figurino do operário, trabalhador, sofrido. E pior, encontrou respaldo e legitimação por parte da intelectualidade tupiniquim, sempre com um sentimento de culpa não resolvido.

A posse - parte dos gastos paga pelo esquema do pré-mensalão, de acordo com depoimento de Marcos Valério ao Ministério Público - foi uma consagração. Logo a fantasia cedeu lugar à realidade. A mediocridade da gestão era visível. Como a proposta de governo - chamar de projeto seria um exagero - era inexequível, resolveram manter a economia no mesmo rumo, o que foi reforçado no momento da alta internacional no preço das commodities.

Quando veio a crise internacional, no final de 2008, sem capacidade gerencial e criatividade econômica, abriram o baú da História, procurando encontrar soluções do século 20 para questões do século 21. O velho Estado reapareceu e distribuiu prebendas aos seus favoritos, a sempre voraz burguesia de rapina, tão brasileira como a jabuticaba. Evidentemente que só poderia dar errado. Errado se pensarmos no futuro do País. Quando se esgotou o ciclo de crescimento mundial - como em tantas outras vezes nos últimos três séculos -, o governo ficou, como está até hoje, buscando desesperadamente algum caminho. Sem perder de vista, claro, a eleição de 2014, pois tudo gira em torno da permanência no poder por mais um longo tempo, como profetizou recentemente o sentenciado José Dirceu.

Os bancos e as empresas estatais foram usados como instrumentos de política partidária, em correias de transmissão, para o que chamou o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, de "projeto criminoso de poder", quando do julgamento do mensalão. Os cargos de direção foram loteados entre as diferentes tendências do Partido dos Trabalhadores (PT) e o restante foi entregue à saciedade dos partidos da base aliada no Congresso Nacional. O PT transformou o patrimônio nacional, construído durante décadas, em moeda para obter recursos partidários e pessoais, como ficou demonstrado em vários escândalos durante a década.

O PT era considerado uma novidade na política brasileira. A "novidade" deu vida nova às oligarquias. É muito difícil encontrar nos últimos 50 anos um período tão longo de poder em que os velhos oligarcas tiveram tanto poder como agora. Usaram e abusaram dos recursos públicos e transformaram seus Estados em domínios familiares perpétuos. Esse congelamento da política é o maior obstáculo ao crescimento econômico e ao enfrentamento dos problemas sociais tão conhecidos de todos.

Não será tarefa fácil retirar o PT do poder. Foi criado um sólido bloco de sustentação que - enquanto a economia permitir - satisfaz o topo e a base da pirâmide. Na base, com os programas assistenciais que petrificam a miséria, mas garantem apoio político e algum tipo de satisfação econômica aos que vivem na pobreza absoluta. No topo, atendendo ao grande capital com uma política de cofres abertos, em que tudo pode, basta ser amigo do rei - a rainha é secundária.

A incapacidade da oposição de cumprir o seu papel facilitou em muito o domínio petista. Deu até um grau de eficiência política que o PT nunca teve. E o ano de 2005 foi o ponto de inflexão, quando a oposição, em meio ao escândalo do mensalão, e com a popularidade de Lula atingindo seu nível mais baixo, se omitiu, temendo perturbar a "paz social". Seu principal líder, Fernando Henrique Cardoso, disse que Lula já estava derrotado e bastaria levá-lo nas cordas até o ano seguinte para vencê-lo facilmente nas urnas. Como de hábito, a análise estava absolutamente equivocada. E a tragédia que vivemos é, em grande parte, devida a esse grave erro de 2005. Mas, apesar da oposição digna de uma ópera-bufa, os eleitores nunca deram ao PT, nas eleições presidenciais, uma vitória no primeiro turno.

O PT não esconde o que deseja. Sua direção partidária já ordenou aos milicianos que devem concentrar os seus ataques na imprensa e no Poder Judiciário. São os únicos obstáculos que ainda encontram pelo caminho. E até com ameaças diretas, como a feita na mensagem natalina - natalina, leitores! - de Gilberto Carvalho - ex-seminarista, registre-se - de que "o bicho vai pegar". A tarefa para 2013 é impor na agenda política o controle social da mídia e do Judiciário. Sabem que não será tarefa fácil, porém a simples ameaça pode-se transformar em instrumento de coação. O PT tem ódio das liberdades democráticas. Sabe que elas são o único obstáculo para o seu "projeto histórico". E eles não vão perdoar jamais que a direção petista de 2002 esteja hoje condenada à cadeia.

A década petista terminou. E nada melhor para ilustrar o fracasso do que o crescimento do produto interno bruto (PIB) de 1%. Foi uma década perdida. Não para os petistas e seus acólitos, claro. Estes enriqueceram, buscaram algum refinamento material e até ficaram "chiques", como a Rosemary Nóvoa de Noronha, sua melhor tradução. Mas o Brasil perdeu.

Poderíamos ter avançado melhorando a gestão pública e enfrentado com eficiência os nossos velhos problemas sociais, aqueles que os marqueteiros exploram a cada dois anos nos períodos eleitorais. Quase nada foi feito - basta citar a tragédia do saneamento básico ou os milhões de analfabetos.

Mas se estagnamos, outros países avançaram. E o Brasil continua a ser, como dizia Monteiro Lobato, "essa coisa inerme e enorme".

MARCO ANTONIO VILLA É HISTORIADOR E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS (UFCAR)

sexta-feira, novembro 25, 2011

HOMENAGEM A QUEM MERECE




Tenho verdadeiro horror a homenagens, honrarias, panegíricos, essa coisa meio Rolando Lero, tão ao gosto de nossa cultura bacharelesca, em que a rasgação de seda é uma espécie de esporte nacional. É uma característica do Brasil, infelizmente, o discurso elogioso, pomposo, reverente, servil mesmo, com que muitos intelequituais e subintelequituais de botequim tanto se empenham em cair nas graças e ganhar os favores dos poderosos de plantão, não raro perdendo o senso do ridículo no meio do caminho. Considero tudo isso uma palhaçada, um dos aspectos mais nefastos de nossa cultura (outro, igualmente pernicioso, é a ausência completa de qualquer firme convicção moral).

Um dos motivos que me levaram a criar este blog foi justamente a necessidade de me contrapor a essa discurseira vazia e obsequiosa, que revela em cada adjetivo pomposo o desejo irrefreável de bajular, a vocação para cortejar os donos do poder e o puxa-saquismo, que, na era lulopetista, atingiu níveis estratosféricos. Como demonstram os títulos de doutor honoris causa concedidos ao Apedeuta, esse tipo de homenagem quase nunca tem a ver com algum mérito do homenageado. Apesar disso – ou por causa exatamente disso, melhor dizendo – vou fazer, neste texto, algo que não é do meu costume. São dois elogios. Duas homenagens.

A primeira vai para um político. Um político? Isso mesmo. Nem todos, felizmente, estão no ramo apenas para se locupletar. Uns poucos, uma pequeníssima minoria, têm o que dizer. O senador Jarbas Vasconcelos faz parte dessa minoria. Embora filiado ao PMDB, ele é uma voz dissonante, um dissidente. Algum tempo atrás, em entrevista à VEJA, ele disse o que quase ninguém, muito menos um político, tem a coragem de dizer: afirmou claramente que o PMDB é um partido corrupto e teve a ousadia (e a falta de tato político) de dizer que o Bolsa-Família, a menina dos olhos do governo lulopetista, é o maior programa de compra de votos do mundo. Sua sinceridade custou-lhe caro. Nas últimas eleições, ele se candidatou ao governo de seu estado natal, Pernambuco. Adotou o mesmo discurso suicida, usando o horário político para criticar também a farsa nacional da companheira Dilma. Resultado: perdeu de lavada, no primeiro turno. Recebeu pouco mais de 585 mil votos, ou meros 14% do total, ficando muito atrás do governador Eduardo Campos e sua formidável máquina eleitoral. Indo contra a corrente, fez uma campanha de denúncia do assistencialismo e do fisiologismo que, com os petralhas, tomou conta de tudo e de todos. Por isso, por dizer o que pensa, e não o que mais lhe conviria eleitoralmente, ele virou um pária, um leproso da política. Por isso também, Jarbas Vasconcelos merece uma estátua em praça pública.

Minha segunda homenagem, póstuma, vai não para um político, mas para um artista (duas coisas que, no Brasil, costumam misturar-se). O músico Zé Rodrix, falecido em 2009, não foi uma superestrela. Não tinha cara, nem pinta, de pop star. É possível que as gerações mais novas jamais tenham ouvido falar dele. Compositor de outra época, ele não se notabilizou exatamente pelo marketing pessoal. Sua contribuição à música brasileira foi a invenção do "rock rural" nos anos 70, com canções como Casa no Campo, eternizada na voz de Elis Regina. Mas deixou, além de belas músicas, um legado que ninguém poderá apagar. Em toda sua vida artística, que durou décadas, Zé Rodrix jamais – nunca, jamais mesmo – aceitou qualquer forma de financiamento oficial. Todos os seus shows e projetos artísticos foram bancados do próprio bolso, ou com patrocínio particular. Uma frase sua que costumava repetir era de uma clareza cortante em sua simplicidade: "Não vejo motivo para gastar o dinheiro do contribuinte num projeto pessoal". Somente por isso já merece um monumento.

Tanto Jarbas Vasconcelos quanto Zé Rodrix são dois casos excepcionalíssimos no Brasil de hoje, avacalhado pela idéia de levar vantagem e pela falta de separação entre o público e o privado. Dois exemplos raros de coragem e de integridade, de compromisso com idéias e não com interesses, em meio a um oceano de cupidez e pusilanimidade. Um político que não se rebaixa à condição de áulico do poder, ainda mais do poder lulopetista, já é uma raridade. Um artista que não aceita receber dinheiro estatal é algo simplesmente assombroso; merece figurar em qualquer lista de fatos edificantes da História da Humanidade.

Sem dúvida, tanto o senador dissidente quanto o músico que não aceitava grana do governo têm e tinham defeitos. No caso de Jarbas Vasconcelos, o fato de pertencer a um partido coalhado de oportunistas e picaretas como o PMDB é mais do que um defeito: trata-se de uma contradição insanável. Mas de uma coisa ninguém pode duvidar: ambos são vozes destoantes na indigente vida política e cultural brasileira. Pelo simples fato de dizerem "não" quando todos dizem “sim”, de dizerem “êpa” quando todos repetem bovinamente “êba”, tornaram-se motivo de vergonha para seus pares. Com isso, mostraram que é possivel, sim, fazer política e arte com dignidade e vergonha na cara. E por isso merecem todo meu respeito.

quarta-feira, julho 13, 2011

POR QUE OS BRASILEIROS NÃO REAGEM?



Juan Arias *

O fato de que em apenas seis meses de governo a presidente Dilma Rousseff tenha tido que afastar dois ministros importantes, herdados do gabinete de seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva (o da Casa Civil da Presidência, Antonio Palocci – uma espécie de primeiro-ministro – e o dos Transportes, Alfredo Nascimento), ambos caídos sob os escombros da corrupção política, tem feito sociólogos se perguntarem por que neste país, onde a impunidade dos políticos corruptos chegou a criar uma verdadeira cultura de que “todos são ladrões” e que “ninguém vai para a prisão”, não existe o fenômeno, hoje em moda no mundo, do movimento dos indignados.

Será que os brasileiros não sabem reagir à hipocrisia e à falta de ética de muitos dos que os governam? Não lhes importa que tantos políticos que os representam no governo, no Congresso, nos estados ou nos municípios sejam descarados salteadores do erário público? É o que se perguntam não poucos analistas e blogueiros políticos.

Nem sequer os jovens, trabalhadores ou estudantes, manifestaram até agora a mínima reação ante a corrupção daqueles que os governam.

Curiosamente, a mais irritada diante do saque às arcas do Estado parece ser a presidente Rousseff, que tem mostrado publicamente seu desgosto pelo “descontrole” atual em áreas do seu governo e tirou literalmente – diz-se que a purga ainda não acabou – dois ministros-chave, com o agravante de que eram herdados do seu antecessor, o popular ex-presidente Lula, que teria pedido que os mantivesse no seu governo.

A imprensa brasileira sugere que Rousseff começou – e o preço que terá que pagar será elevado – a se desfazer de uma certa “herança maldita” de hábitos de corrupção que vêm do passado. E as pessoas das ruas, por que não fazem eco ressuscitando também aqui o movimento dos indignados? Por que não se mobilizam as redes sociais?

O Brasil, que, motivado pela chamada marcha das Diretas Já (uma campanha política levada a cabo durante os anos 1984 e 1985, na qual se reivindicava o direito de eleger o presidente do país pelo voto direto), se lançou nas ruas contra a ditadura militar para pedir eleições, símbolo da democracia, e também o fez para obrigar o ex-presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992) a deixar a Presidência da República, por causa das acusações de corrupção que pesavam sobre ele, hoje está mudo ante a corrupção.

As únicas causas capazes de levar às ruas até dois milhões de pessoas são a dos homossexuais, a dos seguidores das igrejas evangélicas na celebração a Jesus e a dos que pedem a liberalização da maconha.

Será que os jovens, especialmente, não têm motivos para exigir um Brasil não só mais rico a cada dia ou, pelo menos, menos pobre, mais desenvolvido, com maior força internacional, mas também um Brasil menos corrupto em suas esferas políticas, mais justo, menos desigual, onde um vereador não ganhe até dez vezes mais que um professor e um deputado cem vezes mais, ou onde um cidadão comum depois de 30 anos de trabalho se aposente com 650 reais (300 euros) e um funcionário público com até 30 mil reais (13 mil euros).

O Brasil será em breve a sexta potência econômica do mundo, mas segue atrás na desigualdade social, na defesa dos direitos humanos, onde a mulher ainda não tem o direito de abortar, o desemprego das pessoas de cor é de até 20%, frente a 6% dos brancos, e a polícia é uma das que mais matam no mundo.

Há quem atribua a apatia dos jovens em ser protagonistas de uma renovação ética no país ao fato de que uma propaganda bem articulada os teria convencido de que o Brasil é hoje invejado por meio mundo, e o é em outros aspectos. E que a retirada da pobreza de 30 milhões de cidadãos lhes teria feito acreditar que tudo vai bem, sem entender que um cidadão de classe média europeia equivale ainda hoje a um brasileiro rico.

Outros atribuem o fato à tese de que os brasileiros são gente pacífica, pouco dada aos protestos, que gostam de viver felizes com o muito ou o pouco que têm e que trabalham para viver em vez de viver para trabalhar.

Tudo isso também é certo, mas não explica que num mundo globalizado – onde hoje se conhece instantaneamente tudo o que ocorre no planeta, começando pelos movimentos de protesto de milhões de jovens que pedem democracia ou a acusam de estar degenerada – os brasileiros não lutem para que o país, além de enriquecer, seja também mais justo, menos corrupto, mais igualitário e menos violento em todos os níveis.

Este Brasil, com o qual os honestos sonham deixar como herança a seus filhos e que – também é certo – é ainda um país onde sua gente não perdeu o gosto de desfrutar o que possui, seria um lugar ainda melhor se surgisse um movimento de indignados capaz de limpá-lo das escórias de corrupção que abraçam hoje todas as esferas do poder.

* Juan Arias é correspondente do do jornal espanhol EL PAÍS no Brasil

quinta-feira, julho 07, 2011

CARTA ABERTA AOS LÍDERES DA "OPOSIÇÃO"

Caros senhores deputados e senadores dos partidos da assim chamada "oposição" no Brasil (escrevo "oposição" entre aspas; nos próximos parágrafos, explico por quê):

Mais um ministro do governo Dilma Rousseff caiu devido a denúncias de corrupção na pasta que dirigia. É o segundo em um mês. Certamente, não será o último.

De tão repetido, o roteiro é de todos conhecido. Já se perdeu a conta de quantos membros do governo "rodaram" desde o início do mandarinato lulopetista, em 2003. Por alguns dias, sairão reportagens e artigos detalhando o esquema fraudulento. Como boa discípula do mestre, o poste de saias e botox dirá que não sabia de nada (ou que foi traída, ou que foi tudo uma conspiração das elites e da mídia, ou outra desculpa esfarrapada qualquer). Em alguns dias, tudo estará esquecido, inclusive o nome do dito-cujo. Até que outro escândalo estoure. Então tudo se repetirá. E assim outra vez, num ciclo sem fim.

Como ocorrido nas outras vezes, o ministro corrupto ficará impune, acobertado pela máquina mafiosa no poder em Brasília. E, como também ocorreu nas outras vezes, ele caiu por causa de uma reportagem de revista, e não porque a "oposição" fizesse alguma coisa.

Aliás, esse é o motivo pelo qual escrevo esta carta. Vossas excelências não fazem nada, absolutamente nada, para se contrapor de verdade ao governo dos petralhas. Já se conformaram a um jogo de cena, a um papel realmente patético de marido corneado, deixando de fazer aquilo que se espera da oposição: opor-se ao governo.

Tivemos oito anos de deboche, durante os quais o ocupante da cadeira presidencial se deleitou saqueando o Estado e zombando da lei e das instituições. E nunca antes uma oposição foi tão irrelevante. Digo mais: tão cúmplice da própria desgraça. Agora, com a Muda Pudorosa, o escárnio continua, apenas sem efeitos especiais e sem fogos de artifício.

Em 2005, quando foi revelado - graças a um membro do esquema, vindo das estranhas do poder - o maior escândalo de corrupção da História do Brasil, vossas excelências tiveram a chance de emparedar o chefe da quadrilha e despachá-lo para o lugar a que ele pertence, a lata de lixo da História. Em vez disso, porém, preferiram pensar como políticos provincianos, e não como estadistas, esperando vencer as próximas eleições. Escolheram um candidato sem qualquer expressão, incapaz de defender as conquistas de governos anteriores, como as privatizações. Um candidato sem quaisquer condições de encabeçar a tarefa histórica de livrar o Brasil da chaga do lulopetismo. O resultado foi que o chefe do mensalão não só se reelegeu, como intensificou o escárnio e a roubalheira, graças à pusilanimidade e à bundamolice de tucanos e democratas.

Quatro anos depois, a mesma coisa. Impedido legalmente de concorrer a um terceiro mandato, o chefe da quadrilha que se encastelou no poder escolheu no meio da militância uma completa desconhecida, de passado e idéias obscuras (para não falar do raciocínio tortuoso). Alguém cuja biografia política não revelava nada que a qualificasse para o cargo de presidente da República, a não ser o fato de que era afilhada do chefão. Para piorar, alguém que não assumia as próprias idéias (em questões como o aborto, por exemplo). Novamente, em vez de explorar essas fraquezas da adversária e fazer Política com P maiúsculo, ficaram no rame-rame cotidiano, deixando o candidato a vice denunciando praticamente sozinho fatos gravíssimos como a notória ligação do PT com as FARC via Foro de São Paulo (que ainda tem gente que acha que não existe, meu deus do céu...).

Entre uma eleição e outra, tirando um muxoxo aqui e ali, nenhuma ação mais enérgica, nenhum movimento coordenado contra a bandalheira e a avacalhação. Nada. Com raríssimas exceções, como o senador Jarbas Vasconcelos (aliás, do PMDB, um partido da base alugada do governo), nada mais do que timidez e capitulação, típicas de quem não honra as calças que veste.

O que falta para vocês reconhecerem que o Estado no Brasil foi tomado por uma gangue cujo único objetivo é locupletar-se no poder, loteando e aparelhando a máquina estatal com militantes e apaniguados interessados em lucrar e em perpetuar-se nessa posição? E que, diante de tal situação, o silêncio é um crime?

Vossas excelências deveriam assumir de vez que não são oposição coisa nenhuma. Deveriam deixar de fingimento e admitir o que até as pedras da Praça dos Três Poderes já sabem: que, contra os lulopetistas, vossas senhorias são uns fracos, uns incompetentes, uns incapazes, uns palermas.

Nesse sentido, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, foi mais honesto: escancarou de vez sua vocação para o puxa-saquismo, e até fundou um partido para bajular a presidenta-gerenta. Ele está fazendo aquilo que vocês apenas pensam em fazer, mas não têm coragem. Como não têm coragem de cumprir a função para a qual foram eleitos, que é opor-se e fiscalizar o governo. Não deveriam, portanto, ficar surpreendidos com a derrota nas últimas eleições e com o encolhimento de suas fileiras. Ninguém quer ficar do lado perdedor, sobretudo quando este não quer lutar.

Em qualquer país sério, oposição e governo, direita e esquerda, disputam em condições de igualdade o poder político. Dêem uma olhada. É assim nos EUA, na França, na Alemanha, no Japão ou na Groenlândia. Nesses lugares, temas como aborto e liberação das drogas são discutidos abertamente, e ambos os lados apresentam seus argumentos, tentando influenciar a opinião pública. Nenhum assunto é tabu.

No Brasil, ao contrário, ouve-se apenas um discurso. O país assiste a um processo sem precedentes de abastardamento do Estado e de avanço das patrulhas ideológicas, num movimento que a cada dia coloca mais em perigo as liberdades democráticas, como a liberdade de expressão. Minorias organizadas e regadas com o maná do dinheiro público intimidam e acossam a maioria silenciosa e impotente, buscando impor suas agendas políticas antidemocráticas. E não vejo um único parlamentar oposicionista, um simples vereador de cidade do interior, levantar-se contra essa impostura. É triste.

Um país sem oposição está a meio caminho para a ditadura.

Há alguns dias, morreu o ex-presidente Itamar Franco. Embora controverso, foi louvado unanimemente como um político honesto (o que, dadas as condições da política atual, não é pouca coisa). Nos últimos tempos, Itamar era uma das poucas vozes a fazer oposição ao governo. Isso mostra bem a pobreza política em que o Brasil se encontra.

Outro exemplo: recentemente, o STF, cedendo ao lobby gayzista - uma das frentes de atuação do esquerdismo lulopetista -, rasgou a Constituição, usurpando a função do Legislativo ao decidir pela legalização da "união homoafetiva" no Brasil. Com isso, jogou no lixo o Artigo 226 da Carta Magna, que só poderia ser modificado por Emenda Constitucional, a ser votada e aprovada no Parlamento. Alguém viu algum parlamentar oposicionista protestando contra esse golpe constitucional?

Mais recentemente, os mesmos ministros do STF, atacados pela febre politicamente correta, decidiram pela liberalização da "marcha da maconha", sob a alegação de defesa da "liberdade de expressão". Ao fazerem isso, passaram uma borracha no Código Penal, que considera crime a apologia às drogas, abrindo caminho para outros delitos do tipo, como a exibição de imagens de santos católicos em poses homoeróticas (um crime, segundo o Artigo 208 do Código Penal). Novamente, algum político da "oposição" se mexeu para cobrar providências legais nesses casos?

Mesmo nos momentos mais negros da ditadura militar, havia oposição - legal e ilegal - ao regime. Esse, aliás, foi um dos fatores a diferenciar o regime dos generais de regimes políticos idolatrados pelos que estão hoje no poder no Brasil, como o de Cuba. Não são poucos os que estão no atual governo que adorariam ver esse tipo de regime transplantado para cá. Sem uma oposição que valha o nome, têm o caminho aberto para isso.

O partido que está no poder recusou-se a votar em Tancredo Neves para acabar com o regime militar, negou-se a assinar a Constituição de 1988 e se opôs demagogicamente à estabilização da economia com o Plano Real. Ficou contra todas as conquistas importantes ocorridas no Brasil nas últimas três décadas, apenas para surfar na onda alheia e usurpar essas conquistas, vendendo-as como próprias. Além disso, seus membros mantêm relações escancaradas com ditadores e narcoterroristas. O que falta para desmascará-lo como um bando criminoso de farsantes e vigaristas?

Desculpem, mas não consigo levar a sério uma "oposição" acabrunhada e acovardada que, diante de tamanho descalabro, mantém-se calada ou condescendente, e que se mostra incapaz de qualquer ação firme contra isso que está aí.

Não posso levar a sério uma "oposição" que se deixa guiar por pesquisas de popularidade e pelo marketing político.

Não posso levar a sério uma "oposição" que se recusa a denunciar a farra dos lulopetistas no poder para não perder votos e para não ser comparada aos lulopetistas quando estavam na oposição e gritavam "Fora FHC" todos os dias.

Não posso levar a sério uma "oposição" que silencia diante das misérias de um governo alinhado com o que de pior existe na humanidade porque, afinal, este não mexeu na economia.

Não posso levar a sério uma "oposição" que deixa para jornalistas e blogueiros a missão de denunciar a óbvia desonestidade dos lulopetistas, que passaram anos vociferando contra as mesmas políticas econômicas e as mesmas práticas clientelistas e assistencialistas que antes diziam condenar, inclusive aliando-se a gente como Sarney e Collor.

Não posso levar a sério uma "oposição" que tem, como seus maiores representantes, José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves - políticos mais interessados em agradar os esquerdistas e em posar de bons-moços do que em serem oposição de verdade.

Enfim, não dá para levar a sério uma "oposição" que come mosca o tempo todo e que se recusa a defender abertamente políticas e valores LIBERAIS e CONSERVADORES - valores que são, aliás, da MAIORIA da população brasileira - para não passar por "de direita" (como se isso fosse algum xingamento), cedendo, assim, à patrulha esquerdista.

Sinto muito, mas não posso levá-los a sério. Vocês são parte da farsa.

Só me resta sugerir que façam aquilo que, certamente, muitos nos partidos da "oposição" desejam fazer, e só não o fazem por motivos legais ou de disciplina partidária: dissolvam o DEM e o PSDB. Ou, se preferirem, podem fundi-los ao PT ou ao PMDB. Tirem a máscara que vocês usam para enganar a si mesmos, e vistam de vez a camisa com a estrela vermelha. Ninguém iria notar qualquer diferença.

Fica a dica. É claro que nenhum deputado ou senador do DEM ou do PSDB vai seguir esse meu conselho. Afinal, também para assumir a própria covardia, é preciso alguma coragem. E esse, definitivamente, é um artigo em falta no Brasil da era da mediocridade.

sábado, março 26, 2011

VOCAÇÃO PARA BAJULAR


O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, está dando uma aula de como pensam e agem os políticos no Brasil e, mais do que isso, os brasileiros. Há alguns dias, ele anunciou oficialmente sua saída do DEM, partido em que, desde os tempos do PFL, fez sua carreira política, para fundar uma nova agremiação, batizada de PSD (Partido Social-Democrático). Motivo alegado: o DEM, segundo afirmou Kassab em entrevista à VEJA, perdeu o rumo, tornando-se um partido de oposição tão irresponsável quanto foi um dia o PT. Ele, Kassab, não acredita nisso e quer trabalhar "pelo Brasil". Tradução: ele quer ter liberdade para aderir ao governo de Dilma Rousseff sem corar. Está ansioso para se juntar ao cordão de puxa-sacos, que nunca foi tão numeroso, e que não pára de crescer.

Que Kassab queira pular do barco oposicionista e ingressar no partido dos vira-casacas, vá lá, é um direito dele, embora seus eleitores devam estar se sentindo traídos. Mas não precisava ofender tanto a verdade e a inteligência. O DEM, partido de oposição, ainda por cima comparável ao PT dos velhos tempos? Só pode ser brincadeira. Se há algo que falta no Brasil de hoje, mais até do que vergonha na cara de gente como Kassab, é oposição. Refiro-me a oposição de verdade, como existe em qualquer país civilizado, e não a jogo de cena. O DEM virou um mero coadjuvante do PSDB, partido irmão do PT, gerado na mesma incubadora uspiana esquerdista em que este foi engendrado. O DEM, oposição ao lulo-petismo? Quem dera que fosse. Lembram da última eleição presidenciai?

Até as pedras da Praça da Sé sabem o real motivo de Kassab estar abandonando o DEM: ele quer trocar de partido, como já é rotina na política brasileira. Como não pode fazê-lo sem o risco de ter o mandato cassado, bolou uma estratégia: criar um partido-fantasma, o tal PSD, para depois fundir-se a um partido da base governista, o PSB (Partido Socialista Brasileiro). Tudo para ficar mais perto do pudê. De liberal a socialista, num passe de mágica. Coerência ideológica total, como se vê.

Kassab nâo é o primeiro, nem será o último, a se bandear para o lado do governo. Um dos primeiros que percebeu a mudança de ventos e montou a mula encilhada foi outro prefeito de capital, o carioca Eduardo Paes. Em 2005, então jovem deputado federal pelo PSDB, ele despontou como uma das estrelas da CPI do mensalão. Era, então, uma das "promessas éticas" do Congresso contra a corrupção etc. Menos de três anos depois, porém, lá estava ele, lépido e fagueiro, no PMDB, partido do governo (de qualquer governo), fazendo juras de amor a Lula. Chegou mesmo, nessa virada, a escrever uma carta à dona Marisa Letícia pedindo desculpas por ter participado da CPI do mensalão... O motivo? Sua eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro (outro mestre insuperável na arte do puxa-saquismo é o governador do Rio, Sérgio Cabral).

A malandragem de figuras como Paes e Kassab - até no nome escolhido para o partido-tampão: quando um político não quer se definir ideologicamente, diz que é "social-democrático" ou coisa que o valha - é reveladora, ao demonstrar de forma quase pornográfica a vocação chapa-branca que caracteriza a política brasileira. E não só a política. Na verdade, trata-se de uma característica cultural tipicamente brasileira, assim como o samba e o carnaval. Bajular, adular quem está por cima, é um aspecto atávico da sociedade e da psicologia nacionais, que daria assunto, certamente, para vários tratados acadêmicos. Entre nós, historicamente, a atração pelo poder é uma força irresistivel, quase erótica. É algo que vem de longe, está nos nossos genes, por assim dizer. A atração pelo poder. A ânsia adesista. A vontade de ser áulico. O pendor para a vida de cortesão. O desejo de ser chapa-branca. A vocação do puxa-saquismo.

É algo facilmente encontrado em todos os setores, de todas as classes e categorias sociais. Pode-se com facilidade detectar o fenômeno, com níveis semelhantes de fervor e intensidade, entre intelectuais, jornalistas, artistas, bandidos e donas-de-casa. Sobretudo entre os que se convencionou chamar, por estas bandas, de intelectuais. Entre esses, o comichão servil se manifesta até mais do que entre os políticos.

Dou um exemplo: Arnaldo Jabor. A partir de 2005, ano do mensalão, e durante todo o segundo mandato do mandarinato lulista, não passou uma semana sem que o cineasta de filmes que quase ninguém viu e comentarista da Globo não despejasse suas performances indignadas contra os petistas. Nisso, ele pareceu querer expurgar a responsabilidade da classe artística na criação do mito Lula: tendo ajudado a erguer o monumento à falsidade que é o lulo-petismo, intelectuais como Jabor subitamente descobriram que o PT é um partido corrupto, e que Lula é um político brasileiro, não um santo ou um messias (alguns ainda acreditam nisso, mas para esses não há remédio que dê jeito). Como acontece quando um marido se descobre traído, a perplexidade dá lugar à desilusão, a desilusão à raiva, e esta à indignação. Que pode ser para sempre ou diluir-se com o tempo, mostrando-se, assim, uma paixão momentânea e superficial.

(Claro, para não fugir à regra dos intelectuais esquerdistas, não faltaram a Jabor, nesses anos todos, oportunidades de compensar sua desilusão com o lulo-petismo, reforçando o coro dos inimigos de George W. Bush e da guerra no Iraque, por exemplo, ou cantando loas a Barack Obama. Outros fazem o mesmo por outros meios: criticando, por exemplo, o "politicamente correto", mas apondo suas assinaturas em manifestos e abaixo-assinados em favor de Hugo Chávez... Tudo para ficar de bem com a beautiful people, a gente linda e maravilhosa que dita as regras de pensamento e comportamento no Brasil. Como diz o provérbio: quem muito fuma cachimbo, fica com a boca torta.)

Hoje, vê-se que toda aquela raiva e indignação de Jabor em relação a Lula e aos mensaleiros não passou de fogo de palha, de uma oposição de ocasião, como foi também a do PSDB e a do DEM (vide Eduardo Paes e Kassab). Mal acabou o governo Lula e Jabor já retornou ao estado normal de um intelectual brasileiro, substituindo a indignação pelo adesismo. Seguindo sempre a corrente, ele apressou-se em ver as diferenças entre Dilma Rousseff e seu criador e inventor, Lula da Silva, inventando uma Dilma que não existe.

Para ele, Jabor, assim como para muita gente, Dilma é a anti-Lula. Onde Lula falava e aparecia demais, ela, Dilma, acerta ao falar e aparecer de menos, governando discretamente por trás dos bastidores, quase como uma rainha da Inglaterra. Onde Lula apoiava ditadores, ela, Dilma, condena os apedrejamentos de mulheres no Irã. Onde Lula se mostrava omisso e dizia não saber de nada, ela cobra resultados de seus subordinados. E assim por diante.

É mais um mito, claro, assim como foi o mito lulista. Dilma não é o anti-Lula coisa nenhuma. É, sim, a continuação do Apedeuta, que a pariu e que a moldou. As mudanças (se é que se pode chamar assim) cosméticas na política salarial ou na política externa, por exemplo, nada mais são do que isso: mudanças cosméticas, necessárias para corrigir os abusos do lulanato (a verdadeira herança maldita), como o aumento dramático do déficit público e os danos à imagem do governo pelo apoio ao que há de pior na humanidade. A essência do lulo-petismo, esta continua intocada. O projeto de poder continuísta do PT e de seus sócios permanece exatamente o mesmo. O objetivo de acabar com a democracia - mediante o amordaçamento da imprensa, por exemplo - está mais forte do que nunca. A diferença é que, com Dilma, o projeto de poder petista deixou de ser pessoal para virar uma pelegocracia.

Tamanha é a cegueira para esse fato mais que óbvio que gente como Arnaldo Jabor, mesmo sem ser petista, acaba exagerando na bajulação. Jabor já chegou a dizer que acha Barack Obama "sexy". Agora, acaba de declarar que acha Dilma Rousseff bonita. Bonita só, não. Bonita e inteligente. Que ele a ache bonita, tudo bem: afinal, tem gosto para tudo. Mas, inteligente... Bem, inteligente supõe certo nível de coordenação mental, ou, pelo menos, de articulação verbal. E quem já teve o duvidoso privilégio de ouvir Dilma Rousseff discorrer sobre qualquer assunto, sabe que lhe faltam esses dois requisitos num nível abaixo do aceitável para um adolescente, quanto mais para alguém que ocupa a Presidência da República.

Se jogadas como a de Gilberto Kassab e comentários como os de Arnaldo Jabor provam alguma coisa, é que o desejo de agradar, a vocação para aplaudir, é a verdadeira ideologia nacional do Brasil. A tal ponto que provoca mesmo frêmitos de excitação erótica em quem a pratica. Parafraseando o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, o poder - melhor dizendo, a bajulação dos poderosos - é mesmo um afrodisíaco.