sábado, julho 23, 2011

DE COSTAS PARA A REALIDADE

Se tem uma coisa que me deixa nauseado - talvez nauseado não seja a palavra certa, mas fico realmente intrigado - é a capacidade, aparentemente ilimitada, de muitos intelectuais, subintelectuais e mini-intelectuais daqui e de alhures de se iludirem e de insistirem em não enxergar o óbvio. É algo para deixar vermelho de raiva até o mais franciscano dos monges.

Vejam, por exemplo, a quantidade de besteira que se escreveu - e que, certamente, continurá a ser escrita, por muitos anos ainda - sobre a crise econômica eclodida nos EUA em 2008. De repente, pipocaram de todos os lados "especialistas" com um discurso bem coordenado, eu diria mesmo sincronizado, sobre o assunto. Com poucas variações, os "argumentos" apresentados podem ser resumidos nas seguintes idéias-força (ou melhor, idéias-clichês):

- "A culpa da crise é do capitalismo, um sistema que instiga os piores instintos no homem, como o egoísmo, a falta de solidariedade etc.";

- "A crise comprova - mais uma vez - que o sistema capitalista está em seus estertores no mundo todo";

- "A solução para a crise é um grau maior de intervenção do Estado na economia";

- "Portanto, Marx estava certo e devemos retornar a ele".

Difícil dizer qual idéia acima é a mais falsa, a mais idiota, a mais ofensiva à inteligência. Comecemos com a primeira. Nada mais cretino do que falar nas "boas intenções" socialistas em contraste com as "más intenções" dos capitalistas. Se a idéia é condenar moralmente o lucro individual, tal como fazia a Igreja Católica na Idade Média, isso já foi rechaçado há mais de duzentos anos por ninguém menos do que o pai do liberalismo econômico, Adam Smith, na famosa afirmação de que é o desejo de lucro do padeiro, e não qualquer elevado princípio altruísta, que garante o pão diário na mesa do consumidor. Ou, como disse certa vez Roberto Campos, numa frase que jamais foi refutada: "No capitalismo, os resultados são melhores do que as intenções; no socialismo, as intenções são melhores do que os resultados".

Se alguém duvida ou se sente desconfortável com isso, então que olhe para o outro lado e veja a maravilha em que deram as "boas intenções" dos bolcheviques em todos - todos, sem exceção - os países em que se instalou uma "ditadura do proletariado"... (Aliás, gostaria de saber qual revolucionário marxista ou político social-democrata aceitaria ser um simples operário em um país comunista; qual deles toparia participar de uma revolução proletária para virar trabalhador em alguma fábrica ou fazenda coletiva em Cuba ou na Coréia do Norte... alguém se habilita?)

Quanto à segunda idéia, o capitalismo está em crise desde pelo menos 1929, e de lá para cá, todos sabemos o que aconteceu: os regimes totalitários que tentaram destruir o capitalismo liberal e substituí-lo pela estatolatria, como o comunismo e o nazi-fascismo, naufragaram miseravelmente. A previsão do ex-premiê soviético Nikita Krushev, feita nos anos 50 e dirigida às democracias ocidentais lideradas pelos EUA - "Nós vamos enterrar vocês" - entrou para a galeria de frases irônicas e risíveis da História. Alardear o fim iminente do capitalismo e defender o maior intervencionismo e o dirigismo estatal, ainda mais em países que jamais conheceram nada parecido com uma economia de livre mercado, é algo que só pode ser entendido como recusa a ver o mundo em volta, e como insistência psicótica no erro.

Com a mesma certeza e com a mesma teimosia típicas dos ignorantes soberbos, os inimigos da livre iniciativa e da propriedade privada anunciam a ressurreição de Marx, visto sempre como um filósofo e economista genial e como um grande humanista, cuja obra, como Cristo em relação ao Vaticano, teria sido distorcida e não teria tido, portanto, nenhuma relação com o que aconteceu depois de sua morte. (Ou seja: os fuzilamentos em massa, a repressão política, a censura e o exterminío de mais de 100 milhões de pessoas devem ter sido, pelo visto, obra do acaso.) Já é quase uma tradição: de tempos em tempos, sempre que surge o menor sinal de crise no horizonte, alguém tenta ressuscitar Marx. Basta o índice Dow Jones balançar e aparecerá uma revoada de abutres gritando pela enésima vez "o capitalismo morreu" e propondo, também pela enésima vez, um "retorno a Marx". (Outros são mais escancaradamente imbecis e saem dizendo coisas como "agora, somos todos socialistas".)

É impressionante. O Muro caiu, a URSS virou peça de museu, mas o culto a Marx sobrevive como verdadeiro fetiche de acadêmicos e militantes esquerdistas (muitas vezes, as duas coisas se confundem). Talvez não haja cadáver mais insepulto em toda a História. Esse culto necrofílico baseia-se, como todo culto do tipo, na idealização de um passado mítico - no caso, as idéias do pai-fundador de uma religião secular -, extraindo sua força da pura e simples negação da realidade.

É um caso mesmo de psicopatia, de dissonância cognitiva: quanto mais os fatos desmentem a crença, mais esta se fortalece, por um mecanismo mental de auto-engano, da mesma maneira como ocorre em cultos messiânicos e apocalípticos que se vêem constrangidos a explicar por que o mundo não acabou na data prevista. Há quase cem anos os antônios conselheiros do marxismo de galinheiro anunciam o fim do mundo capitalista e o advento do paraíso socialista, no qual todos serão felizes e correrá leite e mel. Como isso nunca acontece, resolvem adiar a previsão. É precisamente assim que agem os devotos de São Carlos Marx, padroeiro do Gulag e do paredón.

Pois bem, senhores fãs do velho Marx, que o vêem como uma espécie de oráculo que explica tudo: em que capítulo de O Capital ele explica o colapso da URSS e o fracasso do marxismo no Leste Europeu - o maior fiasco de todos os tempos? Em que trecho do Manifesto Comunista ele prevê a conversão da China comunista à economia de mercado? Aliás, foi o capitalismo que salvou o regime comunista na China, transformando um país outrora miserável em uma potência mundial (somente nos últimos trinta anos, cerca de 400 milhões - mais de dois brasis - de chineses saíram da miséria graças ao capitalismo na terra de Mao Tsé-tung). Muito antes, nos anos 20, foram grandes empresários capitalistas ocidentais que, atendendo a um apelo desesperado de Lênin, reergueram a economia da finada URSS. Marx previu isso?

Se acharem esses assuntos muito difíceis, tentem então o seguinte: procurem explicar, com base no marxismo, a atual crise do euro que, tendo começado na Grécia, ameaça espalhar-se para os outros países e ameaça a própria existência da União Européia. Tentem mostrar que papel o "livre mercado" e a "ganância capitalista" tiveram na explosão da dívida grega, resultado, na verdade, de décadas de gastança e de irresponsabilidade fiscal - e que revela, isto sim, o fracasso do welfare state na Europa. Tentem explicar a crise fiscal européia da atualidade com base em Marx. Podem citar a bibliografia se quiserem.

Gostaria que algum anticapitalista de plantão, algum crente na superioridade moral do socialismo e adorador de Barack Obama - cujo governo, é curioso, só fez aumentar o déficit público dos EUA, mas que ainda tem muitos devotos fiéis que o vêem como o salvador da humanidade - me explicasse o que está nos parágrafos acima. Gostaria que alguém me dissesse que outro sistema econômico, além do capitalismo, pode gerar prosperidade e igualdade (sim, igualdade: que outro nome se deve dar à mobilidade social proporcionada pelo trabalho e pelo dinheiro?), num ambiente de constante inovação e de liberdade individual.

Como, para responder as indagações acima, é preciso antes de tudo um mínimo de honestidade intelectual, desconfio, porém, que ficarei sem resposta. Ainda espero ver um dia um adorador de Marx admitir que seu objeto de culto era um farsante e um idiota, que só ajudou a trazer infelicidade para o mundo, e que a humanidade não inventou, até agora, nada melhor para superar a pobreza do que o capitalismo. Nesse dia, porém, os oceanos irão secar, o Saara será inundado e o inferno vai virar um bloco de gelo.

segunda-feira, julho 18, 2011

A TRAGÉDIA DA EDUCAÇÃO NO BRASIL

Estudantes da UnB em pleno ato em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade


Alguns anos atrás, uma família em Minas Gerais foi processada pelo Ministério Público por ter se recusado, durante anos, a enviar seus filhos para a escola. Não para que eles trabalhassem na roça ou pedissem dinheiro nos sinais de trânsito, mas por outro motivo, mais compreensível. Em vez de matricular os adolescentes em instituições de ensino públicas ou particulares, seus pais preferiram educá-los em casa mesmo, onde receberam toda a educação fundamental e média.

O advogado dos pais teve, então, a seguinte idéia, na verdade um desafio: propôs a realização de um exame, no qual se poderia averiguar o nível de conhecimento dos rapazes. O exame foi feito e, em todas as matérias, eles obtiveram nota igual ou superior à da média dos alunos regularmente matriculados. Estavam devidamente capacitados, do ponto de vista intelectual, para passarem no vestibular e ingressarem na universidade.

A história, que mal saiu na imprensa, é realmente surreal, apesar de verdadeira. Nos EUA, educar os filhos em casa, da maneira que a família considera mais adequada, é um direito praticado por milhares de pessoas – o nome disso é homeschooling. No Brasil, é crime, ainda por cima chamado de “abandono intelectual”. Mais surrealista ainda é o fato de que, ao fazer essa opção, a família decidiu proporcionar-lhes exatamente aquilo que há muito tempo não se encontra mais nas escolas brasileiras: uma educação decente e de qualidade.

Ao optar pelo homeschooling, os pais pouparam seus filhos de serem submetidos sistematicamente a sessões de lavagem cerebral por molestadores juvenis, que consideram “educação” um sinônimo de doutrinação ideológica, baseada na vulgata marxistóide mais vagabunda. Salvaram-nos de serem usados como cobaias em “experimentos didáticos” por doutrinadores travestidos de professores, que acham normal falar e escrever “nóis pega os peixe” e consideram o respeito à gramática, como mostrou o livro recentemente aprovado pelo MEC, coisa de preconceituosos e elitistas. Os rapazes escaparam, também, de ser obrigados a assistir a vídeos e a ler cartilhas enaltecedoras da "diversidade sexual", livrando-se, assim, de serem doutrinados, em plenos anos de formação psicológica, sobre as virtudes redentoras do lesbianismo e da sodomia. Em vez disso, seus pais, certamente conhecendo a realidade do ensino no Brasil, resolveram dar a eles o que não encontrariam nas escolas brasileiras. E ainda foram acusados de “abandono intelectual”…

Não é segredo para ninguém que aquilo que se convencionou chamar de educação no Brasil de hoje não passa da mais pura vigarice, de um verdadeiro crime de lesa-inteligência a serviço de ideologias imbecis e de partidos políticos sem nenhum compromisso com o progresso mental da população. Essa realidade, que existe há pelo menos quatro décadas, foi agravada nos últimos anos, com a subida ao poder de um presidente que se gaba – e que é louvado por isso – de suas poucas luzes. O MEC foi tomado de assalto por uma turma comandada por um ministro especialista em marxismo que não sabe soletrar a palavra “cabeçalho” e que transformou uma das poucas coisas que funciona(va)m no país, o ENEM, em motivo de piada e em símbolo de incompetência. Nada mais simbólico do Brasil de hoje do que o fato de que existem mais ex-BBBs do que arqueólogos, e que um palhaço analfabeto seja membro da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Nunca na história deste país o apedeutismo, o culto da ignorância, foi tão disseminado e contou com tamanho apoio e estímulo oficiais.

Tal fato, por mais gritante que seja, passa geralmente despercebido. Pior: não é avaliado como deveria. Fale em ensino no Brasil e a primeira coisa que você ouvirá será, provavelmente, algo como “é preciso mais verbas para as escolas” etc. Tendo nascido e sido criado em família de professores, acostumei-me com queixas por melhores salários para a categoria (um tio meu, professor de Química em uma escola pública, era um dos mais queixosos; descobri há pouco que o ultimo curso de aperfeiçoamento profissional que ele fez foi em 1971…).

É incrível como, no Brasil, o dinheiro é considerado a solução para tudo. É um traço de nosso caráter nacional. O problema não é a falta de recursos. Ao contrário do que se costuma dizer, o Estado brasileiro gasta muito com educação no Brasil (se gasta bem, aí é outra coisa). Se dependesse do volume de dinheiro público gasto com o setor, o Brasil estaria na vanguarda da produção científica mundial. A parte principal da culpa pela má qualidade do que se ensina nas salas de aula recai, obviamente, em quem a ministra, ou seja: os professores.

Na parte desenvolvida do mundo, os professores são geralmente os melhores alunos de suas disciplinas, que buscam, assim, compartllhar o conhecimento adquirido. No Brasil, é o contrário: ninguém quer ser professor, e as cátedras são assumidas, com raras exceções, pelos piores. Essa falta de prestígio não pode ser atribuída simplesmente a uma política governamental. Os professores no Brasil geralmente não atuam como mestres, mas como sindicalistas. Estão mais interessados em atacar o capitalismo e em fazer greve por melhores salários (e que sempre - sempre - só prejudicam os alunos que querem estudar) do que em preparar uma aula decente. E não só nas escolas públicas. Fiz o primeiro grau numa escola particular, católica, uma das melhores da cidade. Lembro que a professora de História, admiradora da Revolução Cubana e da teologia da libertação, não cansava de repetir que o capitalismo era um sistema mau e perverso e que o socialismo era a solução para a humanidade. Eu tinha dez anos de idade. Se eu tivesse estudado em casa, sem a chatice de ir à escola todos os dias, não teria perdido tanto tempo, e talvez tivesse aprendido mais e melhor.

Essa realidade, infelizmente, pouco mudou. De fato, a cada dia fica pior. Nos exames internacionais, os alunos brasileiros invariavelmente tiram os ùltimos lugares em habilidades básicas, como leitura e Matemática. Digam-me o nome de um (1, hum) acadêmico brasileiro da área de ciências humanas que tenha escrito alguma obra relevante nos últimos cinqüenta anos, reconhecida internacionalmente. Simplesmente não há ninguém. Nas escolas, predomina o desprezo pelo que chamam de “educação bancária” – em suma: o conhecimento de matérias como Português, História e Matemática. Mais importante é a “conscientização” ou a “cidadania”. O ensino técnico, então, é considerado mera formação de mão-de-obra para o capitalismo (quem me dera se assim fosse: provavelmente, seríamos hoje uma Coréia do Sul ou uma Cingapura). Aliás, é engraçado: nas faculdades de pedagogia, Paulo Freire é visto como um deus. Curiosamente, porém, não conheço um único caso de alguém alfabetizado pelo método genial e revolucionário que dizem que ele inventou. As escolas deixaram de ser lugares de ensino para se tornarem assembléias sindicais e bocas-de-fumo, em que estudantes não estudam e professores não ensinam. Depois estes ainda reclamam que são tratados com desrespeito e até com violência nas salas de aula.

O resultado dessa visão demagógica da educação é que, todos os anos, milhares de alunos saem das escolas ótimos militantes, prontos para gritar slogans contra o capitalismo e a globalização, mas incapazes de ler, escrever e contar direito. Não é por acaso que, ao lado de algumas ilhas de excelência (quase sempre em cursos de exatas, menos expostos à doutrinação marxista), exista um oceano de mediocridade. Universidades que antes eram consideradas de ponta, como a UnB, viraram antros de vigarice acadêmica e de intolerância ideológica, verdadeiras madraçais do pensamento único esquerdista, em que a principal atividade acadêmica de muitos alunos é passar o tempo fumando maconha em sala de aula. Quanto à UNE, que em outros tempos foi um farol da luta pela democracia e pela educação, converteu-se numa repartição pública, em que zelosos burocratas estudantis do PCdoB dedicam-se a fazer propaganda a favor do governo que tem Collor e Sarney como aliados.

Em geral, são os mesmos que estão hoje à frente da UNE e da UnB os que adoram botar a culpa no “governo” (menos, claro, o federal, ou os com ele mancomunados) pelo estado lamentável da educação no Brasil. Até parece que vivemos em um país cuja sociedade valoriza a cultura e o conhecimento. Lembro de uma conversa que tive uma vez com um sujeito do povo, há alguns anos. Ele veio me dizer que não queria que seus filhos fossem muito inteligentes, “porque se não iam passar por doidos”. É isso. Entre ser ignorante e “passar por doido” numa roda de amigos, melhor ficar com a primeira opção. Ou seja: a ignorância é a norma, a inteligência é a esquisitice... Os esquerdiotas apenas deram uma mãozinha, adaptando esse raciocínio imbecil: para que estudar, companheiro, e aprender a ler e a falar certo, essa coisa de burguês?

Quando vejo um esquerdista pró-petista e pró-governo falar em educação, primeiro me dá vontade de rir, depois de agarrar uma arma. Com que direito vêm falar no assunto, quando os mais intelectualizados dentre eles escrevem “mulçumano” e “a tempos é assim”?

sexta-feira, julho 15, 2011

OS MALES DO ESQUERDISMO AGUADO

No Brasil, como todos sabem, ninguém é de direita. Quase todos - e só digo "quase" porque sempre há alguns excêntricos, como este blogueiro - rezam pela cartilha da sinistra. Uns mais, outros menos, pouco importa. Impera entre nós um esquerdismo hegemônico, arraigado, onipresente, sufocante, implacável.

Vejam a chamada "elite" brasileira, tão demonizada pelo pessoal da canhota: nada mais intrinsecamente esquerdista. Pense numa causa, qualquer causa, como o casamento gay e a liberação da maconha, ou a manutenção da menoridade penal, que provocam repulsa instintiva ao "povão": a "elite" é a favor. Os petralhas adoram falar mal da dita-cuja, mas o fato é que têm nela um forte aliado ideológico. Provavelmente em nenhum outro lugar do mundo a classe dominante, por assim dizer, é tão marxista.

Mais de quarenta anos atrás, Nelson Rodrigues já apontava esse fenômeno - ele escreveu certa vez que tinha encontrado, num sarau de grão-finos, uma auto-proclamada "noiva espiritual de Guevara"... Vá a um sarau de grã-finos, ou à sua versão atual, o jantar inteligente. Se sobreviver a algum, você assistirá, invariavelmente, a um desfile de profundas consciências sociais. Na verdade, quanto mais se sobe na escala da sociedade, menor a chance de ver alguém defender as virtudes da liberdade capitalista, da livre iniciativa e da economia de mercado. Em vez disso, ao lado dos elogios àquele filme iraniano chatíssimo que ninguém quer admitir não ter visto para não passar por desatualizado, é grande a chance de receber uma aula sobre o importantíssimo papel da ONG tal no combate à fome em algum país da África.

Façam um teste, se duvidam de mim. Tentem achar, em algum desses ambientes, alguma opinião, algum ponto de vista, que destoe do que vem a seguir. A probabilidade de ouvir um comensal dizer alguma das frases listadas neste post é bastante grande. São verdadeiros mantras, repetidos ad nauseam por essas cabeças privilegiadas, as "pessoas maravilhosas":

- "Acho um horror a política de Israel quanto aos palestinos; sou antissionista, mas não antissemita".

- "Não sou antiamericano, mas os EUA são um país imperialista, responsável por grande parte das mazelas do mundo; Barack Obama é um sopro de esperança e renovação para a humanidade".

- "Concordo com o Arnaldo Jabor: o PT renegou suas origens de esquerda, deixando-se contaminar pelo fisiologismo e pela corrupção da política brasileira".

- "Lula é um político genial e carismático, um estadista vindo do povo, e um exemplo de superação individual; criticá-lo pelos erros de português é preconceito elitista".

- "Dilma Rousseff é um exemplo de mulher corajosa e competente, uma ex-guerrilheira que lutou pela democracia; criticá-la é machismo da direita fundamentalista".

- "Sou contra as invasões de terras produtivas, mas não se pode criminalizar os movimentos sociais".

- "Não sou contra a propriedade privada, mas acho que ela deve cumprir uma função social; o Estado deve controlar setores estratégicos da economia, como o petróleo".

- "Funcionando ou não, as cotas cumprem uma função importante, pois o Brasil tem uma dívida histórica a ser paga aos afro-descendentes".

- "Apóio o movimento GLBTT, pois o Brasil é um país extremamente homofóbico".

- "Tenho minhas dúvidas sobre o desarmamento da população, mas acredito que vai diminuir a violência - afinal, armas matam".

- "Não adianta criminalizar o usuário; as drogas deveriam ser legalizadas, pois a guerra ao narcotráfico fracassou no mundo inteiro".

- "Estou dando minha contribuição ao combate ao aquecimento global, tentando emitir menos carbono andando de bicicleta".

- "Odeio ditaduras! Todas elas! Cuba? A culpa é do bloqueio. Se os EUA acabassem com ele, haveria liberdade na ilha".

Com poucas variações, é isso que se costuma ouvir numa roda de pessoas "inteligentes" e "progressistas": um esquerdismo aguado, "moderado" - o que significa: moderadamente anticapitalista e pró-totalitário. Um conjunto de chavões e clichês esquerdóides, repetidos com ar de sabedoria profunda e de superior "neutralidade". É esse tipo de opinião bom-mocista, repetidora automática de chavões politicamente corretos, que constitui o mainstream no Brasil, sendo replicado por dez em cada dez "formadores de opinião". Tente discordar, colocando um ponto de vista mais à direita, e você correrá o risco de passar por chato e estraga-prazer, ou mesmo de ser linchado pela patrulha do pensamento, como um reacionário ou "fascista".

A hegemonia desse esquerdismo diluído - que predomina na maior parte da imprensa (para não falar das universidades, onde o que impera mesmo é o esquerdismo hardcore, de foice e martelo) - resulta, em parte, de um ranço ideológico, que se mantém meio por inércia, e, em parte, de pura covardia moral e intelectual. Muitos já perceberam há tempos que a esquerda é uma canoa furada, coisa de imbecil, mas, por medo de cruzar o Rubicão, de romper com velhas fantasias de adolescência, recusam-se a evoluir e a abraçar as idéias liberais. Temem, acima de tudo, ficar sozinhos, apartados dos companheiros de geração e de utopia. Acreditam, para se consolar, que diluindo o discurso preservam o gosto da utopia juvenil e evoluem, ao mesmo tempo, para uma forma de esquerdismo mais "moderno" e tolerante. Como se um veneno diluído também não fizesse mal.

Seria somente um problema de carência afetiva e de infantilismo, de necessidade psicológica de pertencer a um "coletivo", se essa insistência nos clichês esquerdóides não fosse, também, algo extremamente funesto, com conseqüências nefastas para a democracia. Ditadores como os irmãos Castro e tiranetes como Hugo Chávez não precisam de nada mais do que essa espécie de "neutralidade" para continuarem mandando e desmandando.

Do mesmo modo, terroristas como o recém-falecido Osama Bin Laden (acreditem: houve, por aqui, quem chorasse a morte dele, invocando altos princípios morais e éticos) não fazem a menor questão de que se concorde totalmente com seus métodos: basta culpar o alvo principal de seus ataques, os EUA, pela existência do terrorismo. Por exemplo: responsabilizando a política externa norte-americana no Oriente Médio ou israelense pelos atentados do Hamas e do Hezbollah. Essa justificativa cai como uma luva para os objetivos genocidas dos islamofascistas.

Na época da Guerra Fria, cunhou-se a expressão "companheiros de viagem" para designar aquelas pessoas, geralmente artistas ou intelectuais, que, embora não fossem comunistas, agiam objetivamente a favor dos interesses comunistas, servindo, por ingenuidade ou não, de porta-vozes voluntárias ou involuntárias da propaganda do KGB. Hoje, os companheiros de viagem são a maioria no Brasil. Minha única dúvida é se o são de forma inconsciente. (Acredito que sim, pois a ingenuidade e a ignorância são irmãs siamesas, ainda mais quando acompanhadas da soberba.)

Faço questão de repetir: não existe esquerda light, moderada, "vegetariana", "democrática": existe esquerda ingênua ou dissimulada. Cada vez menos ingênua, e cada vez mais dissimulada, diga-se de passagem. Nesse ponto, creio mesmo que a esquerda radical, raivosa, "carnívora", tem a vantagem de certa honestidade: pelo menos esta não se esconde detrás de um discurso untuoso e floreado, e assume abertamente sua idiotice. Quanto à outra, das duas uma: ou é cúmplice ou é idiota.

A MARCHA DOS VAGABUNDOS

De uns tempos para cá, virou moda a realização de marchas e manifestações de protesto no Brasil. Há marchas para tudo, para todos os gostos. Tem uma marcha da maconha, uma marcha das vadias, uma parada gay (a maior do mundo, e um desfile de bizarrices)... Só não há marchas contra ou a favor do que realmente importa.

Convenhamos, há mais e melhores razões para sair de casa e carregar cartazes nas ruas. Há motivos de sobra para se indignar e organizar marchas de protesto no Brasil. Só não há quem as realize.

Onde está uma marcha contra a corrupção no governo dos petralhas, que somente este ano já custou o cargo de dois ministros (um deles, pela SEGUNDA vez)? Ou uma marcha contra a empulhação das obras do PAC, que, apesar de toda a fanfarra, não saem do papel? Ou contra a lerdeza nas obras da Copa do Mundo, que, pelo visto, será um festival de ladroeira como foi o Pan do Rio em 2007? Ou pela divulgação dos documentos sigilosos do governo? Ou contra o abrigo a terroristas estrangeiros, que mancha a imagem do País no exterior? Ou por mais segurança, mais saúde, mais educação, mais esgotos etc.? Motivo é o que não falta.

Enfim, cadê a "sociedade civil", os sindicatos, a CUT, a UNE, numa hora dessas? (Só para constar: é claro que eu sei onde estão, e por que não protestam; por que iriam protestar contra aquilo de que fazem parte e de que se beneficiam?)

Até parece que, em vez de se indignarem e saírem às ruas cobrando seus direitos e exigindo punição aos corruptos, os brasileiros têm outras prioridades. Em vez de luta contra a roubalheira e a sem-vergonhice, a marcha das vadias...

Se eu não fosse tão caridoso, eu poderia até pensar que os brasileiros já estão todos anestesiados e dominados por um discurso vigarista que inverteu o senso de prioridades, ou que foram comprados por um prato de lentilhas. Acharia até que quem marcha por aí nos dias de hoje não passa de um bando de pelegos e vagabundos sustentados pelo dinheiro estatal. (Mas não, é claro que não pode ser nada disso, imagina; pensar assim é coisa da elite...)

Por que, em vez de uma marcha da maconha, não organizam uma marcha contra a vadiagem e a cafajestagem na política? Por que não uma marcha em defesa da ética e da inteligência?

No Egito, na Síria, na Espanha, na Grécia, a população indignada sai às ruas exigindo mudanças e reformas. Nesses países, a revolta popular já derrubou governos. Só no Brasil causas como a liberação da maconha e a parada gay são mais importantes. Uma verdadeira marcha à ré.

quarta-feira, julho 13, 2011

POR QUE OS BRASILEIROS NÃO REAGEM?



Juan Arias *

O fato de que em apenas seis meses de governo a presidente Dilma Rousseff tenha tido que afastar dois ministros importantes, herdados do gabinete de seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva (o da Casa Civil da Presidência, Antonio Palocci – uma espécie de primeiro-ministro – e o dos Transportes, Alfredo Nascimento), ambos caídos sob os escombros da corrupção política, tem feito sociólogos se perguntarem por que neste país, onde a impunidade dos políticos corruptos chegou a criar uma verdadeira cultura de que “todos são ladrões” e que “ninguém vai para a prisão”, não existe o fenômeno, hoje em moda no mundo, do movimento dos indignados.

Será que os brasileiros não sabem reagir à hipocrisia e à falta de ética de muitos dos que os governam? Não lhes importa que tantos políticos que os representam no governo, no Congresso, nos estados ou nos municípios sejam descarados salteadores do erário público? É o que se perguntam não poucos analistas e blogueiros políticos.

Nem sequer os jovens, trabalhadores ou estudantes, manifestaram até agora a mínima reação ante a corrupção daqueles que os governam.

Curiosamente, a mais irritada diante do saque às arcas do Estado parece ser a presidente Rousseff, que tem mostrado publicamente seu desgosto pelo “descontrole” atual em áreas do seu governo e tirou literalmente – diz-se que a purga ainda não acabou – dois ministros-chave, com o agravante de que eram herdados do seu antecessor, o popular ex-presidente Lula, que teria pedido que os mantivesse no seu governo.

A imprensa brasileira sugere que Rousseff começou – e o preço que terá que pagar será elevado – a se desfazer de uma certa “herança maldita” de hábitos de corrupção que vêm do passado. E as pessoas das ruas, por que não fazem eco ressuscitando também aqui o movimento dos indignados? Por que não se mobilizam as redes sociais?

O Brasil, que, motivado pela chamada marcha das Diretas Já (uma campanha política levada a cabo durante os anos 1984 e 1985, na qual se reivindicava o direito de eleger o presidente do país pelo voto direto), se lançou nas ruas contra a ditadura militar para pedir eleições, símbolo da democracia, e também o fez para obrigar o ex-presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992) a deixar a Presidência da República, por causa das acusações de corrupção que pesavam sobre ele, hoje está mudo ante a corrupção.

As únicas causas capazes de levar às ruas até dois milhões de pessoas são a dos homossexuais, a dos seguidores das igrejas evangélicas na celebração a Jesus e a dos que pedem a liberalização da maconha.

Será que os jovens, especialmente, não têm motivos para exigir um Brasil não só mais rico a cada dia ou, pelo menos, menos pobre, mais desenvolvido, com maior força internacional, mas também um Brasil menos corrupto em suas esferas políticas, mais justo, menos desigual, onde um vereador não ganhe até dez vezes mais que um professor e um deputado cem vezes mais, ou onde um cidadão comum depois de 30 anos de trabalho se aposente com 650 reais (300 euros) e um funcionário público com até 30 mil reais (13 mil euros).

O Brasil será em breve a sexta potência econômica do mundo, mas segue atrás na desigualdade social, na defesa dos direitos humanos, onde a mulher ainda não tem o direito de abortar, o desemprego das pessoas de cor é de até 20%, frente a 6% dos brancos, e a polícia é uma das que mais matam no mundo.

Há quem atribua a apatia dos jovens em ser protagonistas de uma renovação ética no país ao fato de que uma propaganda bem articulada os teria convencido de que o Brasil é hoje invejado por meio mundo, e o é em outros aspectos. E que a retirada da pobreza de 30 milhões de cidadãos lhes teria feito acreditar que tudo vai bem, sem entender que um cidadão de classe média europeia equivale ainda hoje a um brasileiro rico.

Outros atribuem o fato à tese de que os brasileiros são gente pacífica, pouco dada aos protestos, que gostam de viver felizes com o muito ou o pouco que têm e que trabalham para viver em vez de viver para trabalhar.

Tudo isso também é certo, mas não explica que num mundo globalizado – onde hoje se conhece instantaneamente tudo o que ocorre no planeta, começando pelos movimentos de protesto de milhões de jovens que pedem democracia ou a acusam de estar degenerada – os brasileiros não lutem para que o país, além de enriquecer, seja também mais justo, menos corrupto, mais igualitário e menos violento em todos os níveis.

Este Brasil, com o qual os honestos sonham deixar como herança a seus filhos e que – também é certo – é ainda um país onde sua gente não perdeu o gosto de desfrutar o que possui, seria um lugar ainda melhor se surgisse um movimento de indignados capaz de limpá-lo das escórias de corrupção que abraçam hoje todas as esferas do poder.

* Juan Arias é correspondente do do jornal espanhol EL PAÍS no Brasil

sábado, julho 09, 2011

ALGUMAS CONDIÇÕES PARA EXISTIR UMA ESQUERDA DEMOCRÁTICA

Um leitor, comentando um post meu de dezembro do ano passado ("LULA É DE ESQUERDA"), e provavelmente intrigado com minhas críticas à canhota, fez uma pergunta singela: Afinal, a esquerda não pode ser democrática? Só a direita é que pode?

Tal pergunta só poderia ter sido feita por alguém da sinistra, ou que com ela se identifica. Duvido que o leitor fizesse a mesma pergunta para a direita. Mesmo assim, vou responder a questão. Só espero que o leitor não fique chateado ao se ver representado na resposta.

Se pode existir esquerda democrática? Claro que sim, gentil leitor. Basta atender os seguintes requisitos:

- NÃO idolatrar tiranos assassinos e genocidas como Lênin, Mao Tsé-tung e Fidel Castro (ou aquele argentino fedorento que gostava de fuzilar seus opositores e que virou estampa de camiseta).

- NÃO torcer, abertamente ou em segredo, para que o "multilateralismo" da China e da Rússia tome o lugar dos EUA ("uma potência imperialista").

- NÃO considerar a corrupção "coisa da direita" (e a honestidade, portanto, "da esquerda").

- Ser contra todas as cotas, principalmente as raciais, e a favor do mérito individual.

- Ser contra a censura à liberdade de expressão, sobretudo à liberdade religiosa, seriamente ameaçada pelo lobby gayzista (PLC 122 etc.).

- Considerar "causas" como a descriminalização da maconha uma bobagem de desocupados e de filhinhos-de-papai, e reconhecer que o viciado é, sim, cúmplice do narcotráfico.

- Declarar abertamente que Lula é um farsante e um bandido, o chefe do esquema mais corrupto da História do Brasil, e que merece cadeia.

- Abandonar de vez essa conversa mole de "mídia burguesa e golpista", que não convence ninguém.

- Jogar no lixo o papo furado de que partidos como o PSDB e o DEM são "de direita" (até porque só existe direita no Brasil na cabeça dos esquerdiotas).

- Reconhecer que o Foro de São Paulo existe e é a maior ameaça à democracia na América Latina em quarenta anos, devendo ser exposto e desmascarado.

- Ser grato a George W. Bush por ter livrado a humanidade de flagelos como o regime talibã no Afeganistão e Saddam Hussein no Iraque, abrindo o caminho para a democracia pela primeira vez naquela região do planeta.

- Reconhecer o fato de que, em 11 de setembro de 2001, os EUA foram vítimas do maior atentado terrorista da História, e que não fizeram nada que pudesse justificar tal ataque covarde.

- Exigir que Barack H. Obama prove, definitivamente e sem dar margem a dúvidas, que é cidadão nato norte-americano e que está, portanto, habilitado legalmente para ser presidente dos EUA.

- Condenar o terrorismo de grupos como o Hamas e reconhecer o direito de Israel de se defender.

- Reconhecer que em 1964 houve um contra-golpe civil-militar preventivo, desfechado para impedir que o Brasil se tornasse uma ditadura esquerdista.

- Defender a Lei de Anistia, que perdoou igualmente terroristas e torturadores, e reconhecer que o que a esquerda armada fez nos anos 60 e 70 foi terrorismo.

- Repudiar o desarmamentismo e defender o direito do cidadão de bem ter acesso legal a armas de fogo.

- Considerar o MST um movimento criminoso de baderneiros profissionais, e não um "movimento social", muito menos "a favor da reforma agrária".

- Rechaçar o método da argumentação ad hominem, lendo um autor pelos argumentos que ele tem, e não deixar de fazê-lo porque ele é "de direita" ou "reacionário".

- Reconhecer as raízes socialistas do nazi-fascismo e repudiar o "politicamente correto" como uma forma de censura fascista.

- Condenar o estatismo e defender o capitalismo e o livre mercado como o único caminho capaz de gerar prosperidade e liberdade.

- Considerar o comunismo o regime mais totalitário que já existiu, tendo excedido em muito os piores crimes do nazi-fascismo.

- Defender a democracia como um valor universal (e não "cultural") e a liberdade individual como o valor supremo da política, acima da "igualdade".

E, finalmente:

- Dizer, com todas as letras e para que todos ouçam: Que grande besta era o Carlos Marx!

Aí está. Para que alguém seja considerado democrata e amante da liberdade, é preciso antes de tudo que preencha as condições acima. Do contrário, ficará comprovado pela enésima vez que a única "esquerda democrática" é a... direita.

quinta-feira, julho 07, 2011

CARTA ABERTA AOS LÍDERES DA "OPOSIÇÃO"

Caros senhores deputados e senadores dos partidos da assim chamada "oposição" no Brasil (escrevo "oposição" entre aspas; nos próximos parágrafos, explico por quê):

Mais um ministro do governo Dilma Rousseff caiu devido a denúncias de corrupção na pasta que dirigia. É o segundo em um mês. Certamente, não será o último.

De tão repetido, o roteiro é de todos conhecido. Já se perdeu a conta de quantos membros do governo "rodaram" desde o início do mandarinato lulopetista, em 2003. Por alguns dias, sairão reportagens e artigos detalhando o esquema fraudulento. Como boa discípula do mestre, o poste de saias e botox dirá que não sabia de nada (ou que foi traída, ou que foi tudo uma conspiração das elites e da mídia, ou outra desculpa esfarrapada qualquer). Em alguns dias, tudo estará esquecido, inclusive o nome do dito-cujo. Até que outro escândalo estoure. Então tudo se repetirá. E assim outra vez, num ciclo sem fim.

Como ocorrido nas outras vezes, o ministro corrupto ficará impune, acobertado pela máquina mafiosa no poder em Brasília. E, como também ocorreu nas outras vezes, ele caiu por causa de uma reportagem de revista, e não porque a "oposição" fizesse alguma coisa.

Aliás, esse é o motivo pelo qual escrevo esta carta. Vossas excelências não fazem nada, absolutamente nada, para se contrapor de verdade ao governo dos petralhas. Já se conformaram a um jogo de cena, a um papel realmente patético de marido corneado, deixando de fazer aquilo que se espera da oposição: opor-se ao governo.

Tivemos oito anos de deboche, durante os quais o ocupante da cadeira presidencial se deleitou saqueando o Estado e zombando da lei e das instituições. E nunca antes uma oposição foi tão irrelevante. Digo mais: tão cúmplice da própria desgraça. Agora, com a Muda Pudorosa, o escárnio continua, apenas sem efeitos especiais e sem fogos de artifício.

Em 2005, quando foi revelado - graças a um membro do esquema, vindo das estranhas do poder - o maior escândalo de corrupção da História do Brasil, vossas excelências tiveram a chance de emparedar o chefe da quadrilha e despachá-lo para o lugar a que ele pertence, a lata de lixo da História. Em vez disso, porém, preferiram pensar como políticos provincianos, e não como estadistas, esperando vencer as próximas eleições. Escolheram um candidato sem qualquer expressão, incapaz de defender as conquistas de governos anteriores, como as privatizações. Um candidato sem quaisquer condições de encabeçar a tarefa histórica de livrar o Brasil da chaga do lulopetismo. O resultado foi que o chefe do mensalão não só se reelegeu, como intensificou o escárnio e a roubalheira, graças à pusilanimidade e à bundamolice de tucanos e democratas.

Quatro anos depois, a mesma coisa. Impedido legalmente de concorrer a um terceiro mandato, o chefe da quadrilha que se encastelou no poder escolheu no meio da militância uma completa desconhecida, de passado e idéias obscuras (para não falar do raciocínio tortuoso). Alguém cuja biografia política não revelava nada que a qualificasse para o cargo de presidente da República, a não ser o fato de que era afilhada do chefão. Para piorar, alguém que não assumia as próprias idéias (em questões como o aborto, por exemplo). Novamente, em vez de explorar essas fraquezas da adversária e fazer Política com P maiúsculo, ficaram no rame-rame cotidiano, deixando o candidato a vice denunciando praticamente sozinho fatos gravíssimos como a notória ligação do PT com as FARC via Foro de São Paulo (que ainda tem gente que acha que não existe, meu deus do céu...).

Entre uma eleição e outra, tirando um muxoxo aqui e ali, nenhuma ação mais enérgica, nenhum movimento coordenado contra a bandalheira e a avacalhação. Nada. Com raríssimas exceções, como o senador Jarbas Vasconcelos (aliás, do PMDB, um partido da base alugada do governo), nada mais do que timidez e capitulação, típicas de quem não honra as calças que veste.

O que falta para vocês reconhecerem que o Estado no Brasil foi tomado por uma gangue cujo único objetivo é locupletar-se no poder, loteando e aparelhando a máquina estatal com militantes e apaniguados interessados em lucrar e em perpetuar-se nessa posição? E que, diante de tal situação, o silêncio é um crime?

Vossas excelências deveriam assumir de vez que não são oposição coisa nenhuma. Deveriam deixar de fingimento e admitir o que até as pedras da Praça dos Três Poderes já sabem: que, contra os lulopetistas, vossas senhorias são uns fracos, uns incompetentes, uns incapazes, uns palermas.

Nesse sentido, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, foi mais honesto: escancarou de vez sua vocação para o puxa-saquismo, e até fundou um partido para bajular a presidenta-gerenta. Ele está fazendo aquilo que vocês apenas pensam em fazer, mas não têm coragem. Como não têm coragem de cumprir a função para a qual foram eleitos, que é opor-se e fiscalizar o governo. Não deveriam, portanto, ficar surpreendidos com a derrota nas últimas eleições e com o encolhimento de suas fileiras. Ninguém quer ficar do lado perdedor, sobretudo quando este não quer lutar.

Em qualquer país sério, oposição e governo, direita e esquerda, disputam em condições de igualdade o poder político. Dêem uma olhada. É assim nos EUA, na França, na Alemanha, no Japão ou na Groenlândia. Nesses lugares, temas como aborto e liberação das drogas são discutidos abertamente, e ambos os lados apresentam seus argumentos, tentando influenciar a opinião pública. Nenhum assunto é tabu.

No Brasil, ao contrário, ouve-se apenas um discurso. O país assiste a um processo sem precedentes de abastardamento do Estado e de avanço das patrulhas ideológicas, num movimento que a cada dia coloca mais em perigo as liberdades democráticas, como a liberdade de expressão. Minorias organizadas e regadas com o maná do dinheiro público intimidam e acossam a maioria silenciosa e impotente, buscando impor suas agendas políticas antidemocráticas. E não vejo um único parlamentar oposicionista, um simples vereador de cidade do interior, levantar-se contra essa impostura. É triste.

Um país sem oposição está a meio caminho para a ditadura.

Há alguns dias, morreu o ex-presidente Itamar Franco. Embora controverso, foi louvado unanimemente como um político honesto (o que, dadas as condições da política atual, não é pouca coisa). Nos últimos tempos, Itamar era uma das poucas vozes a fazer oposição ao governo. Isso mostra bem a pobreza política em que o Brasil se encontra.

Outro exemplo: recentemente, o STF, cedendo ao lobby gayzista - uma das frentes de atuação do esquerdismo lulopetista -, rasgou a Constituição, usurpando a função do Legislativo ao decidir pela legalização da "união homoafetiva" no Brasil. Com isso, jogou no lixo o Artigo 226 da Carta Magna, que só poderia ser modificado por Emenda Constitucional, a ser votada e aprovada no Parlamento. Alguém viu algum parlamentar oposicionista protestando contra esse golpe constitucional?

Mais recentemente, os mesmos ministros do STF, atacados pela febre politicamente correta, decidiram pela liberalização da "marcha da maconha", sob a alegação de defesa da "liberdade de expressão". Ao fazerem isso, passaram uma borracha no Código Penal, que considera crime a apologia às drogas, abrindo caminho para outros delitos do tipo, como a exibição de imagens de santos católicos em poses homoeróticas (um crime, segundo o Artigo 208 do Código Penal). Novamente, algum político da "oposição" se mexeu para cobrar providências legais nesses casos?

Mesmo nos momentos mais negros da ditadura militar, havia oposição - legal e ilegal - ao regime. Esse, aliás, foi um dos fatores a diferenciar o regime dos generais de regimes políticos idolatrados pelos que estão hoje no poder no Brasil, como o de Cuba. Não são poucos os que estão no atual governo que adorariam ver esse tipo de regime transplantado para cá. Sem uma oposição que valha o nome, têm o caminho aberto para isso.

O partido que está no poder recusou-se a votar em Tancredo Neves para acabar com o regime militar, negou-se a assinar a Constituição de 1988 e se opôs demagogicamente à estabilização da economia com o Plano Real. Ficou contra todas as conquistas importantes ocorridas no Brasil nas últimas três décadas, apenas para surfar na onda alheia e usurpar essas conquistas, vendendo-as como próprias. Além disso, seus membros mantêm relações escancaradas com ditadores e narcoterroristas. O que falta para desmascará-lo como um bando criminoso de farsantes e vigaristas?

Desculpem, mas não consigo levar a sério uma "oposição" acabrunhada e acovardada que, diante de tamanho descalabro, mantém-se calada ou condescendente, e que se mostra incapaz de qualquer ação firme contra isso que está aí.

Não posso levar a sério uma "oposição" que se deixa guiar por pesquisas de popularidade e pelo marketing político.

Não posso levar a sério uma "oposição" que se recusa a denunciar a farra dos lulopetistas no poder para não perder votos e para não ser comparada aos lulopetistas quando estavam na oposição e gritavam "Fora FHC" todos os dias.

Não posso levar a sério uma "oposição" que silencia diante das misérias de um governo alinhado com o que de pior existe na humanidade porque, afinal, este não mexeu na economia.

Não posso levar a sério uma "oposição" que deixa para jornalistas e blogueiros a missão de denunciar a óbvia desonestidade dos lulopetistas, que passaram anos vociferando contra as mesmas políticas econômicas e as mesmas práticas clientelistas e assistencialistas que antes diziam condenar, inclusive aliando-se a gente como Sarney e Collor.

Não posso levar a sério uma "oposição" que tem, como seus maiores representantes, José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves - políticos mais interessados em agradar os esquerdistas e em posar de bons-moços do que em serem oposição de verdade.

Enfim, não dá para levar a sério uma "oposição" que come mosca o tempo todo e que se recusa a defender abertamente políticas e valores LIBERAIS e CONSERVADORES - valores que são, aliás, da MAIORIA da população brasileira - para não passar por "de direita" (como se isso fosse algum xingamento), cedendo, assim, à patrulha esquerdista.

Sinto muito, mas não posso levá-los a sério. Vocês são parte da farsa.

Só me resta sugerir que façam aquilo que, certamente, muitos nos partidos da "oposição" desejam fazer, e só não o fazem por motivos legais ou de disciplina partidária: dissolvam o DEM e o PSDB. Ou, se preferirem, podem fundi-los ao PT ou ao PMDB. Tirem a máscara que vocês usam para enganar a si mesmos, e vistam de vez a camisa com a estrela vermelha. Ninguém iria notar qualquer diferença.

Fica a dica. É claro que nenhum deputado ou senador do DEM ou do PSDB vai seguir esse meu conselho. Afinal, também para assumir a própria covardia, é preciso alguma coragem. E esse, definitivamente, é um artigo em falta no Brasil da era da mediocridade.

sexta-feira, julho 01, 2011

A CULPA DA VÍTIMA. OU: O TERRORISMO "CAVALHEIRESCO" DA ESQUERDA

O norte-americano Curtis Carly Cutler era cônsul dos EUA em Porto Alegre (RS) quando, em 4 de abril de 1970, sua caminhonete Plymouth foi fechada por um Fusca. Dele, sairam vários homens fortemente armados com revólveres e metralhadoras. Era uma tentativa de seqüestro. Não somente de seqüestro, mas de assassinato: depois de manobrar o automóvel para fugir dos seqüestradores, Cutler sentiu um forte impacto - um dos bandidos, frustrado pelo fracasso da operação, disparou contra ele um balaço de pistola .45, ferindo-o nas costas. Por pouco ele não morreu.

Em entrevista à revista Época (número 679, 23/05/2011), Cutler não mostrou qualquer ressentimento contra os agressores. Pelo contrário: defendeu - isso mesmo, defendeu - o que fizeram, e afirmou que, se estivesse no lugar deles, nas mesmas circunstâncias, talvez faria o mesmo. Disse ainda que, quando viu os criminosos presos, ficou "triste". Cutler declarou à revista que achou "muito cavalheiresco" da parte de seus frustrados captores não terem metralhado o carro em que estava (havia uma mulher e uma criança com ele no automóvel), e que considera "apropriado" terem lhe metido uma bala que transfixou seu ombro direito e passou raspando pelo pulmão... Em toda a entrevista, Cutler deixa transparecer certa culpa pelo ocorrido. Ele pede mesmo desculpas por ter jogado o carro contra os atacantes e fugido. Só faltou agradecer por ter levado um tiro.

Cutler é doido? É masoquista? Por que tamanha condescendência com quem tentou raptá-lo e, ainda por cima, abatê-lo a tiros? O que leva alguém que quase morreu numa tentativa de seqüestro a praticamente se desculpar por não se ter deixado capturar, e ainda por cima tecer tão calorosos elogios a seus atacantes?

A resposta Cutler dá na frase que é o próprio título da entrevista: "Nunca fui anticomunista".

O bando que tentou seqüestrar Cutler mais de quarenta anos atrás era de militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), um dos vários grupos terroristas de extrema-esquerda que atuavam na época no Brasil. Um dos seqüestradores foi o ex-prefeito de Belo Horizonte e hoje ministro do Desenvolvimento do governo Dilma Rousseff (ela também, ex-participante de grupos armados esquerdistas), Fernando Pimentel.

Segundo a lenda cor-de-rosa polida pela esquerda hoje no poder, a VPR era uma organização de jovens idealistas que lutavam heroicamente contra a ditadura militar então vigente no Brasil, e em favor da democracia e da liberdade. Segundo os próprios documentos das organizações terroristas de esquerda, a VPR, assim como todos os demais grupos armados qua atuaram nos anos 60 e 70 no Brasil, opunha-se com armas à ditadura militar não porque desejasse a democracia, mas porque queria substituí-la por uma ditadura comunista - a qual, visto o retrospecto do comunismo no século XX, faria os militares brasileiros parecerem, em comparação, um grupo de escoteiros em férias.

Entre a realidade dos fatos e a mitologia esquerdista, Cutler preferiu esta última, a ponto de não se ver sequer como vítima de seqüestro e tentativa de homicídio. Pelo que se lê na entrevista, ele parece muito mais preocupado em se livrar da "pecha" (é assim que chama a revista) de anticomunista que teria recebido depois do seqüestro, explicando: "Ser anticomunista era ser como o senador Joseph McCarthy" (referindo-se ao presidente do Comitê para Assuntos Não-Americanos durante a "caça às bruxas" nos EUA nos anos 50). Ele diz mesmo que os terroristas "foram heróis" e chega a compará-los aos militares alemães que tentaram matar Hitler. Para ele, a VPR era uma organização que lutava pela democracia e os terroristas que a compunham, como Fernando Pimentel, eram freedom fighters, lutadores da liberdade.

Que os brasileiros, entorpecidos por décadas de propaganda ideológica esquerdista nas escolas, reforçada pela ignorância histórica, tenham-se deixado enganar pela falácia da luta armada como uma forma de "resistência democrática" contra a ditadura militar, vá lá, ainda dá para entender. Mas que uma vítima de um ato terrorista, perpetrado por um grupo que desejava implantar o comunismo no Brasil, ainda mais funcionário diplomático do governo dos EUA, venha a público aplaudir os que o atacaram - e que planejavam assassiná-lo como "espião da CIA", como comprova um comunicado apreendido na época pelas forças de repressão -, é algo que desafia qualquer compreensão. É algo que só pode ser explicado como manifestação da Síndrome de Estocolmo, ou da mais pura idiotia política.

Não é preciso ser defensor da censura e do pau-do-arara para constatar que Curtis Carly Cutler foi vítima de uma ação terrorista, um crime considerado hediondo e inafiançável. Também não é preciso ser a favor do regime militar para perceber que os que praticaram tal ato estavam se lixando para a democracia. Mas o mais importante: não é necessário ser antidemocrático - ou partidário do macarthismo - para ser anticomunista. De fato, é o inverso que é verdade: comunistas não defendem a democracia. Jamais defenderam. Pelo contrário: desprezam-na e combatem-na, aberta ou dissimuladamente.

Assim como não percebe essa verdade óbvia, Cutler demonstra total falta de senso de proporções. Por mais que se abominem as torturas praticadas pelos agentes do regime militar, comparar os generais brasileiros aos nazistas é o mesmo que comparar uma pulga a um elefante. Do mesmo modo, igualar os terroristas que assaltavam bancos e seqüestravam diplomatas estrangeiros como Cutler aos militares que se sacrificaram tentando livrar a humanidade de Hitler é uma afronta a esses últimos. Nem o general Médici era Hitler, nem Fernando Pimentel é um conde von Stauffenberg.

Fico me perguntando: se, em vez de comunistas, os terroristas que tentaram raptar Cutler fossem membros de um grupo neofascista, as palavras de Cutler seriam as mesmas? Alguém já viu um sobrevivente da tortura chamar de "cavalheiresco" o torturador que, podendo tê-lo matado, poupou-lhe a vida? (E o autor do disparo que atingiu Cutler provavelmente nem essa intenção teve.) Imaginem o escândalo se alguém na esquerda viesse dizer que a tortura foi "apropriada"... No mínimo, internariam o autor da declaração em alguma instituição psiquiátrica - e com toda razão.

A ânsia de Cutler em agradar os terroristas de esquerda, garantindo para si um atestado de simpatia ideológica, revela a persistência do tabu que os norte-americanos chamam de anti-anticomunismo. Trata-se da proibição tácita de se condenar os crimes dessa ideologia intrinsecamente criminosa e genocida, pois isso seria fazer o "jogo da direita". O comunismo matou mais de 100 milhões de pessoas, mas ainda assim possui uma aura moral que o fascismo, por exemplo, não tem. É o totalitarismo "do bem". Em nome dele, do comunismo, tudo, absolutamente tudo, é permitido; os crimes que se cometem em seu altar são inimputáveis. Em nome dessa causa sagrada, vale até mesmo ser baleado numa tentativa de seqüestro. Isso mostra a que ponto chegou a lavagem cerebral comunista: provavelmente, se soubesse que o grupo que tentou seqüestrá-lo era de "guerrilheiros", Cutler não teria oferecido qualquer resistência. Teria sido sua contribuição à "causa"...

Na ex-URSS, durante o grande terror dos expurgos stalinistas, era comum as vítimas dos fuzilamentos morrerem gritando vivas a Stálin e ao comunismo. Muitos até se reconheciam culpados de crimes imaginários, e passavam mesmo a acreditar que os tinham cometido, pois o Partido assim o dizia (e o Partido estava sempre certo). A se julgar pela entrevista do ex-cônsul Curtis C. Cutler à Época, a culpabilização da vítima e a glorificação dos carrascos, fenômeno típico do stalinismo, continuam mais fortes do que nunca. Pelo menos enquanto persistir o monopólio esquerdista da História dos "anos de chumbo" no Brasil.

quinta-feira, junho 30, 2011

O balanço do semestre perdido comprova que o governo Dilma é o governo Lula sem serviço de som e sem efeitos especiais



por Augusto Nunes


Depois de resolver que a obra mais importante de um presidente da República é eleger o sucessor, Lula dispensou-se de questões administrativas, abandonou o local de trabalho e passou seis meses fazendo um comício por dia. Ou dois. De 1° de julho a 31 de dezembro de 2010, o palanqueiro ambulante acampou nas cercanias de quadras esportivas já em funcionamento, creches inacabadas e buracos de pedras fundamentais, para induzir a plateia a acreditar que contemplava mais uma etapa da construção do Brasil Maravilha. Muito barulho por nada, avisa o balanço dos últimos seis meses do governo Lula. Além da eleição de Dilma Rousseff, não foi concluída nenhuma obra efetivamente importante. Administrativamente, foi um semestre perdido.

Tão perdido quanto o primeiro semestre do governo Dilma. Mãe do PAC e Madrinha do Pré-Sal, a candidata apresentou-se durante a campanha eleitoral como parteira do país mais que perfeito que Lula concebeu. Tinha tanta intimidade com a máquina administrativa que os retoques finais no Brasil Maravilha começariam já no dia da posse. Pura tapeação. Passados seis meses, continuam nos palanques de 2010 as 500 Unidades de Pronto Atendimento, as 8 mil Unidades Básicas de Saúde, as 800 Praças do PAC, os 2.800 postos de polícia comunitária e as escolas de educação infantil, fora o resto.

A transposição das águas do São Francisco não tem prazo para ficar pronta. O leilão do trem-bala será adiado pela terceira vez. Os canteiros de obras da Copa e da Olimpíada estão despovoados. Há seis anos no Palácio do Planalto, a superexecutiva acaba de descobrir que só a privatização livrará os aeroportos do completo colapso. A compra dos caças reivindicados pela Aeronáutica ficará para quando Deus quiser. As fronteiras seguem desprotegidas. Das 6 mil creches prometidas na campanha, apenas 54 foram entregues. Menos de 500 casas populares ficaram prontas. E os flagelados da Região Serrana do Rio não deixarão tão cedo os abrigos onde sobrevivem desde as tempestades de janeiro.

A diferença entre o primeiro semestre da afilhada e o último do padrinho é que o ilusionista teve de deixar o palco em que esgotou o estoque inteiro de truques. Livres da discurseira atordoante, os brasileiros puderam contemplar a paisagem mais atentamente. O que estão vendo não rima com o que ouviram durante oito anos. Milhões já sabem que o paraíso só existe no cartório. Descobriram que o governo Dilma é a continuação do governo Lula, mas sem som e sem efeitos especiais. Disso resulta a sensação de que a coisa conseguiu ficar pior. Mesmo que sejam ambos bisonhos, a versão falada parecerá sempre melhor que o filme mudo.

quarta-feira, junho 29, 2011

RUMO À DITADURA



Li outro dia que um deputado federal propôs na Câmara um projeto de lei que institui o Dia do Orgulho Heterossexual.

Na hora, pensei que fosse piada. E realmente seria, se não fosse por um detalhe: existe um Dia do Orgulho Gay.

Ambas as idéias são totalmente ridículas e idiotas. Orgulhar-se da própria opção sexual é coisa de quem tem alfafa no lugar do cérebro. Presunção e arrogância, para ser mais delicado.

Por que alguém deveria sentir-se orgulhoso de ser gay, ou hétero, em primeiro lugar? Por que não instituir, também, o Dia do Orgulho Gordo? Ou do Orgulho Magro? E que tal o Dia do Orgulho Anão (ou Gigante)? Ou dos Comedores de Jiló? Ou dos Torcedores do Novorizontino? Faria tanto sentido quanto.

Haverá quem diga que se trata de um "avanço", pois é preciso "respeitar as diferenças" etc. Ora, respeito é uma coisa - e espero que os senhores e senhoras gayzistas respeitem minha opção de não ser um deles -; orgulho é outra, completamente diferente. O orgulho, como sabe qualquer pessoa com um mínimo de bom senso, é um sentimento altamente deletério. Está baseado numa idéia de exclusão, de superioridade sobre os demais. "Tenho orgulho de ser corintiano; chupa essa, palmeirenses!", ou vice-versa. Nada de bom pode surgir disso.

Pois bem. Eu falava da proposta do dia do orgulho heterossexual, e de como ela é idiota. Mesmo idéias estúpidas, porém, têm lá sua razão de ser. Nesse caso, trata-se de se contrapor à tal "parada do orgulho gay", que já virou atração turística em alguns lugares (tem gente pra tudo neste mundo). Mais que isso: é um alerta, uma reação de parte da sociedade - a maioria, que não é homossexual e que não aguenta mais ser bombardeada todos os dias pela impostura gayzista.

Graças a uma propaganda massacrante nos meios de comunicação - em especial nas novelas e programas da Rede Globo -, a ideologia gayzista (que está para os homossexuais como a CUT e o PT estão para os trabalhadores), está se impondo como um rolo compressor. Pior: ameaça cada vez mais transformar o Brasil numa espécie de ditadura rosa.

Acham que estou exagerando? Então vejam alguns exemplos recentes.

- O Supremo Tribunal Federal decidiu, em maio passado, pela legalidade do "casamento gay", chamado de “união homoafetiva” para não ferir os ouvidos mais sensíveis. A decisão fere diretamente o Artigo 226 da Constituição Federal, que deixa claro que, para fins de proteção do Estado, é reconhecida como casamento a união entre um homem e uma mulher, e que só pode ser modificado por Emenda Constitucional, a ser votada e aprovada no Congresso Nacional. Portanto, o STF usurpou a função do Legislativo e mandou às favas a separação de poderes, base da democracia. Cedendo ao lobby gayzista, trocou Montesquieu pelo ex-BBB Jean Wyllis. (Um dos ministros favoráveis à "união homoafetiva" justificou seu voto dizendo que o órgão sexual masculino é um "plus", um "regalo da natureza"... O fato de ser a união entre um homem e uma mulher o que garantiu a reprodução da espécie humana não passa de um detalhe.) Há alguns dias, um juiz de Góias declarou nulo um "casamento gay" celebrado pouco antes. Por ter invocado o Artigo da Constituição revogado cartorialmente pelo STF, está sendo linchado como "homofóbico".

- Durante a última "parada do orgulho gay" em São Paulo - a maior do mundo, com milhões de participantes e outros tantos de curiosos –, a organização do desfile exibiu imagens de santos católicos em poses homoeróticas. Trata-se de crime previsto no Artigo 208 do Codigo Penal, assim definido: "Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso". (Só a título de especulação: imaginem se, em vez de santos católicos, algum engraçadinho resolvesse mostrar uma imagem de Maomé com batom e salto alto... Melhor nem pensar.)

- Uma telenovela (da Globo, claro), Insensato Coração - essa fiquei sabendo por terceiros -, enveredou escancaradamente pelo caminho do proselitismo gayzista. Seu autor, Gilberto Braga (um militante assumido), decidiu inserir, em cada capítulo, personagens e um discurso a favor do gayzismo, com "estatísticas" e tudo. A idéia é mostrar os gays como vítimas de preconceito e perseguição, e todos aqueles que torcem o nariz para eles como terríveis (lá vem a palavra de novo) "homofóbicos".

São apenas alguns exemplos. A cada dia surgem outros. Os dois primeiros mostrados acima deixam claro que a Lei, no Brasil, deixou de existir. Melhor dizendo: ela existe apenas para ajustar-se ao lobby gayzista e politicamente correto.

Assim como ocorre com outros lobbies semelhantes, o gayzista não tem qualquer compromisso com a verdade. Uma das idéias-fetiche de gente como Luiz Mott, presidente do Grupo Gay da Bahia, é que o Brasil seria um país "homofóbico". Trata-se de uma contradição em termos. Os gays representam uns 10% da humanidade, mas estão super-representados nos meios de comunicação. Cantores (e cantoras), atores, diretores, apresentadores não escondem sua homossexualidade. É difícil lembrar de um autor de telenovelas que não seja homossexual. O Brasil tem a maior parada gay do mundo. Não somos homofóbicos, assim como não somos racistas.

Da percepção claramente falsa de que o Brasil é uma espécie de Arábia Saudita decorre outra, mais fraudulenta ainda: a de que o Brasil seria uma espécie de matadouro de gays, lésbicas e travestis (ou aquela sopa de letrinhas que os militantes gostam de usar), em que homossexuais seriam vítimas de violência, tão perseguidos quanto eram os judeus na época da Alemanha nazista.

Aqui, claramente a mentira adquire ares de verdadeira psicose, de falsificação grosseira da realidade para se ajustar a um discurso ideológico vigarista. As ONGs gayzistas gostam de citar números para dizer que "no ano passado, foram mortos tantos homossexuais no Brasil" etc., querendo dizer com isso que os assassinos teriam sido todos - todos, notem bem - heterossexuais. Estaria comprovado, assim, o crime de intolerância sexual, do qual os gays seriam as vítimas.

Quem se der ao trabalho de pesquisar, porém, irá constatar uma realidade bem diferente. Não tenho os números, mas desconfio que boa parte dos casos de homicídios envolvendo homossexuais no Brasil é cometida também por homossexuais (em muitos casos, garotos de programa ou seus clientes, que os militantes gayzistas, por alguma razão, não gostam que sejam chamados de gays). Para quem gosta de História, os exemplos de homossexuais criminosos são abundantes: Calígula, Nero, Heliogábalo, Gilles de Rais, as SA nazistas de Ernst Rohm etc. Ou vejam, então, os casos de vários serial killers famosos nos EUA (John Wayne Gacy, Jeffrey Dahmer, Henry Lee Lucas etc.). Todos gays e assassinos, que matavam seus parceiros com requintes de crueldade. Se os crimes que cometeram tivessem ocorrido no Brasil, certamente seriam computados como "crimes de intolerância" ou "crimes de homofobia"...

O mesmo ocorre com outros crimes, como a pedofilia, geralmente - nem sempre, mas geralmente - praticada por adultos homossexuais. E isso inclui os padres católicos pedófilos, que também, por alguma razão misteriosa, não são chamados de gays pelos que adoram esculhambar a Igreja.

Por que os sindicalistas do gayzismo não citam esses fatos? Por dois motivos. Primeiro: não querem perder a pose de vítimas. Segundo: desejam aparecer como seres mais sensíveis e evoluídos. Superiores, enfim.

Estou dizendo que todos os gays são pedófilos e assassinos? Claro que não, e concluir assim só confirmaria minha suspeita de que certas causas políticas são mesmo incompatíveis com a inteligência. Cada um, sendo maior de idade, que faça com o próprio corpo o que quiser, desde que não coloque em risco a saúde fisica de outrem. Estou dizendo apenas o óbvio: que ser gay (ou hétero) não é um selo de qualidade que garanta que o indivíduo será um bom cidadão, bom filho ou pai, pagador de impostos e amante da paz e das flores. Dizer que alguém é um ser humano melhor porque gosta de meninos em vez de meninas é tão absurdo e tão estupidamente cretino quanto dizer que é pior pelo mesmo motivo. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Menos, claro, se você for um militante, um veadinho nervosinho e afetado.

Toda militância é meio burra, e a militância gayzista não é exceção. Os ativistas do gayzismo não querem lutar por direitos, mas sim impor um estilo de vida e calar os que dele discordem. Ou que simplesmente tenham valores diferentes. Quem diz isso não sou eu, é o PLC 122 - a chamada Lei da Mordaça Gay - que ameaça botar em cana até quem contar piada de bichinha numa mesa de bar. Para não mencionar o óbvio atentado contra a liberdade religiosa, com padres e pastores proibidos de citar as partes da Bíblia que condenam o homossexualismo (o que vão fazer? censurar o Antigo Testamento? reescrever os trechos do Deuteronômio de que não gostaram?). Se aprovada no Congresso, como quer o deputado Jean Wyllis, tal lei imbecil irá substituir a liberdade de expressão pela censura gayzista. Aliás, com a ajuda da Rede Globo, isso já está acontecendo.

Estão apagando a fronteira entre a vida pública e a particular, o que é profundamente triste e lamentável. Eu, se fosse gay, não sairia saracoteando por aí com o narizinho empinado e expondo abertamente minha sexualidade, como um porta-bandeira da "causa". Acho isso tão boçal e estúpido quanto as bravatas dos don-juans de periferia que, entre um gole e outro de cerveja no boteco, gostam de se gabar de suas conquistas amorosas, reais ou não, arrotando que comeram tantas no fim-de-semana. Em vez de me pavonear ou de buscar o confronto, que só pode ter maus resultados (até porque há muita bicha enrustida por aí que, diante de um gay mais atrevido, não resiste em lhe dar uns tabefes), eu usaria a inteligência, e não iria querer que o Estado calasse ou intimidasse quem tivesse idéias diferentes, apenas que me deixasse em paz para levar a vida do jeito que eu escolhi. Acima de tudo, não daria a menor bola para o que pensassem e trataria de viver minha opção sexual onde e como ela deve ser vivida: na intimidade, longe dos olhos e da atenção do mundo. É assim que a maioria dos héteros faz. Ninguém vê um homem e uma mulher no maior amasso dentro de uma igreja ou numa festa infantil. Para isso existe motel. É melhor assim, e é mais gostoso.

Francamente, não me agrada nem um pouco a divisão que querem impor ao país, tipo gayzistas de um lado e Igreja católica ou evangélicos de outro. Acho isso uma tremenda empulhação, algo tão irracional e funesto quanto a divisão entre "esquerda progressista" e "direita reacionária", ou a divisão entre raças instituída pelo sistema de cotas nas universidades. Para mim, a questão não é religiosa, nem de costumes, mas diz respeito, isso sim, à própria democracia naquilo que ela tem talvez de mais sagrado: o direito a ter e expressar uma opinião, por mais preconceituosa que seja (desde que, claro, não seja um incitamento à violência). Por isso sou obrigado a reconhecer, dado o tamanho da impostura, que os católicos e evangélicos estão cobertos de razão. Entre o PLC 122 e a defesa da liberdade religiosa, fico com a segunda sem pestanejar.

Para finalizar, algumas perguntas:

- O padre católico (ou pastor protestante) não tem o direito de expulsar da igreja/templo o casal homossexual (ou heterossexual) que estiver trocando carícias na hora da missa/culto?
- Um dono de bar ou restaurante não tem o diteito de negar-se a atender um casal gay que queira fazer um jantar romântico no local?
- O pai ou mãe de família não tem o direito de escolher se a pessoa que vai cuidar de seu filho pequeno é homossexual ou não? (Uma ex-atriz da Globo, hoje deputada evangélica, está sendo crucificada porque afirmou que sim.)

Se você respondeu negativamente qualquer das perguntas acima, é porque sua noção de liberdade de expressão e de direitos individuais é a mesma dos que bolaram coisas como o PLC 122. Ou seja: você precisa reaprender o que significa viver numa democracia.

A História está repleta de exemplos de ditaduras que começaram alegando a defesa dos melhores motivos. Inclusive em nome da liberdade, cometeram-se crimes terriveis. Toda intolerância é odiosa. A intolerância dos tolerantes não foge à regra.

segunda-feira, junho 27, 2011

A MARCHA DA INSENSATEZ

Respondo a um valente anônimo, que escreveu o seguinte sobre meu último post:

Você Gustavo, como a maioria dos brasileiros é um HIPOCRITA, sabia? Se você quer fazer uma marcha a favor da inteligência, pq não faz? O que te impede? A marcha da maconha é realizada em mais de 40 paises a muitos anos, ou você não sabia disso? E ainda nos chama de ignorante...

Caro anônimo, você tem razão: sou um hipócrita (em minúsculas mesmo, e com acento agudo no “o”). Não saio às ruas em defesa da legalização do hábito de fumar maconha. Ainda por cima, defendo a Lei. Isso é mesmo uma grande hipocrisia.

Tentei, juro que tentei, encontrar uma meia dúzia de gatos pingados para fazer junto comigo uma marcha a favor da inteligência. Mas não consegui achar gente suficiente. Estavam todos na marcha da maconha.

Falando em marchas, eis aqui uma foto de uma que aconteceu há (e não “a”) mais de oitenta anos. (E que foi seguida de outras, em vários paises.)



É esse tipo de gente que gosta de marchar por aí. Eu, como sou um indivíduo, estou em outra.

quinta-feira, junho 16, 2011

ESSA VELHA JUVENTUDE (OU: OS APOLOGISTAS DA BURRICE)

Há duas semanas, um estudante universitário foi assassinado a tiros no campus da USP. Seus assassinos foram dois ladrões, que o mataram para roubar o dinheiro que ele acabara de sacar de um caixa eletrônico. Seu corpo foi encontrado, horas depois do latrocínio, ao lado do carro, no estacionamento da faculdade.

Na mesma semana, a milhares de quilômetros de distância, uma estudante, também universitária, foi estuprada dentro do campus da Universidade Federal do Acre (UFAC).

Diante de casos assim, seria de esperar que os estudantes universitários, tomados de horror e de indignação por causa desses atos bárbaros, organizassem um protesto contra a falta de segurança nos campi. O natural seria esperar que eles se mobilizassem e fizessem uma marcha, digamos, cobrando uma ação mais efetiva da polícia nas imediações da universidade, certo?

Errado. Poucos dias depois do assassinato, os estudantes da USP foram às ruas defender outra causa. Eles estavam ocupados demais preparando uma manifestação sobre um assunto muito mais urgente e infinitamente mais importante: a marcha da maconha...

Houve tempo em que a morte de um estudante era motivo para que ocorresse uma revolução por semana. Hoje, tal fato passa quase despercebido, ficando restrito aos programas policialescos da televisão. Mais importante é o direito dos descolados da USP de queimarem unzinho na sala de aula. Melhor: sem polícia por perto para atrapalhar (e prender bandidos que assaltam e estupram colegas estudantes). "Polícia má, que não me deixa fumar um baseado: má, reacionária, neoliberal, fascista e inimiga da educação..."

Seria injusto dizer que os maconhistas não estavam pensando no colega assassinado. De certa forma, eles estavam também pensando na polícia. Tanto que um dos slogans mais repetidos pelos maconheiros era "Polícia fora do campus!" - ou seja: maconha sim; polícia não. (Outros coros que fizeram sucesso com a galera foram "Ei, polícia, maconha é uma delícia!" e "Polícia sem-vergonha, seu filho também fuma maconha"...). Crêem estar prestando, assim, um grande e inestimável serviço à humanidade.

Se tem algo que a onda maconhista atual deixa claríssimo é que a idade mental de quem participa de "marchas da maconha" - agora disfarçadas, com as bênçãos paternais do STF, de "marchas da liberdade"... - é algo assim entre o jardim-de-infância e a pré-puberdade. Nessa faixa etária, as pessoas não têm ainda consciência do perigo, precisam estar sob os cuidados e a supervisão permanentes de um adulto até para ir à esquina. Nem consciência do perigo nem da liberdade, que rima sempre - sempre - com responsabilidade (outra coisa que desconhecem totalmente, e que acham que foi inventada por velhos caretas só para cortar-lhes o barato).

Acima de tudo, é a imaturidade, a arrogância hedonista própria da adolescência, o que explica que rapagões e moçoilas em geral bem-nascidos e bem-nutridos dediquem seu tempo a esse tipo de bobajada, vendo nos policiais - geralmente gente humilde, sem tempo nem grana para esse tipo de besteira - os substitutos do pai repressor e da mãe castradora - ou, o que é mais provável, o inverso, ou seja, pais relapsos e permissivos, que a essa hora devem estar se lamentando por não terem dado aquela palmada quando o Junior abriu o berreiro porque queria aquele carrinho de controle remoto que custava os olhos da cara... Crianças mimadas em geral viram adultos imaturos e narcisistas, que vivem apenas para satisfazer os instintos egóicos e contemplar o próprio umbigo.

Junte a isso o fato de que as universidades brasileiras há muito deixaram de ser lugares de ensino e de estudo, onde se faz qualquer outra coisa, menos estudar. Em vez disso, já viraram verdadeiras madraçais, onde militantes sindicais travestidos de professores encostados em departamentos infrutíferos doutrinam adolescentes com idéias imbecis contra o "sistema". E tome apologia das drogas disfarçada de "defesa da liberdade"...

O resultado disso tudo só poderia ser a proliferação da estupidez em níveis realmente assustadores. A ponto de a descriminalização da maconha ser considerada mais importante do que a vida de um estudante.

Pensando bem, faz mesmo todo sentido os revolucionários do toddyinho e dos sucrilhos sairem às ruas em defesa de seu direito de usar a mesada do papai para queimar neurônios tragando cannabis: afinal, eles estâo se lixando para a segurança, assim como estão se lixando para a Lei, essa imposição burguesa. Nada mais natural do que defenderem a "causa" de ajudar a enriquecer os narcotraficantes. Estes devem estar morrendo de rir da playbozada.

Que tal uma marcha em favor da volta da inteligência às universidades brasileiras? Eu topo.

O ERRO DE VARGAS LLOSA (OU: REFLEXÕES SOBRE UM TABU)



"Em politica, a escolha não é entre o Bem e o Mal; é entre o preferível e o detestável". (Raymond Aron)



Não acreditei quando me disseram. Creio mesmo que, se não tivesse ouvido a informação de uma fonte fidedigna, merecedora de toda confiança, eu teria duvidado da sanidade mental de quem me deu a notícia. Acharia mesmo que a coisa não passava de calúnia ou maledicência. Mas era verdade, por mais incrível que fosse.


O escritor Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura do ano passado (o Comitê do Nobel, depois de várias derrapadas nos últimos tempos, finalmente parece que resolveu se redimir), apoiou abertamente, nas eleições presidenciais peruanas, o candidato vencedor, Ollanta Humala.


Aí você me pergunta: quem é Ollanta Humala?


Pense num milico ultra-nacionalista, na pior tradição de caudilhismo destrambelhado da América Latina, com um discurso que beira o fascismo (ou quando não é o próprio, transplantado para os trópicos). Um Hugo Chávez dos Andes, com uma biografia bem parecida - foi tenente-coronel do Exército, e inclusive já tentou um golpe de Estado apoiado pelo coronel venezuelano. Assim como aquele, não conseguiu chegar ao poder na marra, então decidiu fazê-lo pelas urnas, dizendo-se um democrata. (O golpismo, aliás, está na família: seu irmão, Antauro, está preso por ter liderado a quartelada, na qual morreram quatro soldados em 2005.)


Agora imagine o sujeito acima, não tendo conseguido ser eleito na primeira vez, apresentando-se agora aos eleitores, graças aos feitiços de um bando de marqueteiros petistas contratados, numa embalagem "light", "soft", como um político "moderado", negando de pés juntos qualquer vinculação com o chavismo e se dizendo um ardoroso convertido à democracia, ao livre mercado e ao respeito à propriedade privada.


Parece familiar? Tem cheiro, sabor e forma de farsa? E é mesmo.


Você deve estar se perguntando: o que levou Mario Vargas Llosa, um intelectual respeitado, dono de impecáveis credenciais liberais - defendia o liberalismo quando isso ainda era um anátema na América Latina, e chegou a ser agredido pelos esbirros de Chávez na Venezuela algum tempo atrás -, a dar seu apoio a esse aleijão ideológico em roupagem "Humalinha paz e amor" (ou Hugo Chávez antes de cair a máscara)?


A resposta está na adversária de Humala - e na falta total de senso de proporções. Keiko Fujimori, a candidata derrotada, é filha de Alberto Fujimori, o ex-presidente peruano que, descobru-se depois, nem peruano era (nasceu no Japão).


Fujimori, o pai, foi, como todos sabem, um desastre. Seu governo, apesar de algumas conquistas importantes (a derrota do terrorismo comunista, principalmente), afundou em um festival de abritrariedades e de escândalos de corrupção (algo, aliás, que o aproxima de outros governos vizinhos). Com Keiko não será diferente, deve ter pensado o autor de Pantaleão e as Visitadoras. Ademais, Fujimori o derrotou nas eleições presidenciais de 1990 (pelo que os amantes da Literatura deveriam ser-lhe gratos, diga-se de passagem).


Pois bem. Mesmo com esses motivos pessoais para detestar Fujimori, a decisão de Vargas Llosa de apoiar Humala é incompreensível. Mais que isso: é de uma idiotice sem tamanho.


Fujimori é corrupto, ladrão e assassino, mas está preso, cumprindo pena. Além do mais, sua criminalidade jamais ultrapassou os limites do Peru: ele jamais esteve vinculado a um esquema criminoso continental como o Foro de São Paulo. Já Humala não só é um golpista, como é cria do Foro, assim como Evo Morales, Rafael Correa, Daniel Ortega e Manuel Zelaya. Tanto que Hugo Chávez só o chama de "bom soldado". E que membros dessa organização revolucionária estão atrás das grades? (Pelo contrário, com a vitória de Humala, mais um deles está no poder num país latino-americano.)


Recorrendo a uma metáfora zoológica, tomada emprestada do filósofo Olavo de Carvalho - talvez o único filósofo de verdade que sobrou no Brasil; por isso ele é tão odiado -: votar em Humala para não ter de votar na filha de Fujimori é como escolher ser feito em pedaços por um tigre para não ser mordido por uma raposa. Se eleita, Keiko Fujimori seria uma raposa tomando conta do galinheiro. Ollanta Humala é um tigre pastoreando um rebanho de ovelhas. Um tigre financiado e patrocinado por outros tigres, tão predadores quanto. E um tigre não deixa de ser tigre porque tem as unhas pintadas, como escreveu Olavo.


Alvaro, filho de Vargas Llosa, também escritor, cunhou a expressão "esquerda vegetariana" para se referir a esquerdistas "moderados", em contraposição aos esquerdistas "carnívoros" ou radicais como Hugo Chávez e Evo Morales. Trata-se de uma tremenda bobagem. Na categoria de "vegetarianos" estariam políticos como Humala e Lula, um sujeito que enganou a todos durante décadas, e que é amigo pessoal das FARC e de Fidel Castro, tendo sido co-fundador, com este último, do Foro de São Paulo. Como já escrevi várias vezes, essa estória de esquerda "vegetariana" não passa de conversa mole para boi dormir. Na verdade, não existe esquerda vegetariana. Existe esquerda herbívora (no sentido de ruminante).


Toda a idéia das "duas esquerdas", tão cara a tantos intelectuais esquerdistas latino-americanos, tem por único e exclusivo objetivo a salvação da esquerda, nada mais que isso. O que se quer é evitar, assim, o surgimento de uma direita séria e democrática. É isso, mais do que a ditadura cubana ou as fanfarronadas bolivarianas, o que mais escandaliza e o que mais causa horror a pessoas como Vargas Llosa, pai e filho.


Por que isso? Porque Vargas Llosa e seu filho, assim como muitos iguais a eles, são ex-comunistas (ou ex-esquerdistas), mas não são anticomunistas (nem anti-esquerdistas).


Sendo ex-comunistas, falta-lhes a coragem e a ousadia necessárias para dar o grande salto, declarando-se abertamente anticomunistas. E, como tal, sentem a necessidade, até mesmo psicológica, de se agarrarem ao cordão umbilical que os mantém presos ao útero esquerdista. Desse modo, podem criticar a esquerda (a "carnívora") sem parecerem "reacionários" ou "fascistas". Fazem, como Arnaldo Jabor em relação aos desmandos éticos do PT, uma crítica de esquerda ao bolivarianismo.


O exemplo de Mario Vargas Llosa ilustra à perfeição a persistência do talvez mais arraigado tabu de todos os tempos: o que os norte-americanos chamam de anti-anticomunismo. Consiste esse tabu na proibição de se declarar anticomunista, mediante a matização da esquerda, embora não se faça o mesmo com a direita, vista sempre como um bloco único, monolítico. Esse tabu é tão forte que se revela facilmente diante da escolha entre um esquerdista bolivariano travestido de democrata como Humala e uma picareta como Keiko Fujimori.


Basta um pequeno exercício para comprovar essa realidade. Existem milhares de ex-comunistas, que são vistos até com certa simpatia pelo mainstream. Todos conhecem pelo menos um. Mas quantas pessoas você conhece, prezado leitor, que, já tendo transitado um dia por algum partido ou organização comunista, declaram-se abertamente anticomunistas?


Fernando Gabeira, Dilma Rousseff, Antonio Palocci, José Dirceu - para citar os brasileiros - foram marxistas na juventude ou ligados, de uma forma ou de outra, à ideologia comunista. Quantos, porém, chegaram ao nível de um Arthur Koestler, um Vladimir Bukowski, um Raymond Aron, e se tornaram anticomunistas?


Ser ex-comunista (e nem precisa ser "ex"), no Brasil e na América Latina, continua a ter um certo charme, é algo considerado até mesmo sexy e aceitável. Mas, anticomunista? Ah, isso não... Dizer-se anticomunista (ou conservador) é declarar-se morto política e socialmente; é passar recibo de reacionário, de ultra-direitista, de intolerante, de anti-democrata e de anti-progressista. Curiosamente, não se diz o mesmo de quem se apresenta como antifascista. É permitido ser ex-comunista (ou mesmo comunista), mas não (nunca, jamais!) anticomunista. É a teoria do "totalitarismo favorito", tão brilhantemente analisada por Jean-François Revel.


Por não terem coragem de cruzar o Rubicão ideológico, muita gente contribui para manter acesa a ilusão comunistóide ou marxistóide, autoenganando-se com adjetivos eufemísticos como "moderado" ou "vegetariano". Em nome da conservação de uma antiga paixão ideológica de juventude, deixam-se cegar pela perda do senso de proporções. Nem um Prêmio Nobel como Vargas Llosa escapou dessa armadilha mental.