sábado, outubro 23, 2010

LULA, DILMA E A TEORIA DA "BOLINHA DE PAPEL". OU: COMO IGNORAR FATOS E ENXERGAR SOMENTE O QUE INTERESSA


Eu não sei o que atingiu José Serra na cabeça na passeata de sua campanha no Rio de Janeiro. Os lulo-petistas sabem. Aliás, já sabiam antes mesmo de qualquer perícia: "foi uma bolinha de papel".

O ex-presidente Lula - ele abandonou o cargo há meses, trocando-o pelo de chefe de facção política em tempo integral -, acusou Serra de fazer teatrinho e querer criar um "factóide" (sempre que seus adversários denunciam seus malfeitos, os lulo-petistas dizem ser um factóide). Isso foi um dia antes de o Jornal Nacional desmentir a versão divulgada pelo SBT e pela Record, que mostram apenas a imagem do que parece uma inofensiva bola de papel arremessada contra Serra. O JN preferiu mostrar também as imagens do celular de um jornalista da Folha de S. Paulo, feitas 15 minutos depois em meio ao tumulto, que mostram o que parece ser um objeto pesado atingindo a cabeça do candidato tucano - imagens atestadas como autênticas por um perito.

Resumo da ópera(bufa): O candidato rival dos lulo-petistas foi vítima de agressão por uma horda de militantes possuídos pelo ódio que agiram como um bando de gorilas ou como tropa de choque fascista, e isso está provado cientificamente pela análise pericial das imagens. O (ex)presidente da República, que, em vez de repudiar a agressão - como faria se fosse um estadista, e não um chefe de torcida -, açula seus seguidores à intolerância, é o chefe dessa milícia de camisas-pardas (ou vermelhas). E nada disso, assim como a análise das imagens, vai mudar a versão lulo-petista: "foi uma bolinha de papel"...

O episódio todo, que parece pequeno, é extremamente grave. Além de demonstrar o desprezo boçal de um presidente da República transformado em animador de comício pelas regras da democracia e da civilização - pela primeira vez na história do Pais, um candidato à Presidência da República foi vítima de agressão física, instigada pelo ocupante do Palácio do Planalto, que ainda por cima acusa a vítima -, o fato comprova, na verdade, um padrão, monotonamente seguido pelos lulo-petistas sempre que divulgados fatos que não lhes convêm ou agradam (como as declarações de Dilma sobre o aborto, por exemplo):

- O fato não ocorreu; trata-se de "calúnia", "boato" ou "factóide" (antes mesmo de qualquer avaliação técnica, notem bem);

- O "outro lado" também faz igual, logo os dois lados se equivalem moralmente (Lula lembrou que teriam jogado uma bola de água em sua pupila em Curitiba - como se uma bola de água e um objeto contundente tivessem o mesmo efeito, e como se tal fato, se realmente ocorreu, tivesse partido de uma turba de vândalos, como os que agrediram Serra no Rio, e não de um gesto isolado.);

- De qualquer maneira, a denúncia é falsa porque foi a "mídia golpista" que a levou ao ar (se a notícia fosse a seu favor, não diriam o mesmo);

- Enfim, o culpado é a vítima (total inversão da realidade).

Desde 2003, esse padrão tem-se repetido com freqüência quase religiosa. Com poucas variações, até as palavras são as mesmas. Além das que estão aí em cima, "conspiração das elites golpistas" é um termo-chave (ou chavão) empregado constantemente, bem como atribuir tudo a um "excesso" de alguns poucos "aloprados". Dizer-se traído (mas com o cuidado de omitir o nome do suposto traidor) também pode ser útil para livrar a cara do chefe.

Dizem que, em um dos processos de Moscou, quando o ditador soviético Josef Stálin resolveu exterminar seus potenciais inimigos na década de 30, um dos réus, convencido da inutilidade de qualquer defesa no tribunal - os veredictos estavam decididos antes do próprio julgamento -, virou-se para um dos membros do Partido e perguntou: "o que devo pensar?" Com os lulo-petistas, ocorre o mesmo. Se vêem um fato que não lhes convém, não analisam se é ou não verdade: viram-se e perguntam para o chefe: "o que devo pensar?" É que já abdicaram de pensar há muito tempo.

George Orwell, em sua obra-prima 1984, resume de forma genial esse processo de construção mental: se alguém lhe mostra quatro dedos, e o Grande Irmão diz que, em vez de quatro, são cinco, você nega o que está diante de seus olhos e diz que são cinco. Mais: depois de algum tempo, passa a acreditar que, de fato, são cinco.

Hoje, quando imagens de vídeo mostram o contrário do que os lulo-petistas dizem, os militantes pró-Dilma, feito zumbis, tentam convencer uns aos outros de que a realidade não é o que todos vêem, mas apenas o que eles, lulo-petistas, querem que seja verdade. Diante de imagens que mostram claramente Dilma defendendo a legalidade do aborto, ou um rival sendo agredido, não lhes resta outra coisa senão negar os fatos e apegar-se à teoria da bolinha de papel.

Se mostrarem um video em que Lula aparece roubando uma velhinha à mão armada, seus devotos lulo-petistas dirão primeiro que o vídeo é falso, depois que isso não passa de uma conspiração da mídia golpista. Comprovada a veracidade das imagens, dirão que seus adversários fazem o mesmo. Finalmente, vão afirmar que o dinheiro era para ajudar os pobres. O nome disso, em bom português, é lavagem cerebral. Parece piada, mas é a realidade.

quinta-feira, outubro 21, 2010

BURRICE ELEITORAL


Está circulando na internet um auto-proclamado "manifesto em defesa da educação pública", assinado por algumas vacas sagradas do esquerdismo acadêmico nacional, como os petistas Marilena Chauí e Antonio Candido. Oportunisticamente, os signitários da coisa acusam a candidatura de José Serra de querer destruir a educação pública, o que o governo FHC teria quase conseguido etc. etc. Enfim, o trololó de sempre.

O texto, que está sendo repassado em blogs e sites de petistas e de incautos, é absolutamente mentiroso. Os motivos, para quem quiser saber, podem ser encontrados aqui: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/um-manifesto-de-mentirosos-faz-campanha-anti-serra-e-pro-dilma-o-que-fara-o-tse-e-preciso-acionar-o-tse-para-que-este-acione-a-pf/. (E antes de pensarem em atacar o mensageiro, procurem primeiro refutar a mensagem e os fatos que estão lá elencados, se puderem.)

Há alguns dias, um grupo de petistas fez uma blitz em frente a uma gráfica de São Paulo. Num video que eles próprios fizeram, eles aparecem, câmeras em punho, "denunciando um crime". Um senhor, contador da citada gráfica, é acossado pelos militantes, entre os quais um que se identifica como deputado. Eles exigem saber quem pagou a impressão de uma nota da CNBB - Confederação Nacional dos Bispos do Brasil - recomendando os católicos a não votarem em candidatos que apóiam a legalização do aborto. Como a candidata petista à Presidência da República, Dilma Rousseff, já declarou, em várias ocasiões, ser favorável à legalidade do aborto, os jornalistas-militantes interpretaram a nota como material de propaganda a favor da candidatura rival, de José Serra.

(Aparentemente, os milicianos lulo-petistas que fizeram a vigília na gráfica não se deram conta da contradição lógica em que estavam incorrendo: se Dilma Rousseff está se contorcendo para negar o que disse sobre o aborto, apresentando-se, inclusive, como uma devota católica - ou evangélica -, a ponto de chamar de "boato" ou de "campanha difamatória" o que ela mesma disse, então por que diabos se importam com o que está numa nota da CNBB que desrecomenda os fiéis a não votarem em candidatos abortistas? Enfim, vestiram a carapuça. Mas essa não é a questão principal, por ora.)

É verdade que um crime grave foi cometido no dia em que os petistas fizeram a tal blitz na gráfica. Qual crime? Um crime contra o artigo 5 da Constituição Federal, o qual garante a liberdade de expressão e a liberdade religiosa. Quem cometeu o crime? A turba que intimidou o contador da gráfica. Agora é com a Justiça.

A nota que provocou a fúria dos lulo-petistas não era apócrifa; vinha com a assinatura de três bispos e com o selo oficial da CNBB, uma entidade não-governamental, que pagou pelo serviço. Seu conteúdo não trazia nenhum dado falso, nenhuma inverdade. Nem pedia voto para qualquer candidato - somente expressava o ponto de vista da Igreja Católica sobre o legalização do aborto, e recomendava os católicos a votarem de acordo com essa opinião religiosa. Era um documento da Igreja, não de um partido ou de uma candidatura. Mas nada disso fez diferença para a turma de lulo-petistas. Uma das militantes presentes no ato ilegal de intimidação do contador da gráfica, disfarçada de jornalista, chega a perguntar se ele imprimiria materal apócrifo do PCC... Como se um manifesto apócrifo de um bando criminoso pudesse ser comparado, sob qualquer ângulo e qualquer ponto de vista, com uma nota assinada da CNBB contendo a opinião da Igreja Católica sobre o tema do aborto! Isso dá bem uma idéia de como funciona a cabeça dos lulo-petistas...

A gráfica que imprimiu a nota da CNBB foi acusada pelos dilmistas de ligação com o PSDB - um de seus donos seria filiado ao partido (como se pertencer a um partido adversário, verdade ou não, fosse um crime...). A mesma gráfica também imprime material de propaganda do PT, inclusive de alguns candidatos a deputado que intimidaram o contador. Mas quase ninguém lembrou esse detalhe. Assim como quase ninguém, apenas alguns blogueiros "do contra", lembraram que dinheiro dos cofres públicos paga a publicação de panfletos pró-Dilma publicados por sindicatos, o que, ao contrário da nota da CNBB, é ilegal. Qual a diferença entre os panfletos dos sindicatos e o manifesto da CNBB? Além do fato de serem ilegais, porque custeados com o dinheiro dos impostos, os panfletos dilmistas não contêm nenhuma verdade. O da CNBB, por sua vez, não contém nenhuma mentira. Desafio quem quiser a provar o contrário.

Há algumas semanas, Luiz Inácio Lula da Silva convocou o eleitorado a extirpar - esta foi a palavra que utilizou - um partido político da vida política nacional. "É preciso extirpar o DEM da vida política", bradou o grande democrata a uma platéia domesticada, antes que os eleitores extirpassem qualquer esperança de sua candidata ao governo local de sagrar-se vitoriosa nas urnas. Pela primeira vez em período democrático, um presidente da República exortou abertamente à extirpação de seus adversários políticos, numa clara demonstração de golpismo (deve ter lembrado de outros governantes que extirparam a oposição, como Fidel Castro e Stálin). Isso já seria grave o suficiente, se o presidente do partido em questão, Jorge Bornhausen, não tivesse sido alvo de uma campanha calhorda há alguns anos, por ter afirmado, numa expectativa que infelizmente não se concretizou, que o mensalão iria livrar o País "dessa raça" (os petistas) por uns 30 anos. Por ter dito isso, Bornhausen viu-se retratado como racista e nazista em panfletos apócrifos - e ilegais - pagos por um sindicato em Brasília, em mais uma ilegalidade dos lulo-petistas.

Os exemplos acima são inquietantes, e vão além do jogo sujo e da baixaria que costumam caracterizar as disputas eleitorais no Brasil. Eles refletem um fenômeno perigoso. Neles estão presentes vários elementos que constituem a forma petista de fazer política - manifestos mentirosos, censura à liberdade de expressão, atentados à democracia etc. Com o agravante da inversão total da realidade, sobretudo no caso das notas da CNBB (que, absurdamente, e mostrando o poder de pressão dos lulo-petistas, um ministro do TSE mandou apreender): enquanto a CNBB era impedida de se manifestar livremente, os pastores da Igreja Universal do Reino de Deus, aliada do governo Lula, defendem abertamente o aborto e pregam o voto em Dilma, e nada acontece. É um acinte.

É impressionante como as pessoas emburrecem no Brasil em época de eleições, ou deixam aflorar a burrice que sempre esteve lá, latente. O nível geral de inteligência, que geralmente já não é lá essas coisas, nesse período simplesmente despenca para as profundezas mais abissais. Gente que se apresenta como intelectuais assina manifestos que não contêm uma grama de verdade. Militantes de um partido político se comportam como uma tropa de choque fascista, constrangendo ilegalmente funcionários de gráficas e exigindo censura ao pensamento livre. Um presidente da República que muitos consideram democrata declara explicitamente sua intenção de extirpar um partido político. Fatos são descartados como boatos e boatos e calúnias tratados como fatos, numa brutal e absurda inversão da realidade. E o que é mais grave: com o apoio da imprensa adesista, que há tempos renunciou a fazer jornalismo para atuar contra ela própria. Há algumas semanas, houve uma manifestação no sindicato dos jornalistas em São Paulo, dominado por petistas. A pauta da manifestação: repudiar a... liberdade de imprensa! É o PIG (Partido da Imprensa Governista) em ação.

Mas a maior burrice está na falsa polarização que mostra o PSDB como um partido "de direita". É uma pena que não seja! Ao rotularem os tucanos dessa maneira, seus detratores fazem, sem querer, um elogio a um partido que, a começar pelo nome - social-democrata - sempre jogou nas hostes esquerdistas. Se o PSDB fosse de direita, seria um alento para a democracia brasileira. Seria uma garantia de pluralidade. Isso mostra até que ponto chegou a hegemonia ideológica gramsciana no Brasil. A única crítica aceitável passou a ser a de esquerda. Serra, privatista? Contem outra.

O lado bom dessa histeria eleitoral é que, nessas horas, muita gente que sempre se apresentou como "neutra" e "imparcial" sai do armário e assume de vez suas preferências ideológicas. Não é o caso deste blogueiro, que sempre deixou claro o que pensa de petistas (e de tucanos), e que faz questão de dizer: não vota em Dilma nem amarrado. O tal manifesto dos intelectuais petistas sobre educação, por exemplo, encontrei no site de alguém que sempre fez pose de imparcialidade superior. Ele até me expulsou do site, algum tempo atrás, por eu insistir em que ele deveria sair de cima do muro e se assumir como esquerdista.

"Por que você pega tanto no pé dos petistas? Por que não faz o mesmo com os tucanos?" etc. As respostas podem ser encontradas aí em cima. Há motivos de sobra para desconfiar do PT e temer pelo futuro da democracia caso esses stalinistas farofeiros permaneçam no poder. E há muito menos motivos, ou motivo nenhum, para ter a mesma apreensão em relação ao PSDB. Não é preciso ser tucano ou eleitor de Serra para perceber a diferença entre democratas e autoritários. Ou entre verdade e mentira. Basta não renunciar à inteligência.

quarta-feira, outubro 20, 2010

OS PETISTAS E A EDUCAÇÃO

Trabalhei como professor da rede pública de ensino durante certo tempo. Minha experiência no ramo foi suficiente para nunca mais querer repeti-la. Contando com os anos de faculdade, enfrentei no período, calculo, umas cinco ou seis greves de professores e até de “estudantes”, todos ligados, de alguma forma, à CUT e ao PT. A pauta de “reivindicações” era sempre a mesma: abaixo o ENEM e o Provão, fora FHC etc. (hoje, o ENEM e o Provão, desfigurados pela incompetência de quem os aplica, são os carros-chefe do Ministério da Educação, e o “fora FHC” foi convenientemente apagado da história oficial petista). Em 2001, lembro bem, fui encurralado em minha sala por um piquete de grevistas que acharam o cúmulo do absurdo um professor substituto do curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte ter feito uma votação com os alunos na qual eles decidiram pela continuação das aulas. Fui xingado de tudo que é nome e quase fui agredido. Ao resolver seguir a decisão da maioria dos alunos e manter o calendário de aulas, fui acusado de ser um inimigo da educação e dos trabalhadores. Já contei essa história aqui.
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É por isso que acho tão engraçado ver os lulo-petistas, declarados ou enrustidos, dizendo quão glorioso é o modelo educacional do governo Lula, e quão terrível seria o modelo tucano se for expandido para todo o País. Em especial, no que diz respeito aos chamados IFs (Institutos Federais de Educação) que, pelo que andei lendo por aí, devem ser assim uma espécie de Sorbonne para os pobres.
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Antes, uma pequena digressão, se me permitem. Se tem uma coisa que não deve servir de parâmetro para medir a qualidade de um governo, ao contrário do que dizem dez em cada dez políticos, é a educação. Explico. Um país-modelo do que seria um sistema educacional de qualidade para a esquerda é Cuba. Lá, repetem há décadas os lulo-petistas com a constância de um disco quebrado, não há crianças fora da escola, e todos têm acesso à educação básica e superior gratuita. Até mesmo as prostitutas cubanas, já se gabou Fidel Castro, são instruídas. Pois bem. Isso mostra que o modelo cubano é um éden de dignidade e de boa educação, certo? Nada disso. Basta perguntar a um estudante cubano se ele pode ler o que quiser, ou somente o que o Partido permite. Em Cuba, somente dez anos depois o povo soube da queda do Muro de Berlim. É isso que os lulo-petistas geralmente omitem quando falam de sua ilha da fantasia. Na realidade, regimes totalitários costumam dar muita atenção à educação. Não há melhor maneira de controle político e ideológico. Na Coréia do Norte, por exemplo, ao que se saiba não existem analfabetos.
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Ainda que o governo Lula tivesse criado 20.000 escolas federais no interior, eu não votaria em Dilma Rousseff. Por trás de argumentos como o dos IFs, está o seguinte raciocínio: “Eles roubam, mentem e transformaram o Estado num sindicato, mas expandiram a educação superior” etc. Não consigo engolir esse tipo de coisa, assim como não aceito trocar cultura democrática por obras públicas. O governo brasileiro que mais fez para expandir a educação superior em todos os tempos foi o do general Emílio Garrastazu Médici, de 1969 a 1974. Durante esse período, a economia brasileira cresceu, em média, 10% ao ano. Desnecessário dizer, Médici era muito popular. Seu governo tinha um programa de alfabetização, o Mobral. Uma das que se alfabetizaram graças ao Mobral foi uma tal de Marina Silva.
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Mas voltando. A candidatura oficialista está querendo convencer a todos que são eles, os lulo-petistas, os amigos da educação. Por essa lógica maniqueísta, a do adversário seria inimiga da educação. Dificil é conciliar isso com os fatos. Afinal, foi no governo do satanizado FHC que se criou um sistema de avaliação dos ensinos médio e superior, e se atingiu o número inédito de 97% de crianças matriculadas nas escolas públicas. (Mas repito: não é isso que me fará votar em Serra - vide o exemplo de Cuba acima.)
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Agora leiam o que vem a seguir com atenção:
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O sentido fundamental da expansão dos IFs no governo Lula foi o de contribuir ativamente para transformação educacional e social integral das comunidades nas quais atua, de modo a construir uma rede articulando ensino médio, ensino técnico, graduação e pós-graduação a fim de contribuir para a melhora dos índices de educação no interior do país.” O trecho acima não foi retirado do blog da campanha de Dilma, nem de nenhum comunicado oficial do Ministério da Educação, mas do site de alguém que se diz neutro em questões políticas (embora essa neutralidade só costume se manifestar em relação à esquerda...). Alguém que, inclusive, já me ejetou de seu site por eu ter apontado essa contradição.
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Prossegue o texto: “Ao pensar o Brasil a partir de seu próprio quintal (São Paulo) Serra acaba por cometer um erro histórico, que já comprometeu a qualidade de vida e o desenvolvimento social do povo brasileiro por muitos e muitos séculos.” A questão de fundo parece ser não o que o candidato fará pela educacão, mas uma espécie de bairrismo geográfico, que infelizmente voltou à tona na era Lula: “ele é paulista, logo não conhece nem entende o Brasil” etc. Sei. Quem conhece e entende o Brasil é Dilma Rousseff, que jamais tinha botado os pés no Nordeste até uns dois ou três anos atrás. Ela, sim, seria a candidata mais sintonizada com uma visão nacional... ..
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Além do mais, Lula, para todos os efeitos, é um político paulista. Até pouco tempo atrás, por exemplo, o grosso de seu eleitorado e do PT se concentrava nas grandes cidades do Sul-Sudeste do País. Lula, inclusive, não perdia a chance de esculhambar as “oligarquias nordestinas que exploram o povo”. Mesmas oligarquias com as quais ele agora se deleita no mesmo palanque, e cujos representantes, como Collor, vão votar com um adesivo de Dilma no peito. Hoje, o grosso de seu eleitorado está nos grotões.
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Sem falar que "erro histórico", ainda por cima de "muitos e muitos séculos", é mais que exagero. Se o erro a que se refere o autor do texto é priorizar o ensino técnico-profissionalizante, este só existe no Brasil há uns oitenta anos, mais ou menos. O Brasil mesmo tem apenas cinco séculos de existência. A primeira universidade brasileira, a USP, só existe desde 1934. Mesma USP que já virou uma espécie de madraçal do pensamento único esquerdista, e de onde saem professores que acusam Serra de querer implantar um modelo que reproduziria erros "de muitos e muitos séculos". Talvez alguém precise estudar um pouco mais de História.
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Um pouco mais do texto: “Serra (ou o seu auxiliar para assuntos educacionais) não parece ter a sensibilidade social de alguém que conhece a diversidade brasileira e erra profundamente ao imaginar que um modelo que funciona em São Paulo pode ser exportado com sucesso para outras regiões.”
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Agora sim, captei a mensagem. O problema do candidato tucano não estaria em ser paulista (logo, segundo a visão pró-Dilma, “limitado”), mas em não ter uma visão da educação calcada na “sensibilidade social” e no conhecimento da "diversidade brasileira"... Ao contrário, seu modelo educacional seria baseado tão-somente na obsessão empresarial capitalista em cortar gastos e em reduzir os serviços públicos e as políticas de desenvolvimento social ao mínimo. Isso significaria, enfim, "esfacelar o elemento social e humano da educação", substituindo-o pela “mentalidade fria dos números que tratam alunos como gráficos da bolsa de valores” etc. etc.
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Para além da simplificação grosseira – Serra como um “neoliberal”, vejam só... –, típica de panfletos da CUT, é a visão “social” ou “humana” da educação que me chama a atenção. Esta significaria, em contraposição a um ensino meramente técnico, um envolvimento com a comunidade etc. Com base nessa visão comunitarista, o governo Lula criou há alguns anos uma universidade do MST. Perguntem a mim que tipo de educação eu escolheria para meu filho, se a técnica profissionalizante ou a do Universidade do MST... Preciso responder?
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No universo conceitual dos lulo-petistas, não basta ensinar a ler e escrever, ou a fazer contas: é preciso “conscientizar”. Ditaduras como a de Cuba ou a da Coréia do Norte também se propõem a “conscientizar” a população. Não, obrigado. Prefiro o estudo alienante de porcas e parafusos.
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“Nós, professores da rede federal de ensino, já sabemos o que acontece quando essa lógica que toma a Avenida Paulista como a medida do mundo é transportada para a educação pública brasileira. O terrível dessa eleição é que questões importantes como essa se dissolvem no falatório do marketing, no leilão de promessas mirabolantes e da guerra suja de boatos. Você, leitor amigo, precisa prestar atenção nesses detalhes antes de votar, sob pena de comprar um produto muito bem embalado (mas que já está com a validade vencida a mais de [sic] oito anos) por pura negligência na leitura atenta do rótulo.”
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Causa-me arrepios ver esse “nós” em um texto, ainda mais de um autor que não se pretende representante de ninguém além dele mesmo. O resto do texto, tirando a menção à Avenida Paulista, eu assino embaixo. Ele define à perfeição um produto de marketing que estão tentando nos empurrar goela abaixo, com o selo oficial da Presidência da República.
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Um dos leitores do texto cujos trechos transcrevi acima, entusiasmado, escreveu um comentário em que informa que está enviando uma cópia para um blog pró-governo. Recomendo enviar, junto com o link, a imagem que vem a seguir. Ela vale por mil manifestos de intelectuais a favor de Dilma Rousseff. É uma manifestação de professores (!) em greve contra o governo tucano em São Paulo. Eis como os lulo-petistas tratam a educação.

Aí está. Se eles fazem isso em São Paulo, imaginem o que poderão fazer no resto do Brasil...

segunda-feira, outubro 18, 2010

É INÚTIL TENTAR EXPLICAR

Ok, a imagem não é muito original. Mas, convenham, é bem apropriada


Um lulo-petista - ou seja, alguém cujo cérebro já parou de funcionar faz tempo e que age como se fosse guiado por feromônios, como uma formiga-operária programada biologicamente para defender a rainha-mãe - escreveu um comentário sobre meu último texto, "Tirem a máscara". Segue o comentário anônimo, que quero crer seria uma refutação do que está lá escrito. Volto depois.
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José Serra já deu declarações brilhantes como "sou favorável à união gay", mas deixou à Igreja católica a batata quente da celebração do casamento gay. Que será que ele realmente pensa a respeito?

A Mônica Serra confidenciou à quatro alunas que já cometeu aborto e, que, no entanto ela diz que Dilma é a verdadeira "assassina de criancinhas". Ela sequer respondeu às alunas. O PSDB desfez a questão. Que será que ela pensa a respeito do aborto?

Chega de direita. Chega de preconceito social. Chega de Farol de Alexandria. Dilma 13!

José Serra se disse favorável à união civil de homossexuais. O que isso irá influir na decisão da Igreja Católica de "celebrar o casamento gay"? Resposta: nada. Absolutamente nada.

Por quê? Simples: a Igreja não reconhece o "casamento gay" há dois mil anos. E não vai ser por causa de Serra, ou de Dilma, ou de quem quer que seja, que vai reconhecer um dia. Muito menos celebrá-lo.

Digamos que um dia seja oficializada a união gay no Brasil. Uma vez que religião e Estado são coisas distintas no País desde a Constituição de 1891, e que desde então existem duas opções de casamento (o civil e o religioso), isso não mudaria um milímetro a orientação da Igreja sobre o assunto (certa ou não, isso é outra questão; e só para lembrar: ninguém é obrigado a ser católico). Então, cadê a "batata quente" de que fala o leitor?
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"Que será que ele [José Serra] pensa realmente a respeito?" Ele já disse o que pensa a respeito: é a favor. E Dilma, quando dirá o que realmente pensa a respeito de qualquer assunto, em vez de omitir o que pensa para tentar ganhar votos?
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Quanto à mulher de Serra ter feito aborto ou não, há dois pontos importantes, creio eu:
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1) Caso ela tenha mesmo abortado - O problema seria só dela, que deve responder por seus atos perante sua própria consciência. Ademais, não me consta que seja ela o candidato à Presidência da República. Ou é?
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Sem falar que, nesse caso, parece que estamos diante da repetição da máxima lulo-petista consagrada no mensalão: "viram? eles também fazem igual; então não há culpados" etc. É atacar para não ter que se defender.

Tendo ou não Mônica Serra feito aborto, a questão persiste: em que isso muda o fato de Dilma Rousseff não assumir o que disse?

2) Caso ela não tenha abortado - Nesse caso, isso não passa de calúnia e difamação mais abjeta, uma perfeita repetição do caso Miriam Cordeiro em 1989 (bolado pelo hoje lulista e dilmista roxo Fernando Collor, é bom lembrar).

Agora, sabem como essa estória começou? Eu digo como.

Tudo isso apareceu na imprensa porque uma ex-aluna - ou quatro, como diz o leitor - escreveu que Mônica Serra lhe teria confidenciado, assim como quem conta um segredinho de alcova, que, certa vez, quando estava no exílio, fez um aborto. E sabem de onde essa informação tão explosiva foi retirada? De um post... no Facebook!

Mas, esperem! Tem mais. O melhor vem agora.

Uma, digamos, "jornalista" - ou, melhor dizendo, uma militante petista travestida de jornalista - achou a informação "quente" ou boa demais para não ser noticiada. Deve ter esfregado as mãos e pensado: "Uau! Olha só a hipocrisia da turma do Serra! Isso é dinamite pura" etc. Resolveu então dar foros de legitimidade ao caso, partindo de fonte assim tão, digamos, confiável... Única fonte, aliás, da, digamos, "notícia". Além, claro, da única pessoa que pode realmente dizer se tal estória procede ou é boato: Mônica Serra. Mas a opinião dessa, para os fins a que se destina tão fidedigna "notícia", não conta, não é mesmo? De nada vale o que diz a dona do útero de onde teria sido retirado o suposto feto. O que vale mesmo é o que uma ex-aluna sua postou em sua página pessoal do Facebook sobre o que sua ex-professora lhe teria dito sobre o que teria feito há uns quarenta anos... Jornalismo de alta credibilidade, como se vê.

Outra coisa: no comentário, o leitor ou leitora usa o verbo "cometer" para falar de aborto ("ela cometeu aborto"...). Devo deduzir, portanto, que o caro leitor ou leitora é contra o aborto, e deve achá-lo uma coisa abominável, no que estaria em sintonia com a opinião da Igreja Católica. Sim, porque ninguém "comete" uma coisa boa, não é verdade? Nesse caso, só posso concluir, pela lógica, que o leitor ou leitora não deveria votar em alguém que se declarou, com todas as letras, a favor da legalização de prática tão horrenda e anticristã, certo? E que ser a favor da legalização de tal prática e depois se desdizer é algo da maior gravidade, não é mesmo? Preciso dizer mais ou fui suficientemente claro?

Resumindo: no caso de Dilma Rousseff, há um vídeo - aliás, mais de um - em que ela defende claramente a legalização do aborto, o que agora ela nega ter dito um dia (nessa hipótese, o que está no vídeo só poderia ser uma trucagem ou algum tipo de alucinação coletiva). No de Mônica Serra, há um post de uma ex-aluna sua no Facebook. Agora, adivinhem: para os lulo-petistas, qual dos dois casos é fato, e qual é boato?

Eu poderia tentar explicar aqui para os lulo-petistas a diferença entre casamento civil e casamento religioso, ou a separação entre Igreja e Estado, ou entre ter uma opinião clara sobre um tema e esconder o que pensa para fazer demagogia eleitoreira, ou entre jornalismo de verdade e boato postado no Facebook. Mas é inútil tentar explicar. Como inútil é querer explicar para essa gente o que significa coerência, vergonha na cara, enfim, essas coisas.

Abstenho-me de comentar a última linha do comentário do leitor. Creio que ela é auto-explicativa. Quem considera o PSDB "de direita" e fala, nesse contexto, em "preconceito social" (confesso que não entendi a referência ao Farol de Alexandria), precisa não de resposta, mas de remédio tarja-preta (talvez genérico).

E só para não perder a chance: não, não sou "serrista", tucano ou o que seja - e aí estão vários textos meus para provar o que digo, é só pesquisar -, mas, francamente, não me importo que os lulo-petistas me chamem assim. Não dou a mínima. Se querem me chamar de tucano ou serrista por ser a favor da coerência, e contra o trololó, então, vão em frente! Que assim seja. Já deixei de me importar com o que dizem de mim esses fazedores de rótulos. Para mim, importa é que um pato é um pato, não um cavalo ou um cachorro. Não vou perder meu tempo tentando mostrar a diferença entre uma coisa e outra para quem não quer saber e já renunciou à capacidade de pensar. É inútil tentar explicar isso também.

É verdade que as pessoas ficam mais burras em época de eleição. Mas também não precisam exagerar.

quinta-feira, outubro 14, 2010

TIREM A MÁSCARA


Aí vai um texto longo. Longo e necessário. Vocês vão perceber que se trata de um dos textos mais importantes que já escrevi aqui. Talvez o mais importante. Conto com a paciência de quem o ler.
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Se tem algo que me irrita, mais até do que barulho de despertador ou buzina de carro às quatro da manhã, não é quando discordam de mim - pelo contrário, trato a discordância, feita nos marcos da civilização, como algo muito bem-vindo, sem a qual não há debate possível. É quando deparo com alguém que, instado a emitir uma opinião, simplesmente se recusa a fazê-lo, por medo de ferir suscetibilidades ou para não desagradar a fulano ou a beltrano, bancando o invertebrado. Pessoas assim, que confundem verdade com não ter lado, equilibrando-se sob um manto de ambigüidade que apenas revela falta de personalidade ou refugiando-se atrás do medo patológico de fazer uma escolha moral, me tiram do sério. Nessas horas, confesso que perco facilmente a paciência e mando o sujeito que insiste em ficar em cima do muro pastar. Faço questão de ter idéias claras, e espero o mesmo de meu interlocutor. Como dizem os católicos (os verdadeiros): "Sim ou não; o resto é obra do tinhoso".

Estamos presenciando uma situação desse tipo no Brasil. Uma candidata à chefia da nação, confrontada com o que ela mesma afirmou sobre um assunto pouco tempo atrás, agora nega de pés juntos e (literalmente) sob a cruz o que disse e está documentado. Chamada a responder por suas palavras, faz-se de vítima de uma campanha sórdida e de uma cruel cruzada e afirma que não falou nada daquilo que falou. Que sua opinião é outra. Que sempre foi outra. Ou que, sobre o tema em questão, não tem opinião: não é nem contra nem a favor, muito pelo contrário.

Eu quero saber o que Dilma Rousseff pensa sobre o aborto. Quero saber a opinião dela sobre o "casamento gay". Ou sobre a liberalização das drogas. Ou se ela crê ou não em Deus, ou em duendes, ou em ETs. Eu quero saber em que ela acredita e em que não acredita. Quero saber o que ela pensa e quem ela é de fato, e não o que diz a propaganda eleitoral.

Do mesmo modo, quero saber o que ela fez até agora. Quero saber se ela, quando era a "companheira Stela" da VAR-Palmares, participou ou não de seqüestros e assaltos a bancos, ou se matou ou feriu alguém. Quero saber se e como ela treinou guerrilha, e se chegou a disparar uma arma. (Assim como espero saber o que fez exatamente Zé Dirceu nesse período, o que ele só aceita dizer "em 20 ou 30 anos"...) Quero saber se Dilma falsificou ou não seu currículo, inventando títulos inexistentes. Ou o que ela fez realmente na política antes de filiar-se ao PT. Ou, ainda, se é ou não verdade que ela pressionou a Receita Federal para encerrar uma investigação sobre o clã Sarney. Quero saber se ela sabia ou não das falcatruas de sua braço-direito e amiga de compras Erenice Guerra, que transformou a Casa Civil da Presidência da República num balcão de negócios para beneficiar a própria família (esse sim, o verdadeiro ”Bolsa-Família”). Ou se partiu ou não dela, Dilma, a ordem para fazer dossiês e violar sigilos fiscais de adversários políticos. Quero saber se ela é socialista, como está no mesmo vídeo em que fala do aborto, ou se é capitalista, comunista, flamenguista ou zen-budista. Quero saber também, embora desconfie de qual é a resposta, se Lula sabia ou não do mensalão, ou quem matou Celso Daniel, ou se as FARC deram ou não dinheiro para a campanha de Lula em 2002, ou por que ninguém na imprensa falou durante 15 anos do Foro de São Paulo... Enfim, quero saber. Sou curioso.

Trocando em miúdos: quero saber se Dilma é mesmo a favor da legalização do aborto, como está claro no vídeo da sabatina na Folha de S. Paulo, ou se era a favor na época e passou a ser contra depois, ou se continua a favor e está apenas fingindo que não é, ou se estava fingindo que era a favor para os jornalistas em 2007 e agora finge que estava fingindo. Enfim, quero saber a verdade. Toda a verdade.

FALTA DE CLAREZA
"Ah, mas isso é desimportante! O que importa é discutir idéias, propostas para o País" etc. etc. Pois eu digo que a primeira proposta que deve ser cobrada de um candidato à Presidência, aliás de qualquer político, é falar a verdade. Quem não tem clareza em questões como o aborto, quem muda o discurso de acordo com o que é mais conveniente, quem espera que todos esqueçam o que disse um dia sobre um tema polêmico para ganhar uma eleição, está dando um claro sinal do que poderá vir a fazer no poder. Revela não somente falta de sinceridade, mas de projeto de governo. Quem demonstra ter posições pouco claras sobre temas como aborto e religião, quem não se define sobre esses assuntos caros ao povo brasileiro, demonstra também pouca ou nenhuma coerência sobre economia e política. Ou vão me dizer que o PT tem um projeto de governo?

Em qual Dilma se deve acreditar: na ardente defensora da descriminalização do aborto, que comparou a extração de um feto à extração de um dente, ou na versão 2010, “mãe”, “pró-vida” e cristã devotada (embora não tenha aprendido ainda a fazer direito o sinal da cruz)? Na Dilma que se questiona sobre a existência ou não de Deus ou na que frequenta a missa? Qual das duas dilmas é a verdadeira? Creio que tenho o direito de fazer essa pergunta.

Por trás das negativas e tergiversações de Dona Dilma, o que existe é o seguinte esquema, endossado por parte significativa da imprensa nacional comprometida com sua campanha (e que se apresenta como "neutra" ou "imparcial"):

- Toda e qualquer afirmação que os adversários da esquerda fizerem - ainda que seja lembrar o que os próprios esquerdistas fizeram ou disseram um dia - é "calúnia" e "demagogia eleitoral" da "direita fundamentalista".

- Tudo que os esquerdistas fizerem ou disserem deve ser visto como verdadeiro somente em ocasiões e em contextos que possam beneficiar a esquerda. Por exemplo: se dizem que são a favor da legalização do aborto, ou da união civil de homossexuais, é somente porque aquilo lhes é útil naquele momento, e diante daquela platéia; se não é útil - por exemplo, numa eleição presidencial -, então tratam de mudar o discurso e exigir que todos se esqueçam de suas palavras - e chamam de caluniadores vis os que insistirem no assunto.

- Por conseguinte, a única visão válida e aceitável é a de esquerda. Todo o resto - inclusive lembrar o que os esquerdistas diziam até a véspera - é proibido.

O nome disso, no jargão marxista, é dialética. Já vimos esse método antes: é o método stalinista. Consiste em apagar ou reescrever a História para que se ajuste às conveniências do poder. Stálin mandava retocar fotografias para delas apagar rivais que mandara eliminar. Os lulo-petistas inovaram: querem apagar da memória de todos o que a chefe dizia até ontem. Querem eliminar a própria memória, nos moldes do que é descrito em 1984, de George Orwell.

FALTA CORAGEM
Os brasileiros deveriam se perguntar mais sobre quem os governa ou os quer governar. Se o fizessem, talvez tívessemos sido poupados de um Lula na Presidência da República. E certamente não haveria uma Dilma Rousseff.

Falta coragem aos lulo-petistas. Coragem de vir a público e assumir o que pensam verdadeiramente. Coragem de se apresentarem como o que de fato são, sem os artifícios do marketing e sem máscaras. Falta vergonha na cara.

O tipo de reação da campanha dilmista a um fato tão escancaradamente irrefutável é revelador de como essa gente se comporta diante da verdade. Flagrada sua candidata dizendo o que pensa sobre um tema, não lhes resta outra coisa senão negar que a Terra gira em torno do Sol. Contam, para tanto, com o silêncio e a cumplicidade de parte da imprensa e da intelligentsia, que por décadas alimentou o mito lulo-petista, tratando-os com reverência devota ou com o benefício da ambiguidade. Agora, diante de uma questão como o aborto, entram em choque com a CNBB, exigindo fidelidade canina de quem sempre os apoiou e ajudou a elevá-los ao altar da santidade. Os padres católicos deveriam saber que, com a santidade, vem a impunibilidade, além da onipotência.

Agora que Dilma foi apanhada sem cirurgia plástica e cometendo o terrível delito de dizer a verdade, o que vão fazer, censurar o vídeo? Certamente, é o que fariam os lulo-petistas se pudessem. Vai ver é isso o que eles chamam de "controle social da mídia". Aliás, uma proposta presente no PNDH-3 (que Dilma diz ter assinado sem ler, para variar...). Vale lembrar: o PNDH-3 - em que está incluída a idéia de legalizar o aborto - é um fato, não um boato ou uma calúnia inventados por um rival.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi massacrado diaramente durante seu governo porque supostamente teria dito “esqueçam o que escrevi”. Ele jamais pronunciou essa frase, embora tenha feito questão de rever, sobretudo na política econômica, posições que considerava (corretamente, aliás) ultrapassadas. (FHC, aliás, perdeu uma eleição em 1985 porque titubeou ao responder se acreditava ou não em Deus.) Pois Dilma não só pede que esqueçam o que ela disse, como nega mesmo que tenha dito um dia, apesar das provas abundantes em contrário. A frase de FHC, na verdade um boato plantado por seus adversários, foi tratada como um fato, enquanto a de Dilma, um fato comprovadíssimo, está sendo tratada como boato ou calúnia. Não consigo imaginar exemplo maior de duplo padrão e de desonestidade intelectual.

A VERDADEIRA QUESTÃO
Eu nem discuto se o aborto é certo ou não, se deve ou não ser legalizado. É perfeitamente válido, numa democracia, ser a favor da legalização do aborto, ou das drogas, ou da pena de morte. É algo perfeitamente legítimo, é do jogo que seja assim. O que não é válido nem tolerável é uma candidata à Presidência da República esconder o que pensa sobre um assunto para fazer demagogia eleitoreira. Pior: é ela negar o que ela mesma disse, com todas as letras, chamando de boato ou calúnia o que é um fato inegável, registrado para a posteridade. É posar de feminista radical num dia e transfigurar-se em Madre Teresa em outro.

Pessoalmente, acho que o debate sobre o aborto é necessário. Por isso é tão lamentável - mais que isso: é execrável - ver Dilma Rousseff fugindo da questão como o diabo foge da cruz. Eu gostaria de ouvir os argumentos dela a favor da descriminalização do aborto. Gostaria de vê-la debater o assunto. Mas debater significa dizer o que se pensa, não o que o marqueteiro acha mais adequado. E isso - falar o que se pensa - nem Dilma nem o PT querem fazer. Em vez de responder por suas palavras e encarar a questão, o que faz Dilma? Nega o que está no vídeo, posa de "mãe" e "pró-vida" e vai à missa para tentar ganhar votos. Mais: junta a demagogia à calùnia, espalhando boatos sobre seu adversário querer privatizar o pré-sal. É algo nojento, de revirar o estômago. É triste.

É em momentos como esse que se percebe o fosso que nos separa de povos realmente civilizados. Em outros países - nem falo dos EUA, mas dos países da Europa - temas como aborto ou religião fazem parte da agenda cotidiana do debate político. É a partir do posicionamento dos candidatos a respeito desses temas que os eleitores decidem em quem e em que partido irão votar. Assim, convencionou-se que quem defende posições como a legalização do aborto ou das drogas, por exemplo, é de esquerda ou de centro-esquerda. Quem assume posições contra a legalização do aborto, ou defende pontos de vista com base em valores e princípios cristãos, é a direita ou a centro-direita. E, desse modo, os campos se definem, com espaço para todas as opiniões e correntes políticas existentes na sociedade. No Brasil, não há nada disso: aqui, essas coisas simplesmente não se discutem, e ponto final. Quem ousar indagar um candidato sobre o que pensa - ou simplesmente expor a contradição entre o que ele ou ela diz agora e o que dizia antes das eleições - é tachado imediatamente de extremista de direita e reacionário. (Só falta gritarem: "é preconceito" - aliás, não falta, não.) Isso mostra como somos primitivos e atrasados.

Em um país como o Brasil, onde analistas tidos como sérios se esforçam para ser tão assertivos quanto uma porta e tão incisivos quanto uma canção dos Teletubbies, dissimular o que se pensa pode até render votos e deixar alguém bem na fita. Mas não dá para negar que essa é uma atitude covarde, que revela, na pior das hipóteses, oportunismo demagógico e, na melhor delas, falta de caráter. Mais que isso: demonstra inaptidão para o debate público franco e honesto, a incapacidade, portanto, de conviver com as regras do jogo democrático. Não são qualidades que se espera de um vereador em Santana do Passa-Quatro. Quanto mais em quem almeja ser Presidente da República.

Há alguns dias um jornal de uma cidade no México, acuado pelas ameaças dos narcotraficantes que infernizam o país, perguntou em editoral aos chefões locais do crime que notícias eles gostariam de ver publicadas. No Brasil, para não prejudicar a candidatura governista, há quem prefira sonegar fatos, tratando-os como boatos de campanha. É uma forma de censura. Os jornalistas mexicanos têm a desculpa do medo. Seus colegas brasileiros não têm esse álibi: fazem-no por ideologia. Ou por safadeza. Ou as duas coisas.

Insisto nesse ponto: a questão não é o aborto em si, sua moralidade ou não. Tampouco é se fulano ou sicrano acredita ou não em Deus. É se é moralmente correto e aceitável mentir para vencer eleicões. Tenho cá minha opinião sobre aborto e religião. Mas minha opinião, a não ser para mim e talvez para as pessoas que convivem comigo, não é importante. A de Dilma, porém, é. Idéias e passado obscuros rimam com presente de maracutaias e futuro de incertezas. Eu quero saber o que Dilma pensa a respeito desses temas. Tenho esse direito. Eu e o Brasil.
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Chega de trololó. Chega de tergiversar. É hora de tirar a máscara.

ARGUMENTOS BRILHANTES

Ah, eles estão descontrolados! .

Que direitos humanos e democracia, que nada! Se tem uma causa que mexe com os brios de muita gente, se tem algo capaz de retirar algumas pessoas do marasmo e levá-las às ruas, é a “causa” maconhista. Escrevi um texto sobre o assunto, que cito em meu post anterior. Vejam só algumas pérolas que me mandaram alguns adeptos do nobre esporte de ficar com os olhos vermelhos e engrolar a língua (omito os nomes dos remetentes, para alívio dos mesmos):

Da sua boca só sai merda meu amigo !
Quanta asneira junta ! Desse jeito você vai longe!
Você está precisando construir algumas idéias próprias em vez de continuar sendo um fantoche que concorda com qualquer coisa que seus governantes impõem.
...
quanta bosta escreveu!
mais conteúdo na cabeça
explore mais conhecimentos e
expanda mais seus pensamentos
você é muito fraco espiritualmente, um vendido. nem lí tudo, pois só fala caca de vaca.
Fica a dica!
...
Não da vontade nem de entrar numa conversa com vc, limitado, preconceituoso, quadrado...
e tudo isso sem fumar nada, imagine só

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O que dizer diante de argumentos tão brilhantes, tão fina e ricamente elaborados, expostos com tão alto nível e com tamanho rigor científico, sem falar no respeito ao pensamento discordante e elegância? Nada, a não ser reconhecer a superioridade intelectual de cérebros intoxicados de maconha. Por isso, transcrevo aqui o que me escreveu um dos militantes da suprema "causa" de torrar conexões neurais:

Você chama a nossa causa, e a esquerda em geral de "idiota, desocupado, de quem não tem mais o que fazer". Aliás, você, o rebelde sem causa, só fez isso no texto inteiro, xingamentos, acusações, demonização... Isso sim é idiotismo, é desocupação... Não é enxergar o mundo e sim ver somente o pouco que está ao seu redor.

Falar o quê? Disse tudo.

quarta-feira, outubro 13, 2010

RESPOSTA A MILITANTES DE UMA CAUSA MUITO NOBRE E JUSTA

Meu texto "A Longa Marcha dos Maconheiros" (http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2010/08/longa-marcha-dos-maconheiros.html) parece ter tocado num nervo extremamente sensível de certas pessoas. Escreveu a respeito quem se assina como "Henrique S.":

Quanto asneira! Vou deixar para escrever uma resposta maior depois, mas eu te respeito por não fumar maconha, você tem esse direito, mas quem é você para dizer que a nossa causa é besteirol? Quem é que está se achando superior aos demais aqui? Nós lutamos pela nossa causa e nao queremos incomodar ninguem, enquanto você, ao contrário, atrapalha, banaliza e demoniza a nossa luta.

O bom de tudo é que caminhamos a passos largos pela legalização da maconha no mundo todo, então só me resta dizer que seu texto cheio de preconceitos e asneiras, não terá utilidade nenhuma, a nao ser deixar algumas pessoas, como eu , irritadas. E com razão.

OK, obrigado por respeitar meu direito de não fumar maconha (já estou vislumbrando no horizonte o dia em que dar um tapinha será obrigatório). Quem sou eu? Não sou ninguém, sou só um blogueiro que respeita a Lei e que acha que, numa sociedade democrática, ela deve ser respeitada por todos. Sou alguém que não coloca um capricho pessoal acima da Lei e do estado de direito democrático. Enfim, sou apenas alguém que não se acha superior aos demais mortais.

Eu atrapalho a "causa" maconhista? Ainda bem: é essa justamente minha intenção. Quero atrapalhar mesmo, mas não do jeito que o leitor acha: quero que os maconhistas tenham toda a liberdade para se expressarem e me convencerem dos benefícios da queima de neurônios para a humanidade. Até o momento, nenhum argumento me convenceu. Eu banalizo tão nobre luta? Talvez porque encher os pulmões de fumaça proibida deve ser, e pelo visto é, uma banalidade sem tamanho. Demonizo algo ou alguém? Acho que não, só exponho argumentos. E não vejo nenhum do outro lado.

Que bom, então "o mundo" está caminhando para a liberação da maconha em escala planetária. Será o fim da razão mais forte para proibir a erva do capeta, o narcotráfico. Só tem um probleminha: já combinaram com os países islâmicos? Tirando a Jamaica e a Holanda, quem mais está às vésperas de virar território livre para a galera que curte um baseado?

Enquanto isso não se resolve, fico aqui com meus textos cheios de asneiras e preconceituosos, sem utilidade alguma. Deixei um maconhista irritado? Aí está uma boa utilidade para o texto.

Outro leitor e militante da "causa" maconhista, o Silas, me escreveu as seguintes palavras carinhosas:

Esse blog se diz "do contra", mas só reproduz as asneiras que todos estão acostumados a ver.

Sério? Tem mais gente como eu repetindo a asneira de que a Lei, numa democracia, vale para todos e deve ser respeitada?

Você chama a nossa causa, e a esquerda em geral de "idiota, desocupado, de quem não tem mais o que fazer". Aliás, você, o rebelde sem causa, só fez isso no texto inteiro, xingamentos, acusações, demonização... Isso sim é idiotismo, é desocupação... Não é enxergar o mundo e sim ver somente o pouco que está ao seu redor.

OK, então me ajude a deixar de ser um idiota desocupado e por favor me explique a nobreza da sua "causa", a causa dos que acham o supra-sumo da liberdade zombar da Lei e ficar boladão de erva. Expanda meus horizontes e faça-me ver o mundo, por favor.

Tem muito falso maconheiro sim, mas o discurso de filho de elite entediado é o seu. 99% dos usuários, se pudessem plantariam o seu próprio pé, se não fosse legalizado. Mesmo proibido, quase metade faz isso. Justamente para não alimentar o narcotráfico (não entendi onde se encaixa o PT e o presidente da Bolívia nessa).

O que seria um "falso maconheiro"? Seria alguém que, como Bill Clinton, só fuma, não traga? Deixa pra lá... Vamos nos concentrar na questão: então bastaria cada usuário de maconha ter sua plantaçãozinha no quintal para não corroborar o narcotráfico e ficar com a consciência limpa, é isso? E como fica a Lei? Mas deixa isso pra lá também.

Vamos fazer um pequeno exercício: suponhamos que eu, assim como os 99% dos maconheiros que o caro leitor mencionou, resolvesse fazer uma horta no quintal de minha casa com mudas de cannabis. Minha idéia seria curtir uma lombra sem ter que subir o morro e comprar do traficante. Assim, numa boa, no maior clima "paz e amor". A primeira coisa que eu precisaria ter, além de espaço e adubo, seria uma muda da erva. Pois bem: não sendo mudas de cannabis algo assim facilmente encontrável no supermercado, eu teria que recorrer ao, digamos, mercado paralelo. Isso significa que eu teria, mesmo contra minha vontade, de adquiri-las de pessoas que comandam um negócio que não é bem do tipo que recolhe impostos. Estou me fazendo entender ou fui muito sutil?

Não entendeu onde se encaixa o PT e o cocaleiro Morales no narcotráfico? Ok, vou ser o mais didático possível: a maioria dos que apóiam o discurso do "legalize já" é de esquerda. O PT e Morales são de esquerda. A Bolívia é a maior exportadora de cocaína para o Brasil. O governo do PT finge que isso não existe. Fui claro ou preciso desenhar?

Mas pelas suas próprias palavras tu demonstra que é um miquinho amestrado do sistema atual. "Se, em vez de maconha, fosse proibido o consumo de, sei lá, fubá (...) continuaria a achar que a obediência à Lei é o melhor caminho. Não daria bola para os que dissessem que comer fubá não faz mal, ou é uma questão de liberdade individual.".

Como eu sou um miquinho amestrado do "sistema", faço questão de escrever o parágrafo inteiro, e não somente a parte mutilada que o leitor transcreveu: "Se, em vez de maconha, fosse proibido o consumo de, sei lá, fubá, que se tornaria um negócio ilegal bastante lucrativo, eu poderia até achar uma bobagem, mas continuaria a achar que a obediência à Lei é o melhor caminho. Não daria bola para os que dissessem que comer fubá não faz mal, ou é uma questão de liberdade individual. Preferiria prestar atenção às gangues de traficantes de fubá que explorassem o comércio ilegal de fubá nas favelas, num ciclo de violência, e torceria para que a polícia botasse esses malandros na cadeia. Até que me convencessem que consumir fubá não é compactuar com o crime, eu seguiria essa opção." Prestaram atenção nos trechos em negrito?

Vale lembrar que em tempos de ditadura no Brasil (que por sinal não me surpreenderia se você fosse a favor), era proibido qualquer manifestação de oposição ao cruel regime. Se tivesse vivido aquele tempo, acharia um absurdo, ou 'não daria bola' para aqueles que batalharam para hoje, tu ter a liberdade de expressar sua opinião?

E vale lembrar que respeito à Lei não tem nada a ver com ditadura (aliás, muito pelo contrário). Vale lembrar que sou contra qualquer ditadura, de direita ou de esquerda. Será que os militantes maconhistas que não vêem nenhuma relação entre o consumo e o tráfico de drogas, ou entre o PT e as FARC, podem dizer o mesmo? Pelo visto não, mas eles não dão bola para isso.

E só para terminar: se o distinto leitor, ao se referir àqueles que "batalharam para hoje, tu ter (sic) a liberdade de expressar sua (sic) opinião", estava pensando em alguém da quadrilha lulo-petista hoje incrustada no poder, o caso é realmente sério: é mais uma prova dos males que a maconha faz ao cérebro. Nesse caso, recomendo fortemente que, da próxima vez, pense mais na hora de escrever. De preferência, sóbrio.

terça-feira, outubro 12, 2010

DILMA ROUSSEFF, OU: A ARTE DA MENTIRA


É uma pena que José Serra não vá privatizar as estatais, como diz Dilma Rousseff. É lastimável que o governo FHC tenha passado longe de ter sido liberal (ou "neoliberal", como gostam de dizer os petistas), e que os tucanos, como esquerdistas envergonhados, se recusem a defender com mais empenho as reformas necessárias (e insuficientes) que fizeram. De minha parte, considero que o Estado - seu tamanho e intervenção na economia, principalmente - está na raiz dos problemas do Brasil. Se Estado grande e intervencionista fosse sinônimo de Estado forte e de desenvolvimento, o Brasil já seria uma superpotência econômica e social há muito tempo.

É triste que a estatolatria seja uma característica até mesmo cultural do Brasil, e que a maioria dos brasileiros veja no governo o pai ou a mãe dos desvalidos, a ponto de nenhum partido ou político ter a coragem de defender abertamente e sem rodeios as idéias liberais. Mas o que acho sobre esse culto fetichista do Leviatã estatal, assim como sobre Serra e as privatizações, não é importante. O que importa, vale ressaltar, é que a propaganda do PT está sendo, mais uma vez, mentirosa. Criminosamente mentirosa.
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É mentira que Serra, se eleito, irá privatizar a Petrobrás. Isso não passa de cascata, de boato igual ao que detonou a candidatura de Geraldo Alckmin em 2006. Não é preciso ser a favor do PSDB ou ser eleitor de Serra para perceber que esse tipo de coisa é calúnia, é a mais grossa canalhice. Coisa de vigaristas, de delinquentes políticos. Uma verdadeira baixaria..

Também não é preciso ser eleitor de Serra para ver que aquilo que a campanha da criatura de Lula - com a ajuda de certa imprensa nenhumladista - chama de "boato" e "tática do medo" é a mais pura verdade. Se não, me convençam que a opinião de Dilma sobre o aborto não é aquela que está no vídeo, que quero crer que todos assistiram. Convençam-me que o vídeo é falso, e que ela não disse o que disse, nada disso, muito pelo contrário. Mostrem-me, por sua vez, um video em que José Serra aparece defendendo a privatização da Petrobrás ou do Banco do Brasil e eu direi que isso é um fato, não um boato feito para semear o medo e ganhar a eleição.

Em outras palavras, estamos na seguinte situação: VERDADE É AQUILO QUE OS LULO-PETISTAS DIZEM QUE É VERDADE. MENTIRA É O QUE ELES DIZEM QUE É MENTIRA. E ponto final.
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Quando um boato feito para difamar um oponente toma foros de verdade, e lembrar um fato irrefutável passa a ser descartado como boato ou como mera tática eleitoral, é porque a lavagem cerebral e a inversão psicótica da realidade atingiram o estado da arte. Por enquanto, os únicos fatos concretos dessa eleição são as palavras de Dilma na sabatina da Folha de S. Paulo em 2007, em que ela deixa clara sua opinião sobre a legalização do aborto, e a tentativa desesperada dos lulo-petistas de apagar suas palavras. O resto é o que os lulo-petistas sabem fazer de melhor: mentir, mentir, mentir. Até que a fronteira entre verdade e ficção se apague de vez e a mentira, repetida mil vezes, engula e substitua a verdade. Já deu certo duas vezes; pode dar certo novamente.

quinta-feira, outubro 07, 2010

DILMA, O ABORTO DE UMA CANDIDATURA


"- A senhora é socialista?

- Eu sou.

(...)

- Sobre o aborto, qual a posição da senhora? (...)

- Olha, eu acho que deve haver a descriminalização do aborto. Hoje, no Brasil, isso é um absurdo que não haja a descriminalização".
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As respostas acima - ditas num tom ríspido e seco, senhorial, por quem ainda fazia pose de gerentona e não tomara o banho de botox que a deixou com a cara do Kim Jong-Il - foram dadas pela então ministra da Casa Civil Dilma Rousseff a um jornalista, em sabatina na Folha de S. Paulo. Foi no dia 4 de outubro de 2007. Estão documentadas para a posteridade, em um vídeo facilmente encontrado no Youtube. Mesma declaração, com quase as mesmas palavras sobre o aborto, foi feita por ela à revista Marie Clarie em 2009.

Hoje, a candidata Dilma Rousseff se apresenta com outra persona. Não mais como a chefona durona, mas como "mãe" e "pró-vida". Diante da gritante contradição com o que dizia a Dilma pré-eleições, seus apoiadores no governo e na imprensa foram rápidos. "Baixaria", gritaram em uníssono, tentando fazer todos esquecerem as próprias palavras da criatura do chefe. Estas teriam saído não de sua boca, mas, só faltaram dizer, teriam sido lá plantadas por uma cabala, por uma sórdida campanha urdida por seus adversários. "Acabei de ter um neto, como posso ser a favor do aborto?", foi a pergunta cândida de vovó Dilma na televisão, aparentemente sem se dar conta da baixaria que é envolver um bebê recém-nascido numa disputa eleitoral. A ministra socialista e abortista de 2007 deu lugar a outra Dilma, pró-mercado e mãe-avó devotada. E quem não acreditar nessa conversão é um canalha da pior espécie, sentenciou.

Se Dilma é socialista ou não - e "socialista", cá entre nós, é uma palavra que perdeu completamente o sentido, embora revele o viés dirigista e autoritário de quem a utiliza -, ou se é ou não favorável à descriminalizaçâo do aborto, é algo, para os fins deste texto, de somenos importância. A questão não é se o aborto é ou não uma questão moral ou, como preferem os defensores da descriminalização, de saúde pública ou de liberdade individual, como se se tratasse de extrair um siso ou de arrancar um calo do dedão do pé. Nesse ponto, cada um, goste-se ou não, tem suas próprias idéias e opiniões. A questão de fundo é que uma candidata ao cargo máximo do país, que hoje, na reta final da campanha presidencial, apresenta-se como "pró-vida", nega o que disse sobre o assunto há apenas três anos. É se ela só se tornou pró-vida este ano. É, enfim, sobre sua honestidade.

Das duas uma, para ficar mais claro: se Dilma está falando a verdade agora sobre o aborto, então não estava sendo sincera naquela sabatina na Folha. Se, por sua vez, estava falando o que realmente pensa três anos atrás, então está escondendo sua verdadeira opinião sobre o tema em 2010, tendo mudado o discurso por uma conveniência eleitoral. Em qualquer caso, ela está mentindo.

A hegemonia lulo-petista no Brasil é tão avassaladora que lembrar o que Dilma dizia até há pouco tempo sobre o aborto - ou o que Lula dizia, antes de chegar ao poder, sobre o assistencialismo e seus aliados de hoje, sem falar nas inegáveis relações do PT com as FARC - é imediatamente descartado como "baixaria" ou como "tática do medo", enquanto que mentir sobre si mesmo e sobre seus adversários é visto como a suprema manifestação da verdade. A questão importante é se fatos sobre uma candidata ao cargo máximo do país devem ser mencionados ou não. É se mentiras deslavadas lançadas sobre seus adversários devem ou não ser desmascaradas. Em 2006, a candidatura de Lula espalhou o boato de que o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, iria privatizar a Petrobras e o Banco do Brasil. Era mentira. Ninguém na imprensa chamou isso de baixaria ou de tática do medo. Alckmin perdeu a eleição. Lula ganhou.

Hoje, a mesma imprensa "neutra" e "imparcial" que tratou um boato contra o tucano Alckmin como se fosse fato trata um fato sobre Dilma como se fosse um boato. Com isso, presta um desserviço à verdade, e ajuda a consolidar uma mentira. Para não passar por conservadora ou "de direita", dá sua chancela moral a uma tentativa de manipulação. Mais que isso: desvia o rumo do debate, transformando-o num plebiscito sobre o aborto em si. A questão não é sobre a moralidade ou não do aborto. É sobre a moralidade ou não de mentir para ganhar uma eleição.

Se Dilma Rousseff se declarasse claramente a favor da estatização de todas as propriedades do país e da legalização do aborto, ela poderia até perder votos, mas sairia dignificada, a meu ver, como uma pessoa honesta, que não foge de uma questão polêmica para agradar a platéia e vencer uma eleição. Seria, enfim, uma política com alma, e não - o que é confirmado a cada dia - uma criação artificial e uma escrava do marketing. Como ela não faz isso, só posso concluir pela segunda alternativa.

A candidata que chama de factóide a violação de sigilos bancários de filhas de adversários políticos acha que é baixaria lembrar o que dizia sobre um assunto há menos de tres anos. Considera de extremo mau gosto recordar o que ela mesma disse, com todas as letras, mas não vê nenhuma baixaria em preparar dossiês e invadir sigilos alheios - sem falar em programas de governo fajutos, entregues às pressas ao TSE para substituir outro texto, mais radical (e, pelo visto, mais sincero). Vai ver que de bom gosto é esconder essas coisas, e apelar para a falsidade pura e simples.

Estamos assistindo a um processo de destruição e substituição da memória coletiva, no estilo orwelliano. Como escreveu o colunista da VEJA, Reinaldo Azevedo, temos, nesse caso, uma clara dicotomia: de um lado, a verdade reacionária; de outro, a mentira progressista. Entre uma e outra, parte da imprensa ficou com a mentira progressista. Reacionária ou não, eu fico com a verdade.

quarta-feira, outubro 06, 2010

UMA BOA NOTÍCIA


Nem tudo nas eleições brasileiras são dilmas e tiriricas. Felizmente, há espaço também para boas notícias. Refiro-me não somente ao fato de que teremos segundo turno no pleito presidencial - o que significa, enfim, que haverá uma disputa política, o que já é uma derrota para a candidata oficialista e para os institutos de pesquisa com ela mancomunados -, mas a algo de que quase ninguém falou na imprensa nesses dias. Em meio a um oceano de mediocridade e abjeção, eis que surge alguém que, remando contra a maré, apresentou-se como o único candidato declaradamente de direita do Brasil.

O candidato em questão é o jovem Ricardo Salles, de São Paulo. Em anúncios em revistas e num site de um movimento que ajudou a criar, o Movimento Endireita Brasil - MEB (atenção: não confundir com o MEP de meninos conhecidos de certos presidentes...), Salles, candidato a deputado estadual, fez uma campanha baseada na defesa dos princípios elementares do liberalismo, como menos impostos e liberdade de imprensa - essas coisas terríveis, que só podem causar horror em qualquer pessoa de bem -, tendo conseguido uma expressiva votação, cerca de 22.300 votos (não sei se foi eleito). Trata-se, até onde eu sei, de algo inédito na política brasileira, dominada sabe-se-lá-desde-quando pelo unanimismo de esquerda, que transformou os próprios termos "direita" e "conservador" - categorias políticas muito mais sólidas e significativas do que "petista", por exemplo - em verdadeiros palavrões, em xingamentos indignos de serem proferidos em casas de família. Nem dei bola para o fato de ele ter-se lançado candidato por uma coligação que incluiu o PSDB e o DEM, dois partidos que de oposição e de direita nem o nome têm.

Já escrevi aqui que faz tempo não pertenço a nenhum movimento, e que considero a militância - qualquer militância - uma chatice. Por isso desconfio sempre de partidos políticos e de manifestos. Acredito que militar em algum partido ou movimento é algo que mata a liberdade individual, a saudável alienacão que permite ao indivíduo exercer plenamente sua personalidade, sem dar a mínima para rótulos e ideologias. O ser humano nasceu para ser livre, não para carregar bandeiras em comícios ou para desfilar, como dizia Nelson Rodrigues, como um dragão de penacho na parada de 7 de setembro. Mas não posso deixar de registrar com alegria esse fato, tão pouco usual no Brasil da palhaçada. Como o leitor poderá constatar em outros posts meus, a existência de candidatos de direita não é apenas um sopro de inteligência: é uma pré-condicão para qualquer democracia que se preze. Quem quer unanimidade que vá a Cuba ou à Coréia do Norte.

Bem-vindo, Ricardo Salles. Que seu exemplo frutifique, e que outros como você apareçam para arejar o ambiente e varrer de vez o mofo da vulgata marxistóide e politicamente correta que se apossou, há décadas, da vida politica e cultural brasileira. Já era hora de aparecer alguém com coragem de ter um discurso que destoa do da manada. Pode ser que não dê em nada. Pode ser que seja só um balão de ensaio. Só o tempo dirá. Mas já é um comeco.
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Link para o site do Movimento Endireita Brasil: http://www.endireitabrasil.com.br/

terça-feira, setembro 28, 2010

DE DILMAS E TIRIRICAS


O maior fenômeno das eleições brasileiras de 2010 é o palhaço Tiririca. Em uma propaganda que já se tornou um hit na internet, Tiririca - aliás, o cearense Francisco Everardo Oliveira Silva - aparece vestido como seu personagem, de peruca e dancinha, pedindo votos no horário eleitoral. Ele é candidato a deputado federal. Tiririca é incapaz de formular qualquer proposta, e confessa não saber o que faz um deputado federal. Não importa. "Pior do que tá não fica", é seu bordão. Segundo todas as pesquisas, Tiririca será eleito. A previsão é que cerca de 1 milhão de eleitores votarão no "abestado".

Muita gente dará o voto a Tiririca, ou sente alguma simpatia por sua candidatura, por seu caráter desbragadamente farsesco e escrachado, típico de circos do interior do Nordeste. Ainda mais numa campanha irritantemente sem graça, em que os debates entre os principais candidatos à Presidência causaram sono e em que se tentou até - cúmulo da palhaçada - proibir o humor, a presença de Tiririca é a garantia de algumas gargalhadas. O voto em Tiririca, assim como a eleição do rinoceronte Cacareco ou do Macaco Tião em eleições passadas, simbolizaria assim um "voto de protesto".


Aí é que está. Se você pretende desperdiçar seu voto dando-o ao candidato mais tosco e bizarro que houver na praça, o qual representaria o protesto contra "isso que está aí", é melhor escolher outro candidato. Não Tiririca.

Tiririca é o que os marqueteiros que criaram sua candidatura chamam, no jargão eleitoral, de puxador de votos - alguém famoso, geralmente vindo do mundo da televisão, que pela fama consegue arrecadar votos suficientes para eleger outros candidatos de sua legenda, que de outra forma dificilmente conseguiriam se eleger, geralmente por partidos pequenos e sem maior expressão. O partido, no caso de Tiririca, é o PR, Partido da República. O PR é um dos partidos que compõem a base alugada (perdão: aliada) do governo Lula. Em São Paulo, estado pelo qual Tiririca se lançou candidato a deputado federal, o PR integra a frente partidária encabeçada pelo PT do candidato a governador Aloízio Mercadante. Fazem parte da mesma frente também a ex-ministra Marta Suplicy e o pagodeiro Netinho de Paula, este último pelo PCdoB, Partido Comunista do Brasil, como candidatos ao Senado. Um dos lemas da campanha de Tiririca é "Cansado de quem trambica? Vote no Tiririca". Pois bem. Um dos que poderão ser eleitos com os votos de Tiririca é o ex-deputado federal e ex-presidente nacional do PR, Valdemar Costa Neto. Para quem não lembra, Costa Neto é um dos parlamentares envolvidos no escândalo do mensalão em 2005, quando teve de renunciar ao mandato para fugir à cassação. Outros que esperam beneficiar-se do voto no palhaço são os também mensaleiros José Genoíno (o dos dólares na cueca) e João Paulo Cunha. Agora, graças às piadas de Tiririca, essa turma da pesada poderá voltar ao Congresso Nacional. Não parece muito engraçado, não é? "Pior do que tá não fica". Ah fica, sim...


Dilma Rousseff é a candidata de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República. Até dois anos atrás, quase ninguém sabia quem era Dilma Rousseff. O principal trunfo de Dilma Rousseff para postular a cadeira presidencial - na verdade, o único - é ser amiga de Lula. Nos grotões do interior, ela é mais do que isso: é a "mulher de Lula", embora esse posto pertença, oficialmente, a Marisa Letícia. Em sua campanha, Dilma cola sua imagem a de Lula, e promete que, se eleita, irá governar conforme manda o mestre. Segundo as pesquisas, Dilma é a candidata com maiores chances de ser eleita presidente - ou "presidenta", em dilmês - nesse pleito.

Weslian Roriz é a candidata de seu marido, Joaquim Roriz, ao governo do Distrito Federal. Até alguns dias atrás, ninguém sabia quem era ela. Weslian lançou-se na campanha depois que seu esposo, com a candidatura impugnada pela Justiça Eleitoral - ele renunciou ao mandato de senador em 2007 para não ser cassado por corrupção -, resolveu deixar a disputa. Assim como Dilma, ela já deu mostras de incapacidade de raciocínio lógico, ou mesmo de construir uma frase com idéias minimamente coerentes. O principal trunfo eleitoral de Weslian Roriz é ser esposa de Joaquim Roriz. Em sua campanha, ela cola sua imagem a de Roriz, e promete que, se eleita, irá governar conforme manda o maridão. Segundo as pesquisas, Weslian tem grandes chances de ser eleita governadora do DF.


Comecei este texto falando de Tiririca. Por que, então, desandei a falar de Dilma Rousseff e de Weslian Roriz? Pelo seguinte: nesta eleição, o eleitor votará em Tiririca e irá eleger Valdemar Costa Neto. Por sua vez, os que votarem em Weslian Roriz irão eleger seu marido, Joaquim Roriz. Do mesmo modo, quem votar em Dilma Rousseff irá votar em Ze Dirceu e no PT. E em Lula.

Em outras palavras: Tiririca é a Dilma ou a Weslian de Valdemar Costa Neto. Ou ainda: Weslian Roriz é o Tiririca de Joaquim Roriz. E Dilma Rousseff é o Tiririca de Zé Dirceu.


Essa é mais uma herança da era Lula. O voto "by proxy". O voto-laranja.

Tiririca é um palhaço, e sabe que o é. Na falta de qualquer outra qualidade - inclusive, ao que tudo indica, as mais básicas, como saber ler e escrever - ele aposta no ridículo e no deboche para chegar à Câmara dos Deputados, onde já disse que, além de ajudar a propria família, não tem a menor idéia do que vai fazer. Já Dilma Rousseff se leva a sério, achando-se preparada para governar o Brasil. A diferença entre os dois é que Tiririca, pelo menos, é sincero.

Numa época de farsa institucionalizada, de deboche da democracia e de celebração oficial da ignorância, nada mais lógico do que Tiririca ser eleito deputado federal. Na era da mediocridade - ou seja, na era de Lula, Dilma e Weslian -, convenhamos, nada mais apropriado. Tiririca já pode pensar em vôos mais altos. Por que não a Presidência da República?

sábado, setembro 18, 2010

O BRASIL QUE PRESTA E O BRASIL QUE NÃO PRESTA


Existe o Brasil que presta. E existe o Brasil que não presta.

O Brasil que presta trabalha e produz, com o próprio esforço e pagando impostos. O Brasil que não presta quer apenas locupletar-se na máquina estatal.

O Brasil que presta respeita e defende a democracia, como um fim em si mesmo. O Brasil que não presta acha que ela só existe para beneficiar a própria grei, e usa os meios da democracia para destruí-la.

O Brasil que presta considera essencial a tolerância e a alternância democrática de poder. O Brasil que não presta não convive bem com a crítica, e apregoa a extirpação do adversário político.

O Brasil que presta defende a lei, o estado de direito e a meritocracia. O Brasil que não presta debocha da lei e promove o aparelhamento do Estado por uma multidão de apaniguados.

O Brasil que presta valoriza a liberdade de expressão e acredita que sem ela não há democracia. O Brasil que não presta usa a liberdade de imprensa quando na oposição, para, quando no governo, tentar impor a censura e o controle dos meios de comunicação.

O Brasil que presta acredita que o papel da imprensa é noticiar e fiscalizar. O Brasil que não presta acha que o papel da imprensa é tecer loas e bater palmas para o governo.
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O Brasil que presta acha intoleráveis mensalões, dossiês, aloprados e violações de sigilos fiscais. O Brasil que não presta transforma crime em "factóide" e procura desqualificar denúncias fundamentadas como "golpismo" e "pregação moralista".

O Brasil que presta considera a democracia e os direitos humanos valores universais. O Brasil que não presta se alia a tiranos e assassinos, criminalizando a dissidência.
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O Brasil que presta defende a não-intervenção como um princípio das relações internacionais. O Brasil que não presta intervém nos assuntos internos de outro país para tentar impor um golpista, apresentando-o como um democrata, e democratas como golpistas.
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O Brasil que presta considera o realismo essencial para a política externa. O Brasil que não presta quer fazer política de grande potência sem o ser, confundindo realismo com megalomania.

O Brasil que presta procura manter um mínimo de coerência. O Brasil que não presta se apropria das conquistas dos outros, que antes condenava, sem qualquer confissão ou arrependimento. E se alia a quem antes repudiava como o que há de pior na política, sem qualquer vergonha ou constrangimento.

O Brasil que presta repudia o coronelismo e o clientelismo. O Brasil que não presta vê como normal a compra de consciências por um prato de lentilhas.

O Brasil que presta considera o preparo e a capacidade intelectual fundamentais para um governante. O Brasil que não presta acha que o marketing compensa qualquer deficiência, usando e abusando da propaganda ufanista para tentar vender uma nulidade como uma estadista.

O Brasil que presta acha que o papel do presidente da República é governar. O Brasil que não presta acha que a função principal deste é fazer campanha para sua candidata, durante e após o expediente.

O Brasil que presta busca colocar-se acima das questões partidárias, separando-as dos assuntos de governo. O Brasil que não presta confunde propositalmente Estado e partido, transformando o primeiro num puxadinho do último.

O Brasil que presta acredita que todos são iguais perante a lei. O Brasil que não presta acha que alguns são mais iguais do que outros, dividindo a sociedade em raças e grupos distintos, estabelecendo o racismo por meios oficiais.

O Brasil que presta acredita que invadir e depredar propriedades é crime. O Brasil que não presta acha que impedir a invasão e depredação é "criminalizar movimentos sociais".

O Brasil que presta aprende com os erros do passado. O Brasil que não presta se recusa a admitir que um dia errou e tenta reescrever a História - e ainda lucrar financeiramente com isso, numa orgia de indenizações milionárias por escolhas políticas do passado.

O Brasil que presta tem programa de governo e um projeto de nação. O Brasil que não presta tem apenas um projeto de poder, visando eternizar-se nele.

O Brasil que presta defende mão firme contra o crime. O Brasil que não presta mantém relações com terroristas e narcotraficantes (e berra quando isso é mencionado).

O Brasil que presta acha que ninguém está acima da lei. O Brasil que não presta posa de messias e divide a sociedade em pessoas comuns e aliados políticos, para os quais tudo é permitido.

O Brasil que presta exige punição para corruptos e ladrões do dinheiro público. O Brasil que não presta diz ''não sei nada, não vi nada'' e ''fui traido'' - e bota a culpa na imprensa.

O Brasil que presta segue regras. O Brasil que não presta acha que tudo é válido, e que a única coisa proibida é perder as eleições e o poder.

O Brasil que presta quer apenas que o Estado não atrapalhe e o deixe em paz. O Brasil que não presta acha que o Estado deve controlar a vida do cidadão, e depende da máquina governamental para fazer bons negócios.

O Brasil que presta considera a honestidade um valor em si. O Brasil que não presta cultiva a ambigüidade moral e o relativismo para os seus.

O Brasil que presta desconfia das ideologias. O Brasil que não presta usa a ideologia sempre que lhe é conveniente, como uma forma de colocar os ricos contra os pobres (por exemplo, chamando denúncias de corrupção de "conspiração das elites").

O Brasil que presta tem vergonha até de fazer oposição ao governo (não deveria ter). O Brasil que não presta não tem limites, nem tem vergonha de nada. Só de perder o poder.

O Brasil que não presta usa a própria origem social como álibi para cometer falcatruas e para fugir da responsabilidade. O Brasil que presta acha que mais importante do que a origem pobre é ter vergonha na cara.

O Brasil que não presta se orgulha de não ter estudado quando pôde, e faz o culto da ignorância. O Brasil que presta acha que isso é um insulto aos pobres que estudam.

O Brasil que não presta acha pragmatismo e sabedoria querer que todos esqueçam o que disseram e fizeram no passado. O Brasil que presta acha que isso é oportunismo e sem-vergonhice.

O Brasil que não presta confunde bom governo com popularidade, e urna com tribunal. O Brasil que presta acredita que uma coisa não tem nada a ver com a outra.

O Brasil que não presta acha que o problema do Brasil é o ''excesso de liberdade'' da imprensa. O Brasil que presta acha que o problema do Pais é o excesso de liberdade do Brasil que não presta.

O Brasil que presta acha que democracia pressupõe a pluralidade e o contraditório. O Brasil que não presta acha que democracia deve ser uma competição entre semelhantes.

O Brasil que presta tem princípios. O Brasil que não presta só tem conveniências.

Se o Brasil fosse um país sério, e não uma terra de abestados e tiriricas, a parte que presta estaria no poder. E a que não presta estaria fora da política. Ou na cadeia.

Em alguns dias, os dois Brasis irão se enfrentar nas urnas. A julgar pelo que dizem as pesquisas, sairá vencedor o Brasil que não presta, o Brasil da mentira, do crime e da corrupção. É que este tem militantes. O outro Brasil, o Brasil que presta, tem, se tanto, eleitores.

quinta-feira, setembro 09, 2010

FERREIRA GULLAR: ENFIM, UM INTELECTUAL SEM VISEIRAS IDEOLÓGICAS


O grande Ferreira Gullar - poeta, maranhense, ex-comunista - escreveu um texto que merece ser lido, refletido e recitado em cada lar e em cada escola por cada brasileiro - isso se os brasileiros, em geral os que vivem de Bolsa-Esmola e que irão votar na "muié de Lula", soubessem ler. Desencantado, desiludido, melancólico, lúcido. Simples nas verdades óbvias - e, por isso mesmo, esquecidas - que diz. Necessário. Confiram.
***
Vamos errar de novo?

Ferreira Gullar

Faz muitos anos já que não pertenço a nenhum partido político, muito embora me preocupe todo o tempo com os problemas do país e, na medida do possível, procure contribuir para o entendimento do que ocorre. Em função disso, formulo opiniões sobre os políticos e os partidos, buscando sempre examinar os fatos com objetividade.

Minha história com o PT é indicativa desse esforço por ver as coisas objetivamente. Na época em que se discutia o nascimento desse novo partido, alguns companheiros do Partido Comunista opunham-se drasticamente à sua criação, enquanto eu argumentava a favor, por considerar positivo um novo partido de trabalhadores. Alegava eu que, se nós, comunas, não havíamos conseguido ganhar a adesão da classe operária, devíamos apoiar o novo partido que pretendia fazê-lo e, quem sabe, o conseguiria.

Lembro-me do entusiasmo de Mário Pedrosa por Lula, em quem via o renascer da luta proletária, paixão de sua juventude. Durante a campanha pela Frente Ampla, numa reunião no Teatro Casa Grande, pela primeira vez pude ver e ouvir Lula discursar.

Não gostei muito do tom raivoso do seu discurso e, especialmente, por ter acusado “essa gente de Ipanema” de dar força à ditadura militar, quando os organizadores daquela manifestação ─ como grande parte da intelectualidade que lutava contra o regime militar ─ ou moravam em Ipanema ou frequentavam sua praia e seus bares. Pouco depois, o torneiro mecânico do ABC passou a namorar uma jovem senhora da alta burguesia carioca.

Não foi isso, porém, que me fez mudar de opinião sobre o PT, mas o que veio depois: negar-se a assinar a Constituição de 1988, opor-se ferozmente a todos os governos que se seguiram ao fim da ditadura ─ o de Sarney, o de Collor, o de Itamar, o de FHC. Os poucos petistas que votaram pela eleição de Tancredo foram punidos. Erundina, por ter aceito o convite de Itamar para integrar seu ministério, foi expulsa.

Durante o governo FHC, a coisa se tornou ainda pior: Lula denunciou o Plano Real como uma mera jogada eleitoreira e orientou seu partido para votar contra todas as propostas que introduziam importantes mudanças na vida do país. Os petistas votaram contra a Lei de Responsabilidade Fiscal e, ao perderem no Congresso, entraram com uma ação no Supremo a fim de anulá-la. As privatizações foram satanizadas, inclusive a da Telefônica, graças à qual hoje todo cidadão brasileiro possui telefone. E tudo isso em nome de um esquerdismo vazio e ultrapassado, já que programa de governo o PT nunca teve.

Ao chegar à presidência da República, Lula adotou os programas contra os quais batalhara anos a fio. Não obstante, para espanto meu e de muita gente, conquistou enorme popularidade e, agora, ameaça eleger para governar o país uma senhora, até bem pouco desconhecida de todos, que nada realizou ao longo de sua obscura carreira política.

No polo oposto da disputa está José Serra, homem público, de todos conhecido por seu desempenho ao longo das décadas e por capacidade realizadora comprovada. Enquanto ele apresenta ao eleitor uma ampla lista de realizações indiscutivelmente importantes, no plano da educação, da saúde, da ampliação dos direitos do trabalhador e da cidadania, Dilma nada tem a mostrar, uma vez que sua candidatura é tão simplesmente uma invenção do presidente Lula, que a tirou da cartola, como ilusionista de circo que sabe muito bem enganar a plateia.

A possibilidade da eleição dela é bastante preocupante, porque seria a vitória da demagogia e da farsa sobre a competência e a dedicação à coisa pública. Foi Serra quem introduziu no Brasil o medicamento genérico; tornou amplo e efetivo o tratamento das pessoas contaminadas pelo vírus da Aids, o que lhe valeu o reconhecimento internacional. Suas realizações, como prefeito e governador, são provas de indiscutível competência. E Dilma, o que a habilita a exercer a Presidência da República? Nada, a não ser a palavra de Lula, que, por razões óbvias, não merece crédito.

O povo nem sempre acerta. Por duas vezes, o Brasil elegeu presidentes surgidos do nada ─ Jânio e Collor. O resultado foi desastroso. Acha que vale a pena correr de novo esse risco?