quarta-feira, maio 09, 2012

CUIDADO! A B.E.S.T.A. ESTÁ À SOLTA. E O INIMIGO DELA É A LIBERDADE DE IMPRENSA

Alguém importante com um dos chefes da BESTA: o inimigo é a imprensa não-estatal (ou seja: independente)

A Rede Record de Televisão (também conhecida como “Recópia” ou “a TV do Bispo”), braço midiático da seita conhecida como “igreja universal do reino de deus”, tem um jeito muito peculiar de fazer jornalismo. Ou algo que acredita ser jornalismo. No último domingo, isso ficou claro mais uma vez, quando o programa Domingo Espetacular, apresentado pelo ex-global, atual assalariado da IURD, blogueiro progressista e amigo de todos os governos desde o regime militar Paulo Henrique Amorim (“olá, tudo beeeeeeeeemmm?”), o homem do PIG (Partido da Imprensa Governista), apresentou, com a discrição sensacionalista de sempre, uma reportagem "exclusiva" e “estarrecedora”, que mostraria as "relações espúrias" de uma importante revista semanal com o esquema tentacular de corrupção capitaneado por Carlinhos Cachoeira.
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Preparado para ver chumbo grosso disparado na telinha e disposto a me deixar escandalizar com mais essa “reportagem-denúncia”, resolvi assistir ao troço. Por longos minutos, esperei a revelação bombástica, o tiro de canhão que iria destruir de vez um dos órgãos informativos mais conhecidos do Brasil, reduzindo a pó sua credibilidade.
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Pois é. Esperei, esperei… e continuo esperando.
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A “reportagem” (se é que se pode chamar assim uma peça de ficção feita sob encomenda) bateu e rebateu na tecla de que a revista VEJA estaria mancomunada com o esquema corrupto de Cachoeira. Qual a prova apresentada? Gravações de telefonemas entre o diretor da sucursal da revista em Brasília, Policarpo Jr., e Cachoeira, nas quais o bicheiro fornecia informações ao jornalista. Algumas dessas informações resultaram em reportagens que levaram à queda de seis ministros do governo Dilma Rousseff. Em outra gravação da PF, Cachoeira aparece comemorando com um cúmplice a queda da cúpula do DNIT, como resultado de uma matéria publicada na revista, baseada em informações por ele fornecidas.
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Fiquei pensando: isso deve ser o aquecimento, deve haver coisa mais pesada a seguir. Esperando ver algo mais substantivo, assisti à matéria até o final. Com voz grave e semblante soturno, o narrador insistia em dizer que as gravações “provavam” que o jornalista havia-se “unido” a Cachoeira, formando com este uma associação criminosa, igual à existente entre o bicheiro e o senador Demóstenes Torres.
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Puxa, uma gravação telefônica que mostra que o jornalista recebia informação de Cachoeira? E outra em que ele aparece comemorando o resultado da reportagem?
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A pergunta que fica é: e daí?
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Assisti ao vídeo da “reportagem” esperando o momento histórico em que veria um dos pilares do jornalismo brasileiro transformado em cinzas por uma montanha de evidências irrefutáveis. Em vez disso, depois de quase meia hora, duas perguntas ficaram martelando na minha cabeça:
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1) O jornalista que tem como fonte um corrupto, torna-se corrupto também?
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2) Se uma informação interessa, de alguma forma, à fonte, deixa de ser verdadeira? Deve, portanto, deixar de ser divulgada?
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Outras perguntas, decorrentes destas, são as seguintes:
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- Antes de obter uma informação, o jornalista deve exigir da fonte um atestado de bons antecedentes, ou então a informação não é válida?
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- Por que ninguém lembrou de exigir reputação ilibada de outros denunciantes quando as denúncias visavam a atingir adversários dos petistas, como os grampos do BNDES em 1998? (e que se revelaram falsas).  Por que, só quando as denúncias envolvem petistas e o veículo denunciador é a VEJA, exige-se que a fonte seja um cidadão respeitável, acima de qualquer suspeita, cumpridor de seus deveres e que vai à igreja todos os dias?
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- Dilma Rousseff demitiu seis ministros – e foi ela que demitiu, não a revista – apenas para agradar a VEJA?
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O que a patuscada da Record “provou”? Que Policarpo Jr. ofereceu ou recebeu dinheiro pelas informações de Cachoeira? Ele, o jornalista, deu ou obteve alguma vantagem financeira, ou outra qualquer, além da tarefa profissional de divulgar a notícia? Qual?
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Qualquer pessoa medianamente informada sabe perfeitamente que jornalistas não escolhem as fontes, e que estas raramente são desinteressadas. Isso não significa que o jornalista deve ignorar uma informação boa porque a fonte não é uma freirinha. Pelo contrário: quase sempre, é um integrante da quadrilha de bandidos que resolve denunciar o esquema. É assim que a coisa funciona. Ou vocês acham que Roberto Jefferson fez o que fez por amor à humanidade?
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A “reportagem” da Record não passa de um amontoado de ilações e insinuações, destinada a distorcer os fatos e inverter a realidade, demonizando o jornalismo investigativo e mostrando criminosos como vítimas. Lá pelas tantas, o telespectador é lembrado que um repórter da VEJA “invadiu” no ano passado o cafofo do Zé Dirceu, apresentando o ex-chefe da Casa Civil de Lula como vítima de uma tentativa de "invasão de privacidade". Só esqueceu de dizer que o chefe da quadrilha (é assim que ele é chamado pela Procuradoria Geral da República) comandava um governo paralelo em Brasília. Unindo o grotesco à chanchada, a Record ainda  tentou forçar uma comparação entre o dono da Editora Abril, que publica VEJA, Roberto Civita, e o multibilionário da mídia australiano Rupert Murdoch, condenado recentemente pela Justiça britânica por espionar personalidades da política. Ridículo. Patético.
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Teve mais: em dado momento da reportagem sobre o nada, o narrador tenta ser irônico, mostrando uma matéria da VEJA de algum tempo atrás em que o agora desacreditado Demóstenes Torres aparece como um "mosqueteiro da ética". O que se estaria tentando insinuar? Que VEJA estaria mancomunada com Demóstenes? Nesse caso, seria preciso incriminar toda a imprensa séria brasileira, que, assim como a VEJA, deixou-se cair no conto do político com princípios (como ocorreu, aliás, com seus eleitores). Ora, em 1993, a mesma VEJA se deixou enganar, enaltecendo o petista-cuecão José Genoíno como um dos paladinos da moral e da virtude cívica na CPI dos anões do orçamento (era assim que ele se apresentava na época, e muitos caíram na conversa). Por que não lembrar isso também?
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Não tenho procuração para falar em nome da VEJA, nem é preciso que eu o faça: a revista dispõe de uma equipe competente de colunistas, e longe de mim competir com eles. Tampouco é minha intenção obter algum retorno financeiro (seria mais fácil, aliás, se eu fosse petista). Mas não dá para ficar em silêncio diante de tamanha empulhação vomitada pela emissora de Edir Macedo. A VEJA, satanizada pelos petralhas como “direitista” (só mesmo no Brasil uma revista pró-aborto, pró-gay e pró-Obama é considerada de "direita"...) tem importantes serviços prestados à democracia. O impeachment de Collor em 1992 nasceu de uma entrevista de seu irmão, Pedro, à revista. Pedro não botou a boca no mundo porque era uma boa alma, mas porque se sentiu prejudicado em seus interesses particulares pelo tesoureito de campanha de Collor, PC Farias. Hoje, Fernando Collor é aliado de Dilma e, como membro da CPMI do Cachoeira, quer se vingar da VEJA. O que incomoda essa gente é a existência de uma imprensa realmente independente, que não se sujeita ao papel abjeto de agência chapa-branca.
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Assim como ocorre com as fontes, o ataque político à VEJA também não acontece de forma desinteressada. Às vésperas do julgamento do Mensalão, a banda do PT aliada ao jornalismo vigarista da Record quer desesperadamente criar uma cortina de fumaça e livrar a cara dos mensaleiros. Para isso, conta com a velha arma dos canalhas: a calúnia. Com uma oposição abúlica, ainda mais desmoralizada pelo caso Demóstenes, o alvo dos totalitários passou a ser a imprensa livre. Não se trata, assim, de uma briga Record X VEJA, mas, na realidade, de um ataque à liberdade de imprensa e ao próprio jornalismo. Um ataque, enfim, à democracia.
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O que Record, PHA, Carta Capital e outros veículos da imprensa chapa-branca - reunidos, na internet, na chamada BESTA (Blogosfera Estatal) - mais querem é calar as vozes dissonantes, impedindo "certas notícias" de virem à baila.  Aliados do que de pior existe na política brasileira, não podem suportar a existência de jornais e revistas que não dançam conforme a música e que, em vez de tecer loas ao governo dos companheiros, insistem em fazer jornalismo. Com isso, esses paladinos do jornalismo de aluguel agem de acordo com a estratégia dos atuais donos do poder: incapazes de comprar toda a imprensa com verbas públicas e contratos oficiais de publicidade, os petralhas e associados passaram a investir pesado na criação de uma imprensa domesticada, em troca de alguns favores muito lucrativos. Há vinte anos, quando Lula e o PT eram oposição, a "igreja" do "bispo" Macedo dizia a seus fiéis que os petistas eram o diabo; agora, com eles no governo, o diabo mudou de endereço. (A propósito, quem sabe o ataque da Record à VEJA tem algo a ver com isso aqui: http://veja.abril.com.br/blog/mainardi/na-revista/o-dizimo-do-trafico/) Quem diria: como disse o Reinaldo Azevedo, colunista da VEJA, o PT começou citando Karl Marx e terminou no colo de um exorcista amador - e outras coisas até piores. (Cá pra nós: passou de um farsante a outro, mas isso é outra história.)
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Muita gente se deixará enganar por mais essa impostura da Record, integrante da BESTA, do mesmo modo que tantos podres-diabos se deixam enganar pelas promessas de cura e pelos exorcismos dos telepastores da IURD. Não é para menos. Para quem falseia a Bíblia para lucrar explorando a credulidade alheia, mentir a favor do governo não chega a ser nenhum pecado. O jornalismo da Record tem tanta credibilidade quanto a teologia do “bispo” Macedo.

terça-feira, maio 08, 2012

Morgan Freeman sobre o "Mês da consciência negra"



Em 55 segundos, o grande ator norte-americano Morgan Freeman faz em pedaços uma estupidez racista chamada "Mês da Consciência Negra" (ou da "História Negra").

É uma pena que os ministros do STF não tenham visto o vídeo...

sábado, maio 05, 2012

O DEVER DE SER IMPOPULAR

Faz algum tempo resolvi adicionar uma lista de seguidores em meu blog. Algumas pessoas - quase todas, por mim totalmente desconhecidas - se inscreveram, e seus nomes desde então constam na lista. Na última vez que vi, contei 56 delas.
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Não faço propaganda do blog, de modo que o fato de ter 56 seguidores de certa forma me surpreende. Mesmo assim, um leitor que se sentiu ofendido por algo que escrevi, na falta de algo mais sólido para refutar o que eu disse, acreditou ter achado um argumento infalível para me desmoralizar: "Nossa, você só tem isso de seguidores?" (eram menos na época). Como se houvesse alguma relação entre a quantidade de gente na lista e a veracidade ou legitimidade do que eu tinha escrito...
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Vivemos num mundo obcecado pela popularidade. Muito mais do que ser sábio ou inteligente, ou simplesmente sensato, é a idéia de ser "popular" o que move a imensa maioria da humanidade. É essa motivação, mais do que qualquer coisa (até mais, desconfio, do que o dinheiro), o que leva tanta gente a se lançar tão sôfrega e desesperadamente em busca da "fama". Basta dar uma rápida olhada na internet para ver a quantidade de gente competindo para ser o "mais popular" - o que significa, no caso, ter mais seguidores no Twitter ou no Facebook.
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Considero tudo isso uma grande besteira. Como qualquer pessoa que se der ao trabalho de ler um texto meu poderá facilmente perceber, não dou a mínima para o que pensa a multidão. Meu critério para averiguar a verdade ou falsidade de um argumento é outro. Não escrevo para conseguir a aprovação de quem quer que seja, nem para ter seguidores. Não sou líder de seita, nem estou em busca de um emprego público, nem tenho qualquer compromisso além daquele com minha própria consciência. Também não sofro de carência afetiva - meus pais podem ficar tranqüilos, pois não correm o risco de ser processados por "abandono afetivo", essa nova moda jurídica (aliás, uma estupidez sem tamanho). Tampouco me inscrevi para um concurso de popularidade.
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Além disso, para ser popular é preciso seguir algumas regras básicas, que não estou disposto a obedecer. A primeira delas é dizer apenas o que a platéia quer ouvir. Principalmente, jamais ter idéias próprias. Se tiver alguma, esconda-a, guarde-a para si mesmo, como no célebre conto de Machado de Assis, Teoria do Medalhão. Enfim, siga sempre a onda e o rebanho, colocando-se sempre do lado da maioria. Acima de tudo, jamais seja um dissidente. Faça isso e você será um cara legal, popular e cheio de amigos. 
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Não sou, obviamente, o primeiro nem o único a rejeitar esse caminho fácil, optando, em vez disso, por não esconder o que penso e afrontar os consensos fabricados. A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1979-1990), por exemplo, foi, enquanto governou, extremamente impopular. Difícil imaginar alguém mais detestado, mais execrado, mais vilipendiado do que ela. 
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Fiquei pensando nisso enquanto assistia a A Dama de Ferro ("The Iron Lady"), em que Mrs. Thatcher é interpretada de forma magistral por Meryl Streep (que, mais que merecidamente, levou o Oscar de melhor atriz este ano).  Thatcher era um poço de antipatia e arrogância. Pouquíssimas pessoas, mesmo seus colaboradores mais próximos, podem ser consideradas seus amigos. E por quê? Porque ela tinha - tem - algo que falta à maioria dos políticos: princípios.
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Filha de um dono de mercearia (o que significa, pelos padrões britânicos, alguém "vindo de baixo"), e não rezando pela cartilha esquerdista (as feministas, aliás, odiavam-na: afinal, ela não saía por aí queimando sutiãs), a conservadora Thatcher teve de lutar, desde o princípio, por aquilo em que acreditava. No caso dela, idéias consideradas um anátema pelo estabishment político do Reino Unido dominado pelo receituário do Partido Trabalhista (o PT de lá), que estava arrastando o país para o abismo.
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Quando Thatcher assumiu a chefia do governo, no final dos anos 70, a Inglaterra era um país decadente, com uma economia periclitante e obsoleta, fortemente marcada pela miopia estatista que levava o governo a subsidiar minas de carvão deficitárias. Thatcher acabou com isso.  Mandando ás favas os dogmas socializantes, e reconhecendo a necessidade de medidas urgentes para recuperar a economia, ela tratou de implementar o mais radical e rigoroso programa de austeridade da História do país, acabando com uma mamata de décadas. "Não existe tal coisa chamada 'sociedade'; existem indivíduos", costumava dizer. Com isso, obviamente, ela angariou uma legião de inimigos, tendo de enfrentar uma guerra declarada da esquerda e dos sindicatos, que não lhe deram um dia de trégua. O então poderoso sindicato dos mineiros, liderado pelo superpelego Arthur Scargill (uma espécie de Lula britânico dos anos 80), convocou uma greve de um ano para tentar derrubá-la. No final, Thatcher venceu, os sindicatos foram derrotados e a esquerda, desmoralizada. Graças às reformas liberais thatcheristas, o Reino Unido hoje não produz carvão, mas softwares de computador.
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Também no front externo, Thatcher deixou sua marca. O apelido de "dama de ferro", aliás, foi-lhe dado pelos dirigentes da defunta União Soviética, os quais viram nela, ao contrário de muitos líderes ocidentais, uma adversária de princípios e valores inflexíveis. Diferentemente de políticos mais simpáticos e sorridentes como o presidente dos EUA, Jimmy Carter (1977-1981), Thatcher não se deixou intimidar pela URSS, e ao lado do sucessor de Carter, o republicano conservador Ronald Reagan - outra bête-noire dos esquerdistas do mundo inteiro -, formou a dupla que enfrentou o império do mal comunista em defesa da democracia.  Desnecessário dizer, mas tanto Thatcher quanto Reagan foram alvos do ódio implacável da esquerda - e são considerados, hoje, os dois líderes ocidentais mais importantes do final do século XX.
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Greves, distúrbios de rua, atentados terroristas do IRA... tudo isso a Dama de Ferro inglesa, a mulher mais odiada da Europa, enfrentou sem medo e sem recuar um milímetro. Como não hesitou um só instante em mandar as tropas britânicas expulsar os militares argentinos que, num surto patrioteiro que agora ameaça repetir a peronista Cristina Kirchner, invadiram em 1982 as ilhas Falklands/Malvinas.  Devido a essa derrota humilhante imposta aos hermanos, a ditadura militar argentina chegou ao fim. Graças a Thatcher, hoje os argentinos não correm mais o risco de serem seqüestrados, torturados e assassinados pelos esquadrões da morte fascistas.
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É bom lembrar de Margaret Thatcher, principalmente no Brasil, principalmente num momento como o atual. Como indicam as reações orgásticas da esquerda tupiniquim a cada pesquisa de opinião, ser popular, no Brasil, é tudo. Os índices de popularidade do governo Dilma Rousseff, assim como ocorreu com o ex-presidente Lula, não param de subir, para delírio dos petistas, que acham que ser popular é prova de "bom governo". O fato de o general Garrastazu Médici ter sido extremamente popular é convenientemente esquecido nessa hora. (Os devotos petistas, aliás, confundem popularidade com prestígio, duas coisas bem diferentes.)
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Se Thatcher tivesse se deixado pautar pelas pesquisas de opinião, não teria feito as reformas que fez, e que modernizaram a encalacrada economia inglesa. Tampouco teria decidido retomar as Falklands, e a ditadura militar argentina provavelmente não teria acabado. Do mesmo modo, possivelmente ela não teria levado adiante uma política externa anti-soviética e anticomunista, que ajudou a apressar o fim da Guerra Fria. De fato, alguém como Thatcher não teria lugar na política brasileira. Se fosse no Brasil, país de convicções dobráveis, Thatcher, com sua fidelidade a princípios e firmeza de caráter, não teria sido eleita sequer para a Câmara de Vereadores de Catolé do Rocha.
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Se há algo que a trajetória de Thatcher demonstra, ao ser contrastada com figuras como Lula ou Dilma Rousseff, é que políticos de direita são execrados em sua época, para serem reconhecidos e admirados pela posteridade; já os de esquerda, que contam com a simpatia de setores importantes da imprensa, das artes e da intelectualidade, são louvados e endeusados quando estão no poder (ou na oposição), somente para serem duramente julgados no tribunal da História. 
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Em outras palavras, há dois tipos de políticos, como há dois tipos de pessoas: os que adulam o povo e os que fazem o que se deve fazer. Os primeiros querem aplausos, pensando nas próximas eleições; os outros, querem resolver os problemas do país, pensando nas gerações futuras. É a diferença entre um demagogo e um estadista.
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O bom estadista é aquele que, entre aplicar medidas necessárias mas impopulares e o populismo que rende aplausos momentâneos mas que gera conseqüências funestas no futuro, escolhe a primeira opção. Margaret Thatcher foi uma estadista. Já os lulas, as dilmas e as cristinas kirchner, melhor nem perguntar o que são.

sexta-feira, maio 04, 2012

MEU BRASIL BRASILEIRO - POR MARCO ANTONIO VILLA

Meu Brasil brasileiro

30 de abril de 2012

Marco Antonio VILLA - HISTORIADOR; É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS (UFSCAR) - O Estado de S.Paulo

O Brasil é um país, no mínimo, estranho. Em 1992, depois de grande mobilização nacional e de uma comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) acompanhada diariamente pela população, o então presidente Fernando Collor de Mello teve o seu mandato cassado. Foi o primeiro presidente da República que teve aprovado um processo de impeachment no País. De acordo com os congressistas, o presidente foi deposto por ter cometidos crimes de responsabilidade. Collor foi acusado de ter articulado com o seu antigo tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, um grande esquema de corrupção que teria arrecado mais de US$ 1 bilhão. Acabou absolvido pelo Supremo Tribunal Federal por falta de provas. Passados 20 anos, o mesmo Fernando Collor, agora como senador por Alagoas, foi indicado por seu partido, o PTB, para compor a CPMI que se propõe a investigar as ações de Carlinhos Cachoeira. Deixou a posição de caça e passou a ser um dos caçadores.

Quem mudou: Collor ou o Brasil? Provavelmente nenhum dos dois. Algo está profundamente errado quando um país não consegue, depois de duas décadas, enfrentar a corrupção. Hoje, diferentemente de 1992, as denúncias de corrupção são muito mais graves. Estão nas entranhas do Estado, em todos os níveis, e em todos os Poderes. Não se trata - o que já era grave - simplesmente de um esquema de corrupção organizado por um grupo marginal do poder, recém-chegado ao primeiro plano da política nacional.

Ao longo dos anos a corrupção foi sendo aperfeiçoada. Até adquiriu status de algo natural, quase que indispensável para governar. Como cabe tudo na definição de presidencialismo de coalizão, não deve causar admiração considerar que a corrupção é indispensável para a governabilidade, garante estabilidade, permite até que o País possa crescer - poderia dizer algum analista de ocasião, da turma das Polianas que infestam o Brasil.

Parodiando Karl Marx, corruptos de todo o Brasil, uni-vos! Essa poderia ser a consigna de algum partido já existente ou a ser fundado. Afinal, a nossa democracia está em crise, mas não é por falta de partidos. É uma constatação óbvia de que o Brasil não tem memória. O jornalista Ivan Lessa escreveu que a cada 15 anos o Brasil esquecia o que tinha acontecido nos últimos 15. Lessa é um otimista incorrigível. O esquecimento é muito - mas muito - mais rápido. É a cada 15 dias. Caso contrário não seria possível imaginar que Fernando Collor estivesse no Senado, presidisse comissões e até indicasse diretores de empresas estatais, como no caso da BR Distribuidora. E mais: que fosse indicado como membro permanente de uma CPMI que visa a apurar atos de corrupção. Indo por esse caminho, não vai causar nenhuma estranheza se o Congresso Nacional revogar o impeachment de 1992 e até fizer uma sessão de desagravo ao ex-presidente. Como estamos no Brasil, é bom não duvidar dessa possibilidade.

Em 1992 muitos imaginavam que o Brasil poderia ser passado a limpo. Ocorreram inúmeros atos públicos, passeatas; manifestos foram redigidos exigindo ética na política. Até surgiu uma "geração de caras-pintadas". Parecia - só parecia - que, após a promulgação da Constituição de 1988 e a primeira eleição direta presidencial - depois de 29 anos -, a tríade estava completa com a queda do presidente acusado de sérios desvios antirrepublicanos. O novo Brasil estaria nascendo e a corrupção, vista como intrínseca à política brasileira, seria considerada algo do passado.

Não é necessário fazer nenhum balanço exaustivo para constatar o óbvio. A derrota - de goleada - dos valores éticos e morais republicanos foi acachapante. Nos últimos 20 anos tivemos inúmeras CPIs. Ficamos indignados ouvindo depoimentos em Brasília com confissões públicas de corrupção. Um publicitário, Duda Mendonça, chegou mesmo a confessar - sem que lhe tivesse sido perguntado - na CPMI do Mensalão que havia recebido numa conta no exterior o pagamento pelos serviços prestados à campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva. A bombástica revelação foi recebida por alguns até com naturalidade. O que configurava um crime de responsabilidade, de acordo com a Constituição, além de outros delitos, não gerou, por consequência, nenhum efeito. E, vale recordar, com a concordância bovina - para lembrar Nelson Rodrigues - da oposição.

A aceitação de que política é assim mesmo foi levando à desmoralização da democracia e de seus fundamentos. Hoje vivemos um simulacro de democracia. Ninguém quer falar que o rei está nu. Democracia virou simplesmente sinônimo de realização de eleições, despolitizadas, desinteressadas e com um considerável índice de abstenção (mesmo com o voto obrigatório). Aqui, até as eleições acabaram possibilitando expandir a corrupção.

Na política tradicional, a bandeira da ética é empunhada de forma oportunista, de um grupo contra o outro. Na próxima CPI os papéis podem estar invertidos, sem nenhum problema. É um querendo "pegar" o outro. E muitas vezes o feitiço pode virar contra o feiticeiro.

E as condenações? Quem está cumprindo pena? Quem teve os bens, obtidos ilegalmente, confiscados? Nada. O que vale é o espetáculo, e não o resultado.

O Brasil conseguiu um verdadeiro milagre: descolou a política da economia. O País continua caminhando, com velocidade reduzida, por causa da má gestão política. Mas vai avançando. E por iniciativa dos simples cidadãos que desenvolvem seus negócios e constroem dignamente sua vida. Depois, muito depois, vão chegar o Estado e sua burocracia. Aparentemente para ajudar, mas, como de hábito, para tirar "alguma casquinha", para dizer o mínimo. E a vida segue.

Não vai causar admiração se, em 2032, Demóstenes Torres for indicado pelo seu partido para fazer parte de uma CPI para apurar denúncias de corrupção. É o meu Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro.

sábado, abril 28, 2012

JENIN: DEZ ANOS DO MASSACRE QUE NÃO HOUVE

Há exatamente dez anos, o mundo se ergueu, horrorizado, contra mais uma atrocidade no Oriente Médio. Tomados de sagrados ódio e indignação, a grande mídia, entidades de direitos humanos, a intelectualidade bem-pensante, a maioria dos governos e o que se convencionou chamar de opinião pública não hesitaram em condenar, de forma praticamente unânime e coordenada, um crime contra a humanidade. A vítima? Os palestinos. O algoz? Israel. O local do crime? A cidade de Jenin, nos territórios palestinos ocupados.
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De 1 a 11 de abril de 2002 - período em que ocorreu a operação israelense em Jenin -, e durante as semanas seguintes, não passou um único dia sem que os jornais do mundo inteiro, reproduzindo as declarações dos líderes políticos palestinos, narrassem, com riqueza de pormenores, cenas de morticínio dantescas, nas quais sádicos soldados israelenses se divertiam massacrando civis palestinos inocentes. Casas estavam sendo implodidas e derrubadas com famílias ainda dentro, em uma verdadeira operação de limpeza étnica como poucas vezes visto na História. Crianças, mulheres e velhos estavam sendo exterminados como baratas. Centenas, milhares de pessoas estavam sendo chacinadas num banho de sangue de fazer inveja aos carrascos nazistas. Logo a palavra "genocídio" apareceu nos noticiários para descrever a ação israelense, e foi usada ainda por muito tempo após o encerramento das operações. Enquanto isso, o então líder da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, entrincheirado numa igreja, era mostrado como um herói da resistência disposto ao martírio contra um inimigo cruel e desumano.
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Naquela ocasião, assim como ocorrera inúmeras vezes antes e ocorreria outras tantas vezes depois, Israel foi demonizado até o limite do possível, enquanto o lado palestino foi enaltecido como vítima de uma agressão. E, como é costume há mais de sessenta anos, optou-se por ignorar o essencial: os fatos.
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Sabe você, caro leitor, quantos morreram do lado palestino naquilo que foi descrito como o "massacre de Jenin"?
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Resposta: 52. Cinquenta e dois.
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A quase totalidade, membros da organização de Arafat, a Fatah (principalmente de seu braço armado, as "Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa").
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Sabe também, gentil leitor, quantos militares israelenses perderam a vida na tarefa de aniquilar os indefesos palestinos? 23 (vinte e três).
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Pois é. 52 a 23. Um "massacre" terrível, não? Faz Ruanda e Srebrenica parecerem uma briga de rua.
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De onde eu tirei esses números? Da própria Organização das Nações Unidas (ONU), que divulgou, algum tempo depois, um relatório sobre o ocorrido. A números semelhantes chegaram organizações de direitos humanos como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch.
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Todas essas entidades, insuspeitas de qualquer simpatia em relação a Israel - muito pelo contrário: no caso da ONU, a hostilidade ao Estado judaico é notória -, chegaram à idêntica conclusão: não houve massacre algum em Jenin, a não ser o da verdade. Este continua no tocante ao conflito israelo-palestino.
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A menos que se considere a hipótese extremamente implausível de que os 23 militares israelenses que pereceram em combate com as forças de Arafat tenham cometido suicídio ou sido mortos por fogo amigo, ou, ainda, ao trocarem deliberadamente tiros entre si (provavelmente indignados contra os companheiros que se deliciavam metralhando impunemente os 52 palestinos mortos), o que ocorreu em Jenin foi uma batalha, não um massacre. Uma batalha vencida militarmente pelos israelenses, mas perdida por estes no terreno da propaganda, como ocorre desde a criação de Israel, em 1948.
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Na ânsia condenatória a Israel que tomou conta dos "fazedores de opinião" no mundo inteiro, pouca ou nenhuma atenção foi dada ao fato de que a ação israelense em Jenin foi uma resposta de Israel à retomada dos ataques terroristas estimulados por Arafat - a chamada "segunda intifada" -, decorrente da recusa, por parte deste, do plano de paz apresentado em 2000 pelo então primeiro-ministro israelense Ehud Barak. Barak concordou em devolver 97% das terras ocupadas por Israel desde 1967 na Cisjordânia. Arafat rejeitou a oferta. Hoje, a Fatah se arrepende amargamente de não tê-la aceito (atualmente, o governo da Fatah na Cisjordânia disputa com os fanáticos islamitas do Hamas a hegemonia nos territórios palestinos).
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Pensa você, prezado leitor, que, passados dez anos, algum órgão da grande imprensa, algum intelectual, algum governante dentre os que condenaram tão energicamente o "massacre" em Jenin se preocupou em divulgar um desmentido, reconhecendo que errou e que ignorou os fatos acima?
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Não, nenhum fez isso. Ninguém retirou o que disse. Nem mesmo um simples pedido de desculpas.
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Pelo contrário: de lá para cá, a propaganda antiisraelense só se intensificou, fazendo uso de novos e renovados pretextos (os últimos deles, a questão dos assentamentos judaicos e a cerca construída por Israel para evitar ataques terroristas). E assim Israel foi mais uma vez pichado como um Estado agressor e "genocida"...
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Convém lembrar o caso de Jenin diante de opiniões como a do escritor alemão Günther Grass, que há algumas semanas publicou um artigo num jornal  de seu país denunciando Israel como uma ameaça à paz no Oriente Médio. Grass escreveu isso  enquanto silenciava, entre outras coisas, sobre o regime teocrático islamita do Irã, que quer ter a bomba atômica para - como não esconde seu presidente, Mahmoud Ahmadinejad - varrer Israel do mapa. Também vale recordar esse episódio nem tão distante diante de orquestrações como a do navio turco Mavi Marmara, que em 2010 levou adiante uma bem-sucedida operação de propaganda anti-israelense em conluio com o Hamas (ainda lembro da reação indignada de um colega de trabalho quando tentei argumentar que a coisa toda fora uma provocação contra Israel...).
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Hoje, como ontem e certamente também amanhã, a mentira é o método utilizado pelos antiisraelenses de todos os matizes, da extrema esquerda à extrema direita, que se dedicam a apresentar o conflito do Oriente Médio com tintas simplistas e maniqueístas, satanizando a única democracia da região como o lado "mau" e "perverso", enquanto "esquecem" que do outro lado encontram-se criminosos e terroristas. E, assim como em tantos outros momentos da História, jamais haverá quem admita que, por trás de muitas das críticas - algumas delas, plenamente justificáveis - está tão-somente o desejo irreprimido de completar o serviço deixado inconcluso em Auschwitz e em Treblinka.
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Exemplos como o de Jenin provam que falsear a realidade para acusar Israel de crimes inexistentes não é visto como uma atitude desonesta e inaceitável. Defender o direito de Israel se defender, por sua vez, causa reações apaixonadas de repúdio. Propugnar sua destruição, por outro lado, não provoca tantos protestos. E quem quer que enxergue nisso um laivo de antissemitismo é invariavelmente tachado de mentiroso, racista e assassino. Difícil imaginar inversão maior da realidade.  

sexta-feira, abril 27, 2012

VIVAM AS COTAS! VIVA O RACISMO! VIVA A DESIGUALDADE!


Sabem aquele princípio de que todos são iguais perante a Lei? Podem esquecer.  Graças ao STF, que no dia 25 considerou constitucional o sistema de cotas raciais nas universidades, esse princípio sagrado do Direito e da Democracia virou letra morta. A partir de agora, está instituído oficialmente que há, no Brasil, cidadãos e cidadãos – ou cidadãos e "afro-descendentes". 
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Lembram ainda daquela conclusão científica, a que se chegou depois de décadas, e que foi considerada um importante avanço humanista quando divulgada há alguns anos, segundo a qual o conceito de "raça" foi descartado como uma ficção racista que não tem nada a ver com a biologia e quem tem raça, portanto, é cachorro? Pois é. Podem esquecer isso também.  De acordo com as incelenças togadas do STF, o racismo é algo que deve ser não execrado, mas aplaudido. Abaixo Nelson Mandela! Abaixo Martin Luther King! Viva Hitler! Viva Goebbels! Viva Gobineau!
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Quem acompanhou a votação da matéria no STF sabe do que estou falando. O principal tribunal do país, que já decidira mandar às favas a Constituição em nome da "união homoafeativa" – revogando, assim, o Artigo que trata da organização familiar e instituindo uma terceira categoria sexual –, resolveu por bem avalizar a separação racial no Brasil. E com argumentos, digamos, "progressistas", "do bem".  Vejamos os votos de cada magistrado.
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O presidente do STF, ministro Carlos Ayres Britto, justificou seu voto dizendo que “os erros de uma geração podem ser revistos pela geração seguinte e que é isto que está sendo feito”. Espero sinceramente que Ayres Britto esteja correto. Tanto que não perdi ainda a esperança de que a próxima geração corrija o que o STF fez na última quinta-feira. Aguardo o dia em que os pósteros restituirão a igualdade de todos perante a Lei.
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Ainda assim, fiquei intrigado com essa reedição da teoria do pecado original: a que "erros de gerações passadas" o ministro estaria se referindo? Se está falando da escravidão, acho justo que se corrija esse erro histórico. Poderíamos começar exigindo indenizações dos descendentes dos faraós por séculos de escravismo no Egito. Ou, se não quisermos retroceder tanto no tempo, dos mercadores de escravos africanos, muitos dos quais – vejam que coisa! – eram... negros!  Quem vai corrigir os erros de gerações passadas de donos de escravos, como era – descobriu-se há pouco – Zumbi dos Palmares?  Os descendentes de imigrantes japoneses?
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Outro jurisconsulto, Ricardo Lewandowski, afirmou que o sistema de cotas em universidades “cria um tratamento desigual com o objetivo de promover, no futuro, a igualdade”. Entendi. É a famosa tese de que é necessário promover a desigualdade agora em nome de uma igualdade num futuro indeterminado... É, já tentaram isso antes, e deu no que deu. Por que não garantir a igualdade hoje, e ponto final?
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Luiz Fux disse que “não se trata de discriminação reservar algumas vagas para determinado grupo de pessoas”, e afirmou: "É uma classificação racial benigna, que não se compara com a discriminação, pois visa fins sociais louváveis". Ah, bom! Anotem aí: separar as pessoas pela cor da pele, criando um tribunal de pureza racial, não é discriminação, mas uma "classificação racial benigna"… E isso porque, como diz o ministro Fux, "visa fins sociais louváveis". Que fins sociais seriam estes? Favorecer, com 20% das vagas garantidas, quem se declarar, e for considerado, "negro" ou "pardo"... Muito louvável, não?
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Seguindo o voto do relator, Rosa Weber disse que o sistema de cotas “visa dar aos negros o acesso à universidade brasileira e, assim, equilibrar as oportunidades sociais”. Pensei que o sistema que visa a dar aos estudantes – negros ou não – acesso às universidades já tinha sido criado: chama-se vestibular. Também acreditava que ser negro no Brasil era uma questão mais de opinião do que de cor de pele propriamente dita. Mas deixa pra lá. E quanto ao mérito pessoal? Deixa pra lá também.
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Outro membro do egrégio tribunal, Cármen Lúcia, justificou seu voto favorável às cotas citando duas histórias pessoais sobre marcas deixadas pela desigualdade na infância. Reminiscências pessoais, sobretudo se forem da infância, são uma arma infalível. Espero que Carmen Lúcia tenha sido pelo menos original, e não tenha apelado para estórias como a da amiguinha negra que foi barrada numa festinha de aniversário... Até porque não é com cotas raciais que se vai resolver esse tipo de coisa.
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Em seu voto, Joaquim Barbosa citou um julgamento da Suprema Corte americana que validou o sistema de cotas para negros nos Estados Unidos. Joaquim Barbosa é o único ministro do STF que poderia ser considerado negro.  Deve ser por isso que ele resolveu citar a Suprema Corte dos EUA, país onde as relações raciais são um tantinho diferentes.  Lá, eles tiveram segregação nas escolas, as leis Jim Crow e a Ku Klux Klan. Aqui, tivemos samba, feijoada e carnaval. Se Barbosa tivesse se lembrado que estava votando para institucionalizar o racismo no Brasil, um país de mestiços, e não nos EUA, talvez tivesse mudado seu voto.
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Já Cezar Peluso não acha que a reserva de vagas segundo o critério racialista fira o princípio da meritocracia. Segundo ele, o que impede as pessoas de entrarem nas universidades não é uma educação de baixa qualidade, mas a cor da pele, ou a auto-declarada cor da pele. É o fato, enfim, de ser "afro-descendente", e não a pobreza ou outras dificuldades econômicas. Argumento perfeito. Quer dizer o seguinte: se Peluso tivesse nascido com a tez um pouco mais escura, ou com o cabelo pixaim, não teria chegado a ministro do STF. Do mesmo modo, se Pelé tivesse nascido branco, não teria sido Pelé. Muito lógico, não?
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O único ministro que esboçou alguma crítica ao modelo de cotas, tal como já adotado há alguns anos pela UnB, foi Gilmar Mendes. Ele tentou argumentar que tal sistema pode gerar distorções e perversões. Pode, não, ministro: já está gerando. Irmãos gêmeos já foram separados na UnB pelo critério racialista – um havia se declarado “afro-descendente”; outro, não. Mendes também votou pela constitucionalidade das cotas.
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Celso de Mello, por sua vez, disse que “ações afirmativas estão em conformidade com Constituição e com Declarações Internacionais subscritas pelo Brasil”. Foi seguido por Marco Aurélio Mello. Surge daí uma dúvida: se as cotas estão conformes à Constituição, certamente não estão com o Artigo 5, que diz que todos são iguais perante a Lei. Quanto a declarações internacionais subscritas pelo Brasil, gostaria de saber em qual delas está escrito que se deve privilegiar indivíduos pela cor da pele. Porque foi isso, senhores, que os ministros acabaram de aprovar! 
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Li que, durante a votação no STF, um índio presente na platéia teve de ser retirado pelos seguranças porque estava perturbando a sessão, gritando que deveriam ser reservadas cotas semelhantes também para índios. Eu, que tenho cá uma gota de sangue índio, já estou pensando em protocolar um pedido para ser beneficiado por esse sistema maravilhoso. Só estou na dúvida se, pelo critério das cotas, eu teria direito a 50%, ou a 25%, ou a 15% das mesmas, já que minha ascendência indígena se perde nas brumas do tempo... Como ocorre com a maioria dos brasileiros, que, como dizia Gilberto Freyre, trazem todos, mesmo o loiro de olhos azuis, a marca do negro, sou um ser racialmente tão definido quanto a sexualidade de muitos artistas.
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Tenho uma sugestão aos senhores ministros do STF: por que não criar, estimulados pelo índio que queria apito, cotas para pessoas que se declararem incolores, ou sem raça definida? Ou para torcedores do Ferroviário? Por que não?  Estes, pelo menos, eu sei que existem. Ao contrário da auto-declarada "raça" batizada de "afro-descendente", algo real somente na cabeça de militantes políticos e dos juízes do STF rendidos ao politicamente correto.

sábado, abril 21, 2012

VIVA PAULO FREIRE!



Certa vez, por obrigação profissional, tive de fazer uma palestra-louvação sobre Paulo Freire. Foi um dos momentos mais constrangedores de minha vida. Já sabendo que o famoso "método" inventado por essa vaca sagrada do esquerdismo tupiniquim não vale uma promessa de Lula ou de Dilma Rousseff, engoli em seco minha opinião e passei cerca de uma hora enaltecendo-o, reproduzindo o discurso oficial perante uma platéia de devotos da seita freiriana.  

Por isso me senti vingado pelo texto a seguir, do professor Olavo de Carvalho. Com o estilo e a verve habituais - e, principalmente, com fatos e argumentos -, OC demole mais esse deus do panteão esquerdista, recolocando-o em seu devido lugar. Demonstra, de forma cabal, que o tal "método", assim como a fama de Freire, não tem nada a ver com educação, mas com ideologia. Se  eu pudesse voltar no tempo, começaria aquela palestra com a pergunta  feita por OC já na primeira frase. Poucas vezes transcrevi um texto com tanto gosto como faço agora. (GB)
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por Olavo de Carvalho

Vocês conhecem alguém que tenha sido alfabetizado pelo método Paulo Freire? Alguma dessas raras criaturas, se é que existem, chegou a demonstrar competência em qualquer área de atividade técnica, científica, artística ou humanística? Nem precisam responder. Todo mundo já sabe que, pelo critério de “pelos frutos os conhecereis”, o célebre Paulo Freire é um ilustre desconhecido.

As técnicas que ele inventou foram aplicadas no Brasil, no Chile, na Guiné-Bissau, em Porto Rico e outros lugares. Não produziram nenhuma redução das taxas de analfabetismo em parte alguma.

Produziram, no entanto, um florescimento espetacular de louvores em todos os partidos e movimentos comunistas do mundo. O homem foi celebrado como gênio, santo e profeta.

Isso foi no começo. A passagem das décadas trouxe, a despeito de todos os amortecedores publicitários, corporativos e partidários, o choque de realidade. Eis algumas das conclusões a que chegaram, por experiência, os colaboradores e admiradores do sr. Freire:

“Não há originalidade no que ele diz, é a mesma conversa de sempre. Sua alternativa à perspectiva global é retórica bolorenta. Ele é um teórico político e ideológico, não um educador.” (John Egerton, “Searching for Freire”, Saturday Review of Education, Abril de 1973.)

“Ele deixa questões básicas sem resposta. Não poderia a ‘conscientização’ ser um outro modo de anestesiar e manipular as massas? Que novos controles sociais, fora os simples verbalismos, serão usados para implementar sua política social? Como Freire concilia a sua ideologia humanista e libertadora com a conclusão lógica da sua pedagogia, a violência da mudança revolucionária?” (David M. Fetterman, “Review of The Politics of Education”, American Anthropologist, Março 1986.)

“[No livro de Freire] não chegamos nem perto dos tais oprimidos. Quem são eles? A definição de Freire parece ser ‘qualquer um que não seja um opressor’. Vagueza, redundâncias, tautologias, repetições sem fim provocam o tédio, não a ação.” (Rozanne Knudson, Resenha da Pedagogy of the Oppressed; Library Journal, Abril, 1971.)

“A ‘conscientização’ é um projeto de indivíduos de classe alta dirigido à população de classe baixa. Somada a essa arrogância vem a irritação recorrente com ‘aquelas pessoas’ que teimosamente recusam a salvação tão benevolentemente oferecida: ‘Como podem ser tão cegas?’” (Peter L. Berger, Pyramids of Sacrifice, Basic Books, 1974.)

“Alguns vêem a ‘conscientização’ quase como uma nova religião e Paulo Freire como o seu sumo sacerdote. Outros a vêem como puro vazio e Paulo Freire como o principal saco de vento.” (David Millwood, “Conscientization and What It's All About”, New Internationalist, Junho de 1974.)

“A Pedagogia do Oprimido não ajuda a entender nem as revoluções nem a educação em geral.” (Wayne J. Urban, “Comments on Paulo Freire”, comunicação apresentada à American Educational Studies Association em Chicago, 23 de Fevereiro de 1972.)

“Sua aparente inabilidade de dar um passo atrás e deixar o estudante vivenciar a intuição crítica nos seus próprios termos reduziu Freire ao papel de um guru ideológico flutuando acima da prática.” (Rolland G. Paulston, “Ways of Seeing Education and Social Change in Latin America”, Latin American Research Review. Vol. 27, No. 3, 1992.)

“Algumas pessoas que trabalharam com Freire estão começando a compreender que os métodos dele tornam possível ser crítico a respeito de tudo, menos desses métodos mesmos.” (Bruce O. Boston, “Paulo Freire”, em Stanley Grabowski, ed., Paulo Freire, Syracuse University Publications in Continuing Education, 1972.)

Outros julgamentos do mesmo teor encontram-se na página de John Ohliger, um dos muitos devotos desiludidos (http://www.bmartin.cc/dissent/documents/Facundo/Ohliger1.html#I).

Não há ali uma única crítica assinada por direitista ou por pessoa alheia às práticas de Freire. Só julgamentos de quem concedeu anos de vida a seguir os ensinamentos da criatura, e viu com seus própios olhos que a pedagogia do oprimido não passava, no fim das contas, de uma opressão da pedagogia.

Não digo isso para criticar a nomeação póstuma desse personagem como “Patrono da Educação Nacional”. Ao contrário: aprovo e aplaudo calorosamente a medida. Ninguém melhor que Paulo Freire pode representar o espírito da educação petista, que deu aos nossos estudantes os últimos lugares nos testes internacionais, tirou nossas universidades da lista das melhores do mundo e reduziu para um tiquinho de nada o número de citações de trabalhos acadêmicos brasileiros em revistas científicas internacionais. Quem poderia ser contra uma decisão tão coerente com as tradições pedagógicas do partido que nos governa? Sugiro até que a cerimônia de homenagem seja presidida pelo ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, aquele que escrevia “cabeçário” em vez de “cabeçalho”, e tenha como mestre de cerimônias o principal teórico do Partido dos Trabalhadores, dr. Emir Sader, que escreve “Getúlio” com LH. A não ser que prefiram chamar logo, para alguma dessas funções, a própria presidenta Dilma Roussef, aquela que não conseguia lembrar o título do livro que tanto a havia impressionado na semana anterior, ou o ex-presidente Lula, que não lia livros porque lhe davam dor de cabeça.

quinta-feira, abril 19, 2012

DEZ FALÁCIAS SOBRE A LEI DE ANISTIA (E POR QUE NÃO SE DEVE REVOGÁ-LA)

Cartaz da campanha pela Anistia, final dos anos 70: antes eles queriam anistia ampla, geral e irrestrita; agora, acham que a anistia foi ampla demais...


Seguem dez falácias frequentemente repetidas por aqueles que querem a revogação da Lei de anistia (Lei 6.683, de 28/08/1979), e por que revogá-la seria uma tragédia para o Brasil.  Refute quem puder.

1. "A Anistia foi imposta pelos militares para garantir a impunidade."

FALSO. A Anistia foi uma conquista da sociedade. Revogá-la atiraria o Brasil numa crise jurídico-institucional de proporções inimagináveis. A Anistia foi o resultado de uma ampla negociação política, que incluiu, sim, o interesse dos membros dos serviços de repressão político-militar de que seus crimes permanecessem impunes, mas que envolveu, também, vastos setores da sociedade civil que começava a se rearticular no Brasil com o processo de abertura políitica no final dos anos 70. A esquerda, principalmente, teve um papel ativo, dentro e fora do país, na campanha pela "anistia ampla, geral e irrestrita", quando a censura e a legislação de exceção já davam sinais de que estavam prestes a acabar (o AI-5 foi extinto no final de 1978). O que resultou daí foi um acordo, a princípio imperfeito, mas um acordo assim mesmo. Não foi, de maneira alguma, algo "imposto" - até porque seria ilógico impor ao inimigo o perdão dos crimes por ele cometidos.

Assim como foi negociada, e não extorquida, a Anistia não pode ser revogada sob a alegação de que o regime em que ela foi implantada era ilegítimo, o que dela também retiraria, portanto, a legitimidade. Nesse caso, todas as leis produzidas desde 1964 deveriam ser abolidas, pois também seriam ilegítimas. Isso incluiria a legislação que criou o Banco Central, o BNH, o FGTS etc. Do mesmo modo, todas as obras construídas pelos militares, como a Ponte Rio-Niterói e a hidrelétrica de Itaipu, teriam de ser implodidas, a EMBRAER fechada e assim por diante... 

Do mesmo modo, é preciso ter em mente que a Anistia não teve nada a ver com "justiça", sendo, na realidade, uma construção política, um pacto político. Tratou-se de garantir a pacificação nacional por meio da extinção dos crimes, ou seja, do  perdão (e não - note-se - absolvição e esquecimento), como o preço a ser pago pela redemocratização. Se a Anistia garantiu a impunidade, foi, portanto, dos dois lados. Exatamente como ocorrera em anistias anteriores, como a de 1945, que extinguiu os crimes cometidos pela ditadura do Estado Novo varguista, pelos comunistas e pelos integralistas. Foi exatamente para permitir o retorno da democracia e o fim do estado de exceção que a Anistia foi concebida.

Há também uma questão jurídica: a Lei da Anistia foi incorporada à Constituição Federal de 1988 (Artigo 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias), não podendo ser revogada sem que se revogue, também, a Carta Magna. Isso criaria, obviamente, uma situação de caos jurídico, com o risco de um retrocesso autoritário. Além do mais, em 2010 o STF decidiu, por 7 votos contra 2, rejeitar a iniciativa de revogação da Anistia para punir os militares acusados de tortura e assassinatos. Os juízes entenderam que a Anistia foi ampla e que os crimes foram perdoados. Ao que parece, os revanchistas, que lutaram por uma anistia ampla, agora acham que ela foi "ampla demais". Daí porque querem revogá-la.

2. "A Lei de Anistia não perdoou crimes de sangue; portanto, não foi ampla" 

FALSO. A Anistia só não perdoou, num primeiro momento, aqueles que já tinham sido condenados, em 1979, por crimes de sangue. Os que praticaram tais crimes, como atentados e assassinatos, mas que não haviam sido até então julgados e sentenciados pela Justiça tiveram seus crimes de imediato extintos. Como diz a lei, no Artigo 1º: "§ 2º - Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal." O objetivo era impedir que tais condenações se repetissem. Mesmo assim, a legislação posterior estendeu o benefício da anistia a TODOS os que tinham cometido crimes políticos ou conexos. Dificilmente se encontrará, na História, exemplo de anistia tão ampla quanto a brasileira, que perdoou a todos indistintamente, em nome da reconciliação nacional.

3. "Tortura é crime contra a humanidade, logo imprescritível"

EM TERMOS. Esse argumento tem sido repetido com base na legislação internacional, que condena a tortura. A questão é saber se essa legislação pode sobrepor-se à lei nacional. Não pode. Além do mais, o terrorismo também é considerado crime contra a humanidade. 

Outro argumento constantemente brandido pelos advogados da revogação da Lei de Anistia é o do chamado "crime continuado", aplicado no caso dos "desaparecidos". Nesse caso, o crime perduraria, já que os corpos não foram encontrados - o sequestro só se encerra quando a vítima é libertada. Aparentemente lógico, tal argumento é também falacioso, pois quem o utiliza parece se esquecer que os desaparecidos já foram reconhecidos oficialmente como mortos (Lei 9.140, de 4/12/1995): suas famílias receberam certidões de óbito e indenizações do Estado. Desde então, não há mais desaparecidos políticos no Brasil - exceção dos que a esquerda mantém no armário.

Trata-se, portanto, de um princípio sem qualquer valor normativo: segundo a Constituição, a lei não pode retroagir, a não ser para beneficiar o réu ("Artigo 5º, XL- A Lei não retroagirá, salvo para beneficiar o réu.")
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4. "Os que lutaram contra a ditadura foram punidos; os torturadores, não". 

FALSO. Nem todos os que se opuseram, com armas ou não, ao regime de 64 foram presos ou torturados. Vários escaparam à prisão e um número maior jamais conheceu a tortura. O último comandante militar da Ação Libertadora Nacional (ALN), um dos grupos terroristas mais violentos, Carlos Eugênio Paz, jamais foi preso. E é apenas um exemplo.
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Além disso, os punidos pelo regime militar foram indenizados - muitos, aliás, por motivos completamente absurdos. O ex-presidente Lula, por exemplo, recebe 6 mil reais mensais de indenização por ter ficado preso por algumas semanas, em 1980, por causa de uma greve ilegal. A presidente Dilma Rousseff foi contemplada com 70 mil reais por mês por sua participação em três organizações guerrilheiras de extrema-esquerda. Diógenes de Oliveira, responsável por atentados como a explosão do carro-bomba em que morreu o soldado Mário Kozel Filho em São Paulo em 1968, foi indenizado em mais de 400 mil reais, enquanto Orlando Lovechio Junior, que perdeu a perna num atentado à bomba do qual Diógenes participou, sobrevive com uma pensão por invalidez de 570 reais mensais. No total, as indenizações já somam cerca de 4 bilhões de reais. Nenhum centavo para as vítimas da luta armada.  Daí a frase do saudoso Millôr Fernandes: "não era ideologia; era um investimento".

Quanto aos militares, a maioria deles já se encontra em idade avançada, muitos são octogenários, sem qualquer influência na vida política nacional. Ao contrário de muitos remanescentes da luta armada de esquerda, que hoje ocupam altos cargos na administração pública - a começar pela Presidência da República.

5. "Brasil pode ser condenado pela ONU, OEA etc."

FALSO. Nenhuma organização internacional tem jurisdição para condenar quem quer que seja no Brasil. A ONU, a OEA ou a CIDH podem estabelecer princípios gerais, declarações etc. sobre tortura e outros delitos, mas não impor-se à lei brasileira (no caso, a de Anistia). Portanto, a menos que o país aceite essas deliberações, estas não têm valor normativo. Ademais, sendo organizações interestatais, tais organismos enxergam somente os delitos cometidos pelo Estado, ficando de fora, no caso, o terrorismo de esquerda. O soldado que der um tapa na cara de um preso será acusado de violar os direitos humanos pela ONU ou pela OEA; já o terrorista não-estatal que explodir um quartel ou um avião, não.

6. "Crimes contra a humanidade são apenas os praticados pelo Estado"

FALSO. Outra falácia repetida à exaustão pelos inimigos da Anistia. Não leva em conta o fato de que terrorismo também é considerado crime contra a humanidade, independentemente de quem o pratique. Além do mais, tal argumento é um tiro no pé para a esquerda, pois os terroristas brasileiros estavam também a serviço do Estado - no caso, não do Estado brasileiro, mas de Estados estrangeiros, como Cuba e China. Militantes esquerdistas brasileiros receberam dinheiro, armas e treinamento militar dos regimes cubano, chinês e norte-coreano, entre outros, para derrubar o regime militar brasileiro. Agiram, assim, como agentes de fato desses Estados. Seus crimes, portanto, também podem ser enquadrados na categoria de terrorismo de Estado.    

7. "Os guerrilheiros lutaram pela democracia"

TOTALMENTE FALSO. De todas as mentiras entoadas como um mantra pela propaganda esquerdista, esta é certamente a mais fácil de ser refutada. A luta armada da extrema-esquerda não teve nada de democrática, como demonstram de forma cristalina os documentos das organizações clandestinas da época, nenhum dos quais fala em democracia, mas em instaurar uma forma de ditadura socialista. Leiam a coletânea organizada por Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá, Imagens da Revolução: documentos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961/1971 (Rio de Janeiro: Marco Zero, 1985) para constatarem. A restauração das liberdades democráticas simplesmente não estava nos planos dos grupos terroristas - e muito menos, como virou moda afirmar em certos círculos, constituiu um "resultado não-intencional" da ação destes.
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Além disso, o terrorismo de esquerda no Brasil tem início antes do AI-5 - o atentado à bomba no aeroporto dos Guararapes ocorre em 25/07/1966, dois anos antes do fechamento do regime. Como mostram diversos historiadores, o projeto da luta armada é anterior a 1964. Não por acaso, a Lei de Anistia contempla crimes políticos e conexos cometidos entre 1961 e 1964, o que beneficiou quase exclusivamente a esquerda.

8. "Em outros países, como Argentina e Chile, os militares foram condenados e estão cumprindo pena; por que o mesmo não ocorre no Brasil?"

Não há relação entre o que ocorreu no Brasil e nos países vizinhos. Além de se tratar de casos específicos, cada qual com suas particularidades, na Argentina, Chile e Uruguai não só torturadores militares foram presos e sentenciados à prisão: os terroristas de esquerda também o foram. Na Argentina, em 1990 Carlos Menem indultou os dois lados, decisão que foi revertida anos depois. No Chile, o chefe da DINA, o serviço secreto, general Manuel Contreras, foi preso e condenado por pressão dos EUA devido ao assassinato do ex-chanceler Orlando Letelier nas ruas de Washington, em 1976. Mesmo assim, terroristas de esquerda, como os membros do MIR, permanecem presos e cumprem sentença. Um exemplo é Mauricio Hernández Norambuena, condenado por crimes como o sequestro do publicitário Washington Olivetto em São Paulo. Não há como comparar as situações nesses países com o ocorrido no Brasil, até porque a intensidade da repressão em cada país foi bastante diferente - 30 mil mortos na Argentina, 424 no Brasil.

9. "A Comissão da Verdade só tratará dos crimes cometidos por agentes do Estado"

FALSO. A própria lei que criou a comissão - Lei 12.528, de 18/11/2011 - não faz qualquer referência a isso: fala apenas em "examinar e esclarecer as graves violações de direitos humanos", mas não diz quem as cometeu. A mesma lei, em seu Artigo 2, § 1o, II, afirma que não poderão participar  da comissão aqueles que "não tenham condições de atuar com imparcialidade". Portanto, a "Comissão da Verdade", para ser imparcial, também precisa investigar os crimes cometidos pela esquerda. Além do mais, a lei, em  seu Artigo 3, VIII, § 4o, é clara: "As atividades da Comissão Nacional da Verdade não terão caráter jurisdicional ou persecutório." 

10. "É preciso defender o direito à memória e à verdade" 

VERDADEIRO, MAS HÁ UM DETALHE: o direito à memória e à verdade deve ser defendido em sua integridade, e não pela metade. Em outras palavras: é preciso apurar os crimes dos dois lados, e não somente os dos militares. Do contrário, a comissão vai virar uma omissão da verdade. 

Com relação aos chamados "arquivos da ditadura", por exemplo, é preciso perguntar: só os da ditadura? E quanto aos da esquerda armada? 

Enfim, a Anistia foi o pontapé inicial do processo de redemocratização no Brasil, significando, na prática, o fim da ditadura militar iniciada em 1964.  Lançou as bases jurídicas e políticas para o retorno do estado de direito democrático, que no Brasil ocorreu de forma muito mais tranqüila do que nos demais países da América do Sul que passaram por experiências de regimes militares nos últimos 50 anos.  Certamente não foi algo perfeito, mas foi o melhor que se pôde alcançar, e infinitamente superior ao verificado em países que os membros de organizações de esquerda, muitos dos quais estão hoje no poder, desejavam emular.

Países como Cuba, China e URSS, em que os prisioneiros do regime comunista jamais foram anistiados, e onde (com exceção da URSS e de seus satélites do Leste Europeu, além de outros africanos e asiáticos) a ditadura não faz parte do passado, ao contrário do regime de 64.

Somente o motivo acima já é suficiente para não desejar que a roda da História volte no tempo. Revogar a Lei de Anistia seria um retrocesso, que não teria nada a ver com justiça, mas com revanchismo. E revanchismo não tem nada a ver com verdade, mas com vendetta e acobertamento.  

quarta-feira, abril 18, 2012

CORRUPÇÃO: AS METAMORFOSES DO DISCURSO LULOPETISTA. OU: POR QUE NÃO SÃO TODOS IGUAIS


Se tem uma coisa que nunca vai deixar de me surpreender é a cara-de-pau dos petralhas, e quão profundamente o lulopetismo penetrou no imaginário coletivo, anestesiando a todos. 

Vejam o mais recente escândalo de corrupção a estarrecer o país, o caso do senador (sem partido, ex-DEM), Demóstenes Torres. Sabendo que os companheiros iriam aproveitar a deixa para fazer a velha demagogia oportunista de sempre e tentar desviar a atenção de suas maracutaias (dito e feito: está em pleno andamento uma operação-abafa do mensalão no STF, com a participação ativa do presidente do PT, Rui Falcão), publiquei aqui uma série de posts mostrando a diferença de tratamento pelos próprios partidos a politicos do DEM apanhados com a boca na botija e a notórios ladravazes petistas, "blindados" pela máquina partidário-estatal. Tentei, com isso, mostrar como os ladrões petistas sempre se dão bem, pois afinal, ao contrário dos demais, eles têm pedigree (além de uma imprensa em geral dócil e muitos, muitos amigos e simpatizantes). 

Que ingenuidade a minha! A rede de corrupção montada por Carlinhos Cachoeira, sabe-se com cada vez mais detalhes, era muito maior do que se imaginava. Não se restringia a um senador teoricamente oposicionista (ainda vamos inventar a oposição governista) que, não importa se seja absolvido ou não, já foi expulso da política.  Atingia - oh, surpresa! - alguns cardeais do lulopetismo, como o atual governador do DF, Agnelo Queiroz. Cheguei a mostrar uma foto de Demóstenes e uma de Agnelo, já enrolado em outras ladroeiras, como se fizessem parte de esquemas diferentes... (Aliás, foi Cachoeira o pivô do primeiro escândalo da era lulopetista, o caso Valdomiro Diniz, em 2004, lembram?) Como se vê, para apanhar um petralha, nem precisa mirar: atire uma pedra para cima escrito "corrupto" que ela cairá na cabeça de um deles.  

Mas não é sobre isso que quero falar. Os fatos estão aí, há farto material para quem quiser se informar e se horrorizar. O que me chama realmente a atenção, nessa pornochanchada sem fim que já virou a política brasileira, é como o discurso dos petralhas se metamorfoseou desde o momento em que a esquerda, no Brasil, deixou de ser pedra para se tornar vidraça.  É aqui que a desonestidade desse pessoal se revela em todo seu despudor.  Façamos um pequeno exercício de memória.

Acredito que todos que tenham mais de 30 anos lembram bem: de 1980 a 1992, ou seja, da criação do PT até o impeachment de Collor, o discurso da esquerda sobre ética eram um, e, desde então, é outro, completamente diferente. Em um primeiro momento, digamos até 92, a denúncia da corrupção (ou dos "malfeitos", como diria a Poderosa) era desdenhada como "moralismo burguês" - o importante era fazer a "revolução", o "socialismo" etc. A revolução não veio, então trataram de reinventar o discurso. Da queda de Collor em diante, o PT e seus aliados esquerdistas adotaram com gosto o discurso moralista, descobrindo a "ética na política". E não apenas isso: sendo a corrupção "de direita" - ainda hoje há muitos que pensam assim -, o PT e seus aliados não eram somente os paladinos da ética e da virtude, mas os únicos realmente limpos e honestos em meio a um mar de pilantras. Enquanto foi útil, essa teoria foi repetida à exaustão, sendo usada para enganar milhões de otários. 

Como se sabe, o governo Lula desmoralizou totalmente essa tese, expondo a falácia da corrupção como apanágio da "direita" - o mensalão, especialmente, revelou-se superior a qualquer coisa que a "direita", seja lá o que isso signifique no Brasil, fez, faz ou fará um dia. Ganhou corpo, então, uma nova metamorfose no discurso lulopetista, agora oficial: em vez do "somos diferentes", entrou em cena o "somos iguais". Ou seja: passou-se, num salto, do autoproclamado monopólio da virtude à banalização da corrupção, com todos os políticos atirados na mesma vala comum. O raciocínio era: "já que fomos desmascarados, vamos jogar lama para todos os lados; assim, enlameados todos, fica impossível distinguir quem é quem". Que melhor jeito de salvar a própria cara do que o vigarista que, apanhado em flagrante, diz cinicamente, "sou, mas quem não é?" Muitos, inclusive varios antipetistas, cairam nessa armadilha, resignando-se diante da impressão de que são todos "farinha do mesmo saco" etc. 

Tanto um discurso quanto o outro são, obviamente, grossas empulhações, verdadeiros engana-trouxas. Enquanto se apresentava como o supra-sumo da ética e da honestidade, sabe-se hoje, o PT preparava na surdina o maior esquema de corrupção da História do Brasil. Agora, com a tese oposta do "são todos iguais", o que pretende, na verdade, é desviar a atenção de sua excepcionalidade política, assim como salvar o discurso esquerdista sobre corrupção.  Aqui e ali vejo alguém que se diz desencantado com o lulopetismo - quase sempre, um ex-petista envergonhado - dizer, num sociologuês de pé-sujo, que o buraco é mais embaixo porque - afirma com ares de grande contrição - a raiz da roubalheira não deve ser buscada nesse ou naquele partido, mas no "sistema", ou melhor, no "capitalismo" etc.  Não seriam os partidos, nem os programas, nem mesmo os homens, mas ele, o terrível, o inefável "sistema", o responsável por tentar a humanidade e desviá-la do mau caminho. Contra esse monstro implacável, esse Leviatã, é inútil tentar resistir etc. etc.  

Não é preciso muito tutano para perceber que isso é mais uma mentira, uma tentativa tosca e cínica de diluir responsabilidades e salvar a face da esquerda depois que esta perdeu o monopólio da verdade e da virtude.

Trata-se de uma mentira, em primeiro lugar, pois se existe algo incompatível com a corrupção é o... capitalismo. Não o capitalismo dos companheiros, o capitalismo de Estado dos eikes batistas e dos fundos de pensão inaugurado por Lula et caterva - e que muitos economistas acham uma maravilha -, mas o capitalismo de verdade, o qual, para funcionar, exige regras claras e precisas, separação das esferas pública e privada - e rigidez moral. Fico pensando o que aconteceria se fosse descoberto em Washington um esquema de compra de votos de parlamentares pela Casa Branca. O governo cairia, com certeza. Nixon caiu por muito menos. (Já nos países socialistas esse problema nunca existiu, claro: a imprensa censurada dava um jeito de não mostrar o que acontecia...)

Toda a lengalenga sobre a corrupção ser "de direita" ou "inerente ao capitallsmo" (o que na prática é o mesmo discurso vigarista) serve apenas para esconder o fato inegável: sob a hegemonia petista, a corrupção, que sempre existiu no Brasil, tornou-se um sistema de poder, a forma mesma de exercer a autoridade estatal. Aqui, sim, pode-se falar de um "sistema", no pior sentido da palavra.

Não sei se a corrupção é uma patologia moral, ou se é algo inerente à natureza humana, como dizem os psicólogos. Sei apenas que roubar por roubar, para satisfazer um instinto egóico ou pela pura e simples sede de lucro, é uma coisa; roubar como um sistema de poder - e o que os lulopetistas criaram nos últimos dez anos é um sistema de poder baseado no loteamento do Estado, não há dúvida - é outra, infinitamente pior. 

Já escrevi aqui e repito: não, os petralhas não são iguais aos outros políticos; são piores! Uma coisa é o batedor de carteira ou vigarista individual que vive de aplicar golpes; outra é a construção de uma máquina política que se alimenta do aparelhamento estatal e do fisiologismo para sobreviver e se expandir, apelando, enquanto saqueia o erário, para objetivos pretensamente elevados e altruístas. Em um caso, basta chamar a polícia; em outro, é preciso uma verdadeira reprogramação neurolinguística. Comparar os dois é como comparar uma pulga e um elefante.

A perplexidade de grande parte da intelectualidade diante de fenômenos como a corrupção lulopetista ou de casos como o do senador Demóstenes Torres (que também é parte dela) não passa de teatralidade e de farisaísmo de quem sempre concordou, no fundo, com a tese da corrupção "de direita" e que hoje, na impossibilidade prática de sustentar tamanha falsidade, busca desesperadamente no "sistema" um bode expiatório. Trata-se tão-somente de mais um embuste, mais um engodo destinado a enganar os incautos e colocar a culpa num ente coletivo abstrato - o capitalismo, o "individualismo", o "consumismo" etc.  O que se pretende, com isso, é negar a responsabilidade individual e atacar a democracia - vista sempre como "liberal" ou "burguesa". Enfim, a mesma velha cantilena marxistóide e anticapitalista de sempre, agora requentada e apresentada com outro rótulo. Antigamente, chamava-se a isso de dialética. Mas podem chamar de pilantragem, mesmo.