sábado, dezembro 17, 2011

CHRISTOPHER HITCHENS, A MORTE DE UM INTELECTUAL "DO CONTRA"

Corria o ano de 2003, poucos meses após a derrubada do ditador Saddam Hussein pelas forças da coalizão anglo-americana, quando foram divulgadas fotos mostrando soldados dos EUA claramente abusando de prisioneiros iraquianos. Em imagens chocantes, presos eram mostrados amontoados, nus, cobertos de fezes, encapuzados, ameaçados por cães e em poses obscenas, enquanto sorridentes carcereiros, entre os quais uma jovem franzina de 21 anos de idade, pareciam divertir-se como se estivessem num churrasco. Logo o local dos abusos, a prisão de Abu Ghraib, viraria sinônimo, na imprensa mundial, de tortura e arbitrariedade.

Em meio à onda de revolta geral que se seguiu à publicação das fotos, a opinião que mais se ouviu foi que Abu Ghraib deitava por terra, definitivamente, a justificativa de que a guerra era necessária para derrubar uma tirania e instalar, em seu lugar, a democracia. Como demonstrava o escândalo, os americanos seriam iguais a Saddam etc. e tal.

Foi então que, no meio do clamor universal de condenação aos EUA, um escritor e jornalista britânico, com longos anos de militância na esquerda e conhecido por sua defesa intransigente dos direitos humanos - escrevera um livro com duros ataques ao ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger, que considerava um criminoso de guerra - publicou um artigo em que, destoando radicalmente da onda mundial anti-EUA, ousava afirmar que, desde a invasão do Iraque e a queda do regime tirânico de Saddam, o respeito aos direitos humanos dos prisioneiros em Abu Ghraib aumentara drasticamente.

Como assim?, perguntaram-se muitos, atônitos. Simples, meus caros, prosseguia o autor do artigo: após a guerra, os americanos compraziam-se em humilhar e expor os prisioneiros em cenas degradantes; na época de Saddam, nenhum desses presos sairia vivo da prisão.

Em outras palavras: Abu Ghraib era agora um centro de torturas; antes, era um matadouro humano. Além do mais, os soldados americanos que aparecem nas fotos judiando dos presos que deveriam guardar responderam a processos e foram condenados, algo impensável na época de Saddam. Alguém poderia negar que houvera uma evolução?

Quem era esse escritor, jornalista e crítico literário que ousou desafiar assim um consenso mundial, do qual faziam parte a totalidade da esquerda, o New York Times, ONGs, a "Velha Europa", o papa etc.?

Seu nome era Christopher Hitchens.

No último dia 15, Hitchens, inglês de nascimento, morreu de câncer, aos 62 anos, nos EUA, país que (para horror de muitos de seus críticos) adotara como seu há alguns anos. Uma perda irreparável para todos aqueles que prezam a lucidez e o bom senso, pontuado por generosas doses de polêmica, que eram sua marca registrada.

Hitchens foi um dos poucos, praticamente o único public intellectual, ou intelectual público - figura absolutamente inexistente no Brasil, onde predominam os palpiteiros ou os ideólogos de quinta categoria do tipo emir sáder e frei betto - a não fazer coro com os que condenaram de antemão a intervenção anglo-americana no Iraque em 2003.

Na ocasião, ele defendeu ardentemente a mudança de regime em Bagdá como um imperativo da democracia e dos direitos humanos em face de um tirano sanguinário, que tinha em sua ficha corrida duas guerras e milhares de mortes em décadas de terror absoluto.

Por causa disso, ele, Hitchens, apanhou um bocado de seus pares, que pareceram não se importar com a contradição de falarem em nome da humanidade e, ao mesmo tempo, defenderem a permanência no poder de um facínora como Saddam. Hitchens, ao contrário deles, pode ser acusado de muitas coisas, menos de falta de coerência.

Poucos escritores de nossa época conseguiram revelar, com tanta verve e com tanta ênfase, a idiotia do antiamericanismo, sua completa miopia política e moral, que leva autoproclamados defensores da liberdade a se colocarem como escudo entre os EUA e regimes fascistas regidos por tiranos homicidas.

Raros são os intelectuais que, assim como Hitchens, desafiaram consensos fabricados em nome de princípios, não dando a mínima para a opinião do rebanho e para convencionalismos politicamente corretos. O fato de ser George W. Bush o presidente dos EUA não o deixou cego para o caráter realmente demoníaco (embora ele, Hitchens, fosse ateu) da ditadura de Saddam.

Tenho em Christopher Hitchens uma de minhas referências. Nem tanto por suas idéias, que quase nada tinham de originais (era um divulgador, não um filósofo). Mas, acima de tudo, por sua atitude de rebeldia intelectual, baseada no confronto da maioria e no pensar com a própria cabeça.

Como polemista, ele era nada menos do que brilhante. Com a mesma lógica implacável com que defendia a derrubada de Saddam (cujo regime totalitário, ao contrário de muitos que se opuseram à guerra, ele conheceu de perto nos anos 70), Hitchens ajudou a demolir mitos como Madre Teresa de Calcutá e, em livros magistrais como A vitória de Orwell e Carta a um jovem contestador, firmar posição em defesa dos ideais democráticos. Era, enfim, um intelectual sem peias ideológicas, um espírito livre lutando pela liberdade - um verdadeiro "do contra".

Hitchens era ateu, e um cínico veria em sua morte prematura uma espécie de castigo divino (o que só reforçaria, desconfio, seu ateísmo - para quê um deus que fulmina os que não se curvam perante Ele?). Ninguém tentou, assim como no caso de Voltaire, chamar um padre. Sabiam que seria inútil. (Li que, em seu leito de morte, em estado terminal de câncer, ele queria falar de literatura.)

Honestamente, porém, acho essa característica de Hitchens - seu ateísmo - a menos interessante de suas qualidades. Muitos conhecem sua obra principalmente por causa do livro Deus não é grande que, juntamente com outras obras de autores como Richard Dawkins, Daniel Dennet e Sam Harris, tornou-se um best-seller da literatura ateísta que, de uns anos para cá, virou moda.

Pessoalmente, acho esse seu livro mais fraco, embora a premissa por trás dele seja interessante - em um momento em que se vê a ascensão de movimentos fanáticos e do fundamentalismo religioso, que atingiu o auge em 11 de setembro de 2001, um autor atrevido vem e ousa afirmar, com todas as letras que não, Deus não é grande, e que é melhor e mais saudável (mental e fisicamente) viver sem essa invenção de padres, rabinos e mulás...

Como polêmica, o livro é certamente eficaz, mas é raso filosoficamente, concentrando-se nos aspectos exteriores da religião, particularmente na forma como leva pessoas em outras circunstâncias boas e sensatas a cometer toda sorte de loucuras e insanidades em nome da fé. Além do mais, Hitchens ignorava que a militância ateísta e anti-religiosa pode ser um instrumento para tolher a liberdade, como demonstram as ex-repúblicas comunistas e alguns "movimentos" atuais, que, em nome dos direitos de minorias, pretendem calar a maioria que reza (sim, estou me referindo aos talibãs do gayzismo e assemelhados). Prefiro o Hitchens ácido polemista político, inimigo declarado dos chavões e lugares-comuns esquerdistas que, por ter partilhado um dia, conhecia tão bem e demolia com tanta competência.

Tais fatos à parte, o mundo perde com a morte de Christopher Hitchens. Perde em inteligência, perspicácia, incredulidade, inconformismo e, acima de tudo, em espírito crítico e independência intelectual. E fica, infelizmente, um pouco mais parecido com o Brasil de hoje.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

O VEXAME DOS ECOCHATOS GLOBAIS

"Você sabe o que é Belo Monte? Não sabe? Eu sei, porque eu sou uma celebridade."

A frase acima, perfeita no sarcasmo, é do humorista Rafinha Bastos, num video em que tira um sarro de uma penca de artistas da Rede Globo. Ele se refere a um outro video em que Marcos Palmeira, Claudia Ohana, Letícia Sabatella, Juliana Paes, Maitê Proença e grande elenco tentam convencer o distinto público que a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, será o começo do fim da Amazônia.

O vídeo (dos globais, não o de Rafinha, que é ótimo, confiram: http://www.youtube.com/watch?v=Cyu5x_cSzH4) entrará para a História por dois motivos. Primeiro, porque poucas vezes se viu tanta baboseira reunida junta, repetida pelos globais com aquele ar de contrição que costumam exercitar nas novelas da emissora do Jardim Botânico (para se ter uma idéia do tamanho do mico, uma das celebridades, a atriz Ingrid Guimarães, chega a confundir o estado do Pará com o Mato Grosso...). Segundo, e mais importante, porque, como mostrou a VEJA da última semana, pela primeira vez a internet foi utilizada para estimular um debate sério. No caso, não por parte dos artistas, que nem sabem o que isso significa, mas de um grupo de estudantes de Brasília e de Campinas. Num golpe de mestre, estes fizeram também um vídeo, no qual, numa verdadeira aula de lógica matemática, demolem uma a uma as lorotas dos globais, com números e dados irrefutáveis. O resultado, de tão constrangedor para os artistas ecochatos, é hilariante (veja aqui: http://www.youtube.com/watch?v=feG2ipL_pTg).

A performance dos globais desmiolados super-conectados-com-esses-assuntos-de-ecologia-e-que-adoram-posar-de-amigos-da-natureza é forte candidata a mico do ano na internet. Bastou alguns estudantes fazerem o dever de casa para revelarem o festival de besteiras e as imposturas que as celebridades e subcelebridades do horário nobre querem vender como verdade científica, com dados e números que só fazem sentido em suas cabecinhas ocas e deslumbradas.

Não foi a primeira vez, e provavelmente não será a última, que "artistas" adeptos do bom-mocismo tentam usar a fama para enfiar goela abaixo dos incautos uma impostura disfarçada de "boa-causa-a-serviço-da-humanidade" (no caso, a causa ecologista contra uma hidrelétrica). É típico da beautiful people brasileira, essa gente linda e maravilhosa das novelas, se engajar, de vez em quando, em alguma causa da moda, usando seu, digamos, talento dramático e sua beleza para vender mentiras politicamente corretas (Maitê Proença, por exemplo, aproveitou o vídeo para tirar o sutiã, o que já fez em outras ocasiões por causas mais nobres...). Sempre que se mete a levantar uma "bandeira", a gente "do bem" da TV, em especial o pessoal do Projac, dá o maior vexame.

Somente para ficar no terreno ecológico: uma das "causas" mais caras a esse pessoal é o chamado "aquecimento global", uma farsa inventada por cientistas picaretas da ONU e divulgada pelo ex-vice-presidente dos EUA Al Gore num filme mentiroso. A noção de que a temperatura da Terra estaria aumentando devido à ação humana, repetida como um mantra havia anos, foi totalmente desacreditada quando um grupo de hackers invadiu os computadores da Universidade East Anglia, no Reino Unido, e roubou os e-mails trocados pelos pesquisadores ligados ao Painel da ONU sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), em que estes trocavam conselhos sobre como falsificar dados de modo a dar um verniz científico à hipótese - e, até o momento, não passa de uma hipótese, não chega a ser uma teoria - do aquecimento global (hoje, o nome mudou, e agora falam em "mudança climática"). Até pouco tempo atrás, uma vinheta da Globo fazia questão de anunciar o fim do mundo iminente. Como não é mais fashion dizer que o gás carbônico (!) emitido pelas fábricas vai derreter o gelo dos pólos e elevar o nível das marés, resolveram botar a viola no saco.

Mas o caso mais descarado de tentativa de manipulação da opinião pública pela turma da Vênus Platinada ocorreu em 2005, durante a campanha que antecedeu o "plebiscito do desarmamento". Na ocasião, um batalhão de atores, atrizes, cantores, atores-cantores e gente sem profissão definida bombardeou o horário eleitoral com mensagens como "acabe com sua arma antes que ela acabe com você" e outras do gênero. José Mayer e Felipe Dylon apareceram repetindo slogans em nome da "paz" etc. Teve até musiquinha. (Só não teve quem dissesse, do lado do lobby desarmamentista, como convencer a bandidagem a se juntar a essa campanha tão bonita...)

A performance, porém, não convenceu, pois a maioria da população votante, 64%, rejeitou a idéia de se desarmar e ficar à mercê da bondade dos bandidos. Desconfio que a perspectiva de ficar desarmado em meio a índices crescentes de criminalidade teve alguma influência nessa decisão. (O fato de a maioria dos brasileiros não dispor de grana para contratar seguranças particulares, ao contrário de muitos artistas da Globo, também deve ter pesado no resultado.) Mas isso não significa que "eles" tenham desistido da idéia, como demonstrou o açodamento com que a Globo e alguns políticos usaram um massacre numa escola do Rio de Janeiro em abril para tentar ressuscitar - depois de menos de seis anos! - um novo plebiscito sobre o mesmo assunto... Ainda não vi acontecer mas, acreditem, é só questão de tempo para termos o privilégio de assistir novamente a José Mayer e Felipe Dylon cantando de mãos dadas na TV, vestidos de branco e fazendo o símbolo da paz para a câmera...

Outra empulhação constantemente repetida pelos globais, dessa vez de forma mais sutil, é a chamada "causa gay" (que eles chamam de "anti-homofobia"). Aqui, a forma de atuação é um pouco mais elaborada, embora nem por isso seja menos enganadora. Basta perder um pouco de tempo assistindo a algum capítulo de alguma telenovela da emissora fundada por Roberto Marinho para perceber, sem qualquer esforço mental, que a propaganda gayzista pauta totalmente o enredo, com personagens gays sempre simpáticos ou vítimas (E dificilmente seria diferente, com dez em cada dez roteiristas de novela gays militantes.) A última novela das nove, Insensato Coração, de Gilberto Braga, foi além, e acabou virando um palanque para o discurso gayzista, enaltecendo, por exemplo, a decisão inconstitucional do STF de reescrever o Artigo da Constituição que trata da organização familiar do país (uma decisão ilegal, como já escrevi aqui: http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2011/05/o-golpe-do-stf-e-uma-pergunta-gays-nao.html).

Inclusive no jornalismo da emissora, que nem é dos piores (vide Record e assemelhados), vez ou outra o embuste gayzista é apresentado como "notícia". Querem um exemplo? Há alguns meses, no embalo para aprovar, no Congresso, um projeto de lei que visa a instituir o delito de opinião no país (tornando ilegal, por exemplo, citar as passagens da Bíblia que condenam o homossexualismo e até piadas de bichinha), o Jornal Nacional anunciou com estardalhaço os números "assustadores" de uma pesquisa que revelaria, vejam só que absurdo, que o Brasil é um verdadeiro matadouro de homossexuais. Segundo a tal pesquisa, realizada - adivinhem - pelo Grupo Gay da Bahia do honestíssimo e imparcialíssimo sr. Luiz Mott, em 2010 foram assassinados em todo o território do Brasil o - vejam que terrível! - número "assustador" (o adjetivo que mais se ouviu no dia) de... 260 (duzentos e sessenta) homossexuais (!).

Esperem, tem mais: dentre esse número assombroso, diante do qual empalidecem os quase 50 mil mortos pelo crime organizado e desorganizado no Brasil no mesmo período (e que não merecem o mesmo tratamento por serem héteros), quantos teriam sido, comprovadamente, mortos por crime de ódio, ou seja, quantos teriam morrido por serem gays, pelas mãos de gente que odeia gays? Resposta: 11. Isso mesmo: 11 (onze). Os demais, quase a totalidade, foram gays que morreram nas mãos de outros gays (o michê que mata o cliente, ambos igualmente homossexuais, por exemplo). Duvidam? Então não acreditem em mim, acreditem em seus próprios olhos: (http://homofobianaoexiste.wordpress.com/relatorios/relatorio-2010/) (Só para lembrar: o Brasil tem 192 milhões de habitantes.)

Então? Realmente "assustador", não? Um verdadeiro genocídio, como gostam de dizer os militantes gayzistas. Faz Auschwitz parecer uma colônia de férias... Detalhe: em nenhum momento a reportagem da Globo e o Grupo Gay da Bahia dizem a fonte desses números tão assustadores, de modo que o número de 11 mortos em um ano pode ser bem menor. Realmente, o Brasil é um país "homofóbico", como sabe qualquer um que já foi à maior parada do orgulho gay do mundo, que, como todos sabem, não ocorre na Avenida Paulista, mas em Teerã...

Nada contra atores e "celebridades" terem suas opiniões e abraçarem as causas que quiserem. É um direito que lhes cabe, como a qualquer cidadão. Mas isso não lhes dá o direito de usarem seu status de celebridade para tentar se promover e enganar a opinião pública, usando e abusando de dados falsos e de oba-oba midiático. Que saibam, pelo menos, do que estão falando. Nos EUA, onde atores de Hollywood costumam defender causas em que realmente acreditam, ainda que impopulares (ao contrário do que ocorre por estas plagas, onde impera o mais irritante e tedioso bom-mocismo), é assim que acontece há décadas.

"Ih, acho que vou ter que pesquisar", diz no vídeo que virou uma das maiores piadas de 2011 a bela Ísis Valverde, cara de bobinha, com jeito de quem acabou de chegar e não está entendendo nada. Isso, Ísis: da próxima vez, pesquise. Mire-se no exemplo dos estudantes que responderam ao vídeo em que você aparece falando bobagem. Garanto que, se tivesse pesquisado, não teria entrado nessa roubada.

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P.S.: O "movimento" criado pelos globais que não sabem fazer contas nem conhecem geografia chama-se "movimento gota d'água". Um nome mais do que adequado. Afinal, o video que fizeram foi mesmo a gota d'água: uma obra-prima de desinformação e manipulação.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

A FOTO E A FARSA (OU: POR QUE NÃO SOU CONSPIRACIONISTA)

Vai um pouco de fogo amigo aí?

A foto divulgada alguns dias atrás pela revista Época, mostrando a jovem Dilma Vana Rousseff depondo perante um tribunal militar aos 22 anos de idade, em 1970, está dando o que falar. Dediquei meu último texto ao assunto, tentando deixar claro que se trata de mais uma formidável empulhação esquerdista para alimentar o mito da "guerrilheira heróica" – uma mentira que a própria Dilma faz questão de alimentar, recusando-se a dizer exatamente o que fez nessa época (é o único caso na História, repito, em que alguém se orgulha de um passado que tenta esconder). Não me refiro à foto em si, que – faço questão de frisar – considero verdadeira (pelo menos assim parece), mas ao embuste histórico que os esquerdistas querem vender junto com a mesma.

Pois bem. Já chego lá. Antes, porém, quero lembrar um fato.

Dois anos atrás, surgiu na internet o boato de que a blogueira cubana Yoani Sánchez, uma das maiores vozes de oposição à ditadura dos irmãos Castro em Cuba, seria agente do próprio regime (ou coisa que o valha). O rumor partiu de um grupo de exilados cubanos de Miami, anticastristas ferrenhos. Por algum motivo, eles não gostam de Yoani, ou a consideram uma concorrente, ou não a acham anticastrista o suficiente, sei lá eu. Alguns blogueiros no Brasil, por ingenuidade ou não, compraram a idéia, e passaram a divulgá-la. Muito bem. Que prova havia para balizar essa afirmação? Nenhuma. Nenhuma? Nenhuma mesmo. Nada? Nadica de nada. Enquanto isso, Raúl e Fidel Castro devem ter dado boas gargalhadas com a coisa toda, vendo seus opositores se digladiando sobre essa questão. Escrevi sobre o assunto, sobre o qual fiz até um desafio, que permanece, aliás, sem resposta: (http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2009/11/ainda-yoani-sanchez-ou-irracionalidade.html).

Citei o exemplo acima porque vejo algo parecido repetir-se agora, guardadas as devidas proporções, no caso da "foto da Dilma". Aqui e ali, vejo alguém levantar a hipótese de que a foto seja uma montagem. Levantar a hipótese, não: afirmar, taxativamente e sem sombra de dúvida, que a imagem é uma grosseira falsificação. Alguém teria retocado a foto, do mesmo modo que Stálin costumava mexer em antigas fotografias, delas apagando seus desafetos depois de mandar fuzilá-los.

É uma grande bobagem. Os "argumentos" apresentados pelos que dizem que a foto é falsa são de uma fragilidade constrangedora. Um deles seria o de que não haveria motivo para os militares na foto estarem cobrindo os rostos. De fato, motivo não há, assim como não havia motivo algum para posarem para a fotografia. É provavel que eles estivessem ocupados lendo o processo à sua frente, ou simplesmente cansados. É provavel que o momento e o ângulo da fotografia não os tenham favorecido. Já vi fotos minhas em que apareço com cara de raiva, quando estava rindo, e vice-versa. Enfim, há várias probabilidades.

Outro "indício" de que a imagem teria sido manipulada: tais fotos não eram tiradas durante esse tipo de interrogatório judicial, afirma-se. Aqui, nem preciso dizer nada. Basta mostrar:



A foto acima mostra o jovem Fernando Gabeira, de bigode e então militante do MR-8, sendo julgado por sua participação no sequestro do embaixador dos EUA, Charles B. Elbrick, ocorrido em 1969. A foto é mais ou menos da mesma época da foto em que Dilma estava sendo interrogada pelos militares. Nem precisa dizer, mas cada um nela vê o que quer. (A propósito: Gabeira fez a autocrítica dos anos de luta armada, ao contrário de Dilma.)


Eu não sei se a foto de Dilma depondo na Justiça Militar é autêntica ou não. Faltam-me os instrumentos técnicos necessários para fazer qualquer afirmação a respeito. Pessoalmente, acredito que sim, pois não vejo motivos para que seja falsa, embora esta seja uma opinião minha, pessoal, que pode ou não ser confirmada. Uma coisa, porém, não posso, nem devo, fazer: sair por aí gritando que a foto foi manipulada. Simplesmente digo que não sei, e pronto. Afinal, não sou especialista em fotografia.


Além do mais, se a foto é verdadeira ou retocada, é algo que não tem a menor importância. A mistificação não está na foto em si, mas na história (ou melhor: estória) que estão querendo colar nela. O photoshop não está na foto, mas no mito que estão tentando criar.


Para ficar mais claro: ainda que mostrem uma foto de Dilma sendo pendurada no pau-de-arara, ou recebendo choques elétricos na cadeira do dragão, a versão de que ela foi presa e torturada porque era uma lutadora pela democracia continuará sendo mentirosa, uma verdadeira afronta à verdade histórica. Isso porque democracia jamais esteve nos planos da luta armada.


Não é preciso exagerar os fatos para mostrar que os esquerdopatas desvirtuam a História para que se encaixe em seus próprios interesses. Do mesmo modo que não é preciso bater palmas para a repressão policial-militar, ou justificar a tortura, para condenar o que a esquerda armada fez como terrorismo. Os fatos bastam. E os fatos são os seguintes: a luta armada de esquerda, da qual a jovem Dilma fez parte, não queria democracia. Assim como os militares que a combateram, diga-se. Ambos os lados – terroristas e torturadores – eram inimigos entre si, mas partilhavam o mesmo ódio e o mesmo desprezo pela liberdade. E mataram pessoas. Os que foram mortos pela repressão são hoje homenageados e suas famílias recebem indenizações do Estado. Os que morreram sob os tiros e bombas da esquerda não são sequer lembrados.


É uma atitude saudável manter-se cético em relação ao que a esquerda diz a respeito de si mesma, ainda mais quando se trata de História. É preciso desconfiar, sempre. Mas uma coisa é um ceticismo racional, baseado em provas; outra coisa, totalmente diferente, é a negação pela negação, baseada tão-só na antipatia ideológica. Não raro, esse tipo de atitude irracional e ideológica (no pior sentido) acaba servindo aos propósitos de quem visa combater. O maior aliado da esquerda mitômana é uma direita burra e despreparada. O exemplo acima mostra por quê.


Tudo que a esquerda mais quer é um pretexto para desqualificar seus adversários como um bando de malucos e conspiracionistas. Com isso, espera alimentar os próprios mitos e deturpar a verdade histórica, apresentando-se como um paradigma de equilíbrio e racionalidade (ou, no caso em questão, como heróicos lutadores pela liberdade e pela democracia, o que é uma ofensa à inteligência). É uma pena que alguns, movidos por justa indignação pelas lorotas dos esquerdistas, acabem caindo no jogo deles.

sábado, dezembro 10, 2011

MORTOS SEM PEDIGREE (OU: O REVISIONISMO HISTÓRICO ESQUERDISTA EM AÇÃO)

Dilma depondo em 1970, aos 22 anos: a foto pode até ser autêntica, mas a História está cheia de photoshop

De todas as manobras ideológicas destinadas a falsear a realidade empregadas pelos militantes de esquerda, a revisão da História é, certamente, a mais desonesta. A mais deplorável. A mais canalha.

Recentemente, dois fatos deram um impulso adicional a esse processo revisionista em curso no Brasil.

O primeiro foi a criação de uma "comissão da verdade" teoricamente encarregada de investigar casos de violações dos direitos humanos ocorridos no país de 1946 a 1988.

Ao que tudo indica, porém, a tal comissão vai se dedicar somente a expor um lado da moeda, omitindo deliberadamente os crimes cometidos pela esquerda, como sequestros, assassinatos, explosões de bombas etc.

Seguirá, assim, o caminho trilhado por outra comissão - a da anistia - que se dedica, há anos, a contemplar com gordas indenizações famílias de guerrilheiros e ex-presos políticos, muitos dos quais autores de atentados cujas vítimas jamais receberam um centavo, ou mesmo um pedido de desculpas, da mesma comissão.

Nesse sentido, a tal "comissão da verdade" parece espelhar-se naquela criada recentemente pela presidente argentina Cristina Kirchner, com a missão de reescrever o passado da Argentina em termos peronistas, e cujo nome já diz tudo: "comissão de revisionismo histórico"...

Outro fato é uma fotografia, que permanecia até agora inédita, em que a futura presidente Dilma Vana Rousseff aparece sendo interrogada num tribunal militar em 1970, aos 22 anos de idade.

Aparentemente autêntica - pessoalmente, acredito que a foto é verdadeira, sem intervenção de photoshop -, a imagem certamente será usada à exaustão pela propaganda oficial para reforçar o mito da guerrilheira que enfrentou a ditadura etc.

O contraste, em preto-e-branco, da então camarada Stela, de cabeça erguida, e os militares que a interrogam cobrindo o rosto, como que envergonhados, cai como um luva para uma campanha de mistificação, mostrando Dilma como uma heroína da luta pela democracia, perante um tribunal de cruéis inquisidores fardados etc. etc. A versão, até agora unilateral, portanto impossível de ser confirmada, de que ela foi torturada (ainda mais por 22 dias, o que é improvável) reforça a imagem de Joana D'Arc revolucionária.

Assim como aconteceu com o mito do ex-operário "formado na escola da vida" que não trabalha desde 1975 e que só não estudou porque não quis, está em andamento o mito da guerrilheira heróica que ninguém sabe ao certo o que fez.

Quase ninguém se lembrará do motivo por que Dilma, afinal, foi presa e condenada a três anos de prisão: sua participação (que ela chama de "crime de organização") em três grupos terroristas de extrema-esquerda - COLINA, VPR e VAR-Palmares - que praticavam assaltos a bancos ("expropriações", na novilíngua criada pela esquerda radical), atentados à bomba ("avisos"), seqüestros ("capturas"), e assassinatos ("justiçamentos"), entre outros crimes que configuram terrorismo ("guerrilha", segundo o vocabulário politicamente correto).

Também quase ninguém recordará que, de democrática, a luta dessas organizações armadas não tinha nada: pelo contrário, como deixam claro os documentos da época produzidos pelas próprias organizações armadas de esquerda (e reunidos por Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá no livro Imagens da Revolução), o que as guiava não era o desejo de restaurar as liberdades democráticas, que desprezavam como "burguesas", mas, na verdade, a revolução socialista.

Era, enfim, o desejo de transformar o Brasil, então dominado por uma ditadura militar de direita, em uma ditadura de esquerda. Tal como em Cuba ou na Coréia do Norte, países dos quais a luta armada no Brasil recebeu, aliás, auxílio material, em dinheiro e treinamento.

A propósito: precisa dizer qual seria pior - a ditadura autoritária dos generais (que já acabou há anos) ou a ditadura totalitária do partido (que permanece nesses países)?

(Um parêntese: no ano passado, o historiador Carlos Fico tentou na Justiça a liberação de documentos do antigo DOPS sobre a então guerrilheira Dilma Rousseff. Por força de mandado judicial, o STM impediu a divulgação dos documentos.

Eis a oportunidade de ouro para a presidente Dilma mostrar seu compromisso com a transparência e com o resgate da verdade. Se seu passado é assim tão glorioso, por que ela se empenha tanto em impedir que ele venha à tona? Fecha parêntese.)

Lembrar esses fatos, como já escrevi aqui, tem sido um tabu no Brasil. Graças a décadas de hegemonia ideológica esquerdista, a versão da História que se tornou oficial e corrente contempla um lado apenas, o dos "vencidos".

Trata-se de um processo de apagamento seletivo da memória, à moda stalinista. Como tal, é um dos maiores exemplos de seqüestro da História e de desonestidade intelectual de que já se teve notícia.

É o mesmo processo que está por trás do fato de que simplesmente lembrar, por exemplo, os mais de 100 milhões de vítimas fatais do comunismo no século XX seja visto como uma forma de minimizar ou mesmo de justificar as atrocidades "de direita", nazistas ou militares. Como se criticar o Gulag e o paredón significasse enaltecer Auschwitz!

De maneira semelhante, recordar que houve crimes de morte também por parte dos que pegaram em armas contra o regime de 1964 é considerado uma justificativa ou um elogio da repressão policial-militar do período. Como se condenar o terrorismo fosse o mesmo que aprovar ou aplaudir a tortura de presos políticos...

O resultado dessa manipulação histórica, além da óbvia mistificação, é que qualquer comparação entre regimes e ideologias passa a ser proibida. Assim, afirmar que o comunismo matou mais, e com muito mais requintes de sadismo, do que todos os regimes de direita juntos, e mesmo que exterminou mais comunistas do que seus inimigos de classe - vejam os expurgos stalinistas, ou a "revolução cultural" maoísta -, é visto não como simples enumeração de um fato histórico objetivo, mas como ofensa e propaganda, como sinônimo de "reacionarismo".

Subjacente a isso está, obviamente, o aniquilamento de qualquer senso de proporcionalidade. Mal passa pelo cérebro dos que se opõem a qualquer comparação que comparar não é o mesmo que desculpar ou absolver. Se fosse assim, o Direito Penal, que pune com penas diferentes crimes diferentes, de acordo com a gravidade do crime e com o número de vítimas, deveria ser, portanto, extinto. É algo que, de tão óbvio, chega a me dar certo constragimento em mencionar.

Claro, sempre haverá quem se recuse a comparar os crimes de parte a parte, negando-se a fazer "contabilidade macabra" pois afinal "uma vida é uma vida" etc. Quem assim procede só pode fazê-lo por cinismo ou por ingenuidade, eivada de sentimentalismo barato.

O mesmo argumento - "uma vida é uma vida" - é brandido pelos que não se cansam de recordar os cerca de 3 mil mortos pela ditadura de Pinochet no Chile, ou os 30 mil desaparecidos políticos na Argentina, mas não dizem uma palavra sobre os cerca de 100 mil mortos em decorrência da ditadura dos irmãos Castro em Cuba.

São os mesmos que repetem, como se fosse um troféu, o número de 424 mortos pela repressão política no Brasil em 21 anos de regime militar, mas insistem em ignorar as 120 vítimas fatais (muitas das quais, inocentes civis) das ações terroristas de esquerda no mesmo período.

É verdade que uma vida é uma vida. Mas, no mundo mental da esquerda, algumas valem mais do que outras. Trocando em miúdos: mortos são mortos, mas alguns têm pedigree. Os da esquerda, claro.

Estes, assim como os ex-terroristas, têm direito a indenizações e homenagens. Já as vítimas do terrorismo esquerdista não têm direito sequer a um nome.
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P.S.: O nome do livro do qual foi retirada a foto que mostra a então jovem Dilma sendo julgada em 1970 é A vida quer é coragem, do petista Ricardo Amaral. Um título mais do que apropriado. Quando será que a heróica guerrilheira vai mostrar essa coragem, revelando, finalmente, o que fez nesse período? Afinal, quem tem coragem não teme a verdade - toda a verdade, não é mesmo?

terça-feira, dezembro 06, 2011

LUPI, ORLANDO, NOVAIS, ROSSI, PALOCCI...

Ai que preguiça...

Com a queda do fanfarrão Carlos Lupi, já são 1.240 os ministros do governo Lul..., digo, Dilma, despejados de seus gabinetes por falcatruas. Menos da metade disso já seria suficiente para derrubar qualquer governo. Mas não o da Muda Pudorosa. Sacumé, a mulher tem costas quentes. Eu já tinha percebido isso quando escrevi o texto abaixo, de 27 de outubro.

As fotos acima, do dia da posse da supergerenta, não deixam dúvidas: como escreveu o AUgusto Nunes, além do doutor que nunca leu um livro, o Brasil tem a única faxineira do mundo que gosta de lixo.

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E LA NAVE VA...

Mais um ministro do governo Lula-Dilma foi pro saco. O camarada Orlando Silva não resistiu à maré de ladroagem dentro da pasta dos esportes, que transformou num comitê do PCdoB. E foi substituído... por um camarada do PCdoB!

Foi o 1.239o ministro a ser defenestrado em menos de um ano. E podemos ter algumas certezas:

- Nao será o ultimo;

- A imprensa domesticada continuará dizendo que Dima-Lula não tem nada a ver com nada: inventará até que está havendo uma "faxina"...;

- A massa ignara engolirá mais essa;

- No final, tudo voltará a ser como dantes na terra de abrantes.

E assim caminha o Brasil da era da mediocridade lulopetista...

sexta-feira, novembro 25, 2011

A RATA QUE FINGE RUGIR

Um quadro hilariante do blog de humor Kibe Loco está fazendo sucesso na internet. Ele mostra um ator imitando Dilma Rousseff, distribuindo broncas a seus ministros (a julgar pela regularidade praticamente semanal de escândalos de corrupção no atual governo, os produtores do quadro não têm por que se queixar de falta de material). Berrando palavrões em um telefone do tempo da brilhantinha, com direito a um vestidinho vermelho e sotaque fake mineiro, a Dilma de araque sai despejando impropérios a seus subordinados, terminando sempre com um "beijo no coração, filhinho".

Achei o quadro muito bom, em primeiro lugar, pois a imitação é excelente, e vez ou outra ajuda a desvelar o imenso vazio mental que desde primeiro de janeiro último dá expediente no Palácio do Planalto. Em um dos episódios, por exemplo, Dilma aparece puxando a orelha do humorista Rafinha Bastos por causa da piada de mau gosto sobre a cantora Wanessa. "Isso é coisa que se diga, seu filho da puta? Você está pensando que pode falar isso como se fosse num programa de humor?", esbraveja a Dilma-mandona. "O quê? Ah, você disse isso num programa de humor? Eu não sabia...", emenda Dilma logo depois, ao ser informada que a piada foi dita no CQC da TV Bandeirantes...

Alguns jornalistas, porém, parecem ter visto algo diferente no quadro do Kibe Loco. Marcelo Coelho, por exemplo, escreveu uma coluna inteira na Folha de S. Paulo sobre a imitação de Dilma. Para ele, que deve estar ansioso para criar o humor a favor, a imitação é um elogio à presidenta-gerenta. No texto da Folha, Coelho dá vazão a suas fantasias sobre a gerentona: segundo ele, ao dar broncas em seus ministros corruptos, Dilma estaria externando um desejo inconsciente do povo brasileiro. Mais: ao berrar palavrões e impropérios ao telefone, a escolhida de Lula estaria fazendo o papel da oposição. (Nesse ponto ele não deixa de ter alguma razão: afinal, a oposição no Brasil, se existe, está escondida.)

O artigo elogioso de Marcelo Coelho à sua adorada Dilma, usando um quadro de humor como desculpa, reflete um aspecto curioso do mito criado em torno da criatura de Lula da Silva. Por alguma razão inexplicável, atribui-se a Dilma Vana Rousseff uma aura de competência administrativa, que se manifestaria num temperamento explosivo. Enfim, "everyone fears Dilma", como diz o nome do quadro.

Por experiência própria, tanto pessoal quanto profissional, aprendi a distinguir competência de neurose, cobrança eficiente de um simples chilique. A primeira coisa denota eficácia e profissionalismo; a segunda, mera arrogância e/ou descontrole emocional. Pelo visto, Dilma está na segunda categoria.

Ao ser escolhida sucessora de Lula, Dilma foi apresentada como uma técnica extremamente qualificada, uma supergerente com dotes administrativos superlativos etc. e tal. A farsa não durou muito, soterrada por revelações como a falsificação do curriculum vitae e assinaturas em documentos, como o programa de governo, que ela sequer leu. Não faz muito tempo, quando ainda era ministra, a supergerente ultraeficaz e técnica hiperqualificada sumiu durante dois dias para não ter de dar explicações sobre um apagão elétrico que deixou metade do país às escuras. Essa é Dilma.

No lugar do mito da gerentona ultracompetente e ultraqualificada, entrou outro, o da mãe autoritária que dá bronca nos "filhinhos" levados. Ainda estou para ver o dia em que essa brabeza toda se revele algo mais do que uma peça de marketing. Dilma, dizem, vez ou outra vira uma leoa, distribuindo esporros para os subordinados, que tremeriam de medo diante da Poderosa. Basta um pequeno exercício, porém, para que essa máscara de dureza caia por terra: diante de Lula, que a pariu, Dilma vira um doce de servilismo. "Nem sob tortura vocês vão me fazer discordar do presidente", chegou a dizer a falsa durona, durante a campanha eleitoral em 2010, quando instada por jornalistas a dizer o que pensava sobre as declarações inacreditáveis de Lula em Cuba, onde acabara de comparar presos políticos a bandidos do PCC. A mãezona super-rigorosa vira uma serva fiel diante do Apedeuta, a ponto de não ter o que dizer quando ele ofende a humanidade. Marcelo Coelho acha que o sucesso do quadro humorístico sobre Dilma prova que ela é popular porque, entre outras coisas, estaria fazendo as vezes de oposição. Oposição a quê? a quem? a ela mesma?

Para coroar essa pantomima, verdadeira operação "rata que ruge" (ou melhor: que finge rugir), há quem compare Dilma a Margaret Thatcher, a poderosa primeira-ministra britânica dos anos 80. Só pode ser brincadeira. Ao contrário da criação de Luiz Inácio, a Dama de Ferro não dispunha de nenhum padrinho influente, e teve que enfrentar a oposição ferrenha da imprensa e da quase totalidade do establishment cultural da Grã-Bretanha. Thatcher deveu seu apelido não a qualquer chilique (coisa, aliás, muito pouco compatível com a imagem de dureza que transmitia), mas à sua disposição ferrenha de peitar - e vencer - os poderosos sindicatos ingleses, que impediam reformas cruciais e entravavam havia décadas a economia do país. E Dilma, quando vai deixar de ser pautada pela imprensa e fazer a tal "faxina" (que ela já negou, aliás, que existe)?

No meio de mais essa patacoada, quem acertou em cheio foi Augusto Nunes, colunista da VEJA. Em artigo recente, ele escreveu o óbvio: assim como Lula tornou-se doutor honoris causa sem jamais ter lido um livro, Dilma virou a faxineira que adora conviver com o lixo. O mesmo pode ser dito da Dilma durona e cobradora de resultados: mais uma invenção da imprensa companheira, que já havia ajudado a inventar o Lula.

É compreensível que parte dos jornalistas brasileiros se encante com Dilma, a ponto de criar um mito comparável ao mito Lula. Afinal, este é tão desbragadamente farsesco e histriônico que qualquer coisa, comparada a ele, parece infinitamente superior.Depois de oito anos de palavrório e de fanfarronadas, a mudez de Dilma aparece como uma virtude (sua única virtude, aliás: quando fala, Dilma Rousseff faz Weslian Roriz parecer uma virtuose de lógica e o palhaço Tiririca, um modelo de correção gramatical...) Daí a mais uma mistificação é somente um passo, levando muitos a se esquecerem que a criatura é um reflexo direto do criador, e não seu oposto. Para comprovar que o antilulismo de muitos comentaristas é mesmo superficial, Arnaldo Jabor chegou a dizer que Dilma é "bonita e inteligente" (!).

Quem já viu Dilma falar sobre qualquer assunto já percebeu que ali não está uma técnica superqualificada, ou uma dama de ferro que não tolera corrupção (ou "malfeitos", como eufemisticamente - e mentirosamente - disse em seu discurso de posse), mas tão-somente uma figura apagada, uma tarefeira pinçada do meio da militância por falta de alternativa (as duas primeiras opções, Zé Dirceu e Antonio Palocci, enrolados em escândalos, foram descartados), totalmente subserviente ao chefe e incapaz de um pensamento próprio, ou de um raciocínio coerente, por mínimo que seja. Não uma dama de ferro, mas uma marionete com cabeça de palha. Alguém, enfim, que, como eu já disse aqui, não existe, a não ser no cérebro de alguns colunistas embasbacados da Folha de S. Paulo.

Enfim, uma verdadeira "Dilma Duchefe", como dizia o Casseta & Planeta.

HOMENAGEM A QUEM MERECE




Tenho verdadeiro horror a homenagens, honrarias, panegíricos, essa coisa meio Rolando Lero, tão ao gosto de nossa cultura bacharelesca, em que a rasgação de seda é uma espécie de esporte nacional. É uma característica do Brasil, infelizmente, o discurso elogioso, pomposo, reverente, servil mesmo, com que muitos intelequituais e subintelequituais de botequim tanto se empenham em cair nas graças e ganhar os favores dos poderosos de plantão, não raro perdendo o senso do ridículo no meio do caminho. Considero tudo isso uma palhaçada, um dos aspectos mais nefastos de nossa cultura (outro, igualmente pernicioso, é a ausência completa de qualquer firme convicção moral).

Um dos motivos que me levaram a criar este blog foi justamente a necessidade de me contrapor a essa discurseira vazia e obsequiosa, que revela em cada adjetivo pomposo o desejo irrefreável de bajular, a vocação para cortejar os donos do poder e o puxa-saquismo, que, na era lulopetista, atingiu níveis estratosféricos. Como demonstram os títulos de doutor honoris causa concedidos ao Apedeuta, esse tipo de homenagem quase nunca tem a ver com algum mérito do homenageado. Apesar disso – ou por causa exatamente disso, melhor dizendo – vou fazer, neste texto, algo que não é do meu costume. São dois elogios. Duas homenagens.

A primeira vai para um político. Um político? Isso mesmo. Nem todos, felizmente, estão no ramo apenas para se locupletar. Uns poucos, uma pequeníssima minoria, têm o que dizer. O senador Jarbas Vasconcelos faz parte dessa minoria. Embora filiado ao PMDB, ele é uma voz dissonante, um dissidente. Algum tempo atrás, em entrevista à VEJA, ele disse o que quase ninguém, muito menos um político, tem a coragem de dizer: afirmou claramente que o PMDB é um partido corrupto e teve a ousadia (e a falta de tato político) de dizer que o Bolsa-Família, a menina dos olhos do governo lulopetista, é o maior programa de compra de votos do mundo. Sua sinceridade custou-lhe caro. Nas últimas eleições, ele se candidatou ao governo de seu estado natal, Pernambuco. Adotou o mesmo discurso suicida, usando o horário político para criticar também a farsa nacional da companheira Dilma. Resultado: perdeu de lavada, no primeiro turno. Recebeu pouco mais de 585 mil votos, ou meros 14% do total, ficando muito atrás do governador Eduardo Campos e sua formidável máquina eleitoral. Indo contra a corrente, fez uma campanha de denúncia do assistencialismo e do fisiologismo que, com os petralhas, tomou conta de tudo e de todos. Por isso, por dizer o que pensa, e não o que mais lhe conviria eleitoralmente, ele virou um pária, um leproso da política. Por isso também, Jarbas Vasconcelos merece uma estátua em praça pública.

Minha segunda homenagem, póstuma, vai não para um político, mas para um artista (duas coisas que, no Brasil, costumam misturar-se). O músico Zé Rodrix, falecido em 2009, não foi uma superestrela. Não tinha cara, nem pinta, de pop star. É possível que as gerações mais novas jamais tenham ouvido falar dele. Compositor de outra época, ele não se notabilizou exatamente pelo marketing pessoal. Sua contribuição à música brasileira foi a invenção do "rock rural" nos anos 70, com canções como Casa no Campo, eternizada na voz de Elis Regina. Mas deixou, além de belas músicas, um legado que ninguém poderá apagar. Em toda sua vida artística, que durou décadas, Zé Rodrix jamais – nunca, jamais mesmo – aceitou qualquer forma de financiamento oficial. Todos os seus shows e projetos artísticos foram bancados do próprio bolso, ou com patrocínio particular. Uma frase sua que costumava repetir era de uma clareza cortante em sua simplicidade: "Não vejo motivo para gastar o dinheiro do contribuinte num projeto pessoal". Somente por isso já merece um monumento.

Tanto Jarbas Vasconcelos quanto Zé Rodrix são dois casos excepcionalíssimos no Brasil de hoje, avacalhado pela idéia de levar vantagem e pela falta de separação entre o público e o privado. Dois exemplos raros de coragem e de integridade, de compromisso com idéias e não com interesses, em meio a um oceano de cupidez e pusilanimidade. Um político que não se rebaixa à condição de áulico do poder, ainda mais do poder lulopetista, já é uma raridade. Um artista que não aceita receber dinheiro estatal é algo simplesmente assombroso; merece figurar em qualquer lista de fatos edificantes da História da Humanidade.

Sem dúvida, tanto o senador dissidente quanto o músico que não aceitava grana do governo têm e tinham defeitos. No caso de Jarbas Vasconcelos, o fato de pertencer a um partido coalhado de oportunistas e picaretas como o PMDB é mais do que um defeito: trata-se de uma contradição insanável. Mas de uma coisa ninguém pode duvidar: ambos são vozes destoantes na indigente vida política e cultural brasileira. Pelo simples fato de dizerem "não" quando todos dizem “sim”, de dizerem “êpa” quando todos repetem bovinamente “êba”, tornaram-se motivo de vergonha para seus pares. Com isso, mostraram que é possivel, sim, fazer política e arte com dignidade e vergonha na cara. E por isso merecem todo meu respeito.

quarta-feira, novembro 23, 2011

UM TEXTO IMPECÁVEL SOBRE A CHANCHADA DA USP: "O ERRO DE FOUCAULT"

É raro, mas de vez em quando alguém publica algo que presta na Folha de S. Paulo. É o caso do texto a seguir, de Luiz Felipe Pondé, que saiu em 21/11. Um resumo mais que perfeito do vazio intelectual que tomou conta das universidades brasileiras, a começar pela USP. Merece meu aplauso.
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O erro de Foucault

Você sabia que o pensador da nova esquerda Michel Foucault foi um forte simpatizante da revolução fanática iraniana de 1979? Sim, foi sim, apesar de seu séquito na academia gostar de esconder esse “erro de Foucault” a sete chaves.

Fico impressionado quando intelectuais defendem o Irã dizendo que o Estado xiita não é um horror.

O guru Foucault ainda teve a desculpa de que, quando teve seu “orgasmo xiita”, após suas visitas ao Irã por duas vezes em 1978, e ao aiatolá Khomeini exilado em Paris também em 1978, ainda não dava tempo para ver no que ia dar aquilo.

Desculpa esfarrapada de qualquer jeito. Como o “gênio” contra os “aparelhos da repressão” não sentiu o cheiro de carne queimada no Irã de então? Acho que ele errou porque no fundo amava o “Eros xiita”.

Mas como bem disse meu colega J. P. Coutinho em sua coluna alguns dias atrás nesta Folha, citando por sua vez um colunista de língua inglesa, às vezes é melhor dar o destino de um país na mão do primeiro nome que acharmos na lista telefônica do que nas mãos do corpo docente de algum departamento de ciências humanas. E por quê?

Porque muitos dos nossos colegas acadêmicos são uns irresponsáveis que ficam fazendo a cabeça de seus alunos no sentido de acreditarem cegamente nas bobagens que autores (como Foucault) escrevem em suas alcovas.

No recente caso da USP, como em tantos outros, o fenômeno se repete. O modo como muito desses “estudantes” (muitos deles nem são estudantes de fato, são profissionais de bagunçar o cotidiano da universidade e mais nada) agem, nos faz pensar no tipo de fé “foucaultiana” numa “espiritualidade política contra as tecnologias da repressão”.

E onde Foucault encontrou sua inspiração para esse nome chique para fanatismo chamado “espiritualidade política”?

Leiam o excelente volume “Foucault e a Revolução Iraniana”, de Janet Afary e Kevin B. Anderson, publicado pela É Realizações, e vocês verão como a revolução xiita do Irã e seu fascínio pelo martírio e pela irracionalidade foram importantes no “último Foucault”.

As ciências humanas (das quais faço parte) se caracterizam por sua quase inutilidade prática e, portanto, quase impossibilidade de verificação de resultados.

Esse vazio de critérios de aplicação garante outro tipo de vazio: o vazio de responsabilidade pelo que é passado aos alunos.

Muitos docentes simplesmente “lavam o cérebro” dos alunos usando os “dois caras” que leram no doutorado e que assumem ter descoberto o que é o homem, o mundo, e como reformá-los. Duvide de todo professor que quer reformar o mundo a partir de seu doutorado.

Não é por acaso que alunos e docentes de ciências humanas aderem tão facilmente a manifestações vazias, como a recente da USP, ou a quaisquer outras, como a dos desocupados de Wall Street ou de São Paulo.

Essa crítica ao vazio prático das ciências humanas já foi feita mesmo por sociólogos peso pesado, em momentos distintos, como Edmund Burke, Robert Nisbet e Norbert Elias.

Essa crítica não quer dizer que devemos acabar com as ciências humanas, mas sim que devemos ficar atentos a equívocos causados por essa sua peculiar carência: sua inutilidade prática e, por isso mesmo, como decorrência dessa, um tipo específico de cegueira teórica. Nesse caso, refiro-me ao seu constante equívoco quanto à realidade.

Trocando em miúdos: as ciências humanas e seus “atores sociais” viajam na maionese em meio a seus delírios em sala de aula, tecendo julgamentos (que julgam científicos e racionais) sem nenhuma responsabilidade.

Proponho que da próxima vez que “os indignados sem causa” ocuparem a faculdade de filosofia da USP (ou “FeFeLeCHe”, nome horrível!) que sejam trancados lá até que descubram que não são donos do mundo e que a USP (sou um egresso da faculdade de filosofia da USP) não é o quintal de seus delírios.

Agem com a USP não muito diferente da falsa aristocracia política de Brasília: “sequestram” o público a serviço de seus pequenos interesses.

No caso desses “xiitas das ciências humanas”, seus pequenos delírios de grande “espiritualidade política”.

sábado, novembro 19, 2011

ALÔ, SENHORES DA "COMISSÃO DA VERDADE": VEJAM ESTE CASO

Atentado à bomba cometido pela esquerda armada em Recife, 25/07/1966: a "comissão da verdade" irá investigar esse caso?

No último dia 18, Dilma Vana Rousseff assinou, com grande estardalhaço, duas leis. A primeira, dizem os jornais, chama-se "de acesso à informação", e tem por objetivo (uso as palavras da imprensa), permitir o acesso da população a arquivos sigilosos do governo, em nome da transparência. A segunda cria uma autodenominada Comissão da Verdade (assim, com maiúsculas). Sua missão declarada é investigar crimes de natureza política e violações de direitos humanos ocorridos no Brasil no período de 1946 a 1988. Tudo em nome da verdade e da justiça etc.

Que beleza, não?

Já deixei claro, em outros textos, o que acho da idéia de se criar uma comissão para apurar crimes políticos do passado: sou total e radicalmente a favor. Apenas com uma diferença dos que estão no governo: quero que toda a verdade - toda ela, e não a metade que convém mostrar - sobre esse e outros períodos da História do Brasil venha à tona. Desejo sinceramente que todos os crimes, todos os assassinatos, os casos de tortura, os sequestros, enfim, tudo - sejam revelados ao público, com todos os seus mórbidos detalhes. Sou mesmo pornográfico quando se trata desse assunto: que se mostre tudo, não se esconda nada.

Dessa vez os donos da verdade, da moral e da ética resolveram expandir o período de investigação, chegando até 1946. OK, acho que se deve investigar esse período também. Gostaria, aliás, que se retrocedesse até antes dessa data. Por que não investigar, por exemplo, a ditadura do Estado Novo varguista (1937-1945), perto da qual a ditadura militar, em matéria de tortura, foi até boazinha? Será que é porque Getúlio Vargas, o ditador de então, é um ícone da esquerda tupiniquim, sendo até hoje venerado como pai dos pobres por parte dela? Mas, peraí, a tal comissão não vai ser suprapartidária, acima das ideologias etc. e tal?...

Mas deixa pra lá. O importante é que vamos ter uma comissão, formada por sete pessoas escolhidas pela ex-camarada Stela "que tenham conduta ética e atuação relevante na defesa dos direitos humanos" etc. etc. Aí vai, portanto, uma sugestão de caso a ser investigado por essas pessoas, minha modesta contribuição ao esclarecimento da verdade sobre a História recente do Brasil.

Eis o fato, narrado por um de seus protagonistas (coloquei a parte mais chocante em negrito):

Algo também marcante aconteceu com um sujeito encarregado de zelar pela gráfica do Partido, em Belo Horizonte. O fulano, comprovadamente, não apenas entregou à polícia nossas instalações, como delatou companheiros, que acabaram presos em conseqüência disso. Aparentemente, o homem queria estabelecer-se como uma espécie de espião, dentro do PCB. Nem desconfiava que já sabíamos de sua traição. Convocado para uma reunião, foi levado a um aparelho. Lá chegando, foi sumariamente executado. Seu corpo foi derretido com ácido muriático numa banheira e os restos, despejados na latrina.

Então, que acharam?

Revoltante, não?

Querem saber de onde tirei o parágrafo acima? Do livro Memórias de um Stalinista (Editora Ópera Nostra, 1994), do dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) Hércules Corrêa (falecido em 2008). Está lá, para quem quiser ver, na página 73 do livro. O trecho relata o assassinato ("justiçamento", no linguajar esquerdista) de um membro do partido pelos próprios companheiros. Um crime brutal, com requintes de frieza e barbárie (desnecessário dizer, mas a vítima é, desde então, um desaparecido político). O fato ocorreu provavelmente nos anos 40 ou 50 (infelizmente, Corrêa não precisa a data, nem nomeia a vítima, o que torna ainda mais absurdo o crime). Dentro da época, portanto, coberta pela "comissão". A pergunta é: ela vai investigar esse caso também?

Aí está, senhores membros da "comissão da verdade"! Eis uma oportunidade para provarem que estão mesmo interessados em trazer à tona os casos de crimes políticos e violações de direitos humanos no Brasil nos últimos sessenta e tantos anos. É a sua chance de mostrar que são mesmo imparciais, e que só querem que a verdade seja revelada, independentemente de filiações partidárias e de conveniências políticas. Agora é com os senhores.

Tenho certeza de que, honestos e comprometidos com os direitos humanos como são, os membros da comissão recém-criada irão tratar o caso narrado acima com a mesma atenção e com o mesmo interesse com que tratarão os casos de guerrilheiros mortos durante o regime militar. Assim como diversos outros casos semelhantes de "justiçamentos" cometidos pela esquerda, antes e depois de 1964. Não será por falta de exemplos, certamente.

Desconfio, porém, que o trabalho da comissão vai ficar pela metade. Afinal, a presidenta (aliás, por que "presidenta"? por acaso existe "gerenta"?) da transparência e da verdade é a mesma que há mais de um ano impede na Justiça que um pesquisador do Rio de Janeiro tenha acesso a seu prontuário do DOPS, que poderia revelar o que ela fez exatamente como militante de várias organizações armadas de extrema-esquerda nos anos 60 (deve ser o único caso no mundo de alguém que se diz orgulhosa do próprio passado e que, ao mesmo tempo, se esforça em escondê-lo...). Também é a mesma democrata que, em nome do repúdio a ditaduras passadas, endossa e aplaude ditaduras presentes.

Ah, sim! Também acho um absurdo a tal comissão não ter poder para punir os responsáveis pelos crimes que irá investigar. Para mim, lugar de torturador é mesmo a cadeia. O mesmo vale para terroristas - e para quem dissolve seres humanos em banheiras com ácido. Se é para revogar a Lei de Anistia de 1979, que seja para punir os dois lados (a foto acima mostra por quê).

Enfim, vejamos se as duas novas leis criadas pelo governo da gerentona bravinha vão ajudar a esclarecer o fato narrado aí em cima. Algo me diz que não, e que a coisa toda não passa de mais um fogo de artifício criado pelos petralhas para fazer proselitismo vagabundo e enganar os trouxas. Mas sempre resta uma esperança.

Afinal, trata-se de uma comissão "da Verdade", certo?

segunda-feira, novembro 14, 2011

A USP E A FOLHA



Por Olavo de Carvalho (na Folha de S. Paulo)


Nos anos 1930-1940, quando a USP ainda estava se constituindo administrativamente e o espírito dessa comunidade se condensava na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a luta dos estudantes contra a ditadura getulista expressa o anseio de uma ordem constitucional democrática, como viria a ser proposta consensualmente em 1945 pelas duas alas da UDN, o conservadorismo cristão e a esquerda democrática.

O suicídio de Getulio Vargas e o recrudescimento espetacular do getulismo na década seguinte afetam profundamente a mentalidade uspiana, que, num giro de 180 graus, adere ao discurso nacional-progressista, em que a ênfase já não cai no culto das liberdades democráticas, mas nos programas sociais nominalmente destinados a erradicar a pobreza, ainda que ao custo do intervencionismo estatal crescente.

Surge nessa época o mito da "camada mais esclarecida da população", que, se conferia aos estudantes o estatuto de guias iluminados da massa ignara, ao menos lhes infundia algum senso de gratidão e de responsabilidade.

Nos anos 1960, o nacional-progressismo uspiano transmuta-se em marxismo explícito, com a adesão maciça do estudantado à revolução continental orquestrada em Cuba. As correntes liberais e democráticas desaparecem, só restando, como simulacro de pluralismo, as divisões internas do movimento comunista: stalinistas, trotskistas, maoístas etc.

Nas duas décadas seguintes, a esquerda internacional, sob a inspiração da "New Left" americana (herdeira da Escola de Frankfurt), vai abandonando as formulações marxistas dogmáticas para ampliar a base social do movimento, absorvendo como forças revolucionárias todas as insatisfações subjetivas de ordem racial, familiar, sexual etc., muitas das quais a alta hierarquia comunista condenava como irracionalistas e pequeno-burguesas.

Ao mesmo tempo, no Brasil, a derrota das guerrilhas abre caminho à adoção da estratégia gramsciana, que integra como instrumentos de guerra cultural o "sex lib", a apologia das drogas e a legitimação da criminalidade como expressão do "grito dos oprimidos".

O fracasso do modelo soviético acentua ainda a flexibilização do movimento revolucionário, com o abandono da hierarquia vertical e a adoção do modelo organizacional em "redes".

Bilionários globalistas passam a patrocinar movimentos esquerdistas por toda parte, de modo que rapidamente o discurso agora chamado "politicamente correto" se erige em opinião dominante, inibindo e marginalizando toda oposição conservadora ou religiosa, que se refugia em grupos minoritários cada vez mais desnorteados ou entre as camadas sociais mais pobres, desprovidas de canais de expressão.

Os efeitos desse processo na alma uspiana foram profundos e avassaladores: consagrados como representantes máximos do novo ethos global, os estudantes já não têm satisfações a prestar senão a seus próprios impulsos e desejos.

O jovem radical ególatra, presunçoso e insolente, a quem todos os crimes são permitidos sob pretextos cada vez mais charmosos, tornou-se o modelo e juiz da conduta humana, a autoridade moral suprema a quem o próprio consenso da mídia e do establishment não ousa contrariar de frente, sob pena de se autocondenar como reacionário, fascista, assassino de gays, negros e mulheres etc. etc. etc.

Há quem reclame dos "excessos" cometidos por aqueles jovens, mas a expressão mesma denota a queixa puramente quantitativa, a timidez mortal de contestar na base uma ideologia de fundo que é, em essência, a mesma de deputados e senadores, professores e reitores, ministros de Estado e empresários de mídia -a ideologia de todo o establishment, de todas as pessoas chiques.

A ideologia, em suma, da própria Folha de S.Paulo.

(OC é filósofo e escritor)

sábado, novembro 12, 2011

DE PEQUENOS E GRANDES CORRUPTOS

Esta semana, duas notícias pareceram mostrar que, apesar de tudo, o Brasil está melhorando. A primeira foi a retomada ordeira e sem incidentes, pela polícia, da reitoria da USP, que havia sido invadida e vandalizada por um bando de bebês mimados com saudades da época da ditadura militar. A segunda foi a ocupação, também pela polícia, da favela da Rocinha, a maior do Rio de Janeiro, onde vigorava há décadas a lei do narcotráfico. No plano internacional, outra boa nova foi a eliminação na Colômbia, pelas forças da ordem, de Alfonso Cano, comandante dos narcobandoleiros das FARC, que há mais de quarenta anos enlutecem o país vizinho e exportam drogas e violência para o resto do continente.

Os três fatos estão intimamente relacionados. Os vândalos da USP foram desalojados na operação de reintegração de posse porque - vamos relembrar - queriam a PM fora do câmpus, depois que três maconheiros foram flagrados no local. A mesma "causa" movia os traficantes da Rocinha no Rio, a começar por Nem, o chefe do narcotráfico na favela, preso alguns dias antes da retomada do morro pela polícia. As FARC, nem é preciso lembrar, vivem da exploração de drogas como a cocaína, que exportam para os morros cariocas (diga-se de passagem, ainda não vi, e espero ver um dia, um traficante das FARC ser preso no Brasil, ao invés de receber proteção do governo como "refugiado político", como aquele ex-padre de Brasília). Nos três casos, enfim, uma derrota do banditismo e uma vitória da lei e da democracia.

Das três notícias, a expulsão dos baderneiros da reitoria da USP tem um significado especial. O fato pode significar o começo de uma revolução mental nas universidades brasileiras. Assim como, pela primeira vez em trinta anos, os moradores da Rocinha podem respirar aliviados após a expulsão dos traficantes, e a população colombiana vislumbra a possibilidade de viver em paz sem as bombas e assassinatos dos facínoras das FARC, os estudantes da USP - falo de estudantes de verdade, que estudam, e não dos que estão lá somente para fazer politicagem e fumar maconha - têm a chance, também pela primeira vez em décadas, de se livrarem do jugo ideológico de grupelhos sectários, tão minoritários quanto barulhentos, que seqüestraram a universidade e tranformaram os estudantes em reféns de suas ideologias falidas e totalitárias. Têm a oportunidade, enfim, de retomar a universidade, permitindo que ela exerça o papel para o qual foi criada, que é o de produzir conhecimento. O exemplo poderia frutificar, espalhando-se para as demais universidades. Não seria pouca coisa.

Os grupos que patrocinaram a baderna no câmpus da USP, claro, não aceitarão isso de bom grado. Li que já estão ameaçando com uma greve no ano que vem - para variar, ano eleitoral. É mais um motivo para querer esse pessoal longe das universidades. Entra ano sai ano, e eles sempre dão um jeito de impor sua agenda político-partidária-eleitoral-revolucionária-maconhista sobre os 90% que não compartilham de seus "ideais". Em todas essas situações, deixam claro seu ódio à liberdade e ao pensamento discordante.

Tive a oportunidade de sentir isso na própria pele, mais de uma vez. Em 1998, eu estava terminando o curso de História na Universidade Federal do Rio Grande do Norte quando houve mais uma greve que paralisou por meses a universidade. Assim como ocorreu antes, e ocorreria depois, sempre em ano eleitoral. Eu estava farto de perder aulas por conta das ambições eleitoreiras dos partidos de esquerda, como havia ocorrido em outras greves (eram sempre o PT e o PCdoB, mas havia gente também do PSTU e de outros partidecos de extrema-esquerda), e, embora ainda relutasse em abandonar totalmente minhas ilusões esquerdistas da adolescência, sinceramente não entendia como se poderia atingir o "inimigo" (ou seja, o governo, no caso, o de FHC) e defender uma educação pública, gratuita e de qualidade (era esse o principal bordão dos grevistas) impedindo os alunos de estudarem e passando cola super-bonder nas fechaduras das portas das salas de aula...

Resolvi, então, escrever um texto de protesto, que afixei nos murais dos corredores do setor onde eu tinha aula. Posso dizer, sem exagero, que aqueles textos não duravam cinco minutos, pois eram logo arrancados. Teve uma noite em que eu coloquei o mesmo texto no mesmo mural umas dez vezes: mal eu virava as costas, e uma mão invisível e agilíssima o arrancava, sem dar tempo sequer de alguém ler o que estava escrito. E assim foi por vários dias, até que a greve foi decretada numa assembléia que, desconfio, não reuniu nem 1% dos alunos...

A esse episódio juntou-se outro, em 2000, que já contei aqui. Eu já tinha me formado, e era professor substituto no mesmo curso em que me graduei. Outro ano eleitoral, outra greve. Sabendo dos resultados funestos que mais uma paralisação teria para os alunos, resolvi submeter a decisão de aderir ou não à greve à uma votação nas duas turmas para as quais eu lecionava. Uma delas aderiu ao movimento, decisão que respeitei. Outra, dele decidiu não participar, e continuar as aulas normalmente, o que também respeitei. Mas não foi a mesma a atitude de um pirquete de grevistas (alguns deles, nem estudantes eram), que, chegada a hora da aula, à noite, tentaram me intimidar, depois apagaram as luzes da sala. E falavam em democracia e em ensino público gratuito e de qualidade...

Eu poderia citar outros fatos, muitos, que revelam esse padrão nas universidades brasileiras. Lembro que, certo dia na década de 90, um grupo de militantes de esquerda (não sei se do PT ou do PSTU) tinha armado numa feira universitária um estande com material de propaganda defendendo o boicote ao ENEM, então uma proposta do governo FHC (eram tempos do "Fora FHC"). Tentei puxar conversa com um deles, perguntando por que estava contra a idéia, que me parecia bastante razoável. Ele balbuciou alguma coisa sobre neoliberalismo e privatização, e, vendo que eu não estava ali para assinar o manifesto que tinham feito, e que insistia na pergunta, mudou de conversa e se afastou. Hoje, o ENEM é uma bagunça, graças ao trabalho labrogeiro de Fernando Haddad, provavelmente o pior ministro da Educação que o Brasil já teve em todos os tempos (e que o PT quer ver como prefeito de SP em 2012, vade retro!). Mas, curiosamente, não vejo ninguém na esquerda defendendo um boicote.

O que está acima mostra o seguinte: o que chamam por aí de "movimento estudantil" não existe, é uma palhaçada, feita por e para partidos de esquerda ou extrema-esquerda sem qualquer compromisso com a educação e com os estudantes. Pior: sem nenhum compromisso - nenhum mesmo! - com qualquer coisa que se pareça com democracia e com ética. Assim como os narcotraficantes da Rocinha e os terroristas das FARC, os bichos-grilos fashion da USP estão se lixando para tudo isso, e querem apenas se locupletar. Aí está a União Nacional dos Estudantes Amestrados (UNEA, ex-UNE) para provar.

Digam-me, com toda sinceridade: que diferença existe entre os baderneiros da USP e os petralhas que assaltam os cofres públicos? Qual a diferença entre esses mimadinhos e Orlando Silva ou Carlos Lupi? Eu respondo: NENHUMA! Assim como os ministros corruptos de hoje, os revolucionários pequeno-burgueses da USP vivem de ideologia vagabunda e de parasitar o erário. E que diferença há entre os arruaceiros que invadiram a reitoria e Nem da Rocinha? Tirando o fato de que este último andava armado e mandava incinerar desafetos, nenhuma diferença: tanto um como outro odeiam a polícia e defendem suas bocas-de-fumo. Enfim, são todos feitos da mesma lama (para não dizer outra coisa).

Os "revolucionários by GAP" e de óculos de 500 reais que vivem da mesada do papai são os orlandos silvas e os carlos lupis de amanhã. Aprendem, num movimento que conta com a cumplicidade de alguns professores e jornalistas ideologicamente comprometidos ou carentes de coragem para afrontar o politicamente correto, a arte da corrupção e da impunidade. Não é por acaso que a UNE tenha virado uma correia de transmissão do Palácio do Planalto, e que seus dirigentes sejam oriundos de partidos como o PCdoB. Entre os delinqüentes da USP está, provavelmente, um futuro ministro de Estado.

quarta-feira, novembro 09, 2011

A CRISE DO EURO. E AS BESTEIRAS QUE ESTÃO DIZENDO POR AÍ

Tem assuntos que, de tão manjados, já dá para dizer exatamente o que vão falar a respeito. É o caso da crise do euro, que esta semana pareceu chegar a um ponto culminante, com a idéia aparentemente tresloucada do primeiro-ministro grego, George Papandreou, de convocar um referendo para decidir sobre o pacote de resgate financeiro decidido no dia 27 de outubro com o FMI, o Banco Central Europeu e a Comissão Européia (a chamada "troika"), para evitar que o país vá à falência.

A idéia de convocar um referendo para perguntar à população se concorda que o governo corte empregos, aumente impostos e diminua salários e aposentadorias – as condições impostas pela "troika" para liberar uma parcela de 8 bilhões de euros de um empréstimo de 130 bilhões de euros acordado no ano passado e renovado em julho último – é, obviamente, um disparate, e tem mais a ver com a política interna grega, onde reinam a demagogia e o populismo, do que com qualquer verdadeira disposição de enfrentar as raízes da crise e reconduzir o pais ao eixo da racionalidade econômica, num momento em que sua permanência na zona do euro e na UE está em perigo. Mas não é sobre isso que quero falar.

O que me chama a atenção nesses momentos, em que o euro parece fazer água e o exemplo grego ameaça contagiar outros países do bloco europeu, como Itália e Espanha, é a quantidade pantagruélica de besteiras que alguns auto-proclamados "especialistas" começam a despejar por aí, e que passa, nesses dias turbulentos, por sabedoria e racionalidade.

Vejamos a principal linha de raciocínio desse pessoal: segundo os sábios de plantão, a crise grega, como a do próprio euro, seria uma prova (mais uma vez!) da (novamente) falência do (lá vamos nós de novo...) "modelo neoliberal" e da "irracionalidade dos mercados". Esta é a tese favorita (na verdade, a única) dos anticapitalistas empedernidos, que botaram a culpa igualmente nos mercados pela crise americana de 2008 (e na de 1987, de 1973, de 1929, de 1873...).

É a turma do "mais Estado, menos mercado", que parece ainda não ter engolido – e parece que não vão engolir nunca – a derrocada da finada URSS, na qual viam um paradigma de racionalidade econômica (!) e de (não riam!) justiça social (o que, segundo dizem, não existiria no capitalismo).

Quanta bobagem! Quanta besteira!

Fico me perguntando o que esses devotos da estatolatria e inimigos figadais da sociedade livre andaram bebendo para dizer o que vai aí em cima. Culpar o "neoliberalismo" e a "irracionalidade dos mercados" (ou "a voracidade do capital financeiro", como também gostam de dizer) pelo estado lastimável das finanças da Grécia é coisa de quem não consegue enxergar um palmo à frente do nariz, só conseguindo "pensar" em bloco, no modo automático.

Para começo de conversa, a crise da Grécia não é uma crise do setor bancário (como na Islândia e, até certo ponto, Portugal), tampouco o resultado do estouro de uma bolha imobiliária (como nos EUA em 2008), mas uma crise de insolvência, decorrente de décadas de populismo e de gastança irresponsável por parte de um Estado inflado ao máximo. A dívida pública grega, que chega a mais de 160% do PIB do país, saiu do controle por causa não de políticas "neoliberais", mas, exatamente ao contrário, devido a práticas assistencialistas e paternalistas do Estado-protetor, organizado em padrões quase bolcheviques (aliás, o partido que está no poder em Atenas, é bom lembrar, atende pelo nome de "socialista", e seu líder, George Papandreou, é presidente da Internacional Socialista).

Durante décadas, essa crise foi-se gestando, à medida que governo após governo se dedicava a fazer aquilo que os populistas mais gostam de fazer: gastar, gastar muito, para acomodar suas clientelas políticas. Em 2009, a farra acabou, e desde então os que bancavam a festa resolveram cobrar a conta. Sem condições de honrar a dívida, com as contas em frangalhos, o governo grego viu-se obrigado, então, a fazer o que nenhum governo gosta de fazer: adotar medidas de austeridade econômica, obviamente impopulares.

Se existe um país na Europa em que a palavra "neoliberal" é praticamente desconhecida, é a terra de Péricles e de Homero. O Estado grego é mastodôntico, e controla praticamente 70% do PIB do país, cuja economia gira basicamente em torno do turismo e da navegação. Para se ter uma idéia do tamanho da mamata, filhas solteiras de funcionários do governo gozam de pensão vitalícia (!) e a folha de pagamento do Estado grego é tão grande e o descontrole das contas públicas tão generalizado que o governo não sabe sequer quantos funcionários tem – o número é estimado em algo como 700 mil (quase 10 por cento da população, que é de 11 milhões de habitantes), muitos em funções redundantes e irrelevantes. Para piorar, o poder quase absoluto dos sindicatos impede qualquer reforma e deu origem a aberrações, como dezenas de profissões "fechadas", ou seja, vedadas à concorrência interna ou externa, como taxistas, médicos, farmacêuticos e caminhoneiros. Soa como "neoliberal" para você?

Aí vão outros dados importantes: assim como no Brasil, a burocracia estatal é enorme, e as privatizações são um anátema (simples rumores de venda de empresas pelo governo são suficientes para levar milhares às ruas e causar um terremoto político no país). As universidades, todas estatais – a Constituição proíbe universidades particulares –, são de baixa qualidade, e viraram há décadas redutos de agitação política de grupos radicais de esquerda, onde "estudantes eternos" que vivem às custas do dinheiro público dedicam-se a realizar protestos e enfrentar a polícia nas ruas (se você lembrou da USP, acertou em cheio). Para complicar as coisas, a poderosa Igreja Ortodoxa grega (que é, na prática, oficial) não paga impostos, e os milhares de padres são sustentados pelo Erário, com óbvias conseqüências para o equilíbrio das contas públicas.

O sistema político também não ajuda. Desde 1974, quando terminou a ditadura militar, os dois principais partidos do país – o PASOK, socialista, e a ND, de centro-direita – criaram uma máquina político-estatal clientelista de fazer inveja ao PT e ao PMDB. Com a entrada da Grécia na UE, em 1981, e com a adoção do euro em lugar da dracma, em 2000, a brincadeira simplesmente ultrapassou todos os limites, e a corrupção atingiu níveis quase petistas. Em vez de aproveitar o dinheiro da UE para diversificar a economia, o governo preferiu viver de renda. Resultado: as coisas fugiram completamente do controle, enquanto a evasão fiscal aumentava e as estatísticas da economia – para garantir a ajuda dos demais Estados da UE – eram maquiadas. Até hoje não se sabe, por exemplo, quanto custaram as Olimpíadas de 2004 em Atenas (as estimativas variam de 7 a 50 bilhões de euros).

Pois bem. Foi essa situação - hipertrofia do Estado, gastos excessivos, fiscalização deficiente, clientelismo político, populismo desenfreado - o que levou à atual crise grega. É uma crise, portanto, do welfare state keynesiano, e não do "neoliberalismo". Se há uma solução para a Grécia, é menos, e não mais, intervencionismo estatal. É mais, e não menos, capitalismo (ou "neoliberalismo", como queiram – aliás, isso é extensivo a outros países).

Os fatos acima, claro, são e serão ignorados por quem já resolveu substituir o senso crítico pelo pensamento em bloco (neste caso, de cunho antiliberal e anticapitalista - na verdade, mais antiliberal do que anticapitalista). É mais um exemplo de como a ignorância e a soberba costumam andar juntas, encontrando-se no discurso esquerdista. Este, na verdade, só se sustenta atualmente por meio da dissonância cognitiva, como já afirmei: quanto mais desacreditado pelos fatos, mais ele se renova, adiando para a próxima crise o anunciado fim iminente do capitalismo.

Se os devotos do culto marxista e inimigos da liberdade deixassem de lado, por um instante, os slogans e os preconceitos ideológicos e enxergassem a realidade como ela é, teriam a chance de aprender alguma coisa. Mas adianta explicar o que está acima para quem não quer saber? Afinal, para quê investigar, se o culpado já foi escolhido?

O MUNDO SE CURVA AO BRASIL

A foto acima mostra quão concorrida foi a entrevista coletiva de Dilma Vana Rousseff na Reunião de Cúpula do G-20, realizada semana passada em Cannes.

Notem a quantidade de gente que se espreme no auditório lotado de pessoas ansiosas para ouvirem o que tem a dizer a presidente da mais nova potência mundial.

O sucesso foi tão grande que a organização do evento teve até que organizar uma fila do lado de fora, com cambistas e vendedor de pipoca. Fez um show do U2 ou do Roberto Carlos parecer um comiciozinho de subúrbio.

Posso estar enganado, mas acho que o sujeito ali no canto esquerdo é o Obama, ouvindo atentamente as lições da supergerenta sobre governança global e o melhor caminho para alcançar a paz no Oriente Médio. Sarkozy e Angela Merkel estavam tomando notas sobre como acabar com a pobreza e resolver a crise do euro.

Infelizmente, o ângulo da foto não permite mostrar a expressão de enlevo nos rostos fascinados da platéia. Mas pode-se ter uma idéia de como ela ouviu tudo com o maior interesse, saboreando cada palavra da Guia e Mestra. Imaginem a ovação final.

E agora, o que vão dizer os "do contra", esses derrotistas e invejosos, diante desse momento de glória pátria, essa verdadeira apoteose da segunda líder mais importante do mundo desde a criação do Universo (o primeiro, claro, foi o Lula)?

É mais uma prova de que o Brasil realmente cresceu em influência e importância na era lulopetista. Como diria Marilena Chauí, a filósofa-musa do petismo, quando Dilma fala, o mundo se ilumina. Demorou, mas chegamos lá. O mundo finalmente se curva perante a terra de Cabral!

Vejam como o Brasil está bombando lá fora, gente!

Chupa, mundo! Brasil-sil-sil!!!

LULA E A EXPLORAÇÃO DEMAGÓGICA DO CÂNCER

"É tão bom que dá vontade de ficar doente só pra ser internado", disse Lula, com a fanfarra habitual, em um comício-inauguração no ano passado, em Recife. Entre confetes e aplausos da platéia domesticada, ele estava falando de uma UPA, unidade de pronto atendimento, que acabava de inaugurar na capital pernambucana, com ares de quem estava cortando a fita de um hotel cinco estrelas.

No mesmo dia, provavelmente preocupado porque sua escolhida para ocupar a Presidência demorava a emplacar nas pesquisas, Lula sofreu uma crise de hipertensão. Teve, assim, a oportunidade de provar o que dissera horas antes. Aproveitou a chance indo correndo internar-se no Hospital Real Português, um dos melhores do Nordeste. E privado.

Esta semana muita gente se deixou comover com a revelação de que o líder mais importante da História desde Moisés e consultor-geral do mundo tem câncer na laringe. Poucos foram, porém, os que lembraram do fato acima. Assim como poucos foram os que viram qualquer incoerência no fato de o inventor do Brasil Maravilha ter escolhido para tratar-se, em vez de um leito do SUS, o Hospital Sírio-Libanês de São Paulo. Quem o fez foi acusado de “insensível” e – vejam só – de querer “explorar politicamente” a doença de Lula…

É esse tipo de coisa que me convence cada vez mais que está tudo de pernas para o ar no Brasil da era lulopetista. Leio na imprensa elogios à "transparência" de Lula, que, ao contrário de tiranos populistas como Hugo Chávez e Fidel Castro (outros dois acometidos pela moléstia nos últimos anos), revelou logo que tem a doença etc. e tal. A vontade de alguns jornalistas de que Lula seja diferente dos seus dois maiores aliados (um deles, ele não esconde, seu maior ídolo) é tão grande que os leva a esquecer fatos de ontem. Lula está usando a doença, assim como a usaram e usam Castro e Chávez. Usando politicamente. Demagogicamente. Como sempre fez, diga-se.

A doença sensibiliza as pessoas, e Lula sabe disso. Torna-as menos racionais e mais emotivas, portanto menos propensas ao espirito crítico e mais facilmente manobráveis, abrindo uma brecha para a manipulação sentimentalista das emoções do público. É uma tática comum aos grandes atores e também aos canastrões. Em um povo supersticioso como o brasileiro, ainda atrelado ao pensamento mágico, a doença (ou a morte) vira uma especie de álibi, uma licença para não pensar.

A coisa é tão óbvia que me bate até certa vergonha em lembrar: se o enfermo é um político, a doença adquire, inevitavelmente, um aspecto político, ainda que ele não queira (o que não é o caso do doente em questão). Se o político é Lula, vira mais que isso: torna-se mais um tijolo no edifício da santificação. Lula aproveitou sua internação no Sírio-Libanês para pedir apoio à companheira Dilma. A doença pode mudar a vida de alguém, mas não muda seu caráter.

Se há algo que a doença de Lula vem provar, é que não há limites para a demagogia. E a demagogia está no sangue de Lula. É parte indispensável de seu mito pessoal. Não há momento de sua vida que não tenha virado objeto de uma sistemática, planejada, mistificação. Desde a infância pobre em Garanhuns, até a estréia para os holofotes no sindicato, passando pela mãe "que nasceu analfabeta" (e que ele honrou escolhendo permanecer semiletrado, quando poderia ter estudado), as greves, a chanchada da prisão e da "greve de fome" com balas Paulistinha em 1980, a fundação do PT, a passagem apagada e hoje esquecida pelo Congresso Nacional, a oposição ao Real e ao governo FHC, chegando ao show do mensalão e à imposição da sucessora – toda a trajetória de Luiz Inácio, enfim, é uma grande farsa, um conto da carochinha (ou do vigário) a serviço de um culto grotesco de sua personalidade, como demonstra o filme hagiográfico e lacrimoso que fizeram sobre ele. Toda a vida de Lula é um novelão mexicano, que, como escreveu um de seus ex-colaboradores, exala o mau cheiro das mistificações. Com a doença não poderia ser diferente.

É por isso que acho tão engraçado quando vejo tanta gente dizendo-se horrorizada com a sugestão, que ganhou as redes sociais, de que Lula vá se tratar no SUS e não no Sírio-Libanes, como são obrigados a fazer milhões de cidadãos comuns. Ora, nada mais lógico. Desde que passou a faixa presidencial, Lula é, afinal de contas, um cidadão comum, ou não?

Sem falar que, se até os ex-presidentes do regime militar se trataram em hospitais públicos após terem deixado seus cargos, por que Lula da Silva não poderia fazer o mesmo? Afinal, o câncer iguala a todos, certo?

Lula passou oito anos dizendo-se o reconstrutor do Brasil, inclusive na área da saúde. Gastou litros de saliva enaltecendo o “seu” sistema de saúde como o melhor do mundo etc. Agora, em uma hora delicada, perde novamente a chance de provar o que disse. Afinal, sob a era lulopetista, o SUS virou ou não uma maravilha?

Os jornalistas que condenaram a exploração política da doença de Lula como vergonhosa estão cobertos de razão. Só se esqueceram que essa exploração demagógica é feita pelo próprio. Mais uma vez, revela-se que, até no câncer, o Apedeuta é diferente dos demais mortais. Que o digam os sem-Sírio-Libanês.