segunda-feira, julho 16, 2012

UM ASSASSINO CHAMADO "CLEMENTE"

Um dos "justiçamentos" cometidos pela ALN: era assim que os "guerrilheiros" lutavam pela democracia...

O vídeo que pode ser assistido no link http://globotv.globo.com/globo-news/globo-news-dossie/v/ex-guerrilheiro-da-luta-armada-confessa-participacao-na-morte-de-um-companheiro/2020170/ é um documento importante para a História. É uma entrevista ao repórter da Globonews Geneton Moraes Neto, conhecido por suas reportagens investigativas (algo infelizmente cada vez mais raro na imprensa brasileira). O entrevistado é um senhor de 61 anos de idade chamado Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, professor de música. É aterrador.
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Carlos Eugênio é um ex-terrorista (ou ex-"guerrilheiro", como queiram). Ele foi membro do grupo Ação Libertadora Nacional (ALN), fundado pelo ex-deputado comunista Carlos Mariguella em 1967 e dizimado em 1973 pelos órgãos da repressão político-militar do regime ditatorial de 1964. Recrutado por Mariguella aos 18 anos, primeiro como membro de um grupo de fogo e depois como último comandante militar da organização, Carlos Eugênio, ou "Clemente" – o codinome que usava na clandestinidade – participou diretamente de algumas das ações mais sangrentas da chamada luta armada contra a ditadura militar no Brasil. Entre as ações armadas em que tomou parte e que narra em detalhes, esteve a execução do empresário dinamarquês Henning Albert Boilesen, acusado pelos grupos armados de esquerda de colaborar com a repressão. Boilesen foi assassinado numa emboscada no centro de São Paulo em 1971. Teve o corpo varado a tiros de fuzil e rajadas de metralhadora, sem chance de defesa. Saiu da arma de Carlos Eugênio o tiro de misericórdia. Ele justifica a ação afirmando simplesmente: "era um inimigo".
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Outra ação narrada por Carlos Eugênio, já relatada parcialmente em dois livros seus de memórias, é a tentativa frustrada de sequestro do comandante do II Exercito, general Humberto de Souza Melo, que por pouco não acabou num banho de sangue. Ele apresenta inclusive uma lista de "sequestráveis" pelas organizações armadas de esquerda, que incluía empresários e o embaixador do Reino Unido no Brasil, David Hunt (que jamais soube que estava cotado para ser sequestrado). Revela ainda um plano mirabolante do general cubano Arnaldo Ochoa Sánchez (fuzilado a mando de Fidel Castro em 1989) de invasão do Brasil por um grupo de 100 guerrilheiros cubanos, que se embrenhariam na floresta amazônica.
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Mas a parte mais estarrecedora da entrevista é quando Carlos Eugênio confessa um dos tabus da luta armada: o assassinato ("justiçamento", como ele diz) de um companheiro da ALN, Márcio Leite de Toledo, morto com oito tiros em São Paulo em 1971.
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O que estarrece não é o fato em si – a morte de Márcio Leite de Toledo pelos próprios militantes já era conhecida (os assassinos fizeram questão de deixar um panfleto no local “justificando” o homicídio). O que choca e causa perplexidade é a frieza com que Carlos Eugênio confessa ter participado da execução. Mais: sua insistência em justificar – isso mesmo: justificar – o crime. Márcio Leite de Toledo foi assassinado porque teria "vacilado" – era essa a expressão usada na época –, tendo proposto o fim da luta armada. Por isso, foi considerado "pouco confiável" pela direção da ALN, que decidiu exterminá-lo. Quando indagado sobre o fato, Carlos Eugênio respira fundo e diz: "isso eu nunca tinha falado antes" e "vou responder porque você está perguntando, né?". Depois de tentar justificar o injustificável, ele confessa ter sido um dos que dispararam, afirmando burocraticamente: "cumprimos a tarefa".
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"Cumprimos a tarefa"... É assim que a morte brutal de um ser humano, além do mais um membro da própria organização, é encarada: como uma "tarefa", nada mais. Como se fosse uma pichação ou algo do tipo. Aliás, Carlos Eugênio faz questão de frisar: foi uma decisão "da organização" (buscando, assim, eximir-se de qualquer responsabilidade). Foi o "coletivo", entenderam? Ele, Carlos Eugênio, só puxou o gatilho...
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Em nenhum momento, Carlos Eugênio se mostra arrependido do que fez. Pelo contrário: faz questão de justificar e enaltecer suas ações, citando até mesmo Clausewitz ("guerra é guerra" etc.). Ao ser lembrado que os ex-agentes do regime militar costumam usar a mesma frase para justificar a repressão, ele se enche de brios: "tortura não é combate". Tampouco o é assaltar bancos, sequestrar pessoas e assassinar os próprios companheiros. Mas Carlos Eugênio não se abala. "Sou um humanista", afirma a certa altura, com convicção.
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A partir de certo momento, a entrevista de Carlos Eugênio vira um pequeno comício, mostrando a luta armada do período como uma forma de "resistência democrática". "Foram eles que começaram", ele afirma, com veemência, referindo-se aos militares, aparentemente tomado de amnésia histórica: o projeto guerrilheiro da esquerda radical no Brasil, influenciado pela Revolução Cubana, é anterior ao golpe de 1964; além disso, os documentos de todas as organizações clandestinas de esquerda que pegaram em armas (todas, sem exceção) deixam claro que estas não visavam a restaurar a democracia representativa, que desprezavam, mas a substituir a ditadura dos generais por uma forma de ditadura comunista (como a de Cuba e da Coréia do Norte). Sem falar que, ao dizer que "todos os nossos atos foram esclarecidos", Carlos Eugênio parece também ter sido acometido de um surto de esquecimento. Basta dizer que até hoje não se sabe, exatamente, quantas pessoas foram mortas pela esquerda no período (o número gira em torno de 120). Existem casos, por exemplo, como o do guerrilheiro da ALN Ari Rocha Miranda, morto em circunstâncias misteriosas pela arma de um companheiro de organização, e cujo corpo permanece até hoje desaparecido. Se querem saber onde está o cadaver, perguntem a Carlos Eugênio Paz. Ele provavelmente sabe.
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Ao final da entrevista, quando perguntado se daria seu testemunho perante a recém-criada “comissão da verdade”, Carlos Eugênio afirma que sim, mas impõe uma condição: "aceito dar meu testemunho, mas não ser julgado pelo que fiz". Nem poderia. Pela Lei de Anistia de 1979 – a mesma que os revanchistas querem revogar – ele não pode ser julgado e condenado, tendo sido, aliás, indenizado como "perseguido político" e reintegrado ao Exército, do qual desertou em 1968, com a patente de sargento. De que julgamento ele está falando, então? Do julgamento da História. Para ele, assim como para alguns integrantes da tal comissão, os atos da esquerda armada estão acima do bem e do mal. Não devem ser discutidos – e ponto final.
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Agora vamos fazer, leitor, um pequeno exercício de imaginação: imagine que um ex-torturador do DOPS ou do DOI-CODI viesse a público confessar seus crimes. Imagine que ele buscasse justificá-los, afirmando que as vítimas eram inimigos e mereciam morrer, pois afinal "guerra é guerra". Imagine que ele buscasse se safar dizendo que era parte de uma máquina e que apenas seguia ordens. Imagine que confessasse ainda ter recebido assessoramento, nessa tarefa macabra, de agentes da CIA ou do FBI. E que não mostrasse, ao descrever essas atrocidades, nenhum sinal de arrependimento, exigindo de todos aplausos pelo que fez. E que, ainda por cima, se diga um democrata e um humanista. Preciso dizer mais?
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A entrevista de Carlos Eugênio Paz é um pilar a mais no edifício monstruoso de mistificação da História brasileira recente erguido pela esquerda. Não satisfeito em desumanizar as vítimas do terrrorismo e em edulcorar a luta armada, cobrindo-a com a aura heróica de "resistência democrática", o entrevistado ainda exige reverência por ter cometido atos como o assassinato de um companheiro de luta. Assim como uma certa presidente da República que até hoje não disse claramente o que fez quando militou em três organizações armadas de extrema-esquerda, ele quer que todos acreditem que lhe devemos o fato de vivermos hoje numa democracia, quando é ele que lhe deve a vida. Não se arrepende. Não pede desculpas. Vangloria-se.
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Nesse ponto, gente como Carlos Eugênio Paz se distingue moralmente dos torturadores e militares que participaram do combate à luta armada. Com efeito, estes até hoje se escondem, envergonhados. Os ex-terroristas, não. Pelo contrário: orgulham-se do que fizeram. E não aceitam que seus atos sejam colocados em questão. Em outras palavras: mataram, assaltaram e sequestraram, mas o fizeram por amor à humanidade, é o que estão dizendo. E não aceitam ser julgados – ou seja, criticados.
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O ex-terrorista Carlos Eugênio Paz, que jamais foi preso, mostrou-se impiedoso ao fuzilar inimigos e companheiros de luta em nome de uma causa totalitária. Agora, revela-se igualmente impiedoso ao massacrar a História. Nisso, ele não foi – não é – nada "clemente".

sábado, julho 14, 2012

A BATATADA DE CHICO BUARQUE



Alguns dias atrás, a Folha de S. Paulo divulgou alguns documentos secretos da repressão militar no Brasil. O título da matéria - deve estar por aí na internet - era mais ou menos assim: "Documentos comprovam como a ditadura perseguia artistas e intelectuais", ou coisa parecida.

Até aí, nenhuma novidade. A censura e perseguição que artistas como Chico Buarque e Gilberto Gil sofreram durante os anos 60 e 70 são de todos conhecidas. Mesmo assim, interessado que sou pelo assunto, resolvi ler a matéria. Eu já estava pronto a me indignar com a revelação de mais uma arbitrariedade dos milicos quando deparei com a história a seguir.

O ano era 1978 e a repressão política estava em seus estertores. Chico Buarque voltava de Havana, aonde fora participar do júri de um concurso literário. À época viajar para Cuba estava proibido - as relações diplomáticas estavam rompidas desde 1964 -, e o cantor carioca foi detido pela Polícia Federal no aeroporto e interrogado. À certa altura, irritado por aquela detenção arbitrária, o autor de "Carolina" disparou o seguinte projétil para  seus interrogadores. Cito a Folha:

Chico, no Dops, afirmou que não estava "realizado politicamente" no Brasil, onde "falta liberdade". "Em Cuba sim", disse à época, "há liberdade".
"Lá todos pensam da mesma maneira, pois todo o povo está integrado ao processo revolucionário. O Brasil, para atingir o socialismo, deveria passar por um processo revolucionário idêntico ao cubano. O mundo todo caminha para o socialismo. Inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, todos os países serão socialistas."

É isso mesmo que vocês leram: para Chico Buarque, deus e ícone da música e da cultura brasileiras, em Cuba havia liberdade. E isso - vejam só - porque todos pensam da mesma maneira, como na ex-URSS e na Coréia do Norte... Mais: o mundo todo caminhava para o socialismo. Pois é.

O país em que Chico Buarque dizia que faltava liberdade lhe permitia fazer proselitismo do regime comunista cubano até para os policiais que o interrogavam. Já a ilha em que ele estava realizado politicamente dava um tratamento bem diverso aos artistas que ousassem não cantar conforme a música ditada pelos irmãos Castro, como faz ainda hoje.

Contrariando a profecia do bardo, o mundo não se tornou socialista. O regime militar, felizmente, também não existe mais. A ditadura cubana, porém, permanece, já tendo entrado em sua quinta década de existência, sem nenhum sinal de que irá dar lugar, um dia, à democracia. Lá não há liberdade.

É por essas e outras que defendo a divulgação irrestrita de tudo que se refira  à época do regime militar no Brasil. Assim ficamos sabendo muita coisa sobre muita gente. Principalmente sobre quem sempre posou de defensor da liberdade mas estava se lixando para a democracia e os direitos humanos. E que nunca se retratou.

No Brasil, a ditadura pertence ao passado. Em Cuba, ela é o presente. Mas sou otimista. Um dia a ilha-cárcere será um país livre. Apesar de você, Chico Buarque.  

sexta-feira, julho 13, 2012

Lula e Maluf: por que não?




Escrevi o mesmo aqui outro dia.
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Lula e Maluf: por que não?

Postado em 6/7/2012 às 10:53:11hs

Por Guilherme Fiuza*

 
O Brasil ético está escandalizado com o aperto de mão entre Lula e Paulo Maluf. O ex-presidente teria ido longe demais com esse gesto. É uma concessão muito grave para tentar eleger um prefeito, dizem os homens de bem. E o assunto não sai de pauta, com a corrente de indignação se espalhando pela imprensa, pelas escolas e esquinas desse Brasil ultrajado.

Todo cientista político teve sua chance de dizer que aquela foto é um divisor de águas no processo ideológico brasileiro, um retrocesso no campo progressista, um monumento ao vale tudo. Mas nunca é tarde para avisar a esta nação escandalizada: o aperto de mão entre Lula e Maluf não tem a menor importância.

Um comentarista bradava no rádio um dia desses: “Maluf apoiou a ditadura!” Não, essa não é a grande credencial do ex-governador de São Paulo. Vamos a ela: Maluf é procurado pela Interpol. Independentemente dos resultados dos vários processos de que já foi réu por corrupção, Maluf é símbolo de cinismo e trampolinagem. Mesmo assim, não pode fazer mal nenhum a Lula.

O ex-operário que governou o Brasil por oito anos escolheu como um de seus principais aliados José Sarney. Para quem não está ligando o nome à pessoa, Sarney é o protagonista do caso Agaciel Maia – aquele que revelou a transformação do Senado Federal em balcão de favores particulares. Em telefonemas divulgados pela TV em horário nobre, Sarney aparecia usando a presidência do Senado para reger o tráfico de influência na cúpula do Poder Legislativo.

Mostrando influenciar também o Judiciário, o parceiro de Lula conseguiu, através do filho Fernando, instituir a censura prévia ao jornal “O Estado de S. Paulo”, até hoje proibido de mencionar a investigação dos atos secretos operados por Agaciel.

O que fez Lula diante desse escândalo? Disse que Sarney não podia ser julgado como uma pessoa comum. Segurou-o bravamente na presidência do Senado. Até que a tempestade passasse, deu-lhe a mão e não soltou mais. Qual o problema então de dar a mão a Maluf, só um pouquinho, para eleger o príncipe do Enem?

O aperto de mão com Sarney incluiu outras manobras típicas da ditadura que Maluf apoiou. Lula mandou sua ministra Dilma Rousseff intervir na Receita Federal para resolver pendências fiscais da família Sarney. Essa denúncia foi feita por Lina Vieira, ex-secretária da Receita, que contou detalhes do abuso de poder da então chefe da Casa Civil.

Lina aceitou uma acareação com Dilma, que fugiu (e depois virou presidente). Quando sua sucessora saiu em campanha, Lula nomeou como ministra-chefe da Casa Civil a inesquecível Erenice Guerra. Braço direito de Dilma, com quem confeccionou o dossiê Ruth Cardoso (contrabando de informações de Estado para chantagem política), Erenice montou um bazar com parentes e amigos no palácio.

Apesar de ter afundado crivada de evidências de tráfico de influência, Erenice recentemente foi puxada pela mesma mão que apertou a de Maluf: desinibido, o padrinho já tenta publicamente ressuscitá-la. As aventuras de Dilma e Erenice só foram possíveis com queda do antecessor, José Dirceu – o que mostra uma verdadeira linhagem criada por Lula na Casa Civil.

E Dirceu só caiu porque o suicida Roberto Jefferson resolveu atrapalhar um esquema que estava funcionando perfeitamente. Pois bem: no momento em que a Justiça se prepara para julgar o mensalão, maior escândalo de corrupção já visto na República, protagonizado por todos os homens do presidente Lula, o Brasil resolve se escandalizar porque o chefe supremo dos mensaleiros tirou uma foto com Paulo Maluf.

É sempre triste deixar a inocência para trás, mas vamos lá. Coragem. Em todo o seu vasto e conhecido currículo, Maluf jamais chegou perto de engendrar um golpe dessa dimensão: o uso do poder central para fazer uma ligação direta dos cofres públicos com a tesouraria do partido do presidente. O malufismo nunca sonhou com um valerioduto.

Como se vê, o Brasil, esse distraído, precisa atualizar a legenda do famoso encontro: se quiser continuar dizendo que ali está a esquerda sujando as mãos com a direita, vai ter que inverter a foto. E para concluir o jogo dos sete erros: qual dos dois usou crachá de coitado para vampirizar o Estado? Roubar a boa fé dá quantos anos de cadeia? (*GF, no portal da revista Época)

segunda-feira, julho 02, 2012

CONFORME EU QUERIA DEMONSTRAR - A MORTE DO MERCOSUL

Escrevi o texto abaixo em 30/10/2009. Continua mais atual do que nunca, por isso o republico. Vejam a palhaçada que foi a entrada da Venezuela de Hugo Chavez no Mercosul e a suspensão do Paraguai do bloco. Um é uma ditadura, outro é um país em que um presidente foi deposto segundo as normas constitucionais. Está claro que toda a gritaria sobre "golpe" no Paraguai não passou de uma desculpa para os bolivarianos e seus amigos darem um golpe de verdade, mandando a cláusula democrática do Mercosul para as cucuias.

Notem como, quase três anos atrás, os parlamentares brasileiros já preparavam o caminho para golpear o Mercosul com a entrada da Venezuela. O Mercosul, que já nao funcionava, agora será um palanque do chavismo.
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O FIM DO MERCOSUL

Um minuto de silêncio, por favor.

Faleceu ontem, 29/10, o Mercosul - Mercado Comum do Sul. Morreu vítima de cinismo e de vigarice. Quem o matou foram os senadores brasileiros. Em reunião no Conselho de Relações Exteriores do Senado, estes decidiram, por 12 votos a 5, a favor da entrada da Venezuela chavista no bloco.

De nada adiantou o relatório inicial do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), contrário à medida. O rolo compressor lulo-petista e a falta de oposição real no País falaram mais alto, garantindo a vitória do pleito, para a alegria de senadores governistas comprometidos com os princípios dos direitos humanos e da democracia, como Inácio Arruda (PCdoB - CE).

Juntamente com o bloco, serão enterrados os documentos-base do Mercosul, como o Protocolo de Ushuaia, que estabelece a cláusula democrática - ou seja, que somente países em que as regras da democracia sejam respeitadas e cumpridas poderão participar do bloco. Farão companhia à honestidade e à vergonha na cara, que já bateram as botas faz tempo.

Foram duas as desculpas dos coveiros do Mercosul para justificar o magnicídio: 1) é melhor integrar do que isolar; e 2) quem fará parte do bloco é o Estado venezuelano, não o governo de Hugo Chávez.

As duas desculpas são apenas isso: desculpas, e das mais esfarrapadas. Trata-se de uma argumentação que seria estúpida, se não fosse vigarista. Coisa de canalhas mesmo, de gente sem nenhuma consideração pela verdade nem pela inteligência alheia.

Primeiro: o argumento do "não-isolamento" é desmentido pelos fatos. A idéia é que, ao não isolar a semi-ditadura chavista dos demais países, o país melhoraria e caminharia rumo à democracia. Devemos conversar com os ditadores, convidá-los para jantar e para freqüentar nossos salões, e eles se converterão em democratas, é o que se está dizendo. É o mesmo argumento usado para justificar a política brasileira e da OEA em relação à ditadura castrista de Cuba. É uma falsidade completa. Nos últimos anos, o regime chavista foi tudo, menos isolado internacionalmente, e isso não o fez avançar um milímetro em direção à democracia. Chávez não deixou de ser Chávez, ou seja, não melhorou nada, por causa disso. Pelo contrário: os países que tiveram contato com ele, Chávez, pioraram bastante - vejam os exemplos de Bolívia, Equador, Nicarágua e Honduras. O mesmo no caso de Cuba: há tempos os países do continente, Brasil inclusive, vêm defendendo o diálogo com a tirania castrista. Isso levou a algum tipo de abertura ou democratização do regime nos últimos cinqüenta anos?

Para não ir muito longe: o regime racista do apartheid na África do Sul caiu, em 1990, não porque fosse paparicado pelos demais países, mas, pelo contrário, porque a "comunidade internacional" - a mesma que hoje baba por Cuba e tenta isolar Honduras - fez pressão e defendeu o ISOLAMENTO do país (do país mesmo, e não somente do "governo"). Até boicote na área esportiva houve. É um exemplo de que esse papo de "não-isolamento" não passa de colóquio para ruminantes adormecerem (traduzindo: não passa de conversa pra boi dormir).

Em outras palavras: de acordo com a diplomacia brasileira, chancelada pelos senadores brasileiros, nada de isolar regimes humanistas como os do Sudão ou do Irã, ou de Cuba ou da Coréia do Norte, com os quais se pode conversar; isolar, só se for uma ditadura brutal e genocida, como a de Honduras.

Quanto ao segundo argumento, de que quem está entrando no Merdosul, digo Mercosul, é o país-Venezuela, não o país-Chávez, é outra cascata da grossa: quem a defende, gente do naipe do senador governista (de qualquer governo) Romero Jucá (PMDB-RR), aposta que todos sejam idiotas, ou que não saibam de nada que está acontecendo na Venezuela. Desde que Chávez chegou ao poder, há dez anos, ele deixou claro para quem quiser saber que só deixará o trono quando passar desta para melhor (ou para pior, espero sinceramente). Dito de outro modo: ele vai ficar na presidência até morrer. Para isso ele já tomou e está tomando todas as providências: submeteu o Judiciário, acabrestou o Congresso, acabou com a separação de Poderes e ameaça, todos os dias, a imprensa que o critica com prisões e censura. Isso significa que votar pela entrada da Venezuela no Mercosul, neste momento, é o mesmo que avalizar o governo Chávez. Do mesmo modo que fazer um acordo com a Alemanha nos anos 30 seria o mesmo que referendar o nazismo. É provável, aliás, que a ditadura chavista dure mais tempo do que o Mercosul.

Nada que está aí em cima, claro, foi levado em conta pelos senhores senadores brasileiros. Assim como não foi levado em conta pelos Congressos argentino e uruguaio, que já aprovaram o ingresso da Venezuela no Mercosul. Agora a votação final será no plenário do Senado. É bastante provável que este confirme a decisão da Comissão de Relações Exteriores. Nesse caso, terá sido dado o tiro de misericórdia no Mercosul.
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O Mercosul nasceu da necessidade de integração regional decorrente da democratização da América do Sul, nos anos 80, e acaba seus dias, ingloriamente, como palanque de um caudilho autoritário e populista.
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Descanse em paz, Mercosul. Que a terra lhe seja leve. Que pena, era tão jovem... Acendamos uma vela.

IMAGENS PARA A HISTÓRIA

Muita gente ficou horrorizada com a aliança Lula-Maluf em São Paulo. Muitos se esqueceram, porém, que esse tipo de coisa não é novidade na história da esquerda. Vejam as imagens abaixo:
2012: A Ave de Rapina Luiz Inácio Lula da Silva de mãos dadas com o Símbolo da Pouca Vergonha Nacional Paulo Salim Maluf
1990: Adversários implacáveis nas eleições apenas um ano antes, o caudilho Leonel Brizola brinda sua aliança com o ex-inimigo e Filhote da Ditadura (e hoje fiel aliado de Lula) Fernando Collor de Mello
1945: O Ditador Getúlio Vargas divide o mesmo palanque com o Cavaleiro da Esperança e líder do PCB Luiz Carlos Prestes, que acabara de sair da prisão. Dez anos antes, Prestes liderou uma revolta armada para derrubar Vargas. A primeira esposa de Prestes, Olga Benario, foi entregue por Vargas à Alemanha nazista, onde morreu num campo de concentração.
1939: O ditador comunista Josef Stalin aperta a mão do Ministro das Relações Exteriores da Alemanha nazista, Joachim von Ribbentrop, selando a aliança (pacto de não-agressão) entre a URSS e a Besta Fascista. Esse pacto, que dividiu a Polônia e os países do Báltico, foi o deflagrador da Segunda Guerra Mundial.
 CONCLUSÃO: HORRORIZADOS, SIM. MAS, SURPRESOS?

sábado, junho 30, 2012

O NOVO ÍDOLO DOS "PROGRESSISTAS"

Responda rápido, você que lê estas linhas: que movimento/ideologia/corrente política da atualidade justifica práticas como o extermínio de homossexuais, despreza a democracia e os direitos humanos, defende ditaduras que perseguem qualquer um que pense diferente (inclusive comunistas), justifica o terrorismo e a opressão das mulheres, acredita numa conspiração judaica para dominar o mundo e aplaude negadores do Holocausto?

Se você pensou em algum grupelho de extrema-direita, formado por jovens carecas que brandem suásticas e outros símbolos neonazistas, acertou em parte. Porque as mesmas idéias expostas acima são defendidas, hoje, por quem está no extremo ideológico oposto. Estou falando, claro, da esquerda.

E não me refiro unicamente a algum obscuro grupúsculo radical anarquista ou trotskista, que habita as margens da vida política. Nada disso. Estou falando do mainstream, da corrente principal do pensamento esquerdista hoje em dia.

Acham que exagero? Então vejam o seguinte cartaz:

Trata-se de um folheto distribuído pela Confederação Israelita do Brasil (CONIB), por ocasião da vinda do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, à conferência da Rio+20, que acabou de acontecer. O texto diz tudo. Ahmadinejad comanda um regime que é, entre outras coisas, teocrático (a lei islâmica é a oficial), intolerante (as outras crenças são perseguidas), autoritário (encarcera opositores - inclusive comunistas), homofóbico (enforca homossexuais em praça pública), machista (mulheres são apedrejadas em caso de adultério), genocida (defende a destruição de Israel), terrorista (patrocina atentados de grupos como o Hezbollah), antissemita (nega o Holocausto) e inimigo da paz (quer a bomba atômica). A última de Ahmadinejad foi culpar os judeus pela existência do tráfico internacional de drogas. Enfim, o horror. 

Ou seja: Ahmadinejad representa exatamente tudo aquilo que a esquerda mais condena e abomina, certo? 
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Errado. Aliás, muito pelo contrário.
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O que fizeram os esquerdistas? Aproveitaram a presença de Ahmadinejad num evento mundial para execrá-lo e condená-lo com veemência, no mínimo como um ditador e um patife? Mobilizaram as redes sociais para uma grande manifestação contra esse verdadeiro acinte que foi a participação de um inimigo da humanidade numa conferência das Nações Unidas, concebida para debater a construção de um mundo melhor? Militantes dos direitos humanos, sindicatos, pacifistas, UNE, LGBT, ecologeiros, maconhistas, vadias, enfim, a beautiful people toda, decidiu dar-se as mãos e sair às ruas para mostrar que Ahmadinejad não é bem-vindo no Brasil?

Sabe o que esses defensores do belo e do justo fizeram quando da visita de Ahmadinejad ao Rio? Nada. Silenciaram sobre tudo o que está aí em cima. Silenciaram, apenas? Não, foram visitar Ahmadinejad. Visitá-lo, somente? Não, foram ouvi-lo. Só ouvir? Não. Foram aplaudir.

Isso mesmo. Políticos do PT, PSB e PCdoB, além de representantes da UNE e  alguns supostos intelectuais, como Emir Sader, resolveram tomar cafezinho com o iraniano. Os campeões das causas humanitárias e progressistas, sempre alertas para denunciar o menor sinal de "intolerância" e até de "racismo" no Brasil, foram puxar o saco e bater palmas para o ditador fanático e antissemita. E saíram todos deliciados com o que disse o "amigo e irmão" de Luiz Inácio Apedeuta da Silva. Democracia? Direitos Humanos? Respeito às minorias? Liberdade de expressão? Paz? Isso é coisa de burgueses imperialistas, sentenciaram os "humanistas".

A propósito: um valente progressista do PCdoB, indignado com o folheto da CONIB, escreveu um texto no site do partido em que defende Ahmadinejad com unhas e dentes, e ainda aproveita para equiparar os israelenses aos... nazistas! Num texto em que defende um antissemita negador do Holocausto! Pois é...

A comparação não é boa, mas vamos fazer um exercício de imaginação: pensem no ex-presidente norte-americano George W. Bush negando que os nazistas mataram 6 milhões de judeus. Preciso dizer mais?  

Agora sabe você, caro leitor, de onde partiu uma manifestação contra a presença na Rio+20 do chefe de uma ditadura homofóbica e intolerante, que representa o oposto dos valores democráticos e civilizatórios? De um grupo de evangélicos, liderados pelo bispo Silas Malafaia. Em frente ao hotel em que Ahmadinejad estava hospedado, os manifestantes exibiram um cartaz no qual pediam respeito à liberdade religiosa no Irã. Um bando de "reacionários" e "obscurantistas", como se vê...
Cartaz da "reacionária" e "obscurantista" Assembléia de Deus em defesa da liberdade religiosa no Irã: enquanto isso, os progressistas e humanistas da esquerda brasileira ouviam, embevecidos, uma lição de Mahmoud Ahmadinejad sobre como construir um mundo melhor... sem judeus e sem homossexuais.

Se serve de consolo, não pense, gentil leitor, que a cumplicidade com ditadores e terroristas é algo exclusivo do Brasil. Nos EUA e na Europa, essa forma de cegueira voluntária (e suicida) também é corrente. Figuras idolatradas pela esquerda mundial, como Noam Chomsky, Edward Said, Tariq Ali e Michael Moore, são useiros e vezeiros em concentrar suas baterias contra os EUA e Israel, enquanto voluntariamente fecham os olhos ou justificam o terrorismo islamita. Opõem-se assim, direta ou indiretamente, a tudo aquilo que a esquerda disse um dia defender, como a liberdade de expressão e os valores democráticos. Leiam o excelente livro de Nick Cohen, What's Left? How The Left Lost Its Way, publicado em 2007 no Reino Unido, que reduz a pó o edifício que a esquerda do Primeiro Mundo criou para si mesma, e que nós, cucarachas, copiamos. Duvido que quem o ler não irá reconhecer o que acontece também por estas plagas.

O beija-mão dos esquerdistas brasileiros em Ahmadinejad é uma pequena mostra, embora bastante ilustrativa, de um fenômeno apontado por Cohen: o colapso moral da esquerda daqui e de alhures, que se prolonga pelo menos desde a queda do Muro de Berlim em 1989, e cujo capítulo mais recente começou após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Sobretudo depois da onda de manifestações contra a guerra do Iraque em 2003, os velhos dogmas de luta de classes e socialismo deram lugar ao relativismo cultural e a políticas de identidade, em tudo contrárias à proposta teoricamente universalista do marxismo.  Saiu de cena o "proletários de todo o mundo, uni-vos!" e entrou em seu lugar o "respeito às diferenças". O resultado disso foi uma aliança profana entre comunistas ou ex-comunistas e o fanatismo islamita. Criticar Ahmadinejad por suas posições antissemitas? Isso é preconceito imperialista. Condenar os atentados da Al Qaeda? É incapacidade de "compreender o outro". E assim por diante.

Esse argumento não é apenas falacioso: é idiota. Francamente, de todas as desculpas para não fazer nada diante de ditadores e de fanáticos, a de que "é preciso entender o outro" é a mais estúpida, a mais cretina. Dizer, com base no relativismo cultural, que a tirania de Saddam Hussein no Iraque ou a do Talibã no Afeganistão eram parte da cultura local, como se fossem um quibe, além de ofender as milhares de vítimas iraquianas e afegãs desses regimes, é uma afronta à inteligência. Equivale a dizer que a cultura do Brasil é a da escravidão, ou a da Nova Inglaterra nos EUA é a da caça às bruxas.
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Ora, desde quando apedrejar mulheres e enforcar homossexuais em praça pública - como se faz hoje no Irã - é uma manifestação cultural? Nesse caso, seríamos forçados a dizer que a cultura dos alemães é o nazismo, ou que a dos japoneses é o harakiri. Seriamos obrigados a afirmar que a vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial deve ser deplorada, e não comemorada como uma vitória da humanidade.

Toda essa lengalenga relativista sobre "respeito às diferenças", que virou moda de uns tempos para cá, sobretudo entre os bem-pensantes da esquerda festiva e de miolo mole, não passa de um pretexto para defender a permanência de regimes criminosos e destilar desprezo pela democracia e pelos direitos humanos. Ou estes são valores universais ou não são nada. No caso do Irã, então, nem se fala. Até porque a teocracia de Teerã não é exatamente um modelo de "respeito ao outro". A imagem a seguir mostra por quê:
Homossexuais enforcados no Irã: é assim que o regime de Ahmadinejad demonstra seu "respeito às diferenças"...

Dizem que as ideologias estão superadas, e que não existem mais direita e esquerda. Divirgo ligeiramente. Para mim, estes continuam sendo conceitos válidos. Sobretudo extrema-direita e extrema-esquerda. Apenas com uma diferença: hoje, elas estão do mesmo lado. Seja um troglodita de cabeça raspada e suástica tatuada no braço, seja um sociólogo uspiano filiado ao PT ou ao PSOL, ambos, comunistas e fascistas, defendem as mesmas coisas. Aí estão Emir Sader e Mahmoud Ahmadinejad que não me deixam mentir.

E ainda há quem se escandalize com a aliança entre Lula e Maluf em São Paulo. Francamente...   

quinta-feira, junho 28, 2012

GOLPE? QUE GOLPE?

Marca de legítimo scotch made in Paraguay: a diplomacia brasileira deve ter tomado todo o estoque...

Em junho de 2009, o então presidente de Honduras, Manuel Zelaya, tentou usar o Exército para impor um referendo ilegal e se eternizar no poder. Foi afastado da presidência por decisão do Judiciário e do Legislativo. Falaram em golpe militar. Logo Zelaya, que fora expulso do país, materializou-se como que por encanto na embaixada do Brasil em Tegucigalpa, juntamente com uma multidão de partidários seus, que transformaram o lugar num quartel-general de onde passaram a pregar a derrubada do governo e o retorno de Zelaya ao poder. O Brasil, juntamente com vários outros países e grande parte da imprensa, tomou Zelaya como o presidente legítimo, e os que o tinham derrubado como golpistas.

Escrevi bastante neste blog sobre o assunto. Por causa disso, apanhei um bocado. Enquanto quase todos em minha volta repetiam a toada de que Zelaya era uma espécie de Salvador Allende, derrubado na calada da noite por uma bando de gorillas, quase fui queimado na fogueira por desafinar do coro e afirmar o óbvio, baseado não numa opinião, mas num fato: não tinha havido golpe coisíssima nenhuma. Ou melhor: houve, sim, uma tentativa de golpe – por parte de Zelaya. Esta foi (felizmente) abortada pelas Forças Armadas, que agiram completamente dentro da lei, seguindo determinação da Suprema Corte e do Congresso, conforme determina a Constituição do pais, que pune com a perda imediata do cargo quem tentar o que Zelaya fez (Artigo 239). O problema tinha sido a expulsão de Zelaya, que foi irregular (mas não configurou "golpe"). Expliquei isso em vários textos, de forma paciente, didaticamente. Só faltei desenhar: golpista é Zelaya e seus patrocinadores bolivarianos, como Hugo Chávez e Daniel Ortega, não os que o depuseram. (Golpista e maluco: o sujeito mandou cobrir as janelas da embaixada brasileira com papel-alumínio para se precaver de "raios" emitidos por uma conspiração sionista...)

Exatamente três anos depois, eis que a situação se repete no vizinho Paraguai. Mais uma vez, um candidato a caudilho ligado ao Foro de São Paulo perde o cargo por causa de suas estripulias. Mais uma vez, a lei foi cumprida. E mais uma vez o Itamaraty rói corda dos outros.

O impeachment do ex-padre garanhão Fernando Lugo seguiu à risca o que diz a lei do país, que pune com destituição o governante que revelar mau desempenho das funções (Artigo 255 da Constituição). Lugo perdeu o cargo após um choque violento entre sem-terra e policiais, nos quais 17 pessoas morreram, e que demonstrou a total incapacidade do governo de manter a ordem. A associação de Lugo com os sem-terra paraguaios, os quais, assim como seus congêneres além-fronteira, costumam invadir e depredar propriedades de brasileiros (os chamados "brasiguaios"), é tão notória quanto seu instinto reprodutor. Na lista de acusações contra ele, está a de usar um quartel do Exército para fazer um comício dos sem-terra. Está claro que ele extrapolou suas funções.

Assim como aconteceu em Honduras, a legalidade foi respeitada. Nenhum tanque saiu às ruas. Nenhum jornal foi colocado sob censura. Ninguém foi preso. Os direitos fundamentais da pessoa humana estão plenamente em vigor. As instituições democráticas funcionam normalmente. Golpe? Que golpe?

Fala-se em "rito sumário", e que Lugo não teria tido o direito de defesa respeitado etc. Bobagem. Lugo foi destituído por ampla maioria nas duas casas do Congresso, num ato soberano do Estado paraguaio. O mesmo aconteceu no Brasil em 1992 com Fernando Collor de Mello. Foi golpe?

É claro que toda essa gritaria dos cumpinchas de Lugo, como Cristina Kirchner, Evo Morales e Hugo Chávez, não tem nada a ver com defesa da legalidade, tal como ocorreu no caso de Honduras. Muito pelo contrário. O que essa patota teme é que o que aconteceu no Paraguai se repita em casa. Kirchner está em plena cruzada para calar a imprensa argentina. Morales está enrolado em acusações de todo tipo de abuso de poder. Nem falo em Chavez, porque aí já seria covardia. Acusam outros de golpistas enquanto preparam o golpe contra a democracia em seus próprios países. E são esses mesmos “democratas” que agora falam em “golpe” no Paraguai!

E ainda há quem pense que decisões como a do Itamaraty, de condenar o “golpe” em Assunção, não seriam ideológicas, mas “pragmáticas”. Ainda que fosse, a mentira permanece. Fico pensando: se em vez de Lugo, o deposto fosse um presidente "de direita", algum desses personagens acima estaria dizendo que houve golpe? Alguém estaria falando em "rito sumário" e em “cerceamento do direito de defesa"? Será que o Mercosul, que tem uma cláusula democrática mas abriga em suas fileiras até a Venezuela, suspenderia o país? E Dilma Rousseff, será que ela se negaria a apertar a mão do novo presidente empossado constitucionalmente? "Pragmatismo", é? Sei...

Para ver como esse é um discurso vigarista: ao mesmo tempo em que fala em "pragmatismo", o governo brasileiro, seguindo as pegadas dos companheiros bolivarianos, derrete-se em rapapés por ditaduras como a dos Castro em Cuba, que já dura 53 anos sem dar o menor sinal de que vai acabar um dia, mas fala de “golpe” e “quebra da democracia” no Paraguai. Silencia vergonhosamente diante da falta de liberdade e da existência de presos políticos na ilha-prisão, mas remexe na cadeira diante da destituição legal de um presidente por mau desempenho de suas funções... O que dizer disso? Desfaçatez é pouco.

Se a queda de Lugo foi golpe, então o impeachment de Collor em 92 também foi. Lugo caiu porque assim determina a Constituição, que, queiram ou não os chávez, kirchners e dilmas da vida, é a lei do país e deve ser respeitada. Assim como em Honduras, estes apostaram no pior, esperando que milhares saíssem às ruas em defesa do reprodutor de batina, provocando assim, quem sabe, um banho de sangue. E, assim como em Honduras, foram barrados pela legalidade. Se houve golpe, foi um legítimo golpe paraguaio.

quarta-feira, junho 20, 2012

O AMADOR E O PROFISSIONAL

Francamente, não sei por que todo o bafafá por causa da coligação Maluf-Lula-Haddad em São Paulo. Não entendo o choro e ranger de dentes. Como escrevi em outro texto, a notícia não me surpreendeu nem um pouco.

A enxurrada de críticas e de exclamações nas redes sociais bate na mesma tecla: "Mas como? Lula e Maluf, juntos no mesmo palanque? O PT, aliado do PP? Como pode?" etc. etc. 

Até parece que Lula é um santo e que o PT é uma confraria de senhoras tomadoras de chá.  Qual a surpresa?

É preciso ser muito avoado para ficar "surpreso" ou "decepcionado" com esse vale-tudo. É preciso ter PhD em cegueira, estupidez ou ingenuidade.

Ora, o que vocês queriam? Lula é o principal beneficiário do maior escândalo de corrupção da História do Brasil, o mensalão, e o PT é a maior máquina de cooptação política que já apareceu por estas plagas. Maluf, em comparação, é um mero batedor de carteiras. Lula já acolheu em suas asas Collor e Sarney. Era uma questão de tempo até que Maluf fosse batizado na fogueira santa dos companheiros mensaleiros e aloprados.  Perto do Apedeuta, Maluf é uma freira.

Cedo ou tarde, os dois se encontrariam. Vejam Gilberto Carvalho, o capacho-mor do Apedeuta. Ele disse que o acordo com Maluf em troca de uma secretaria no Ministério das Cidades "não é nenhuma catástrofe". Não considera catastrófico ter como aliado um dos quatro brasileiros na lista de corruptos do Banco Mundial. Realmente, por que deveria? A menos que Lula fosse alguém que tivesse algum princípio, com um mínimo de decência e vergonha na cara, e o PT, um partido comprometido com a ética e com a moral, por que tal coisa causaria escândalo? Isso é para os "moralistas burgueses", não é mesmo? 

É por isso que acho um teatro de baixa qualidade a saída lacrimosa de Luíza Erundina da chapa de Haddad-Lula, segundo ela por causa da foto em que Maluf aparece, com aquele sorriso famoso, sendo afagado em sua própria casa pelo ídolo de uma legião de tontos. Pelo visto, Erundina continua achando (ou finge que acha) o PT um partido de anjos, que não se mistura "com isso que está aí". Assim como ela, muitos insistem em não enxergar o óbvio: que não é o PT que se corrompe com a aliança com gente como Maluf, mas é ele, Maluf, que avança uma quadra e alcança um novo patamar ao aliar-se com Lula e o PT. 
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Ao contrário de seu novo aliado, Lula jamais se deixaria fichar pela Interpol ou amargar alguns dias de cadeia por roubalheira, tendo escapado do impeachment em 2005 por causa unicamente da incompetência e da falta de testosterona da "oposição". Maluf é um amador; Lula é um profissional. E o que faz o amador diante do profissional? Apóia o seu menino, claro. (A propósito: Erundina continua a apoiar Haddad, e vai trabalhar para que ele seja eleito.)

Não me entendam mal. Não estou dizendo que a aliança com Maluf deve ser encarada como algo normal, ou com aquela frase entre resignada e cínica: "são coisas da política".  Não, a aliança Lula-Maluf não é "coisa da política". É um caso de polícia.

segunda-feira, junho 18, 2012

DOM SEBASTIÃO VOLTOU - UM TEXTO ESPETACULAR


Marco Antonio Villa é, indiscutivelmente, uma das mentes mais lúcidas do Brasil na atualidade. Além de ser um historiador de mão cheia, suas análises políticas, em especial sobre esse estranho fenômeno que é o lulopetismo, capaz de anestesiar uma nação inteira a ponto de todos virarem zumbis cegos, surgos e mudos para o que se passa à sua volta, costumam ser nada menos do que brilhantes. 
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Este último artigo dele, que aqui reproduzo, não foge à regra. Mostra o reizinho da forma como devem ser mostrados demagogos populistas, farsantes contumazes e fanfarrões bravateiros: nu, sem os enfeites e salamaleques com que foi endeusado por uma multidão (literalmente) de áulicos, devotos e iludidos vocacionais. Para azar do Apedeuta, que para aumentar o próprio mito cercou-se de uma corte de "intelectuais" deslumbrados do tipo emir sader, frei betto e marilena chauí, enganou a todos e faz tábula rasa do passado, eis que aparece um historiador de verdade, que valoriza não o mito, mas os fatos. E fatos são teimosos. Só lamento que haja tão poucos com essa coragem e honestidade, num país em que esses artigos se tornaram tão raros.
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Político sem princípios, sem moral, sem virtude alguma que o qualifique como líder ou estadista - enfim, sem caráter -, Lula é uma invenção da elite que ele tanto despreza ou diz desprezar. É uma mentira. Um acinte. Um escárnio. Sua passagem pela política brasileira e, sobretudo, pela Presidência da República (por duas vezes! - e cogita-se uma terceira), será lembrada como um dos momentos mais vergonhosos da História do Brasil. E não somente pela foto acima. Na verdade, pela trajetória do "guia genial", tal imagem não deveria surpreender ninguém. É café pequeno.
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Leiam. Repassem. Discutam. Acima de tudo: pensem. (GB)
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Dom Sebastião voltou

O Estado de S. Paulo
16/06/2012
Luiz Inácio Lula da Silva tem como princípio não ter princípio, tanto moral, ético ou político. O importante, para ele, é obter algum tipo de vantagem. Construiu a sua carreira sindical e política dessa forma. E, pior, deu certo. Claro que isso só foi possível porque o Brasil não teve - e não tem - uma cultura política democrática. Somente quem não conhece a carreira do ex-presidente pode ter ficado surpreso com suas últimas ações. Ele é, ao longo dos últimos 40 anos, useiro e vezeiro destas formas, vamos dizer, pouco republicanas de fazer política.
Quando apareceu para a vida sindical, em 1975, ao assumir a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, desprezou todo o passado de lutas operárias do ABC. Nos discursos e nas entrevistas, reforçou a falácia de que tudo tinha começado com ele. Antes dele, nada havia. E, se algo existiu, não teve importância. Ignorou (e humilhou) a memória dos operários que corajosamente enfrentaram - só para ficar na Primeira República - os patrões e a violência arbitrária do Estado em 1905, 1906, 1917 e 1919, entre tantas greves, e que tiveram muitos dos seus líderes deportados do País.
No campo propriamente da política, a eleição, em 1947, de Armando Mazzo, comunista, prefeito de Santo André, foi irrelevante. Isso porque teria sido Lula o primeiro dirigente autêntico dos trabalhadores e o seu partido também seria o que genuinamente representava os trabalhadores, sem nenhum predecessor. Transformou a si próprio - com o precioso auxílio de intelectuais que reforçaram a construção e divulgação das bazófias - em elemento divisor da História do Brasil. A nossa história passaria a ser datada tendo como ponto inicial sua posse no sindicato. 1975 seria o ano 1.
Durante décadas isso foi propagado nas universidades, nos debates políticos, na imprensa, e a repetição acabou dando graus de verossimilhança às falácias. Tudo nele era perfeito. Lula via o que nós não víamos, pensava muito à frente do que qualquer cidadão e tinha a solução para os problemas nacionais - graças não à reflexão, ao estudo exaustivo e ao exercício de cargos administrativos, mas à sua história de vida.
Num país marcado pelo sebastianismo, sempre à espera de um salvador, Lula foi a sua mais perfeita criação. Um dos seus "apóstolos", Frei Betto, chegou a escrever, em 2002, uma pequena biografia de Lula. No prólogo, fez uma homenagem à mãe do futuro presidente. Concluiu dizendo que - vejam a semelhança com a Ave Maria - "o Brasil merece este fruto de seu ventre: Luiz Inácio Lula da Silva". Era um bendito fruto, era o Messias! E ele adorou desempenhar durante décadas esse papel.
Como um sebastianista, sempre desprezou a política. Se ele era o salvador, para que política? Seus áulicos - quase todos egressos de pequenos e politicamente inexpressivos grupos de esquerda -, diversamente dele, eram politizados e aproveitaram a carona histórica para chegar ao poder, pois quem detinha os votos populares era Lula. Tiveram de cortejá-lo, adulá-lo, elogiar suas falas desconexas, suas alianças e escolhas políticas. Os mais altivos, para o padrão dos seus seguidores, no máximo ruminaram baixinho suas críticas. E a vida foi seguindo.
Ele cresceu de importância não pelas suas qualidades. Não, absolutamente não. Mas pela decadência da política e do debate. Se aplica a ele o que Euclides da Cunha escreveu sobre Floriano Peixoto: "Subiu, sem se elevar - porque se lhe operara em torno uma depressão profunda. Destacou-se à frente de um país sem avançar - porque era o Brasil quem recuava, abandonando o traçado superior das suas tradições...".
Levou para o seu governo os mesmos - e eficazes - instrumentos de propaganda usados durante um quarto de século. Assim como no sindicalismo e na política partidária, também o seu governo seria o marco inicial de um novo momento da nossa história. E, por incrível que possa parecer, deu certo. Claro que desta vez contando com a preciosa ajuda da oposição, que, medrosa, sem ideias e sem disposição de luta, deixou o campo aberto para o fanfarrão.
Sabedor do seu poder, desqualificou todo o passado recente, considerado pelo salvador, claro, como impuro. Pouco ou nada fez de original. Retrabalhou o passado, negando-o somente no discurso.
Sonhou em permanecer no poder. Namorou o terceiro mandato. Mas o custo político seria alto e ele nunca foi de enfrentar uma disputa acirrada. Buscou um caminho mais fácil. Um terceiro mandato oculto, típica criação macunaímica. Dessa forma teria as mãos livres e longe, muito longe, da odiosa - para ele - rotina administrativa, que estaria atribuída a sua disciplinada discípula. É um tipo de presidência dual, um "milagre" do salvador. Assim, ele poderia dispor de todo o seu tempo para fazer política do seu jeito, sempre usando a primeira pessoa do singular, como manda a tradição sebastianista.
Coagir ministros da Suprema Corte, atacar de forma vil seus adversários, desprezar a legislação eleitoral, tudo isso, como seria dito num botequim de São Bernardo, é "troco de pinga".
Ele continua achando que tudo pode. E vai seguir avançando e pisando na Constituição - que ele e seus companheiros do PT, é bom lembrar, votaram contra. E o delírio sebastianista segue crescendo, alimentado pelos salamaleques do grande capital (de olho sempre nos generosos empréstimos do BNDES), pelos títulos de doutor honoris causa (?) e, agora, até por um museu a ser construído na cracolândia paulistana louvando seus feitos.
E Ele (logo teremos de nos referir a Lula dessa forma) já disse que não admite que a oposição chegue ao poder em 2014. Falou que não vai deixar. Como se o Brasil fosse um brinquedo nas suas mãos. Mas não será?
MARCO ANTONIO VILLA, HISTORIADOR, É PROFESSOR DA , UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS (UFSCAR)

sábado, junho 16, 2012

A SEITA LULOPETISTA E O "NOVO HOMEM"

Uma das inúmeras vantagens de não ser de esquerda - e, particularmente, não ser petista - é nunca se decepcionar.  Inclusive, jamais se surpreender.
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A notícia de que o inacreditável Paulo Salim Maluf está coligado com o PT na campanha para a prefeitura de São Paulo, em troca de um cargo no governo federal, deixou muita gente, principalmente petistas mais antigos (ou mais avoados), chocada e indignada. Não a mim. Não somente porque conheço o PT de longa data, e jamais me deixei enganar pelo discurso vigarista do partido que até um dia desses se apresentava como "contra tudo isso que está aí", ou porque Maluf é aliado do PT desde 2003, tendo inclusive apoiado no segundo turno a candidatura de Marta Suplicy para a prefeitura paulista no ano seguinte, mas porque, se há uma verdade que só falta gritar de cima dos telhados, é que o pragmatismo (leia-se: a total falta de princípios) do partido de Lula e Dilma Rousseff não tem limites. Inclusive - pode-se dizer, principalmente - quanto às alianças.
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O fato de Maluf, um notório ladravaz fichado pela Interpol e verdadeiro símbolo da corrupção brasileira, alvo de incontáveis denúncias do Ministério Público e até ontem adversário histórico do lulopetismo, ser hoje um fiel companheiro e integrante da base alugada do governo Dilma não deveria surpreender ninguém. Afinal, o que é o PT senão a mais gigantesca máquina de lavar (e destruir, quando convém) reputações em todos os tempos no Brasil?
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Nunca antes na História deste país uma organização serviu tão eficazmente a esse propósito quanto o partido da estrela vermelha. Aí está Fernando Collor de Mello, resgatado do opróbrio e do ostracismo e plenamente integrado nas hostes lulopetistas, transfigurado em caçador de jornalistas em uma CPI fajuta para livrar a cara dos companheiros enrolados com uma empreiteira, para comprovar esse fato. Outro ex-presidente da República, José Sarney, deve sua eterna permanência à frente do Senado ao apoio trocado com Lula da Silva no Maranhão. Sem falar em outras figuras probas, ínclitas e impolutas de inegável espírito republicano como Jáder Barbalho e Renan Calheiros. Maluf é apenas mais um da turma a descobrir as delícias de fazer parte do esquema de poder lulopetista, que costuma ser generoso com seus aliados e implacável - para não usar outro adjetivo mais duro - com aqueles que a ele não se adaptam e não se sujeitam (ou que ousam esboçar alguma independência em relação ao capo di tutti capi, como acaba de descobrir Marta Suplicy).
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O lulopetismo é um misto de máfia e de seita religiosa. Verdadeiro homizio de delinquentes e Cosa Nostra da política, imbuído de certa aura sobrenatural a ele atribuída por décadas de pajelança sociológica marxista, o PT deu sobejas provas ao longo de sua trajetória de que  pauta suas alianças e coligações por um único objetivo: o poder, custe o que custar. Para tanto, segue um único critério: para ser bom (ou seja: honesto, correto etc.), basta ser aliado.  O PT teria o poder mágico de lavar automaticamente o passado de bandidos de gravata e assaltantes dos cofres públicos. Basta que estes busquem o partido para que sejam tocados pela graça e ressurjam como um "novo homem", redimido e puro como uma criança. Como ocorre em algumas igrejas, o simples fato de a procurar expurga o fiel de qualquer mácula, traço de corrupção e de pecado. Contrariamente ao que ocorre no cristianismo, porém, não há a necessidade de o convertido confessar seus erros, nem de arrepender-se. Cristãos-novos dessa igreja secular, Maluf, Collor e Sarney seriam, portanto, exemplos perfeitos e acabados do "novo homem" lulopetista.
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A exemplo do verificado em todas as seitas, a lulopetista também vive de mitos e dogmas. Que o diga a deputada Luíza Erundina, candidata a vice-prefeita na chapa encabeçada pelo boneco de mamulengo Fernando Haddad na capital paulista.  Falando ontem como candidata, Erundina, que já foi prefeita de São Paulo pelo PT nos anos 80, teve uma recaída nostálgica e deitou falação contra as "elites", num discurso cheio de platitudes e chavões ideológicos, como "luta de classes" e "socialismo".  Agora terá a chance de lutar pelo socialismo ao lado do neocompanheiro Paulo Maluf.
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Como afirmei no início deste texto, o bom de não ser de esquerda é que nada nos decepciona ou nos surpreende. O PT nunca me decepcionou. Nem me surpreendeu. Assim como Maluf. 

sexta-feira, junho 15, 2012

A MARCHA DOS INTOLERANTES (OU: COMO DESTRUIR A LIBERDADE EM NOME DA... LIBERDADE)

Chegaremos a isto?

Faz tempo que não falo sobre este assunto. Mas os inimigos da razão e da liberdade não descansam. Vamos lá.

No último domingo, realizou-se em São Paulo a tal "parada do orgulho gay". Desta vez, o evento, que é considerado o maior do gênero no mundo, sofreu uma enxugada: em vez dos alardeados 4 milhões de participantes, cerca de 270 mil (dados oficiais) compareceram à Avenida Paulista. É que neste ano os militantes GLBTT (ainda é assim que se chama?) não contaram, para seu desfile de plumas e lantejoulas, com o mesmo financiamento público (!) de edições anteriores, em que pulularam por lá muitos artistas e políticos. Um deles, Fernando Haddad, candidato do PT/Lula à prefeitura de São Paulo - aquele do kit gay nas escolas, lembram? -, preferiu não dar as caras, para não dar bandeira.

Mas não é bem sobre isso que quero falar. Já tratei da impostura gritante que é a tese vigarista de que o Brasil é um pais "homofóbico" com a autodeclarada maior parada gay do mundo. Já desmascarei, inclusive com números, a lorota  estatística que apresenta o país como um campo de extermínio de gays, lésbicas e travestis. O que me leva a escrever este texto é uma frase que ouvi no noticiário.

Foi no Fantástico, da Rede Globo. "Manifestantes defendem aprovação de lei que irá criminalizar a violência contra homossexuais", dizia o locutor do soporífero programa domingueiro. Dito assim, parece que não tem nada de mais. Afinal, quem poderia ser contra uma lei que tem por objetivo punir agressões físicas a um grupo de pessoas? Ninguém em seu perfeito juízo, claro. Mas aí é que está o "x" da questão...  

Quem ouviu a notícia sem prestar a devida atenção - ou seja: a maioria dos espectadores do Fantástico - certamente não percebeu a pegadinha. Nada contra uma lei que criminalize a violência contra homossexuais. Se não fosse por um pequeno detalhe: tal lei, meus senhores, já existe. 
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Basta folhear o Código Penal. Quem agredir alguém, seja por que motivo for, será preso e estará sujeito a processo criminal. O delegado ou o juiz do caso não irá perguntar ao criminoso ou à vítima se o ataque ocorreu por causa da opção sexual ou do gosto de quem quer que seja. Não importa se o agredido (ou o agressor) for gay, hétero, bissexual ou torcedor do Cabofriense. Importa é que agredir uma pessoa é crime. Aliás, não é por outro motivo que a Justiça é representada com uma venda nos olhos: ela é cega para essas coisas. A lei vale para todos, sem distinção. Ponto. 

Mas, se uma lei assim já existe, de que estava falando, então, a Rede Globo? Do Projeto de Lei Complementar (PLC) 122, que tramita no Congresso brasileiro desde 2006. O que pretende o PLC 122? Criminalizar não a violência, que já é criminalizada e punida judicialmente, mas - atenção! - qualquer ato que possa ser considerado uma manifestação de ou uma incitação à "homofobia". O que seria isso? Ninguém sabe ao certo. Duvido que quem ler o texto do PLC em questão consiga me dar uma resposta objetiva. Pode ser o sermão de um padre ou de um pastor evangélico, ou uma citação da Bíblia. Pode ser mesmo uma piada de bar. Em outras palavras, caso tal PLC vire lei um dia, teremos instaurado o delito de opinião - algo que só existe em ditaduras. Não é por acaso que tal projeto de lei já foi batizado de "Lei da Mordaça Gay" (o que realmente é).

Um outro fato, ocorrido há algumas semanas, também é bastante ilustrativo do rumo que as coisas estão tomando no Brasil. Um clipe musical, em que um pagodeiro aparece cantando ao lado de mulheres seminuas e de alguns figurantes fantasiados de macaco, foi considerado, por causa das fantasias e das mulheres, "racista" e "sexista" pelos patrulheiros de plantão, guardiães do politicamente correto. 
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Isso mesmo. Um clipe. Racista. Porque nele há gente fantasiada de macaco. E sexista. Porque nele há mulheres. Racista e sexista. Preconceituoso. Discriminatório. Do mal. Pois é...
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Ah, tem um detalhe: o cantor é... negro. (Ou afro-descendente, como queiram.)
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Para muitos esse último detalhe foi o mais espantoso, o mais ridículo e surrealista. A mim não surpreendeu muito, pelo seguinte motivo: a última coisa que querem as ONGs gayzistas e racialistas, que estão por trás dessa onda de censura, é defender os direitos das minorias que dizem representar. Na realidade, atrevo-me a dizer que elas são as maiores vítimas desse tipo de militância. Se não, respondam-me:

Que patrão irá contratar um negro, ou um gay, sabendo que, se lhe der uma bronca por um trabalho mal feito, poderá ser processado por racismo ou homofobia? Se for inteligente e quiser evitar confusões, provavelmente não o fará, contratando somente loiros de olhos azuis, comprovadamente heterossexuais.

Do mesmo modo, que professor de universidade se atreverá a dar uma nota baixa a um aluno que passou no vestibular pelo sistema de cotas raciais, sabendo que poderá ser acusado de racismo por causa disso? E como ficará esse aluno diante de outros não-cotistas, que se sentirão obviamente prejudicados? Como esse aluno será enxergado por seus colegas que estudaram tanto ou mais que ele mas que, por causa das cotas, não tiveram acesso ao mesmo curso e à mesma faculdade? Não se sentirão, aliás com toda razão, vítimas de discriminação e de preconceito?

Não se trata de conjecturas, não se trata de um mero exercício de imaginação. Isso já está acontecendo. Graças ao sistema de cotas raciais nas universidades, considerado constitucional pelo STF, o Brasil é hoje, oficialmente, um país racista. Se depender de aberrações como o PLC 122, será também em breve um país "homofóbico", no qual até anedotas do Costinha serão proibidas.

Esse tipo de coisa passa facilmente despercebido devido a um hábil trabalho de propaganda, que conseguiu deixar quase todos cegos para o fato de que, por trás de slogans aparentemente libertários e igualitários, o que vem, de contrabando, é exatamente o oposto dessas palavras de ordem. Assim, ativistas gayzistas falam em igualdade, quando querem, na verdade, privilégios. Do mesmo modo, militantes negros apresentam-se como os campeões da luta contra a discriminação racial, quando o que estão fazendo, na realidade, é implementar a discriminação racial com a chancela estatal. No cerne de tudo não está a liberdade ou a igualdade, mas o seu contrário, ou seja, o cerceamento da liberdade e o fim da igualdade. E quem se opuser a isso é imediatamente tachado de reacionário, homofóbico, racista, porco direitista e outros epítetos. A tática funciona. 
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É claro que os militantes das ONGs GLBTT ou do "movimento negro" não pensam no que está aí em cima. Estão se lixando para "direitos iguais" e coisas do tipo. O importante, para esse pessoal, é impor sua agenda política, nada mais do que isso. Tampouco pensaram um segundo no que vai acima os juízes do STF que, no último mês, decidiram enterrar por unanimidade o artigo 5 da Constituição Federal, abolindo a igualdade de todos perante a lei, sacrificada no altar do ativismo judicial.
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Dane-se a Constituição, decretaram os magistrados da Corte Suprema. E que se danem os gays ou os negros, pensam os militantes do politicamente correto, para os quais estes não são mais do que massa de manobra, idiotas úteis para suas intenções liberticidas. Vale tudo em nome da "causa". Até dividir a sociedade em tribos. Graças aos que se dizem defensores da tolerância, o Brasil está virando um pais cada vez mais intolerante. E cada vez mais burro.

quarta-feira, junho 13, 2012

UM ADENDO - E UMA PERGUNTA


Apenas um adendo a meu texto anterior, gostaria de perguntar o seguinte:
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- Por que, se a esquerda é geralmente tratada no plural ("as esquerdas"), o mesmo não se aplica à direita? Por que não se fala também em "as direitas"?
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Em outras palavras: por que, quando se trata de figuras como Hugo Chávez e a ditadura comunista dos Castro, sempre há quem ressalte o caráter multifacetado da esquerda, mas o mesmo não ocorre quando se trata da direita, vista sempre como um bloco monolítico?
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Acho que já fiz essa pergunta antes. Fica a questão.

terça-feira, junho 12, 2012

O LAMENTO DA ESQUERDA EMBOLORADA


É do jornalista e ativista político venezuelano Teodoro Petkoff a autoria de uma das teorias mais furadas e desonestas de todos os tempos, a chamada teoria das "duas esquerdas". Ex-comunista e ex-guerrilheiro, Petkoff é, entretanto, inimigo figadal do coronel Hugo Chávez, que considera (corretamente) representante de uma esquerda atrasada, retrógrada, "carnívora", em contraposição a uma esquerda supostamente moderna, progressista - enfim, "vegetariana". É preciso defender os vegetarianos, pois eles seriam uma espécie de remédio, de antídoto aos excessos e presepadas dos carnívoros como Chávez, Morales e os Castro, afirma Petkoff.

Cedo ou tarde, essa tentativa de salvamento da mitologia esquerdista, que foi encampada até por figuras de inegável renome intelectual como o escritor peruano e Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, iria desembarcar no Brasil. De fato, a teoria de Petkoff tem sido a principal fonte de legitimidade para o governo de Lula da Silva e de sua discípula, Dilma Rousseff. Agora finalmente parece que o processo lançou raízes de vez por estas plagas.  Só que com o sinal invertido.

Enquanto a esquerda "boa", "vegetariana", de Petkoff seria aquela sintonizada com o mundo atual, adaptada à democracia e à economia de mercado, a esquerda "má", chavista ou boliviariana, representaria aquilo que ele também chama de esquerda borbônica (que não esquece nem aprende). No Brasil, ao contrário do que ocorre em países como Cuba ou Venezuela, os carnívoros não estariam no poder, mas incrustrados nos sindicatos de funcionários públicos, especialmente nas instituições de ensino superior, onde impera há décadas um marxismo de galinheiro, tal como demonstrado pela atual greve nas universidades federais.

Sempre achei uma balela a noção de que existiriam duas esquerdas, e a lengalenga dos esquerdóides de botequim, leitores de Slavoj Zizek e Gilles Delleuze - acredite: há quem os leve a sério... -, apenas me dá mais motivos para pensar assim. Basta ver a comédia-pastelão que foi a indicação manu militari do boneco de ventríloco Fernando Haddad para prefeito de São Paulo e o barraco do PT em Recife, com a imposição da candidatura Humberto Costa pelo coronelismo lulista, para constatar que, de "moderno" ou "vegetariano", o lulopetismo não tem nada (aliás, Lula seria um representante legítimo da esquerda "vegetariana" ou "herbívora", segundo Petkoff, que parece desconhecer totalmente a figura do Apedeuta).

Acho uma bobagem a idéia das "duas esquerdas" pois, como já disse e repito, há muito mais a unir as várias correntes esquerdistas do que a separá-las. Basta ver, para não ir muito longe, que os que hoje reclamam da política financeira ou educacional de Dilma Rousseff são os mesmos que duvidam da existência do mensalão e endossam a tese ridícula e ofensiva à inteligência da "conspiração das elites e da mídia". É isso mesmo: não se incomodam com o Lula mensaleiro e chefe de quadrilha, com o Lula inimigo da imprensa livre e achacador de juízes do STF, mas sim com o Lula que cumpriu os contratos e que não mexeu - felizmente - nos fundamentos da política econômica deixados por FHC. Sabe como é, cada um com suas prioridades...

Já escrevi profusamente sobre esse estranho fenômeno, particularmente sobre um dos mantras mais repetidos pelos devotos da seita esquerdista - "Lula não é de esquerda". Deixei claro que isso não passa de uma forma de auto-engano, uma lorota inventada para salvar a cara da esquerda ("ele é corrupto; logo, não pode ser de esquerda" etc.). Como se corrupção e safadeza fossem práticas de direita e ser de esquerda correspondesse ao que de melhor existe na humanidade! Contra mais essa enganação, afirmo e reafirmo que não só Lula é de esquerda como a disputa político-ideológica no Brasil de hoje se resume a uma disputa entre duas vertentes esquerdistas: a esquerda da esquerda e a direita da esquerda (no caso, o centro da esquerda, pois a direita da esquerda é o PSDB). Além do "pragmatismo" dos petralhas e do delírio coletivista de seus críticos esquerdopatas, o que mais há na política brasileira?

Coisa difícil de desaparecer, a mentalidade esquerdista. Muros caíram, estátuas foram derrubadas, e ela está sempre se renovando (pior: se perpetuando). Já em 2003, descontente com o que chamou de "rendição do PT às teses neoliberais", uma parte da intelectualidade que sempre bateu palmas para o lulopetismo resolveu afastar-se do governo do Guia Genial. Principalmente após a bomba do mensalão em 2005, o mito da infalibilidade moral do PT veio por água abaixo, mas apenas para dar lugar a fantasias saudosistas como o PSOL, hoje o partido da esquerda festiva de miolo-mole de Ipanema e do Leblon, que apóia a candidatura de Marcelo Freixo para o governo do Rio. Um dos que pegaram o bonde do PSOL no Rio é Frei Betto, o amigo de tiranos e ex-assessor especial de Lula. A esquerdopatia, como certas doenças, não tem cura: vive de recaídas.

O PT, "neoliberal"? Só podem estar de brincadeira. Só se por "neoliberal" se deve entender um governo que se baseia na aliança espúria dos fundos de pensão estatais com o capitalismo financiado pelo BNDES dos Eikes Batistas. Sem falar no ataque demagógico de Dilma aos bancos no Primeiro de Maio. Neoliberal, um governo que incha a máquina do Estado com 25 mil apaniguados? E que transforma a administração pública num trem da alegria feito de Deltas e Cachoeiras? Sem falar na política externa pró-ditaduras, segundo a pauta do Foro de São Paulo. O que têm a dizer sobre isso os blogueiros progressistas e esquerdinhas pós-modernos?

O curioso é que tanto esquerdistas empedernidos quanto muitos liberais vêem no governo dos petralhas a mesma e única coisa, apenas com visões distintas. Aquilo que os impenitentes da foice e do martelo enxergam como defeito os liberais vêem como virtude, e vice-versa. Fico pasmo ao ver tantos autoproclamados seguidores de Adam Smith derreter-se em elogios à "responsabilidade" e "lucidez" da política econômica lulodilmista, do mesmo modo que babam de gozo com o crescimento da China, ignorando tudo o mais. Que essa suposta conversão dos petralhas ao livre mercado não tenha sido acompanhada dos indispensáveis confissão e arrependimento, é algo que não os incomoda absolutamente. Tampouco o fato de que o governo dos petralhas seja uma quadrilha de mafiosos e a China, uma tirania totalitária. Cegos pela tese pragmatista de que não importa a cor do rato desde que ele pegue o gato, nada disso os preocupa. Nem mesmo o fato de que eles mesmos podem ser vítimas da cobiça do rato.

É uma pena que os petistas não tenham aderido ao neoliberalismo, como dizem seus desafetos da esquerda lamurienta. Mais lamentável ainda é que não tenham abandonado a obsessão pelo poder totalitário, típico dessa corrente ideológica. Obsessão que se traduz em tentativas de controle estatal e em desprezo pela democracia. Algo comum a petistas e a seus críticos da extrema-esquerda, é bom que se diga. Como disse certa vez o Reinaldo Azevedo, pior do que um esquerdista sem princípios é um esquerdista com princípios - ou que finge que os tem.