sábado, abril 16, 2011

POR QUE NÃO EXISTE DIREITA NO BRASIL (E O QUE FAZER PARA RESSUSCITÁ-LA)

O sono da razão produz monstros (Goya)



Aí vai um texto longo, de análise. Peço que me perdoem. Afinal, dizem que blogs são para textos curtos. Mas não acho que seja possível análises telegráficas. Ainda mais de um assunto como o que segue. Espero que gostem.

---

Algumas coisas, como a jabuticaba, só existem no Brasil. Outras existem em quase todos os lugares, menos no Brasil. É o caso de um partido político claramente de direita, liberal ou conservador.

Já apontei, em outros textos meus, esse estranho fenômeno, quase exclusivamente nacional (digo “quase” porque há uma Cuba e uma Coréia do Norte – entre as democracias, certamente, é um caso único). Em todos os países democráticos – todos, sem exceção – existe pelo menos um partido conservador forte e estruturado, que a cada eleição disputa de igual para igual, quando não em melhores condições, com a esquerda ou a centro-esquerda, e com estas se reveza no poder. É assim em todos os lugares em que vigora a democracia. Menos no Brasil.

Aliás, por estas bandas, a não-existência de um partido de direita é até celebrada como algo positivo, uma prova mesmo de “maturidade democrática” - como se democracia fosse sinônimo de uniformidade de pensamento, e não de pluralidade. Há alguns meses, o antecessor da atual presidente da República defendeu publicamente a “extirpação” de um partido adversário; antes disso, chegou ao ponto de afirmar, a sério, que o fato de os candidatos presidenciais serem todos de esquerda era um sinal de “progresso da democracia”… E houve quem o aplaudisse por isso!

Cadê a direita?

Nem é preciso lembrar tais fatos para constatar o fenômeno. Fale em "direita" no Brasil e a primeira coisa que virá à mente de seu interlocutor será algum estereótipo do passado, como um general de pijamas remanescente da Guerra Fria ou algum fanático da TFP. Predomina, no Brasil, a anatemização, a satanização da direita, como se esta se resumisse a esses arquétipos e fosse mesmo um sinônimo do mal. Ser de esquerda, por contraste, seria o mesmo que defender o bom, o belo e o justo (em Cuba ou na Venezuela, por exemplo). Chamar alguém de conservador, então, é cobrir-lhe com o pior dos palavrões (ser politicamente conservador, enfim, não seria uma opção respeitável). Adiantaria lembrar que Winston Churchill era de direita, e Stálin era de esquerda?

Há uma clara distorção nisso tudo. Ser "de direita", no Brasil, é estar no centro do espectro politico, olhando para a esquerda. Qualquer coisa que estiver à direita do centro – e não há aí quase nada, a não ser figuras folclóricas como o deputado Bolsonaro – é “fascismo”. Daí o ridículo de alguém considerar “de direita” partidos como o PSDB ou o DEM – o primeiro é um partido social-democrata ao estilo europeu (de esquerda, portanto); o outro, embora tenha entre seus quadros representantes de antigas oligarquias regionais e figuras apontadas como alinhadas à política conservadora, limita seu liberalismo à economia e imita até no nome o Partido Democrata norte-americano (o partido de Barack Obama e de Jimmy Carter, a esquerda dos EUA). Desde 1994, as eleições presidenciais no Brasil apenas atestam a farsa, não sendo mais do que um campeonato de esquerdismo - em que vence, naturalmente, o mais esquerdista. Enfim, cadê a direita?

Recentemente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu um longo artigo, “O papel da oposição”, em que chegou perto de apontar esse problema – o maior com que se defronta a política brasileira. FHC é e sempre foi um homem de esquerda, como não se cansa de dizer, mas percebeu o perigo que um país sem oposição representa para as liberdades democráticas. No artigo, ele lembra, não sem certos saudosismo e constrangimento, o periodo da oposição legal à ditadura militar para repetir o óbvio – que o papel da oposição é opor-se ao governo – e argumenta, com certo desalento, que é inútil disputar o “povão” com os lulopetistas, pois estes já conseguiram aparelhar os sindicatos e toda a chamada superestrutura, para usar o jargão marxista, o que só se consolidou durante o governo Lula, mediante bolsas-isso e bolsas-aquilo (os petralhas, obviamente, não perderam a chance de distorcer o que disse FHC, usando a referência ao "povão" para repetir a balela do PSDB "representante da 'elite'”).

Acertadamente, FHC denuncia, em seu texto, o cinismo e a hipocrisia do PT, que se apropriou de conquistas econômicas e da estabilidade proporcionadas pelo governo do PSDB, contra as quais se bateram no passado, bem como o desfazimento institucional que os oito anos de governo Lula acarretaram, com a institucionalização de práticas clientelistas e fisiológicas como o mensalão. O importante, escreveu FHC, é buscar novas estratégias para ganhar setores ainda não homogeneizados pelo discurso e pelas práticas dos lulopetistas, inclusive fazendo uso das redes de comunicação social da internet como o Facebook, o Twitter etc.

Tivesse se atrevido a ir um pouco mais longe, o sociólogo FHC acertaria em cheio, e não pela tangente. Se houvesse se livrado de certo ranço marxistóide, abandonando de vez os cacoetes esquerdistas apreendidos na época em que era um dos principais expoentes da hoje desacreditada “teoria da dependência”, ele perceberia que o grande problema brasileiro, atualmente, não é a ausência de “oposição”, mas de um partido claramente de direita e conservador. É a falta de tal partido, e não o fato de os tucanos não saberem usar a internet, o que constitui a maior ameaça à democracia no Brasil. (O fato de tantos não se terem dado conta disso, ou ignorarem essa ameaça, é mais uma prova da lavagem cerebral esquerdista – imaginem um país em que só houvesse partidos de direita.) Enfim, é algo que ele, FHC, também não poderia fazer, pois equivaleria a um "mea-culpa".

(Na verdade, não deveria causar surpresa a ninguém que os lulopetistas tenham se apoderado desavergonhadamente da política econômica do PSDB, a ponto de reivindicarem cinicamente sua paternidade: afinal, tucanos e petistas são crias do mesmo berço esquerdista uspiano, e aqueles apenas prepararam o caminho para que estes os substituíssem no governo. Antes de um Lênin, vem um Kerensky.)

A questão fundamental, em outras palavras, é a seguinte: como explicar que, embora o comunismo tenha caído em desgraça como regime político após a queda do Muro de Berlim e o colapso da URSS, ele tenha até ficado mais forte na América Latina, e no Brasil em particular? Como explicar esse fenômeno, além, claro, pela ignorância dos crimes inomináveis do comunismo, que não mais se justifica, ou pelo cinismo puro e simples, que leva algumas pessoas a se orgulharem de sua condição de comunistas, enquanto liberais e conservadores escondem, envergonhados, suas posições ideológicas?

Dito de outro modo: após 1989, a esquerda, ou pelo menos sua parcela mais importante, abandonou qualquer esperança de ser hegemônica em economia, mas manteve, e até ampliou, sua hegemonia ideológica e cultural. Abraçou o capitalismo - parte dela o fez -, mas apenas como um instrumento para levar adiante sua agenda antiliberal e antidemocrática. Questões antes desprezadas pelos partidos comunistas tradicionais, como a defesa de "minorias" e a preservação do meio ambiente, atreladas à agenda esquerdista, tornaram-se meros pretextos para atacar o capitalismo. Hoje, há mais comunistas na USP e na UnB do que em Pequim ou em Havana. Ao mesmo tempo, ninguém no Brasil se diz abertamente de direita, mas muitos se declaram oprimidos pela elite burguesa. Como explicar essa incongruência? Mais: como se chegou a essa situação?

O erro dos militares

Grande parte da culpa, paradoxalmente, recai sobre o regime militar de 1964, implantado exatamente para varrer do país a ameaça comunista.

Os militares são lembrados por terem imposto um regime autoritário conservador e combatido sem trégua a oposição de esquerda, sobretudo a esquerda armada. Quase ninguém lembra, porém, que entre as vítimas do arbítrio militar esteve também a direita civil, que foi marginalizada após 1964. Partidos como a UDN foram extintos e politicos anticomunistas como Carlos Lacerda foram cassados e tiveram suas carreiras políticas destruídas. O lugar destes foi ocupado por uma multidão de áulicos e oportunistas. O partido de sustentação do regime militar, a ARENA – de onde saíram muitos integrantes do DEM, ex-PFL – era ideologicamente nulo, como foram também seus sucessores.

Ao mesmo tempo, os militares no poder promoveram a ascensão de tecnocratas para os principais cargos públicos. Gente como Delfim Netto, hoje um dos principais gurus econômicos de Lula da Silva. Em termos politicos, surgiu um enorme vazio, que foi logo preenchido, durante o processo de “abertura” após 1974, pelo antigo MDB - de onde saíram FHC e José Serra – e por lideres esquerdistas exilados, como Leonel Brizola e Miguel Arraes, para não falar de um certo sindicalista barbudo e de voz rouca, que desponta para a politica exatamente nessa época. Nesse processo, defensores do regime, como ACM e José Sarney, passaram-se rapidamente para o outro lado. E onde ficou a “direita”? Em parte alguma.

O alijamento da direita civil pré-64 e sua substituição pela tecnocracia prepararam o terreno para a convergência de todos esses setores no campo da economia, em que o nacionalismo econômico e o dirigismo estatal se tornaram a ideologia oficial de nove em cada dez politicos brasileiros (o caso de Roberto Campos, ex-ministro do marechal Castello Branco, era uma anomalia excepcionalíssima). De tal forma que, após o interregno desastroso do governo Collor – aliás, uma caricatura de politico liberal, hoje comodamente alinhado nas hostes governistas –, não havia ninguém para defender abertamente e sem rodeios medidas como a privatização das estatais e cortes nos gastos públicos. Tal tarefa foi desempenhada, de forma relutante e pela metade, quase pedindo desculpas, pelo PSDB de Fernando Henrique Cardoso, desde então tachado imbecilmente de “neoliberal” pelas esquerdas.

Quanto aos partidos “de direita”, o DEM à frente, restringiram-se a um liberalismo pela metade, a um liberalismo para inglês ver, limitado quase inteiramente aos números da economia. Esquecem-se, assim, que o liberalismo econômico é inseparável do liberalismo politico, sem o qual aquele não passa de uma casca vazia, uma forma de justificativa de regimes autoritários. Ou alguém duvida que, economicamente, a China é hoje mais “liberal” do que o Brasil? Não dá para separar Adam Smith e John Locke, Friedrich Hayek e John Stuart Mill.

Mas o mais importante: a despolitização da sociedade promovida pelos militares veio de mãos dadas com a renúncia à guerra cultural. Os militares perseguiram os opositores do regime e exterminaram as guerrilhas de esquerda, e nisso demonstraram implacável eficiência, mas não fizeram absolutamente nada para impedir que o marxismo tomasse conta das universidades e do aparato cultural no Brasil. Pelo contrário: figura de proa do regime de 64, o general Golbery do Couto e Silva – o principal articulador do processo de abertura política nos governos Geisel e Figueiredo – defendia abertamente a “teoria da panela de pressão”, segundo a qual era necessário, e até desejável, que a esquerda dispusesse de um canal de expressão nas artes e na cultura, vistas até então como um terreno “inofensivo”.

O resultado disso foi que os militares renunciaram completamente a qualquer tipo de controle capaz de impedir a hegemonia gramsciana da esquerda, que se intensificou a partir do final dos anos 60, com os esquerdistas ocupando cada vez mas espaços nas áreas jornalística, artística e cultural, ao mesmo tempo em que a repressão se intensificava. Havia censura, é verdade, mas esta visava tão-somente impedir a divulgação de certas notícias consideradas incômodas para o regime, e não a impor a visão ideológica dos militares – até porque o regime militar não tinha qualquer ideologia, apenas a chamada "doutrina de segurança nacional". Nas artes, no cinema, nas redações dos jornais e revistas, nas universidades, nos sindicatos, nas igrejas – em toda a superestrutura da sociedade a visão de mundo marxista, na forma de revolução gramsciana, se impôs praticamente sem oposição.

Nunca se leu tanto Marx e Gramsci nas escolas e universidades brasileiras quanto nos anos 60/70, auge da ditadura militar. Também não se fez nenhuma tentativa séria, por parte dos militares, de evitar que a esquerda monopolizasse a História do período. Resultado: 25 anos depois do fim do regime dos generais, somente se conhece o ponto de vista dos "derrotados", com a consequente repetição ad nauseam de mitos e falácias sobre os "heróicos guerrilheiros que só queriam a democracia" - uma mentira desmentida pela simples leitura dos documentos das organizações terroristas (aliás, dizer que não eram terroristas é outro mito esquerdista sobre a época, desmentido facilmente por palavras e fatos). Com o tempo, seria estranho que o PT e seus aliados de esquerda não cooptassem os "movimentos sociais" e as universidades não se tornassem, como se tornaram, verdadeiras madraçais do pensamento único esquerdista. Do mesmo modo, foi durante o regime militar que os meios de comunicação, em especial a TV, tiveram um extraordinário avanço, sendo a grade de programação preenchida por novelas e filmes escritos e dirigidos por renomados esquerdistas, com temas esquerdistas. Eis o grande erro dos militares: negligenciaram a cultura. A esquerda e a extrema-esquerda agradecem.

A revolução gramsciana em ação

Como sempre acontece quando ocorre uma revolução, ainda que silenciosa, a cultura anterior – nesse caso, a alta cultura –, foi completamente obnubilada, tendo dado lugar à propaganda ideológica pura e simples. A tal ponto que falar em cultura hoje no Brasil é falar de algo que não existe, ou que já deixou há muito de existir: as grandes figuras da intelectualidade brasileira deixaram de ser Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa ou mesmo Jorge Amado, e passaram a ser Chico Buarque de Holanda, Marilena Chauí, Emir Sader, Marco Aurélio Garcia, Tarso Genro, Frei Betto…

Enfim, um enorme deserto, em que a alta cultura, substituída por um misto de agitprop e show business, tornou-se coisa do passado. Em seu lugar, a propaganda, muitas vezes nem sequer disfarçada, foi entronizada. E o pior: sem que ninguém percebesse. (O que comprova a máxima de que a melhor propaganda é mesmo a que não parece propaganda.) O objetivo desse tipo de propaganda é tornar mais fácil a ascensão dos esquerdistas ao poder, mediante a conquista de corações e mentes. Para que fazer a revolução pela força, ou mesmo pelas urnas, se se pode transformar todos em militantes repetidores de slogans – e o melhor: sem que ninguém se dê conta disso?

Assim, de forma lenta e gradual, anestésica, quase imperceptível, a esquerda brasileira conseguiu impor, nos últimos quarenta anos, sua hegemonia cultural e política, baseada na ditadura do "politicamente correto" e mediante os meios de comunicação de massa. Hoje, a agenda esquerdista é a única que se faz ouvir nos canais de TV, especialmente nos chamados temas comportamentais. O povo brasileiro é majoritariamente conservador e nem quer ouvir falar em legalização do aborto ou em "casamento" gay, mas tais coisas lhe são constantemente impingidas pelo noticiário e pelas novelas da Rede Globo, que fazem abertamente a apologia do gayzismo e do abortismo. Imposturas como as cotas raciais, por exemplo, só são possíveis porque não existe uma resistência politica efetiva, algo que partidos como o DEM e o PSDB não têm a menor intenção de fazer (tal tarefa acaba ficando nas mãos de setores da Igreja ainda não sequestrados pela "teologia da libertação" e pastores evangélicos - menos, claro, os da Record -, da VEJA ou de associações de empresários, ou de blogueiros isolados). Sem falar em atentados claros à liberdade religiosa e de expressão disfarçados de defesa dos "direitos humanos" como o PNDH-3 e em campanhas falaciosas como a do "desarmamento" que, mesmo derrotada num plebiscito em 2005, reaparece sempre, de forma oportunista, como no recente massacre na escola em Realengo, no Rio de Janeiro.

Nos EUA e nas democracias européias, temas como esses fazem parte do debate politico cotidiano. No Brasil, ao contrário, denunciar fatos documentados como a ligação do PT com as FARC e a corrupção governamental, ou mesmo cobrar coerência em temas como aborto, ou defender princípios e valores cristãos, é descartado imediatamente como "moralismo direitista", quando não é "golpismo" (!). Nesses e em outros assuntos, como a descriminalização das drogas e a maioridade penal, a opinião popular destoa frontalmente da agenda dos esquerdistas. Com que direito, portanto, estes se dizem os legítimos representantes do "povão"?

Enquanto a inexistente “oposição” brasileira continuar bancando o avestruz e enfiando a cabeça na areia, recusando-se a travar a necessária batalha das idéias e elegendo a defesa do liberalismo econômico como única bandeira, o caminho para a implantação de uma forma de ditadura esquerdista no Brasil estará aberto sem qualquer impedimento. E sem que um único tiro precise ser disparado. De fato, em nenhum outro país a revolução cultural gramsciana está tão avançada quanto no Brasil. Realmente, o Brasil é, por esse ângulo, menos democrático do que a Venezuela – no país de Hugo Chávez, existe oposição ao governo, e inclusive uma direita organizada e atuante, ao contrário do que ocorre (ou melhor: não ocorre) no Brasil. Pode-se dizer, sem exagero, que nenhum outro país está mais pronto para se tornar uma ditadura comunista. Cultural e ideologicamente, o Brasil já é uma república soviética. Graças, em parte, aos militares e à "oposição".

sexta-feira, abril 15, 2011

DILMA, A HUMANISTA



Petralha não brinca mesmo em serviço. Mal terminaram de protagonizar a maior farsa da História do Brasil, que durou oito anos, e uma nova comédia já está sendo encenada.

Faz pouco mais de cem dias que uma tecnocrata desconhecida assumiu a Presidência da República em Banânia e já foi criado um novo mito político, capaz de rivalizar com o de seu antecessor e criador em cinismo e empulhação.

Dilma Rousseff está sendo vendida por seus apoiadores, antigos e recentes, como a anti-Lula. Não importa que ela só exista por causa do Apedeuta, que a retirou da obscuridade e a escolheu para sucedê-lo (ou melhor dizendo: para gerenciar o governo em seu lugar): o "estilo Dilma", dizem, é diferente. Cansados da fanfarronice e da discurseira infindável do descobridor do Universo, muita gente, compreensivelmente, viu no silêncio enigmático de Dilma um alívio. Não perceberam que isso também é uma manobra política. Sai de cena o animador de auditório e entra a Muda Decorosa. Logo, concluem os "analistas", o governo Dilma é diferente do governo Lula. É outro governo, enfim.

O que leva gente aparentemente inteligente e em pleno domínio de suas faculdades mentais a essa fantástica conclusão? Além da diferença, digamos, de estilo pessoal - falastrão e megalomaníaco, no caso de Lula, e mais reservado e contido, no de Dilma -, apenas duas coisas.

Primeiro: a economia. Dilma anunciou privatizações em setores como aeroportos e - o horror, o horror! - bateu-se pela aprovação, no Congresso, do salário mínimo de 545 reais. É o governo da austeridade!, apressaram-se em anunciar os que vêem nisso uma ruptura com a irresponsabilidade orçamentária e o populismo desbragado da Era Lula.

Segundo: a política externa. Mais precisamente, os direitos humanos. Aqui, a Soberana teria tratado logo de demarcar sua posição em relação à atitude de Lula e de Celso Amorim, ao denunciar o apedrejamento de mulheres no Irã do companheiro Mahmoud Ahmadinejad. É o fim da política externa delinquente de apoio a ditaduras!, alardearam, em júbilo, muitos dos críticos do governo lulista. Estes viram nisso a prova definitiva de que a diplomacia brasileira teria retomado o caminho da racionalidade, de que jamais deveria ter-se desviado, depois do namoro indecoroso com o que de pior existe na humanidade.

É claro que é mais uma balela. Mostro por quê.

Em primeiro lugar, se Dona Dilma resolveu mexer na política econômica, é porque percebeu o risco que esta representa para o ato teatral que está encenando. Trata-se, simplesmente, de mais um ziguezague, coisa que os petistas são useiros e vezeiros. O que está por trás dessa nova manobra é tão-somente garantir o poder, nada mais do que isso. Foi com essa finalidade que Lula, aconselhado por marqueteiros, resolveu lançar sua "Carta aos Brasileiros" em 2002, para acalmar os mercados, admitindo, assim, ter sido um bravateiro durante toda a vida. Dilma está seguindo o mesmo rumo, com a diferença de que está tendo de consertar a herança maldita deixada por Lula e por... Dilma. É algo que está em perfeita sintonia com a verdadeira ideologia do PT - a do "farinha pouca, meu pirão primeiro" (tradução: aparelhamento do Estado pela máquina sindical-petista devoradora de recursos públicos). Em outras palavras: se é conveniente, adota-se. E se o discurso anterior contrariava essas práticas, passa-se uma borracha e pronto. Nisso ela está só repetindo o que sempre foi a prática petista.

Com relação à política externa, a farsa é ainda mais clara. É aqui que se tem dito as maiores barbaridades nos últimos tempos. Cheguei a ouvir, de uma pessoa considerada sensata, que a nova atitude "humanista" de Dilma, em contraste com a política "pragmática" de seu antecessor (como se adular ditadores fosse sinal de pragmatismo, e não de delinquência...), seria o resultado de um compromisso íntimo da atual presidente, decorrente de seu passado como ex-presa política e torturada durante o regime militar. "Ela foi presa e torturada, logo, é natural que defenda os direitos humanos", tornou-se o mantra a ser repetido pelos incautos, que acreditam numa história com apenas uma versão e que os idealistas da Vanguarda Armada Revolucionária só queriam a democracia.

Poucas vezes se leu e ouviu mentira maior. Se Dilma resolveu mudar um pouco o discurso em relação ao Irã, condenando, "como mulher", a execução de adúlteras no país muçulmano, isso não se deveu a nenhuma conversão sua à causa da Anistia Internacional ou da Human Rights Watch, mas, novamente, a uma conveniência política. Depois do fiasco total da política externa megalonanica no Oriente Médio, manter a mesma posição calhorda no tocante ao regime de Teerã seria passar recibo de idiotice. E os petralhas são tudo - hipócritas, principalmente -, menos burros. Tivesse dado certo a jogada do acordo fajuto com o Irã, e não sido torpedeado como foi pela ONU, o Itamaraty teria mantido a mesma política?

Além do mais, uma coisa é condenar o regime do Irã, um país distante e um pária da comunidade internacional. Outra coisa, muito diferente, é fazer o mesmo com companheiros vizinhos. Fico cá pensando: quando será que a humanista Dilma Rousseff, ex-camarada Stela da VAR-Palmares, vai condenar as violações aos direitos humanos em Cuba ou o narcoterrorismo das FARC? Quando será que ela vai dizer uma palavra contra algum de seus companheiros do Foro de São Paulo? Nem precisa ir muito longe: basta condenar as depredações dos vândalos do MST. A democrata Dilma está disposta a fazer isso?

(Em tempo: Dilma jamais se disse arrependida dos anos de terrorismo, quando lutava de três-oitão na mão para que o Brasil se tornasse uma nova Cuba. Até agora, o máximo que ela fez foi declarar que "mudou com o Brasil". O que significa que não lamenta nem se arrepende da época em que participava de grupos que assaltavam bancos, sequestravam e matavam pessoas para implantar o comunismo no País. Pelo contrário: tem orgulho disso. Coisa de gente humanista e comprometida com os direitos humanos, como se vê.)

Muita gente, levada pelo ilusionismo oficialista, ignorância ou wishful thinking, ou tudo isso junto, está caindo nesse conto-da-Dilma-responsável-e-humanista. A ponto mesmo do delírio. Arnaldo Jabor, por exemplo, caiu de amores por Dilma Primeira e Única, a quem não cansa de elogiar por sua beleza (!?) e... cultura (!!!???). Dispenso de comentar o gosto estético do cineasta-que-virou-comentarista. Quanto à cultura, basta dar uma olhada em algum dos vídeos em que a Pudorosa aparece exibindo todos os seus dotes de elegância linguística e fluência verbal, para não falar em sua lógica perfeita (a última dela foi ter dito, na China, que o mundo está entrando, em pleno ano de 2011, na segunda metade do século XXI...). Coisa de deixar os grandes oradores do passado, como Cícero e Demóstenes, revirando-se no túmulo, de inveja.

"Ah mas ela é competente, entende muito de energia" etc. Nem vou comentar. Quem tem que dizer alguma coisa, aqui, é quem ficou no escuro em dois apagões recentes. No primeiro dos quais, a então ministra Dilma mostrou toda sua competência... para fugir (literalmente) de qualquer explicação convincente.

Quanto ao estilo discreto e recatado, nada de surpreendente. Ou você já viu, caro leitor, um subordinado querer aparecer mais do que o chefe?

Sempre me intrigou o fato de tantos atores serem de esquerda. Agora sei por quê. Ser esquerdista é mesmo encenar para a platéia. Os atores podem até mudar, mas o enredo continua o mesmo.

quarta-feira, abril 13, 2011

MENTIRAS "DO BEM"




Até o massacre de 12 crianças na escola do Rio de Janeiro, eu achava que era possível defender o desarmamento de boa-fé, com um mínimo de honestidade. O que tenho visto e lido na imprensa desde a última quinta-feira, porém, abalou profundamente essa minha convicção.

Confesso que poucas vezes li e ouvi tanta besteira, tanta mentira travestida de humanismo e de defesa da "paz". Como se defender o direito a escolher ter ou não uma arma de forma legal fosse o mesmo que aplaudir loucos que entram atirando em escolas. Como se Wellington Menezes de Oliveira tivesse adquirido os dois revólveres em alguma loja de caça com CNPJ inscrito na Associação Comercial. Como se ter ou não uma arma registrada tivesse alguma coisa a ver com o ocorrido na escola em Realengo.

É de espantar! O oportunismo e o descaramento dos desarmamentistas parecem não ter limites. Li há pouco uma declaração do presidente do Viva Rio, a ONG queridinha da Rede Globo, em que ele se dizia "feliz" – isso mesmo: feliz! – pelo massacre em Realengo, pois este teria trazido de volta o "debate" sobre o desarmamento... É assim que eles chamam a tentativa descarada de engabelar e manipular a opinião pública: "debate". "Debate" que exclui deliberadamente fatos e números que desmentem a falácia desarmamentista.

Nem vou repetir os números, que citei aqui em outro texto. Basta atentar para o seguinte fato: os desarmamentistas, de boa ou má fé, argumentam que a proibição pura e simples da venda legal de armas teria uma relação direta com os números da violência. Muito bem. A proibição é adotada na Jamaica e no Japão, dois paises com indices de violência muito diferentes entre si. Onde está a tal "relação direta" (ou qualquer relação) entre uma coisa e outra?

Isso para não falar dos EUA, país que muita gente acha, graças aos filmes de Michael Moore, que é uma espécie de território sem lei, onde há um maluco armado até os dentes em cada esquina, pronto para mais um massacre. Faço um convite: comparem os números da violência nos EUA, onde o porte de armas é um direito constitucional, com os do Brasil, onde o cidadão precisa passar por uma verdadeira via-crúcis, que dura meses, para poder botar a mão legalmente num revólver 32. Façam isso, e depois me digam se desarmar a população civil é remédio contra o crime...

Os argumentos acima, claro, são inúteis para demover os devotos do culto desarmamentista de mais essa cruzada. Estes já estão convencidos – ou melhor: se convenceram – de que retirar do cidadão o direito a escolher ter ou não uma arma é o caminho luminoso, a solução mágica que irá abrir as portas de um mundo de paz e harmonia, no qual não haverá violência e todos, bandidos e policiais, criminosos e cidadãos de bem, se darão as mãos e cantarão juntos, fazendo aquele gesto com as mãos imitando as asas de um pássaro...

Em momentos como este, parece que todos, levados por um horror de ocasião, jogam a lógica e o bom senso às favas. Aliás, todos não: somente os que se convenceram que proibir o comércio legal de armas de fogo irá significar uma sociedade mais segura e pacífica. Gente como José Sarney, o ínclito senador do Maranhão, que ameaça convocar novo referendo sobre o assunto (o resultado do primeiro, como não foi o que esperava o Viva Rio e a Rede Globo, não teria expressado o verdadeiro valor da democracia...). Ou, então, a ministra petista dos Direitos Humanos (?), Maria do Rosário, que clama pelo desarmamento mas que, revelou-se agora, recebeu dinheiro da Taurus, fabricante de revólveres e pistolas, durante a campanha eleitoral para deputada federal (em tempo: nada contra políticos receberem contribuições financeiras de fabricantes de armas, apenas contra a hipocrisia). E isso tudo sem abdicar, claro, da segurança que lhes é proporcionada por seus guarda-costas armados, privilégio que a imensa maioria da população, que tem que conviver com a bandidagem, nem sonha em ter. Sarney e Maria do Rosário alegam que as armas legalizadas contribuem para a violência. Pela lógica, eles também contribuem.

Eu também sou a favor de um mundo melhor, sem violência, sem massacres, sem psicopatas à solta. E sem mentira. Principalmente se for uma mentira do "bem". Até porque não existe verdade "do mal", existe?

segunda-feira, abril 11, 2011

A RELIGIÃO DESARMAMENTISTA: UM EDITORIAL MENTIROSO DE "O GLOBO"

\O grupo Globo, da família Marinho, é, como se sabe, um dos maiores defensores da idéia do "desarmamento". A Rede Globo de televisão, principalmente, é um celeiro de gente bonita e maravilhosa, que só quer o bem para a humanidade. Foi do Projac que saiu o pelotão de artistas e cantores que, em 2005, tentaram convencer a população, com musiquinha e tudo, que estaria mais segura e viveria em paz se aceitasse uma lei que retiraria do cidadão o direito de escolher ter ou não uma arma adquirida legalmente. (Nesses momentos, claro, a turma da esquerda que advoga a mesma idéia desarmamentista silencia sobre a emissora "de direita".)

O jornal O Globo, obviamente, não poderia ficar de fora dessa patacoada. Mal se haviam passado 24 horas do assassinato brutal e covarde de 12 adolescentes em uma escola municipal no Rio de Janeiro e o jornal carioca tratou de estampar em suas páginas um editorial que tem tudo para entrar para os anais do jornalismo. Não pela qualidade do texto ou pela verdade das palavras, mas exatamente pelo motivo oposto: trata-se de uma das maiores peças de desinformação e de manipulação da realidade que já li.

O problema do texto começa já pelo título: “Levar o desarmamento a sério”. Como se fosse possível levar a sério semelhante idéia estapafúrdia. Vocês verão por quê. É, de certo modo, uma síntese de todas as mentiras e lorotas que, repetidas por vigaristas, militantes devotos e iludidos vocacionais, estão sendo vendidas como verdade nesses dias, como se proibir o comércio legal de armas tivesse alguma coisa a ver com a tragédia perpetrada pelo louco de Realengo. Uma clara demonstração de que estatísticas existem para ser torturadas para que digam o que se convém.

Vejam por vocês mesmos. O editorial vai em vermelho. Eu vou em preto.

A campanha lançada em 2003 como desdobramento do Estatuto do Desarmamento, para recolher armas, foi eficaz instrumento de redução dos indicadores da violência.

Não foi, não. Os motivos estão listados em seguida.

Em outubro de 2005, ao fim do movimento que convidava a população a participar de forma espontânea, o total de armas recolhidas pelo Estado chegou à casa de 500 mil. Prova incontestável de que esse arsenal abastecia estatísticas com trágicos números foi recolhida em levantamento do Ministério da Saúde: de 2003 a 2006, houve uma queda de 17% nos registros de mortes por armas de fogo no país. No âmbito da administração pública, só em internações evitadas de feridos o SUS deixou de gastar R$93 milhões; pelo viés social, dessa redução decorreu que número significante de famílias deixou de lamentar a perda de parentes.

“Prova incontestável” de quê, cara-pálida? A queda de 17% no número de mortes por armas do fogo entre 2003 e 2006 foi devida ao desarmamento? Durante esse período, e mesmo antes, assistiu-se a uma redução da criminalidade em alguns estados, como São Paulo (no Nordeste, ao contrário, a taxa de crimes aumentou). O que isso teve a ver com o desarmamento? Nada, absolutamente nada. Teve a ver, sim, com mais investimentos públicos em segurança – em outras palavras, em mais polícia na rua. E quanto aos bandidos, teriam eles se convertido à campanha oficial e entregue suas armas? No dia em que isso acontecer, aí sim, as campanhas pelo desarmamento terão algum sentido. Se recolher armas diminuísse a violência, países como a Jamaica, onde as armas são proibidas, seriam paraísos da paz e do amor. Por que não recolher todas as facas?

Infelizmente, a esse bom indicador não se seguiu um movimento que aprofundasse o repúdio da sociedade a engenhocas letais.

O “repúdio da sociedade a engenhocas letais” foi ótimo... Para a Globo, o único repúdio que vale é o que o Viva Rio acha certo. A sociedade já deu seu repúdio à lorota desarmamentista. Mas isso, obviamente, não conta para a/o Globo. Ademais, uma faca, como já disse, ou um trator, também são engenhocas letais. Que tal proibí-las?

Em 2005, o país perdeu, no plebiscito sobre o fechamento do comércio especializado, grande chance de tirar mais armas de circulação e estabelecer barreiras efetivas à compra de armamento.

Quem perdeu foi a Globo, não "o país". Barreiras efetivas à compra de armamento LEGAL, faltou dizer. Quanto às armas nas mãos dos bandidos... Só apelando para o Felipe Dylon, mesmo.

Em boa hora, portanto, o Ministério da Justiça reafirma a retomada da Campanha do Desarmamento. É medida urgente, imperiosa, premente, diante da tragédia de anteontem em Realengo, uma chacina que deixou 12 crianças mortas e um sentimento de horror no mundo inteiro.

“Em boa hora” quer dizer: vamos aproveitar a chance e manipular a opinião pública. Raras vezes vi confissão maior de demagogia do que essa. Por “medida urgente, imperiosa, premente”, leia-se: medida demagógica que tenta ressuscitar uma idéia idiota já rejeitada pela população, tentando faturar em cima da comoção por uma tragédia provocada por um demente que adquiriu suas armas de forma ILEGAL.

Não é, no entanto, ação com que se pretenda dar por resolvido o problema da violência. Mas o desarmamento é passo estratégico, e se devem dar outros, como o cumprimento estrito do Estatuto em vigor, a adoção de um programa de fiscalização permanente e um sistema efetivo de controle das fronteiras, por onde passa boa parte do arsenal que arma bandidos e loucos - e mesmo cidadãos que comungam com o equivocado princípio de se armar como defesa contra a violência.

Pelo menos O Globo não disse que o desarmamento vai curar o câncer e espinhela caída... Ah, mas é um “passo estratégico”. Para quê? Para desarmar os membros da ADA ou do Comando Vermelho? Já que o editorial fala de cumprimento ao Estatuto em vigor, que tal lembrar que as leis existentes no Brasil sobre porte de armas estão entre as mais rigorosas do mundo, e isso não impede em absolutamente nada fatos como o da escola de Realengo? Quanto à vigilância nas fronteiras, estou de pleno acordo. Até porque qualquer morador da Rocinha ou do Complexo do Alemão sabe perfeitamente que o arsenal que entra no País e que arma bandidos e loucos é de armas ILEGAIS - como fuzis e submetralhadoras – e que a maioria das armas compradas legalmente no Brasil são revólveres e espingardas produzidos nacionalmente. Mais uma vez: em que impedir o cidadão de possuir, se quiser, de forma legal tais armas irá impedir tragédias como a da escola Tasso da Silveira?

Mas atenção, leitor! A parte mais impressionante do editorial vem agora.

Adeptos desse tipo de raciocínio argumentam que, enquanto os cidadãos se desarmam, os criminosos reforçam seus arsenais - segundo eles, graças ao tráfico de armas, e não por culpa do comércio legal e controlado. Mas relatório da CPI do Tráfico de Armas da Câmara dos Deputados desmente a tese com números.

Vejamos o que diz o Relatório da CPI, e como o editorial de O Globo o interpreta.

De acordo com o documento, especificamente no Estado do Rio, palco da tragédia e onde existem quase 600 mil armas ilegais, 86% do armamento usado por criminosos saíram das lojas legalmente estabelecidas. Cai por terra, portanto, o argumento de que é possível manter sob controle, pelo rastreamento, a circulação de armas em mãos de cidadãos pacíficos. Ajuda a desfazer esta inocente visão o fato de a Polícia Federal ser leniente com o controle da trajetória desse arsenal em direção ao paiol dos bandidos.

Vamos pensar um pouco?

Primeiramente, de onde veio o número de 600 mil armas ilegais no RJ? Se são ilegais, como se pode ter chegado a essa estatística? Fizeram uma pesquisa com os traficantes?

Se me perguntarem quantas armas clandestinas existem na minha vizinhança, eu direi que não tenho a menor idéia, exatamente porque são clandestinas e estão, portanto, além de qualquer monitoramento... Particularmente – é só um chute, nada tem de científico – acredito que o número de 600 mil armas ilegais no RJ é bem inferior ao que existe na realidade.

Outra coisa: 86% das armas usadas por criminosos ou 86% das armas APREENDIDAS? Existe aí, convenhamos, uma grande diferença. Pode-se dizer, com uma margem pequena de erro, o percentual de armas recolhidas pela polícia que saíram de estabelecimentos legais. Mas dizer quanto por cento de revólveres ou pistolas usados atualmente por assaltantes e outros criminosos se encaixa nessa categoria é puro palpite. Eu não sei. O governo não sabe. Ninguém sabe. Quem disser que sabe ou tem dons telepáticos ou é um vigarista.

Digamos que 100% das armas usadas em assaltos ou assassinatos recolhidas pela polícia tenham saído de lojas de caça. O que isso prova? Que não existem armas ilegais, e que a quantidade de pessoas mortas ou feridas por tais armas é menor do que a por armas legais? A meu ver, esse dado prova apenas que apreender um revólver 38 é mais fácil do que, digamos, um AR-15 ou um AK-47.

Enfim, o relatório da CPI não desmente "tese" alguma. Até porque não existe nenhuma "tese" a ser desmentida, mas um FATO - as armas que abastecem a bandidagem chegam a ela de forma clandestina e ilegal, mediante o tráfico de armas. Só não vê quem não quer - ou quem leva a sério os editoriais desarmamentistas e oportunistas de O Globo.

É preciso tratar a questão do desarmamento, da aplicação do Estatuto e da fiscalização como política de Estado, perene.

Como na Jamaica?

Criar barreiras para a circulação de armas não é uma fórmula mágica, panaceia capaz de, por si só, proteger a sociedade de psicopatas como o assassino de Realengo.

Desarmar cidadãos de bem também não. Aliás, o efeito disso seria justamente o contrário do esperado. Vejam, novamente, o caso da Jamaica. Ou dos proprios EUA, como mostra John Lott em seu livro More Guns, Less Crime (que ninguém na Globo e no Viva Rio leu ou lerá um dia, pelo visto).

Mas é uma entre tantas medidas a serem tomadas pelo poder público para reduzir riscos e conter a banalização de tragédias, sejam elas restritas a pequenos círculos familiares ou de proporções como o assassinato em série na Escola Tasso da Silveira.

Está mostrado e demonstrado que retirar armas legais de circulação - e, com isso, o DIREITO do cidadão de armar-se, se assim considerar necessário - não reduz riscos nem contém a banalização das tragédias. Mas vamos admitir, por um momento, que sim, proibir a posse de armas legais tenha algum resultado benéfico nos números de pessoas mortas por armas de fogo, seja por violência ou por acidente. Nesse caso, o que deveria ser feito com as facas de cozinha? Ou com os próprios automóveis, que são também instrumentos letais, causadores de milhares de mortes todos os anos? Se for para seguir o mesmo raciocínio dos desarmamentistas, todos deveriam comer com facas de plástico e andar a pé.

Lembro que quando eu era criança, certa vez me feri com uma faca de cozinha. O corte foi profundo, e perdi muito sangue. Na hora, fiquei com muita raiva, e desejei um mundo sem facas de cozinha. Algumas horas depois, estava procurando uma faca para cortar um pedaço de pão.

REPITO A PERGUNTA: EM QUE IMPEDIR A VENDA DE ARMAS LEGAIS IRÁ IMPEDIR TRAGÉDIAS COMO A DO RIO? SE ALGUM PAI DE ALUNO ESTIVESSE PRESENTE E ARMADO PARA DETER O ASSASSINO, SERÁ QUE O NÚMERO DE VÍTIMAS FATAIS TERIA SIDO O MESMO? Estou pensando em mandar essa pergunta para a seção de cartas de O Globo. Mas algo me diz que eles não vão responder.

sábado, abril 09, 2011

A TRAGÉDIA DO RIO E A TAPEAÇÃO DESARMAMENTISTA


Assim que soube da notícia da mais nova tragédia humana a abalar o País sazonalmente - o assassinato de 11 crianças indefesas por um doente mental em uma escola pública do Rio de Janeiro -, nem esperei ver o noticiário para concluir: Pronto! Aí está mais um caso para os devotos da religião armamentista explorarem de forma sensacionalista. Aí está mais um pretexto para a turma do "politicamente correto" deitar e rolar, tentando ressuscitar a idéia do "desarmamento" da população como panacéia para "resolver" o problema da violência e da criminalidade etc. etc.

Dito e feito. Não foi preciso esperar nem um dia para que "especialistas" contratados pela Rede Globo defendessem o "desarmamento" em entrevistas. Em Brasília, deputados e senadores, embalados pela onda de horror que tomou conta do País, aproveitaram para tirar a idéia da gaveta. Há pouco, vi o probo e lídimo senador José Sarney defender, a sério, a "proibição total da venda legal de armas". Os bandidos do PCC e do CV, que, como se sabe, só compram suas armas em lojas autorizadas e com nota fiscal, devem estar tremendo de medo, pensando, certamente, em mudar de ramo... Daqui a pouco, pensei comigo mesmo, vão começar a brandir números e estatísticas, baseados em cálculos que só eles sabem como são feitos. É sempre assim: toda vez que um psicopata sai por aí disparando a esmo, seja aqui ou nos EUA, o coro do "Sou da Paz" prepara mais uma tapeação. "É culpa das armas", gritam em uníssono os que só querem o nosso bem (das armas LEGAIS, entenda-se). Só faltou o coro puxado por José Mayer e pelo Felipe Dylon.

Nem vou discutir o caráter claramente demagógico da idéia do desarmamento dos cidadãos de bem - e sim, existem cidadãos honestos que têm legalmente armas de fogo -, derrubada por 64% dos votos num referendo em 2005, cujo resultado a turma hoje no poder ainda não engoliu. Tampouco vou falar da ineficácia e da natureza idiota da iniciativa, baseada na expectativa entre ingênua e sonsa de que criminosos aceitariam de bom grado desarmar-se. Muito menos vou lembrar aqui exemplos como o da Jamaica, onde a posse de qualquer arma é proibida e que tem um índice altíssimo de criminalidade, ou da Suiça, onde cada cidadão tem direito a guardar um fuzil militar debaixo da cama, e onde nem por isso se vê ninguém se matando a tiros na rua. Também não vou dar números e estatísticas, como as reunidas pelo professor John Lott em seu livro More Guns, Less Crimes (que PROVAM, de forma até agora irrefutável, que nos estados norte-americanos onde se aprovaram leis restringindo o porte de armas legais a violência, no período estudado, aumentou, em vez de diminuir, enquanto que nos demais estados ocorreu exatamente o contrário, ou seja, a taxa de crimes diminuiu). Vou me limitar a fazer algumas perguntas.

Primeira pergunta: onde o atirador de Realengo conseguiu as armas que usou no massacre? Ele as comprou no mercado? Em que loja? O vendedor emitiu nota? Ele passou pelo necessário processo legal, que dura meses, para tirar porte de arma?

Segunda pergunta: o assassino era claramente um psicopata (a carta que ele deixou, que imita o estilo dos terroristas suicidas islamitas, deixa isso claríssimo). Caso seja aprovada um dia uma lei determinando o desarmamento geral da população, psicopatas como ele irão seguir o exemplo dos cidadãos de bem e entregar suas armas à polícia?

Terceira pergunta: por que atiradores como o do Rio escolhem lugares como escolas ou escritórios para suas chacinas, e não, por exemplo, um clube de tiro?

Aí está. Será que alguma ONG "da paz", como a Viva Rio, pode responder alguma dessas questões? Que resposta dariam? Será que vou ter que perguntar ao Felipe Dylon?

Se há algo que tragédias como a da escola do Rio de Janeiro provam de forma cabal e irrefutável é que leis extremamente restritivas sobre armas de fogo - e as leis sobre armas no Brasil, ao contrário do que dá a entender o lobby "pela paz", são rigorosíssimas - não impedem, nem tornam menos provável, a violência. O mais provável é exatamente o contrário: imaginem quantas crianças poderiam ter sido salvas se o assassino soubesse que poderia enfrentar pelo caminho pessoas armadas (aliás, ele só não matou mais porque foi baleado). O "desarmamento" não é somente ineficaz; é contraproducente.

Contraproducente e hipócrita. Todos viram, pela televisão, o discurso "emocionado" de Dilma Rousseff, em que ela pediu um minuto de silêncio pelos mortos na atrocidade no Rio. Pois bem. As armas que o matador utilizou foram adquiridas ilegalmente, como milhares de armas ilegais nas mãos dos criminosos. A maior causa da criminalidade hoje no Brasil é o tráfico de drogas, que vêm de países como Colômbia e Bolívia. As armas entram no Brasil pela extensa fronteira, sobretudo para abstecer os arsenais do narcotráfico. O partido de Dilma, o PT, é parceiro das FARC, os maiores narcotraficantes do mundo, assim como do cocaleiro Evo Morales, no Foro de São Paulo. Há alguns anos, a então ministra Dilma assinou um documento transferindo a mulher do representante das FARC no Brasil, uma funcionária pública, para Brasília. Tirem daí suas próprias conclusões.

Na frente das câmeras, Dilma chorou pelas crianças mortas no massacre da escola carioca. Também para a TV, rezou ao lado do vocalista Bono Vox, da banda de rock irlandesa U2, que estava passando por Brasília. Todos os anos, cerca de 50 mil brasileiros são mortos pela ação do crime organizado. Seria Dilma capaz de verter uma lágrima e de rezar por eles? (A propósito, quando ela vai chorar e rezar pela alma dos mortos pelas organizações terroristas de que ela fez parte, quando era a Camarada Stela da Vanguarda Popular Revolucionária?)

Eis uma pergunta que permanecerá sem resposta. Enquanto isso, está-se usando o luto das famílias das vítimas para mais uma gigantesca empulhação.

quarta-feira, abril 06, 2011

UM POUCO DE "MASSINHA I" PARA ESQUERDOPATAS (OU: A DEMOCRACIA TAMBÉM É PARA OS OUTROS)


Ai, ai... Lá vou eu, dar aula de "Massinha - Nível I" de novo...

Antes, uma digressão:

Quando criei este blog, lá se vão quatro anos, minhas intenções eram bem modestas. Queria escrever para desabafar, pura e simplesmente, dizer coisas que não posso dizer no trabalho ou que poderiam me render olhares desaprovadores em certos ambientes que, por dever profissional e social, costumo frequentar.

Graças aos petralhas e seus amigos, porém, o blog adquiriu um outro significado. Virou, por assim dizer, uma tribuna, em que rebato - e bato - as estultices e imposturas da petralhada. No começo, até relutava em fazer isso, mas descobri que se trata de um serviço, digamos assim, de utilidade pública, de saneamento básico. É a minha modesta contribuição a um mundo livre de vigaristas e charlatães. Além do mais, não posso negar, é divertido desmascarar esses meliantes, revelando toda sua soberba e ignorância encobertas por camadas de clichês ideológicos e afetações de superioridade moral.

Um rapaz, por exemplo, que se refugia no anonimato para defender que a internet - e a vida política, como um todo - existe apenas para eles, os esquerdopatas, resolveu se fazer de bobinho. Comentando meu texto O DIREITO DE DIZER BESTEIRA (que pode ser resumido com a seguinte frase: a democracia não é apenas para os companheiros do partido e do sindicato, mas também, e sobretudo, para os que pensam diferente) o valente diz coisas como a que segue (em vermelho):

Gustavo , você deve ser um personagem ... quero crêr desta maneira pois não acredito que alguem realmente pensa desta maneira. Em seu texto você diz que um deputado eleito e representante do povo, tem o direito de dizer bobagens e exibir seu preconceito livremente, ele pode, mas eu como cidadão que sou tenho o direito de não querer ouvi-las, de não incentivar atitudes semelhantes.

Exatamente, meu caro: um deputado eleito - aliás, qualquer cidadão - tem o direito, numa democracia, de dizer o que quiser, ainda que seja uma bobagem, sobre o que for: gays, negros, nordestinos, torcedores do Olaria... Isso vale para o deputado Jair Bolsonaro, assim como vale para o anônimo que escreveu o que está acima. E, do mesmo modo, todos têm o direito constitucional de não querer ouvir bobagem. O que ninguém têm é o direito de calar alguém por causa de uma opinião. A menos que a opinião em questão seja um incitamento a algum crime previsto no Código Penal, todos são livres para dizerem o que quiserem sobre o quê ou quem quiserem. O contrário disso é censura. Fui claro ou preciso desenhar para que o leitor entenda?

Para ficar mais claro: Bolsonaro deu a opinião dele sobre o homossexualismo. Ele não pregou, não que eu saiba, o exterminio físico de homossexuais. Disse o que achava do assunto, e ponto. Pode-se condordar ou não com seu ponto de vista - e eu discordo -, pode-se inclusive classificar sua opinião como retrógrada e reacionária, mas se pode, sem o risco de mandar a liberdade de expressão para o lixo, PUNI-LO por isso, CASSAR o DIREITO que ele tem de dizer o que pensa? Que crime ele cometeu? Chamar os gays de promíscuos?

Por trás de toda a onda midiática de "indignação" com as palavras de Bolsonaro, o que existe, na verdade, é uma tendência nitidamente autoritária, e mesmo totalitária, que visa a CASSAR a divergência, PUNIR as opiniões que não se encaixem em um determinado padrão ideológico - o "politicamente correto". Em outras palavras: o que se quer, a pretexto da defesa de minorias, é CALAR quem pensa diferente. Ou seja: impor uma forma de DITADURA DO PENSAMENTO.

Enquanto isso, o digníssimo Tarso Genro, ex-ministro da Justiça (!) do governo petista, fez em palestra no Rio Grande do Sul o elogio da maconha ("dizem que é saborosa", afirmou). Seu discurso pode ser interpretado como apologia do uso de drogas, um crime codificado na legislação brasileira. Onde está a patrulha politicamente correta nessa hora? Que direito Tarso Genro tem de fazer apologia da maconha que Jair Bolsonaro não tem de considerar promíscuos os gays?

Não é possivel que em 2011, alguem diga que tem saudades da ditadura e que compare os negros aos primíscuos, se realmente foi um " engano", ele que pense melhor antes de sair falando afinal ele é um " parlamentar" que no mínimo deveria vigiar melhor o que fala.

Também acho que não se deve ter saudades da ditadura (e não só em 2011, mas em qualquer época). Aliás, ao contrário de muita gente que se disse horrorizada com as declarações do deputado, sou contra TODAS as ditaduras, e não apenas de umas... Já está claro que a associação dos negros com a promiscuidade foi um erro de interpretação do deputado, que ele mesmo admitiu. Ele estava se referindo aos homossexuais. Se acho sua opinião ridícula? Claro que sim. Afinal, esse é o tipo de opinião que o sr. Luiz Mott, presidente do Grupo Gay da Bahia, com seus declarados (até o momento em que escrevo este texto) 5 mil amantes, certamente assinaria embaixo.

Ao invés de críticar o PT, a direita que você tanto defente é que deveria não dar voz a sujeitos como este.

E não dou. Basta ler de novo o que escrevi. Preciso repetir aqui o que acho do deputado Bolsonaro?

É um absurdo você perguntar se eu entraria em um avião pilotado por um " cotista", isso porque você já disse não ser " racista", se fosse então não sei o que diria então. Você pelo visto não entraria, certo ?

Isso mesmo, não entraria. E não o faria por nenhum motivo de "raça", mas porque considero o sistema de cotas, com seu critério (aí sim) RACISTA, um atentado à meritocracia. Já escrevi bastante sobre isso.

Eu te respondo, o cotista seja por cota ou não estudou na mesma instuição de preparo? se formou ? então eu entrario em um avião pilotado por um cotista.

OK, se você quer dar chances ao azar, que o faça, vá em frente, por sua conta e risco. Quanto a mim, não gostaria de ser operado, por exemplo, por um médico cotista. Além do mais, o argumento de que não importa se o profissional entrou na faculdade pelo sistema de cotas ou não, pois afinal a instituição é a mesma etc., é, no mínimo, estranho. Além de o fato de o ensino ser o mesmo não significar absolutamente nada - há profissionais excelentes e medíocres formados na mesma sala -, parte do princípio de que o cotista, para provar seu valor, deveria estudar em dobro. A meu ver, isso equivale a afirmar que cotistas são, por definição, menos preparados do que os outros. Segundo esse mesmo raciocínio, alguém poderia dizer que "negros" - as cotas são raciais - seriam intelectualmente inferiores aos "não-negros", por isso precisam de tratamento diferenciado. É isso que os defensores das cotas racialistas defendem?

Mais uma vez: entre um piloto de avião (ou um médico) que entrou na faculdade por seus próprios méritos e outro que só o conseguiu por causa de cotas - qualquer cota -, eu escolho o primeiro sem pestanejar. Se não há meritocracia na entrada, o que garante que haverá na saída?

Nosso país tem uma direita forte e atuante que entretanto não se assume como tal, afinal de contas o povo descobriu o mal e o cancer que ela representa para o nosso país, dado trechos de textos como o seu.

Sobre o Brasil - o "nosso país" de que fala o leitor - ter ou não direita, já escrevi o bastante, não vou me repetir. Apenas repito a pergunta: defender a liberdade de expressão - inclusive a liberdade religiosa, mãe de todas as outras liberdades - contra qualquer tipo de censura e a meritocracia contra tentativas de divisão da sociedade em "raças" (um conceito biologicamente fraudulento) é ser de direita? Então eu sou o maior direitista que existe no Brasil, e com todo orgulho.

Outro, um quadrúpede que, talvez num reflexo edipiano, se assina como "Tua Mãe" (!), resolveu pegar carona na opinião de seu companheiro de viagem, e rascunhou sobre o mesmo texto:

Pois é, meu camarada anônimo... Esse asno do Gustavo pensa que está prestando um grande serviço à Direita. Tolinho. É tão incompetente que seus textos só ferram ainda mais a tão desgastada direta de merda. Senão vejamos... Pelo texto dele, só quem gritou e esbravejou contra as declarações do Jair Bolsonaro - com ou sem razão - foi a esquerda. Deduz-se, portanto, que a direita foi, no mínimo, leniente. Que grande serviço, anta Gustavo!

O asno-anta do Gustavo responde ao menino malcriado (e pela menção ao "camarada", pode-se deduzir com que tipo de cérebro se está lidando). Vamos lá, preste atenção, não me faça repetir para você, tá bom?

Teve alguém mais, sim, além da esquerda, que criticou as declarações de Bolsonaro: EU. Discordo dele, não para agradar as patrulhas, mas porque o acho um abobalhado, que só dá munição aos esquerdofrênicos. Basta ler meu texto para comprovar (está na primeira frase...). Mas isso, claro, é para quem sabe ler...

Dispenso de publicar o resto da mensagem do energúmeno. Faço-o por caridade, pois me dói o coração ver alguém se expor ao ridículo de maneira tão cretina e abjeta. Para se ter uma idéia, a toupeira afirma que não viu nenhum texto de esquerda contra a direita no caso de Bolsonaro, apenas de artistas... Como se praticamente 100% dos artistas no Brasil não fossem esquerdistas, ora! Além disso, as referências que o imbecil tem para o que seria a "direita" no Brasil são... ACM e Paulo Maluf (!!!). O bestalhão não sabe que o primeiro foi um dos esteios do governo do esquerdista FHC e o último é hoje um dos maiores lambe-botas do governo do PT?

E outra coisa: como posso ser "metido a intelectual", como vomita aqui o caro cretino, se já disse várias vezes no blog que não me considero um intelectual (aliás, rejeito esse rótulo)? Por um motivo simples: para ser intelectual no Brasil é preciso rezar pela cartilha esquerdóide, endossando idiotices como as cotas raciais, por exemplo. Intelectual, eu? Deus me livre! O tal "Tua Mãe" é um deles...

E, finalmente, a pergunta fundamental, que está por trás dessa quizília toda: a liberdade de expressão vale para todos, ou só é válida para os esquerdistas?

Como tem boboca no mundo, meu deus do céu!

sábado, abril 02, 2011

O DIREITO DE DIZER BESTEIRA



O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) é uma bênção para a esquerda brasileira. De tempos em tempos, ele protagoniza alguma "polêmica" com algum parlamentar ou artista esquerdista, para a alegria dos que o têm como legítimo representante das forças do mal. Boquirroto, tosco, raso, brutamontes, despreparado - os adjetivos para enquadrá-lo são infinitos -, ele é brandido como um troféu pelas legiões da beautiful people, a gente linda e maravilhosa, geralmente filiada ou simpatizante do PT ou do PSOL, como a prova irrefutável de que ser de direita é sinônimo de destempero verbal e intolerância. É o adversário que os esquerdistas pediram a Deus, se nEle acreditassem.

O jeito troglodita de ser de Bolsonaro foi mais uma vez demonstrado, desta vez no programa CQC, da TV Bandeirantes. Num dos quadros do programa, Bolsonaro aparece respondendo uma pergunta da cantora Preta Gil. O que ele faria se um filho seu resolvesse namorar uma negra?, perguntou a filha do ex-ministro da Cultura (!), Gilberto Gil (a pergunta, vamos convir, já trazia em si uma forte dose ideológica embutida). Bolsonaro respondeu com uma frase sobre promiscuidade. Pronto. Estava criado mais um "caso" para a esquerda explorar.

É evidente que Bolsonaro se confundiu ao dar a resposta. Ele mesmo admitiu, logo depois, que esta não tinha nada a ver com a pergunta. Em vez de negro, ele quis dizer homossexual. Mas o estrago já estava feito. Deputado racista!, começaram a berrar, imediatamente, os monopolistas da virtude. Racista e homofóbico!, emendaram. Racista, homofóbico e de direita!, não esqueceram de mencionar os guardiães do bem e do belo, com o cuidado de insinuar uma relação causal entre uma coisa e outra. Ou seja: ele é racista e homofóbico porque é de direita, entenderam?... Aqui e ali, começou-se a ouvir o brado: levem-no ao Conselho de Ética! Quebra de decoro parlamentar! Cassação! (Só faltou o grito comum em certos lugares apreciados pela esquerda: paredão! paredão!...)

Bolsonaro é de direita? Eis uma boa questão. Mais do que isso: ele é "a" direita no Brasil? Se a resposta para essa pergunta for positiva, estaremos diante de uma situação em que o palhaço Tiririca deveria ser considerado "o" exemplo acabado de parlamentar brasileiro, já que foi eleito com uma votação expressiva (mais de 1,3 milhão de votos...). Considerar de direita um sujeito como Bolsonaro é o mesmo que dizer que Jean-Marie Le Pen ou Silvio Berlusconi são modelos perfeitos de políticos conservadores, defensores ardentes das idéias de Edmund Burke e John Stuart Mill. Que tal perguntar ao deputado Bolsonaro o que ele acha desses autores?

Não é difícil perceber por que os esquerdistas babam de gozo toda vez que Bolsonaro abre a boca. Em cada escorregão retórico, em cada frase infeliz que ele pronuncia, eles antevêem mais uma oportunidade para demonizar a "direita" brasileira (como se Bolsonaro, uma caricatura de político direitista, fosse o legítimo representante da direita...). É que, para os esquerdistas, tipos como Bolsonaro vêm bem a calhar. Com suas frases idiotas, ele lhes presta um serviço valioso, afastando a possibilidade de que surja aquilo que eles, os esquerdistas, mais temem: uma direita responsável e democrática, representada por um partido conservador sério e forte, como existe em TODAS - repito: TODAS - as democracias do mundo. Tipos folclóricos e patéticos como Bolsonaro permitem aos esquerdopatas e esquerdofrênicos tomar a caricatura por fato, enquanto eles próprios não passam de caricaturas de gente séria e honesta, que se fazem passar por legítimos representantes da sociedade e do bem. Por isso precisam de Bolsonaro. Ele é, a seu modo, um aliado objetivo.

As opiniões de Bolsonaro sobre o homossexualismo são reacionárias, estúpidas mesmo? Sem dúvida. Ninguém em sã consciência defende que "dar um coro" no filho irá impedi-lo de virar gay, por exemplo. Frases como essa são típicas de quem vive mentalmente no tempo das cavernas. Mas a questão é: ele tem ou não o direito de expressá-las? Se você respondeu "não", é porque não sabe o que é viver numa democracia, assim como muitos antepassados de Bolsonaro.

Aqui é que vem a questão principal, que, como sói acontecer em Pindorama, ficou esquecida no meio de mais esse factóide. Desde quando liberdade de expressão exclui opiniões julgadas repugnantes pela maioria? Desde quando ela existe tão-somente para as opiniões consideradas "boas" ou "corretas"? Onde, em que artigo e capítulo da Constituição, está escrito que a liberdade de expressão e de opinião existe apenas para dizer "sim", e jamais "não" (ainda que seja um "não" que nos cause repulsa)? Nas ditaduras, como em Cuba e na Síria, pode-se dizer "sim". O que diferencia a democracia da ditadura é a possibilidade - na verdade, o direito - de divergir, de dizer "não", ainda que todos digam "sim".

O pior de tudo é que, graças a seu estilo brucutu, questões importantes apontadas por Bolsonaro deixam de ser discutidas. Não é preciso ser seu eleitor ou um saudosista do regime militar para perceber o caráter racista do sistema de cotas nas universidades. Ou para constatar o óbvio atentado ao bom-senso que é a distribuição do "kit gay" para crianças e adolescentes nas escolas públicas. Ou, ainda, a natureza fascistóide de leis como o PLC 122, que, sob o pretexto de criminalizar a "homofobia" (um termo, aliás, extremamente vago), ameaça sepultar a liberdade de expressão, sobretudo a liberdade religiosa, no Brasil. E antes de acusar o suposto ou real racismo de Bolsonaro, responda depressa: você, leitor, preferiria viajar num avião pilotado por um cotista ou por um não-cotista?

Está ocorrendo um fenômeno perigoso no Brasil. Aqui, defender a democracia passou a significar, de uns tempos para cá, a defesa da liberdade de expressão para apenas um lado, o livre debate de idéias concordantes. Jamais o direito a quem pensa diferente, jamais o contraditório. Em nome do que julgam ser direitos coletivos, minorias querem calar a maioria e acabar com os direitos individuais, instalando o "fascismo do bem". E o fazem alegando defender interesses de setores perseguidos e discriminados da sociedade. Isso gera uma situação no mínimo bizarra. No Brasil, como bem resumiu o Guilherme Fiúza num artigo para a Época desta semana, ninguém é de direita. Mas, coisa curiosa, muitos se dizem oprimidos pela direita. Estranho, não?

Outro dia tentei debater com um blogueiro pró-esquerdista. Tentei mostrar o perigo, para a democracia, de um pleito em que a direita estava ausente, e no qual a escolha se restringia a optar entre mais ou menos esquerda (se fosse entre mais ou menos direita, eu estranharia do mesmo jeito). Em certo momento, discordei da opinião dele sobre o Tea Party, o movimento neoconservador dos EUA. Afirmei que, embora não cogitasse votar em seus candidatos, até porque não sou norte-americano e, portanto, não posso votar nas eleições de lá, não vejo problema algum na existência em si do movimento, que demonstra, na realidade, a pluralidade e diversidade político-ideológica nos EUA, ao contrário do que ocorre por aqui, onde impera o pensamento único esquerdista. Por dizer isso, o veredicto de meu interlocutor foi o seguinte: eu tinha um discurso "proto-fascista"... Pelo visto, não foi só a direita que sumiu no Brasil. A inteligência - ou a honestidade intelectual - também.

Digamos que o Tea Party não tenha lugar num sistema democrático. Que deva ser banido, proibido, pois afinal não se enquadra naquilo que se convencionou chamar de democracia e, portanto, carece de legitimidade numa sociedade democrática. Pergunto: que legitimidade tem o PT ou o PCdoB que o Tea Party não tem? O que torna Obama (ou Lula) mais legítimo, à luz da democracia, do que Sarah Palin (ou o deputado Bolsonaro)? Respondam, por favor.

O caso de Bolsonaro é apenas um exemplo, entre tantos, de linchamento moral patrocinado pelas patrulhas esquerdistas contra todos aqueles que não se encaixam em sua idéia de democracia: uma assembléia ou um desfile, em que todos seriam esquerdistas. Alguns dias atrás, houve um bafafá porque um ator que estava em turnê com um espetáculo teatral em Teresina, Piauí, escreveu em seu Twitter uma frase idiota sobre o lugar, comparando-o à certa parte da anatomia. Um político espertalhão, deputado estadual pelo (adivinhem) PT, aproveitou para faturar em cima do episódio, fazendo demagogia com os brios ofendidos dos piauienses. Em vez de ameaçar processar ou mesmo chamar um boicote à peça do autor da frase infeliz, o que seria o caminho normal em um caso como esse, o que fez o digníssimo? Exigiu - e conseguiu! - a proibição da peça no teatro onde seria encenada! Quando alguém lembrou que existe algo chamado liberdade de expressão, e que fazer o que ele fez infringe os artigos 5 e 220 da Constituição Federal, sua excelência se disse um injustiçado, e acusou uma campanha das elites do Sul-Sudeste contra o Piauí... O bairrismo, o vitimismo regionalista, é mesmo o último refúgio da canalhice caipira.

Outro exemplo recente: no ano passado, logo após as eleições, uma adolescente abobalhada saiu espalhando comentários ofensivos em sua página de internet sobre nordestinos, associando-os - erradamente, aliás - à eleição da criatura de Lula da Silva. Seria o caso de tomar o ocorrido como mais uma demonstração individual de boçalidade, como milhares que ocorrem todos os dias na internet sobre os mais variados grupos (nordestinos, paulistas, mineiros, cariocas, gaúchos etc.). Mas quê! Alguém viu o dedo nefasto de uma "campanha" articulada e financiada sabe-se lá por qual misteriosa cabala contra os eleitores de Dilma Rousseff. Logo choveram manchetes e matérias de jornais e revistas acusando a "odiosa campanha contra os nordestinos na internet" etc. e tal.

O mesmo aconteceu com Bolsonaro. Ninguém o vê como o que ele realmente é: um bobalhão, um idiota que não representa ninguém a não ser a si mesmo e suas opiniões destrambelhadas, mas como "o" direitista, "o" conservador por excelência... Seria simplesmente ridículo, se tanta gente não se deixasse levar por essa lorota.

Na entrevista ao CQC, Bolsonaro disse estar se lixando para os gays. É direito dele pensar assim, como é direito de alguém ter preconceitos, por mais odiosos e repugnantes que sejam. Eu, se fosse gay, não me importaria com as opiniões de gente como Bolsonaro, nem iria exigir que ele aceitasse e gostasse de minha opção sexual. Pelo simples motivo de que o que ele pensa a respeito não me interessaria nem um pouco. Daria de ombros, e seguiria em frente. Mas não é o mesmo se você é um militante, disposto a tudo para impor seu ponto de vista.

Mais uma vez: o fato de o deputado Jair Bolsonaro detestar os gays e ser um boquirroto o torna o arquétipo de um político de direita? A menos que você seja um desses petistas irrecuperáveis, para quem ser de direita é o mesmo que ser "fascista", tal associação automática é uma grande bobagem e um absurdo total. Coisa de quem está se lixando para a verdade e a lógica. E novamente: o fato de ele dizer cretinices retira seu direito constitucional de falar besteira? Nesse caso, deveríamos cassar os mandatos de todos os parlamentares e fechar de vez o Congresso - idéia, aliás, que já foi defendida, a sério, pelo próprio Bolsonaro.

Todos conhecem - ou, pelo menos, deveriam conhecer - a frase de Voltaire: "Discordo de tudo que você diz, mas até a morte lutarei para que você tenha o direito a dizer o que pensa". Mas ninguém a leva a sério. Não no Brasil. Por estas bandas, todos defendem a democracia, mas ninguém a pratica. Ou a liberdade de expressão existe para os que discordam de nós mesmos ou não existe. Simples assim. Como ninguém aprende, é preciso repetir sempre essa verdade tão óbvia.

sexta-feira, abril 01, 2011

O País dos BBBobocas


Leio abismado a seguinte notícia, retirada da internet: “Brasil tem mais ex-BBBs do que arqueólogos”.

É mesmo um espanto!

Que alguém tenha tido a pachorra de contar quantos cretinos participaram, até agora, desse desfile de nulidades narcisísticas desesperadamente em busca da fama instantânea e descartável proporcionada por um dos programas mais imbecis de todos os tempos – e que acaba de completar sua 11ª (!) edição, meu deus do céu! –, é algo que talvez nem Freud explica. Agora, que esses candidatos a subcelebridades sejam mais numerosos do que os que se dedicam ao estudo da História e da Antiguidade, em um país de 190 milhões de habitantes, é simplesmente uma aberração, uma monstruosidade, um motivo de reflexão e – principalmente – de vergonha.

Um país que tem mais ex-integrantes de um reality show – que de "reality", aliás, não tem nada, sendo tão-somente uma gincana televisiva, e das mais estúpidas já concebidas, em que um bando de marmanjos sarados e gostosas, sem falar nos representantes das tais "minorias" (gays, lésbicas, transsexuais e o escambau), entre um merchandising e outro, fazem de tudo para aparecer e ficar ricos –, enfim, um país com mais isso aí do que arqueólogos ou professores de Arqueologia está passando recibo de Estado falido e de incompetência, está abaixo de merecer qualquer respeito. É algo que corresponde a uma confissão de inépcia, de incapacidade absoluta para produzir qualquer coisa boa e positiva para a humanidade. Outros países produzem cientistas, filósofos, escritores, historiadores e arqueólogos. O Brasil produz ex-BBBs às pencas. Sugiro exportá-los todos para a Antártida.

De certo modo, esse besteirol televisivo é mesmo um retrato perfeito do Brasil. Poucos programas conseguem mostrar, de forma tão eloquente, toda nossa indigência, toda nossa miséria cultural e intelectual. Um povo que não valoriza a educação – e não me venham dizer que é só o governo; é o povo mesmo, que elege analfabetos para a Presidência da República e a Câmara dos Deputados – merece, de fato, engolir esse lixo. Outros povos têm um Voltaire, um Shakespeare, um Cervantes, um Dostoiévski... O Brasil tem o BBB e o Pedro Bial.

Para que não digam que isso é só implicância e rabujice minhas, e que ignoro o fato de que essa bobajeira vem de programa similar na Holanda, terra que já deu ao mundo um Spinoza e um Rembrandt, aproveito para recordar que a TV é uma porcaria no mundo inteiro – e olhem que a TV brasileira, em que pesem seus BBBs, Datenas e Márcias Goldschmitts, nem está entre as piores... Mas em nenhum outro lugar do planeta a TV tem tanto poder de penetração e exerce tamanha influência ao ditar o comportamento da população quanto na Terra dos Papagaios. Sobretudo da molecada, que não sabe a diferença entre um gênio e um macaco.

Há mais aparelhos de TV per capita no Brasil do que geladeiras. Sem falar naqueles objetos esquecidos e desprezados: os livros. A maioria das cidades brasileiras não tem sequer biblioteca, e em cerca de 90% das casas será em vão buscar um único volume de Machado de Assis. (Aliás, a maioria dos brasileiros, tirando, talvez, o horóscopo e as placas de trânsito, jamais leu ou lerá nada em toda sua existência, seguindo o exemplo do Apedeuta, que elevou a ignorância a objeto de culto oficial.) E não digam, por favor, que a culpa é da pobreza – se fosse assim, cantores sertanejos e jogadores de futebol famosos seriam todos intelectuais. Além do mais, o que é mais caro: um livro ou um televisor?

A maioria dos brasileiros jamais ouviu falar de Goethe, mas aposto o que quiserem que quase todos sabem tudo que rolou e quem ganhou o último BBB. A propósito: quem, entre os que participam e os que perdem tempo assistindo a essa patacoada, tem a menor idéia de onde vem o nome do programa, retirado do romance 1984, de George Orwell – cuja estória se passa, justamente, numa sociedade totalitária, em que a liberdade individual deixara de existir, tendo dado lugar à vigilância onipresente e opressiva do “Big Brother” (o “grande irmão”)? Aliás, quem, entre esses, já ouviu falar em Orwell? Quem já leu algum livro dele – ou qualquer livro – na vida?

Uma das frases mais repetidas de Monteiro Lobato – tão repetida que já virou um lugar-comum – afirma que uma nação se faz com homens e livros. Se isso é verdade, o Brasil já deixou de ser uma nação faz tempo, se é que já foi um dia. Hoje, não passa de um gigantesco palco, um desfile infindável de nulidades que venderiam a mãe embalada para presente em troca de sucesso e grana. E que não fazem nada – absolutamente nada – para merecê-lo, além de aparecer e fazer micagens na frente das câmeras. E ainda vem o bobalhão do Pedro Bial e os chama de “heróis”... É triste. É o Brasil.

sábado, março 26, 2011

VOCAÇÃO PARA BAJULAR


O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, está dando uma aula de como pensam e agem os políticos no Brasil e, mais do que isso, os brasileiros. Há alguns dias, ele anunciou oficialmente sua saída do DEM, partido em que, desde os tempos do PFL, fez sua carreira política, para fundar uma nova agremiação, batizada de PSD (Partido Social-Democrático). Motivo alegado: o DEM, segundo afirmou Kassab em entrevista à VEJA, perdeu o rumo, tornando-se um partido de oposição tão irresponsável quanto foi um dia o PT. Ele, Kassab, não acredita nisso e quer trabalhar "pelo Brasil". Tradução: ele quer ter liberdade para aderir ao governo de Dilma Rousseff sem corar. Está ansioso para se juntar ao cordão de puxa-sacos, que nunca foi tão numeroso, e que não pára de crescer.

Que Kassab queira pular do barco oposicionista e ingressar no partido dos vira-casacas, vá lá, é um direito dele, embora seus eleitores devam estar se sentindo traídos. Mas não precisava ofender tanto a verdade e a inteligência. O DEM, partido de oposição, ainda por cima comparável ao PT dos velhos tempos? Só pode ser brincadeira. Se há algo que falta no Brasil de hoje, mais até do que vergonha na cara de gente como Kassab, é oposição. Refiro-me a oposição de verdade, como existe em qualquer país civilizado, e não a jogo de cena. O DEM virou um mero coadjuvante do PSDB, partido irmão do PT, gerado na mesma incubadora uspiana esquerdista em que este foi engendrado. O DEM, oposição ao lulo-petismo? Quem dera que fosse. Lembram da última eleição presidenciai?

Até as pedras da Praça da Sé sabem o real motivo de Kassab estar abandonando o DEM: ele quer trocar de partido, como já é rotina na política brasileira. Como não pode fazê-lo sem o risco de ter o mandato cassado, bolou uma estratégia: criar um partido-fantasma, o tal PSD, para depois fundir-se a um partido da base governista, o PSB (Partido Socialista Brasileiro). Tudo para ficar mais perto do pudê. De liberal a socialista, num passe de mágica. Coerência ideológica total, como se vê.

Kassab nâo é o primeiro, nem será o último, a se bandear para o lado do governo. Um dos primeiros que percebeu a mudança de ventos e montou a mula encilhada foi outro prefeito de capital, o carioca Eduardo Paes. Em 2005, então jovem deputado federal pelo PSDB, ele despontou como uma das estrelas da CPI do mensalão. Era, então, uma das "promessas éticas" do Congresso contra a corrupção etc. Menos de três anos depois, porém, lá estava ele, lépido e fagueiro, no PMDB, partido do governo (de qualquer governo), fazendo juras de amor a Lula. Chegou mesmo, nessa virada, a escrever uma carta à dona Marisa Letícia pedindo desculpas por ter participado da CPI do mensalão... O motivo? Sua eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro (outro mestre insuperável na arte do puxa-saquismo é o governador do Rio, Sérgio Cabral).

A malandragem de figuras como Paes e Kassab - até no nome escolhido para o partido-tampão: quando um político não quer se definir ideologicamente, diz que é "social-democrático" ou coisa que o valha - é reveladora, ao demonstrar de forma quase pornográfica a vocação chapa-branca que caracteriza a política brasileira. E não só a política. Na verdade, trata-se de uma característica cultural tipicamente brasileira, assim como o samba e o carnaval. Bajular, adular quem está por cima, é um aspecto atávico da sociedade e da psicologia nacionais, que daria assunto, certamente, para vários tratados acadêmicos. Entre nós, historicamente, a atração pelo poder é uma força irresistivel, quase erótica. É algo que vem de longe, está nos nossos genes, por assim dizer. A atração pelo poder. A ânsia adesista. A vontade de ser áulico. O pendor para a vida de cortesão. O desejo de ser chapa-branca. A vocação do puxa-saquismo.

É algo facilmente encontrado em todos os setores, de todas as classes e categorias sociais. Pode-se com facilidade detectar o fenômeno, com níveis semelhantes de fervor e intensidade, entre intelectuais, jornalistas, artistas, bandidos e donas-de-casa. Sobretudo entre os que se convencionou chamar, por estas bandas, de intelectuais. Entre esses, o comichão servil se manifesta até mais do que entre os políticos.

Dou um exemplo: Arnaldo Jabor. A partir de 2005, ano do mensalão, e durante todo o segundo mandato do mandarinato lulista, não passou uma semana sem que o cineasta de filmes que quase ninguém viu e comentarista da Globo não despejasse suas performances indignadas contra os petistas. Nisso, ele pareceu querer expurgar a responsabilidade da classe artística na criação do mito Lula: tendo ajudado a erguer o monumento à falsidade que é o lulo-petismo, intelectuais como Jabor subitamente descobriram que o PT é um partido corrupto, e que Lula é um político brasileiro, não um santo ou um messias (alguns ainda acreditam nisso, mas para esses não há remédio que dê jeito). Como acontece quando um marido se descobre traído, a perplexidade dá lugar à desilusão, a desilusão à raiva, e esta à indignação. Que pode ser para sempre ou diluir-se com o tempo, mostrando-se, assim, uma paixão momentânea e superficial.

(Claro, para não fugir à regra dos intelectuais esquerdistas, não faltaram a Jabor, nesses anos todos, oportunidades de compensar sua desilusão com o lulo-petismo, reforçando o coro dos inimigos de George W. Bush e da guerra no Iraque, por exemplo, ou cantando loas a Barack Obama. Outros fazem o mesmo por outros meios: criticando, por exemplo, o "politicamente correto", mas apondo suas assinaturas em manifestos e abaixo-assinados em favor de Hugo Chávez... Tudo para ficar de bem com a beautiful people, a gente linda e maravilhosa que dita as regras de pensamento e comportamento no Brasil. Como diz o provérbio: quem muito fuma cachimbo, fica com a boca torta.)

Hoje, vê-se que toda aquela raiva e indignação de Jabor em relação a Lula e aos mensaleiros não passou de fogo de palha, de uma oposição de ocasião, como foi também a do PSDB e a do DEM (vide Eduardo Paes e Kassab). Mal acabou o governo Lula e Jabor já retornou ao estado normal de um intelectual brasileiro, substituindo a indignação pelo adesismo. Seguindo sempre a corrente, ele apressou-se em ver as diferenças entre Dilma Rousseff e seu criador e inventor, Lula da Silva, inventando uma Dilma que não existe.

Para ele, Jabor, assim como para muita gente, Dilma é a anti-Lula. Onde Lula falava e aparecia demais, ela, Dilma, acerta ao falar e aparecer de menos, governando discretamente por trás dos bastidores, quase como uma rainha da Inglaterra. Onde Lula apoiava ditadores, ela, Dilma, condena os apedrejamentos de mulheres no Irã. Onde Lula se mostrava omisso e dizia não saber de nada, ela cobra resultados de seus subordinados. E assim por diante.

É mais um mito, claro, assim como foi o mito lulista. Dilma não é o anti-Lula coisa nenhuma. É, sim, a continuação do Apedeuta, que a pariu e que a moldou. As mudanças (se é que se pode chamar assim) cosméticas na política salarial ou na política externa, por exemplo, nada mais são do que isso: mudanças cosméticas, necessárias para corrigir os abusos do lulanato (a verdadeira herança maldita), como o aumento dramático do déficit público e os danos à imagem do governo pelo apoio ao que há de pior na humanidade. A essência do lulo-petismo, esta continua intocada. O projeto de poder continuísta do PT e de seus sócios permanece exatamente o mesmo. O objetivo de acabar com a democracia - mediante o amordaçamento da imprensa, por exemplo - está mais forte do que nunca. A diferença é que, com Dilma, o projeto de poder petista deixou de ser pessoal para virar uma pelegocracia.

Tamanha é a cegueira para esse fato mais que óbvio que gente como Arnaldo Jabor, mesmo sem ser petista, acaba exagerando na bajulação. Jabor já chegou a dizer que acha Barack Obama "sexy". Agora, acaba de declarar que acha Dilma Rousseff bonita. Bonita só, não. Bonita e inteligente. Que ele a ache bonita, tudo bem: afinal, tem gosto para tudo. Mas, inteligente... Bem, inteligente supõe certo nível de coordenação mental, ou, pelo menos, de articulação verbal. E quem já teve o duvidoso privilégio de ouvir Dilma Rousseff discorrer sobre qualquer assunto, sabe que lhe faltam esses dois requisitos num nível abaixo do aceitável para um adolescente, quanto mais para alguém que ocupa a Presidência da República.

Se jogadas como a de Gilberto Kassab e comentários como os de Arnaldo Jabor provam alguma coisa, é que o desejo de agradar, a vocação para aplaudir, é a verdadeira ideologia nacional do Brasil. A tal ponto que provoca mesmo frêmitos de excitação erótica em quem a pratica. Parafraseando o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, o poder - melhor dizendo, a bajulação dos poderosos - é mesmo um afrodisíaco.