sábado, maio 25, 2013

OS QUE SE ORGULHAM E OS QUE NEGAM


Quando foi criada, a assim chamada "Comissão da Verdade" foi bastante criticada por alguns jornalistas e historiadores não-alinhados com o projeto de poder lulopetista. Disseram, então, que a coisa seria uma inutilidade, um desperdício de dinheiro público. Mais que isso: seria uma tentativa de revanche, dirigida para rever a Lei de Anistia. Uma grande bobagem a serviço de interesses ideológicos, enfim.

Também compartilhei desse ponto de vista, e inclusive escrevi alguns textos a respeito. Neles, busquei mostrar que a Comissão - da qual, estranhamente, não faz parte nenhum historiador - não passaria de uma omissão da verdade, uma forma de escamotear os crimes da esquerda para impor a memória seletiva dos fatos e uma versão ideologicamente conveniente. Uma óbvia empulhação, destinada a reescrever cinicamente a História para que se adapte à propaganda esquerdista.  

Pois bem, faço aqui um mea culpa. Eu estava (parcialmente) enganado. Mais de um ano após sua criação, não é que a tal comissão mostrou que tem alguma utilidade? Vejamos.

Há alguns dias, falou perante a Comissão em Brasília o coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra. Na verdade, "falou" é maneira de dizer. Ele estava lá para depor, ou melhor, para ser massacrado por seus interrogadores, cumprindo o papel de homem mau, de rosto do porão da ditadura. Comandante do temido DOI-COI do II Exército em São Paulo entre 1970 e 1974, o período mais duro dos chamados "anos de chumbo" no Brasil, quando era então major, Ustra é acusado de ter ordenado e participado pessoalmente de torturas e assassinatos de vários militantes de esquerda. Um dos que passou por suas mãos, hoje vereador, estava presente em seu depoimento para apontar-lhe o dedo e chamá-lo de torturador, assassino etc.  Ustra, mesmo protegido por uma liminar que lhe dava o direito de permanecer calado, confrontou seus acusadores. Entregou-lhes, inclusive, um livro que escreveu, A Verdade Sufocada, no qual conta sua versão da História (o que inclui numerosos fatos que a esquerda gostaria que fossem esquecidos). Aproveitou para lembrar que a atual presidente da República participou de várias organizações terroristas (o que é, diga-se, um fato). Como esperado, houve bate-boca. Um verdadeiro circo, que logo desandou para o grotesco e o ridículo.

Se houve algo que o depoimento de Ustra comprovou é que a Comissão da Verdade, de "da Verdade", não tem nada. Desde o início, ficou clara sua finalidade revanchista: seus integrantes não perdem a chance de lembrar que querem rever a Lei de Anistia para punir os agentes da repressão - e somente estes. Além disso, o objetivo irrealista a que se propôs - investigar as violações dos direitos humanos ocorridas no Brasil de 1946 a 1988 - fez com que ela, previsivelmente, caísse na irrelevância, o que seus membros tentam compensar apelando para a criação de factóides. A "convocação" de Ustra para depor veio comprovar tal fato.

Paradoxalmente, isso já serviu para alguma coisa: desmascarar o caráter parcial e revanchista de tal iniciativa, que, a pretexto do repúdio a torturas passadas, visa, na verdade, a atender a interesses inconfessáveis do presente (José Dirceu e José Genoíno que o digam...). Mas os membros da comissão, ao convocar Ustra para depor, sem querer lhe deram ainda outra finalidade.    

Ustra é um torturador. Ou ex-torturador, como queiram. Seus crimes, que incluem, além de tortura, assassinatos e desaparecimentos, são por demais conhecidos e estão por demais documentados para serem ignorados. Mesmo assim - e aqui entro na questão central deste texto -, seu depoimento foi importante, principalmente por um detalhe: ele negou cada acusação que lhe foi feita. Negou que tenha torturado algum prisioneiro. Negou que tenha assassinado alguém. Negou, apesar da montanha de evidências em contrário, que o DOI-CODI era um centro de torturas. Negou que os militantes presos eram trucidados no pau-de-arara e na cadeira-do-dragão. Enfim, negou. Negou tudo.   

Chamo a atenção para esse fato - a recusa pertinaz de Ustra em admitir o que fez. Trata-se de algo da maior importância, que faz toda a diferença para o tema de que estamos tratando. Por quê? Porque, visto em comparação com o que dizem os remanescentes da esquerda armada, que praticaram atos de terrorismo como assassinatos ("justiçamentos"), sequestros e assaltos a banco, tal fato revela uma diferença fundamental entre os dois lados da disputa ideológica no Brasil de quarenta e tantos anos atrás. Ustra nega ter cometido qualquer delito. Já os ex-terroristas que ele combateu não somente não negam, como - notem bem! - se orgulham do que fizeram.   

Em outras palavras: Ustra, um ex-torturador, sabe que tortura, assassinato e ocultação de cadáver são crimes terríveis, e por isso nega tê-los cometido. Em seu íntimo, ele sente vergonha pelo que fez. Bem diferente de seus inimigos, que sentem não vergonha, mas orgulho de terem matado e ferido pessoas, muitas delas inocentes. Tanto que, não contentes em vangloriar-se por tais atos de barbárie, fazem questão de falsificar a História, tratando como "luta pela democracia" o que era, na verdade, a tentativa de instaurar, pela força das armas, uma ditadura marxista no Brasil. É isso o que faz, por exemplo, Dilma Vana Rousseff sempre que se pronuncia sobre o assunto.

Desse modo, os ex-militantes da esquerda armada (muitos dos quais, aliás, não abandonaram a militância) rejeitam qualquer sentimento de vergonha, emprestando ares heróicos a uma luta que foi, em essência, antidemocrática. Ao contrário dos ex-agentes da repressão, que ou se escondem ou, como Ustra, negam o que fizeram. Estes últimos, pelo menos, têm consciência de que tortura é algo moralmente errado e inaceitável. Os ex-terroristas, por sua vez, não demonstram qualquer sinal de arrependimento. Para eles, todos os meios - matar, sequestrar, jogar bombas, arrebentar a coronhadas o crânio de um prisioneiro - eram válidos para alcançar a revolução socialista. Mais que válidos, tais métodos eram louváveis. Revelam, assim, não possuírem qualquer senso moral. E ainda posam de democratas, exigindo ser - e são! - indenizados pelo Erário...

Essa diferença fica ainda mais marcante quando se compara a natureza dos regimes políticos pelos quais cada lado se batia. Como sabe qualquer pessoa que já leu algum documento de qualquer organização terrorista de esquerda atuante no Brasil de 1961 a 1979, o modelo da luta armada não era a Suécia ou a Dinamarca, mas países como Cuba, China ou a Coréia do Norte. Ou seja: ditaduras totalitárias, de partido único. Já a ditadura militar brasileira era um regime autoritário, que se auto-intitulava "de exceção", e chegou ao fim há mais de 25 anos. Bem diferente da ditadura comunista cubana, que já dura 54 anos, sem dar qualquer sinal de que vai acabar um dia (já tinha cinco anos de existência quando os militares derrubaram o governo de João Goulart, em 1964, e 26 quando o regime militar chegou ao fim, em 1985). Sem contar o número de mortos de cada lado: em Cuba, foram cerca de 17 mil fuzilados até agora (além de uma quantidade incontável de afogados ao tentar fugir da ilha-prisão, o que pode elevar o número de vítimas do castrismo para estratosféricos 100 mil cadáveres). No Brasil, foram 424 mortos pelos órgãos de segurança da ditadura militar (muitos deles, em tiroteios com agentes da repressão). Não são números que devem ser desprezados. Tampouco o objetivo dos militares de impedir que o Brasil se transformasse numa nova Cuba parece ter sido mero delírio ou paranóia (ao contrário do alegado caráter democrático da luta armada, na verdade um mito criado pela esquerda).

Ao negar fatos sobejamente conhecidos, Ustra certamente mentiu, mas demonstrou, pelo menos, algum resquício de vergonha. Colocou-se, assim, um degrau acima de seus acusadores na escala de valores da humanidade. Demonstrou, portanto, superioridade moral em relação aos ex-terroristas.  Com isso, a Comissão da Verdade, de forma involuntária, prestou um serviço ao esclarecimento da verdade histórica. Por vias tortas, já justificou sua existência.

quinta-feira, abril 25, 2013

ESQUERDA É COISA DE ELITE


"Não vi um negro", escreveu o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues – talvez a única mente lúcida do Brasil na época – sobre a famosa "passeata dos cem mil" no Rio de Janeiro contra o regime militar, em 1968. O que mais lhe chamou a atenção na maior marcha de protesto daquele ano seminal da esquerda moderna (ou pós-moderna) foi a ausência quase completa de pobres, ou de gente com cara de pobre, em um movimento que se dizia a favor dos pobres e contra os ricos etc. "Não havia ali um único negro, um desdentado, um mísero torcedor do Flamengo", observou, intrigado. Nenhum operário, nenhum favelado, nem mesmo um morador de subúrbio. Apenas gente bonita e com todos os dentes no lugar, garotões e gatinhas da juventude dourada da zona sul carioca, bem-nascidos, bem-nutridos, de pele alva ou "bronzeados como um havaiano de cinema", desfilando seus slogans contra a ditadura, no que poderia muito bem, comentou Nelson, ser um comercial de dentifrício.
 
Ele sabia do que falava. "Como é marxista a nossa burguesia!", exclamava, com ponto e tudo, o jornalista e dramaturgo, que tinha o costume, talvez para colher material para suas peças e romances, de frequentar saraus de grã-finos, uma moda na época. Em um deles, escreveu em uma de suas crônicas, chegou a conhecer uma auto-proclamada "amante espiritual de Guevara" (!). Esta iria fazer companhia, no universo rodrigueano, a outras figuras icônicas da sociedade e especialmente da esquerda brasileira, como o "padre de passeata", a "freira de minissaia", a "estagiária da PUC" etc. Nessas ocasiões, o autor de O Casamento pôde constatar a ilimitada admiração, que beirava o fanatismo ("só faltavam abanar o rabo como cadelinhas amestradas"), dos habitantes do grand monde pela figura de Marx, a qual somente rivalizava com a total ignorância que demonstravam pelas ideias do "Velho" (era assim que chamavam o fundador do soi-disant "socialismo científico", com a intimidade de alguém da família).

Nelson Rodrigues era um dramaturgo, um homem de teatro, mas suas crônicas, reunidas em livros como O Reacionário e A Cabra Vadia, estão longe de ser obra de ficção. Suas observações, escritas em estilo suculento, foram argutas e precisas, valem mais do que muita obra de sociológo que existe por aí. Assim como assistiu bestializado à Proclamação da República em 1889, o povo passou longe da passeata dos cem mil, e mais longe ainda da luta armada contra a ditadura militar. O historiador Marcelo Ridenti, em seu livro O Fantasma da Revolução Brasileira (publicado em 1993), apontou esse fenômeno: em um levantamento, ele constatou que entre os membros processados dos grupos terroristas de esquerda nos anos 60 e 70 (ALN, VPR, MR-8, VAR-Palmares etc.), 57,78% eram estudantes de classe média ou alta. Pouquíssimos podem ser considerados "operários" ou "trabalhadores". Enquanto isso, o povão, entusiasmado com o "milagre" econômico e com os dribles de Pelé e Rivelino na seleção tricampeã mundial de futebol no México, assistia indiferente, ou mesmo com franca hostilidade, às aventuras da esquerda armada (da qual, aliás, frequentemente era vítima). A conclusão de Ridenti, corretíssima, é que os grupos guerrilheiros não eram o oposto da elite, mas uma fração desta, uma espécie de "contra-elite". Um dos membros dessa elite guerrilheira que pegou em armas contra a ditadura foi Nelsinho, filho de Nelson Rodrigues. Outra foi uma tal de Dilma Vana Rousseff.
 
Não se trata de um fenômeno restrito ao Brasil. Sempre houve, em todos os países, um divórcio radical, ou melhor, um abismo entre a esquerda e as massas populares. Apesar de nomes pomposos escolhidos para batizar os movimentos e partidos esquerdistas ao longo da História – "dos trabalhadores", "operário", "popular" etc. –, o povão, ou, para usar o jargão marxista, o "proletariado", sempre deu as costas à propaganda revolucionária e socialista, brandida quase sempre por membros desgarrados da elite. Basta ver a biografia dos principais líderes revolucionários. Lênin vinha da aristocracia rural russa (seu pai tinha inclusive um título de nobreza). Mao Tsé-tung era filho de proprietários de terras. Fidel Castro também. Sem falar no próprio Karl Marx, de origem burguesíssima, assim como seu amigo Friedrich Engels, rico herdeiro de fábricas de tecidos na Inglaterra. Todos vieram da classe dominante. (Não que ser do povo traga, em si, alguma virtude moral intrínseca: Stálin, por exemplo, era de origem proletária, assim como Lula – aliás, uma invenção da elite.) Mesmo assim, sempre se apresentaram como a "vanguarda" da "classe operária"... E isso em TODOS os movimentos e partidos de esquerda e de extrema-esquerda no mundo nos últimos cento e tantos anos. (Antes mesmo de Lênin e da Revolução Russa de 1917, tornou-se célebre o caso dos jovens anarquistas russos que, abandonando uma vida de luxo e conforto nas cidades, embrenharam-se no campo, tentando sublevar as massas. Foram expulsos a pontapés pelos camponeses. O mesmo aconteceu com Che Guevara na Bolívia, melancolicamente delatado pelos mesmos que dizia querer "libertar"...)
 
Por que estou dizendo tudo isso? Porque historicamente a esquerda, no Brasil e alhures, sempre insistiu em falar em nome do "povo". Desde os antigos comunistas, até os que se apresentam atualmente sob as mais diversas bandeiras, como "direitos humanos", indigenistas, feministas, ambientalistas, desarmamentistas, maconhistas, cotistas, gayzistas etc., os representantes desses movimentos alegam defender as camadas sociais mais desfavorecidas. Se os pobres concordam ou não com sua agenda política, é outro assunto.
 
Nada mais falso do que a ideia da esquerda como "representante do povo". Um exemplo recente: há alguns dias, em São Paulo, um jovem, Victor Hugo Deppman, foi assassinado a sangue-frio, quando chegava em casa, por um menor de idade, que roubou seu celular. A morte brutal e estúpida foi filmada pelas câmeras do condomínio, que deixaram claro que foi um homicídio covarde e sem sentido, pois a vítima estava rendida e não esboçou qualquer reação, e mesmo assim levou uma bala na cabeça. Imediatamente, elevou-se um clamor nacional em defesa da redução da maioridade penal e de repúdio à lei vigente, que garante a impunidade - o assassino, que completou 18 anos três dias após o crime, só poderá ficar no máximo três anos em uma instituição de amparo ao menor, de onde sairá com a ficha limpa. Quem ficou contra, inclusive com o "argumento" de que toda a comoção com o caso só ocorrera porque o jovem assassinado era "de classe média" etc.? O governo e a esquerda, claro. Já o povo – 93% dos paulistanos, que não moram todos no Morumbi ou em Higienópolis – quer a revisão do Estatuto da Criança e do Adolescente. Rejeita a ideia do tiro na cabeça como forma de justiça social... 
 
Eis o fato incontestável, que muitos “intelequituais” uspianos não querem encarar: a esquerda não representa o povo coisa nenhuma. Aliás, não representa ninguém, a não ser a si própria. Ela é, acima de tudo, um fenômeno da ELITE. O povo – e falo aqui dos mais pobres dentre os pobres – está simplesmente se lixando para o que dizem os esquerdistas. Mais: na quase totalidade dos casos, o povo é radicalmente contra as propostas da esquerda.
 
Façam um teste, se duvidam de mim. Experimentem fazer um plebiscisto sobre a maioridade penal aos 16 anos (ou aos 15, 14 etc.). Ou sobre pena de morte. Ou sobre legalização da maconha. Ou sobre casamento gay. Ou sobre aborto. Aposto o quanto quiserem que a grande maioria da população, sobretudo os mais pobres e que mais sofrem com a criminalidade e outros problemas, daria uma resposta diametralmente oposta ao que defendem o PT ou o PSOL. 
 
Para ser mais preciso, imaginem uma consulta com a seguinte pergunta: "Você é a favor do casamento gay e da legalização da maconha?". Ou: "Você é a favor da liberação do aborto?". Preciso dizer que a resposta seria um NÃO bem redondo? Agora, troquem a pergunta para "Você é a favor da redução da maioridade penal?" Quem duvida que a resposta, nesse caso, seria um retumbante SIM? E quem pode negar que a resposta-padrão da esquerda diante desse fato ("é porque o povo é ignorante" etc.) trai, na verdade, um inegável ranço elitista, no pior sentido da palavra? (A opinião do povo só deve ser ouvida se coincidir com a da esquerda.) Afinal,  de que “povo” falam os esquerdistas?
 
(A propósito: observem quem participa das marchas feitas pela esquerda, como a "marcha das vadias", a "marcha da maconha" etc. Notaram algum trabalhador em uma delas?)

A maioria da população brasileira, que trabalha, anda de ônibus e paga imposto, não tem tempo nem paciência para os delírios e platitudes esquerdistas. E, quanto mais é assim, mais a esquerda se diz a única e legítima representante das causas populares... Trata-se de uma falácia, de um óbvio embuste. Os esquerdistas sabem que o povo não tem nada de "progressista"; pelo contrário, é instintivamente conservador e "de direita". Por isso, nem falam mais em plebiscitos (como o do desarmamento em 2005, em que sofreram uma derrota humilhante). Em vez disso, resolveram mudar de tática, tentando enfiar suas propostas liberticidas de contrabando, via Congresso ou STF. Para os moradores das favelas e da periferia, rapagões e moçoilas criados na base de sucrilhos e toddyinho falando em seu nome e lhes dizendo o que é melhor para eles só pode ser piada. Para eles, os "oprimidos", os esquerdistas não passam de playboyzinhos entediados em busca de alguma "causa" para se entreterem e despejarem sua revolta juvenil. A esquerda não os representa.

Assim como não havia negros na "passeata dos cem mil", não há nada de "popular" nos slogans "progressistas" dos militantes politicamente corretos de hoje. Desconfio que, se fosse vivo, Nelson Rodrigues ficaria admirado ao ver o espetáculo surrealista da beautiful people do Leblon e de Ipanema falando em nome das massas. O carnavalesco Joãosinho Trinta tinha razão: "Pobre gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual". De miséria e de socialismo. 

domingo, abril 21, 2013

FALA QUE EU RESPONDO


Estava com saudade de interagir com os leitores. Alguém que assina como "MimideLuvas" (?) me deu essa oportunidade. A respeito de meu texto COMO CRIAR UM "MOVIMENTO". OU: PEQUENO MANUAL DO LIBERTICIDA MODERNO, que escrevi inspirado no carnaval de intolerância demagógica protagonizado pelas patrulhas gayzistas contra o tal pastor "racista" e "homofóbico" na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, ela escreveu o seguinte: 

Faça a falácia da generalização para justificar o porque vc é implicante. Pq na verdade isso é tudo implicancia. Eu leio o seu blog ha muito tempo e ja vi que burro vc não é, muito pelo contrário. Como q casamento é vida privada gente? Herança, bens, tudo o que vem com ele não tem nada a ver com a vida privada da pessoa. Ter relações com pessoas do mesmo sexo não está em pauta em nenhuma reivindicação.E sobre o Feliciano, não é pq ele é racista e homofóbico, isso é problema dele e a sociedade não tem nada com isso. Mas a ULTIMA coisa q esse país precisa é de uma teocracia. E é assim q começa, aos poucos...Da mesma forma como vc disse q vida privada não pode ser fontes de direitos, a biblia não pode ser fonte de leis.Então esse artigo q vc fez foi unica e exclusivamente pra ser do contra, mas sem pensar efetivamente no problema...
 
Confesso que fiquei intrigado com a frase "Faça a falácia da generalização para justificar o porque você é implicante" (sic). O que quer dizer exatamente? E de quais "falácia" e "generalização" a autora da frase está falando? Mas deixa pra lá, não tenho culpa se alguém faltou às aulas de redação na escola. Ainda bem que a leitora não me acha burro. A se julgar, porém, por seu comentário, e levando-se em conta que ela diz que lê meu blog há muito tempo, tenho dúvidas se a recíproca é verdadeira.
 
Puxa, o casamento não é mais um assunto da vida privada, particular, pessoal? Não é mais um assunto de família, ou melhor, entre duas pessoas? Sério? Bom, nesse caso devo concluir que se tornou um assunto da vida pública. Um assunto de Estado, portanto. Deve ser divulgado no Diário Oficial da União?
 
Ah, mas e as heranças, bens etc.? Pois é. A legislação existente já permite que se deixe como herança o quê e quanto se quiser não importa a quem. Eu, se quiser, posso doar em testamento metade ou mesmo todos os meus bens para meu cachorro (se eu tivesse cachorro). E ninguém vai perguntar a opção sexual do beneficiado. Então?
 
É verdade, ter relações com pessoas do mesmo sexo não está na pauta do "movimento LGBT" etc. Até porque isso seria impossível (como defender, como bandeira política, o que se faz entre quatro paredes?...). A pauta, na verdade, é um pouco diferente: impor a censura e criminalizar o pensamento discordante. E isso pode ser alcançado ditando a padres ou pastores (ou a qualquer pessoa) o que eles devem dizer sobre a homossexualidade, sob pena de parar na cadeia por "homofobia".  A última coisa de que o Brasil precisa é de uma ditadura, seja teocrática ou gay. É assim que começa...
 
Quanto a Feliciano, creio que já disse o bastante. Não o defendo, e se dependesse de mim ele nem seria eleito deputado, para começo de conversa. Mas nem por isso vou sair por aí defendendo que se instaure o delito de opinião, algo que só existe em ditaduras. Além disso, ainda que Feliciano fosse "racista" e "homofóbico", seria preciso explicar o que fazem na mesma comissão deputados de partidos que apóiam ditaduras e dão abrigo a terroristas, como o PSOL de Jean Wyllys. E a sociedade tem a ver, sim, com isso!
 
Concordo que a Bíblia (ou o Corão, ou o Talmude, ou o Livro dos Espíritos) não deve ser fonte de direitos etc. e tal. Do mesmo modo, não posso aceitar que a agenda política de um "movimento", seja qual for, seja fonte de legislação. Assim como Estado e religião devem ser coisas separadas e distintas (como são), o Estado não deve também se confundir com partidos ou "movimentos". Quando isso ocorre, a democracia vai pras cucuias.
 
É isso. Mais sorte da próxima vez. Recomendo dar uma lida na Constituição antes, principalmente no Artigo referente à liberdade de expressão e de opinião. Lá não está escrito que as únicas opiniões permitidas são as "politicamente corretas", ou aquelas com as quais concordamos. Tampouco está escrito em algum lugar que é crime ser idiota. Se depender do implicante que escreve estas linhas, é assim que deve ser.

Viu como meu artigo "foi única e exclusivamente pra ser do contra", "sem pensar efetivamente no problema" etc.? Eu sou mesmo mau como um pica-pau... 

terça-feira, abril 16, 2013

A HISTÓRIA INVERTIDA

 
por Olavo de Carvalho
 
 
Os soviéticos foram sempre os campeões absolutos no recrutamento de jornalistas. Nos EUA, hoje conhecem-se um por um os nomes daqueles que, na mídia americana, serviram à KGB e ao GRU (serviço secreto militar).

No Brasil, esse capítulo da história do nosso jornalismo é ainda um tabu.

O confronto entre militares e terroristas na América Latina dos anos 60-70 foi um episódio da Guerra Fria, onde os atores locais, sem prejuízo de suas convicções e decisões próprias, ecoavam, em última instância, as estratégias respectivas das duas grandes potências em disputa: os EUA e a URSS.

Nada do que então se passou no continente pode ser compreendido sem ter isso em conta.
Se perguntarmos qual dos dois protagonistas estrangeiros interferiu mais profundamente no cenário latino-americano, a única resposta honesta é: a URSS.
 
Do ponto de vista militar, isso é de uma obviedade gritante. Os EUA jamais chegaram a ter, na época, quarenta mil soldados, quinze mil técnicos em armamentos, setecentas baterias anti-aéreas, 350 tanques e cento e tantos mísseis balísticos intercontinentais instalados em nenhum dos seus países aliados na América Latina, como a URSS teve em Cuba já a partir de 1962 na chamada “Operação Anadyr”. (v. Gus Russo and Stephen Molton, Brothers in Arms. The Kennedys, the Castros and the Politics of Murder, New York, Bloomsbury, 2008, p. 158, e http://www.russianspaceweb.com/cuban_missile_crisis.html).
 
No que diz respeito à espionagem propriamente dita, a superioridade soviética surge ainda mais nítida no caso do Brasil em especial. Nada do que a CIA ou qualquer outro serviço secreto norte-americano possa ter feito aqui se compara às proezas da KGB, que chegou a instalar um grampo no gabinete do presidente João Figueiredo (v. George Schpatoff, KGB. História Secreta, Curitiba, Juruá, 2000, pp. 381 ss.), interceptar 21 mil mensagens sigilosas do nosso Ministério das Relações Exteriores e ter a seu serviço, como agente pago, nada menos que um embaixador brasileiro em Moscou (v. Christopher Andrew and Vasili Mitrokhin, The World Was Going Our Way. The KGB and the Battle for the Third World, New York, Basic Books, 2005, p. 105).
 
Se daí passamos ao campo das chamadas “medidas ativas” (desinformação, infiltração, guerra psicológica, agentes de influência etc.), a supremacia soviética no Brasil daqueles anos assume as proporções de um poder absoluto e incontrastável. Em 1964, a KGB tinha várias dezenas de jornalistas brasileiros na sua folha de pagamentos (confissão do próprio chefe da agência soviética no Brasil, Stanislav Bittman, em The KGB and Soviet Disinformation: An Insider’s View). Que o número deles se multiplicou nos anos seguintes não é algo de que se possa duvidar. Muitos jornalistas brasileiros, naquele período, fizeram estágios na URSS, na China, na Tchecoslováquia, na Alemanha Oriental, na Polônia e em Cuba. Uns poucos gabam-se disso até hoje, seguros de que o público amestrado já não verá aí o menor motivo de suspeita. Mas naqueles países, onde todos os órgãos de mídia nada mais eram do que extensões da polícia secreta, é quase impensável que algum jornalista estrangeiro fosse admitido sem ser em seguida recrutado como agente de influência. Como assinalam John Earl Haynes, Harvey Klehr e Alexander Vasiliev em Spies: The Rise and Fall of the KGB in America (Yale University Press, 2009), os soviéticos foram sempre os campeões absolutos no recrutamento de jornalistas. Nos EUA, hoje conhecem-se um por um os nomes daqueles que, na mídia americana, serviram à KGB e ao GRU (serviço secreto militar). No Brasil, esse capítulo da história do nosso jornalismo é ainda um tabu, mas é evidente que sem ele nada se compreende do período, principalmente porque em plena ditadura militar os comunistas chegaram a controlar praticamente toda a grande mídia no país (v. http://www.olavodecarvalho.org/semana/111124dc.html, http://www.olavodecarvalho.org/semana/111125dc.html e http://www.olavodecarvalho.org/semana/111130dc.html) e a dominar também o mercado livreiro através das suas grandes casas editoras (Civilização Brasileira, Brasiliense, Vitória etc.). Nem falo, é claro, dos agentes de influência que vindo do bloco soviético se espalharam pelos EUA e pelas democracias européias, forjando aí a imagem demoníaca do governo brasileiro que acabou por se consagrar como dogma internacional inabalável.
 
O conjunto forma uma orquestra formidável, ao lado da qual a voz do imperialismo ianque mal soava como o miado de um gatinho doente. Ao longo de toda aquela época, e depois mais ainda, tanto os EUA quanto o governo brasileiro se abstiveram de fazer qualquer esforço sério para ganhar os “corações e mentes” dos formadores de opinião neste país. Em plena ditadura, os jornalistas “de direita” nas redações contavam-se nos dedos das mãos e eram abertamente hostilizados por seus colegas.
 
Por fim, até hoje não se fez uma avaliação razoável da quantidade de recursos mobilizados pelas ditaduras de Cuba, da China, da URSS e seus países satélites para treinar, equipar e financiar não só os terroristas brasileiros mas os militantes encarregados de lhes dar apoio político sem participar dos combates. Foi uma operação de proporções gigantescas, que na imagem pública hoje em dia só aparece sob a forma de menções esporádicas a “exilados”, como se os comunistas só fossem para aqueles países quando obrigados a isso pelo governo militar.

Em comparação com a profundidade e amplitude da intervenção cubano-soviética no continente, e especialmente no Brasil, a ação dos EUA naqueles anos caracterizou-se pela raridade, timidez e omissão, limitando-se no mais das vezes a acordos entre governos. Se a imagem que se consagrou na mídia e no ensino foi exatamente a inversa, isso é mais uma prova do sucesso de uma operação que prossegue ainda hoje, tendo a seu serviço tanto os megafones quanto as mordaças.

Publicado no Diário do Comércio.

terça-feira, abril 02, 2013

COMO CRIAR UM "MOVIMENTO". OU: PEQUENO MANUAL DO LIBERTICIDA MODERNO

- Politize a vida privada - Esqueça o discurso manjado de "revolução socialista", pelo menos em público. Isso está totalmente out. O verdadeiro militante do século XXI está antenado com as novas causas da moda. Nada de "proletariado", "burguesia", "comunismo" etc, essas palavras abstratas e cafonas, que não convencem mais ninguém e que somente afastam as pessoas. Em vez disso, use e abuse de conceitos como "raça", "gênero" e "opção sexual", dividindo a sociedade não mais em classes sociais, mas em tribos. Troque “revolução” por cotas para "afro-descendentes" nas universidades e "socialismo" por “casamento gay“ (ou "união homoafetiva", para não assustar). Se alguém lhe lembrar que cotas por raça são uma forma de racismo, algo estranhíssimo num país de mestiços, e que preferências privadas não podem ser fontes de direitos, finja que não ouviu.
 
- Apresente-se como uma "minoria perseguida" - Espalhe aos quatro ventos que você faz parte de um grupo historicamente marginalizado e oprimido, cujos direitos são sistematicamente negados por uma sociedade má e injusta. Vá mais além, e, com base na teoria da suposta superioridade moral do oprimido, apresente sua grei como formada por pessoas maravilhosas, supermodernas (ou edenicamente pré-industriais, como os índios), mais evoluídas, mais sensíveis e até mais inteligentes do que os demais seres humanos. Para reforçar essa impressão, se você for um militante gayzista, associe a defesa do casamento gay à luta contra o racismo ou pelos direitos das mulheres. Não dê bola se alguém lembrar que alguns dos personagens mais pervertidos e sinistros da História, como vários imperadores romanos e os membros das SA nazistas, eram homossexuais. Tampouco se importe com o fato de que mulheres eram impedidas de votar e trabalhar, e que a luta dos negros nos EUA e na África do Sul era motivada por leis de segregação racial, algo que jamais existiu no Brasil, onde gays gozam dos mesmos direitos dos héteros. Mantenha a pose e mude de assunto.
 
- Falsifique estatísticas – Para dar um ar "científico" à sua causa, é imprescindível amparar-se em dados e estatísticas, ainda que estas digam exatamente o contrário do que você está afirmando. Por exemplo, para justificar as cotas raciais nas universidades, cite aquela pesquisa que ninguém leu segundo a qual 52% da população brasileira é "negra". Aprenda com os desarmamentistas do Viva Rio, fazendo o mesmo com os números da violência, que apontaram o assassinato de um número X de homossexuais no Brasil no ano passado (não esqueça de usar palavras como "genocídio" e "holocausto" para se referir a essas mortes). Ninguém vai se dar ao trabalho de investigar os critérios adotados, segundo os quais todos os que não se declararam "brancos" (pardos, índios, mulatos, cafuzos, japoneses etc.) foram considerados automaticamente "negros". Tampouco vai procurar saber que uns 70% dos 200 ou 250 "mortos por homofobia" (num país com 50 mil assassinatos todos os anos…) foram assassinados por motivos passionais (brigas de casais, o programa que não deu certo etc.), ou seja, homossexuais matando homossexuais. Lembre-se: você é sempre vítima e o Brasil é um país extremamente racista e homofóbico, ainda que os fatos não o demonstrem.
 
- Distorça o sentido da palavra "igualdade" – Santificado com a auréola de eterna vítima oprimida, mostre-se como um paladino da luta por "direitos iguais", ainda que os direitos fundamentais (o direito à vida, à propriedade, à liberdade de expressão, de reunião, de voto etc.) já lhe sejam plenamente assegurados pela Lei, que é cega para diferenças individuais (como "raça" e "opção sexual"). Afirme que as leis existentes não bastam para inibir os crimes contra homossexuais (não esqueça de brandir as estatísticas acima) e que é preciso instituir uma lei especial criminalizando a "homofobia". Ignore que "homofobia" é um conceito extremamente vago, assim como o fato de que tal lei seria uma forma de criar direitos especiais, sacralizando a divisão da sociedade em categorias de cidadãos com mais e menos direitos (ou seja: o inverso da igualdade). Vá adiante e diga que um direito básico seu, por exemplo o de casar com uma pessoa do mesmo sexo, está sendo violado. Se alguém lembrar o óbvio e disser que o casamento está longe de ser um direito ilimitado (algo que, aliás, não existe); que um direito não pode se fundar em preferências sexuais, que podem mudar (ao contrário do sexo, que ninguém escolhe ao nascer); e que até o momento a natureza não descobriu nenhuma maneira de garantir a reprodução da espécie humana que não seja a partir da união sexual entre um homem e uma mulher, tache quem diz isso de "homofóbico" e outros adjetivos. Passe ao próximo estágio.


- Estigmatize quem pensa diferente – Quando deparar com alguém com idéias minimamente discordantes das suas, não perca tempo debatendo: chame-o logo de "racista", "homofóbico", "reacionário", "hater" e outros adjetivos ultrajantes. No limite, apele para a Lei de Godwin e tasque-lhe um "fascista" ou mesmo "nazista". Use e abuse desse recurso retórico, sem dar importância a se tais adjetivos correspondem ou não à verdade. O importante é criar um clima de paranóia, no qual todos ficarão inibidos em falar o que pensam e passarão cada vez mais a se autocensurarem para não serem malhados pelas patrulhas do "politicamente correto". Imponha um novo vocabulário, com o apoio de grande parte da imprensa e dos artistas da Televisão. Faça de conta que não sabe que, se a atração pelo mesmo sexo é um direito, também o é a repulsa por essa opção, e que portanto ninguém deve ser obrigado a ter as mesmas opiniões sobre este ou qualquer outro assunto. Não hesite em mirar abaixo da linha da cintura quando necessário, por exemplo chamando de "negro traidor" um juiz do STF que se negou a repetir os slogans do "movimento" e lançando dúvidas sobre a sexualidade daquele pastor acusado de "homofobia" (somente os militantes negros e gays podem ser racistas e homofóbicos). Diante das objeções de cunho religioso ao casamento gay ou ao aborto, por exemplo, arvore-se em teólogo, impondo uma reinterpretação dos textos sagrados, ditando o que padres e pastores devem dizer a respeito. Não dê a mínima se lhe lembrarem que a liberdade religiosa é um direito sagrado (sem trocadilho) do cidadão, sem a qual não há democracia. Tampouco se importe com o fato de que impedir alguém de expressar sua fé é instituir o delito de opinião, e que isso só existe em ditaduras. Aliás, é justamente por isso que você está lutando.
 
Pronto. Agora você só precisa encontrar gente desonesta ou tola o suficiente para montar um "movimento" a fim de impor sua agenda política. Pode começar tentando expulsar da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados um parlamentar que não é da turma, baseado em alguma besteira que ele disse no Twitter alguns anos atrás. Se preciso na marra. Acima de tudo, jamais se esqueça que você pertence a um grupo ou raça superior, que os fins justificam os meios e que todos os que discordam de você são vermes que merecem ser esmagados. Se alguém disser que isso lembra certo regime politico do passado, não perca a pose de libertário, seguindo à risca o conselho do principal propagandista desse regime: “uma mentira dita cem vezes torna-se verdade”. A tática funciona.

domingo, março 24, 2013

LIBERTÁRIOS OU LIBERTICIDAS? OU: A INTOLERÃNCIA DOS TOLERANTES


Lá vou eu, pedir para ser crucificado de novo. Já estou de dedo fino de tanto escrever e de tanto ser ser mal-interpretado nesta questão. Mas é o preço a pagar por não seguir a manada e pensar com a própria cabeça. Além do mais, alguém tem que ser o advogado do diabo. Vamos lá.
 
Antes, porém, faço questão de repetir o que já afirmei aqui: é triste constatar que, hoje em dia, questões como "raça", "gênero" e "opção sexual" sejam as únicas causas mobilizadoras capazes de provocar ondas de revolta e retirar as pessoas de seu habitual torpor. Quem tem raça é cachorro, já disse João Ubaldo Ribeiro. Gênero, por sua vez, é uma palavra inventada por feministas para substituir, metafórica e literalmente, o sexo. Quanto a opção sexual, o nome já diz tudo: trata-se de uma opção, uma questão privada, pertencente unicamente à esfera particular. Como tal, deveria fazer tanta diferença quanto gostar de manteiga ou de geléia no café da manhã. Pelo menos é assim que deveria ser.
 
Deveria, mas, infelizmente, cada vez mais se politiza essas questões. Aí está todo o escarcéu dos "militantes" gayzistas por causa de alguns comentários de um pastor evangélico, feitos no Twitter dois anos atrás, e interpretados - erradamente, diga-se - como "racistas" e "homofóbicos" para demonstrar que, no Brasil de hoje, a estupidez virou regra. No país da indignação seletiva, uma alusão bíblica (ainda por cima, equivocada) em uma rede social é motivo para uma insurreição para expulsar o autor das frases da presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Em seu lugar, deveria entrar um parlamentar realmente comprometido com a causa dos direitos humanos e das minorias, como o deputado-BBB Jean Wyllys, cujo partido, o PSOL, defende uma ditadura, a dos Castro em Cuba, e tem um terrorista, o italiano Achille Lollo, como um de seus fundadores... Mas isso não causa escândalo, nem gera atos de repúdio, assim como não causa nem um muxoxo a gastança de Dilma e da companheirada no Vaticano, ou o fato de outras comissões do Congresso, como a de Constituição e Justiça (de Justiça!) e a de Ética (de Ética!), serem integradas, respectivamente, por mensaleiros condenados como José Genoíno e João Paulo Cunha e por aliados de Renan Calheiros.  Tampouco leva às ruas o silêncio indecoroso de Lula da Silva, que já dura mais de 120 dias, sobre as relações nada decorosas de sua "amiga íntima" com o poder. Indignar-se com isso é coisa de moralistas de classe média, decretaram os monopolistas do bom, do belo e do justo...  
 
Se tem uma coisa que a fúria dos gayzistas e simpatizantes contra o pastor Marco Feliciano deixou clara como água benta é que a intolerância mudou de lado e que, definitivamente, "militantes" não sabem o que é democracia. Sim, o deputado Marco Feliciano não é a pessoa mais apropriada para presidir a CDH. Sim, as idéias dele são boçais. Sim, ele explora os fiéis de sua igreja. Tenho, aliás, um motivo a mais para querer vê-lo longe da comissão, pois ele foi para lá conduzido por um conchavo do PT com o PSC (o que mostra, pela enésima vez, que os petistas apenas usam as minorias para alcançar seus objetivos políticos, descartando-as quando deixam de ser politicamente convenientes). Tudo isso é certo. Mas não, senhores. Marco Feliciano não é "racista", muito menos "homofóbico" - é idiota, apenas. Quem tiver curiosidade que dê uma olhada no que ele escreveu no Twitter e veja por si mesmo. Dizer "africanos (e não "negros" ou "afrodescendentes") descendem de um ancestral amaldiçoado de Noé" não é racismo: é ignorância, inclusive religiosa. É algo lamentável, ainda mais se tratando de um deputado federal, e se dependesse de meu voto ele não estaria no Congresso, em primeiro lugar. Mas onde está escrito, em que Lei, em que artigo da Constituição, que é crime ser tolo e escrever bobagens no Twitter? (E o vídeo em que ele pede dinheiro dos fiéis?, perguntaria alguém. Respondo lembrando que tal prática não difere no essencial de outros dízimos que existem por aí - o PT que o diga.) 
 
É essa a questão, e que passou despercebida entre tantos abaixo-assinados e atos de repúdio organizados pelo Facebook. Estão linchando um deputado por declarações obscuras no Twitter. E estão usando táticas de quem não dá a mínima para coisas como democracia e direitos humanos. Há alguns dias, um grupo de "militantes" tumultou a sessão da CDH presidida pelo deputado na base do berro e da violência. Criaram, assim, um precedente perigoso, com o apoio e a cumplicidade da maior parte da grande mídia: de agora em diante, qualquer baderneiro poderá interromper a seu bel-prazer uma sessão da Câmara, se não concordar com o que lá se diz. Agiram, assim, como os trogloditas que tentaram calar, também na base do berro e da agressão física, a blogueira dissidente cubana Yoani Sánchez quando da visita desta ao Brasil, no mês passado. "Ah mas foi em nome do bem"... Os gorilas fascistóides que vaiaram e ameaçaram Yoani pensam da mesma maneira.
 
Ainda que Marco Feliciano fosse racista e, vá lá, "homofóbico", a indignação contra ele teria um indisfarçável odor de hipocrisia e de duplo padrão ideológico e moral. Francamente, não vejo diferença nenhuma entre um religioso que faz declarações racistas ou machistas contra negros, mulheres e homossexuais e um militante gay ou feminista que, em nome da tolerância, quer impor sua agenda política à sociedade, às custas da pluralidade. Não vejo diferença entre quem ofende minorias e quem invade igrejas pelado tentando perturbar a missa. Ambos são, para mim, fundamentalmente intolerantes. Os últimos são até mais, pois contam com o apoio da maior parte da imprensa e com um discurso hegemônico desonesto construído durante décadas. Este discurso se baseia na auto-vitimização e na demonização de quem pensa diferente, a ponto de tolher qualquer debate.

Uma coisa é alguém incitar a violência física contra negros, mulheres, gays etc. Isso é crime, e ponto final. Outra coisa, muitíssimo diferente, é simplesmente manifestar uma crença religiosa, ainda que erradamente. Por mais absurda que pareça uma religião, este ateu que vos escreve defenderá até o fim o direito – e é um direito! – de padres, pastores, rabinos e mulás praticarem seu credo como bem entenderem, desde que não avancem sobre os direitos dos outros (o que está na Lei, não no programa de nenhum partido ou “movimento”). Concordando-se ou não com o que dizem, é um direito deles citar a Biblia, o Talmude ou o Corão, assim como é um direito de gays e lésbicas fazer o que quiserem em suas vidas privadas sem serem importunados. E esses direitos fundamentais de ambas as partes, ao contrário do que dizem muitos militantes, já existem! Felizmente, Estado e religião são, pela Lei, coisas distintas e separadas no Brasil, assim como deve ser o Estado de qualquer “movimento” (assim, pelo menos, espero).

Hoje, no Brasil, quem quer que ouse criticar qualquer demanda do movimento gay, ainda que timidamente, é imediatamente rotulado como “homofóbico”, ainda que ninguém – repito: ninguém – saiba definir exatamente o que seria “homofobia”. Mesmo (ainda) sem Lei alguma que estabeleça o que seria isso, já se pretende impedir que pessoas se manifestem livremente sobre o assunto, pois não estariam fazendo isso de acordo com a cartilha “politicamente correta”. A pretexto de coisas como “tipificar o crime de ódio” (francamente, é possível tipificar um sentimento?), o que me parece cada vez mais claro é que se quer separar os cidadãos em categorias com mais e menos direitos. Isso significa acabar, na prática, com a igualdade jurídica. Pior: instituir o delito de opinião. E delito de opinião, meus caros, só existe em ditaduras. E todas as ditaduras são essencialmente más – seja uma ditadura teocrática, seja uma ditadura gay.

Tentar excluir de uma comissão de Direitos Humanos um membro por ser pastor, ou por ter crenças consideradas absurdas, é uma atitude tão intolerante quanto querer obrigar todos a rezarem a Bíblia toda manhã. Se o caso pertence à esfera criminal, não há o que discutir, mas, se é devido à uma opinião considerada "politicamente incorreta", não há como negar o viés ideológico da exclusão. Ninguém está obrigado, por Lei, a não ter preconceitos, tampouco a gostar de quem quer que seja. Até porque, se for para excluir deputados de comissões por suas crenças absurdas, não sobraria um deputado ou senador do PCdoB ou do PSOL no Congresso.


Às vezes é preciso repetir o óbvio: todos são iguais perante a Lei. Esta não distingue entre quem é e quem não é crente, ateu, branco, negro, mulato, índio, hétero, homo, bi ou assexuado. É por esse motivo que a Justiça é representada com uma venda nos olhos: ela é cega para essas questões. Espero que continue a ser.


Sim, Marco Feliciano não me representa. Mas quem disse que gente como Jean Wyllys representa o lado da tolerância e da democracia?

domingo, março 10, 2013

"A Onda" - Um filme muito oportuno

Não deixem de assistir ao filme alemão "A Onda" (Die Welle), de 2008, baseado num telefilme homônimo americano de 1981. Tem tudo a ver com o que está acontecendo na América Latina de hoje, assim como no Brasil desde, pelo menos, 2003.  Num país e numa região onde se pranteiam tiranos e onde a pluralidade dá lugar cada vez mais à unanimidade e à uniformidade ideológica, nada melhor do que a ficção para nos lembrar da realidade.

Assistam a "A Onda". Vale a pena. 

Segue o trailer:


sábado, março 09, 2013

10 MOTIVOS POR QUE HUGO CHÁVEZ NÃO VAI DEIXAR SAUDADES

Não sou do tipo que se regozija com a morte de alguém. Esta sempre nos diminui, diz a sabedoria convencional. No entanto, é forçoso admitir que, em alguns casos - ditadores, por exemplo -, o desaparecimento físico de um indivíduo constitui, senão uma solução, pelo menos um alívio, uma libertação.

Hugo Chávez, o ditador in the making da Venezuela, encaixa-se perfeitamente nesse figurino. Falecido após longa doença no dia 5 de março - mesma data do 60. aniversário da morte de Josef Stálin, talvez o tipo perfeito de ditador -, Chávez não vai deixar saudades, a não ser para sua corriola.

Assim como Stálin, ele foi pranteado por milhões de admiradores, dentro e fora de seu país. Seu funeral, que se arrastou durante a semana, foi seu último gesto teatral, um espetáculo grotesco de necrofilia digno de Evita Perón, Khomeini e Kim Jong il. E, assim como nesses casos, há razões de sobra para não derramar uma lágrima por ele. Vejamos dez dessas razões:
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1 - Destruição da democracia - Chávez apareceu pela primeira vez para o mundo como o chefe militar de uma tentativa fracassada (e sangrenta) de golpe, em 1992, contra o governo constitucional do desacreditado Carlos Andrés Pérez. Preso, passou somente dois anos na cadeia, lançando-se então candidato a presidente. Nesse meio tempo, passou a cortejar a opinião pública, enquanto buscava o conselho político do tirano cubano Fidel Castro (a quem considerava seu mentor) e de uma figura hoje esquecida, o sociólogo argentino Norberto Ceresole, um personagem sinistro, defensor de idéias claramente neonazistas e antissemitas.

Chávez e Norberto Ceresole: o chefe da "revolução bolivariana" e seu guru
 
Munido da ambição de Castro e das teorias racistas e totalitárias de Ceresole, e
amparado num eficiente esquema de marketing político, Chávez conseguiu eleger-se em 1998, apresentando-se como um moderado. Uma vez no poder, rasgou suas promessas de campanha e pôs em ação seu projeto totalitário, à semelhança de Fidel. Em pouco tempo, impôs sua própria Constituição, interveio no Judiciário nomeando juízes dóceis e acabou com a independência dos Poderes, garantindo, por meio de referendos (como Hitler fez), uma permanência de 14 anos no poder, chamando a isso de "democracia participativa e protagônica".
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Não satisfeito com isso, o coronel tratou de dar sua própria interpretação casuística do texto constitucional sempre que os fatos teimavam em não se adaptar a seu esquema bolivariano, descumprindo a própria Constituição quando lhe convinha - a última vez que isso ocorreu foi em janeiro, quando, doente terminal em Cuba, conseguiu que fosse empossado ilegalmente na presidência o vice Nicolás Maduro, agora confirmado no cargo, novamente de forma ilegal (segundo a Constituição, em caso de morte ou ausência do titular, deve assumir a presidência da República o presidente da Assembléia Nacional, Diosdado Cabello).
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O candidato Chávez em 1998: e ele se dizia um democrata...

2 - Populismo desenfreado - Como todo tiranete que se preze, Chávez adotou o populismo com gosto, passando a adular as massas, sobretudo os mais pobres, ignorados por sucessivos governos oligárquicos. Desse modo, usou e abusou dos recursos públicos, garantidos pela renda do petróleo, para financiar projetos assistencialistas, as chamadas misiones, transformadas no carro-chefe de seu governo demagógico e paternalista (e que muitos vêem como seu "legado positivo").
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Como não poderia deixar de ser, as misiones transformaram-se num instrumento de controle político, criando uma grande rede de clientelismo e servindo para forjar uma legião de estadodependentes, que compõem, juntamente com os burocratas estatais e do PSUV (Partido Socialista Unificado da Venezuela, um nome copiado do partido criado por Fidel Castro em Cuba nos anos 60), o grosso da militância chavista. Esta, tornada dependente e infantilizada pelas benesses estatais, hoje chora a morte de seu "paizinho". 
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Nada disso, porém, adiantou muito: passados 14 anos de chavismo, os níveis de pobreza praticamente não mudaram, e 60% da população venezuelana continua pobre. Antes de Chávez, havia pobreza e democracia. Hoje, há pobreza e populismo. A política social foi talvez o maior fracasso do governo Chávez.
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3 - Desperdício de recursos públicos - O populismo não existe sem gastança, e nisso Chávez foi pródigo. Em seu governo, a gigantesca estatal de petróleo do país, a PDVSA, mandou às favas qualquer noção de meritocracia e virou um grande cabide de emprego para a militância, que se entregou gostosamente à tarefa de saquear o Erário. Recursos que deveriam ter sido investidos em tecnologia e produção foram desviados para financiar as misiones assistencialistas ou foram parar no bolso da companheirada. O resultado foi que o país aumentou sua dependência da exportação do petróleo, deixando de investir na diversificação da economia, o que gerou escassez e inflação (hoje, 80% dos alimentos consumidos no país são importados). Chávez também desperdiçou recursos para alimentar sua megalomania, gastando milhões em armas, iniciando uma corrida armamentista na América do Sul. Também desperdiçou recursos de outros países, como no caso da refinaria de petróleo Abreu e Lima, em Pernambuco, que já custou milhões aos cofres públicos brasileiros e que até agora não saiu do papel (não, presidenta Dilma, ele não era um "amigo do Brasil"...).   
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4 - Ataques à liberdade de expressão - Talvez a principal marca registrada de Chávez tenha sido os constantes atentados à liberdade de imprensa, que ele rotulava como "aliada das oligarquias". Chávez foi o presidente que fechou a emissora de rádio e TV mais antiga em funcionamento da América Latina, a RCTV, fundada em 1953. Perseguiu jornalistas, muitas vezes utilizando-se de subterfúgios, como acusá-los judicialmente de calúnia e de evasão fiscal, levando à prisão de vários e ao exílio de tantos outros. Embora a imprensa seja, ainda, teoricamente livre na Venezuela, seu espaço de atuação tem sido cada vez mais reduzido. Diariamente, militantes chavistas acossam jornalistas de oposição, e uma deputada chavista já chegou a invadir ao vivo uma emissão de TV para agredir um apresentador. Além disso, Chávez criou sua própria rede de TV, a Telesul, dedicada 24 horas a louvar seu governo e a fazer propaganda antiamericana. Outros políticos da região, como a argentina Cristina Kirchner e o equatoriano Rafael Correa, seguem na mesma direção. Deve ser por isso que Chávez angariou tantos simpatizantes também no Brasil, onde o governo Lula e o PT tudo fizeram para calar a imprensa não-alinhada - só não conseguiram porque o Brasil felizmente (ainda) não é a Venezuela.
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Milicianos chavistas: qualquer semelhança com o fascismo não é mera coincidência...

5 - Violência contra opositores - Em um regime como o chavista não poderia faltar o elemento da violência contra os que discordam do governo. Com a diferença de que, nesse aspecto, o chavismo resolveu inovar. Em vez de fuzilamentos, como em Cuba, Chávez preferiu terceirizar a repressão, entregando-a a milícias armadas pelo regime, inspiradas nos CDRs (Comitês de Defesa da Revolução) cubanos. Essas milícias, ou "círculos bolivarianos" intensificaram sua ação principalmente após o controverso "golpe" de abril de 2002, no qual Chávez foi temporariamente afastado (ou renunciou, até hoje não se sabe) depois do massacre de 15 manifestantes oposicionistas que participavam de uma marcha contra Chávez em Caracas. Desde então, a intimidação dos adversários políticos do chavismo, de forma ostensiva, tem sido comum na Venezuela, assim como começa a virar lugar-comum em outros países da região.

6 - Aumento do crime e da corrupção - Resultante diretamente dos fatores acima, o crime e a corrupção tornaram-se fora de controle na Venezuela do coronel Chávez.  Hoje, o país é o mais violento da América do Sul, com uma taxa de homicídios per capita superior a qualquer outro da região. Mais que isso, a Venezuela tornou-se, sob o chavismo, um paraíso do tráfico de drogas, convertendo-se num importante corredor de escoamento da cocaína proveniente da Colômbia para os EUA e a Europa. A isso soma-se a corrupção generalizada nos altos escalões governamentais, com o surgimento de uma burguesia bolivariana, tão entusiasta do "socialismo do século XXI" quanto rapace: nos últimos anos, a Venezuela tornou-se um dos maiores mercados consumidores mundiais de carros de luxo e de uísque, e a "revolução bolivariana" passou a ser conhecida popularmente como robolución. Sob Chávez, a Venezuela deixou de ser uma democracia corrompida para se tornar uma proto-ditadura corrupta.

7 - Apoio ao narcoterrismo - Se o regime chavista fosse somente corrupto e leniente com a violência, já seria um escândalo de grandes proporções. Mas Chávez foi além, e transformou a Venezuela num valhacouto de narcotraficantes e terroristas, apoiando abertamente as FARC colombianas, a quem classificou como uma "força beligerante". Em 2004, o "chanceler" das FARC, Rodrigo Granda, foi capturado em pleno centro de Caracas, onde vivia tranquilamente sem ser importunado pelo governo local, e entregue às autoridades colombianas. Chávez, em vez de reconhecer o absurdo de um chefe terrorista abrigado em seu país, ameaçou uma guerra com a Colômbia, ameaça que repetiu em 2008, quando Bogotá matou numa operação de guerra o número dois das FARC, Raúl Reyes, em cujo laptop foram encontradas provas incriminadoras das ligações dos narcoterroristas colombianos com o governo venezuelano (e também brasileiro, o que foi abafado). Pouco depois, descobriu-se que as FARC mantêm campos de treinamento em território venezuelano, e caixas de mísseis anti-tanque AT-4 pertencentes ao exército da Venezuela foram descobertas nos arsenais dos terroristas colombianos. A cada denúncia, Chávez respondeu sempre da mesma maneira: com ameaças de guerra e declarações de apoio às FARC. Foi também no seu governo que se descobriram planos do ETA basco juntamente com militantes chavistas de  assassinar membros do governo espanhol, denúncia esta que, uma vez feita, simplesmente sumiu do noticiário.    
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8 - Aliança com ditadores - O chavismo jamais escondeu suas ambições continentais e mesmo extra-continentais. Como todo regime autoritário e megalômano, sentiu-se atraído por regimes semelhantes, com os quais forjou, graças à ideologia antiamericana comum e aos dólares abundantes do petróleo, sólidas alianças. Entre as tiranias com as quais Chávez se aliou, está a de Cuba, cuja ditadura comunista sobrevive hoje à base dos 100 mil barris de petróleo diários e dos seis bilhões de dólares de ajuda anuais fornecidos pela Venezuela, que substituiu a finada URSS como principal lastro do falido regime cubano. Juntamente com os Castro e com outros governos afins da América Latina (Equador, Bolívia, Nicarágua etc.), Chávez criou uma organização, a ALBA (Aliança Bolivariana das Américas) para confrontar os EUA (seu antiamericanismo, porém, não o impediu de continuar a abastecer o Tio Sam com 15% do petróleo que os americanos importam). 

Outros regimes tirânicos que contaram ou contam com o apoio camarada de Caracas são o do finado ditador líbio Muamar Kadafi, a ditadura teocrática iraniana do antissemita, patrocinador do terrorismo, negador do Holocausto e louco nuclear Mahmoud Ahmadinejad, o regime assassino sírio de Bashar al-Assad e a Bielorússia do último ditador da Europa, Alexander Lukashenko. Todos eles (com a exceção, claro, de Kadafi) mandaram representantes, ou estiveram presentes, bastante emocionados, nas exéquias do coronel em Caracas. Chávez também assinou acordos militares e buscou uma aliança estratégica com a Rússia de Vladimir Putin e com a China dos burocratas comunistas, novamente com o objetivo de enfrentar o "imperialismo ianque". 
O mestre e o pupilo
 
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9 - Ingerência nos assuntos internos de outros países - A proto-ditadura chavista não se contentou em restringir-se a suas próprias fronteiras. Obcecado por Simón Bolívar, o "libertador das Américas", Chávez quis ser ele próprio o Bolívar do século XXI, esquecendo-se, porém, de que Bolívar lutou para libertar as colônias sul-americanas do jugo espanhol, enquanto ele, Chávez, tratou de intervir descaradamente em vários Estados soberanos. As ambições megalomaníacas de Chávez levaram-no a patrocinar uma tentativa de golpe no Peru, em 2005; a arquitetar a volta clandestina (com a vergonhosa cumplicidade do governo Lula) de um presidente golpista deposto legalmente em Honduras, em 2009; e a tentar insuflar um golpe militar para derrubar um presidente constitucional empossado após o impeachment de um aliado no Paraguai, em 2012 (em vez de ter sido repreendido por isso, Chávez foi recompensado com a entrada - ilegal - da Venezuela no Mercosul...). Sem falar no apoio às FARC e nas malas de dinheiro para a candidatura dos Kirchner na Argentina. 

Em todos esses movimentos, Chávez contou com o apoio e a cumplicidade dos companheiros do Foro de São Paulo, criado por Lula e por Fidel Castro em 1990 para "restaurar na América Latina o que se perdeu no Leste Europeu". Tentando emular seu ídolo Bolívar, o coronel igualou-se a Fidel Castro, que apoiou diversos movimentos terroristas na América Latina nos anos 60, tentando igualmente "exportar" sua "revolução". Só conseguiu, na verdade, equiparar-se a um Napoleão de hospício com sonhos grandiloquentes.


Chávez, o pistoleiro maluco
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10 - Falsificação da História - A exemplo de todos os ditadores, Chávez, um obcecado pela História, tentou reescrevê-la para que se ajustasse a sua "revolução bolivariana". O culto de sua personalidade precisava de um símbolo, um herói nacional, e ele foi encontrá-lo na figura de Simón Bolívar, que ele buscou apresentar sob uma roupagem "socialista". Logo Bolívar, um aristocrata que desprezava negros e mestiços, a quem o próprio Karl Marx, num célebre artigo de 1858, chamou de incompetente e covarde, um "Napoleão das retiradas"... Chávez não deu importância a esses fatos, tratando de levar o culto ao Bolívar por ele idealizado até o nome do país, rebatizado de República Bolivariana da Venezuela. E assim como inventou uma cabala da oligarquia colombiana para matar Bolívar, chegando ao ponto de desenterrar o corpo do Libertador para tentar provar essa tese, estimulou todo tipo de teorias conspiratórias. Estas seriam somente ridículas se não revelassem também um forte e inegável traço de insanidade: por exemplo, o terremoto que devastou o Haiti em 2010 teria sido obra de uma "arma secreta" da Marinha dos EUA, e o capitalismo teria destruído a civilização em Marte! (Aliás, os chavistas nem esperaram o defunto esfriar para começar a falar que Chávez foi vítima de um "ataque" de seus inimigos...)

A todos esses fatos poderíamos acrescentar, ainda, a desmoralização do Mercosul, transformado num palanque político para Chávez e suas diatribes antiamericanas, de um nível capaz de corar de vergonha até um militante da UNE. Ou a redução da política a um circo (literalmente), uma palhaçada comandada por um bufão que fez do próprio histrionismo uma forma de se comunicar com as massas... A lista seria interminável.  

Resta, porém, um alento: por suas próprias características, regimes autoritários personalistas, como o de Chávez, quase sempre chegam ao fim com a morte de seus líderes. Desaparecido o chefe, o guia genial e iluminado, simplesmente surge um grande vazio, pois em sua volta não floresce mais do que a sabujice e a mediocridade. Este parece ser o destino do chavismo: ser engolido por sua própria vacuidade ideológica.

Enfim, o legado de Chávez é uma prova de que o populismo não somente destrói as instituições; ele também emburrece e infantiliza. Chávez já vai tarde. Espero somente que a democracia retorne à Venezuela, e que não se cumpra o vaticínio do próprio Bolívar: “Lutar pela liberdade na América Latina é o mesmo que arar no mar".