sexta-feira, dezembro 06, 2013

MANDELA, O AVESSO DO MITO

 
Morreu Nelson Mandela. Como não poderia deixar de ser, desde o primeiro momento a internet foi inundada com homenagens sem fim ao "grande líder pacifista", "defensor da democracia e da liberdade" etc. Durante algum tempo, não vai se falar em outro assunto. Falta pouco para pedirem sua canonização, mas acho que é só questão de tempo.
 
Como sempre acontece em momentos assim, a emoção costuma tomar conta da razão, e a lenda se sobrepõe à realidade. Sobretudo em países como o Brasil, onde, mesmo com a internet (ou talvez por causa dela) a informação sempre chega de segunda mão (isso quando chega), e onde os heróis cultuados pela esquerda, em suas várias roupagens, são os únicos considerados dignos de reverência. Por isso mesmo é necessário lembrar os fatos, por mais que sejam desagradáveis. Além do mais, sempre tive uma desconfiança instintiva em relação a cultos da personalidade, seja de quem for, os quais só servem para alimentar a mitologia e encobrir a verdade. Se o herói em questão está morto, então, a coisa adquire ares indisfarçáveis de necrofilia, nos moldes dos cultos à múmia de Lênin e a Hugo Chávez, para quem foi criado até mesmo um "Dia da Lealdade e do Amor ao Comandante Chávez" (!).
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Que me perdoem as carpideiras de plantão, e me desculpem se eu estragar o velório, mas a verdade é para ser dita. Sim, é verdade que Mandela foi um símbolo da luta contra o apartheid, o regime racista da África do Sul, tendo permanecido preso durante 27 anos etc. e tal. Por esse motivo, ele é digno de admiração. Mas sim, também há fatos pouco abonadores em sua biografia, geralmente omitidos por seus admiradores (e que serão convenientemente esquecidos por grande parte da imprensa nos próximos dias, semanas, meses e anos).  Mandela, se foi inegavelmente um "grande líder", também tinha um lado negro (sem trocadilho), como também tinham Gandhi e Martin Luther King (que, ao contrário de Mandela, eram pacifistas - ele só se converteria à luta pacífica na cadeia).
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Nelson Mandela tornou-se um misto de santo e herói muito mais pelo caráter odioso do regime que o encarcerou e contra o qual lutou do que por suas qualidades pessoais e políticas. Ele teve o mérito de não ceder ao revanchismo e promover a reconciliação entre brancos e negros na África do Sul após sair da prisão, e nisso ele foi, sim, um gigante – conforme mostra o famoso jogo de rúgbi em 1995 retratado no filme de Clint Eastwood com Morgan Freeman e Matt Damon, Invictus (2009). Fora isso, porém, há pouca coisa a credenciá-lo como um grande herói da humanidade. Além das amizades com ditadores como Fidel Castro, Robert Mugabe e Muamar Kadafi (vejam o video acima, em que Mandela diz aos que estivessem irritados com sua amizade com o "irmão Kadafi" que "pulassem numa piscina"), o Congresso Nacional Africano (CNA), movimento que liderou e que hoje está no poder na África do Sul, tinha inegáveis ligações com o Partido Comunista e seu braço armado, o Umkhonto we Sizwe (liderado por Mandela) praticou o terrorismo como método de luta (membros seus receberam treinamento militar na Líbia de Kadafi). Aliás, foi por isso que ele, Mandela, foi preso e condenado à prisão perpétua. Sua ex-esposa, Winnie, teve vários crimes contra os direitos humanos e de corrupção, cometidos em parceria com o CNA, revelados pela Comissão da Verdade e Reconciliação criada após o fim do apartheid (esta sim, uma Comissão da Verdade de verdade, e não a aberração revanchista criada pelo governo Dilma para tentar reescrever a História e passar uma borracha nos crimes da esquerda). O fato de o regime do apartheid ser desumano e antidemocrático não torna automaticamente democratas e humanistas todos aqueles que se opuseram a ele, assim como os que pegaram em armas contra a ditadura militar no Brasil não eram, eles também, fãs da democracia e dos direitos humanos, muito menos referências éticas (e aí estão os companheiros presos Zé Dirceu e Genoíno para provar).
 
Além disso, Mandela jamais usou seu enorme prestígio e influência internacional para dizer uma única palavra a favor da democracia e dos direitos humanos em países dominados por ditadores amigos seus, como Cuba, Líbia e Zimbábue – onde impera desde 1980 um verdadeiro regime de apartheid, com perseguições racistas contra a população branca (o racismo mudou de lado, como mostra o absurdo sistema de cotas raciais nas universidades e no serviço público adotado no Brasil). Por sua vez, seus herdeiros e sucessores políticos Thabo Mbeki e Jacob Zuma foram um desastre em quase todos os sentidos, deixando um país assolado pela AIDS, pela corrupção, pelo desemprego e por altos índices de criminalidade. Mbeki já chegou a afirmar que o vírus é uma "farsa imperialista" e Zuma, o atual presidente sul-africano, responde a vários processos por estupro e acredita que fazer sexo com virgens "cura" o homem da doença... Enquanto isso, o CNA, de movimento contra a segregação racial e pelos direitos da maioria negra, virou uma grande máfia clientelista encastelada no poder, uma máquina de corrupção e loteamento do Estado capaz de fazer inveja ao PT ou ao PMDB.
 
Por tudo isso, arrisco-me a ser linchado pelas patrulhas ao dizer que grande parte das lágrimas que serão derramadas por Mandela deveriam ser poupadas ou, pelo menos, melhor empregadas. Ao contrário do que dirão seus apologistas e os devotos das causas politicamente corretas, Mandela não foi santo e, se foi herói, foi pela metade. Ou poderia ter sido mais. Ele certamente foi grande, mas não tanto quanto pensa a maioria. Infelizmente ou não, a verdade precisa ser dita.

domingo, novembro 17, 2013

Marcola e Fernandinho Beira-Mar prestam solidariedade aos mensaleiros e se declaram presos políticos

 
O ex-ministro José Dirceu e o deputado federal José Genoíno, que tiveram a prisão decretada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) no dia 15 de novembro por seu envolvimento no escândalo do Mensalão em 2005, receberam um apoio de peso. Inspirados pelo exemplo dos petistas, que se declararam "presos políticos", os líderes das facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital), de São Paulo, Marcos Willians Herbas Camacho (vulgo Marcola) e Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, Luiz Fernando da Costa (o Fernandinho Beira-Mar), presos desde 2001, lançaram hoje, dia 17, um manifesto no qual protestam de forma veemente contra a "forma arbitrária e antidemocrática" com que foram condenados, e se declaram, também, presos políticos.

No manifesto - chamado de "salve" na gíria criminal -, Marcola e Beira-Mar expressam total apoio e solidariedade aos doze condenados cujos mandados de prisão foram expedidos na última sexta-feira. Não foram poupadas palavras duras ao ministro do STF Joaquim Barbosa, que decretou a prisão imediata dos acusados: "negro traidor" e "capitão-do-mato a serviço da elite conservadora" são alguns adjetivos assacados contra Barbosa. O manifesto também acusa a "mídia burguesa" e os "interesses capitalistas" pelas detenções. "Nesse momento difícil que os manos companheiros presos políticos Zé Dirceu, Genoíno, Delúbio, Valério, Pizzolato e outros estão atravessando, queremos mandar um salve e manifestar todo nosso apoio e solidariedade. Também nos consideramos presos políticos", afirma o texto do manifesto. "Assim como vocês, somos vítimas inocentes do sistema, punidos injustamente e sem provas por termos lutado por um mundo melhor, mais justo, fraterno e solidário". 
 
A nota louva ainda Dirceu, ex-ministro da Casa Civil do governo Lula, e Genoíno, ex-presidente nacional do PT, chamando-os de "heróis da luta pela democracia" e "guerreiros do povo brasileiro". Quanto a Dirceu, o texto credita sua prisão a uma "perseguição das forças reacionárias que dominam há quinhentos anos este país" e à "inveja da elite". Esta não se conformaria, segundo o texto, em consumir apenas vinhos nacionais e de segunda categoria, "mordendo-se de inveja por não poder, como Dirceu, desfrutar um Romané Conti de 2 mil reais a garrafa todo café da manhã".
 
O manifesto contesta a legitimidade das prisões e finaliza, de forma desafiadora:  "Não poderão prender nossas consciências. Abaixo o sistema! Liberdade para os presos políticos! Viva o PT!"
 
Procurado por nossa reportagem, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se encontra de férias em Cuba, declarou por sua assessoria que não irá comentar a nota-manifesto dos dois líderes criminosos. Entretanto, afirmou que considera os petistas encarcerados "presos de consciência" e "vítimas de um julgamento de exceção". "É triste ver os cumpanhêro (sic) Dirceu e Genuíno ser preso desse jeito", lamentou o ex-presidente. E acrescentou, lembrando visita presidencial dele à ilha em 2010: "Eles (os petistas presos) são os único prêsu políticu (sic) da América Latina, hoje. Os daqui de Cuba é tudo (sic) bandido comum". 

Do lado de fora das penitenciárias de segurança máxima de Presidente Bernardes (SP) e de Catanduvas (PR), onde Marcola e Beira-Mar, respectivamente, cumprem pena por tráfico de drogas, assalto, sequestro e homicídio, um grupo de militantes e simpatizantes está desde ontem em vigília, defendendo a inocência dos acusados.

sexta-feira, novembro 08, 2013

O BLOG NA ZUEIRA

Este blog foi citado pelo destemido Joselito Muller no hangout da Conexão Conservadora deste dia, oito de novembro do Ano da Graça de dois mil e treze. Está no vídeo cujo link vai abaixo, a partir de 51:30. Registro o fato com uma ponta de orgulho e mal-disfarçado cabotinismo. Retorno o gesto sugerindo aqui, como já fiz no facebook, o blog do Joselito - um dos melhores portais humorísticos da internet no Brasil, implacável em suas sátiras à ilimitada estupidez petista: http://joselitomuller.wordpress.com/. Fico feliz que um de meus posts tenha dado origem a uma de suas notícias fictícias que tanto aborrecem os cumpanhêru.  
 
A propósito: Joselito Muller, que por acaso é meu conterrâneo, está sendo alvo de um processo kafkiano movido contra ele pela ministra Maria do Rosário, secretária nacional de direitos humanos do governo Dilma. Sua excelência acionou a Polícia Federal e quer fechar o blog de Joselito por ter confundido uma piada com uma notícia. Petistas são assim: quando não entendem uma piada, chamam a polícia e pedem censura.
 
Agora, para que minha glória seja completa, só falta a Maria do Rosário me processar.
 
Aí vai o link para o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=PaFQDtjoAnQ

sexta-feira, novembro 01, 2013

Lei 14.356 - Trata da regulamentação do uso do humor para fins sociais e dá outras providências

A Presidenta da República, no uso de suas atribuições legais, tendo em vista o alto número de queixas contra humoristas devido a piadas consideradas preconceituosas e ofensivas a membros de comunidades raciais, étnicas e sexuais, bem como a autoridades do Estado, e considerando que o humor deve ter a função social de divulgar mensagens politicamente corretas e edificantes, não podendo, portanto, ser instrumento para ridicularizar minorias, decreta e manda dar ampla publicidade à seguinte Lei, que estabelece Regras de Conduta para humoristas, blogueiros e engraçadinhos em geral:
 
Art. 1: Estão terminantemente proibidas a apresentação, divulgação e propagação, por quaisquer meios, de  piadas vulgares, grosseiras e de mau gosto.
 
Art. 2: Piadas que façam menção a políticos e/ou a membros das  três esferas da Administração Pública devem antes ser submetidas a uma comissão adrede estabelecida, com a participação de membros de partidos políticos, do Ministério da Justiça e da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, além de ONGs, sociólogos, antropólogos e gente que usa o sobrenome "Guarani-Kaiowá" no facebook. Tal comissão de especialistas encarregar-se-á de analisar a piada em questão e de autorizá-la ou não, segundo parecer por ela preparado e por mim aprovado.
 
Parágrafo único - Piadas com ministros de Estado ou com petistas estarão submetidas a especial escrutínio, justificável em vista da possibilidade de não serem compreendidas e gerarem ações judiciais de natureza criminal por calúnia e difamação, por serem confundidas com notícias.
 
Art. 3: Ficam proibidas piadas com minorias.
 
& 1 - Em casos excepcionais, piadas envolvendo membros da comunidade de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transsexuais e Transgêneros (LGBTT) serão aceitas, desde que o alvo da sátira sejam gays não-assumidos, que posam de macho, identificados com setores que se opõem à agenda LGBTT (um pastor evangélico ou deputado conservador, por exemplo). Somente nesse caso específico o uso de palavras como "viado", "bicha" ou "boiola" está autorizado. Em qualquer outro caso - imitar os trejeitos homossexuais de alguém, por exemplo -, trata-se de preconceito e discriminação, que devem ser exemplarmente coibidos e punidos. 
 
& 2 - Incluem-se na mesma categoria do parágrafo acima piadas com afro-descendentes, indígenas, quilombolas, portugueses ou papagaios (NOTA: inserido por pressão dos militantes em defesa dos animais).
 
Art. 4: No tocante a piadas com temática religiosa, estão liberadas apenas as que versarem sobre a religião cristã, em qualquer de suas vertentes, sobretudo evangélica e católica. Permanecem vedadas piadas com outras confissões religiosas, particularmente a religião islâmica que, sendo exótica e especialmente militante, deve gozar de status especial e não ser alvo de brincadeiras, como disse o Fábio Porchat e o pessoal do Porta dos Fundos.
 
Cumpra-se e publique-se.
 
 
Brasília, 1 de novembro de 2013
Décimo ano da refundação da República
Dilma Rousseff
Presidenta da República Federativa do Brasil
Maria do Rosário
Secretária Nacional dos Direitos Humanos

terça-feira, outubro 29, 2013

OS ESTÚPIDOS

 
Quando começaram as primeiras "manifestações" em São Paulo, em junho, promovidas pelo "movimento passe livre" (MPL), grupelho de extrema-esquerda alinhado ao PT, tentei alertar que tudo não passava de uma grande provocação e teatro de rua com interesses eleitoreiros, usando o "passe livre" (uma ideia, aliás, inviável e demagógica) como pretexto. Afirmei - e os fatos me deram razão - que o MPL buscava tão-somente provocar a PM, descumprindo acordos, invadindo áreas restritas e promovendo abertamente o caos e a baderna, tentando criar, assim, um cadáver a ser explorado politicamente. (Felizmente, não tiveram êxito.)

Na ocasião, vocês devem lembrar, houve choques violentos, com excessos de ambos os lados. Quando uma jornalista foi ferida no olho por uma bala de borracha, chegou a haver um começo de movimento de repúdio à PM nas redes sociais; artistas e celebridades posaram com maquiagem imitando um olho roxo (foi a maneira escolhida por eles de demonstrar "solidariedade" à moça). Na mesma época, um soldado PM foi espancado e teve a cabeça arrebentada por um grupo de "manifestantes" (ainda era assim que a grande mídia os chamava). Chamei a atenção também para esse fato - a violência dos vândalos contra a PM - e afirmei que deveria ser usada a mesma régua moral para julgar os dois lados. Perguntei por que não se fazia também um movimento de solidariedade ao PM ferido. Por esse motivo, fui bastante criticado.

Logo em seguida, a população saiu às ruas, protestando "contra-tudo-isso-que-está aí". O MPL, vendo que perdera o controle da situação e desencadeara um movimento muito mais amplo e apartidário, rapidamente tirou o time de campo (o que prova que seu objetivo jamais foi o mesmo da população nas ruas). Mas o vandalismo prosseguiu, agora por obra dos black blocs, e com o mesmo objetivo de provocar a PM e instalar o caos. Até que as pessoas, confusas, cansadas e com medo da violência, voltaram para casa. Esvaziados os protestos de seu aspecto de massas, partidos de esquerda que haviam sido expulsos das manifestações e movimentos como o black bloc e o MPL voltaram à carga, metendo-se em greve de professores (instrumentalizada pelo PSOL no RJ) e até em depredação de laboratório para resgatar beagles (outra estupidez).

Pois bem. Durante todo esse tempo, enquanto eu e uma meia dúzia de blogueiros direitistas e reacionários dizíamos que o black bloc e o MPL eram tropas de choque do obscurantismo político, o que fazia muita gente descolada, artistas inclusive? Persistiam na ladainha de atacar a "repressão policial" contra os "manifestantes que só querem um mundo melhor" etc., mesmo quando estes depredavam e saqueavam lojas e bancos. Caetano Veloso chegou a posar fantasiado de black bloc, o que deve achar uma coisa, assim, muito fashion... Surgiu a tal "mídia ninja", financiada aliás com dinheiro público, unicamente para "denunciar" a ação da polícia nos protestos etc. Novamente, muitos caíram na esparrela, inclusive parte da imprensa, como a Rede Globo, que, mesmo tendo seus jornalistas agredidos e veículos destruídos pelos black blocs, ainda insiste em tratá-los não como os fascistas que são, mas como idealistas românticos, os arautos de um novo mundo etc. etc.

Em todos esses momentos, uma constante: a violência seria uma "exceção" à regra, os vândalos seriam "infiltrados" nas manifestações "pacíficas" e - o mais importante - a culpa da violência seria da polícia, não dos black blocs (que estariam apenas "reagindo" à violência policial etc.).

Por incrível que pareça, ainda há quem pense assim. Mesmo depois das cenas do dia 25 em São Paulo, quando um coronel da PM foi salvo por seus colegas de uma tentativa de linchamento nas mãos de um grupo de arruaceiros black blocs, sem que tivesse havido, pelo que mostra o vídeo, nenhuma ação violenta policial (e mesmo que tivesse havido, nada justifica a bestialidade da agressão). Mesmo seriamente ferido na cabeça e na clavícula e tendo a arma roubada, o coronel ainda tentou controlar a tropa, ordenando a seus subordinados que não perdessem a cabeça (duvido que algum black bloc tivesse a mesma preocupação). Mesmo assim, ainda há quem diga que a violência dos black bloc é uma reação à violência da PM etc. Apesar dos fatos, persiste uma animosidade psicológica, instintiva, pela polícia e um sentimento a favor dos que usam de todos os meios - inclusive o terrorismo - contra ela.

Por que isso acontece? Por vários motivos, mas eu destacaria um deles: prevalece, entre nós, um certo ranço anti-polícia, anti-PM, que na verdade é um ranço anti-ordem e anti-autoridade, vista sempre como sinônimo de autoritarismo (o fato de os black blocs se apresentarem como "libertários" também contribui para esse mito).

Esse ranço, essa mentalidade distorcida, que costuma desaparecer quando somos assaltados, tem suas raízes certamente na lembrança do regime militar, mas não somente isso: trata-se de um sentimento de ódio, uma revolta difusa contra a própria Democracia, da qual os militares e a policia são guardiães. Há uma dificuldade tremenda em aceitar o fato de que, num Estado Democrático de Direito, a polícia não é o DOPS, não é o DOI-CODI: é, quer queiram quer não, a DEMOCRACIA FARDADA. Atacar a PM é, portanto, atacar a própria Democracia. Ponto.

É difícil para muita gente entender isso, pois é difícil para a maioria das pessoas entender a Democracia, um regime que, é bom lembrar, é o Império da Lei. Mais difícil ainda, para muitos, é aceitá-la. Defendê-la, então, é para poucos, pouquíssimos. Todos querem se aproveitar e se beneficiar das liberdades, mas quase ninguém arrisca a própria segurança e, muitas vezes, a própria vida para salvaguardar os direitos de todos. Inclusive o direito de protestar. E recebendo em troca não a gratidão ou o simples reconhecimento, mas pau, pedra e coquetel molotov. É isso que faz a polícia.

O ataque brutal e covarde contra o coronel Reynaldo Simões Rossi foi, portanto, mais do que uma agressão de um bando facinoroso de delinquentes contra um representante da Lei e da Ordem (o que já seria grave o suficiente): foi um ATENTADO CONTRA A DEMOCRACIA. Um atentado do tipo fascista e terrorista - as duas palavras mais adequadas para descrever o "movimento" black bloc. Este não passa de uma reunião de bandidos, criminosos estúpidos que usam um discurso ideológico pseudo-anarquista como desculpa para espalhar o caos e preparar o caminho, assim, para o TOTALITARISMO, com a anuência tácita de quem está no poder, hoje, no Brasil.

Aqueles que aplaudiram ou ignoraram a violência contra a PM desde junho têm a obrigação moral de pedir desculpas ao coronel Rossi e a todos os policiais que zelam não somente pela segurança pública, mas pelo direito de todos se manifestarem democraticamente, de maneira ordeira e pacífica. Não é o caso do black bloc, um bando fascista, inimigo da Liberdade, e que tem na violência não uma simples tática de guerrilha urbana, mas a base mesma de sua ideologia antidemocrática e totalitária. Depredar, queimar, destruir, saquear, é a sua razão mesma de existir. Gente assim não merece contemplação. Quem compactua com a violência deles também não. Para eles, Polícia e Democracia.

sexta-feira, outubro 18, 2013

OS RIDÍCULOS

 
Semana cheia essa que passou. Em questão de dias, duas obras-primas do humorismo.
 
Primeiro, foi a ministra dos direitos humanos (?) do governo petista de Dilma Rousseff (aquela que vê cachorros ocultos atrás de cada criança - mais uma pra lista de piadistas involuntárias), a petista Maria do Rosário, indignadíssima querendo acionar a Polícia Federal para tirar do do ar um site da internet e punir os responsáveis. Chegou a divulgar uma Nota Pública a respeito etc. e tal. Alegou que o site promove a calúnia e a desinformação sobre a sua pessoa. Isso porque publicou, como notícia, que ela, Maria do Rosário, teria ficado comovida com o bandido que levou dois pipocos de um policial ao tentar roubar uma moto (o que si non è vero, è ben trovato, mas deixa pra lá...). O meliante foi baleado numa tentativa frustrada de assalto gravada em um vídeo que foi aplaudido por dez em cada dez cidadãos de bem do país, rapidamente virando um viral na internet. Tudo OK, se não fosse um pequeno detalhe, que ninguém na assessoria da ministra parece ter lembrado: o site em questão é um site de humor! (gargalhadas)
 
Depois, foi o ídolo de gerações de moçoilas e também de rapazes deslumbrados, o petista Chico Buarque, que se juntou ao clube dos censores que diz ter combatido durante a ditadura militar ao tentar impedir - e tentar justificar! - a censura em biografias de artistas como ele próprio. Chegou mesmo a escrever, com sua prosa de versejador, um artigo n'O Globo tentando justificar o injustificável. Recebeu a solidariedade de Paula Lavigne, a ex-mulher de Caetano Veloso, o mais novo "new kid on the black bloc" (e que se inscreve assim, também, na galeria nacional da ridicularia). Chico Buarque continua sendo um artista de extrema sensibilidade. Sua capacidade de entender a alma feminina é admirável. Deve ser o único capaz de compreender os sentimentos de Paula Lavigne. 
 
Os fãs-tietes-devotos de Chico Buarque, que só devem ser menos numerosos do que as torcidas do Flamengo e do Corinthians juntas, estão se dizendo decepcionados. Afirmam que o moço está mudado etc. Também, pudera:  como é que o ídolo da esquerda caviar e endinheirada, que ficou mais de quarenta anos elogiando a ditadura cubana dos irmãos Castro, pode defender agora a censura?! Que absurdo! Onde já se viu? Que falta de coerência! (gargalhadas, mais gargalhadas)  
 
Uma ministra dos direitos humanos emitindo uma Nota Pública contra uma piada e querendo tirar do ar um site de zoação. Chico Buarque mostrando que hoje ele é quem manda, falou tá falado, não tem discussão... No Brasil, os maiores comediantes são aqueles que querem continuar a ser uma piada que se leva a sério.
 
Petistas são ridículos. Só isso a dizer. São ridículos, ridículos.

quinta-feira, outubro 10, 2013

LEIAM MARX. POR FAVOR, LEIAM MARX...



Bastou um estudante ter escrito uma carta ao professor da faculdade se negando a fazer um trabalho elogiando Karl Marx que se montou um banzé enorme na imprensa contra o autor da missiva: imediatamente choveram insultos ad hominem ao rapaz, na reprodução da velha tática stalinista de character assassination ("ele é monarquista", "é rico", "gosta de baladas", "gosta de armas" etc.). O fato de o português da carta não ser dos melhores e de o "Decálogo de Lenin" ser uma falsidade histórica (nem precisava...), também ajudou a montar o ambiente de linchamento moral.

Tudo isso me leva a ser a favor que se estude Marx nas escolas. Isso mesmo: quanto mais souberem o que realmente o furunculoso disse, menos os estudantes vão se identificar e simpatizar com suas teorias. Aliás, um amigo meu, o Nelson, fez exatamente isso. Ao contrário da maioria dos marxistas, ele leu Marx. Ele quer dizer umas palavras sobre aquele que muitos chamam, carinhosamente, de "o Velho". Fala, Nelson!
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O VELHO

 
por Nelson Rodrigues
 
Em recente confissão, contei a minha visita à casa de uma grã-fina que, de três em três meses, é capa de Manchete. E, de fato, sempre que Justino Martins está em apertos, vai ao arquivo e apanha a cara da minha belíssima anfitriã. O leitor nem desconfia que já viu a mesmíssima capa umas quinze vezes. Não há nada mais parecido com uma grã-fina do que outra grã-fina. Por dentro e por fora, todas se parecem. Quem viu uma, viu as outras.
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Entro no palácio e nada descreve a minha perplexidade. Conheço, de longa data, a dona da casa. Mas como identificá-la, se lá todas se pareciam entre si como soldadinhos de chumbo? Cumprimentei umas oito, na ilusão de que era a própria. Até que uma delas, ligeiramente mais lânguida, ligeiramente mais afetada que as demais, suspirou: - “Até que enfim veio à minha casa!”. Fez-se luz em meu espírito. Era aquela.
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Bem. Estou-me perdendo no secundário em prejuízo do essencial. O que eu queria dizer é que lá passei umas cinco horas. E, até o fim da noite, só se ouviu um nome e só se falou de uma figura: Marx. Tudo era marxista. O mordomo de casaca devia ser outro marxista. Idem, os garçons dos salgadinhos, uísque e champanhe. E Marx não era apenas Marx. Não. De um momento para outro, passou a ser “o velho”. Damas e cavalheiros diziam “o velho” com uma salivação intensa.
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Foi quando, a folhas tantas, alguém lembrou que “o velho” era dado a furúnculos. Houve um frêmito de volúpia geral e inconfessável. Parece meio difícil emprestar qualquer transcendência a uma furunculose. Pois bem. Havia, ali, um tal clima marxista que os furúnculos do “velho” pareciam mais resplandecentes do que as chagas de Cristo. Os decotes palpitaram. Os cílios postiços tremeram. Havia como que uma voluptuosidade difusa, valorizada, atmosférica. E, de repente, Marx deixava de ser o profeta, o gênio, o santo. Parecia mais um fauno de tapete, torpe e senil. Ao passo que as damas presentes seriam ninfas também de tapete.
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Por aí se vê que uma simples furunculose pode deflagrar um misterioso surto erótico. Saí de lá às quatro da manhã e sem me despedir. Não foi incivilidade, absolutamente. É que eu reincidia na mesma confusão visual. Como reconhecer a anfitriã, se todas as presentes eram iguaizinhas umas às outras? Vim para casa e pensava em tudo o que vira e ouvira no sarau grã-fino.
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Eis o que eu pensava: “Como a nossa alta burguesia é marxista!”. E não só a alta burguesia. Por toda parte, só esbarramos, só tropeçamos em marxistas. Um turista que por aqui passasse havia de anotar em seu caderninho: - “O Brasil tem 80 milhões de marxistas”. Hoje, o não-marxista sente-se marginalizado, uma espécie de leproso político, ideológico, cultural, etc. etc. Só um herói, ou um santo, ou um louco, ousaria confessar, publicamente: - “Meus senhores e minhas senhoras, eu não sou marxista, nunca fui marxista. E mais: - considero os marxistas de minhas relações uns débeis mentais de babar na gravata”.
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Mas contei o episódio da furunculose para concluir: - como nós conhecemos Marx! E o conhecemos na sua intimidade doméstica, prosaica e profunda. Somos autoridades em seus furúnculos. Do mesmo modo, estamos informadíssimos sobre as suas tosses, bronquites, asmas, aerofagias etc. etc. Resta apenas uma pergunta: - e teremos a mesma intimidades com os seus escritos? Aqui se insinua a minha primeira dúvida.
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Senão, vejamos. Há três ou quatro dias, fui eu a um sarau político. Lá, como no grã-finismo, o marxismo reinava. Cheguei disposto às provocações mais sórdidas. Meus bolsos estavam entupidos de notas. Reuni a fina flor da “festiva” e comecei: “venham ouvir umas piadas bacanérrimas. Ouçam, ouçam!”. E, de repente, tornei-me extrovertido, plástico, histriônico, como um camelô da rua Santa Luzia. Promovia idéias como quem vende laranjas, canetas-tinteiro, pentes, isqueiros, calicidas.
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Logo juntou gente. E comecei a ler frases de recente leitura: - “O imperialismo é a tarefa dos povos dominantes – Alemanha, França, Inglaterra, Estados Unidos”. Estes últimos “eram o país mais progressista do mundo”. “Contra o imperialismo russo, a salvação é o imperialismo britânico.” Outra: - “O defeito dos ingleses é que não são bastante imperialistas”. Quanto à história, “avança de leste para oeste”. O colonialismo é progressista porque os povos domináveis e colonizáveis só têm para dar “a estupidez primitiva”. O budismo é “o culto bestial da natureza”.
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E que dizer da China? É uma “civilização que apodrece”. Por outro lado, a vitória dos Estados Unidos sobre o México, em 1848, foi uma felicidade para o próprio México. Dizia o autor, que eu citava: - “Presenciamos a conquista do México e regozijamo-nos, porque este país, fechado em si mesmo, dilacerado por guerras civis e negando-se a toda evolução, seja precipitado violentamente no movimento histórico. No seu próprio interesse, terá de suportar a tutela que, desde esse momento, os Estados Unidos exercerão sobre ele”.
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Por outro lado, é maravilhosa a sujeição da Índia à Inglaterra. “A Alemanha é um povo superior e os latinos e os eslavos, mera gentalha.” Ainda sobre os eslavos: - “Povos piolhentos, estes dos Bálcãs, povos de bandidos”. Os búlgaros, em especial, são “um povo de suínos” que “melhor estariam sob o domínio turco”. Em suma: todos esses povos eslavos são “povos anões”, “escórias de uma civilização milenar”. Mais ainda: - “A expansão russa para o Ocidente é a expansão da barbárie” etc. etc.
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Durante duas horas li para a “festiva”. Por fim, embolsei as notas e, arquejante, falei: - “Vocês ouviram. O autor ou autores citados já morreram. Quero saber se teriam coragem de cuspir na cova de quem escreveu tudo isso?”. E outra pergunta: - “Quem pensa assim, e escreve assim, é um canalha? Respondam”. Em fulminante resposta, todos disseram: - “É um canalha!”. Ainda os adverti: - “Calma, calma. São dois os autores! Vocês têm certeza de que são dois canalhas? E canalhas abjetos?”. Não houve uma única e escassa dúvida. Os marxistas ali presentes juraram que os autores eram “canalhas” e abjetos. E, então, só então, alcei a fronte e anunciei: - “Agora ouçam os nomes dos canalhas”. Pausa e disse: - “Marx e Engels”. Fez-se na sala um silêncio ensurdecedor. Repeti: “Marx e Engels, os dois pulhas, segundo vocês”.
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Tudo aquilo estava em 'Marx et la politique internationale', por Kostas Papaloanou etc. etc. Os dois, Marx e Engels, eram paladinos fanáticos do imperialismo, do colonialismo, admiradores dos ianques, russófobos. Disseram mais: - “A revolução proletária acarretará um implacável terrorismo até o extermínio desses povos eslavos”.
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Os marxistas que me ouviam eram poetas, romancistas, sociólogos, ensaístas. Intelectuais da mais alta qualidade. E entendiam tanto de Marx quanto de um texto chinês de cabeças para baixo. Eis a verdade: somos analfabetos em Marx, dolorosamente analfabetos em Marx.
 
(Crônica publicada em O Globo em 3.05.1968. Ver também http://gustavo-livrexpressao.blogspot.gr/2008/02/conhecendo-o-velho.html)

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Meu comentário: Por favor, leiam Marx. Principalmente vocês, marxistas, estudem Marx. Façam isso. Conheçam o verdadeiro Marx, o autêntico. Eu lhes rogo.
 
Comentário adicional: "Deve-se a Marx o formidável despertar dos idiotas. Estes descobriram que são em maior número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica. E, então, aquele sujeito que, há 500 mil anos, limitava-se a babar na gravata, passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente etc. houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas." (Nelson Rodrigues)

quinta-feira, setembro 26, 2013

OS PIORES LIVROS QUE FIZERAM A CABEÇA DE MUITA GENTE (VERSÃO BRASILEIRA)

Estava devendo o post a seguir há bastante tempo, como complemento ao texto OS PIORES LIVROS QUE FIZERAM A CABEÇA DE MUITA GENTE (http://gustavo-livrexpressao.blogspot.gr/2010/03/os-piores-livros-que-fizeram-cabeca-de.html). Demorei porque a lista é longa, e, diante de tantas gemas, a maior dificuldade está em selecionar as mais representativas. Nos quesitos ruindade acadêmica, parcialidade ideológica e indigência mental, o Brasil está bem suprido: nesse particular, o país ocupa certamente os primeiros lugares em qualquer ranking mundial, ao contrário dos resultados dos exames de desempenho escolar da ONU. Eis os piores livros de autores nacionais que mais influência exerceram no Brasil nos últimos cento e tantos anos:


- A Ilusão Americana, Eduardo Prado (1890) - Certidão de nascimento do antiamericanismo tupiniquim, ganhou status de obra "cult" entre os acadêmicos em parte porque foi o primeiro livro censurado pela República (em 1893, pela ditadura de Floriano Peixoto). Espécie de bíblia dos inimigos do "império estadunidense", quase sempre gente ressentida e movida pela inveja do "gigante do Norte", serve tanto à direita (o autor era monarquista) quanto à esquerda. Sobretudo a esta, que transformou o ódio aos EUA numa espécie de religião e num álibi para o atraso do Brasil em diversas áreas ("a culpa é dos outros" etc.). É, assim, uma espécie de precursor de As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, a bíblia dos idiotas latino-americanos (hoje rebatizados de "bolivarianos").  
- Por Que Me Ufano do Meu País, Conde Afonso Celso (1900) - Pequeno livro fundador do ufanismo nacional (também conhecido como "chupa, mundo!" ou "síndrome-do-comigo-ninguém-pode"), ou seja, a mania megalômana do brasileiro de achar que o Brasil é o melhor país do mundo, com o melhor povo, o melhor clima, os melhores rios, o melhor hino, a bandeira mais bonita etc. etc. É a base para todo tipo de patriotada a que os brasileiros se entregam alegremente de vez em quando, embalados por uma Copa do Mundo ou pelo marketing do governo megalomaníaco de plantão, tanto de direita (o regime militar) quanto de esquerda (os governos petistas de Lula-Dilma). Ironicamente, tem epígrafe em inglês (My country, right or wrong - ou seja: "Meu país, certo ou errado", o que, como lembrou Millôr Fernandes, é o mesmo que dizer "minha mãe, sóbria ou bêbada"). O post-scriptum poderia ser a frase de Samuel Johnson: "O nacionalismo é o último refúgio do canalha".
 

- Brasil, Colônia de Banqueiros, Gustavo Barroso (1934) - Leitura obrigatória nas escolas militares durante muitos anos, é uma verdadeira síntese do pensamento reacionário nacionalista muito em voga no Brasil nos anos 30, culpando uma "conspiração dos banqueiros internacionais" pelos problemas do país (seu subtítulo é "História dos empréstimos brasileiros de 1824 a 1934"). O autor, historiador renomado, era, além de dirigente e ideólogo da Ação Integralista Brasileira (a versão cabocla do fascismo), conhecido antissemita, chegando a traduzir do francês Os Protocolos dos Sábios de Sião, livro que não fica muito longe, em matéria de propaganda antijudaica e conspiracionista. Mais uma prova de que o nacionalismo rombudo e irracional é comum aos dois extremos ideológicos.
 
 
- O Cavaleiro da Esperança, Jorge Amado (1942) - Hagiografia do caudilho comunista Luiz Carlos Prestes escrita pelo autor de Tieta e de Gabriela na época em que militava no Partido Comunista (o velho PCB). Jorge Amado chegou a ser eleito deputado federal pelo "Partidão" em 1945. Nessa época, escrevia coisas sob encomenda, como tarefa ditada pela direção do partido, que o via como um bom relações-públicas. Somente despertaria do delírio totalitário e largaria a canoa furada do comunismo depois de 1956, com a revelação dos crimes de Stálin por Krushev. Antes, escreveu essa sua contribuição à criação do culto da personalidade de Prestes, o frustrado (e extremamente incompetente) Stálin tupiniquim.
 
 
- Geografia da Fome, Josué de Castro  (1946) - Não é exatamente um livro ruim (traz algumas informações importantes sobre um tema que era até então pouco estudado), mas merece estar na lista pelo uso que dele fizeram os esquerdistas, sobretudo o PT, que o transformou numa espécie de justificativa intelectual para programas inócuos e demagógicos como o finado "Fome Zero" (alguém lembra?) e o "Bolsa-Família", o maior programa de compra de votos do mundo. O autor, funcionário da ONU, entrou para o panteão de heróis da esquerda não tanto pelo que escreveu (poucos leram seus livros, como o clássico Geopolítica da Fome), mas por ter proporcionado um tema a ser explorado por demagogos e populistas de plantão. De qualquer modo, o assunto está um tanto quanto desatualizado: no Brasil de hoje, o maior problema dos pobres não é a fome, mas a obesidade - culpa, em parte, do agronegócio, tão demonizado pela esquerda. 
 

- O Mundo da Paz, Jorge Amado (1951) - Livro tão ruim que o próprio autor mandou retirar de sua lista de obras completas, por pura vergonha de tê-lo escrito. Seguindo a trilha do "realismo socialista", presente em sua biografia de Prestes e em sua trilogia stalinista Os Subterrâneos da Liberdade (1954), o baiano comete aqui um dos elogios mais grotescos e acríticos das ditaduras comunistas do Leste Europeu, a começar pela ex-URSS e por seu então líder, o ditador Josef Stálin, que o autor enaltece como o "guia, mestre e pai", o "maior gênio da humanidade" etc. Por coisas como essa, Jorge Amado, que se desfiliaria poucos anos depois do PCB, foi galardoado com o prestigiadíssimo (para os comunistas) "Prêmio Stálin"... Sem comentários.


- O Mundo do Socialismo, Caio Prado Junior (1962) - Assim como O Mundo da Paz, trata-se de um elogio desbragado e idiota das ditaduras comunistas (sobretudo URSS e China), que o autor, um dos principais ideólogos comunistas brasileiros, via como exemplos não somente de eficiência técnica e justiça social, mas também de democracia (!!!). Explicitamente panfletário, assim como seu URSS: Um Novo Mundo (1934), chega ao ponto de transcrever trechos de resoluções de congressos do Partido Comunista da União Soviética, a fim de provar que a terra do Gulag e do KGB era o paraíso na Terra...  Um modelo de propaganda ideológica e de desonestidade intelectual que seria seguido por bajuladores de ditaduras comunistas como a de Cuba.


- A Revolução Brasileira, Caio Prado Junior (1966) - Considerada uma das obras mais importantes do autor, comunista oriundo de tradicionalíssima família da elite paulista, até hoje é debatida nos círculos de esquerda. Causou furor em seu tempo, pois contrariava a tese então dominante no PCB, da existência de "restos feudais" no Brasil que deveriam ser varridos por uma revolução em duas etapas, "democrático-burguesa" etc., defendendo, em vez disso, que o Brasil já era capitalista. Por incrível que pareça, foi preciso um comunista escrever um livro para que a esquerda brasileira descobrisse esse fato óbvio.


- Minimanual do Guerrilheiro Urbano, Carlos Mariguella (1969) - Como o nome indica, trata-se de um "minimanual", escrito de forma pedagógica e de afogadilho pelo ex-deputado comunista e líder terrorista sobre as melhores técnicas para matar, emboscar, sequestrar, assaltar bancos etc. Adotado por grupos terroristas internacionais como as Brigadas Vermelhas italianas e o Baader-Meinhof alemão-ocidental (e também por bandidos comuns), virou uma espécie de obra "cult" entre os círculos radicaloides de extrema esquerda nos anos 70, mais como um símbolo do que pelos ensinamentos nele contidos, totalmente irreais (Mariguella acreditava que o guerrilheiro deveria ser um super-homem, por exemplo: deveria saber pilotar aviões, conhecer criptografia etc.). O próprio autor provou a inocuidade de suas ideias, ao ser morto numa emboscada policial em São Paulo - uma morte previsível para quem defendia a emboscada como método de luta política. 

  
- Dependência e Desenvolvimento na América Latina, Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto (1969) - Seus detratores petistas não gostam de lembrar, mas o "neoliberal" FHC sempre foi um intelectual de esquerda. Nesse livro, considerado sua magnus opus, o sociólogo defende aquela que seria uma das principais taras ideológicas da esquerda latino-americana na segunda metade do século XX: a chamada "teoria da dependência", de matriz leninista, segundo a qual a pobreza de um país é determinada pela "exploração imperialista" e pelas "perdas internacionais", como se o comércio entre países fosse um jogo de soma zero. Justifica em cada linha o conselho atribuído a FHC quando na Presidência da República: "esqueçam o que escrevi". É o único livro escrito por autor brasileiro (em co-autoria com o sociólogo chileno Enzo Faletto) que consta da lista de "Os Dez Livros que mais Comoveram o Perfeito Idiota Latino-Americano".


- Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire (1974) - Obra que marcou gerações de professores e estudantes no Brasil, é a Bíblia dos pedagogos brasileiros. Basicamente, é um panfleto de auto-ajuda marxista embalado numa linguagem de sistema pedagógico, introduzindo conceitos como "luta de classes", "revolução" e "classe operária" na sala de aula. Seu "método" de alfabetização de adultos baseado em Marx foi adotado pelo sistema de educação brasileiro nas últimas cinco décadas. Não surpreende, portanto, que não se conheça, até hoje, o nome de nenhuma pessoa que foi alfabetizada por seu "método" revolucionário. Tampouco surpreende que o Brasil esteja em penúltimo lugar no ranking mundial de educação.  Mesmo assim, o autor foi endeusado até o limite do possível, tendo sido escolhido postumamente, em 2012, o "patrono da pedagogia nacional" pelo governo petista de Dilma Rousseff. Faz sentido. 
 

- A Ilha, Fernando Morais (1976) - Reportagem que, se teve o mérito de romper o isolamento informativo sobre Cuba, vigente no Brasil desde 1964, serviu para divulgar a lenda da ilha comunista como um paraíso dos trabalhadores. O autor ficou rico escrevendo (favoralmente) sobre o comunismo, como em Olga (1985), o que lhe rendeu, além de uma gorda conta bancária, um mandato de deputado pelo PMDB de Orestes Quércia, um dos políticos mais corruptos do Brasil em todos os tempos. Atualmente, é lulista e amigo do peito de José Dirceu e companhia. 

 
- Da Guerrilha ao Socialismo: a Revolução Cubana, Florestan Fernandes (1979) - Série de apostilas transformadas em livro por um dos maiores ideólogos esquerdistas do Brasil, considerado "o pai da sociologia brasileira". Ajudou a consolidar o mito do regime castrista humanista e democrático, que prende, tortura e mata, mas o faz em nome da humanidade.

 
- Genocídio Americano: a Guerra do Paraguai, Julio José Chiavenato (1979) - Obra que pretendeu ser uma "denúncia" da Guerra do Paraguai (1864-1870), a qual mostra como um massacre ("genocídio") em que Brasil, Argentina e Uruguai, seguindo ordens do imperialismo da Inglaterra, destruíram o Paraguai, que teria pago em sangue por ser um país supostamente próspero e independente. Tal mito, divulgado pela esquerda durante décadas, foi totalmente desmentido por pesquisas posteriores. Desde então, está desmoralizado como obra histórica séria. 
 
 
Igreja: Carisma e Poder, Leonardo Boff (1984) - Livro que, inspirado na radicalização à esquerda de parte do clero na América Latina depois do Concílio Vaticano II (1962-65), é uma das referências da autoproclamada "teologia da libertação", tentativa herética oportunista de infiltrar o marxismo na Igreja Católica que teve bastante influência nos anos 70 e 80, principalmente no campo. Leonardo Boff, um de seus principais ideólogos, foi condenado em boa hora ao silêncio obsequioso pelo Papa João Paulo II em 1985 e, vendo que não poderia transformar o Vaticano numa Comunidade Eclesial de Base (CEB), num sindicato ou numa filial do PT, desligou-se da Igreja, trocando-a por Fidel Castro. Continua assessorando os dirigentes petistas, tendo-se reinventado, desde então, como autor de livros de auto-ajuda e guru ecológico. 

 
- Brasil: Nunca Mais, Arquidiocese de São Paulo (1985) - Embora importante como registro histórico e denúncia das violações dos direitos humanos pela ditadura militar, peca por não se referir, em nenhum momento, aos crimes da esquerda armada. Serviu, assim, como uma luva para os propósitos revanchistas dos que querem reescrever a História às custas dos cofres públicos.
 

- Fidel e a Religião, Frei Betto (1985) - Monólogo em forma de entrevista do ditador mais amado da esquerda brasileira, por um dos expoentes da "teologia da libertação", um frei dominicano que se autointitula "irmão em Cristo e em Castro" (sic). Um monumento à sabujice e à devoção sem limites a tiranos assassinos.


- Convite à Filosofia, de Marilena Chauí (1994) - Livro didático que, assim como O Que é ideologia?, da mesma autora, deseducou uma geração inteira de estudantes brasileiros do ensino médio. É uma espécie de bê-á-bá do pensamento marxista disfarçado de manual filosófico. A autora, verdadeira musa intelectual do PT, já chegou a dizer que, quando Lula fala, o mundo se ilumina. Em compensação, odeia a classe média.
 

- O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro (1995) - Último livro de Darcy Ribeiro, antropólogo que começou no PCB, foi ministro da Casa Civil de João Goulart e ficou famoso pela criação da UnB e por sua associação com o caudilho Leonel Brizola nos anos 80, quando defendia a beleza e funcionalidade das favelas, "a verdadeira habitação brasileira". Síntese das teorias populistas do "socialismo moreno" brizolista, parte da ideia de que o Brasil, devido a características raciais únicas, seria uma "nova civilização", superior a todas as outras (sobretudo aos EUA, dos quais o autor negava qualquer contribuição cultural significativa). Uma das fontes da "cultura da periferia" que hoje infesta as rádios e tevês do país. 
 
 
- Formação do Império Americano, Moniz Bandeira (2005) - Versão antiamericana da formação dos EUA, por um expoente do antiamericanismo verde-amarelo. Descreve a ascensão do Gigante do Norte como uma marcha ininterrupta de saque e guerras por um vilão da política internacional, e os demais países, como vítimas passivas do "imperialismo ianque". Basta citar que coloca no mesmo patamar o presidente Franklin Roosevelt e o ditador Adolf Hitler. Precisa dizer mais? (P.S.: Virou leitura obrigatória no Itamaraty.)
 
Menções honrosas:


- Lula, o Filho do Brasil, Denise Paraná (2003) - Hagiografia do ex-sindicalista e principal beneficiário do Mensalão. Uma ode ao operário filho de uma mulher que nasceu analfabeta. Virou filme, o fracasso mais caro já feito no Brasil. Assim como o governo do personagem em questão, o mais corrupto da História do Brasil.
 

- A Vida quer é Coragem, de Ricardo Batista Amaral (2011) - Na trilha do Chefe, o Poste também ganhou uma biografia elogiosa. Metade relato dos anos de "formação política" como militante de organizações terroristas nos "anos de chumbo" da ditadura militar, metade narrativa da campanha presidencial de 2010, tenta vender a ideia da "presidenta" ultra-preparada e competente, que doou generosamente a juventude pela luta "por um Brasil melhor" etc. O título é uma pérola de ironia involuntária.
 

- Os Últimos Soldados da Guerra Fria, Fernando Morais (2011) - Elogio da deduragem em forma de thriller político. Veja aqui: http://gustavo-livrexpressao.blogspot.gr/search?q=elogio+da+deduragem
 

- Todos os de Emir Sader: Infelizmente não foi possível selecionar nenhuma obra desse autor. Qualquer livro dele merece constar de qualquer lista de piores, no Brasil ou alhures.

quarta-feira, agosto 28, 2013

ESCRAVOS DE JALECO

 
Que me perdoem as almas ingênuas e os iludidos vocacionais - os militontos não merecem perdão, e sim chibata no lombo pra aprenderem a ser gente -, mas é preciso ser muito cínico ou idiota para acreditar que a decisão de importar médicos estrangeiros, particularmente cubanos, vai trazer algum benefício concreto para a calamitosa situação da saúde no Brasil. Muito pelo contrário. Pelos seguintes motivos:

1) Não faltam médicos no Brasil: faltam meios. Os trabalhadores importados vão trazer com eles gaze, seringas, esparadrapo, mertiolate etc? Ou seja: o material que geralmente falta nos hospitais públicos brasileiros, tanto no interior quanto nas grandes cidades. Vão trazer? Se não, podem dar meia volta;

2) Segundo o acordo assinado com o governo de Cuba, os médicos estarão sujeitos a um regime de trabalho semi-escravo, no qual estarão obrigados a entregar a quase totalidade dos salários - pagos pelo governo brasileiro - à ditadura dos irmãos Castro. Além disso, ficarão impedidos de se movimentar livremente no país, com documentos retidos e suas famílias feitas reféns em Cuba. Também não poderão pedir asilo - o que é uma clara violação de todas as normas internacionais de direitos humanos;

3) Escravizados e impedidos de escaparem da tirania, os médicos cubanos serão dispensados do Revalida, o que, além de ser algo ilegal (a lei brasileira exige o exame para a prática da medicina), coloca em dúvida a qualificação profissional desses trabalhadores. Vale lembrar que o tão alardeado alto padrão de qualidade da saúde cubana é na verdade um mito criado pelo regime castrista (quando ficou doente, o próprio Fidel Castro foi se tratar na Espanha...);

4) Além dos mais de 400 milhões de reais anuais que serão gastos com salários (que irão sustentar uma ditadura falida, é bom lembrar), pagos pelo governo federal, as prefeituras serão obrigadas a bancar os custos de moradia e alimentação - mais um gasto duvidoso do dinheiro público (que poderia estar sendo aplicado, por exemplo, na construção de hospitais);

5) O governo dos petistas teve 11 anos para atuar na área e fazer os investimentos necessários, e agora vem com a conversa de querer resolver problemas estruturais de décadas com "medidas de emergência"?! A quem eles querem enganar?

Enfim, trata-se de uma grande (e cara!) enganação, mais uma pilantragem dos petralhas. Uma medida demagógica, feita para desviar a atenção da opinião pública, com objetivos eleitoreiros (o ministro da saúde, Alexandre Padilha, é candidato ao governo de SP no ano que vem), e, de quebra, achar um bode expiatório (os médicos brasileiros, transformados em "vilões" que só pensam em dinheiro e não aceitariam "sacrificar-se pelo povo" etc.). Com o agravante de visar a sustentar a ditadura cubana, a mais antiga do Ocidente, a qual transformou a exportação de "médicos" em um grande negócio, com os Castro como os maiores beneficiados. É um acinte à dignidade humana, além de uma ofensa à inteligência e ao bom senso. Faz tanto sentido quanto importar professores da Síria, ou advogados da Coreia do Norte. E você paga a conta.

P.S.: Cadê as manifestações de protesto?

terça-feira, julho 30, 2013

PROTESTOS, ONTEM E HOJE - EM IMAGENS

A evolução da consciência política do brasileiro no decorrer dos anos...
 
 
Brasil, 1968
 
 
 
Brasil, 1984
 
 
Brasil, 1992
 
 
 
Brasil, 2013



Pois é. O "gigante acordou".
 

quarta-feira, julho 24, 2013

UMA MODESTA PROPOSTA PARA MUDAR O BRASIL



 
A onda de protestos que varreu o Brasil em junho foi vista com perplexidade pelo governo lulodilmista e saudada otimisticamente como o despertar de um "novo Brasil" por muitos analistas. Como já escrevi aqui, tenho motivos para ser cético em relação a esse "novo Brasil" que se está alardeando por aí. Isso porque, entre outras coisas, não vi um foco nos protestos, uma liderança capaz de dar um rumo claro e direcionar a indignação represada durante 11 anos de mandarinato petista para além do oba-oba e do eventual vandalismo.  As manifestações, sem comando e sem objetivos claros, perderam-se numa barafunda de reivindicações as mais difusas e até mesmo estapafúrdias (a começar pelo tal “passe livre”, na verdade uma desculpa de grupelhos de extrema-esquerda e de mentes pré-púberes para brincar de “revolução”), sem Norte e sem conteúdo. Como numa tragédia de Shakespeare, tudo pareceu resumir-se a um espetáculo de som e fúria, significando nada.
 
Apesar de todo o barulho, não se tocou, até agora, no essencial, limitando-se os protestos a palavras de ordem vagas e abstratas, que convidam ao sequestro das manifestações pelo próprio governo e pelos partidos esquerdistas. 
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Um exemplo: quase ninguém se deu conta de que o slogan mais repetido nas manifestações – "mais saúde, mais educação" –, pode significar mais gastança, mais desperdício do dinheiro público, assim como nas obras da Copa. Não por acaso, a maior manifestação popular da História dos EUA ocorreu em 2011 CONTRA a proposta do governo Obama de universalizar o sistema de saúde pública. Mais escolas e mais hospitais (e mais médicos, como quer o governo) significa mais gastos, o que quase sempre quer dizer mais impostos – e mais corrupção. Mas ninguém parece ter percebido isso.
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Outro exemplo: o desencanto com os "partidos" e os "políticos" em geral, sem dar nomes aos bois (quase não se viram cartazes de "Fora Dilma" ou "Lula na cadeia") e "contra tudo isso que está aí". Os brasileiros que foram às ruas manifestaram-se contra todos os partidos, deixando claro que nenhum deles lhes representa. Mas do quê – ou melhor: de quais partidos e políticos – estavam falando exatamente? O que os representa?
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Para tentar colocar alguma ordem nesse caos e nessa confusão mental – que parece ser mesmo a característica principal do País de Macunaíma –, apresento a seguir uma agenda política que, asseguro, se for aplicada vai transformar radicalmente o cenário nacional. Eis minha modesta proposta para mudar o Brasil.
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Trata-se do seguinte. Um partido, ou movimento - o nome pouco importa -, que defenda os seguintes pontos:
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- Livre Mercado – Ou seja: livre iniciativa e meritocracia, e não o "capitalismo de Estado" dos companheiros no poder, o capitalismo estatal ou semi-estatal dos Eikes Batistas financiado pelo BNDES e pela Petrobrás.  Isso que dizer lutar pelo fim dos monopólios, estatais ou de empresas queridinhas do governo, e pela livre concorrência. Em outras palavras: trata-se de implantar, no Brasil, aquilo que se implantou nos EUA e na Inglaterra há uns duzentos anos, e que ainda não deu as caras na terra do patrimonialismo e dos bolsas-famílias: o capitalismo.
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- Redução do Estado – Condição essencial para que exista capitalismo é limitar o papel do Estado ao mínimo indispensável, a fim de não prejudicar a atividade econômica e proporcionar serviços públicos de qualidade onde a ação governamental é imprescindível (segurança, justiça e defesa, por exemplo). Isso passa, necessariamente, pela redução dos impostos e pela utilização mais racional do dinheiro público. Máquina inchada, apadrinhamento, ineficiência e corrupção caminham juntos, como qualquer brasileiro sabe muito bem. (Aí estão 39 ministérios para ilustrar esse fato.)
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- Defesa do Estado de Direito Democrático – Parece óbvio (e é!), mas qualquer partido ou movimento que se preze deve ter na defesa das liberdades democráticas  - de expressão, de crença, de reunião, de imprensa – parte inseparável de seu programa. Isso significa defender o mais possível a não-intervenção do Estado na vida privada do cidadão, a defesa das liberdades individuais contra o Leviatã estatal.
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- Política externa não-ideológica – Embora não seja um assunto popular no Brasil, a diplomacia deve coadunar-se com os princípios acima, distanciando-se da agenda bolivariana e antiamericana que hoje domina o Itamaraty, ditada pelo Foro de São Paulo (o maior tabu político da América Latina nos últimos 23 anos).   
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Aí está. Acredito que ninguém poderá chamar os pontos acima de radicais, ou dizer que eles pecam pela ambição desmedida. Pelo contrário: trata-se  de um programa básico, o mínimo necessário para se construir uma alternativa democrática e liberal aos partidos existentes no País. E, mesmo assim, trata-se de algo absolutamente inédito no Brasil.
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É incrível, mas nenhum – nenhum! – partido político atualmente existente no Brasil pauta sua agenda pelos princípios acima. Há partidos de todos os tipos e para todos os gostos – de esquerda, de ultra-esquerda, fisiológicos, dinheiristas etc. –, mas nenhum, pelo que sei, define-se abertamente como conservador ou liberal, portanto de direita. Esta continua a ser um anátema, enquanto ser de esquerda (ou seja: a favor de ditaduras como a de Cuba, por exemplo) é visto geralmente como algo bom e positivo. Não por acaso, as eleições no Brasil já viraram um samba de uma nota só, com todos falando a mesma linguagem esquerdista ou de Miss, defendendo "mais saúde", "mais educação", "pela vida" (alguém é contra?) etc.
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(A propósito, caro leitor: que país civilizado e democrático não possui pelo menos um partido de direita solidamente estruturado? Que nação democrática possui apenas partidos pertencentes a um lado do espectro ideológico? Poderia responder?)  
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Não me surpreende que a maioria da população brasileira, que é honesta, paga impostos e não quer viver mamando nas tetas do Estado-babá, não se reconheça em nenhum partido existente. É que nenhum deles realmente a representa. E não há nada no horizonte para preencher esse vazio. Daí o povo não saber ao certo contra o quê ou quem protesta.
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Quer mudar o Brasil? Que tal pensar no que está aí em cima, para começar?