sábado, setembro 22, 2012

MINHA PRÓPRIA COMISSÃO DA VERDADE


Agora que o Diário Oficial da União tornou público o que já era notório - que a tal comissão criada pelo governo para supostamente investigar as violações dos direitos humanos no Brasil nas últimas seis décadas não passa de um comitê para omitir os crimes da esquerda e reescrever a História nos moldes stalinistas -, resolvi eu mesmo fazer o que ninguém quer fazer e criar minha própria Comissão da Verdade. O que é melhor: sem nenhum ônus para o contribuinte. Faço-o de graça, por um dever de honestidade intelectual e por acreditar que a História é uma musa que deve ser tratada com respeito.

Por motivos óbvios, vou deixar de lado os casos que serão analisados pelos membros da dita comissão oficial. Além de já serem conhecidos à exaustão, sendo objeto de centenas de livros, reportagens e filmes, não quero criar nenhum problema de duplicidade de trabalho, concorrendo com Paulo Sérgio Pinheiro e Maria Rita Kehl. Vou, em vez disso, concentrar-me nos casos que não serão investigados, pois, conforme consta no DOU, não foram praticados por agentes públicos - logo, não se enquadram na definição de crimes contra a humanidade.

Antes de passar às vítimas fatais da luta armada no Brasil nos anos 60 e 70 - cerca de 120, inclusive militantes das organizações armadas de esquerda executados ("justiçados") pelos próprios companheiros (vejam aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/49213-o-lado-dark-da-resistencia.shtml)-, vou começar buscando mais informações sobre o seguinte caso, que até hoje permanece envolto em trevas: http://gustavo-livrexpressao.blogspot.gr/2011/11/alo-senhores-da-comissao-da-verdade.html.

Como se vê pelo exemplo acima - no qual não se sabe sequer o nome da vítima nem o ano de sua morte -, o trabalho de recontar os crimes cometidos pelos esquerdistas é uma tarefa bastante difícil. Isso porque a lista de mortos pela esquerda no Brasil é apenas tentativa, sendo bastante provável que haja mais mortos e, inclusive, desaparecidos dos que os que já se sabe que esta fez pelo caminho. Pelo menos enquanto os esquerdistas continuarem se recusando a abrir seus próprios arquivos, a relação de suas vítimas no Brasil estará incompleta. Ainda espero, por exemplo, saber exatamente o que Dilma Rousseff e José Dirceu fizeram nessa época. Quem sabe um dia...

Infelizmente, não será possível inclur na lista de crimes a serem pesquisados casos como o de Elza Fernandes, estrangulada aos 16 anos de idade a mando de Luiz Carlos Prestes, ou do jovem Tobias Warchavski, morto a tiros e decapitado no Rio de Janeiro (sua morte é até hoje motivo de controvérsia), ou do tenente do exército e participante da revolta de 35 Alberto Besouchet, ao que tudo indica eliminado pela política política da ex-URSS durante a guerra civil na Espanha, em 1936-39 (todas as vítimas, por sinal, militantes comunistas). Tampouco a tortura e assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, ocorridos em 2002, e as mortes suspeitas das testemunhas do caso (oito, até agora) serão investigadas. É que a comissão governamental vai tratar dos crimes acontecidos de 1946 a 1988, fora, portanto, do período em que tais delitos aconteceram. Também ficam de fora, por razões práticas, as vítimas inocentes que foram feridas e mutiladas em atentados cometidos pela esquerda armada, pelo simples motivo de estarem no lugar errado, na hora errada - e que, ao contrário de seus algozes terroristas, não receberam nenhuma indenização do Estado, sequer um pedido de desculpas daqueles que teimam em exigir que os militares se desculpem pelo regime de 64.

Também não vou analisar as mais de 100 mil mortes provocadas, direta ou indiretamente, pela ditadura comunista cubana e por movimentos terroristas de esquerda na América Latina, parte dos cerca de 100 milhões (e ainda contando) de cadáveres deixados pelo comunismo no mundo desde 1917: tal tarefa, além de impossível, seria redundante, pois está claro para qualquer ser vivente com um mínimo de inteligência que os esquerdistas brasileiros, hoje no poder, são no mínimo cúmplices morais desses crimes. Gente como Lula, Dilma Rousseff, José Dirceu, Franklin Martins, Frei Betto, Chico Buarque e Oscar Niemeyer, para citar alguns dos mais conhecidos, que jamais usaram sua fama e influência para dizer uma palavra de crítica ao que acontece em Cuba, por exemplo. Por suas palavras ou por seu silêncio, são co-responsáveis por essas mortes. Não é necessária nenhuma comissão para constatar esse fato óbvio.

Aí está, senhores. Se não gostaram do que vai acima, sugiro que reclamem não comigo, que não inventei nada do que está aí escrito, mas com os fatos.  Lamento se estes se mostrarem um tanto quanto teimosos e desobedientes. É da natureza dos fatos não se ajustarem a ideologias. Principalmente a uma ideologia que, a pretexto de investigar e reparar violações dos direitos humanos, quer fazer tábula rasa da História.

quarta-feira, setembro 12, 2012

QUEM DERRUBOU AS TORRES GÊMEAS?

Creio que, pelo menos uma vez a cada geração, existe um fato histórico definidor, determinante. Para a de nossos pais, foi a chegada do homem à Lua, ou a contra-revolução de 64. Para a dos nossos avós, a Segunda Guerra Mundial, ou a invenção da penicilina. Datas que vivem na memória, com um poder simbólico tamanho que já estão entranhadas na memória coletiva, de modo que cada um lembra exatamente onde se encontrava e o que estava fazendo quando leu ou ouviu aquela notícia que “mudou o mundo”.

O 11 de setembro de 2001 é um desses momentos. Para mim, pelo menos, é a data mais significativa, até agora, que tive a oportunidade de acompanhar, ao vivo, pela TV e pela internet. Em alguns textos, rememoro aquela terça-feira fatídica, já intrinsecamente mesclada à minha trajetória pessoal, a exemplo de milhões de pessoas mundo afora.

Já virou um lugar-comum afirmar que o 11/09 foi o acontecimento mais importante da História mundial desde, pelo menos, o fim da URSS, exatos dez anos antes. Mas isso não impede de recordar alguns fatos desagradáveis.

Em primeiro lugar, acho que a esta altura está claro que não foi a Al-Qaeda que jogou os aviões contra as Torres Gêmeas e o Pentágono. (E antes que algum teórico da conspiração se anime: não, também não foi a CIA, ou o serviço secreto israelense, ou os maçons - aliás, gostaria de saber por que todas as teorias conspiratórias [todas!] miram nos EUA ou em Israel, deixando de lado seus inimigos.) Bin Laden e sua corja sequestraram as aeronaves e as utilizaram como mísseis, mas não foram eles, os terroristas islamitas, os únicos responsáveis, em última instância, pela barbaridade inominável. O ato em si, foram eles que cometeram, e inclusive se vangloriaram disso. Mas a cadeia de eventos que culminou no maior atentado terrorista da História é bem anterior à decisão de executá-lo.

Explico-me. Bin Laden e sua rede de assassinos alucinados não teriam feito o que fizeram se não fosse por uma cadeia de eventos, ou melhor, por um certo estado ideológico, gestado durante décadas, e que teve seu clímax na derrubada do WTC. Estou falando do antiamericanismo, essa doença mental do século XX, que entrou pelo XXI e que tem suas raízes nas duas extremas: direita e esquerda, fascismo e comunismo.

Desde pelo menos os anos 60, quando a Guerra Fria ameaçou tornar-se quente em conflitos como o do Vietnã (perdido pelos EUA em casa e na televisão, e não nos campos de batalha, mas essa é outra história), o realejo antiamericano não tem cessado de tocar, entrou definitivamente no mainstream.

Hipnotizadas por essa cantilena xenófoba, entorpecidas pela leitura (os que leram) de Gramsci e dos catataus impenetráveis dos teóricos da Escola de Frankfurt, e infantilizadas por um anticapitalismo geralmente arrotado por burgueses que não abrem mão das comodidades do capitalismo, gerações inteiras se acostumaram a enxergar nos EUA e na "sociedade tecnocapitalista" do qual este é a epítome a síntese do Mal, sinônimo de exploração, violência e alienação humana. A ex-URSS e a China, em contrapartida, seriam um antídoto à "unipolaridade" (o novo nome do "imperialismo"), vistos como alternativas ou, pelo menos, equivalentes ao Tio Sam – como se a Pátria da Democracia, o país de Thomas Jefferson e de Abraham Lincoln, fosse menos preferível ou equivalente a qualquer ditadura comunista... Em algum momento depois do desaparecimento da URSS, a utopia comunista ou comuno-socialista, com pitadas de niilismo "pós-moderno", aliou-se ao fanatismo religioso islamita em uma frente comum. Cedo ou tarde, o resultado disso seriam ataques terroristas como o de 11/09.

Foi esse estado mental, esse fenômeno de hipnose coletiva, fruto de décadas de doutrinação, que abriu o caminho e preparou os espíritos – coloquemos desse modo – para a tragédia de 11 de setembro. Primeiro, como justificativa e vanglória sobre uma montanha de cadáveres: eles, os americanos, "receberam o que mereciam" ou "colheram o que plantaram". Ou, então, como recusa a encarar a realidade, refletida na incapacidade psicológica de enxergar os EUA como vítimas de uma agressão covarde: a tragédia não foi cometida por terroristas islamitas, mas pelos próprios americanos, interessados em um pretexto para invadir o Afeganistão e se apossarem do petróleo do Oriente Médio etc. etc. (afinal, eles, uzamericânu, são os culpados por tudo de ruim que existe no mundo, não é mesmo?). Em tudo isso, o discurso do ódio mal disfarçado e o contentamento mórbido, que levaram alguns autoproclamados "humanistas" como o ex-frei e marxista Leonardo Boff a manifestações de regozijo ("queria que tivessem sido vinte e cinco aviões!"). Essa tara moral, essa perversão ideológica, serviu de justificativa para a derrubada das torres gêmeas e para o assassinato de quase 3 mil pessoas.

Hoje, 11 anos e duas guerras depois, Bin Laden está morto, enterrado no fundo do mar, e a Al-Qaeda, cada vez mais em frangalhos, é apenas uma sombra do que foi um dia. Mas a mentalidade antiamericana que chocou o ovo da serpente terrorista continua mais viva do que nunca, em governos populistas e autoritários geralmente apoiados por "movimentos" que, em nome das causas mais variadas (antiglobalização, ambientalistas, feministas, racialistas, gayzistas etc.), apontam suas baterias verbais contra o capitalismo e a democracia liberal, enquanto silenciam sobre, quando não aplaudem abertamente, regimes tirânicos e terroristas como o do Irã.

Há ainda os que, ingênua ou maliciosamente, procuram diminuir o impacto da catástrofe, lembrando "outros setembros", como se o 11/09 dissesse respeito somente aos EUA e, no final das contas, tragédias sem relação uma com a outra se excluíssem mutuamente. Foi essa mentalidade masoquista que esteve por trás da eleição em 2008 de Barack Hussein Obama, tido por muitos de seus apoiadores como um antídoto ao "imperialismo". Mas até Obama, o presidente "histórico", que já era "histórico" antes mesmo de ser presidente, rendeu-se à realidade, não tendo nada melhor a apresentar, após quatro anos, do que a continuação da "guerra ao terror" inaugurada por George W. Bush (embora, como todo demagogo, não o admita, nem jamais o fará).

Os antiamericanos de todos os tipos costumam repetir à exaustão o mantra de que os EUA são culpados por todo o mal que existe no mundo, e que o 11/09 foi, de certa forma, uma reação ao imperialismo ianque. Em sua cegueira ideológica, acreditam que os atentados terroristas de 11 anos atrás teriam sido provocados etc. Nesse ponto, tenho de admitir que os devotos da seita antiamericana têm alguma razão. Só esquecem de um fato fundamental: os que provocaram a atrocidade não estavam na Casa Branca ou no Pentágono, nem no Departamento de Estado. Tampouco foram o McDonald's ou a Coca-Cola.

Foi a ação insidiosa, tenaz, sistemática, de antiamericanos dentro e fora dos EUA,  por meio de uma campanha insistente e muito bem-articulada nos meios intelectuais e na mídia (inclusive em Hollywood), que provocou os ataques, ao ter criado o ambiente mental necessário à germinação do terrorismo islamita. Bin Laden foi o executor. Mas os verdadeiros mentores não falam árabe nem usam turbante. São, no mínimo, cúmplices morais de um dos maiores crimes contra a humanidade de todos os tempos.

sábado, setembro 01, 2012

QUEM É RETRÓGRADO?

Há alguns dias, estava eu conversando com uma amiga minha de longa data na internet. Quer dizer, conversando é maneira de falar, porque na verdade tentei conversar. Minha amiga é uma pessoa de esquerda. Não uma militante (pelo menos acho que não), mas de qualquer modo esquerdista e, a julgar por suas mensagens no facebook, atéia, pró-feminista, pró-marxista etc. Enfim, alguém que, em termos de idéias, segue o mainstream.

Como eu disse, tentei iniciar uma conversa. Tenho esse mau hábito: querer conversar sobre política. Pior ainda: na internet. Mas, insistente, fui adiante. Comecei dizendo de minha surpresa por ter descoberto, lendo um comentário de minha amiga em uma página qualquer da web, que ela era atéia (até então eu não sabia). Como sou ateu desde os 14 anos de idade, achei que tinha encontrado uma parceira espiritual. "Vamos trocar figurinhas?", convidei-a.

Entusiasmado com a possibilidade de trocar idéias sobre assunto tão palpitante, perguntei: não é estranho que a imensa maioria dos que se dizem ateus no Ocidente dedicam-se tanto a espezinhar a religião cristã, especialmente a Igreja Católica, enquanto poupam religiões como o Islã? E citei especificamente regimes como a teocracia islamita do Irã, onde mulheres são apedrejadas por adúlteras e homossexuais são enforcados em praça pública. Perguntei por que os militantes gayzistas e feministas ocidentais, quase todos esquerdistas, não diziam quase nada sobre o assunto. Minha amiga de início se surpreendeu: "Como não? Tem vários vídeos no youtube que denunciam isso" etc. Lembrei que tais militantes humanistas e progressistas gastavam 90% de seu tempo a atacar a religião cristã. "É porque é a maior religião", redargüiu, enfática. Mesmo assim, respondi, não conheço nenhum caso de pessoa executada por blasfêmia ou comportamento desviante a mando do Vaticano, por exemplo. E resolvi mencionar um fato que, aos olhos de minha amiga, deve ter parecido uma heresia: a religião mais perseguida do mundo, hoje, é o cristianismo. Veja o que ocorre no Oriente Médio, na China etc.

Isso foi demais para minha interlocutora. Indignada, talvez ofendida com esse fato - não era sequer um argumento: era um fato -, minha amiga abruptamente deu por encerrada a nossa conversa. Não perderia mais tempo debatendo com alguém como eu, que vou contra tudo aquilo que ela tem em alta estima etc. Ainda por cima - isso foi o que mais me chamou a atenção -, eu teria uma "agenda política retrógrada" (!). Passar bem.

Confesso que aquela conversa - ou melhor: a forma brusca e inesperada como terminou a conversa - me deixou meio atordoado. Nem tanto pelo fato de ter sido chamado de "retrógrado" (sendo um crítido contumaz das fórmulas e dogmas marxistas, já estou acostumado a ser chamado de coisa pior), mas porque, pela primeira vez, alguém disse que eu tinha uma "agenda política". Agenda política, eu?, fiquei pensando. Mesmo depois de ter escrito isso aqui: http://gustavo-livrexpressao.blogspot.gr/2010/04/individuo-nao-manada.html?

Mas voltemos ao adjetivo infame, "retrógrado". Por que fui brindado com o epíteto? Porque achei estranho, para dizer o mínimo, que tantos autoproclamados ateus preferissem dirigir suas baterias contra o cristianismo, deixando de lado o Islã. Porque tantos ateus, sobretudo na Europa e nos EUA, onde proclamar-se ateu virou uma espécie de modismo, se comprazem em atirar lama no Papa ou em pastores evangélicos, cujos ensinamentos ninguém está obrigado por lei a seguir, ao mesmo tempo em que costumam silenciar sobre barbaridades cometidas em nome do Islã, sobretudo em alguns países islâmicos, onde essa liberdade não existe.

Ou seja: sou um retrógrado, ainda por cima com uma agenda política, porque defendo os direitos dos gays e das mulheres no Irã e na Arábia Saudita. Mais: sou um retrógrado, um reacionário e um fascista porque - vejam que absurdo! - tenho a ousadia de defender os direitos de minorias religiosas (no caso, os cristãos nos países do Oriente Médio). Sim, sou um bandido, um canalha, um assassino, porque defendo o direito à livre expressão e à existência de quem pensa diferente de mim. Já aqueles que critico, os ateus do tipo Noam Chomsky e Tariq Ali, são democratas e progressistas porque não dizem uma palavra sobre isso. Não é fantástico?  

É um fenômeno curiosíssimo! Quem quiser ser louvado como uma pessoa de bem, humanista e tolerante, que saia em defesa dos direitos dos muçulmanos na Bélgica ou na França, ou que, pelo menos, faça vista grossa a regimes como o iraniano. (Alguns vão mais além, e justificam mesmo esses regimes: são os multiculturalistas.). Por outro lado, quem quiser ser execrado e rotulado de retrógrado ou coisa semelhante, ainda que seja ateu, basta que defenda o direito dos cristãos à liberdade religiosa. Basta que chame a atenção para as perseguições e massacres de comunidades cristãs no Egito ou no Paquistão.

Para dar um exemplo: somente no Iraque, desde 2003 o número de cristãos decaiu drasticamente de 1,5 milhão para 500 mil, e continua caindo, graças às perseguições e atentados terroristas de muçulmanos sunitas e xiitas, que não deixaram praticamente nenhuma igreja em pé no país. Rios de tinta e milhões de megabytes foram gastos para denunciar a torpe invasão imperialista e as mentiras de Bush e sua camarilha sobre armas de destruição em massa etc., mas não se leu uma linha na imprensa ocidental sobre esse verdadeiro holocausto cristão no Iraque. Simplesmente mencionar tal fato, dizer que está em andamento um verdadeiro religiocídio no país, é uma blasfêmia, um sacrilégio. Quem o fizer será considerado um reacionário, um criminoso, um inimigo da tolerância e da humanidade. Em outras palavras, alguém com uma agenda política retrógrada.

Trocando em miúdos: tolerante e progressista é quem ataca o cristianismo; intolerante e retrógrado é quem o defende. Ou seja: liberdade de religião, menos para os cristãos. É essa a agenda política dos progressistas da esquerda, mais anticristãos (e anti-Ocidente) do que ateus.

Querem mais um exemplo? Há algum tempo esteve no Brasil o presidente da República Islâmica do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Veio para a Conferência Rio+20, da ONU. Tirando um pequeno grupo de judeus e de evangélicos, não se viu ninguém do lado da esquerda, nem um mísero militante, protestar contra a presença em uma conferência das Nações Unidas de um notório antissemita, genocida e negador do Holocausto. Não se viu nenhum esquerdista, marxista, feminista ou gayzista erguendo faixas e gritando palavras de ordem contra o chefe de um governo que apedreja mulheres e assassina homossexuais. Em vez disso, o que fizeram os nossos progressistas, entre eles alguns ateus? Foram prestar homenagem a Ahmadinejad, indo visitá-lo no hotel onde se encontrava. Grandes humanistas, como se vê. 

Como diz o mágico norte-americano James Randi, que vive de desmascarar misticismos e charlatanices, há dois tipos de ateus: os que dizem que Deus não existe e os que exigem provas de Sua existência. Eu acrescentaria um terceiro tipo: os que são ateus, ou que dizem que o são, por modismo, ou pela metade. Quando os vejo em ação, quase concordo com minha amiga da internet e admito que tenho uma agenda política retrógrada.

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Em tempo: espero que minha amiga, a quem estimo muito, continue a ser minha amiga, mesmo não querendo saber de debater comigo. Eu, de minha parte, não deixarei de considerá-la como tal. Afinal de contas, se eu confundisse opinião com amizade, e não aceitasse como amigo alguém com uma visão diferente da minha, eu seria um inimigo da inteligência, um fanático e um intolerante, não é verdade? 

quarta-feira, agosto 29, 2012

CONVERSA FIADA - POR FERREIRA GULLAR


CONVERSA FIADA

Publicado na Folha deste domingo

FERREIRA GULLAR
Sabe a razão pela qual a empresa estatal dificilmente alcança alto rendimento? Porque o dono dela ─que é o povo ─ está ausente, não manda nela, não decide nada. Claro que não pode dar certo.

Já a empresa privada, não. Quem manda nela é o dono, quem decide o que deve ser feito ─quais salários pagar, que preço dar pela matéria-prima, por quanto vender o que produz─, tudo é decidido pelo dono.

E mais que isso: é a grana dele que está investida ali. Se a empresa der lucro, ele ganha, fica mais rico e a amplia; se der prejuízo, ele perde, pode até ir à falência.

Por tudo isso e por muitas outras razões mais, a empresa privada tem muito maior chance de dar certo do que uma empresa dirigida por alguém que nada (ou quase nada) ganhará se ela der lucro, e nada (ou quase nada) perderá se ela der prejuízo.

Sem dúvida, pode haver, e já houve, casos em que o dirigente de uma empresa estatal se revelou competente e dedicado, logrando com isso dirigi-la com êxito. Mas é exceção. Na maioria dos casos, indicam-se para dirigir essas empresas pessoas que atendem antes a interesses políticos que empresariais.

Isso sem falar nos casos ─atualmente muito frequentes─ de gerentes que estão ali para atender a demandas partidárias.

Tais coisas dificilmente ocorrem nas empresas privadas, onde cada um que ali está sabe que sua permanência depende fundamentalmente da qualidade de seu desempenho. Ao contrário da empresa estatal que, por razões óbvias, tende a se tornar cabide de empregos, a empresa privada busca o menor gasto em tudo, seja em pessoal, seja em equipamentos ou publicidade.

E não é por que na empresa privada reine a ética e a probidade. Nada disso, é só porque o capitalista quer sempre despender menos e lucrar mais. Não é por ética, é por ganância.

A empresa pública, por não ser de ninguém ‼─já que o dono está ausente─ é “nossa”, isto é, de quem a dirige, e muitas vezes ali se forma uma casta que passa a sugá-la em tudo o que pode.

A Petrobras pagava a funcionários seus, se não me engano, 17 salários por ano e o Banco do Brasil, 15. Os funcionários da Petrobras gozavam também de um fundo de pensão (afora a aposentadoria do INSS), instituído da seguinte maneira: cada funcionário contribuía com uma parte e a empresa, com quatro partes.

Conheci um desses funcionários que, depois que se aposentou, passou a ganhar mais do que quando estava na ativa. Numa empresa privada, isso jamais acontece, não é? No governo Fernando Henrique aquelas mamatas acabaram, mas outras continuam.

Não obstante, o PT sempre foi contra a privatização de empresas estatais, “et pour cause”. Lembram-se da privatização da telefonia? Os petistas foram para a rua denunciar o crime que o governo praticava contra o patrimônio público.

Naquela época, telefone era um bem tão precioso que se declarava no Imposto de Renda. Hoje, graças àquele “crime”, todo mundo tem telefone, e a preço de banana.

Mas o preconceito ideológico se mantém. Os governos petistas nada fizeram para resolver os graves problemas estruturais que comprometem a competitividade do produto brasileiro e impedem o crescimento econômico, já que teriam de recorrer à privatização de rodovias e ferrovias.

Dilma fez o que pôde para adiá-la, lançando mão de medidas paliativas que estimulassem o consumo, mas chegou a um ponto em que não dava mais.

O PIB vem caindo a cada mês, o que a levou à hilária afirmação de que, mais importante, era o amparo a crianças e jovens… Disse isso mas, ao mesmo tempo, mandou que seu pessoal preparasse às pressas ─já que as eleições estão chegando─ um plano para a recuperação da infraestrutura: investimentos que somarão R$ 133 bilhões em 25 anos. Ótimo.

Como privatização é “crime”, pôs o nome de “concessão” e impôs uma série de exigências que limitam o lucro dos que investirem nos projetos e, devido a isso, podem comprometê-los.

Nessa mesma linha de atitude, afirmou que não está, como outros, alienando o patrimônio público. Conversa fiada. A Vale do Rio Doce, depois de privatizada, tornou-se a maior empresa de minério do mundo e das que mais contribuem para o PIB nacional. Uma coisa, porém, é verdade: cabe ao Estado trazer a empresa privada em rédea curta.

sábado, agosto 25, 2012

A FALTA QUE UM LACERDA FAZ

O último dos moicanos. Infelizmente.

Outro dia falei aqui de um movimento que surgiu no Sul para refundar a ARENA, o partido de sustentação da ditadura militar de 1964. Confesso que fiquei curioso em conhecer melhor a proposta que, embora certamente ousada, considerei desde o início equivocada, para dizer o mínimo. Levado pela curiosidade, entrei em contato com a autora da idéia, uma estudante de Direito de 22 anos que usa piercing e é fã de heavy-metal. Expus a ela minha opinião, tentando mostrar que a tal proposta, ainda que bem-intencionada (pelo menos assim eu acreditava no início), é, na verdade, um grande erro: em nome da causa louvável do combate à hegemonia político-ideológica esquerdista, tal iniciativa fatalmente só dará mais munição à esquerda. Meus argumentos:

1 - A ARENA não era um partido ideologicamente consistente, mas sim uma sigla artificialmente criada pelos militares para servir de correia de transmissão do regime militar. Não era um partido ideológico, no verdadeiro sentido da palavra, de direita e conservador, até porque os militares não eram conservadores, mas revolucionários formados na tradição positivista, que defendia uma ditadura tecnocrática (não por acaso o movimento de 64 foi batizado de "revolução"). Enfim, não era um partido com agenda ideológica própria, mas um instrumento da ditadura - ou seja, não da política, mas da anti-política.

2 - Pelo mesmo motivo que seria um contra-senso ressuscitar tal legenda, mais fisiológica do que ideológica, é um erro defender, como antídoto à esquerda, o nacionalismo, que é muito mais afinado com a esquerda do que com a direita no Brasil (dei o exemplo do getulismo). Um partido de direita que se preze, além de conservador, precisa romper com a tradição nacional-estatista, que vem desde o Brasil-Colônia. E, finalmente:

3 - Onde já se viu um partido desse tipo, conservador ou liberal, aberto para integralistas, essa relíquia totalitária dos anos 30? (A propósito: sobraram alguns?)

Mandei as questões acima para a estudante gaúcha, esperando com isso suscitar um debate. Para minha surpresa, porém, logo percebi que estamos em sintonias diferentes: as respostas que recebi foram todas evasivas, limitando-se a estudante a dizer que "o nome é esse porque houve uma votação e assim escolheram" etc. Insisti, tentando iniciar um debate sobre os pontos acima. Finalmente recebi, em vez de uma refutação lógica às questões por mim colocadas, uma resposta meio atravessada, na qual a estudante dizia que "não iria responder de novo" e me pedia que eu não a importunasse mais porque ela tinha mais o que fazer etc. Entendi o recado, lamentei a falta de disposição para o debate e desejei-lhe boa sorte.

Tal episódio serviu para confirmar, a meu ver, aquilo de que eu já desconfiava: que a tal proposta de ressuscitar a ARENA surgiu sem que tivesse havido qualquer debate ideológico, qualquer discussão mais profunda sobre a conveniência ou não de levá-la adiante. Ficou claro para mim - e assim pensarei até receber uma resposta que mereça o nome - que os autores da idéia carecem de estofo intelectual, de preparo, e que a simples escolha do nome surgiu mais como uma forma de marketing - nesse caso, de marketing negativo -, a fim de atrair a atenção da mídia (o que, ao que parece, foi alcançado pela autora da idéia). Não me parece também que a iniciativa esteja livre de certo aspecto juvenil, uma espécie de rompante. Enfim, tudo, menos uma proposta política séria, capaz de desafiar a ditadura mental esquerdista em que está imerso o Brasil há décadas.

Fiquei ainda mais convencido disso quando vi, na página criada para divulgar o novo partido, as mensagens de apoio. Com algumas exceções, as pessoas que apóiam a iniciativa de recriar a ARENA são saudosistas do regime militar, que o vêem mesmo como uma solução para os problemas do Brasil na atualidade (principalmente a corrupção). Deixando de lado o fato de que desejar a "volta do regime militar" não é política, mas espiritismo, é curioso como há tanta gente que idealiza a ditadura dos generais, como escreveu outro dia o Olavo de Carvalho. Quero crer que por ingenuidade, muitos que se dizem "de direita" disputam com seus rivais esquerdistas no quesito romantização do passado, esquecendo-se que foram os militares de 64 que, ao alijarem a direita civil e extinguirem partidos como a UDN, abriram o caminho para a hegemonização esquerdista da vida cultural e política brasileira. Ou seja: exatamente o que vemos hoje.

Esse tipo de idealização do passado não se restringe aos nostálgicos dos governos militares. Fiquei sabendo, por exemplo, que um grupo pretende recriar a antiga UDN. A idéia me parece infinitamente mais interessante do que ressuscitar a ARENA, mas, mesmo assim, incorre em alguns inconvenientes. O principal é que, a meu ver, a recorrência ao passado demonstra claramente a ausência de uma direita organizada no presente. Isso é um problema. Além das dificuldades organizacionais (quem pode reivindicar, hoje, o espólio da antiga UDN?), tal insistência pretérita parece demonstrar mais falta de perspectivas do que qualquer outra coisa. Quem vive de passado não tem muito futuro.

Ainda assim, reconheço que trazer de volta a UDN, a velha UDN de grandes tribunos e políticos combativos como Carlos Lacerda, teria seus méritos. Sobretudo a figura polêmica de Lacerda, com todos os seus defeitos (e ele tinha vários), faz hoje uma falta gritante na política brasileira, caracterizada pela ausência de uma oposição que mereça o nome e honre as calças que veste. Se, em vez dos serras e aécios da vida, tivéssemos hoje um Lacerda, o governo dos petralhas não duraria uma semana. Os militares que criaram a ARENA, aliás, sabiam disso. Tanto que a primeira coisa que fizeram depois de tomar o poder foi se livrar do demolidor de presidentes. Com isso, privaram o Brasil de sua maior liderança de direita no século XX. Os frutos desse erro grotesco colhemos no Brasil de hoje. E ainda aparece alguém e propõe ressuscitar a... ARENA?

Se é verdade que a maior defesa da democracia contra o comunismo (e o fascismo) é uma direita filosoficamente forte e bem estruturada, conservadora e liberal, defensora da democracia e da livre iniciativa, então o Brasil vai mal, muito mal. Propostas esdrúxulas como a recriação da ARENA (e, em menor grau, da UDN) demonstram isso de forma cabal e acachapante. Infelizmente, os conservadores e liberais brasileiros estão totalmente órfãos, reduzidos a uma condição marginal na vida política. Enquanto isso, uma parte da direita, desprovida de uma base teórica sólida, olha para trás, suspirando por um passado fictício.

O domínio ideológico da esquerda no Brasil é tão profundo, e a ausência de uma oposição de direita tão completa, que a tarefa de romper com esse estado de coisas exigirá muito mais do que coragem moral ou ousadia de alguns attention-seekers. Exige, em primeiro lugar, um pouco mais de conhecimento histórico e de clareza das idéias. Na falta desses fatores, o que existe, infelizmente, são propostas bizarras e reacionárias (aqui, sim, o termo se aplica), e inclusive fascistóides, nascidas de uma indignação mal-direcionada e balizadas por uma falsa memória histórica. Tais propostas servem apenas para estereotipar e caricaturar a direita, num país em que ela praticamente não existe. É difícil imaginar serviço maior que se poderia prestar à causa esquerdista.

quinta-feira, agosto 23, 2012

OS QUE PROPÕEM UM BANHO DE SANGUE - POR NELSON RODRIGUES

 
Num dia 23 de agosto como o de hoje, há exatos 100 anos, via a luz pela primeira vez na cidade do Recife o menino Nelson Rodrigues. Nasceu e morreu menino, olhando o mundo, como dizia, pelo buraco da fechadura.
 
A título de homenagem, reproduzo aquela que considero uma de suas melhores crônicas (ou "confissões", como ele gostava de chamar), publicada em seu livro "O Reacionário". É uma espécie de síntese do pensamento nelsonrodriguiano: polêmico, libertário, anticomunista. Genial.
 
Fico pensando como um artigo desse teor seria recebido no Brasil de hoje, cada vez mais dominado pelos cretinos fundamentais e pela bobajada politicamente correta. As patrulhas ideológicas, que foram implacáveis com Nelson Rodrigues em vida, certamente não lhe dariam trégua.
 
Afinal, não é impunemente que um escritor, dramaturgo e cronista, respondendo quais seriam suas últimas palavras, afirma em tom categórico: "Que grande besta era o Carlos Marx!"
 
Grande Nelson Rodrigues. Grande e eterno Nelson Rodrigues. (GB)
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Os que propõem um banho de sangue
 
Preliminarmente, devo confessar o meu horror aos intelectuais ou, melhor dizendo, a quase todos os intelectuais. Claro que alguns escapam. Mas a maioria não justifica maiores ilusões. E se me perguntarem se esse horror é recente ou antigo, eu diria que é antigo, muito antigo. A inteligência pode ser acusada de tudo, menos de santa.
 
Tenho observado, ao longo de minha vida, que o intelectual está sempre a um milímetro do cinismo. Do cinismo e, eu acrescentaria, do ridículo. Deus ou o Diabo deu-lhes uma cota exagerada de ridículo. Vocês se lembram da invasão da Tcheco-Eslováquia. Saíram dois manifestos de intelectuais brasileiros. (Por que dois, se ambos diziam a mesma coisa? Não sei.) Contra ou favor? Contra a invasão, condenando a invasão. Ao mesmo tempo, porém, que atacava o socialismo totalitário, imperialista e assassino, concluía a Inteligência: — “O socialismo é liberdade!”. E ainda lhe acrescentava um ponto de exclamação.
 
Vocês entendem? Cinco países socialistas estupravam um sexto país socialista. Este era o fato concreto, o fato sólido, o fato inarredável que os dois manifestos reconheciam, proclamavam e abominavam. E, apesar da evidência mais espantosa, os intelectuais afirmavam: — “Isso que vocês estão vendo, e que nós estamos condenando, é a liberdade!”.
 
E nenhum socialista deixará de repetir, com obtusa e bovina teimosia: — “Socialismo é liberdade!”. Bem. Se o problema é de palavras, também se poderá dizer que a burguesia é mais, ou seja: — “Liberdade, igualdade e fraternidade”. Mas o que importa, nos dois manifestos, é que um e outro se fingem de cegos para o pacto germano-soviético, para o stalinismo, para os expurgos de Lênin, primeiro, e de Stalin, depois, para os assassinatos físicos ou espirituais, para as anexações, para a desumanização de povos inteiros.
 
Se os intelectuais fossem analfabetos, diríamos: — “Não sabem ler”; se fossem surdos, diríamos: — “Não sabem ouvir”; se fossem cegos, diríamos: — “Não sabem ver”. Por exemplo: — d. Hélder. Bem sei que na sua casa não há um livro, um único e escasso livro. Mas o bom arcebispo sabe ler os jornais; viaja; faz um delirante e promocional turismo. E, além disso, vamos e venhamos: — nós estamos esmagados, obsessivamente, pela INFORMAÇÃO. Outrora uma notícia levava meia hora para chegar de uma esquina a outra esquina. Hoje não. A INFORMAÇÃO nos persegue. Todos os sigilos são arrombados. Todas as intimidades são escancaradas. D. Hélder sabe que o socialismo é uma bruta falsificação. Mas, para todos os efeitos, o socialismo é a sua pose, sua máscara e seu turismo.
 
O socialista que se diz anti-stalinista é, na melhor das hipóteses, um cínico. Os habitantes do mundo socialista, por maior que seja o seu malabarismo, acabarão sempre nos braços de Stalin. Admito que, por um prodígio de boa-fé obtusa, alguém se iluda. Não importa. Ainda esse é stalinista, sem o saber.
 
Bem. Estou falando, porque estive outro dia numa reunião de intelectuais. Entro e, confesso, estava disposto a não falar de política, nem a tiro. Eu queria mesmo era falar do escrete, o abençoado escrete que em terras do México conquistou a flor das vitórias. Logo percebi, porém, que a maioria ali era antiescrete. Já que tratavam mal a vitória e a renegavam, esperei que tratassem de simpáticas amenidades.

E súbito um dos presentes (socialista, como os demais) vira-se para mim. Há dez minutos que me olhava de esguelha e, fingindo um pigarro, interpela-me: — “Você é contra ou a favor da censura?”. Eu só tinha motivos para achar uma graça imensa na pergunta. Comecei: — “Você pergunta se a vítima é contra ou a favor? Sou uma vítima da censura. Portanto, sou contra a censura”.
 
Nem todos se lembram de que não há um autor, em toda a história dramática brasileira, que tenha sido tão censurado quanto eu. Sofri sete interdições. Há meses, proibiram no Norte minha peça Toda nudez será castigada. E não foi só o meu teatro. Também escrevi um romance, O casamento, que o então ministro da justiça interditou em todo o território nacional. E quando me interditavam, que fazia, digamos, o dr. Alceu? Perguntarão vocês: — “Nada?”. Se não tivesse feito nada, eu diria: — “Obrigado, irmão”.
 
Mas fez, e fez o seguinte: — colocou-se, com toda a sua ira e toda a sua veemência, ao lado da polícia e contra meu texto. Em entrevista a O Globo declarou que a polícia tinha todo o direito, toda a razão etc. etc. Anos antes o mestre também fora a favor da guerra da Itália contra a Abissínia, a favor de Mussolini e contra a Abissínia, a favor do fascismo, sim, a favor do fascismo.
 
Não tive ninguém por mim. Os intelectuais ou não se manifestavam ou me achavam também um “caso de polícia”. As esquerdas não exalaram um suspiro. Nem o centro, nem a direita. Só um Bandeira, um Gilberto Freyre, uma Raquel, um Prudente, um Pompeu, um Santa Rosa e pouquíssimos mais — ousaram protestar. O Schmidt lamentava a minha “insistência na torpeza”. As senhoras me diziam: — “Eu queria que seus personagens fossem como todo mundo”. E não ocorria a ninguém que, justamente, meus personagens são “como todo mundo”: — e daí a repulsa que provocavam. “Todo mundo” não gosta de ver no palco suas íntimas chagas, suas inconfessas abjeções.
 
Portanto, fui durante vinte anos o único autor obsceno do teatro brasileiro. Um dia, doeu-me a solidão; e fui procurar um grande jornalista. Levava a minha mais recente peça interditada, o Anjo negro. Eu queria que o seu jornal defendesse o meu teatro. Eram dez da manhã e já o encontrei bêbado. Era um homem extraordinário. Um bêbado que nem precisava beber. Passava dias, meses sem tocar em álcool e, ainda assim e mais do que nunca, bêbado. Recebeu-me com a maior simpatia (e babando na gravata). Ficou com o texto e mandou-me voltar dois dias depois. Quando o procurei, no dia certo, continuava embriagado. Devolveu-me a cópia; disse: — “Olha aqui, rapaz. Até na Inglaterra, que é a Inglaterra, há censura. O Brasil tem que ter censura, ora que graça! Leva a peça. Essa não. Faz outra e veremos”.
 
Quanto à classe teatral, não tomou conhecimento de meus dramas. No caso de Toda nudez será castigada, seis atrizes recusaram-se a fazer o papel, por altíssimos motivos éticos. Claro que tanta virtude me deslumbrara.
 
Volto à reunião de intelectuais. Estava lá um comunista que merecia dos presentes uma escandalosa e diria mesmo abjeta admiração. Era talvez a maior figura das esquerdas. Comunista de partido, tinha sobre os outros uma ascendência profunda. Em torno dele, os demais assanhavam-se como cadelinhas amestradas. Um ou outro é que preservara uma sofrível compostura. E então o mesmo que me interpelara quis saber o que o grande homem achava da censura. Ele repetiu: — “O que é que eu acho da censura?”. Apanhou um salgadinho e disse: — “Tenho que ser contra uma censura que escraviza a inteligência”.

As pessoas se entreolhavam, maravilhadas. Quase o aplaudiram, e de pé, como na ópera. Um arriscou: — “Quer dizer que”. O velho comunista apanhou outro salgadinho: — “Um homem como eu jamais poderia admitir a censura”. Foi aí que dei o meu palpite. Disse eu. Que foi mesmo que eu disse?

Disse-lhe que um comunista como ele, membro do partido ainda em vida de Stalin, não podia sussurrar contra nenhuma censura. Devia querer que o nosso governo fizesse aqui o Terror stalinista. Devia querer o assassinato de milhões de brasileiros. Não era assim que Lênin e Stalin faziam com os russos? E ele, ali presente, devia querer a interdição de intelectuais nos hospícios, como se doidos fossem. A Inteligência que pedisse liberalização tinha que ser tratada como uma cachorra hidrófoba. Mao Tse-tung vive de Terror. Vive o Terror. Mao Tse-tung é Stalin. Lênin era Stalin. Stalin era Stalin. Quem é a favor do mundo socialista, da Rússia, ou da China, ou de Cuba, é também a favor do Estado assassino.
 
Fiz-lhes a pergunta final: — “Vocês são a favor da matança do embaixador alemão?”. Há um silêncio. Por fim, falou o comunista: — “Era inevitável”. E eu: — “Se você acha inevitável o assassinato de um inocente, também é um assassino”. E era. Assassino sem a coragem física de puxar o gatilho. Parei, porque a conversa já exalava a febre amarela, a peste bubônica, o tifo e a malária. Aquelas pessoas estavam apodrecendo e não sabiam.
[3/7/1970]

sexta-feira, agosto 17, 2012

A TENTATIVA DE GOLPE DO MENSALÃO

Não tenho tido tempo para acompanhar o julgamento do Mensalão no STF. Mas, pelo que li e ouvi até agora, levando-se em conta tudo que se disse desde que o escândalo estourou, em 2005, é possível arriscar algumas conclusões. Por trás do juridiquês e das manobras dos advogados de defesa – um deles chegou a comparar o tratamento dispensado a seu cliente com as torturas no DOI-CODI na época da ditadura militar (!!!) –, esconde-se, na realidade, uma das tramas mais sórdidas já elaboradas na História do país.
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Dito assim, parece o óbvio ululante. Mas o faço inspirado nas palavras do maior beneficiado e – são os fatos que apontam – mandante do esquema. Refiro-me a ele mesmo, o Apedeuta, Luiz Inácio Lula da Silva, inexplicavelmente ausente da denúncia apresentada pelo Procurador-Geral da República, como notou o advogado do delator do escândalo, o ex-deputado Roberto Jefferson.
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Vamos lembrar. Nos últimos sete anos, Lula apresentou, pelo menos, quatro versões para o que aconteceu. Primeiro negou que o Mensalão tivesse existido. Depois, tentou minimizar o ocorrido, dizendo que era caixa dois e que "todo mundo faz igual". Em seguida, ensaiou um pedido de desculpas em rede nacional e se disse "traído", sem especificar por quem. Finalmente, descobriu que foi uma tentativa golpista da "zelite". Desde então, essa tem sido a linha de defesa oficial do lulopetismo. Entre uma desculpa e outra, tentou safar-se com um "não vi nada, não sei nada" e esperou que acreditassem (e, pasmem, ainda há quem acredite...).
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De todas as versões apresentadas até agora pelo Guia Genial, a última, da conspiração, é a minha preferida. Sim, Lula está certo. Sim, houve uma tentativa de golpe no Brasil. Por parte dos mensaleiros.
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Existe a tendência, bastante simplista, de enxergar a corrupção em termos tão-somente de ganhos financeiros pessoais. O Mensalão não se encaixa nessa categoria. Na verdade, o escândalo foi além disso. Foi uma tentativa de golpe contra a democracia, mediante o acabrestamento do Legislativo. Para tanto, montou-se um esquema gigantesco – e milionário – que envolveu deputados, militantes, publicitários, banqueiros e figuras do submundo da política. Um esquema altamente sofisticado de compra de votos no Congresso, mediante desvio de dinheiro público. Tinha tudo para dar certo, e daria, se um dos membros da gangue – Roberto Jefferson –, inconformado em ser feito de boi-de-piranha após a descoberta do esquema fradulento do PTB nos Correios, não resolvesse chutar o balde e botar a boca no trombone. Como sói acontecer no submundo do crime, foi preciso que um participante da maracutaia abrisse o bico para que toda a lama viesse à tona.
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Por trás de tudo isso, estava não somente a vontade de lucro pessoal – apesar de imagens ridículas, como a dos dólares na cueca, e de alguns membros da quadrilha, como o notório Silvinho Land-Rover, terem se beneficiado financeiramente –, mas, sobretudo, o interesse de um partido e seus aliados de submeterem as instituições políticas do país a seu projeto político de poder. Como nos filmes sobre a máfia – e o PT é uma associação mafiosa –, é a lealdade ao “chefe”, o capo di tutti capi, ou à organização criminosa, o que esteve em primeiro lugar (há inclusive um bode expiatório que se dispõe a ser sacrificado, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares). Tratou-se de uma tentativa de acabar com a independência dos Poderes e instalar, em seu lugar, um regime autoritário, com um Legislativo dócil e submisso ao Executivo – por 30 mil reais mensais a cabeça. Esse sempre foi, aliás, o grande objetivo do PT, que sempre desprezou a democracia. O Mensalão foi, assim, nada mais do que a culminação de toda uma trajetória política, pautada desde o princípio pela idéia de que para “mudar o sistema” todos os meios eram válidos.
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(Claro, sempre há os cínicos ou idiotas, que botam a culpa de tudo no "sistema" e depois vão dormir. Acabo de ler um texto de um simpatizante esquerdista que, citando Hegel, responsabiliza o "capitalismo" pela corrupção petista... Segundo esse esquema mental, os petistas seriam seres puros e angelicais, idealistas que se teriam "desviado" do reto caminho da justiça e do socialismo pelo contato com a política "burguesa"...)
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O julgamento do Mensalão – que os petralhas, ainda por cima, fizeram de tudo para melar e adiar, inclusive com uma tentativa de chantagem de Lula a um juiz do STF – não é, portanto, mais um julgamento sobre um caso de roubalheira nos cofres públicos. É mais do que isso. É o julgamento da tentativa mais descarada e atrevida – como disse o Procurador-Geral da República – contra o funcionamento do sistema democrático no Brasil em décadas. É o julgamento de um bando de golpistas que atentaram contra a Democracia.
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Vira e mexe, os lulopetistas afirmam que o Mensalão foi uma "tentativa de golpe". É verdade. De fato, o Mensalão foi uma tentativa de golpe. Dos petralhas contra a democracia. Como demonstram as incursões do lulopetismo em política externa, como em Honduras e no Paraguai, eles falam de golpe porque de golpe eles entendem.

sábado, agosto 11, 2012

A FALSA MEMÓRIA DA DIREITA - UM TEXTO DE OLAVO DE CARVALHO

Como adendo a meu post anterior, reproduzo a seguir texto de Olavo de Carvalho. Trata-se da melhor análise disponível - na realidade, a única, até agora - sobre um fenômeno tipicamente brasileiro: a ausência, no Brasil, de uma direita que valha o nome. Tanto que os "direitistas" brasileiros (se é que existe algum) se resumem a alguns saudosistas do regime militar - a única "direita" que a maioria dos brasileiros conhece ou conheceu um dia.
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O texto confirma aquilo que venho dizendo neste blog há tempos: que o regime militar, apesar de alguns êxitos alcançados (particularmente na área econômica e no combate às guerrilhas), prestou um serviço inestimável à esquerda, ao decapitar toda uma geração de políticos de direita que fizeram o movimento de 64, substituindo o pensamento conservador pela tecnocracia e abrindo o caminho, assim, para a hegemonia cultural e ideológica da esquerda.  Os militares acabaram com partidos como a UDN de Carlos Lacerda, queimando as pontes que os uniam à sociedade civil, em nome de uma visão antipolítica e autoritária herdada do positivismo. O resultado foi um imenso vazio, logo preenchido pela esquerda. Estamos hoje colhendo os frutos desse erro histórico gigantesco.  
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É por essa razão que propostas como a da refundação da ARENA, o partido de sustentação política do regime militar, é um tiro na água. Pior: é um tiro no próprio pé. Se o objetivo é romper com o monopólio ideológico esquerdista e construir uma verdadeira alternativa conservadora de direita, o primeiro passo é se livrar do legado histórico do regime dos generais - e não reivindicá-lo, como querem alguns generais aposentados. É algo que deveria ser óbvio, mas em um país sem memória - ou melhor, com falsa memória, como diz o prof. Olavo -, afirmar o óbvio é a maior das heresias. (GB)  

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A FALSA MEMÓRIA DA DIREITA
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por Olavo de Carvalho

O positivismo nada tem de conservador: é, com o marxismo, uma das duas alas principais do movimento revolucionário.

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Dizem que o Brasil é um país sem memória, mas isso não é verdade: o Brasil é um país com falsa memória. Esquecer o passado é uma coisa, reinventá-lo conforme as ilusões do dia é bem outra. É desta doença que a memória do Brasil padece, e ela é bem mais grave que a amnésia pura e simples.
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Não, não estou falando da manipulação esquerdista do passado. Ela existe, mas é apenas um aspecto parcial da patologia geral a que me refiro. Esta infecta pessoas de todas as orientações ideológicas possíveis e algumas sem orientação ideológica nenhuma. Ela é um simples resultado da ojeriza nacional à busca do conhecimento, portanto à reflexão madura sobre o que quer que seja.
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Querem um exemplo de falsa visão do passado que não foi produzida por nenhum esquerdista? O País está cheio de almas conservadoras e cristãs que ainda idealizam o regime militar, como se ele fosse uma utopia retroativa, a encarnação extinta das suas esperanças.
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É verdade que os militares não roubavam, que eles fizeram o Brasil crescer à base de quinze por cento ao ano, que eles construíram praticamente todas as obras de infra-estrutura em que a economia nacional se apoia até hoje, que eles acabaram com as guerrilhas, que no tempo deles a criminalidade era ínfima e que os índices de aprovação do governo permaneceram bem altos pelo menos até a metade da gestão Figueiredo. Que tudo isso são méritos, ninguém com alguma idoneidade pode negar.
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Mas também é verdade que, tendo subido ao poder com a ajuda de uma rede enorme de instituições, partidos e grupos conservadores e religiosos, a primeira coisa que eles fizeram foi desmanchar essa rede, cortar as cabeças dos principais líderes políticos conservadores e privar-se de qualquer suporte ideológico na sociedade civil.
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Fizeram isso porque não eram conservadores de maneira alguma; eram indivíduos formados na tradição positivista – forte nos meios militares até hoje – que abomina o livre movimento das ideias na sociedade e acredita que o melhor governo possível é uma ditadura tecnocrática.
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Pois foi uma ditadura de militares e tecnocratas iluminados o que impuseram ao País por vinte anos, rebaixando a política à rotina servil de carimbar sem discussão os decretos governamentais. Suas mais altas realizações foram triunfos típicos de uma tecnocracia, seus crimes e fracassos o efeito incontornável do desejo de tudo controlar, de tudo reduzir a um problema tecnoburocrático, em que o debate político é reduzido a miudezas administrativas e a iniciativa espontânea da sociedade não conta para nada.
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O positivismo nada tem de conservador: é, com o marxismo, uma das duas alas principais do movimento revolucionário. Compartilha com a sua irmã inimiga a crença de que cabe à elite governante remoldar a sociedade de alto a baixo, falando em nome do povo para que o povo não possa falar em seu próprio nome.
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Tal foi a inspiração que acabou por predominar nos governos militares. Que dessem ao movimento de 1964 o nome de "Revolução" não foi mera coincidência, nem usurpação publicitária de um símbolo esquerdista, mas um sinal de que, por baixo da meta de derrubar um governo corrupto e devolver rapidamente o País à normalidade, tinham planos de longo prazo, ignorados da massa que os aplaudia e até de alguns dos líderes civis de cuja popularidade se serviram para depois jogá-los fora com a maior sem-cerimônia.
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Todas as organizações civis conservadoras e de direita que criaram a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", a maior manifestação popular da história brasileira até então, foram depois extintas, marginalizadas ou reduzidas a um papel decorativo.
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Como bons tecnocratas, os militares acreditavam piamente que podiam governar sem sustentação cultural e ideológica na sociedade civil, substituindo-a com vantagem pela pura propaganda oficial. Esta, por sua vez, era esvaziada de toda substância ideológica, reduzida ao triunfalismo econômico e à luta contra o "crime".
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Gramsci, no túmulo, se revirava, mas de satisfação: que mimo mais delicioso se poderia oferecer aos próceres da "revolução cultural" do que um governo de direita que abdicava de concorrer com eles no campo cujo domínio eles mais ambicionavam? Naqueles anos, e não por coincidência, o monopólio do debate ideológico foi transferido à esquerda, que ao mesmo tempo ia dominando a mídia, as universidades, o movimento editorial e todas as instituições de cultura, sob os olhos complacentes de um governo que se gabava de ser "pragmático" e "superior a ideologias".
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A esquerda, quando caiu do cavalo, em 1964, teve ao menos o mérito de se entregar a um longo processo de autocrítica e até de mea culpa, de onde emergiu a dupla e concorrente estratégia das guerrilhas e do gramscismo, calculada para usar os guerrilheiros como bois-de-piranha e abrir caminho para a "esquerda pacífica", na qual o governo militar não viu periculosidade alguma – até que ela, por sua vez, o derrubou do cavalo com o escândalo do Riocentro e a enxurrada de protestos que se lhe seguiu.
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Aqueles que, na "direita", ou no que resta dela, se apegam ao regime militar como um símbolo aglutinador, em vez de examinar criticamente os erros que o levaram ao fracasso, estão produzindo um falso passado. Não o fazem por esperteza, como a esquerda, mas por ingenuidade legítima, com base na qual a única coisa que se pode construir é um futuro ilusório.


terça-feira, julho 31, 2012

BOM MOTIVO, MÁ IDÉIA

Para muita gente, isso aí em cima é a única "direita" que conhecem

Li que uma estudante de Direito de 22 anos iniciou um movimento no Sul para ressuscitar a ARENA, o partido de sustentação política do regime militar de 1964. Inicialmente achei a idéia curiosa, para dizer o mínimo, ainda mais por surgir de pessoa com tão pouca idade, nascida depois do fim do regime dos generais – o simples fato de alguém tão jovem se interessar por Política com P maiúsculo, nos dias que correm, é uma grata surpresa. Principalmente por se tratar de uma proposta que destoa tão radicalmente do que se tornou habitual ver nas escolas e universidades brasileiras, que já se tornaram verdadeiras madraçais do pensamento único esquerdista, baseado num marxismo pé-de-chinelo que, de tão primário, encheria de vergonha o próprio Marx. Dizer-se de direita ou anticomunista no Brasil ainda é um tabu, um anátema, uma mácula para quem o faz. Por aqui, Stálin e Fidel Castro ainda têm mais admiradores do que Churchill ou Margaret Thatcher.

Pelo que li, acredito que a motivação da moça é boa. Palmas pra ela. Mas bons motivos e coragem para dar a cara à tapa não são garantia de boas idéias. Nesse caso, sinto dizer, a proposta de ressuscitar a ARENA, ainda que seja para provocar um debate, não é nada boa. É péssima.

É tão grande e tão sufocante a hegemonia da ideologia esquerdista no Brasil que qualquer tentativa de romper essa camisa-de-força é bem-vinda. O simples fato de alguém se insurgir contra essa lavagem cerebral coletiva, que já dura décadas, deve ser comemorado. Como já escrevi em varios posts (principalmente aqui: http://gustavo-livrexpressao.blogspot.gr/2011/04/por-que-nao-existe-direita-no-brasil-e.html), a inexistência no Brasil de um partido de direita, conservador ou liberal, é uma aberração, e constitui certamente o maior problema político do país na atualidade, a explicação para o fato de não termos oposição. A idéia de reconstruir um partido de direita é, assim, uma provocação, no bom sentido da palavra. Mas é preciso ter cuidado. As boas intenções, somadas à falta de conhecimento histórico, costumam gerar resultados contrários ao que se espera. No caso em questão, é quase certo que tal iniciativa vai levar mais água para o moinho da esquerda.

A autora da iniciativa, talvez pela pouca idade, comete uma série de erros. O primeiro e mais óbvio deles é considerar a ARENA um paradigma de política ideológica. Ora, ideologicamente, a ARENA (que virou PDS, PPR, PPB e PP) tinha a firmeza de princípios e a consistência de um pudim, não se distinguia da geléia geral da política brasileira. Criada após a extinção dos partidos políticos pré-64, era formada, principalmente, por áulicos do regime e pelos oportunistas de sempre, que enxergam na política uma profissão. Gente como Paulo Maluf, nomeado prefeito e depois governador de São Paulo pelo partido dos militares e que hoje está na base alugada do lulopetismo, dizendo-se mais comunista do que o Lula. Se é para ressuscitar um partido, que se ressuscite a UDN, que tinha lá seus defeitos (Roberto Campos dizia que era um "partido burro de homens inteligentes"), mas contava em suas fileiras com grandes oradores e polemistas como Carlos Lacerda – cassado pelo regime de 64, que criou a ARENA. A extinção de partidos como a UDN, aliás, foi um dos grandes erros dos militares, servindo apenas para decapitar uma geração inteira de políticos de direita e criar um vazio ideológico que a esquerda apressou-se a preencher depois. Tampouco um autêntico partido de direita, conservador ou liberal, teria espaço para integralistas – até porque havia muito mais em comum entre estes e os comunistas do que os últimos gostariam de admitir. Sem falar que o nacionalismo, pelo menos no Brasil, é uma ideologia mais afeita à esquerda do que à direita.

Além disso, convenhamos: a proposta de ressuscitar um partido, ainda mais um criado para dar apoio à ditadura dos generais, remete ao passado. Reforça, assim, simbolicamente, o estereótipo de direita como coisa ultrapassada e, pior, "reacionária", enquanto a esquerda se apresenta como "progressista". Acaba servindo, portanto, aos atuais donos do poder político e cultural.

Enfim, a idéia da jovem gaúcha é provavelmente bem-intencionada, mas é uma bobagem. Infelizmente. Apenas demonstra aquilo que venho tentando mostrar aqui há anos: que no Brasil ainda se desconhece o que seja direita. Ao tomar a velha ARENA de Maluf como referência, apenas serve aos propósitos mistificadores da esquerda.

domingo, julho 29, 2012

UMA CONSPIRAÇÃO A CÉU ABERTO - E A MAIOR OPERAÇÃO-ABAFA DA HISTÓRIA DO BRASIL

O vídeo que vocês verão a seguir deveria dispensar comentários. Digo deveria porque, apesar de ser a confissão de um crime - no caso, um crime contra a democracia em escala continental -, o delito e o delinquente certamente continuarão impunes. Pior: tanto um quanto o outro seguirão ignorados, como se o que está sendo dito logo abaixo não fosse real.

No vídeo, o Molusco Apedeuta, agora sem barba e com a voz rouca por causa da doença, envia uma mensagem de solidariedade aos "companheiros do Foro de São Paulo", que realizava então uma renião em Caracas, Venezuela, no começo de julho.  Praticamente não saiu uma linha sequer, não se falou absolutamente nada sobre o assunto, na imprensa brasileira. Mas Lula dá o serviço. Eis o que ele diz, com a cara mais lavada do mundo:

- Em primeiro lugar, ele lembra que, em 1990, quando o Foro foi criado (para, lembremos, restabelecer na América Latina o que se acabara de "perder" no Leste Europeu - ou seja: o comunismo), a esquerda estava no poder em apenas um país na América Latina - Cuba - e que, desde então, "governamos" - o "nós" inclui, obviamente, quem está hoje no poder na ilha caribenha - vários países do continente; 

- Afirma - e nisso está certo - que o Foro tem mudado radicalmente a face do continente, e que mesmo onde os partidos do Foro são oposição, eles têm uma influência crescente em seus países (o que também é verdade, infelizmente);

- Com a mesma desfaçatez com que nega, até hoje, a existência do mensalão, que está (finalmente!) para ser julgado no STF, repete mentiras deslavadas, afirmando que, graças ao Foro, os países por ele governados passam por uma fase de grande "crescimento econômico" - os números não mostram nada disso - e que "somos uma referência internacional de alternativa de sucesso ao neoliberalismo". Alternativa? De sucesso? Ao "neoliberalismo"?;

- Elogia as "conquistas extraordinárias" do governo populista e autoritário de Hugo Chávez na Venezuela, que vem arrastando o país para o caos econômico e social, dizendo que nunca as classes populares daquele país foram tratadas "com tanto respeito, carinho e dignidade" (sic); 

- Lamenta que Honduras e Paraguai, em que governos populistas e irresponsáveis foram destituídos de forma constitucional, tenham resistido às tentativas de Chávez de intervir nos assuntos internos para aniquilar as instituições. Lula não acha que Honduras e Paraguai sejam democracias. Democracia, para ele, é o que existe em Cuba e na Venezuela;

- Prosseguindo no desfile de cretinices, Lula fala ainda na existência de "colônias" na região, citando as Malvinas, cujos habitantes britânicos Cristina Kirchner quer porque quer converter em argentinos;

- Termina pedindo votos para seu companheiro Hugo Chávez - haverá eleições presidenciais na Venezuela em 7 de outubro -, dizendo "tua vitória será nossa vitória", no melhor estilo eternizado pelo deputado Cândido Vacarezza - aquele do "você é nosso, nós somos teu (sic)", lembram?.

Durante anos, o Foro de São Paulo foi um tabu na imprensa brasileira. Somente o Olavo de Carvalho falava do tema. Negava-se até mesmo a existência do Foro - falar sobre ele era coisa de alucinados e de teóricos da conspiração que viam comunistas em cada esquina etc. Somente em 2005, 15 anos depois da criação do Foro - isso mesmo: 15 anos depois! -, é que parte da imprensa brasileira, com a VEJA à frente, "descobriu" que a coisa existia de fato, e não era uma fantasia de mentes delirantes.  Mesmo assim, jornalistas companheiros acharam um jeito de botar panos quentes e evitar que a história crescesse: o Foro existia, mas era apenas um convescote sem consequências, uma simples reunião de amigos e nada mais, sem nenhuma influência na realidade dos países da região  - e isso apesar de farta documentação, que inclui resoluções (alguém já viu uma reunião de amigos com resoluções?). Enfim, uma coisa assim, sem importância (deve ter sido por isso que, assim que o assunto veio à baila, as atas do Foro sumiram do site oficial da Presidência da República). Agora essa teoria é desmentida, de forma acachapante, por ninguém menos do que um dos criadores do Foro, que faz questão de mostrar, até vangloriando-se, que a organização mudou e vem mudando radicalmente - para pior - a realidade política da América Latina. 

Um fato que vale a pena lembrar: quem até um dia desses participava ativamente do Foro de São Paulo, além de partidos como PT e PCdoB e da ditadura comunista cubana dos irmãos Castro, sem falar em governos "progressistas" como os de Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa, eram as FARC, os narcoterroristas colombianos.  Desnecessário dizer que, assim que a VEJA mencionou pela primeira vez a existência do Foro, não faltou quem se apressasse a "esclarecer" que as FARC dele não mais faziam parte e que isso era coisa do passado etc. e tal (isso depois de terem negado, durante uma década e meia, que o Foro existia). Só esqueceram de mencionar que tal organização narcoterrorista jamais foi expulsa, tendo-se retirado discretamente assim que se tornou impossível esconder a notícia da existência do Foro - e da vinculação das FARC com o PT. Vinculação que a descoberta dos arquivos do computador pessoal do número dois das FARC, Raúl Reyes, morto no Equador em 2008, tornou mais difícil esconder - outro assunto que estranhamente continua ignorado na grande imprensa nacional. Alguma relação com o fato de o governo brasileiro, pela voz de Marco Aurélio Garcia (ex-presidente do Foro e habitué de suas reuniões), declarar-se "neutro" em relação às FARC, colocando os narcobandoleiros, portanto, no mesmo nível de legitimidade do governo colombiano democraticamente constituído? Tirem suas próprias conclusões.

Em qualquer país sério, os fatos acima seriam suficientes para levar figuras como Lula às barras de um tribunal ou, pelo menos, a ser intimado a dar explicações numa CPI. Por muito menos do que está no vídeo, seria algemado e expulso da vida política para sempre. Mas estamos no Brasil, onde não há oposição. Por estas bandas, simplesmente proclamar um fato, juntar lé com cré, é visto como a pior das heresias. Daí vídeos asquerosos como este não causarem escândalo, sequer um comentário.

Nunca na História do universo uma conspiração internacional, envolvendo inclusive terroristas e narcotraficantes, para tomar o poder e destruir as instituições democráticas em um continente inteiro esteve mais bem documentada. E nunca - nunca mesmo - houve uma operação tão abrangente para ocultá-la dos olhos do público. E com tanto êxito. O que leva à seguinte conclusão: não basta divulgar a verdade; é preciso encontrar pessoas dispostas a ouvi-la.  Se estiverem narcotizadas por um estupefaciente mental chamado lulopetismo, continuarão cegas, surdas e mudas ao que se passa em sua volta. Os brasileiros, esses distraídos, estão anestesiados. Ou corrompidos.

Claro, certamente haverá quem procure diminuir o que está no vídeo, dizendo que ele não "prova" nada, no máximo que Lula e o PT se movem, em termos ideológicos, no terreno da ambigüidade e da duplicidade, o que não é nenhuma novidade etc. etc. Nesse caso, seria forçoso admitir que Lula e o PT têm uma agenda secreta. Com o detalhe de que nem secreta ela é.

Assistam e comprovem:

terça-feira, julho 24, 2012

A MORTE DE UM DISSIDENTE

Oswaldo Payá, 1952-2012

No último domingo, morreu num suposto acidente de automóvel Oswaldo Payá, um dos principais opositores à ditadura totalitária comunista cubana. O carro em que estava teria batido numa árvore na província de Granma (antiga província de Oriente). Payá era o líder do Movimento Cristão Libertação e ficou famoso ao apresentar, em 2002, uma petição para a realizacão de reformas democráticas na ilha dominada há 53 anos por Fidel e Raúl Castro. A iniciativa, conhecida como Projeto Varela, valeu-lhe duas indicações ao Nobel da Paz e a perseguição sem tréguas do regime castrista.

É possível que a morte de Oswaldo Payá tenha sido um acidente, como se apressou a informar o regime comunista cubano. Pode ser que sim, pode ser que não. Mas um fato está fora de dúvida: ditaduras são sempre suspeitas. Se a ditadura em questão é a tirania comunista dos irmãos Castro, que já fez 100 mil mortos (entre fuzilados e afogados tentando escapar da ilha-cárcere), então essa observacão deve ser multiplicada por mil: em primeiro lugar, na ilha-presídio não há imprensa livre para contestar a versão oficial do governo. Some-se a isso o fato de que Payá já havia sofrido outro "acidente" recentemente e o caso torna-se ainda mais estranho. Há fortes razões, portanto, para acreditar que sua morte não tenha sido acidental e que a nota divulgada imediatamente pelo regime lamentando o fato seja, no mínimo, morbidez hipócrita.

Em 1976, a estilista Zuzu Angel morreu no Rio de Janeiro num acidente de carro semelhante ao que vitimou Payá em Cuba. Hoje, ninguém questiona que ela tenha sido assassinada por agentes da ditadura militar. Muita gente ainda hoje acredita que o ex-presidente Juscelino Kubitschek tambem foi assassinado nas mesmas circunstâncias e pelos mesmos algozes. Tanto Zuzu Angel como JK eram figuras incômodas ao regime de 64, assim como Oswaldo Payá era uma pedra no caminho da tirania cubana. Por que o que vale para uma ditadura não vale para outra?

Inútil perguntar. Católico fervoroso, opositor da ditadura mais longeva e adulada do Ocidente, Oswaldo Payá não se encaixava no padrão adotado pela "festiva". A causa pela qual lutou e a que dedicou sua vida - a liberdade - não faz muito sucesso entre os "progressistas". Ele não queimava bandeiras dos EUA. Não cantava loas a tiranos e terroristas. Não era, enfim, um da turma.

Como falei antes, sempre que morre um opositor de uma ditadura, esta é a principal suspeita, ainda que a morte tenha sido causada por uma gripe. Trata-se de um fato óbvio. A menos, claro, que a ditadura tenha amigos poderosos como a cubana. Nesse caso, qualquer pedido de investigação é imediata e rapidamente descartado como teoria conspiratória. E assim fica comprovado, mais uma vez, o método com o qual os "progressistas" daqui e de alhures tratam o regime de Havana: com dois pesos e duas medidas. Também, quem mandou morrer do lado errado, não é mesmo?

sábado, julho 21, 2012

O MASSACRE NOS E.U.A., A MANIPULAÇÃO DESARMAMENTISTA - E UMA PERGUNTA SINGELA

Ai, ai... Não gosto de escrever no calor da hora: prefiro analisar as coisas com calma, enxergando os fatos com cuidado, a correr o risco de tecer comentários apressados e levianos. Além do mais, não sou jornalista para tentar concorrer com agências de notícias. Mas certos padrões, de tão repetitivos, permitem saber com antecedência exatamente o que vão dizer sobre este ou aquele fato. Vamos lá.

Mais um massacre nos EUA, em que alguém com sérios problemas psicológicos e armado até os dentes abre fogo contra pessoas inocentes num lugar público. Mais uma nação chocada etc. e tal. E, mais uma vez - e, podem apostar o quanto quiserem: não será a última - os defensores do gun control vão aproveitar o fato para culpar, antes mesmo que se descubra a motivação do crime, as armas pelo ocorrido. Vão usar e abusar do episódio para destilar a cantilena de que o fato "prova" que armas de fogo são más e que, portanto, a posse das mesmas deve ser criminalizada e que, assim como remédios e objetos pontiagudos em relação a crianças, devem ser colocadas fora do alcance do cidadão, esse incapaz. Proíbam as armas, é o que vão dizer, e fatos como esse não mais se repetirão e todos viverão em paz e segurança etc. etc.

Esse tipo de rotina já se tornou tão previsível que nem vou me dar ao trabalho de repetir, aqui, os argumentos que já empreguei para demonstrar a falácia do discurso desarmamentista (quem tiver interesse, recomendo ler os posts que publiquei em resposta à tentativa de manipulação da opinião pública pela turma do "sou da paz" quando do massacre numa escola no Rio de Janeiro, no ano passado). Não vou sequer repetir a pergunta que já fiz aqui antes, e que até agora permanece sem resposta: por que será que assassinos como o do cinema no Colorado escolhem lugares como cinemas, escolas e igrejas, e não clubes de tiro, por exemplo, para praticaram suas matanças? (Responda quem puder.) Tampouco vou lembrar o óbvio: que armas não disparam sozinhas, e que atrás do gatilho está um indivíduo, cabendo a este, e a mais ninguém, a responsabilidade por seus atos. Não, desta vez a pergunta é outra.

A questão é bastante simples, singela até. Creio também não ser difícil de ser respondida. É a seguinte: por que, se o direito a ter uma arma não serve de elemento suasório contra criminosos, o assassino do cinema estava usando um colete à prova de balasEstaria ele se precavendo de ser atingido por uma saraivada de pipocas atiradas pela platéia? Ou estaria com medo de ter seu desígnio homicida detido por um copo de refrigerante?

Com a palavra os desarmamentistas, essa gente linda e maravilhosa, que só quer o nosso bem.