quarta-feira, outubro 13, 2010

RESPOSTA A MILITANTES DE UMA CAUSA MUITO NOBRE E JUSTA

Meu texto "A Longa Marcha dos Maconheiros" (http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2010/08/longa-marcha-dos-maconheiros.html) parece ter tocado num nervo extremamente sensível de certas pessoas. Escreveu a respeito quem se assina como "Henrique S.":

Quanto asneira! Vou deixar para escrever uma resposta maior depois, mas eu te respeito por não fumar maconha, você tem esse direito, mas quem é você para dizer que a nossa causa é besteirol? Quem é que está se achando superior aos demais aqui? Nós lutamos pela nossa causa e nao queremos incomodar ninguem, enquanto você, ao contrário, atrapalha, banaliza e demoniza a nossa luta.

O bom de tudo é que caminhamos a passos largos pela legalização da maconha no mundo todo, então só me resta dizer que seu texto cheio de preconceitos e asneiras, não terá utilidade nenhuma, a nao ser deixar algumas pessoas, como eu , irritadas. E com razão.

OK, obrigado por respeitar meu direito de não fumar maconha (já estou vislumbrando no horizonte o dia em que dar um tapinha será obrigatório). Quem sou eu? Não sou ninguém, sou só um blogueiro que respeita a Lei e que acha que, numa sociedade democrática, ela deve ser respeitada por todos. Sou alguém que não coloca um capricho pessoal acima da Lei e do estado de direito democrático. Enfim, sou apenas alguém que não se acha superior aos demais mortais.

Eu atrapalho a "causa" maconhista? Ainda bem: é essa justamente minha intenção. Quero atrapalhar mesmo, mas não do jeito que o leitor acha: quero que os maconhistas tenham toda a liberdade para se expressarem e me convencerem dos benefícios da queima de neurônios para a humanidade. Até o momento, nenhum argumento me convenceu. Eu banalizo tão nobre luta? Talvez porque encher os pulmões de fumaça proibida deve ser, e pelo visto é, uma banalidade sem tamanho. Demonizo algo ou alguém? Acho que não, só exponho argumentos. E não vejo nenhum do outro lado.

Que bom, então "o mundo" está caminhando para a liberação da maconha em escala planetária. Será o fim da razão mais forte para proibir a erva do capeta, o narcotráfico. Só tem um probleminha: já combinaram com os países islâmicos? Tirando a Jamaica e a Holanda, quem mais está às vésperas de virar território livre para a galera que curte um baseado?

Enquanto isso não se resolve, fico aqui com meus textos cheios de asneiras e preconceituosos, sem utilidade alguma. Deixei um maconhista irritado? Aí está uma boa utilidade para o texto.

Outro leitor e militante da "causa" maconhista, o Silas, me escreveu as seguintes palavras carinhosas:

Esse blog se diz "do contra", mas só reproduz as asneiras que todos estão acostumados a ver.

Sério? Tem mais gente como eu repetindo a asneira de que a Lei, numa democracia, vale para todos e deve ser respeitada?

Você chama a nossa causa, e a esquerda em geral de "idiota, desocupado, de quem não tem mais o que fazer". Aliás, você, o rebelde sem causa, só fez isso no texto inteiro, xingamentos, acusações, demonização... Isso sim é idiotismo, é desocupação... Não é enxergar o mundo e sim ver somente o pouco que está ao seu redor.

OK, então me ajude a deixar de ser um idiota desocupado e por favor me explique a nobreza da sua "causa", a causa dos que acham o supra-sumo da liberdade zombar da Lei e ficar boladão de erva. Expanda meus horizontes e faça-me ver o mundo, por favor.

Tem muito falso maconheiro sim, mas o discurso de filho de elite entediado é o seu. 99% dos usuários, se pudessem plantariam o seu próprio pé, se não fosse legalizado. Mesmo proibido, quase metade faz isso. Justamente para não alimentar o narcotráfico (não entendi onde se encaixa o PT e o presidente da Bolívia nessa).

O que seria um "falso maconheiro"? Seria alguém que, como Bill Clinton, só fuma, não traga? Deixa pra lá... Vamos nos concentrar na questão: então bastaria cada usuário de maconha ter sua plantaçãozinha no quintal para não corroborar o narcotráfico e ficar com a consciência limpa, é isso? E como fica a Lei? Mas deixa isso pra lá também.

Vamos fazer um pequeno exercício: suponhamos que eu, assim como os 99% dos maconheiros que o caro leitor mencionou, resolvesse fazer uma horta no quintal de minha casa com mudas de cannabis. Minha idéia seria curtir uma lombra sem ter que subir o morro e comprar do traficante. Assim, numa boa, no maior clima "paz e amor". A primeira coisa que eu precisaria ter, além de espaço e adubo, seria uma muda da erva. Pois bem: não sendo mudas de cannabis algo assim facilmente encontrável no supermercado, eu teria que recorrer ao, digamos, mercado paralelo. Isso significa que eu teria, mesmo contra minha vontade, de adquiri-las de pessoas que comandam um negócio que não é bem do tipo que recolhe impostos. Estou me fazendo entender ou fui muito sutil?

Não entendeu onde se encaixa o PT e o cocaleiro Morales no narcotráfico? Ok, vou ser o mais didático possível: a maioria dos que apóiam o discurso do "legalize já" é de esquerda. O PT e Morales são de esquerda. A Bolívia é a maior exportadora de cocaína para o Brasil. O governo do PT finge que isso não existe. Fui claro ou preciso desenhar?

Mas pelas suas próprias palavras tu demonstra que é um miquinho amestrado do sistema atual. "Se, em vez de maconha, fosse proibido o consumo de, sei lá, fubá (...) continuaria a achar que a obediência à Lei é o melhor caminho. Não daria bola para os que dissessem que comer fubá não faz mal, ou é uma questão de liberdade individual.".

Como eu sou um miquinho amestrado do "sistema", faço questão de escrever o parágrafo inteiro, e não somente a parte mutilada que o leitor transcreveu: "Se, em vez de maconha, fosse proibido o consumo de, sei lá, fubá, que se tornaria um negócio ilegal bastante lucrativo, eu poderia até achar uma bobagem, mas continuaria a achar que a obediência à Lei é o melhor caminho. Não daria bola para os que dissessem que comer fubá não faz mal, ou é uma questão de liberdade individual. Preferiria prestar atenção às gangues de traficantes de fubá que explorassem o comércio ilegal de fubá nas favelas, num ciclo de violência, e torceria para que a polícia botasse esses malandros na cadeia. Até que me convencessem que consumir fubá não é compactuar com o crime, eu seguiria essa opção." Prestaram atenção nos trechos em negrito?

Vale lembrar que em tempos de ditadura no Brasil (que por sinal não me surpreenderia se você fosse a favor), era proibido qualquer manifestação de oposição ao cruel regime. Se tivesse vivido aquele tempo, acharia um absurdo, ou 'não daria bola' para aqueles que batalharam para hoje, tu ter a liberdade de expressar sua opinião?

E vale lembrar que respeito à Lei não tem nada a ver com ditadura (aliás, muito pelo contrário). Vale lembrar que sou contra qualquer ditadura, de direita ou de esquerda. Será que os militantes maconhistas que não vêem nenhuma relação entre o consumo e o tráfico de drogas, ou entre o PT e as FARC, podem dizer o mesmo? Pelo visto não, mas eles não dão bola para isso.

E só para terminar: se o distinto leitor, ao se referir àqueles que "batalharam para hoje, tu ter (sic) a liberdade de expressar sua (sic) opinião", estava pensando em alguém da quadrilha lulo-petista hoje incrustada no poder, o caso é realmente sério: é mais uma prova dos males que a maconha faz ao cérebro. Nesse caso, recomendo fortemente que, da próxima vez, pense mais na hora de escrever. De preferência, sóbrio.

terça-feira, outubro 12, 2010

DILMA ROUSSEFF, OU: A ARTE DA MENTIRA


É uma pena que José Serra não vá privatizar as estatais, como diz Dilma Rousseff. É lastimável que o governo FHC tenha passado longe de ter sido liberal (ou "neoliberal", como gostam de dizer os petistas), e que os tucanos, como esquerdistas envergonhados, se recusem a defender com mais empenho as reformas necessárias (e insuficientes) que fizeram. De minha parte, considero que o Estado - seu tamanho e intervenção na economia, principalmente - está na raiz dos problemas do Brasil. Se Estado grande e intervencionista fosse sinônimo de Estado forte e de desenvolvimento, o Brasil já seria uma superpotência econômica e social há muito tempo.

É triste que a estatolatria seja uma característica até mesmo cultural do Brasil, e que a maioria dos brasileiros veja no governo o pai ou a mãe dos desvalidos, a ponto de nenhum partido ou político ter a coragem de defender abertamente e sem rodeios as idéias liberais. Mas o que acho sobre esse culto fetichista do Leviatã estatal, assim como sobre Serra e as privatizações, não é importante. O que importa, vale ressaltar, é que a propaganda do PT está sendo, mais uma vez, mentirosa. Criminosamente mentirosa.
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É mentira que Serra, se eleito, irá privatizar a Petrobrás. Isso não passa de cascata, de boato igual ao que detonou a candidatura de Geraldo Alckmin em 2006. Não é preciso ser a favor do PSDB ou ser eleitor de Serra para perceber que esse tipo de coisa é calúnia, é a mais grossa canalhice. Coisa de vigaristas, de delinquentes políticos. Uma verdadeira baixaria..

Também não é preciso ser eleitor de Serra para ver que aquilo que a campanha da criatura de Lula - com a ajuda de certa imprensa nenhumladista - chama de "boato" e "tática do medo" é a mais pura verdade. Se não, me convençam que a opinião de Dilma sobre o aborto não é aquela que está no vídeo, que quero crer que todos assistiram. Convençam-me que o vídeo é falso, e que ela não disse o que disse, nada disso, muito pelo contrário. Mostrem-me, por sua vez, um video em que José Serra aparece defendendo a privatização da Petrobrás ou do Banco do Brasil e eu direi que isso é um fato, não um boato feito para semear o medo e ganhar a eleição.

Em outras palavras, estamos na seguinte situação: VERDADE É AQUILO QUE OS LULO-PETISTAS DIZEM QUE É VERDADE. MENTIRA É O QUE ELES DIZEM QUE É MENTIRA. E ponto final.
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Quando um boato feito para difamar um oponente toma foros de verdade, e lembrar um fato irrefutável passa a ser descartado como boato ou como mera tática eleitoral, é porque a lavagem cerebral e a inversão psicótica da realidade atingiram o estado da arte. Por enquanto, os únicos fatos concretos dessa eleição são as palavras de Dilma na sabatina da Folha de S. Paulo em 2007, em que ela deixa clara sua opinião sobre a legalização do aborto, e a tentativa desesperada dos lulo-petistas de apagar suas palavras. O resto é o que os lulo-petistas sabem fazer de melhor: mentir, mentir, mentir. Até que a fronteira entre verdade e ficção se apague de vez e a mentira, repetida mil vezes, engula e substitua a verdade. Já deu certo duas vezes; pode dar certo novamente.

quinta-feira, outubro 07, 2010

DILMA, O ABORTO DE UMA CANDIDATURA


"- A senhora é socialista?

- Eu sou.

(...)

- Sobre o aborto, qual a posição da senhora? (...)

- Olha, eu acho que deve haver a descriminalização do aborto. Hoje, no Brasil, isso é um absurdo que não haja a descriminalização".
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As respostas acima - ditas num tom ríspido e seco, senhorial, por quem ainda fazia pose de gerentona e não tomara o banho de botox que a deixou com a cara do Kim Jong-Il - foram dadas pela então ministra da Casa Civil Dilma Rousseff a um jornalista, em sabatina na Folha de S. Paulo. Foi no dia 4 de outubro de 2007. Estão documentadas para a posteridade, em um vídeo facilmente encontrado no Youtube. Mesma declaração, com quase as mesmas palavras sobre o aborto, foi feita por ela à revista Marie Clarie em 2009.

Hoje, a candidata Dilma Rousseff se apresenta com outra persona. Não mais como a chefona durona, mas como "mãe" e "pró-vida". Diante da gritante contradição com o que dizia a Dilma pré-eleições, seus apoiadores no governo e na imprensa foram rápidos. "Baixaria", gritaram em uníssono, tentando fazer todos esquecerem as próprias palavras da criatura do chefe. Estas teriam saído não de sua boca, mas, só faltaram dizer, teriam sido lá plantadas por uma cabala, por uma sórdida campanha urdida por seus adversários. "Acabei de ter um neto, como posso ser a favor do aborto?", foi a pergunta cândida de vovó Dilma na televisão, aparentemente sem se dar conta da baixaria que é envolver um bebê recém-nascido numa disputa eleitoral. A ministra socialista e abortista de 2007 deu lugar a outra Dilma, pró-mercado e mãe-avó devotada. E quem não acreditar nessa conversão é um canalha da pior espécie, sentenciou.

Se Dilma é socialista ou não - e "socialista", cá entre nós, é uma palavra que perdeu completamente o sentido, embora revele o viés dirigista e autoritário de quem a utiliza -, ou se é ou não favorável à descriminalizaçâo do aborto, é algo, para os fins deste texto, de somenos importância. A questão não é se o aborto é ou não uma questão moral ou, como preferem os defensores da descriminalização, de saúde pública ou de liberdade individual, como se se tratasse de extrair um siso ou de arrancar um calo do dedão do pé. Nesse ponto, cada um, goste-se ou não, tem suas próprias idéias e opiniões. A questão de fundo é que uma candidata ao cargo máximo do país, que hoje, na reta final da campanha presidencial, apresenta-se como "pró-vida", nega o que disse sobre o assunto há apenas três anos. É se ela só se tornou pró-vida este ano. É, enfim, sobre sua honestidade.

Das duas uma, para ficar mais claro: se Dilma está falando a verdade agora sobre o aborto, então não estava sendo sincera naquela sabatina na Folha. Se, por sua vez, estava falando o que realmente pensa três anos atrás, então está escondendo sua verdadeira opinião sobre o tema em 2010, tendo mudado o discurso por uma conveniência eleitoral. Em qualquer caso, ela está mentindo.

A hegemonia lulo-petista no Brasil é tão avassaladora que lembrar o que Dilma dizia até há pouco tempo sobre o aborto - ou o que Lula dizia, antes de chegar ao poder, sobre o assistencialismo e seus aliados de hoje, sem falar nas inegáveis relações do PT com as FARC - é imediatamente descartado como "baixaria" ou como "tática do medo", enquanto que mentir sobre si mesmo e sobre seus adversários é visto como a suprema manifestação da verdade. A questão importante é se fatos sobre uma candidata ao cargo máximo do país devem ser mencionados ou não. É se mentiras deslavadas lançadas sobre seus adversários devem ou não ser desmascaradas. Em 2006, a candidatura de Lula espalhou o boato de que o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, iria privatizar a Petrobras e o Banco do Brasil. Era mentira. Ninguém na imprensa chamou isso de baixaria ou de tática do medo. Alckmin perdeu a eleição. Lula ganhou.

Hoje, a mesma imprensa "neutra" e "imparcial" que tratou um boato contra o tucano Alckmin como se fosse fato trata um fato sobre Dilma como se fosse um boato. Com isso, presta um desserviço à verdade, e ajuda a consolidar uma mentira. Para não passar por conservadora ou "de direita", dá sua chancela moral a uma tentativa de manipulação. Mais que isso: desvia o rumo do debate, transformando-o num plebiscito sobre o aborto em si. A questão não é sobre a moralidade ou não do aborto. É sobre a moralidade ou não de mentir para ganhar uma eleição.

Se Dilma Rousseff se declarasse claramente a favor da estatização de todas as propriedades do país e da legalização do aborto, ela poderia até perder votos, mas sairia dignificada, a meu ver, como uma pessoa honesta, que não foge de uma questão polêmica para agradar a platéia e vencer uma eleição. Seria, enfim, uma política com alma, e não - o que é confirmado a cada dia - uma criação artificial e uma escrava do marketing. Como ela não faz isso, só posso concluir pela segunda alternativa.

A candidata que chama de factóide a violação de sigilos bancários de filhas de adversários políticos acha que é baixaria lembrar o que dizia sobre um assunto há menos de tres anos. Considera de extremo mau gosto recordar o que ela mesma disse, com todas as letras, mas não vê nenhuma baixaria em preparar dossiês e invadir sigilos alheios - sem falar em programas de governo fajutos, entregues às pressas ao TSE para substituir outro texto, mais radical (e, pelo visto, mais sincero). Vai ver que de bom gosto é esconder essas coisas, e apelar para a falsidade pura e simples.

Estamos assistindo a um processo de destruição e substituição da memória coletiva, no estilo orwelliano. Como escreveu o colunista da VEJA, Reinaldo Azevedo, temos, nesse caso, uma clara dicotomia: de um lado, a verdade reacionária; de outro, a mentira progressista. Entre uma e outra, parte da imprensa ficou com a mentira progressista. Reacionária ou não, eu fico com a verdade.

quarta-feira, outubro 06, 2010

UMA BOA NOTÍCIA


Nem tudo nas eleições brasileiras são dilmas e tiriricas. Felizmente, há espaço também para boas notícias. Refiro-me não somente ao fato de que teremos segundo turno no pleito presidencial - o que significa, enfim, que haverá uma disputa política, o que já é uma derrota para a candidata oficialista e para os institutos de pesquisa com ela mancomunados -, mas a algo de que quase ninguém falou na imprensa nesses dias. Em meio a um oceano de mediocridade e abjeção, eis que surge alguém que, remando contra a maré, apresentou-se como o único candidato declaradamente de direita do Brasil.

O candidato em questão é o jovem Ricardo Salles, de São Paulo. Em anúncios em revistas e num site de um movimento que ajudou a criar, o Movimento Endireita Brasil - MEB (atenção: não confundir com o MEP de meninos conhecidos de certos presidentes...), Salles, candidato a deputado estadual, fez uma campanha baseada na defesa dos princípios elementares do liberalismo, como menos impostos e liberdade de imprensa - essas coisas terríveis, que só podem causar horror em qualquer pessoa de bem -, tendo conseguido uma expressiva votação, cerca de 22.300 votos (não sei se foi eleito). Trata-se, até onde eu sei, de algo inédito na política brasileira, dominada sabe-se-lá-desde-quando pelo unanimismo de esquerda, que transformou os próprios termos "direita" e "conservador" - categorias políticas muito mais sólidas e significativas do que "petista", por exemplo - em verdadeiros palavrões, em xingamentos indignos de serem proferidos em casas de família. Nem dei bola para o fato de ele ter-se lançado candidato por uma coligação que incluiu o PSDB e o DEM, dois partidos que de oposição e de direita nem o nome têm.

Já escrevi aqui que faz tempo não pertenço a nenhum movimento, e que considero a militância - qualquer militância - uma chatice. Por isso desconfio sempre de partidos políticos e de manifestos. Acredito que militar em algum partido ou movimento é algo que mata a liberdade individual, a saudável alienacão que permite ao indivíduo exercer plenamente sua personalidade, sem dar a mínima para rótulos e ideologias. O ser humano nasceu para ser livre, não para carregar bandeiras em comícios ou para desfilar, como dizia Nelson Rodrigues, como um dragão de penacho na parada de 7 de setembro. Mas não posso deixar de registrar com alegria esse fato, tão pouco usual no Brasil da palhaçada. Como o leitor poderá constatar em outros posts meus, a existência de candidatos de direita não é apenas um sopro de inteligência: é uma pré-condicão para qualquer democracia que se preze. Quem quer unanimidade que vá a Cuba ou à Coréia do Norte.

Bem-vindo, Ricardo Salles. Que seu exemplo frutifique, e que outros como você apareçam para arejar o ambiente e varrer de vez o mofo da vulgata marxistóide e politicamente correta que se apossou, há décadas, da vida politica e cultural brasileira. Já era hora de aparecer alguém com coragem de ter um discurso que destoa do da manada. Pode ser que não dê em nada. Pode ser que seja só um balão de ensaio. Só o tempo dirá. Mas já é um comeco.
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Link para o site do Movimento Endireita Brasil: http://www.endireitabrasil.com.br/

terça-feira, setembro 28, 2010

DE DILMAS E TIRIRICAS


O maior fenômeno das eleições brasileiras de 2010 é o palhaço Tiririca. Em uma propaganda que já se tornou um hit na internet, Tiririca - aliás, o cearense Francisco Everardo Oliveira Silva - aparece vestido como seu personagem, de peruca e dancinha, pedindo votos no horário eleitoral. Ele é candidato a deputado federal. Tiririca é incapaz de formular qualquer proposta, e confessa não saber o que faz um deputado federal. Não importa. "Pior do que tá não fica", é seu bordão. Segundo todas as pesquisas, Tiririca será eleito. A previsão é que cerca de 1 milhão de eleitores votarão no "abestado".

Muita gente dará o voto a Tiririca, ou sente alguma simpatia por sua candidatura, por seu caráter desbragadamente farsesco e escrachado, típico de circos do interior do Nordeste. Ainda mais numa campanha irritantemente sem graça, em que os debates entre os principais candidatos à Presidência causaram sono e em que se tentou até - cúmulo da palhaçada - proibir o humor, a presença de Tiririca é a garantia de algumas gargalhadas. O voto em Tiririca, assim como a eleição do rinoceronte Cacareco ou do Macaco Tião em eleições passadas, simbolizaria assim um "voto de protesto".


Aí é que está. Se você pretende desperdiçar seu voto dando-o ao candidato mais tosco e bizarro que houver na praça, o qual representaria o protesto contra "isso que está aí", é melhor escolher outro candidato. Não Tiririca.

Tiririca é o que os marqueteiros que criaram sua candidatura chamam, no jargão eleitoral, de puxador de votos - alguém famoso, geralmente vindo do mundo da televisão, que pela fama consegue arrecadar votos suficientes para eleger outros candidatos de sua legenda, que de outra forma dificilmente conseguiriam se eleger, geralmente por partidos pequenos e sem maior expressão. O partido, no caso de Tiririca, é o PR, Partido da República. O PR é um dos partidos que compõem a base alugada (perdão: aliada) do governo Lula. Em São Paulo, estado pelo qual Tiririca se lançou candidato a deputado federal, o PR integra a frente partidária encabeçada pelo PT do candidato a governador Aloízio Mercadante. Fazem parte da mesma frente também a ex-ministra Marta Suplicy e o pagodeiro Netinho de Paula, este último pelo PCdoB, Partido Comunista do Brasil, como candidatos ao Senado. Um dos lemas da campanha de Tiririca é "Cansado de quem trambica? Vote no Tiririca". Pois bem. Um dos que poderão ser eleitos com os votos de Tiririca é o ex-deputado federal e ex-presidente nacional do PR, Valdemar Costa Neto. Para quem não lembra, Costa Neto é um dos parlamentares envolvidos no escândalo do mensalão em 2005, quando teve de renunciar ao mandato para fugir à cassação. Outros que esperam beneficiar-se do voto no palhaço são os também mensaleiros José Genoíno (o dos dólares na cueca) e João Paulo Cunha. Agora, graças às piadas de Tiririca, essa turma da pesada poderá voltar ao Congresso Nacional. Não parece muito engraçado, não é? "Pior do que tá não fica". Ah fica, sim...


Dilma Rousseff é a candidata de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República. Até dois anos atrás, quase ninguém sabia quem era Dilma Rousseff. O principal trunfo de Dilma Rousseff para postular a cadeira presidencial - na verdade, o único - é ser amiga de Lula. Nos grotões do interior, ela é mais do que isso: é a "mulher de Lula", embora esse posto pertença, oficialmente, a Marisa Letícia. Em sua campanha, Dilma cola sua imagem a de Lula, e promete que, se eleita, irá governar conforme manda o mestre. Segundo as pesquisas, Dilma é a candidata com maiores chances de ser eleita presidente - ou "presidenta", em dilmês - nesse pleito.

Weslian Roriz é a candidata de seu marido, Joaquim Roriz, ao governo do Distrito Federal. Até alguns dias atrás, ninguém sabia quem era ela. Weslian lançou-se na campanha depois que seu esposo, com a candidatura impugnada pela Justiça Eleitoral - ele renunciou ao mandato de senador em 2007 para não ser cassado por corrupção -, resolveu deixar a disputa. Assim como Dilma, ela já deu mostras de incapacidade de raciocínio lógico, ou mesmo de construir uma frase com idéias minimamente coerentes. O principal trunfo eleitoral de Weslian Roriz é ser esposa de Joaquim Roriz. Em sua campanha, ela cola sua imagem a de Roriz, e promete que, se eleita, irá governar conforme manda o maridão. Segundo as pesquisas, Weslian tem grandes chances de ser eleita governadora do DF.


Comecei este texto falando de Tiririca. Por que, então, desandei a falar de Dilma Rousseff e de Weslian Roriz? Pelo seguinte: nesta eleição, o eleitor votará em Tiririca e irá eleger Valdemar Costa Neto. Por sua vez, os que votarem em Weslian Roriz irão eleger seu marido, Joaquim Roriz. Do mesmo modo, quem votar em Dilma Rousseff irá votar em Ze Dirceu e no PT. E em Lula.

Em outras palavras: Tiririca é a Dilma ou a Weslian de Valdemar Costa Neto. Ou ainda: Weslian Roriz é o Tiririca de Joaquim Roriz. E Dilma Rousseff é o Tiririca de Zé Dirceu.


Essa é mais uma herança da era Lula. O voto "by proxy". O voto-laranja.

Tiririca é um palhaço, e sabe que o é. Na falta de qualquer outra qualidade - inclusive, ao que tudo indica, as mais básicas, como saber ler e escrever - ele aposta no ridículo e no deboche para chegar à Câmara dos Deputados, onde já disse que, além de ajudar a propria família, não tem a menor idéia do que vai fazer. Já Dilma Rousseff se leva a sério, achando-se preparada para governar o Brasil. A diferença entre os dois é que Tiririca, pelo menos, é sincero.

Numa época de farsa institucionalizada, de deboche da democracia e de celebração oficial da ignorância, nada mais lógico do que Tiririca ser eleito deputado federal. Na era da mediocridade - ou seja, na era de Lula, Dilma e Weslian -, convenhamos, nada mais apropriado. Tiririca já pode pensar em vôos mais altos. Por que não a Presidência da República?

sábado, setembro 18, 2010

O BRASIL QUE PRESTA E O BRASIL QUE NÃO PRESTA


Existe o Brasil que presta. E existe o Brasil que não presta.

O Brasil que presta trabalha e produz, com o próprio esforço e pagando impostos. O Brasil que não presta quer apenas locupletar-se na máquina estatal.

O Brasil que presta respeita e defende a democracia, como um fim em si mesmo. O Brasil que não presta acha que ela só existe para beneficiar a própria grei, e usa os meios da democracia para destruí-la.

O Brasil que presta considera essencial a tolerância e a alternância democrática de poder. O Brasil que não presta não convive bem com a crítica, e apregoa a extirpação do adversário político.

O Brasil que presta defende a lei, o estado de direito e a meritocracia. O Brasil que não presta debocha da lei e promove o aparelhamento do Estado por uma multidão de apaniguados.

O Brasil que presta valoriza a liberdade de expressão e acredita que sem ela não há democracia. O Brasil que não presta usa a liberdade de imprensa quando na oposição, para, quando no governo, tentar impor a censura e o controle dos meios de comunicação.

O Brasil que presta acredita que o papel da imprensa é noticiar e fiscalizar. O Brasil que não presta acha que o papel da imprensa é tecer loas e bater palmas para o governo.
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O Brasil que presta acha intoleráveis mensalões, dossiês, aloprados e violações de sigilos fiscais. O Brasil que não presta transforma crime em "factóide" e procura desqualificar denúncias fundamentadas como "golpismo" e "pregação moralista".

O Brasil que presta considera a democracia e os direitos humanos valores universais. O Brasil que não presta se alia a tiranos e assassinos, criminalizando a dissidência.
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O Brasil que presta defende a não-intervenção como um princípio das relações internacionais. O Brasil que não presta intervém nos assuntos internos de outro país para tentar impor um golpista, apresentando-o como um democrata, e democratas como golpistas.
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O Brasil que presta considera o realismo essencial para a política externa. O Brasil que não presta quer fazer política de grande potência sem o ser, confundindo realismo com megalomania.

O Brasil que presta procura manter um mínimo de coerência. O Brasil que não presta se apropria das conquistas dos outros, que antes condenava, sem qualquer confissão ou arrependimento. E se alia a quem antes repudiava como o que há de pior na política, sem qualquer vergonha ou constrangimento.

O Brasil que presta repudia o coronelismo e o clientelismo. O Brasil que não presta vê como normal a compra de consciências por um prato de lentilhas.

O Brasil que presta considera o preparo e a capacidade intelectual fundamentais para um governante. O Brasil que não presta acha que o marketing compensa qualquer deficiência, usando e abusando da propaganda ufanista para tentar vender uma nulidade como uma estadista.

O Brasil que presta acha que o papel do presidente da República é governar. O Brasil que não presta acha que a função principal deste é fazer campanha para sua candidata, durante e após o expediente.

O Brasil que presta busca colocar-se acima das questões partidárias, separando-as dos assuntos de governo. O Brasil que não presta confunde propositalmente Estado e partido, transformando o primeiro num puxadinho do último.

O Brasil que presta acredita que todos são iguais perante a lei. O Brasil que não presta acha que alguns são mais iguais do que outros, dividindo a sociedade em raças e grupos distintos, estabelecendo o racismo por meios oficiais.

O Brasil que presta acredita que invadir e depredar propriedades é crime. O Brasil que não presta acha que impedir a invasão e depredação é "criminalizar movimentos sociais".

O Brasil que presta aprende com os erros do passado. O Brasil que não presta se recusa a admitir que um dia errou e tenta reescrever a História - e ainda lucrar financeiramente com isso, numa orgia de indenizações milionárias por escolhas políticas do passado.

O Brasil que presta tem programa de governo e um projeto de nação. O Brasil que não presta tem apenas um projeto de poder, visando eternizar-se nele.

O Brasil que presta defende mão firme contra o crime. O Brasil que não presta mantém relações com terroristas e narcotraficantes (e berra quando isso é mencionado).

O Brasil que presta acha que ninguém está acima da lei. O Brasil que não presta posa de messias e divide a sociedade em pessoas comuns e aliados políticos, para os quais tudo é permitido.

O Brasil que presta exige punição para corruptos e ladrões do dinheiro público. O Brasil que não presta diz ''não sei nada, não vi nada'' e ''fui traido'' - e bota a culpa na imprensa.

O Brasil que presta segue regras. O Brasil que não presta acha que tudo é válido, e que a única coisa proibida é perder as eleições e o poder.

O Brasil que presta quer apenas que o Estado não atrapalhe e o deixe em paz. O Brasil que não presta acha que o Estado deve controlar a vida do cidadão, e depende da máquina governamental para fazer bons negócios.

O Brasil que presta considera a honestidade um valor em si. O Brasil que não presta cultiva a ambigüidade moral e o relativismo para os seus.

O Brasil que presta desconfia das ideologias. O Brasil que não presta usa a ideologia sempre que lhe é conveniente, como uma forma de colocar os ricos contra os pobres (por exemplo, chamando denúncias de corrupção de "conspiração das elites").

O Brasil que presta tem vergonha até de fazer oposição ao governo (não deveria ter). O Brasil que não presta não tem limites, nem tem vergonha de nada. Só de perder o poder.

O Brasil que não presta usa a própria origem social como álibi para cometer falcatruas e para fugir da responsabilidade. O Brasil que presta acha que mais importante do que a origem pobre é ter vergonha na cara.

O Brasil que não presta se orgulha de não ter estudado quando pôde, e faz o culto da ignorância. O Brasil que presta acha que isso é um insulto aos pobres que estudam.

O Brasil que não presta acha pragmatismo e sabedoria querer que todos esqueçam o que disseram e fizeram no passado. O Brasil que presta acha que isso é oportunismo e sem-vergonhice.

O Brasil que não presta confunde bom governo com popularidade, e urna com tribunal. O Brasil que presta acredita que uma coisa não tem nada a ver com a outra.

O Brasil que não presta acha que o problema do Brasil é o ''excesso de liberdade'' da imprensa. O Brasil que presta acha que o problema do Pais é o excesso de liberdade do Brasil que não presta.

O Brasil que presta acha que democracia pressupõe a pluralidade e o contraditório. O Brasil que não presta acha que democracia deve ser uma competição entre semelhantes.

O Brasil que presta tem princípios. O Brasil que não presta só tem conveniências.

Se o Brasil fosse um país sério, e não uma terra de abestados e tiriricas, a parte que presta estaria no poder. E a que não presta estaria fora da política. Ou na cadeia.

Em alguns dias, os dois Brasis irão se enfrentar nas urnas. A julgar pelo que dizem as pesquisas, sairá vencedor o Brasil que não presta, o Brasil da mentira, do crime e da corrupção. É que este tem militantes. O outro Brasil, o Brasil que presta, tem, se tanto, eleitores.

quinta-feira, setembro 09, 2010

FERREIRA GULLAR: ENFIM, UM INTELECTUAL SEM VISEIRAS IDEOLÓGICAS


O grande Ferreira Gullar - poeta, maranhense, ex-comunista - escreveu um texto que merece ser lido, refletido e recitado em cada lar e em cada escola por cada brasileiro - isso se os brasileiros, em geral os que vivem de Bolsa-Esmola e que irão votar na "muié de Lula", soubessem ler. Desencantado, desiludido, melancólico, lúcido. Simples nas verdades óbvias - e, por isso mesmo, esquecidas - que diz. Necessário. Confiram.
***
Vamos errar de novo?

Ferreira Gullar

Faz muitos anos já que não pertenço a nenhum partido político, muito embora me preocupe todo o tempo com os problemas do país e, na medida do possível, procure contribuir para o entendimento do que ocorre. Em função disso, formulo opiniões sobre os políticos e os partidos, buscando sempre examinar os fatos com objetividade.

Minha história com o PT é indicativa desse esforço por ver as coisas objetivamente. Na época em que se discutia o nascimento desse novo partido, alguns companheiros do Partido Comunista opunham-se drasticamente à sua criação, enquanto eu argumentava a favor, por considerar positivo um novo partido de trabalhadores. Alegava eu que, se nós, comunas, não havíamos conseguido ganhar a adesão da classe operária, devíamos apoiar o novo partido que pretendia fazê-lo e, quem sabe, o conseguiria.

Lembro-me do entusiasmo de Mário Pedrosa por Lula, em quem via o renascer da luta proletária, paixão de sua juventude. Durante a campanha pela Frente Ampla, numa reunião no Teatro Casa Grande, pela primeira vez pude ver e ouvir Lula discursar.

Não gostei muito do tom raivoso do seu discurso e, especialmente, por ter acusado “essa gente de Ipanema” de dar força à ditadura militar, quando os organizadores daquela manifestação ─ como grande parte da intelectualidade que lutava contra o regime militar ─ ou moravam em Ipanema ou frequentavam sua praia e seus bares. Pouco depois, o torneiro mecânico do ABC passou a namorar uma jovem senhora da alta burguesia carioca.

Não foi isso, porém, que me fez mudar de opinião sobre o PT, mas o que veio depois: negar-se a assinar a Constituição de 1988, opor-se ferozmente a todos os governos que se seguiram ao fim da ditadura ─ o de Sarney, o de Collor, o de Itamar, o de FHC. Os poucos petistas que votaram pela eleição de Tancredo foram punidos. Erundina, por ter aceito o convite de Itamar para integrar seu ministério, foi expulsa.

Durante o governo FHC, a coisa se tornou ainda pior: Lula denunciou o Plano Real como uma mera jogada eleitoreira e orientou seu partido para votar contra todas as propostas que introduziam importantes mudanças na vida do país. Os petistas votaram contra a Lei de Responsabilidade Fiscal e, ao perderem no Congresso, entraram com uma ação no Supremo a fim de anulá-la. As privatizações foram satanizadas, inclusive a da Telefônica, graças à qual hoje todo cidadão brasileiro possui telefone. E tudo isso em nome de um esquerdismo vazio e ultrapassado, já que programa de governo o PT nunca teve.

Ao chegar à presidência da República, Lula adotou os programas contra os quais batalhara anos a fio. Não obstante, para espanto meu e de muita gente, conquistou enorme popularidade e, agora, ameaça eleger para governar o país uma senhora, até bem pouco desconhecida de todos, que nada realizou ao longo de sua obscura carreira política.

No polo oposto da disputa está José Serra, homem público, de todos conhecido por seu desempenho ao longo das décadas e por capacidade realizadora comprovada. Enquanto ele apresenta ao eleitor uma ampla lista de realizações indiscutivelmente importantes, no plano da educação, da saúde, da ampliação dos direitos do trabalhador e da cidadania, Dilma nada tem a mostrar, uma vez que sua candidatura é tão simplesmente uma invenção do presidente Lula, que a tirou da cartola, como ilusionista de circo que sabe muito bem enganar a plateia.

A possibilidade da eleição dela é bastante preocupante, porque seria a vitória da demagogia e da farsa sobre a competência e a dedicação à coisa pública. Foi Serra quem introduziu no Brasil o medicamento genérico; tornou amplo e efetivo o tratamento das pessoas contaminadas pelo vírus da Aids, o que lhe valeu o reconhecimento internacional. Suas realizações, como prefeito e governador, são provas de indiscutível competência. E Dilma, o que a habilita a exercer a Presidência da República? Nada, a não ser a palavra de Lula, que, por razões óbvias, não merece crédito.

O povo nem sempre acerta. Por duas vezes, o Brasil elegeu presidentes surgidos do nada ─ Jânio e Collor. O resultado foi desastroso. Acha que vale a pena correr de novo esse risco?

terça-feira, setembro 07, 2010

O REI DO DEBOCHE


Estou longe do Brasil, o que não me impede, graças à internet, de acompanhar o circo político nacional. A última, como todos sabem, foi a violação do sigilo bancário de pessoas da oposição, entre eles a filha de José Serra, pela quadrilha petista que se encastelou no poder e tratou de transformar o Estado brasileiro num comitê do partido ou num sindicato. Lula parece ter aprendido com seu ex-agressor e novo amigo de infância, Fernando Collor (ou terá sido este o aluno?), como transformar a ofensa familiar, o mais baixo dos golpes, em arma eleitoral.

É mais um dos 3.696 escândalos da Era Lula, esse período que será lembrado pelas gerações futuras como o ponto mais baixo a que já chegou a moral e a vergonha na cara na História do Brasil. E em que nunca tantos se acorvadaram tanto, em troca de tão pouco.

Segue o excelente editorial do Estado de S. Paulo, de hoje, 7/09. É minha maneira de não deixar o tema passar em branco e, de quebra, homenagear o Dia da Independência, antes que Lula e sua corja o substituam pela data de nascimento do messias de Caetés.

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A POLÍTICA DO DEBOCHE

Quanto mais se acumulam as evidências de que o PT é o mentor do crime continuado da devassa na Receita Federal, de dados sigilosos de aliados e familiares do candidato presidencial do PSDB, José Serra, tanto mais o presidente Lula apela para o escárnio. É assim, desenvolto diante da exposição das novas baixezas de sua gente, que ele procura desqualificar as denúncias de que as violações tinham a única serventia de reunir material que pudesse ser utilizado contra os adversários da candidata governista, Dilma Rousseff.

Do mensalão para cá, essa atitude só se acentuou. No escândalo da compra de votos no Congresso Nacional, em 2005, ele ficou batendo na tecla de que não sabia de nada e que, de mais a mais, o que a companheirada tinha aprontado - diluído na versão de que tudo se resumia a um caso de montagem de caixa 2 - era o que se fazia comumente na política brasileira. Depois, propagou e mandou propagar a confortável teoria de que as acusações eram parte de uma "conspiração das elites" para apeá-lo do poder. Mas não chegou a zombar acintosamente das revelações que iriam ficar gravadas na história de seu partido.

Já no ano seguinte, quando a polícia detonou a tentativa de um grupo de petistas, entre eles o churrasqueiro preferido de Lula, de comprar um falso dossiê contra o mesmo José Serra, então candidato a governador de São Paulo, o presidente incorporou ao léxico político nacional o termo "aloprados" com que, para mascarar a gravidade do episódio, se referiu aos participantes da torpeza. Agora, enquanto escondia a sua escolhida - acusada pelo tucano como responsável, em última instância, pela fabricação de novo dossiê com os documentos subtraídos do Fisco -, o presidente se abandonou ao cinismo.

No fim da semana, em um comício em Guarulhos, na Grande São Paulo, a que Dilma não compareceu, ele acusou Serra de transformar a família em vítima. Ou seja, o que vitimou a filha do candidato não foi a comprovada captura de suas declarações de renda por um personagem do submundo - cuja filiação ao PT só não se consumou por um erro de grafia de seu nome -, mas o "baixo nível" da campanha do pai, que tratou do escândalo no horário de propaganda eleitoral. E ele o teria feito porque "o bicho está em uma raiva só" diante dos resultados desfavoráveis das pesquisas eleitorais. "É próprio de quem não sabe nadar e se debate até morrer afogado", desdenhou.

O auge da avacalhação - para usar uma palavra decerto ao gosto do palanqueiro Lula - foi ele perguntar retoricamente: "Cadê esse tal de sigilo que não apareceu até agora? Cadê os vazamentos?" Se é da filha de Serra que ele falava, o sigilo vazou para os diversos blogs lulistas que publicaram informações a seu respeito que só poderiam ter sido obtidas a partir do acesso ilícito aos seus dados fiscais. E o presidente sabe disso desde janeiro, quando o ainda governador Serra o alertou para a "armação" contra seus familiares na internet. Confrontado com o fato, Lula disse, sem ruborizar-se, ter coisas mais sérias para cuidar do que das "dores de cotovelo do Serra".

Se, no comício, a sua pergunta farsesca tratava das outras pessoas ligadas ao candidato, como, em especial, o vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira, o sigilo vazou para membros do chamado "grupo de inteligência" da candidatura Dilma. No caso de Eduardo Jorge, aliás, a invasão não se limitou à delegacia da Receita em Mauá, no ABC paulista, a primeira cena identificada do crime. Na última quinta-feira, o Estado revelou que um analista tributário lotado na cidade mineira de Formiga, Gilberto Souza Amarante, acessou dez vezes em um mesmo dia os dados cadastrais do tucano. O funcionário é petista de carteirinha desde 2001.

Ninguém mais do que Lula, com o seu imitigado deboche, há de ter contribuído tanto para a "maria-mole moral" em que o País atolou, na apropriada expressão do jurista Carlos Ari Sundfeld, em entrevista no Estado de domingo. Nem a bonança econômica nem os avanços sociais podem obscurecer o perverso legado do lulismo. Por minar os fundamentos das instituições democráticas, essa é hoje a mais desafiadora questão política nacional.

quarta-feira, setembro 01, 2010

DIÁLOGO SOBRE O ABSURDO


Um marciano desembarca no Planeta Terra e cai direto no Brasil. Por interesse antropológico, ele resolve se inteirar da vida política local. Ele descobre que existe uma coisa chamada eleições. Pergunta, então, a um gentil terráqueo sobre os candidatos. Segue o diálogo:

- Percebi que a candidatura governista bebe no sucesso econômico do atual governo. Nesse sentido, acusa o principal oponente de, se eleito, colocar em risco as conquistas dos últimos anos. Pelo visto a estabilidade da economia sempre foi defendida pelos que hoje estão no poder...

- Não é bem assim. A estabilidade econômica foi uma herança do governo anterior.

- Mas a candidata do governo diz que foi uma conquista do atual presidente, que é seu patrono político... Inclusive vi a campanha dela outro dia, dizia que antes o país vivia o caos, que estava à beira da falência, e que foram eles, que hoje estão no governo, que botaram ordem na casa, possibilitando a milhões de pessoas melhorarem de vida. Não foi assim?

- Não foi, não. Na verdade, o partido da candidata oficial foi contra as medidas de estabilização da economia. Diziam que era um "estelionato eleitoral"...

- Você está dizendo que o partido da candidata oficial foi contra as medidas que colocaram a economia em ordem quando foram implementadas, mas depois se apropriou delas e agora se diz seu maior defensor?

- Sim. Foi isso mesmo.

- Bem, parece um típico caso de conversão. Nesse caso, é claro que eles se desculparam pela oposição do passado, não?

- Não. Não se desculparam.

- Nem se arrependeram?

- Não. Também não se arrependeram.

- Então os que estão hoje no poder simplesmente se apropriaram do que antes condenavam, sem confissão nem arrependimento, e agora se apresentam como os garantidores da estabilidade econômica?

- Isso mesmo. Você definiu perfeitamente.

- Que estranho... Isso é, no mínimo, falta de honestidade. Isso sim, é o que se pode chamar de estelionato. Mas entendo, porque o candidato adversário deve ser mesmo um perigo para as conquistas econômicas, que o governo herdou do antecessor...

- Nada disso. O candidato adversário é do partido do presidente que antecedeu o atual, o mesmo que implementou as reformas. Inclusive, ele fez parte daquele governo, foi ministro...

- Espere aí. Você está me dizendo que a candidata do governo atual está acusando seu principal adversário de ser uma ameaça à continuidade da política econômica, quando ele fez parte do governo que implementou essas conquistas, enquanto o partido dela foi contra? É isso mesmo?

- Exatamente.

- Nesse caso, a população deve ter percebido que está sendo vítima de uma farsa grotesca, uma verdadeira empulhação, e deve estar muito zangado com ela...

- Pelo contrário! Ela está em primeiro lugar nas pesquisas, pode vencer até no primeiro turno.

- Mas ela não é a candidata do governo? E o presidente atual não é aquele que sequestrou as conquistas do seu antecessor, apenas colhendo os frutos do que outros fizeram? Imagino que ele deva ser muito impopular...

- Aí é que você se engana. Ele tem quase 90% de popularidade, segundo os institutos de pesquisa.

- Mas estive em outros países, aqueles que vocês chamam de desenvolvidos, e lá quem fizesse isso seria execrado como um farsante, e não louvado!

- Sim, mas aqui é o Brasil...

- Mas vocês não são todos uma mesma espécie?

- Sim, somos, mas...

- A lógica não é a mesma para todos os seres humanos?

- É, mas...

- Das duas uma: ou vocês, brasileiros, são muito estúpidos ou pertencem a uma outra espécie, diferente dos demais terráqueos. Pelo que você me disse, a noção de honestidade que vocês têm não é a mesma da do restante da humanidade.
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Bom, mas pelo menos o líder de vocês, pelo que diz a propaganda oficial, é um estadista global, comprometido com as melhores causas da humanidade, a política externa é um sucesso, o País é finalmente respeitado no exterior...

- (interrompendo) Er... Na verdade, também não é bem assim...

O marciano já se preparava para fazer outra pergunta, mas desistiu. Sem resposta, o gentil cidadão que se prontificou a explicar o Brasil ao visitante alienígena se calou, coberto de vergonha. Enquanto isso, o marciano coçava as antenas, intrigado diante do que julgou ser um mistério sem solução. Em todas as galáxias que visitara, jamais presenciou uma situação tão insólita. Voltando à sua nave, simplesmente desistiu de tentar compreender, cheio de piedade por uma espécie tão primitiva.

Leitores ajudam este escriba a se atualizar: Lula não quer que iraniana seja apedrejada - quer que ela pare de "causar problemas". Ah, bom,,,


"- Cumpanhêro Arrmadinejádi, aquela muié inda tá te causânu pobrêma?"
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Alguém (ou "alguéns") que assina como "Casal 20" me escreve sobre meu texto "Lula. Ou: a avacalhação dos direitos humanos", que trata do caso daquela mulher iraniana condenada a morrer apedrejada (ou enforcada) no Irã pelo terrível crime de botar chifres na cabeça do marido. Segue o comentário, e minha resposta a ele:

Esta desatualizado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o Brasil poderia conceder asilo à mulher condenada se ela “estivesse causando problemas no Irã”. Inicialmente, Lula recusou pedidos de defensores de direitos humanos para usar sua relação cordial com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad para influenciar o processo, mas aparentemente mudou de ideia durante um comício de apoio a uma mulher - sua candidata à Presidência, Dilma Rousseff.

Comento o comentário
A informação foi atualizada em texto meu posterior. Mas aproveito para fazer uma pilhéria.

Ah, bom! Então Lula, que inicialmente recusou os apelos em favor da vida da iraniana aparentemente "mudou de idéia" em um comício e resolveu oferecer asilo à mulher condenada que estava "causando problemas no Irã"? Que grande humanista! Estou aliviado...

Deixe-me ver se entendi a coisa direito: Lula - ou "o presidente Lula", como respeitosamente escreve(m) o(s) autor(es) do comentário -, que de início tratou o assunto como trata a questão dos presos políticos em Cuba (ou seja: como tudo, menos um problema da humanidade), muda de idéia após o clamor internacional em favor da vida de um ser humano, e somente - notem bem: somente - porque sua candidata é mulher e para que a mulher condenada "não causasse problemas" à tirania teocrática do companheiro Ahmadinejad (ou "o presidente Ahmadinejad"). E ainda há quem o considere um humanista e um defensor dos direitos humanos?

Para ficar mais claro: Lula oferece asilo a uma mulher condenada a uma morte bárbara por um motivo frívolo, nas mãos de um regime criminoso e obscurantista, e só o faz como um favor a esse mesmo regime tirânico, para que ela, a mulher condenada, deixe de "causar problemas" a essa mesma tirania... Como se fosse ela, a mulher condenada, e não a teocracia iraniana, com suas leis absurdas, a criadora de caso! Como se fosse ela, a mulher condenada, e não o regime iraniano, quem estivesse causando problemas! E ainda por cima ele, Lula, é esnobado por Ahmadinejad, que o chama de desinformado. E ainda há quem considere ele, Lula, um líder respeitável?

Agora posso dormir tranquilo. Parece mesmo um verdadeiro humanista e um líder muito influente quem nos governa...

quinta-feira, agosto 26, 2010

O MAIOR CORONEL DA HISTÓRIA DO BRASIL


Nem José Sarney. Nem Antônio Carlos Magalhães. Nem Odorico Paraguaçu. O maior coronel da política brasileira em todos os tempos chama-se Luiz Inácio Lula da Silva.

Nenhum outro político encarnou tão perfeitamente as velhas práticas mandonistas dos grotões. Lula daria farto material para vários livros de Jorge Amado e de Dias Gomes. Ele transformou o coronelismo, que muitos achavam desaparecido, numa forma de arte, uma verdadeira instituição nacional. Perto de Lula, os antigos oligarcas são meros chefetes de província, simples amadores. Mais que isso: são exemplos de moralidade e espírito republicano.

Assim como os velhos senhores de baraço e cutelo, Lula se gaba de ser popular. E, assim como aqueles, ele baseia sua popularidade numa vasta rede de assistencialismo e numa dedicada clientela, que se sente cada vez mais devedora e se torna cada vez mais estadodependente. Só que em escala federal.
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De certa forma, voltamos à República Velha. Sob Lula e o PT, as práticas coronelísticas foram ampliadas, atingindo um patamar muito mais elevado de sofisticação. Os coronéis dos grotões tinham/têm como principal arma eleitoral cestas básicas e dentaduras. Lula e o PT têm o Bolsa-Família, a reedição do voto de cabresto.

Não é por acaso que Luiz Inácio se sente tão à vontade ao lado de figuras como Fernando Collor, Sarney e Jader Barbalho, que antes deplorava e cujo palanque hoje partilha sem o menor constrangimento. É que uma prática comum entre os maiorais do sertão é a troca de farpas, ou tiros, para depois se reconciliarem e partilharem o poder, numa grande e alegre festa regada a muito forró, cachaça e buchada de bode.

À semelhança dos coronéis do interior, Lula também possui à sua disposição um exército leal de jagunços (ou melhor, de devotos). Com a diferença de que estes últimos raramente usam armas de fogo. Em vez do bacamarte e da peixeira, suas armas são os mensalões e dossiês fabricados para intimidar adversários. Assim como os coronéis de outrora mandavam espancar inimigos e empastelar jornais que lhes denunciavam os desmandos, Lula manda seus cabras violarem os sigilos bancários de seus opositores ou maneja a lei para tentar impor malandramente a censura à imprensa, contando, para isso, com o apoio ou a "neutralidade" de jornalistas amestrados. Se dependesse dos bate-paus do lulo-petismo, o Brasil seria sua fazenda, digo, seu sindicato.

"Deixo em suas mãos o meu povo", é o refrão da música de campanha da petista Dilma Rousseff, a criatura eleitoral de Lula, à Presidência da República (fabricar sucessores é outra característica do coronelismo). A frase é quase cândida em seu elogio desbragado do atraso. Passa a idéia, de forma inconfundível, de que o povo é propriedade de alguém, no caso, Lula, tanto que ele está agora "deixando" o povo de herança para Dilma, como se deixa em testamento um rebanho de bois ou de bodes. "Meu povo", aliás, é uma interjeição comum aos mandões locais, significando exatamente isso: o povo é dele, literalmente lhe pertence, como suas esporas e seu chicote. E ai do atrevido que tiver o topete de ameaçar-lhe a autoridade ou de empanar-lhe o brilho!
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Em outras épocas, o coronel local dizia a "seu" povo em quem ele deveria votar - geralmente, um parente ou amigo. "Vote em Chiquinho da Farmácia: ele é amigo do coronel Totonho". E assim se perpetuava o sistema, com a eleição de testas-de-ferro e nulidades. Hoje, a campanha eleitoral do PT diz: "Vote em Dilma: ela é amiga de Lula". O nome disso, em bom português, era (é) curral eleitoral. Hoje, o Brasil é um imenso curral eleitoral do lulo-petismo. Dilma é o Chiquinho da Farmácia do coronel Totonho-Lula.

Uma coisa, porém, separa Lula, o megacoronel de hoje, dos provincianos coronéis de antanho: ao contrário destes, Lula não tem diante de si uma oposição de verdade, intransigente e aguerrida. O que há, em vez disso, é um bando de socialites e galinhas-mortas, mais preocupado em posar de bons-moços e em não assustar o eleitorado do que em chamar as coisas pelo nome. Quando um deles foge à regra, como fez Indio da Costa, é apenas para ser quase linchado pela "tática do medo" e pelo "erro eleitoral". É que jogam no mesmo time ideológico do adversário, daí sua relutância em mirar em Lula: tendo participado também da construção do mito em torno de sua figura, e inclusive fornecido os instrumentos que lhe permitiram chegar aonde está, têm medo de que o tiro ricocheteie e os atinja. Só lhes resta tentar encostar em sua imagem, numa clara confissão de culpa.

Se Dilma Rousseff for eleita presidente da República, como parecem indicar as pesquisas, essa tradição coronelística da política brasileira, preservada e ampliada por Lula, será coroada. Dilma, aliás, parece reproduzir em tudo o figurino de manda-chuva do sertão, no que segue fielmente, caninamente, os passos do mestre. Quando não está declarando seu amor a outros caudilhos como Fidel Castro e Hugo Chávez, ou se comparando a Jesus Cristo e a Tiradentes (com desvantagem para estes, claro), sinhozinho Lula gosta de se apresentar como o "pai do povo". Dilma, por tabela, é a "mãe do povo". É outro traço, o paternalismo, inegavelmente coronelístico do lulo-petismo. Desse matrimônio está prestes a ser parida a maior fraude política da História brasileira.

terça-feira, agosto 17, 2010

DEMOCRACIA PELA METADE


Uma imagem de um debate eleitoral entre os candidatos à Presidência da República, dentro de alguns anos
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Esqueçam a saúde. Ou a educação. Ou a segurança. Ou a situação calamitosa das estradas. O maior problema do Brasil é a inexistência de uma alternativa política aberta e claramente de direita.

Basta ligar a televisão por esses dias para constatar essa realidade. Nada mais monótono do que eleições no Brasil. E não me refiro somente ao show de horrores e desfile de bizarrices chamado enganosamente de "horário eleitoral gratuito". É que as eleições por aqui já viraram um concurso de esquerdismo, em que cada candidato se esforça por parecer mais antiliberal, mais anticapitalista do que o outro. No Brasil, "direita" é insulto pessoal, e não categoria política. Não surpreende, pois, que o debate político - se é que se pode chamar assim - seja tão raso, tão superficial. Os candidatos passam ao largo de qualquer questão substancial e ficam discutindo quem vai fazer mais operações de varizes e de próstata. É um deserto de idéias, feito de marketing e de bom-mocismo, ou de porralouquice.

A idéia de democracia vigente no Brasil de hoje é uma assembléia de esquerdistas acusando uns aos outros de serem de direita. Que o diga José Serra. Faz uns dias, ao responder alguma barbaridade dita por Lula, o candidato do PSDB à Presidência da República afirmou que quem apóia ditaduras como a de Mahmoud Ahmadinejad no Irã é um "troglodita de direita". OK, Serra. Troglodita é mesmo como deve ser chamado quem apóia regimes em que mulheres são apedrejadas por adultério. Mas por que o "de direita"? Desde quando ser a favor de ditaduras é privilégio da direita? Basta comparar os ídolos da esquerda - Stálin, Mao, Fidel Castro, Che Guevara - com as figuras exponenciais da direita liberal no século XX - Winston Churchill, Ronald Reagan, Margaret Thatcher. Digam-me quem, nessas duas listas, é troglodita e quem é democrata. Aproveitem e me digam que país que se preza não tem um partido forte de direita.

Ah, é de ditadores militares que se está falando, como Franco, Médici ou Pinochet? OK, não há dúvida de que eram tiranos homicidas. Mas quem disse que a direita é sinônimo de regime militar (ou, ainda pior, "fascista")? Tão vítimas dessas ditaduras quanto os esquerdistas, e até mais do que estes, foram muitos liberais e conservadores. Estes, ao contrário daqueles, tiveram um papel muito mais importante na restauração das liberdades democráticas. Não me consta que Tancredo Neves e Ulysses Guimarães fossem esquerdistas. Sem falar no fato irrefutável de que tais ditaduras, por mais horrores que tenham cometido, não chegaram aos pés, em termos de brutalidade e número de vítimas, do mais brando regime comunista.

Essa é a grande tragédia da política brasileira: não há um partido de direita. Há partidos de esquerda, de centro-esquerda, até de extrema-esquerda (geralmente, nanicos que entram nas eleições apenas para denunciar a "democracia burguesa" e fazer proselitismo em favor da revolução). Há partidos para quase todos os gostos, inclusive os inevitáveis picaretas, para os quais as ideologias valem tanto quanto uma nota de 3 reais (há um Partido Liberal, mas que está na base de apoio do governo...). Há de tudo, só não há direita. Onde está uma agremiação política que defenda e pratique, efetivamente, o ideário liberal e conservador, advogando claramente as teses de Hayek e de Milton Friedman? Esta não existe, nem como partido nanico. E não me venham dizer que o DEM, que está até mesmo cogitando fundir-se ao PSDB, é de direita. Em lugar nenhum do mundo um partido que ostenta a expressão "social-democracia" no nome é considerado de direita. Só no Brasil.

Antes que digam: não, não estou dizendo isso porque eu sou um, como diriam Lula e Serra, troglodita de direita. Digo porque a ausência de um partido de direita nas eleições é um fator que explica o baixo nível das campanhas eleitorais. O Brasil deve ser o único país em que nas eleições se discute tudo, menos política. Tentei acompanhar o debate presidencial na Band, há alguns dias. Serra e Dilma ficaram o tempo todo discutindo números e maltratando a língua portuguesa. Marina Silva posou de Marina Silva, um personagem criado por ONGs. A nota dissonante veio de um nanico de ultra-esquerda, que passou o tempo todo acusando os demais de não serem esquerdistas o suficiente. Mudei de canal.

Se você ainda não está convencido da gravidade da coisa, e acha que isto é só muxoxo de um reaça inconformado, então preste atenção para esse fato: nem na época da ditadura militar havia uma situação parecida. Durante o regime de 64, havia censura, ou seja, a imprensa não poderia publicar certas notícias e assuntos que desagradavam aos governantes de plantão, mas havia a possibilidade de um pensamento político discordante. Havia uma oposição legal, o MDB - tolhida, intimidada, mas havia. Hoje, a oposição se esforça para parecer o menos oposicionista possível. Evita bater nos petistas e em Lula, pois afinal este é popular. O general Médici também era muito popular.

Diante disso, a frase de Lula - "Que bom que não teremos trogloditas de direita nas eleições" - adquire um ar de ainda maior boçalidade. Ela pode ser lida como um elogio ao pensamento único, o contrário da diversidade política. Pelo menos mentalmente, já vivemos uma ditadura ideológica de esquerda. E isso é louvado pelo supremo mandatário da nação! E o pior: ele é aplaudido!
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Já escrevi antes e repito: não é normal uma eleição sem um candidato de direita. Não é normal, nem desejável. É um sinal de uniformização ideológica, de ausência de pluralidade. É desse material que se constroem os regimes totalitários.
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Uma democracia sem direita é uma democracia pela metade. Isso equivale a uma ditadura pela metade. É algo tão falso quanto uma democracia que não tivesse partidos de esquerda. Não se trata sequer de pedir votos para candidatos que ostentem posições liberais ou conservadoras. Trata-se tão-somente de garantir o fundamento mesmo da democracia: a pluralidade.

Já tivemos o troglodismo fardado. Agora temos o troglodismo de esquerda. Essa é a ideologia oficial do Brasil.

segunda-feira, agosto 09, 2010

A LONGA MARCHA DOS MACONHEIROS


Francamente, sempre achei um besteirol essa estória de legalizar a maconha. De todas as causas que alguém pode adotar e a ela dedicar seu tempo e intelecto, a da "descriminalização" da erva maldita é, certamente, a mais idiota. Coisa de desocupado, de quem não tem mais o que fazer.

Não há nada, rigorosamente nada, de "libertário" na defesa da legalização da maconha, ou de qualquer droga ilícita. Há, sim, muita irresponsabilidade e arrogância, embaladas no desprezo olímpico pela Lei e na boçalidade próprios de quem se acha superior aos demais mortais e, portanto, acima das regras da sociedade. Dizer que fumar maconha é um gesto libertário não passa de uma invenção de "moderninhos", em geral gente bem-nascida e com boas conexões familiares, que acha um absurdo não poder fazer a cabeça e curtir uma lombra, mas que não vê nada de mais em que esse vício sirva para alimentar o narcotráfico e tudo de mal que ele acarreta. Afinal, o "movimento", assim como os tiroteios, está lá longe, no morro ou na periferia, e não no asfalto, em Ipanema ou nos Jardins. "Que os pobres se matem", pensam os mauricinhos da erva ou do pó, "desde que eu possa puxar meu baseado".

Paira, sobre o tema, uma névoa, que não é só de fumaça de cannabis. Vamos tentar desanuviar a questão e trazer um pouco de luz ao ambiente, que está assim, digamos, meio enevoado.

A primeira coisa que me chama a atenção no assunto é que os defensores da legalização ou descriminalização da maconha são, em geral, de esquerda, ou aquele tipo de inocente útil descrito geralmente como "simpatizante". A esquerda se mostra, aqui, mais uma vez, elitista. Vá, ou melhor, não vá, mas veja qualquer "marcha da maconha" - essa moda que ameaça generalizar-se no país, a exemplo de outras pragas, como a axé-music e as micaretas - e você verá lá, no meio dos "alternativos", rapagões e moçoilas corados e bem-nutridos, vestindo camisetas com a foice e o martelo e carregando bandeiras de partidos e grupelhos de esquerda. A relação da esquerda com o narcotráfico, aliás, é pública e notória, como demonstram os laços nada secretos do PT com os narcotraficantes das FARC e com o cocaleiro Evo Morales da Bolívia, apesar de toda a afetação de indignação dos petistas diante dessa "revelação" feita pelo vice de um adversário eleitoral.

Trata-se, portanto, de gente que aplaude, ou que silencia diante de regimes como o de Cuba, em que as liberdades individuais não existem. Devotos do multiculturalismo que são, e para não passarem por favoráveis ao "imperialismo", calam diante das atrocidades perpetradas por tiranias como a iraniana, onde mulheres são açoitadas e apedrejadas até a morte por manterem relações extraconjugais. É gente capaz de se emocionar quando vê uma linha de repente se transformar numa curva, mas que é incapaz de ver qualquer coisa de errado, em nome do "relativismo cultural" e do "respeito às diferenças", numa jovem ter o nariz e as orelhas arrancados por não obedecer ao marido em um país islâmico.

Isso, por si só, já é razão suficiente para desconfiar do suposto caráter "libertário" da causa maconhista. Mas meu estranhamento vai além. Ele se manifesta ante o seguinte fato: muitos, inclusive gente de esquerda, pró-Cuba e pró-PT, justificam a legalização da maconha com base no pensamento do filósofo britânico John Stuart Mill (1806-1873), um dos pais do liberalismo. Ora, o pensamento liberal, ainda mais na versão radical e utilitarista de Mill, é o oposto exato do que defendem os esquerdistas, que têm no anti-liberalismo e no coletivismo seus dogmas principais. Está claro que se trata, aqui, de um uso oportunista e instrumental de um pensamento em tudo estranho ao que querem os arautos do "liberou geral". Se a maioria dos defensores da "descriminalização" é de esquerda, então por que apelam para um conhecido autor liberal do século XIX? Querem fumar, OK, tudo bem, fumem até torrar o cérebro. Mas, em nome da honestidade intelectual, deixem John Stuart Mill em paz!

A questão não é que a maconha deva ser proibida porque "faz mal". Muita coisa que faz mal é liberada e seu consumo é socialmente aceito sem maiores problemas. A questão é que do produtor ao consumidor existe uma rede criminosa que precisa ser combatida. E, queiram ou não os modernosos da esquadrilha da fumaça, seu vício alimenta o crime organizado. Acima de tudo, existe a Lei. E, numa democracia, supõe-se que ela exista para ser cumprida. Por todos, indistintamente.

Para ficar mais claro. Se, em vez de maconha, fosse proibido o consumo de, sei lá, fubá, que se tornaria um negócio ilegal bastante lucrativo, eu poderia até achar uma bobagem, mas continuaria a achar que a obediência à Lei é o melhor caminho. Não daria bola para os que dissessem que comer fubá não faz mal, ou é uma questão de liberdade individual. Preferiria prestar atenção às gangues de traficantes de fubá que explorassem o comércio ilegal de fubá nas favelas, num ciclo de violência, e torceria para que a polícia botasse esses malandros na cadeia. Até que me convencessem que consumir fubá não é compactuar com o crime, eu seguiria essa opção.

Há quem defenda a legalização do comércio de maconha com base numa visão pragmática, pois isso retiraria a erva da ilegalidade e acabaria, portanto, com a rede de criminalidade existente. É uma opinião defendida pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo. Pode-se discutir essa questão, e creio mesmo que ela deve ser debatida abertamente na sociedade. Mas não deixo de me perguntar como fariam para acabar com os males do narcotráfico tornando-o legal num país, por maior que seja, sem que os demais 191 países adotem, simultaneamente, a mesma medida. A menos que o mundo virasse uma imensa Holanda, não vejo solução. Convenhamos, isso implicaria algumas dificuldades práticas. Nesse meio tempo, prefiro fazer como o personagem do inspetor do FBI Eliot Ness, no fllme Os Intocáveis. Quando perguntado o que faria quando a Lei Seca - a proibição do álcool nos EUA, que perdurou durante toda a década de 20 - fosse revogada, ele respondeu simplesmente: "Vou tomar um drinque".

Voltemos a John Stuart Mill. Os que, para defender a maconha, apelam para o liberalismo stuartmilliano afirmam que, numa democracia, não se pode criminalizar a conduta individual com base na idéia de que "faz mal" porque, afinal, existiria, no caso da maconha, crime sem vítima. Para que haja crime, dizia Mill, é preciso que haja um agente ofensor e uma vítima legítima, cujo direito foi ofendido. No caso da maconha, o ofensor e o ofendido seriam a mesma e única pessoa, logo não há delito a ser punido e qualquer sanção penal seria uma intromissão do Estado num assunto particular etc.

O argumento, à primeira vista, é um primor de lógica, mas tem uma pegadinha aí. É verdade que John Stuart Mill defendia que a única justificativa para se criminalizar uma conduta era que houvesse um agente ofensor e uma vítima ofendida em seu direito. É verdade que, por esse motivo, ele, Mill, achava um absurdo punir criminalmente condutas individuais como o consumo de drogas, o jogo, a prostituição e o homossexualismo (como acontece em países como o Irã), sobre as quais qualquer interferência do Estado seria descabida. Mas é igualmente verdade que, na época de Stuart Mill, não havia tráfico de entorpecentes na escala em que é praticado hoje, com suas conseqüências - sociais, familiares, até políticas (há Estados, como a Bolívia do cocaleiro Evo Morales, que se convertem cada vez mais em narco-Estados) - não menos do que devastadoras. Também é verdade - e algo freqüentemente omitido pelos apologistas da maconha, em sua leitura seletiva de Stuart Mill - que o conceito de responsabilidade é inseparável do da liberdade individual, como deixa claro Mill em seu ensaio mais conhecido, On Liberty (Sobre a Liberdade). E o conceito de responsabilidade estipula que a liberdade deve cessar quando concorre, de alguma maneira, para a desestabilização da ordem pública. Nada a ver, portanto, com o "liberou geral" a que aspira a tribo do "legalize já". Desconfio que, se fosse vivo, John Stuart Mill ficaria contra os descolados e sua (deles, não de Mill) idéia de legalizar a maconha.

Em outras palavras: se você for maior de idade, vacinado e pagador de impostos, e acordou com vontade de se prostituir, fumar maconha ou cheirar pó até virar um maracujá, é problema seu, ninguem tem nada a ver com isso. No caso da prostituição, é até um direito, o Estado não tem nada que se meter numa escolha pessoal sua. Mas, por favor, não cite John Stuart Mill. Pelo menos não se for se referir a substâncias ilícitas. A liberdade individual, essa coisa sagrada, não deve servir de pretexto para o culto à ilegalidade.

Muitos que usam Stuart Mill para defender a maconha afirmam também que ela seria inofensiva, não possuindo a letalidade de outras drogas mais pesadas, como a cocaína e o crack, que causam dependência imediata. Alegam ainda que, se a questão é preservar a ordem pública, não faz sentido manter a proibição da maconha e não do álcool, porque o álcool também gera violência (na forma de brigas de bar, por exemplo) e acidentes de trânsito etc.

Sem entrar no mérito da questão de se a maconha faz mal ou não à saúde (e, para cada artigo de especialista defendendo seu uso controlado na medicina, no combate ao glaucoma por exemplo, há uns dez estudos que mostram a relação do consumo da cannabis com a perda de memória ou com a esquizofrenia), percebo nesse argumento uma forte incoerência. Primeiro, porque, inofensiva ou não a maconha para a saúde, isso, para John Stuart Mill, era irrelevante - importava, para ele, a liberdade de se fazer o que se quiser com o próprio corpo, desde que isso não acarrete algum dano social. Logo, os defensores da erva maldita precisam encontrar outro argumento. Segundo, e pela mesma razão, o álcool pode até detonar brigas de bar e acidentes de trânsito (assim como um medicamento tarja-preta tomado na hora ou na dose erradas), mas há leis que coibem essa prática (a "Lei Seca" no trânsito, por exemplo). Mais importante: com exceção da falsificação e do contrabando, desconheço alguma rede criminosa por trás do consumo de cerveja ou de cigarros, ao contrário da maconha. Uma briga de bar que resulte num assassinato pode ser detonada por uma dose de uísque ou de cachaça, mas não há nenhuma organização ilegal e criminosa entre a produção e o consumo da bebida. A culpa, aqui, é de quem fez (mau) uso dela, ou seja: de quem não soube usar sua liberdade individual de forma responsável. O mesmo não pode ser dito da maconha.

Outro argumento fajuto é que a idéia da maconha como porta de entrada para drogas mais pesadas seria falsa, pois levaria em consideração somente as drogas ilícitas, deixando de lado as drogas lícitas, como o álcool e a nicotina. De fato, jamais conheci, e creio que devem ser muito poucos, os usuários de maconha que não sejam também adeptos do tabagismo ou da bebida. Mas isso não muda em nada a natureza da questão. Até hoje não conheci nenhum viciado em crack ou em cocaína que não tenha começado a sua, com o perdão do trocadilho, "carreira", em aparentemente inocentes tragadas na erva do capeta. Mais que isso: maconha é ilegal; cigarro e álcool, não. Além disso, há uma clara contradição com Stuart Mill. Ora, se a maconha deve ser liberada porque seu consumo é uma questão particular, individual, então por que o mesmo raciocínio não pode ser utilizado para descriminalizar o consumo de cocaína, ou de heroína, ou de crack?

Feitas as contas, fico cada vez mais convencido de que todo esse blablablá de bichos-grilos sobre os supostos prováveis benefícios que a descriminalização da cannabis traria para a sociedade não passa de uma desculpa, muitas vezes disfarçada de "interesse antropológico", para atacar o "sistema" - afinal, o álcool e o tabaco são uma "indústria", ao contrário da maconha, essa plantinha simpática, além do mais ecológica e ambientalmente correta, cultivada milenarmente etc. etc. Trocando em miúdos: um discurso de ripongas ou de filhos da elite entediados, desesperadamente em busca de uma "causa" para substituir ideologias defuntas e preencher o vazio da existência. Ou, então, é só o efeito retardado de alguma bad trip, a prova do efeito deletério da erva sobre os neurônios. Está comprovado: defender a legalização da maconha faz mal à saúde. À saúde mental.

UMA IMAGEM PARA NOS ENVERGONHAR


A imagem acima é um tapa na cara. Um soco no estômago. Ela mostra a jovem afegã Bibi Aisha, 18 anos, barbaramente mutilada - teve o nariz e as orelhas arrancados à faca - por um tribunal do Talibã. Esse foi o castigo que ela recebeu por fugir do marido, com quem fora forçada a se casar e que frequentemente a maltratava. Está na capa da Time desta semana. É uma imagem do horror.
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A frase que acompanha a imagem pode ser traduzida como "o que acontecerá se abandonarmos o Afeganistão". Trata-se de uma afirmação, não de uma pergunta. E de algo quase tão impactante quanto a foto. Porque serve de lembrança para um fato elementar que está sendo sistematicamente ignorado nos dias que correm: sem as tropas dos EUA e da OTAN, o Afeganistão sucumbiria às trevas, ao caos mais completo. É a permanência dos soldados aliados que impede que casos como o de Bibi Aisha deixem de ser exceções e se tornem lei no país.
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Claro, houve quem achasse a foto "forte demais", e surgiu até uma discussão "ética" sobre a conveniência, ou não, de mostrá-la para o grande público. Sem falar na mensagem clara que a acompanhava. Pois eu digo que antiético e imoral, além de inconveniente, seria não mostrá-las, a imagem e a mensagem. Sobretudo num momento em que a tal "opinião pública" (leia-se: a grande imprensa e o politicamente correto) começa a questionar a justeza da derrubada do Talibã e a exigir a retirada imediata das tropas norte-americanas do Afeganistão.
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Se há um motivo mais do que suficiente para defender a permanência das tropas e o combate sem trégua aos terroristas islamitas, aí está o rosto desfigurado de Bibi Aisha para proporcioná-lo. Hoje, o Afeganistão é um país que tem problemas, inclusive a permanência de práticas bárbaras contra mulheres em algumas regiões. Até o final de 2001, porém, essas práticas eram oficializadas por uma tirania teocrática que dominava o país, e que tentou fazê-lo retroceder à Idade Média. Desde então, os que tiranizaram o povo afegão foram expulsos do poder, e hoje vivem acossados em montanhas e cavernas. Há quem ache isso pouco.
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Há ainda os que alegam a questão da "soberania" para defender a saída das forças estrangeiras do Afeganistão, como se "soberania" fosse uma senha para todo tipo de atrocidade. Ou que - mais absurdo ainda -, embalados por uma antropologia de botequim, apelem para a falácia do relativismo cultural, afirmando que a tortura e mutilação de meninas e mulheres é um costume local e deve ser respeitado etc. e tal. Essa é a visão míope de quem se recusa a entender que direitos humanos não são um luxo ocidental, e que a luta contra o Talibã é uma luta da civilização contra a barbárie. É uma visão também hipócrita, pois muitos que referendam os crimes do Talibã ou do regime iraniano não hesitaram em ofender a soberania de países como Honduras, por exemplo. Não falta, também, quem se encha de indignação lacrimosa diante do tratamento dispensado pelos cruéis imperialistas ianques a suspeitos de terrorismo em Abu Ghraib e em Guantánamo, mas que não tenha uma palavra a dizer sobre Bibi Aisha. Para essas pessoas, ela não existe.
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Há alguns meses, a mesma Time que estampou o rosto deformado de Bibi Aisha divulgou uma lista das 100 personalidades mais infuentes do mundo. Um dos que apareceram na lista foi Lula. Os lulistas ficaram exultantes. A última de Lula foi dizer que não é certo interceder em favor dos direitos humanos em outros países, referindo-se à condenação à morte por apedrejamento de uma iraniana por um suposto crime de adutério. Ele chamou isso - o apelo pela vida da prisioneira, não a pena a que foi condenada - de avacalhação (depois voltou atrás, sob o peso de tamanha enormidade, mas somente para tentar livrar a cara de seu amigo Mahmoud Ahmadinejad, que mesmo assim o humilhou, chamando-o de desinformado). O mesmo raciocínio lulista sobre direitos humanos no caso da mulher iraniana pode ser aplicado ao caso da afegã Bibi Aisha. Para Lula, impedir que ela tenha o nariz e as orelhas decepados é uma avacalhação.
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Esse é Lula, o futuro secretário-geral da ONU, o homem mais influente do Universo. E a vergonha de qualquer pessoa decente.

segunda-feira, agosto 02, 2010

LULA: A AVACALHAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS


A iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, 43 anos, foi condenada pela Justiça do regime islâmico de Teerã a ter um destino horripilante. Acusada de adultério, crime punível com a pena capital pela sharia, a lei islâmica, ela será enterrada até a cintura. Munidos de pedras, seus carrascos irão apedrejá-la até a morte. Segundo a lei, as pedras devem ser grandes o bastante para quebrar-lhe os ossos e infligir-lhe o máximo de dor, mas não ao ponto de matá-la rapidamente. Para que a sentença seja cumprida de acordo com as regras corânicas, o sofrimento deve ser lento e a morte, excruciante.

Há somente uma chance de Sakineh Mohammadi Ashtiani não sofrer o cruel castigo da lapidação: se os aiatolás iranianos aceitarem um pedido de clemência em seu nome, feito por alguma alta autoridade mundial. Há alguns dias, começou uma campanha no Twitter para que Luiz Inácio Lula da Silva seja o portador desse pedido humanitário. "Liga, Lula", é o slogan da campanha, que já tem milhares de adeptos. Os internautas que a elaboraram querem que Lula ligue para seu amigo Mahmoud Ahmadinejad e interceda em favor da vida de Sakineh. Acreditam que poderão convencer o atual presidente do Brasil a usar seu auto-proclamado prestígio internacional para salvar a vida de uma mulher condenada a morrer apedrejada por adultério. Crêem, ingenuamente, que ele está preocupado com os direitos humanos. Estão enganados.

Lula não irá interceder em favor de Sakineh Mohammadi Ashtiani. Isso ficou bem claro em 28/07, quando, em mais uma de suas frases memoráveis, ele explicou por que não vai mexer um dedinho por sua vida:

"Tem que ter cuidado, as pessoas têm leis, têm regras. Se começassem a desobedecer as leis deles para atender os pedidos dos presidentes, daqui a pouco haverá uma avacalhação."

Traduzindo do lulês: Qualquer tentativa de intercessão, como um pedido de clemência, seria uma intromissão indevida nos assuntos internos do Irã. Mais que isso: seria uma avacalhação, diz o especialista em direitos humanos. Para ele, Sakineh pode ser apedrejada até a morte, pois é a lei do país. Não é um problema da humanidade.

Para ficar mais claro o entendimento da posição brasileira na questão:

- Lula acha uma avacalhação e uma violação da soberania pedir clemência para uma mulher condenada a morrer apedrejada no Irã, mas não acha uma avacalhação se meter nos assuntos internos do Irã ao avalizar a fraude eleitoral e ao comparar os protestos por democracia no país, brutalmente reprimidos pela teocracia islamita, a um chororô de torcedores cujo time perdeu uma partida de futebol;


- Lula acha uma avacalhação pedir respeito aos direitos humanos em Cuba, mas não acha uma avacalhação comparar prisioneiros políticos, presos de consciência que fazem greve de fome contra uma ditadura, a bandidos comuns;

- Lula acha uma avacalhação um país como Honduras ter uma Constituição e expulsar um golpista que tentou violá-la, mas não acha uma avacalhação planejar a volta clandestina desse golpista ao país e permitir a transformação da embaixada brasileira em comitê político para que este insuflasse a guerra civil;

- Lula acha uma avacalhação as grandes potências e a ONU aprovarem sanções contra o Irã de Mahmoud Ahmadinejad, mas não acha uma avacalhação ter-se prestado ao papel de instrumento de Ahmadinejad para que este continue a enganar o mundo e a enriquecer urânio para produzir a bomba atômica;

- Lula acha uma avacalhação que Israel, a única democracia do Oriente Médio, faça uso de seu direito elementar de se defender, mas não acha uma avacalhação não dizer uma única palavra sobre o terrorismo do Hamas e do Hezbollah, que juraram varrer Israel do mapa;

- Lula acha uma avacalhação que o governo da Colômbia combata duramente os narcoterroristas das FARC, onde quer que se escondam, e que conte com o apoio militar dos EUA, mas não acha uma avacalhação que os governos da Venezuela e do Equador dêem guarida aos narcobandoleiros, e, inclusive, armas; aliás, Lula não vê avacalhação alguma em se declarar "neutro" entre o governo colombiano e as FARC, e em conceder o status de "refugiado político" ao "representante" das FARC no Brasil;

- Lula acha uma avacalhação que alguns órgãos de imprensa considerem Hugo Chávez um ditador, mas não acha uma avacalhação aplaudir todos os atos arbitrários e antidemocráticos do coronel, como o fechamento de emissoras de rádio e TV e a prisão de jornalistas que não se mostram dóceis a ele;

- Lula acha uma avacalhação que haja quem considere Evo Morales um demagogo incentivador da produção de cocaína, mas não acha avacalhação que ele mande tropas invadirem e expropiarem refinarias da PETROBRAS na Bolívia, ou que o Brasil esteja financiando a construção de uma rodovia que irá facilitar a exportação de cocaína boliviana para o Brasil;

- Lula acha uma avacalhação ter sido alvo de críticas por ter devolvido, na calada da noite, atletas cubanos que tentaram fugir da ditadura dos irmãos Castro, mas não vê qualquer avacalhação em transformar o País num paraíso para terroristas condenados em países democráticos, como Colômbia e Itália;

Finalmente:

- Lula acha o cúmulo da avacalhação que alguns impatriotas se recusem a ver nele o líder mundial mais sábio e mais importante desde Ramsés do Egito, mas não vê avacalhação alguma em colocar sua política externa inteiramente a serviço dos piores ditadores e genocidas do mundo. Coloca-se ao lado do que de pior existe na humanidade, pois, afinal, "negócios são negócios".

No último sábado, o homem que chamou de avacalhação uma causa humanitária decidiu recuar, e cogitou da possibilidade de receber "essa mulher" no Brasil, como exilada do regime dos aiatolás (ou seja: como uma "indesejável"). O recuo revela cálculo político, não compromisso com a vida humana. Seu objetivo, se fizer valer o compromisso de receber Sakineh, não é salvar-lhe a vida, mas livrar seu aliado Ahmadinejad de um incômodo. Há mais 24 iranianos condenados a morrer por apedrejamento. Lula não irá dizer nada a respeito.
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Lula avacalhou os direitos humanos, assim como avacalhou a ética. Sua política externa é a perfeita expressão do que existe de pior na sociedade brasileira. O desprezo pela vida humana é apenas uma de suas caracteristicas. Paro por aqui, porque, como dizia Nelson Rodrigues, a coisa já exala a febre amarela, a peste bubônica, a tifo e a malária.