quarta-feira, maio 12, 2010

ANOS DE CHUMBO: DESMASCARANDO UMA IMPOSTURA HISTÓRICA




O texto a seguir é bem longo. Mas não poderia ser diferente. Conto com a paciência do leitor.

A propósito: desafio qualquer intelectual de esquerda, inclusive o autor do texto que analiso, a provar que o que digo em seguida não é verdade. Está lançado o desafio.


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Tenho o costume – alguns diriam o mau hábito – de ler o que os esquerdistas escrevem. A tarefa é árdua, sei bem, mas pode ser bem instrutiva. Um dos textos que li e que me chamou a atenção nesses dias foi do Professor Vladimir Safatle, do Departamento de Filosofia da USP. O título do artigo é “Do uso da violência contra o Estado ilegal”, e está numa coletânea organizada por Edson Teles e pelo próprio Vladimir Safatle, O que resta da ditadura (São Paulo: Boitempo, 2010, páginas 237-252). Resolvi analisar o texto, pois percebi que muitos dos, digamos, argumentos utilizados pela esquerda brasileira para justificar uma certa visão – infelizmente, bastante difundida – sobre a História brasileira recente encontram-se lá.
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O autor inicia o texto com uma epígrafe retirada do romance 1984, de George Orwell – “Ele expulsou a cena da memória. Era uma lembrança falsa” –, que não poderia ser mais inadequada. A citação de Orwell faz referência à prática costumeira nos regimes totalitários de apagar fatos considerados inconvenientes ao poder. E é exatamente isso que o texto faz, ao criticar o “apagamento da História” pelos militares brasileiros, apenas para apagar, ele mesmo, a parte da História que não convém lembrar à esquerda.
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Já no começo, Safatle usa um exemplo que remete à Lei de Godwin – aquela que diz que, quando se acusa alguém de nazista, é porque já não é mais possível qualquer debate. Ele menciona Auschwitz e os nazistas para condenar aquilo que chama de “desejo de desaparecimento” que estaria presente na Lei de Anistia de 1979, que perdoou ambos os lados dos “anos de chumbo” no Brasil. Ele considera que esse processo de manipulação dos fatos está no cerne “de todo totalitarismo” etc.


À parte o uso equivocado, para dizer o mínimo, do conceito de totalitarismo aplicado à realidade política do regime militar brasileiro – regime que pode ser considerado autoritário, mas não totalitário, como pode constatar facilmente qualquer estudante de Ciência Política ainda não contaminado pelo vírus do marxismo vulgar –, Safatle ignora, em todo o texto, as ações praticadas pela esquerda terrorista no período. Ele nega mesmo essa definição, “terrorismo”, atribuindo-a a uma designação dos militares, e não aos fatos. Os termos “subversivo” e “terrorista”, longe de se referirem a atos concretos, seriam apenas o produto da manipulação semântica daqueles que detêm a soberania (ou seja, o poder). Assim, citando autores como Carl Schmitt, ele considera um uso extensivo e pouco rigoroso do termo em um contexto inacreditável chamar-se, por exemplo, de terroristas os integrantes do MST, ignorando as ações e o culto à violência revolucionária desse movimento pretensamente social, que recebe dinheiro do Estado para invadir e depredar propriedades e intimidar pessoas. .

A idéia central do texto de Safatle é que o Estado surgido após 1964 no Brasil, e que perdurou até 1985, era ilegal e, portanto, a luta contra ele era necessariamente legal e uma forma de resistência democrática. É nesse sentido que ele aborda a questão dos desaparecidos políticos, cujo não-reconhecimento pelo Estado, ou a não punição dos torturadores e assassinos, equivaleria a uma segunda morte: “o Estado deixa de ter qualquer legitimidade quando mata pela segunda vez aqueles que foram mortos fisicamente”, diz ele, esquecendo-se, aparentemente, de que tal processo de assassinato/desaparecimento/esquecimento foi levado às últimas conseqüências nos países socialistas como a ex-URSS e também pelos militantes da luta armada no Brasil.

Após criticar o que seria o pouco rigor conceitual no trato de termos como “terrorista” aplicado aos revolucionários do MST, Safatle não revela qualquer pejo em associar a ditadura militar brasileira ao nazismo, afirmando que “algo de fundamental do projeto nazista e de todo e qualquer totalitarismo alcançou sua realização plena na América do Sul”. Tal associação, se pode ter algum sentido no caso da Argentina, perde completamente a razão de ser no caso brasileiro. Não somente pelo fato – ignorado por Safatle – de que o conceito de totalitarismo (e, por extensão, de nazismo, uma de suas variantes) é inseparável da idéia do Partido-Estado (o regime de 64, ao contrário, extinguiu os partidos políticos), mas sobretudo porque os militares agiram para impedir a transformação do Brasil num Estado totalitário de corte socialista ou soviético. Algo que nem mesmo historiadores marxistas, como Jacob Gorender, ousam negar.

Depois de identificar o regime de 64 com o totalitarismo nazista, Safatle lança suas baterias contra a Lei de Anistia, comparando a situação brasileira ao que aconteceu na Argentina e no Chile, onde os generais foram julgados e condenados. Ele parece se esquecer de que, nesses países, terroristas de esquerda que lutaram contra o regime também tiveram o mesmo destino que os militares. É aqui aonde ele quer chegar: o que ele quer é que somente os crimes de um lado, “da direita”, sejam condenados.

Para ele, “o único país que realizou de maneira bem-sucedida as palavras dos carrascos nazistas foi o Brasil”. E isso porque, no Brasil, houve anistia, que beneficiou igualmente quem torturou e quem pegou em armas contra o regime. Em outras palavras: para Safatle, a anistia, uma conquista da sociedade brasileira, resultado de longa negociação política para viabilizar a redemocratização do País, é uma causa... nazista!

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Rejeitando categoricamente a idéia de que “toda violência se equivale”, Safatle rejeita a tese de que o esquecimento dos “excessos” do passado é o preço a ser pago para garantir a estabilidade democrática. O problema é que os “excessos” que ele não quer que sejam esquecidos são os praticados pelos agentes do regime militar, e somente esses, como se a violência política tivesse vindo de uma única fonte. É como se a luta armada contra o regime militar simplesmente não tivesse existido. O que revela um forte traço de esquecimento de sua própria parte – no caso, dos “excessos” e violências da esquerda armada. Ao se referir unicamente à “amnésia sistemática em relação a crimes de um Estado ilegal”, ele acaba incorrendo na amnésia sistemática em relação aos crimes cometidos pela esquerda armada. Ele é, enfim, um membro do “Partido da Amnésia” que ele critica, apenas com o sinal ideológico invertido.

Ao analisar dois argumentos contraditórios utilizados por alguns defensores do regime militar – “não houve tortura” e “houve tortura e assassinato, mas era uma guerra” – Safatle acaba caindo, ele mesmo, numa série de contradições, resultantes, em parte, de desconhecimento dos fatos históricos. Primeiro, ele agride a verdade quando diz que a idéia de que os militares tomaram o poder de forma preventiva contra um Estado comunista que estava sendo posto em marcha com a complacência de João Goulart é “um claro revisionismo histórico delirante”. (Os próprios comunistas, como o já citado Jacob Gorender, deveriam, portanto, ser acusados de revisionistas históricos delirantes[1].) Em seguida, envereda num debate jurídico com o Supremo Tribunal Federal, que recentemente decidiu pela não revisão (ou não “modificação de interpretação”, como diz Safatle) da Lei de Anistia. Ele se refere à Lei n. 6.683, em que se lê: “Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal”, concluindo que, como esses crimes nunca foram objeto de anistia, os militares que os cometeram não podem ser anistiados, sequer na lei que eles mesmos se “autoconcederam” (o que é errado: a Anistia foi negociada com a sociedade). A conclusão é a seguinte: somente os delitos praticados pelos militares e agentes da repressão configuram “terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal”. Quanto aos que a esquerda cometeu, nenhuma palavra.

Em sua crítica ao STF, Safatle ataca um dos expoentes da “ala conservadora” do tribunal, que, a fim de justificar que, caso militares fossem julgados, antigos membros da luta armada deveriam ter o mesmo destino (como se não fosse, precisamente, o caso), “chegou ao limite”, afirma ele, de invocar o artigo 5, inciso 44, da Constituição Federal, que diz o seguinte: “Constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis e militares, contra a ordem constitucional e o Estado democrático”. Seu argumento é que o regime de 64 era um Estado ilegal, logo a luta armada contra ele não pode ser colocada no mesmo patamar do terrorismo contra um Estado democrático. Aparentemente, ele tem razão, mas se esquece de um detalhe: a luta armada dos anos 60 e 70 não era uma luta pelo restabelecimento da ordem constitucional e democrática (veremos isso mais adiante). Também esquece que já existia guerrilha no Brasil antes de 1964 (retomarei esse ponto).

Safatle afirma que o Brasil é o único país onde a Anistia serve para acobertar “crimes contra a humanidade, como o terrorismo de Estado [e o terrorismo de esquerda não é terrorismo?], a tortura [militantes de esquerda também torturaram prisioneiros] e a ocultação de cadáveres [idem], o único país onde as Forças Armadas não fizeram um mea-culpa sobre o regime militar [e por que deveriam? os militares deixaram o poder muito bem avaliados pela população em geral; além disso, somente uma parcela ínfima dos militares esteve diretamente envolvida na repressão política], onde os corpos de desaparecidos ainda não foram identificados porque o Exército teima em não dar informações [o Exército está subordinado ao Presidente da República; logo, se informações não são divulgadas sobre onde estão os restos mortais dos desaparecidos – os “arquivos da ditadura” –, isso se deve à incapacidade, ou à má vontade, do governo]”. Isso explica por que ele acha absurdo o STF decidir que, caso a anistia a um lado seja suspensa, o outro lado – os militantes da luta armada – deveriam também ser condenados. É que, para Safatle, terrorismo de esquerda não é terrorismo, e tortura de esquerda não é tortura.

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Não contente em tentar “reinterpretar” a Lei a seu talante, por um critério ideológico, Safatle avança sobre a História. Ao tentar rebater o que até as paredes do STF já sabem – que “os dois lados têm crimes contra a humanidade” –, ele pergunta: “qual o caso de tortura feito por ‘terroristas’?” Eu poderia citar os seqüestros de diplomatas estrangeiros, ou as ameaças a inocentes civis em filas de banco durante “expropriações revolucionárias”, ou o adolescente retalhado pelos guerrilheiros do PCdoB no Araguaia, mas acho que isso não iria fazer diferença para Safatle. Para ele, chamar os seqüestros de crimes contra a humanidade é um “argumento de circunstância”, pois crimes contra a humanidade são aqueles “praticados pelo Estado contra seus cidadãos”. (Segundo esse raciocínio, os assassinatos de judeus poloneses ou bielorrussos por alemães durante a Segunda Guerra não foram crimes contra a humanidade, pois afinal não se tratava de cidadãos alemães assassinados pelo Estado alemão...) Sem falar que sua afirmação de que o seqüestro do embaixador norte-americano no Brasil, Charles B. Elbrick, em 1969, não caracterizou tortura porque, ao ser solto, Elbrick “não procurou um hospital por algum tipo de seqüela”, tendo-se resumido a dizer: “Ser embaixador nem sempre é um mar de rosas”, prova tanto seu ponto de vista quanto afirmar que não houve tortura contra guerrilheiros porque eles, ao serem soltos, também não procuraram um hospital – alguns deles, mesmo, passaram-se para o lado da repressão após terem sido capturados. Isso prova que não houve tortura? (A propósito: não consta que ser guerrilheiro também fosse algum mar de rosas.) .

Safatle não economiza sofismas e meias-verdades para tentar convencer de seu argumento de que somente um lado cometeu crimes e que, portanto, a reciprocidade não vale no caso brasileiro. Após agredir a História do Brasil, ele investe sobre a de outros países. No caso, a França do regime colaboracionista de Vichy (1940-1944). Ele pergunta: “por que o Tribunal de Nuremberg não condenou os resistentes franceses contra o governo de Vichy?” Eu poderia responder: pelo mesmo motivo por que os pilotos de bombardeiros aliados que destruíram as cidades alemãs ou japonesas não foram condenados após a guerra. Mas prefiro essa outra explicação: porque os maquis franceses, ao contrário dos “guerrilheiros” brasileiros, argentinos ou chilenos (assim como as FARC colombianas hoje) não lutaram para implantar uma ditadura comunista na França (embora houvesse comunistas em suas fileiras), mas para libertar o país da ocupação nazista e restaurar, numa frente com outras forças políticas, o regime democrático. (Aliás, vale lembrar: os comunistas franceses só se engajaram na resistência após 1941, quando Hitler invadiu a URSS - até então, eram aliados dos nazistas.) Mas isso para Safatle não tem importância: o que vale para ele é que o princípio jurídico adotado no caso de Vichy consistiu em dizer que “a violência sistemática do Estado contra o cidadão em hipótese alguma equivale à violência do cidadão [sic] contra um Estado ilegal e seus aliados”. Como se 1) a violência do regime de 64 no Brasil tivesse sido “contra o cidadão”, e não contra grupos organizados que se opunham ao regime com armas na mão; e 2) como se a violência terrorista, que visava a derrubar o regime vigente para substituí-lo por uma forma de ditadura socialista, fosse a “do cidadão” contra um “Estado ilegal”. Não foi.

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Como se não bastassem a má utilização dos conceitos e os erros e omissões históricas, Safatle insiste num argumento que só pode ser interpretado como má-fé ideológica: a fim de justificar o terrorismo de esquerda dos anos 60 e 70, ele menciona o “direito de resistência” presente na tradição política liberal, desde John Locke. Trata-se da mais pura impostura intelectual. Ele afirma que “essa [a luta armada dos anos 60/70 no Brasil] é uma batalha que não separa esquerda e liberais, mas que se fundamenta no reconhecimento de uma espécie de campo comum entre as duas posições”. E arremata: “toda ação contra um governo ilegal é uma ação legal”. (grifo dele)

O argumento é falacioso, por duas razões. Primeiro, pela instrumentalização da tradição liberal para justificar uma luta que visava, em última instância, à implantação de um regime totalitário, de perfil socialista ou comunista – o exato oposto do liberalismo. Segundo, porque os terroristas brasileiros não buscaram, em momento algum, formar uma frente única com setores liberais de oposição legal ao regime militar. Pelo contrário: como demonstra Elio Gaspari, a luta armada desprezava o apoio dos setores moderados da oposição, como o MDB de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães(2). Isso mostra, por si só, como os objetivos da luta armada e da oposição legal ao regime militar eram diferentes (eu diria mesmo incompatíveis).

Safatle afirma ainda que, “do ponto de vista estritamente jurídico-normativo, o regime militar brasileiro era mais ilegal que o Estado nazista alemão”. Ele tem certa razão nesse ponto: afinal, Hitler foi eleito democraticamente, ao contrário dos militares. Mas isso não muda a essência da questão. Afinal, Fidel Castro também não foi eleito por ninguém, e nesse sentido o regime cubano também é mais ilegal do que o de Hitler. Hugo Chávez, por sua vez, foi eleito democraticamente, e no entanto comanda um regime que caminha gradativamente para tornar-se uma ditadura. Além do mais, desde quando a luta armada no Brasil se orientou por considerações jurídico-normativas?

Safatle afirma uma grande verdade quando diz que “um governo só é legítimo quando se funda sobre a vontade soberana de um povo livre para fazer valer a multiplicidade de interpretações a respeito da própria noção de ‘liberdade’. Um governo marcado por eliminação de partidos, atemorização sistemática de setores organizados da sociedade civil, censura, eleições de fachada marcadas por casuísmos infinitos, além de assassinato e exílio de adversários como política de Estado certamente não cabe neste caso”. Poucas vezes li definição mais precisa do que é e como funciona um regime totalitário, como o nazismo e o comunismo (que a esquerda armada pretendia emular no Brasil – o que demonstra a inexistência de qualquer compromisso democrático por parte dos “guerrilheiros”). Praticamente, Safatle corrobora o que certa vez disse Roberto Campos, refletindo sobre o que ocorreria caso a luta armada fosse vitoriosa no Brasil: “Em vez de anos de chumbo, teríamos rios de sangue”. Provavelmente por isso, ele tem a precaução de ressalvar o seguinte: “diga-se de passagem, isto vale tanto para ditaduras de direita quanto para revoluções populares em estado de degenerescência, regimes totalitários burocráticos ou despotismo oriental travestido de esquerda”. Se você trocar o que está acima por “ditaduras comunistas”, acertará na mosca. Mas Safatle não pode dizer isso: em vez de chamar as coisas pelo nome, ele prefere fórmulas evasivas como "revolucões populares em estado de degenerescência", "regimes totalitários burocráticos" ou "despotismo oriental travestido [sic] de esquerda". Ele faz parte da legião de marxistas acadêmicos que ainda insistem, contra a própria História, que o “ideal socialista” é puro e imaculado; apenas os homens não estão à altura dele...

Insistindo na identificação do direito de resistência do cidadão com a luta armada para implantar o comunismo no Brasil, o que o leva até mesmo a invocar a Declaração de Independência dos EUA (!) para justificar a violência terrorista de esquerda, Safatle escreve: “o direito fundamental de todo cidadão é o direito à rebelião [para acabar com as liberdades e implantar o comunismo?]. Quando o Estado se transforma em Estado ilegal, a resistência por todos os meios é um direito [por todos os meios? assassinato de inocentes, inclusive?]. Neste sentido, eliminar o direito à violência contra uma situação ilegal gerida pelo Estado significa retirar o fundamento substantivo da democracia” [e por acaso os terroristas queriam democracia? qual documento de organização armada de esquerda fala em restaurar as liberdades democráticas? Lamarca e Mariguella, democratas?].

Em uma nota de rodapé, Safatle admite que o caso brasileiro não pode ser colocado no mesmo nível do terrorismo de grupos como Brigadas Vermelhas, Baader-Meinhof, PAC etc., que ensangüentou a Alemanha e a Itália nos anos 70 (e que tiveram no Minimanual do guerrilheiro urbano escrito por Carlos Mariguella sua obra de referência). Seu argumento é que as ações no Brasil foram contra um Estado ilegal, enquanto a Alemanha e a Itália eram países democráticos. Ele está certo nesse último ponto, no qual se distancia da posição oficial do governo brasileiro, via Tarso Genro (caso Cesare Battisti). Mas, como sempre, comete uma meia-verdade, quando nega que os terroristas brasileiros, embora lutassem contra um “Estado ilegal”, desejavam implantar outro Estado ilegal. Sem perder o cacoete esquerdista, ele atribui à tentativa de confundir as duas lutas, a dos terroristas brasileiros e a dos terroristas europeus, a “setores conservadores”. Ele chega a cometer erros factuais crassos, que só podem ser creditados à ignorância em relação à História. É somente isso que explica sua afirmação de que “nenhum grupo armado brasileiro sequestrou aviões, implementou política de atemorização sistemática da população civil ou absurdos do gênero”.

A afirmação é totalmente falsa. Eis os fatos:

- De 1968 a 1972, houve oito seqüestros de aviões comerciais no Brasil por terroristas de esquerda – dois deles, em julho de 1970 e em maio de 1972, terminaram com a morte e/ou prisão dos seqüestradores em operações de resgate das Forças Armadas.

- Quanto à implementação de uma política de atemorização sistemática da população civil, basta folhear o Minimanual de Mariguella para constatar que esse era um objetivo da luta armada de esquerda: mediante ações ousadas, como explosão de bombas, seqüestros e assassinatos, os terroristas visavam a provocar uma reação autoritária do regime, que se abateria sobre toda a população, a qual, então, se colocaria do lado dos “guerrilheiros”. E isso através do clima de caos e de insegurança generalizada que as ações terroristas provocariam.

- Essa política de intimidação pelo terror foi implementada não somente contra a população civil – como no Araguaia, onde os guerrilheiros do PCdoB estabeleceram uma “zona liberada” maoísta, com suas próprias leis (inclusive pena de morte) –, mas contra os próprios militantes da luta armada suspeitos de traição ou que, por qualquer motivo, discordavam dos demais companheiros ou pretendiam abandonar a luta – os chamados “justiçamentos”, que Safatle prudentemente se omite de comentar.

Em um trecho, Safatle quase deixa transparecer o verdadeiro objetivo da luta armada que defende: “não devemos compreender a idéia fundamental deste direito à resistência simplesmente como o núcleo de defesa contra a dissolução dos conjuntos liberais de valores (direito à propriedade, afirmação do individualismo etc.)”. Ou seja: o “direito à resistência” invocado por Safatle, embora beba na fonte da tradição liberal, deve orientar-se para sua superação, isto é: para o socialismo ou o comunismo. Usa-se, assim, o liberalismo para negá-lo. Uma prática recorrente da esquerda, diga-se de passagem.

O mito da luta armada “pela democracia” está presente em trechos como este: “os jovens que entraram na luta armada aplicaram o direito mais elementar: o direito de levantar armas contra um Estado ilegal, fundado por meio da usurpação pura e simples do poder graças a um golpe de Estado e ao uso sistemático da violência estatal. Desconhecer este direito é, este sim, o ato totalitário por excelência”. Como se a finalidade da luta armada não fosse o estabelecimento de outro Estado ilegal, mil vezes mais autocrático do que a ditadura militar... E como se esse Estado sonhado pelos terroristas de esquerda não fosse a quintessência do totalitarismo(3).

Mas o essencial do texto de Safatle, de sua tese da legalidade intrínseca do terror contra um “Estado ilegal”, encontra-se no seguinte parágrafo:

“Neste sentido, não devemos tolerar o argumento de que nos países socialistas também havia terrorismo de Estado e era isto que a luta armada procurava implantar no Brasil. Os nazistas tentaram desqualificar seus oponentes como serviçais da ordem bolchevique. Galtieri, Videla, Contreras também tentaram. No entanto todos eles foram ou estão presos. O que mostra como o Brasil deve ser o único país no mundo [sic] onde este argumento vale. Pois o resto do mundo sabe que aqueles que lutam contra um Estado ilegal são vistos inicialmente como exercendo um direito maior que é o fundamento de toda democracia real: o direito de dizer ‘não’, nem que seja por meio das armas. Não é por outra razão que países como a França tratam comunistas que participaram da resistência, como Jean Cavaillès e Guy Moquet, como heróis nacionais”.

Primeiro: a existência de terrorismo de Estado nos países socialistas, assim como a intenção da luta armada de implantar isso no Brasil, não é um “argumento”: é um fato. Está abundamentemente comprovado por milhares de depoimentos, assim como por dezenas de documentos das organizações clandestinas de esquerda do período, bem como por suas ações.

Segundo: assim como os nazistas, os comunistas tentaram desqualificar seus oponentes – na verdade, ainda o fazem –, chamando-os de "fascistas", e isso não faz qualquer diferença para a questão em pauta.

Terceiro: assim como Galtieri, Videla e outros generais latino-americanos foram presos, terroristas de esquerda na Argentina e no Chile, como os Montoneros e os membros do MIR, também foram encarcerados, o que mostra a validade do princípio da reciprocidade.

Quarto: a que “resto do mundo” o autor se refere? Certamente, não a parte da humanidade que condena o terrorismo, seja que roupagem tiver – sobretudo se vier disfarçado de “resistência democrática” contra um Estado ilegal para instaurar, em lugar deste, o comunismo.

Quinto: É por esse motivo que a resistência francesa é louvada, mas os terroristas de esquerda latino-americanos, não (pelo menos pelos que têm a democracia em alta conta). Os comunistas franceses só são tratados como heróis porque participaram da resistência em frente com outras forças políticas, como os liberais e inclusive conservadores. Se não fosse o anticomunista general De Gaulle, que tomou a frente do movimento de resistência e impediu o Partido Comunista Francês de tomar o poder, a História seria diferente.

Em seguida, Safatle incorre em mais uma desinformação histórica:

“Devemos lembrar aqui de um dado claro e fundamental. Não havia luta armada de esquerda antes do golpe militar de 1964. Não há nenhum caso registrado de grupo guerrilheiro atuante antes do golpe”. (grifo dele)

E mais: “nenhum historiador até hoje indicou o registro de alguma forma qualquer de ação armada antes do golpe militar”.

Não sei por qual livro de História Safatle estudou o período pré-64 no Brasil. Certamente, ele jamais ouviu falar de Jacob Gorender, Daniel Aarão Reis Filho e Denise Rollemberg, além de Elio Gaspari, todos autores que esmiúçam o projeto guerrilheiro da esquerda anterior à tomada do poder pelos militares, como é comprovado pela existência de focos guerrilheiros das Ligas Camponesas de Francisco Julião, anos antes do golpe de 64. Ele provavelmente desconhece os Grupos dos Onze de Leonel Brizola, que tinham em A Guerra de Guerrilhas, pequeno manual subversivo de Che Guevara, sua obra de referência. Desconhece também o fato, amplamente conhecido, de que, já em 1961 – no governo de Jânio Quadros! –, militantes das Ligas Camponesas (organização antecessora do MST) tinham ido treinar guerrilha em Cuba, sob os auspícios de Fidel Castro. Assim como ignora, ou finge ignorar, que a luta armada jamais esteve ausente dos planos e da ação do Partido Comunista, mesmo em seu período semi-legal, como demonstra a eclosão de guerrilhas camponesas na região de Porecatu, no Paraná, na década de 50. Sem falar, obviamente, na quartelada de 1935, a chamada intentona comunista(4). Enfim, ele, Safatle, não sabe nada de História. Ou sabe, e por isso tenta reescrevê-la, como fazia Stálin.
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É o desconhecimento dos fatos relacionados acima, assim como uma boa dose de desonestidade intelectual, o que explica o mito da luta armada como “resistência democrática”, que perpassa todo o texto de Safatle, e é retomado nesse trecho: “a luta armada esteve vinculada primeiramente à recusa legítima ao regime militar, ao caráter insuportável que ele adquiriu para vários setores da população nacional” (grifo dele). Mentira. A luta armada, como vimos, já surge em embrião antes de 1964, nas Ligas Camponesas e nos Grupos de Onze. O projeto guerrilheiro é anterior à ruptura constitucional de 64. As primeiras ações terroristas ocorrem em 1966 (atentado à bomba no aeroporto dos Guararapes, Recife), mais de dois anos antes do fechamento autoritário do AI-5, quando o regime militar ainda mantinha intactas várias liberdades políticas. Mesmo quando a repressão atingiu o auge, em 1969-1974, o conjunto da população nacional esteve muito longe de simpatizar com os guerrilheiros, que sempre estiveram isolados da sociedade (ao contrário, a popularidade do governo era altíssima). O que levou, primeiramente, à luta armada não foi a recusa legítima a um regime discricionário, nem a reação à falta de liberdades, mas a idéia da revolução socialista, presente na esquerda brasileira desde 1922, e que tomou impulso, no começo dos anos 60, após a Revolução Cubana.

Prossegue Safatle: “De toda forma, a multiplicidade política de trajetórias de ex-membros da luta armada (encontramos vários deles em partidos cujo espectro vai do Psol ao PSDB) mostra retrospectivamente como eles eram unidos principalmente pela recusa, e não pela partilha, de um projeto positivo claramente delimitado. Vale a pena insistir nesse ponto: o que unia todos os que entraram na luta armada não era um projeto comum, mas uma recusa comum”. O que o fato de alguns ex-militantes da luta armada terem aderido ao PSDB prova? Nada! Mostra apenas que alguns trocaram a revolução socialista pela social-democracia, enquanto outros (PSOL), nem isso (Aliás, Safatle fala como se o PSDB fosse um partido "de direita"...) Ora, na Alemanha, alguns terroristas do Baader-Meinhof ingressaram, depois, no Partido Verde. Outros, por sua vez, cerraram fileiras com os social-democratas. Isso torna menos terroristas suas ações do passado? A “recusa comum” de que fala Safatle era a recusa da democracia, o projeto socialista. Nada mais que isso.

Safatle cita os casos de pessoas “que absolutamente nada tinham a ver com grupos comunistas”, como Rubens Paiva e Vladimir Herzog, para tentar mostrar que o argumento central dos militares (“era uma guerra”) não tem validade, logo não há por que eles terem sido anistiados. Nesse caso, ele seria obrigado a reconhecer que os crimes da esquerda também não podem ficar impunes, pois afinal esta também assassinou inocentes, muitos deles simples transeuntes, sem qualquer vinculação político-partidária (o que não era o caso de Paiva e Herzog – este último, aliás, militava no Partido Comunista). O fato de haver vítimas inocentes de um lado não elimina a existência de vítimas inocentes de outro. Mais uma vez: ou se punem todos, ou não se pune ninguém.

(Aliás, é bom lembrar: as famílias das vítimas da repressão política no Brasil - e alguns nem tão vítimas assim - já foram regiamente indenizadas pelo Estado. E os que tombaram sob as balas e bombas da esquerda armada, quando receberão o mesmo tratamento de seus algozes?)

Ao final, Safatle faz uma análise meio lírica do governo João Goulart, que ele nega, contra todas as evidências históricas, ter sido um governo que caminhava para alguma forma de golpismo esquerdista, pois ele “demonstraria a viabilidade de uma esquerda, ao mesmo tempo, profundamente transformadora e capaz de assumir processos próprios às democracias parlamentares, modificando seu sentido ‘por dentro’” etc. Como se o estímulo oficial à quebra da disciplina e da hierarquia nas Forças Armadas, sem falar no apoio a um movimento revolucionário no campo, com o avanço de setores descompromissados com as liberdades em diversas áreas, fossem sinais de uma “verdadeira democracia”... Algo, aliás, em que muita gente no governo Lula acredita.
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Textos como o de Vladimir Safatle demonstram que a luta pela memória dos “anos de chumbo” do regime militar ainda não acabou. Pelo contrário, a visão de esquerda, parcial e mistificadora, teima em se impor aos fatos, insistindo na revogação – ou na “reinterpretação”, como queiram – da Lei de Anistia, inclusive apelando para argumentos pseudo-humanitários e pseudo-humanistas.

Não cabe dúvida de que o regime político instalado no Brasil após 1964 era um Estado autoritário baseado na coação e na força. Era, portanto, um Estado ilegal. Também não se discute que a repressão político-militar foi selvagem e empregou sistematicamente a tortura e o assassinato, e que isso é condenável sob qualquer ponto de vista. Mas nada disso elimina o fato de que a luta armada de esquerda contra esse Estado era, ela também, ilegal e contrária aos princípios universais da democracia e da civilização. Seu objetivo, claro está pelos documentos e proclamações das organizações de esquerda atuantes no período, não era o retorno da ordem liberal-democrática anterior ao golpe, nem tampouco a instalação de uma forma de estado de direito constitucional, mas a substituição do regime provisório e excepcional dos generais por outro regime, permanente, de força, provavelmente socialista e certamente autoritário, quando não totalitário, como bem demonstrou Elio Gaspari. Não há qualquer razão para considerar as ações da guerrilha urbana e rural – assassinatos, seqüestros, assaltos a bancos etc. – como formas de luta democrática ou como expressões do direito legítimo à resistência nos moldes liberais, assim como não há qualquer razão em não considerar tais ações como terrorismo, a não ser a ânsia em falsificar a História para preservar antigos mitos políticos.

Nem toda ação contra um Estado ilegal é necessariamente legal. Do contrário, toda ação – explodir prédios cheios de gente e assassinar inocentes, por exemplo – estaria justificada, em nome da luta pela “liberdade”. No caso brasileiro, a luta armada nasceu não da resistência à repressão, ou do endurecimento do regime autoritário, mas de uma opção política feita por setores radicais de esquerda pela revolução violenta e pelo socialismo, opção esta que é anterior à tomada do poder pelos militares. Não reconhecer essa realidade é falsear a História, em nome de uma visão mistificadora com objetivos partidários.

A Lei de Anistia de 1979 perdoou a todos, torturadores e guerrilheiros, tendo surgido de um pacto entre o governo militar, já sem os instrumentos autoritários do AI-5, e a sociedade civil, que começava a reorganizar-se depois de anos de arbítrio. Tratou-se de uma solução negociada, certamente não a ideal, mas a que foi possível alcançar naquelas circunstâncias. O fato de torturadores e assassinos terem sido anistiados não significa que a anistia foi “autoconcedida” pelos militares, visto que os que praticaram crimes de sangue do lado da esquerda também foram agraciados com o benefício do perdão e do esquecimento. Foi isso, bem ou mal, o que permitiu a reconciliação nacional e a redemocratização do País, em última instância.

Isso significa que a redemocratização, no Brasil, foi “extorquida” pelos militares? Não. Novamente: houve um pacto político, um acordo em que ambas as partes concordaram em deixar de lado as feridas do passado e em anular os crimes de cada um. A anistia seria extorquida se tivesse sido unilateral, ou seja, se não tivesse sido concedida também aos opositores do regime. Criada essa situação, porém, qualquer tentativa de rever ou “reinterpretar” a Lei de Anistia para que puna apenas um dos lados só pode ser entendida como revanchismo e levaria, inevitavelmente, a uma situação de anomia jurídica, que teria, certamente, sérias implicações para a ordem democrática. Não há outra solução: ou se mantém a Anistia tal como está, ou ela é revogada e, nesse caso, todos – torturadores e guerrilheiros – devem parar na cadeia.

Todas essas considerações, obviamente, não farão calar o coro dos que, sob a alegação de que tortura é crime contra a humanidade, logo imprescritível, desejam ver a Lei de Anistia revogada ou modificada para punir apenas um dos lados dos “anos de chumbo” – em geral, generais octogenários e nonagenários, já sem nenhuma influência política. Para essas pessoas, o único acerto de contas possível com o passado é o que resulte de uma ruptura revolucionária da ordem política e social - situação em que costuma vigorar não a anistia, mas o paredón. Ruptura esta que foi perseguida pelos que pegaram em armas contra o regime de 64, sob inspiração de regimes políticos em que os opositores jamais tiveram o benefício de qualquer anistia, como o de Cuba. Ao contrário dos militares brasileiros que os combateram, os revolucionários marxistas não conhecem o perdão.

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(1) "Nos primeiros meses de 1964, esboçou-se uma situação pré-revolucionária e o golpe direitista se definiu, por isso mesmo, pelo caráter contra-revolucionário preventivo. A classe dominante e o imperialismo tinham sobradas razões para agir antes que o caldo entornasse." GORENDER, Jacob, Combate nas trevas (5a edição São Paulo: Ática, 1998, p. 73).

(2) "Ao contrário do que sucedeu nas resistências francesa e italiana ao nazismo e mesmo na Revolução Cubana, onde conservadores e anticomunistas se integraram na luta contra a tirania, as organizações armadas brasileiras não tiveram, nem buscaram, adesões fora da esquerda. A sociedade podia não estar interessada em sustentar a ditadura militar, mas interessava-se muito menos pela chegada à ditadura do proletariado ou de qualquer grupo político ou social que se auto-intitulasse sua vanguarda. A natureza intrinsecamente revolucionária das organizações armadas retirou-lhes o apoio, ainda que tênue, do grosso das forças que se opunham ao regime. Eles viam na estrutura da Igreja católica e na militância oposicionista de civis como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães um estorvo no caminho da revolução. Eles, por seu lado, viam na luta armada um estorvo para a redemocratização." GASPARI, Elio, A ditadura escancarada (São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 194).

(3) "A luta armada fracassou porque o objetivo final das organizações que a promoveram era transformar o Brasil numa ditadura, talvez socialista, certamente revolucionária. Seu projeto não passava pelo restabelecimento das liberdades democráticas. Como informou o PCBR: 'Ao lutarmos contra a ditadura devemos colocar como objetivo a conquista de um Governo Popular Revolucionário e não a chamada ´redemocratização´'. Documentos de dez organizações armadas, coletados por Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de Sá, mostram que quatro propunham a substituição da ditadura militar por um 'governo popular revolucionário' (PCdoB, Colina, PCBR e ALN). Outras quatro (Ala Vermelha, PCR, VAR e Polop) usavam sinônimos ou demarcavam etapas para chegar àquilo que, em última instância, seria uma ditadura da vanguarda revolucionária. Variavam nas propostas intermediárias, mas, no final, de seu projeto resultaria um 'Cubão'." Ibid., pp. 193-4.

(4) "Os grupos armados não pretendiam opor, só e fundamentalmente, uma resistência à ditadura. O projeto de guerra de guerrilhas no Brasil era anterior ao golpe de 64; vinha, desde o princípio daquela década, estimulado pelo exemplo da revolução em Cuba. Para não falar nas propostas de revolução armada que vinham de muito antes, na tradição bolchevique, como o levante comunista de 1935, como a linha política do PCB no início dos anos 50 ou, ainda, como os projetos revolucionários comunistas de tendência trotskista." RIDENTI, Marcelo, O fantasma da revolução brasileira (São Paulo: Unesp, 1993, pp. 63-4).

sexta-feira, maio 07, 2010

PT, PARTIDO GOLPISTA E PSICÓTICO


Está no blog de Reinaldo Azevedo, mas se quem lê estas linhas não gosta dele, também está em diversos sites, a começar pelo da Folha de S. Paulo. O PT, partido de Lula e de sua criatura, o boneco de ventríloco Dilma Rousseff, lançou um jornal em que, entre outras coisas, admite seu DNA golpista. O título do texto a seguir diz tudo. Volto em seguida.

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sexta-feira, 7 de maio de 2010 5:33

Escrevo abaixo sobre aquele papo de auto-regulamentação da mídia, um debate que, segundo entendo, tem DNA moral da pior qualidade. Nasce da gritaria petralha. Aliás, “petralha” passaria num conselho, ou a palavra seria considerada manifestação de “preconceito”? E o termo “neoliberal” empregado como xingamento? Liberdade de expressão ou manifestação inequívoca de discriminação? Trato do assunto em outro post. Vamos adiante. A direção nacional do PT editou um jornal chamado “Movimentos”. Quem assina o editorial é o presidente do partido, José Eduardo Dutra.

Lê-se lá, segundo informa na Folha Ranier Bragon:“Os movimentos sociais organizados precisam se manter atentos, pois o ‘ovo da serpente’ está intacto e as mesmas elaborações teóricas, sentimentos de superioridade e defesa de privilégios que animaram os golpistas de 1º de abril de 1964 ainda estão presentes nos corações e mentes da elite”.

E onde estariam os golpistas? A turma de Dutra explica, ainda segundo a Folha:

O texto principal do jornal, de 12 páginas, fala que “os articuladores e reais mentores da ditadura” estão “encastelados em entidades patronais, nos meio de comunicação que a ditadura lhes legou, nos espaços conquistados, graças ao seu servilismo, no Poder Judiciário, no Legislativo e na burocracia dos Executivos”.

“Movimentos” procura ainda associar o pré-candidato tucano José Serra, acreditem, ao ambiente que resultou no golpe de 64. É verdade! Serra era presidente da UNE, foi perseguido e teve de se exilar. Em 1973, teve de fugir do Chile por causa do golpe de Pinochet.

Na página 7, manda ver: “É Dilma ou barbárie”, ecoando, de modo bucéfalo, o “socialismo ou barbárie”, da revolucionária Rosa Luxemburgo. A expressão deu nome a um grupo da esquerda francesa. Como se nota, a palavra “Dilma” está no lugar da palavra “socialismo”. Pode-se entender que ela é o socialismo possível hoje — e a boa notícia, no caso, é que isso dá conta do estado em que se encontra o socialismo…
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Um partido que associa uma das vítimas do golpe de 64 a um ambiente supostamente golpista que haveria no país evidencia que não estamos diante das opções “Dilma ou barbárie”. Nesse caso, sou obrigado a concluir que “Dilma É a barbárie”.

Vamos adiante nos desdobramentos lógicos do jornal petista, assinado pelo presidente do partido. Se o ambiente que temos aí — com liberdade partidária, liberdade de organização, liberdade de expressão, Poderes no pleno gozo de suas prerrogativas e imprensa livre — é golpista, é manifestação prévia da barbárie, então Dilma Rousseff é a opção para acabar com essa bagunça. Os petistas contam com a vitória de sua candidata para pôr um fim a essa zorra. Logo, conclui-se que Dilma está se candidatando a dar um golpe nas instituições, em nome do PT, tão logo isso seja possível.

E vejam lá que o Judiciário também está na mira.

As palavras têm sentido. O PT confessa, com o seu jornal, que a democracia que está aí não lhe serve. Isso faz do PT um partido golpista.

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Voltei
Tachar os adversários - ou os simples críticos - de golpistas enquanto planeja, ela própria, um golpe contra a democracia tem sido uma tática frequente da esquerda psicótica, aqui e alhures. E o PT é useiro e vezeiro nisso. Basta lembrar da conversa mole sobre o tal PIG ("partido da imprensa golpista"), uma invenção do PUM (Partido Unificado dos Mentirosos) para encobrir mensalões e aloprados e, de quebra, tutelar os meios de comunicação. Ou da inversão total da realidade, ao ponto do surrealismo, na questão de Honduras, quando a política externa petista apoiou abertamente um golpista afastado por tentar rasgar a Constituição como se aquele tivesse sido vítima de um... golpe (!).

Nem precisa muito esforço para constatar o tamanho da mentira. Ao mesmo tempo em que chama os outros de golpistas, o PT tenta a todo custo criminalizar a propriedade privada e impor a censura, entre outras preciosidades bolivarianas, no tal Programa Nacional-Socialista dos Direitos Humanos, o PNDH-3. E muitos petistas não escondem seu desapontamento com o fato de Lula não ter conseguido emplacar um terceiro mandato, ao arrepio da Constituição. Lula, aliás, já se queixou publicamente várias vezes do Judiciário - alvo constante dos arreganhos totalitários da petralhada - e não poupa elogios a tiranos como os irmãos Castro em Cuba, já tendo afirmado que na Venezuela "há democracia até demais". Praticamente não passa um dia sem que o governo dos companheiros não invente uma maneira de censurar a imprensa ("controle social da mídia", eles dizem) ou não tente impor uma nova medida atentatória à igualdade de todos perante a Lei ou limitadora da liberdade individual. Entre a militância, já nem há mais pudor em defender abertamente que Lula se torne uma espécie de Fidel Castro, algo que certamente seria de seu agrado. E é essa gente que chama os outros de golpistas! É essa gente que se diz democrata!

Ao forçarem a barra e apresentarem, anacronicamente, a realidade partidária atual como uma espécie de reedição de 64, os petistas cometem um duplo atentado contra a verdade histórica e a lógica: primeiro, mostram tucanos e seus aliados como herdeiros das mesmas forças que tomaram o poder em 64, o que é ridiculamente falso; segundo, tentam se apresentar como os únicos e legítimos defensores da democracia contra quem supostamente quer destrui-la - como se eles, petistas, fossem democratas da gema e o governo de João Goulart, deposto em 1964 por um golpe civil-militar, fosse um primor de democracia. Simplificam e torcem até não mais poder a História, de modo a apresentar seus rivais na própria esquerda - José Serra e o PSDB - como representantes da "elite" e da "direita golpista". E há quem assine embaixo disso!

Trata-se, claro, de um exemplo óbvio de inversão psicótica, uma tentativa evidente de manipulação da realidade. Nesse sentido, proponho um exercício: tente ouvir um petista falar por cinco minutos e conte quantas vezes ele chamou seus adversários políticos de "golpista". Depois inverta, ou melhor, recoloque no devido lugar, o epíteto, devolvendo-o a quem o proferiu. O mesmo vale para todos os outros xingamentos que os esquerdistas adoram atirar em quem não compartilha de suas ideias totalitárias, como "fascista" e "reacionário". O resultado será um retrato perfeito do que são e do que querem os lulistas. Eu garanto: é tiro e queda!
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Os petralhas não perdem a chance de revelar sua natureza antidemocrática e golpista. E o fazem principalmente quando acusam os outros dos mesmos delitos que cometem. Seria somente ridículo, se não houvesse tanta gente que cai, voluntariamente ou não, nessa conversa fiada de stalinistas farofeiros.

quinta-feira, maio 06, 2010

O HORROR, O HORROR


Augusto Nunes cravou o último prego no caixão daquilo que o governo aloprado de Lula da Silva chama, pomposamente, de política externa. Aliás, corrijo-me a mim mesmo: não foi ele quem o fez. Foi o próprio Lula, auxiliado por sua legião de puxa-sacos, que tratou de assassinar qualquer noção de decência no exterior, assim como matou a pauladas e mensalões a moralidade no plano interno.

Dentro de alguns dias, será rezada a missa de 7o dia do Itamaraty. A cerimônia será em Teerã. Os oficiantes serão Lula da Silva e Mahmoud Ahmadinejad.

É o fim. Oremos.

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A ULTRAPASSAGEM DAS ÚLTIMAS FRONTEIRAS DA CANALHICE

Parida por stalinistas farofeiros, avalizada por um presidente ignorante também em geopolítica e executada por um chanceler poltrão, a política externa do governo brasileiro ultrapassou uma das últimas fronteiras da canalhice ao retomar a sequência de agressões a Honduras. Pronto para a viagem ao Irã, em fase de aquecimento para a tarefa de distrair aiatolás atômicos com afagos subalternos e anedotas vulgares, Lula voltou a absolver um governo infame enquanto reiterava a excomunhão de um presidente democraticamente eleito.

O bando de Mahmoud Ahmadinejad fraudou as eleições, reprimiu com ferocidade todas as manifestações de protesto e há meses vem assassinando dissidentes. O presidente Porfirio Lobo candidatou-se por um partido de oposição, foi escolhido pelo voto direto e governa um país sem presos políticos. Mas só merecerá alguma atenção do Brasil quando o ex-presidente Manuel Zelaya voltar a conspirar em Honduras. Só depois disso Lula decidirá se a pequena nação centro-americana terá o privilégio de ver estendida a mão misericordiosa da potência de araque.

O Itamaraty já não se orienta por normais morais. Não existem mais diretrizes regidas por princípios éticos. Existem manobras e jogadas urdidas por sacerdotes da esquerda psicótica, todas engolidas sem engasgos pelo chanceler sabujo. O país que se nega a reatar relações diplomáticas com Honduras é o mesmo que há seis meses festejou a abertura da embaixada na Coreia do Norte.

O governo que enxerga uma tirania em Tegucigalpa é o mesmo que protege o genocida sudanês Omar al-Bashir. O presidente que hostiliza um chefe de governo livremente escolhido pelo povo é o mesmo que chama de “irmão” o sociopata líbio Muammar Khadaffi, ou culpa presos políticos cubanos pela própria morte para inocentar a ditadura mais antiga do mundo.

Não há mais uma política externa brasileira. O Itamaraty deixou de servir aos interesses da nação. Hoje é só um braço do PT no exterior.

domingo, maio 02, 2010

TIRANOS, TREMEI




Vejam que sensacional a campanha da agência publicitária Ogilvy & Matthers, de Frankfurt, Alemanha. Valeu o Prêmio Clio, o Oscar da Propaganda, em 2009. Merecidamente.
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Nas fotos acima, três personagens sinistros conhecidos pela ojeriza à democracia - o sargentão Hugo Chávez (Venezuela), o doido nuclear Mahmoud Ahmadinejad (Irã) e o tirano interino Raúl Castro (Cuba) são mostrados dando chilique diante de um mouse, símbolo daquilo que eles mais temem: a liberdade de informação. É a perfeita combinação de humor e crítica a esses ditadores medrosos, inimigos também do humor, como de toda crítica.
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Falta apenas os cumpanhêru petistas se darem conta do ridículo que passam ao se aliarem incondicionalmente a essas figuras patéticas.
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Genial.
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quinta-feira, abril 29, 2010

A UNIÃO DA MENTIRA COM A SONSICE


Reinaldo Azevedo, mais uma vez, faz picadinho de mais uma tentativa de empulhação dos petralhas. Vejam o que ele escreveu em seu blog sobre a ode que o mistificador Michael Moore escreveu na Time sobre o mito Lula.

E já que é de Michael Moore que estamos falando, é interessante lembrar que sua referência, no texto, à estória - com "e" mesmo - da morte da primeira mulher do Demiurgo tem muito a ver com seu último filme, "Sicko" (não me lembro o título que recebeu no Brasil). Nele, o delinquente político número um dos EUA cai de pau em cima do sistema de saúde pública norte-americano, segundo ele um dos piores, senão o pior do mundo. Em certo momento, para provar que outros países dão muito mais importância à saúde pública do que a Terra de Tio Sam, ele leva um grupo de americanos para se tratar... em Cuba!!! Os turistas, claro, recebem tratamento VIP na ilha-prisão dos Castro. O que Michael Moore não responde é: e se fossem cubanos comuns (nem falo dos dissidentes), teriam tido o mesmo tratamento cinco-estrelas?

É esse tipo de bandoleiro ideológico que assina textos laudatórios a Lula da Silva. E há quem aplauda os dois!

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LULA E MICHAEL MOORE JUNTOS: A PRIMEIRA VÍTIMA É A VERDADE!!!

O perfil biográfico de Lula, QUE NÃO É O PRIMEIRO NA LISTA DA TIME, mas um dos 25 na categoria “Líderes”, é assinado por um especialista em mentiras: Michael Moore. E o que faz um especialista em mentiras? Mente, ora essa!

Convenham: um ex-operário que chega à Presidência tem certamente méritos. Já seria uma biografia bastante incomum. Mas isso não basta. Segundo aquele pudim de fraudes , a primeira mulher de Lula, Maria de Lurdes, morreu de parto, no oitavo mês de gravidez, por falta de assistência médica. Ela morreu no parto, sim. Mas estava sob cuidados médicos, e não há a menor evidência de que tenha sido por negligência. Ocorre que Moore repete o que o próprio petista disse a Denise Paraná no livro que virou o mico do cinema brasileiro: “Lula, O Filho do Brasil”:“Ninguém me tira da cabeça que ela morreu por negligência da rede hospitalar do Brasil, por problema de relaxamento médico. Como ela, morrem milhões sem atendimento neste país”.Lula também já afirmou que os médicos lhe arrancaram o dedo (?) porque acharam que “esse baianinho não precisa dele”. Conhecemos a facilidade com que este senhor ataca a reputação alheia.

Segundo Moore, a morte da mulher por falta de assistência médica foi o que empurrou Lula para a política. Moore está tentando falar do programa de Saúde do presidente Barack Obama nesse caso. Lula é mero pretexto. Até porque, em julho de 1979, o então sindicalista deixou claro em entrevista à revista Playboy o quanto a morte da mulher mexeu com a sua consciência de classe. Nas suas palavras:“Eu gostava muito da Maria de Lurdes. Vivi com ela só dois anos, de 1969 a 1971. Ela morreu de parto, e eu fiquei muito chocado. Perdi a vontade de tudo. Fiquei UNS SEIS MESES bem fodido na vida. Então percebi que estava vivo, não estava morto, não, porra! Aí comecei a cair na gandaia. Meu Deus do céu! Antes de conhecer a Marisa, FORAM TRÊS ANOS DE GANDAIA. Eu queria sair com mulher de segunda a domingo.”

No estilo delinqüente de sempre, adverte o estelionatário intelectual mais influente dos Estados Unidos: “Há aqui uma lição para os bilionários do mundo: permitam que as pessoas tenham uma boa assistência médica, e isso causará menos problemas para vocês”. Huuummm… Moore abre o seu texto imaginando os ricaços brasileiros muito nervosos em seus jatinhos com a iminência da vitória de Lula em 2002. Fato: Lula chamou um dos poucos bilionários brasileiros para ser seu vice: José Alencar!

Segundo Moore, o Fome Zero, que não existe mais, é o maior programa social do mundo. Ele certamente se refere ao Bolsa Família, rebatizado e, de fato, ampliado por Lula, mas não criado por ele. Na oposição, o agora presidente acusava o programa do antecessor de ser caça-votos. Depois de um ano de desastres do seu novidadeiro Fome Zero, desistiu e retomou a herança bendita.

Quando Michael Moore se junta a Lula, não é estranho que a primeira vítima seja a verdade. Quanto à mentira sobre ser o petista “o” mais influente da Time, bem, essa já conta com a ajuda do jornalismo mesmo.
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A CAIPIRICE DOS MEGALONANICOS


Primeiro foi a gritaria dos petralhas, repetida pela imprensa com eles mancomunada: “Lula é o líder mais influente do mundo, segundo a Time”, disseram os mais afoitos, felizes da vida pelo nome do Chefe ter sido lembrado numa revista do istranjêru. Depois, questão de horas, baixaram um pouquinho a bola, quando viram que a lista dos “mais influentes” publicada todos os anos pela revista norte-americana, que neste ano apresenta Luiz Inácio como o primeiro da lista, não segue um ranking, e seu nome só foi colocado no topo por questões editoriais. Enfim, ele não é “o” mais influente, mas “um dos”, segundo a revista, juntamente com figuras como Sarah Palin, Glenn Beck e Nancy Pelosi. Agora, a brochada final: adivinhem quem escreveu o panegírico a Lula na Time? Michael Moore, o cineasta...

Aliás, vale lembrar: “O Cara” é realmente muito influente, o mais influente entre os influentes do mundo. Tão influente que não consegue emplacar seu golpista de estimação numa grande potência como Honduras. Ou frear as maluquices totalitárias do coronel Hugo Chávez. Ou convencer seus amigos Fidel e Raúl Castro a libertarem presos políticos, que ele comparou a bandidos. Um verdadeiro peso-pesado da política mundial. E um gigante moral.

Para que não fiquem dúvidas sobre a grandeza do Guia Genial das Galáxias, cantado em prosa agora pelo mestre do gênero documentário-ficção norte-americano, resolvi traduzir o artigo de Moore na Time. O texto dele vai em vermelho. Meus comentários vêm em seguida.

Quando os brasileiros elegeram Luiz Inácio Lula da Silva Presidente pela primeira vez em 2002, os barões ladrões do país verificaram nervosamente os tanques de gasolina de seus jatos particulares. Eles tinham transformado o Brasil em um dos lugares mais desiguais da Terra, e agora parecia que eles teriam o troco.
De que “barões ladrões” (robber barons) Michael Moore estaria falando? Certamente não os ultra-bilionários banqueiros que encheram as burras graças ao apoio generoso do governo nos tempos de Lula. Seriam os representantes daquela nova classe social, composta de companheiros de partido e da elite sindical, que se apossaram de parcelas significativas do Estado, e que passaram a ser conhecidos como “burguesia do capital alheio”? Não, acho difícil. O mais provável é que Michael Moore esteja aqui apenas exercitando um de seus esportes favoritos: a denúncia demagógica, do tipo “luta de classes”.

Lula, 64 anos, era um genuíno filho da classe trabalhadora da América Latina – de fato, um membro fundador do Partido dos Trabalhadores – que já tinha sido encarcerado por liderar uma greve.
Sim, um genuíno filho da classe trabalhadora – assim como Stálin também era. Ou, para falar de alguém de que Moore certamente já ouviu falar, Nixon. E sim, ele é membro fundador do PT – foi bom Moore ter nos lembrado disso.

A propósito: a tal prisão de Lula, quando ele liderava uma greve, ocorreu em 1980, quando o país há muito já deixara, na prática, de ser uma ditadura, sendo, no máximo, uma ditabranda. Ele ficou 30 dias preso, numa sala da Polícia Federal em São Paulo, sem que lhe tocassem num fio de barba. Num surto de picaretagem, chegou a aderir, contra a vontade, a uma "greve de fome", na verdade um jejum de três dias, que ele suportou, galhardamente, comendo balas Paulistinha que ele havia escondido debaixo do travesseiro. Muito diferente de Orlando Zapata Tamayo, o preso de consciência cubano que definhou até morrer, após 86 dias de greve de fome contra a ditadura dos irmãos Castro em Cuba, e que Lula, em sua infinita sensibilidade e sabedoria, culpou pela própria morte... Esse é Lula, o verdadeiro, não o da fábula contada por Michael Moore.

Quando Lula finalmente ganhou a Presidência, depois de três tentativas fracassadas, ele era uma figura familiar na vida nacional brasileira. Mas o que o levou à política em primeiro lugar? Foi seu conhecimento pessoal de quão duro muitos brasileiros devem trabalhar apenas para sobreviver? Foi ter sido forçado a abandonar a escola depois da 4ª série primária para sustentar a família? Foi ter trabalhado como engraxate? Foi ter perdido um dedo num acidente de fábrica?

Não, foi quando, com a idade de 25 anos, ele viu sua esposa Maria morrer no oitavo mês de gravidez, juntamente com seu filho, porque ele não poderia proporcionar tratamento médico decente.
Hummm... Não sei se Michael Moore assistiu à patacoada hagiográfica Lula, o filho do Brasil, o mais caro e estrondoso fracasso de bilheteria da história do cinema brasileiro. Mas o que ele diz aqui parece ter sido tirado diretamente do roteiro do filme dos Barreto. Segundo diz Moore, Lula teria entrado na política por puro altruísmo, depois de ter perdido a primeira esposa e o bebê, para que todos pudessem ter um “tratamento médico decente” e não passassem pelo mesmo sofrimento. Tocante, não? Seria, se não fosse por alguns detalhes históricos, que Moore estranhamente se omite de citar: quando Lula tinha 25 anos, corria o ano de 1970 (ele nasceu em 1945) - ele entra para o sindicato em 1975. Para a política, mesmo, só entra em 1980, quando funda o PT. Nessa época, ele já estava casado pela segunda vez com uma “viúva jeitosinha”, como ele mesmo disse em entrevista. Nesse meio tempo, tentou se manter afastado da política, só se tornando Lula depois das greves do ABC paulista. Entrou para a política porque, como em tudo na sua vida, surgiu a oportunidade. Inclusive de subir na vida.

Há uma lição aqui para os bilionários do mundo: deixem as pessoas ter bom tratamento médico, e elas vão dar muito menos trabalho para vocês.
Confesso que achei esse parágrafo enigmático. O que MM quis dizer exatamente? Que os “bilionários” devem tratar bem as pessoas, com saúde gratuita e de qualidade, para que elas não se voltem contra eles depois? Mas Lula não é o queridinho dos bilionários branquelos de Davos? Admito que fiquei confuso... Quase tão confuso quanto depois que perdi duas horas assistindo a Fahrenheit 9/11.

E eis uma lição para o resto de nós: a grande ironia da Presidência de Lula – ele foi eleito para um segundo mandato em 2006 e vai exercer o poder até o final deste ano – é que mesmo quando ele tenta impelir o Brasil para o Primeiro Mundo com programas sociais governamentais como o Fome Zero, destinado a acabar com a fome, e com planos de melhorar a educação disponível para membros da classe trabalhadora do Brasil, os EUA parecem cada vez mais com o velho Terceiro Mundo a cada dia.

O que Lula quer para o Brasil é o que costumávamos chamar de Sonho Americano. Nós nos EUA, por contraste, onde os 1% mais ricos possuem mais riqueza financeira do que os 95% mais pobres juntos, estamos vivendo numa sociedade que está rapidamente se tornando parecida com a do Brasil.

MM não perde a chance de fazer sua demagogiazinha. Depois de torcer os fatos até não poder mais em filmes como Fahrenheit 911 – em que praticamente acusa os Bush pelos ataques de 11 de setembro –, ele agora aproveita para destilar seu discurso embolorado de “ricos contra pobres” (com ele, acionista da Halliburton, no papel de porta-voz dos “pobres”, claro...). E arrebata, com ares de quem achou o Messias esperado: “O que Lula quer para o Brasil é o que costumávamos chamar de Sonho Americano”. Mais uma vez: ou ele não sabe quem é Lula ou não tem a menor idéia do que seja o Sonho Americano. Se este significa vencer na vida pelos próprios méritos, sem politicagem nem demagogia, sem parcerias repulsivas, nem culto à própria ignorância, com sentido de ética e decência, com base no compromisso com a democracia dentro e fora de casa, então Lula pode ser qualquer coisa, menos um exemplo do Sonho Americano realizado. Ele é exemplo, sim, para uma legião de oportunistas e carreiristas da política, que a vêem como uma oportunidade de negócios. E para milhões de enganados e iludidos que babam em ver a foto de seu Guia e Líder nas páginas da Time.

Mas numa coisa pelo menos MM tem razão: os EUA estão a cada dia mais parecidos com um país de Terceiro Mundo como o Brasil. Principalmente depois que elegeram um presidente como Barack Obama, a versão afro-descendente do Filho de Dona Lindu.

Mais uma prova de que muita gente nos EUA, inclusive os que escrevem na Time, não tem a menor idéia de quem é Luiz Inácio: na lista dos “heróis”, publicada na mesma edição da revista, constam os nomes, entre outros, de Mir-Hossein Moussavi e de Zahra Rahnavadi, respectivamente o candidato derrotado nas eleições (fraudadas) do Irã no ano passado, vencidas (fraudulentamente) por Mahmoud Ahmadinejad, e uma importante ativista pelos direitos humanos no Irã. O que Lula tem a dizer dessas pessoas? Ele já disse, no ano passado, quando comparou os protestos pela fraude e a repressão no Irã a uma briga de torcidas de futebol. Desde então, Lula vem sendo o mais ardoroso aliado e defensor de Ahmadinejad e de seu programa nuclear secreto "para fins pacíficos". É, Michael Moore, você tem razão: o que Lula quer para o Brasil é mesmo o “sonho americano”. Com a diferença de que a capital dos EUA, agora, mudou-se para Teerã.

Não há limites para a caipirice dos megalonanicos, assim como não há limites para sua mitomania. Mas também, para quem já falsificou até foto de Dilma Rousseff em seu blog oficial, para que ela ficasse com a cara da atriz Norma Benguell nos anos 60, uma mentira a mais não faz diferença.

quarta-feira, abril 28, 2010

INDIVÍDUO, NÃO MANADA


A coisa mais chata que existe é o militante. Ou "militonto", como costumo dizer. Seja de que causa for - nacionalista, vermelho, negro, verde, gay, feminista -, o militante é, sempre, um chato. Um chato que não admite um mundo onde não existam chatos iguais a ele. Um chato incapaz de ter uma visão universal das coisas e que, por isso, insiste em reduzir tudo e todos a guetos e rótulos políticos. Um chato de galochas, o pior tipo de chato - aquele que não se contenta em ser chato sozinho, em guardar sua chatice para si.

Sou, por instinto, radicalmente contrário a reduzir o indivíduo - a coisa mais complexa do mundo, cheia de virtudes e defeitos - a grupos estanques, como se o sujeito, por ter esta ou aquela opção sexual ou gostar deste ou daquele tipo de comida, fosse obrigado, por esse motivo, a só se relacionar com quem tenha os mesmos gostos e opções, ou tentar converter o restante da humanidade às delícias de uma vida gay ou do vegetarianismo. Longe de mim esse cálice, como diria outro muito maior do que eu. Há quem diga, "tenho amigos gays", e encha o peito, posando de "moderno" e "tolerante". Não penso assim. Tenho amigos gays, e inclusive esquerdistas, e sou amigo deles porque são meus amigos, não porque são gays ou esquerdistas. Para mim, amizade não se confunde com gosto ou cor política. Sou contra todas as militâncias, inclusive - aliás, principalmente - a militância disfarçada, diluída num bom-mocismo de telenovela. Sou inclusive contra a militância dita liberal ou conservadora, supostamente pró-indivíduo. Sou um indivíduo, não um carregador de bandeira.

Por que estou dizendo isso? Porque, entre outras coisas de que já fui chamado por parte de quem estava do outro lado do debate, e que não entendeu nada, está o adjetivo infame, "militante". "Militante de direita", para não repetir, aqui, outras coisas que já me disseram quem acha que me conhece melhor do que eu mesmo. E isso porque falo mal do governo Lula e da ditadura dos irmãos Castro em Cuba, entre outras coisas. A "lógica", aqui, é a seguinte: "não é de esquerda? então só pode ser militante de direita!" E aí vem uma torrente de adjetivos carinhosos: "cruzado", "reacionário", "golpista", "agente da CIA", "lacaio de Wall Street" e assim por diante.

Não, bobão! Nada disso! Não sou "militante" de direita, pelo mesmo motivo pelo qual descobri, há uns quinze anos, que não sou militante de esquerda (ou militante de coisa nenhuma). Sou, aliás, o anti-militante por excelência. Descobri, a duras penas, que é a opinião do indivíduo, não a das multidões, a que verdadeiramente importa. Não me chamem para desfilar na rua empunhando uma bandeira ou vestindo a camisa de um partido. Sou um indivíduo, não parte da manada. Prefiro desafinar a fazer parte do coro. Remo contra a corrente. É precisamente esse o significado do nome que escolhi para este blog, "Do Contra". Entenderam?

Concordam comigo? Ótimo, maravilha. Não concordam? Bom do mesmo jeito. Não estou aqui para catequizar ninguém, mas para debater. E debate, ao que me consta, é feito de idéias discordantes e divergentes. Quando duas ou mais pessoas concordam 100% entre si, não há debate, há consenso. E o consenso, na quase totalidade dos casos, é a ausência de pensamento. Não quero que concordem com tudo, nem com a metade, nem com um terço do que eu digo: quero debater. Só isso. E debater é discordar. O consenso total só existe nos cemitérios.

Por exemplo, tenho minhas próprias idéias sobre religião, sexo e política, mas não faço questão de que ninguém concorde com elas. Acontece às vezes de essas idéias, principalmente sobre política, coincidirem com as da "direita" - como indivíduo, não posso ver com bons olhos, por exemplo, um Estado intervencionista e totalitário, tampouco a condescendência com tiranias -, e, nesses casos, já estou acostumado a ser coberto de rótulos pelos militontos esquerdistas e lulistas, eles mesmos especialistas em rotular quem não concorda com suas teses antidemocráticas. Já mandei avisar: se querem me chamar de "direitista" por ser crítico do PT e não esconder de ninguém minha aversão ao comunismo (e a seu irmão gêmeo, o fascismo), podem chamar que eu não ligo. Prefiro isso a ser chamado de pró-totalitário e defensor de Fidel Castro e de Ahmadinejad.

Não é por me colocar no lado oposto dos adoradores de Stálin e Che Guevara que vou deixar de defender certas posições que não coadunam, pontualmente, com o que essa mesma esquerda patrulheira e intolerante convencionou chamar de uma visão direitista ou conservadora. Sou, por exemplo, ateu. Também não vejo como o fim do mundo a adoção de crianças por casais homossexuais. Ou as pesquisas científicas com células-tronco. Nem por isso, porém, vou concordar com absurdos como a criminalização da liberdade religiosa. Nem deixar de denunciar, na medida do possível, as tentativas de policiamento politicamente correto para instaurar uma ditadura mental de gays e outras minorias. Estou sendo contraditório? Não! Estou sendo um indivíduo, ora essa! E um indivíduo age conforme sua consciência, não para ajustar-se ao que outros pensam. Prezo, acima de conveniências ideológicas, a liberdade individual.

A liberdade de pensamento é exclusiva dos indivíduos, sujeitos livres que escolheram ter suas próprias opiniões, não a de grupos, sem medo de desagradar a ninguém. Nesses tempos cada vez mais politicamente corretos, em que ter uma opinião é sinônimo de grosseria e falta de educação, e em que a ânsia de estar de acordo com a maioria e acompanhar o rebanho adquiriu ares de verdadeira neurose e imperativo moral, não há como ser um indivíduo e não estar em minoria. Isso, certamente, não faz de mim um militante. Mas faz de mim um ser que pensa.

terça-feira, abril 20, 2010

É ASSIM QUE COMEÇA


Segundo o PT, esta placa traz embutida uma mensagem política disfarçada...
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Este ano, os telespectadores da Rede Globo não verão no ar o jingle que a emissora carioca preparou para comemorar seu 45o aniversário. Ao contrário do que aconteceu quando ela fez 20, 25, 30, 35 e 40 anos, a televisão do falecido Roberto Marinho não irá veicular qualquer mensagem alusiva a seus 45 anos de existência. O motivo: o coordenador de campanha da candidata petista à Presidência da República, um tal Marcelo Branco, enxergou uma suposta mensagem subliminar pró-José Serra na mensagem da Vênus Platinada.
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Onde estaria essa mensagem disfarçada, destinada maquiavelicamente a influenciar, de maneira sub-reptícia, o subconsciente das pessoas e induzi-las a votar no candidato tucano? No número "45", referente ao aniversário da emissora (o mesmo do PSDB), e na frase "todos queremos mais", que lembra o slogan "o Brasil pode mais", da candidatura Serra. O fato de a campanha da Globo ter sido criada em novembro, antes portanto de qualquer candidatura ou slogan terem sido definidos, não faz qualquer diferença para os lulo-petistas: a campanha da Globo é pró-Serra, já deram o veredicto.

A história já seria absurda e ridícula o suficiente, se não fosse por um detalhe: a atitude da Globo. O que fez a emissora? Protestou energicamente contra essa tentativa esdrúxula de censura? Colocou-se abertamente em defesa da liberdade de expressão? Mandou Marcelo Branco e seus patrulhadores ideológicos para a Cuba que os pariu? Não. Em vez disso, "para evitar polêmica", segundo disse em nota, a direção da emissora resolveu... tirar a campanha do ar!

Isso mesmo: a poderosa Rede Globo, o maior canal de TV do País, cedeu à patrulha da petralhada. "Para evitar polêmica", decidiu autocensurar-se, deixando de mencionar seu próprio aniversário. Isso porque um petista viu propaganda eleitoral anti-PT na comemoração dos 45 anos da emissora (!). Poderia ser qualquer outro número, menos o 45! O 45, não pode!

Ou seja, um canal privado de comunicação, por pressão de um assessor de campanha petista, retira do ar uma mensagem alusiva a si próprio, sem qualquer conotação política. Enquanto isso, o presidente da República é condenado duas vezes pelo TSE por usar a máquina do Estado para fazer campanha antecipada de sua candidata. Os mesmos que rasgam a lei para fazer propaganda eleitoreira exigem que uma emissora particular retire uma campanha do ar por supostamente fazer referência à candidatura adversária! E pior: conseguem que ela seja retirada do ar!

Em outras palavras: a partir de agora, para não melindrar algum eleitor de Dilma Rousseff, as emissoras de TV do Brasil estão proibidas de citar o número 45 em sua programação. Qualquer referência a esse número maldito - o ano do fim da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o calibre de certas pistolas usadas pela polícia ou aquela música de Jorge Benjor, Charles Angel 45 - deverá ser banida do noticiário e de programas televisivos. De acordo com a visão que respalda essa atitude, o fato de a Globo ter sido inaugurada em 1965, completando portanto, este ano, 45 primaveras, só pode ter sido o resultado de uma conspiração contra o PT (que surgiu quinze anos depois, mas isso não vem ao caso, claro). Assim como o fato de não ter comemorado seu 13o aniversário, ocorrido em 1978 (quando o PT só foi criado dois anos depois, mas isso também não é importante: afinal, todos sabem que a Globo é anti-PT...). Agora entendi aquela fixação do Zagallo no número 13: era propaganda do PT! E os 50 anos de Brasília, comemorados esta semana? Propaganda do PSOL, claro!

Tudo isso, para além da palhaçada, da pantomima, é algo extremamente grave. Estamos diante de mais uma tentativa - infelizmente, bem-sucedida - de os petistas pautarem a imprensa, em especial as emissoras de TV, subordinando-as à sua agenda política. Nesse caso, a Rede Globo, que já foi acusada, outras vezes, de ser "contra o PT". Lembrem da edição no Jornal Nacional do debate presidencial no segundo turno da eleição em 1989 entre os então rivais e hoje amigos do peito Collor e Lula: até hoje, há petistas que saem gritando que foram prejudicados por uma suposta edição tendenciosa do debate (era papo de perdedor: Lula foi pior no debate, como se sai pior, aliás, em qualquer debate).

O pior é que, se a Globo pode ser acusada de alguma manipulação, é a favor de Lula e dos petistas. Lembrem do plebiscito do "desarmamento", em 2005: naquela ocasião, a Vênus Platinada colocou todo seu poder e um batalhão de artistas para defender a idéia idiota de que desarmar a população tornaria a sociedade mais segura. O PT e o governo Lula defendiam a mesma coisa. E não me lembro de ter visto nenhum petista dar um pio. Não me lembro de ter visto nenhum Marcelo Branco falar em "mensagem disfarçada" (que nem disfarçada era: era explícita) para "influenciar o eleitorado". Sem falar nas telenovelas, uma subcultura a serviço da boiolice politicamente correta, tão ao gosto dos ideólogos esquerdistas que estão hoje no governo.

A censura está de volta. Ela atende hoje pelo nome de "controle social da mídia", de politicamente correto, de "isentismo", de frescuras e babaquices do tipo. Começa assim. Ninguém sabe como termina. Ou melhor, sabe, sim: com um ditador pendurado, de cabeça para baixo, em um posto de gasolina.
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segunda-feira, abril 19, 2010

LOUCURA NUCLEAR


Em agosto de 1939, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, o gênio da Física alemão Albert Einstein enviou uma carta ao presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, alertando para o perigo das novas tecnologias que, descobrira-se então, permitiriam a construção da bomba atômica. Einstein, que era judeu, estava particularmente preocupado com a possibilidade de a Alemanha nazista ter acesso à nova tecnologia nuclear e a reservas de urânio para construir um artefato atômico. Os EUA deveriam sair na frente, antes que os seguidores de Hitler o fizessem, disse.

Essa passagem da vida de Einstein, convenientemente expurgada por muitos de seus admiradores, que o transformaram nas décadas seguintes em ícone do pacifismo (ele mesmo se considerava um pacifista, e chegou a ser investigado pelo FBI por suas idéias supostamente socialistas), é bastante didática. O fato de considerar a si mesmo um pacifista e ser, após a Segunda Guerra, um defensor ardoroso do fim das armas nucleares não impediu o cientista alemão naturalizado norte-americano de ter sido um dos defensores do Projeto Manhattan, assim como não o impediria de ser convidado a assumir a presidência do recém-criado Estado de Israel, em 1948 (algo que muitos de seus admiradores atuais também ignoram). Mas o mais importante: não o impediu de, diante da ameaça representada pelo totalitarismo nazista, reconhecer o perigo que regimes antidemocráticos com armas atômicas representam para a humanidade - e a necessidade de detê-los.

Em outras palavras: Einstein era pacifista, mas não era estúpido. Ele sabia, mesmo não sendo diplomata (ou, provavelmente, por causa disso), que nem todos os governos estão interessados na paz. Sabia, talvez instintivamente, que a idéia da igualdade de todos os Estados perante o direito internacional, um dogma das relações exteriores, é, em princípio, irretocável, mas, confrontada com a realidade do poder, pode ser muito perigosa. Entre uma Alemanha nuclearizada e os EUA, ele não titubeou em escolher o último. E ninguém pode dizer que ele fez a escolha errada.

Digo ninguém, mas em termos. Porque, se depender da política externa do governo Lula, Albert Einstein estava errado. Se depender de Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, Einstein deveria não ter apoiado o projeto nuclear norte-americano, mas o alemão. Ou os dois. Como se houvesse equivalência moral entre os EUA e o nazismo.

Refiro-me, claro, à questão do Irã, que o governo Lula transformou em verdadeira cause célèbre (ou melhor: em cause infame). O mundo inteiro, os EUA à frente, querem impedir que o Irã, um regime teocrático liderado por um louco que, assim como Hitler, odeia os judeus e quer varrê-los do mapa, tenha acesso à bomba. O mundo inteiro, Rússia e (em menor escala) China inclusive, defendem sanções contra o Irã, que vem há anos impedindo o acesso de inspetores da AIEA a suas instalações nucleares. O mundo inteiro, menos o Brasil. Menos Lula e Celso Amorim.

Na semana passada, Lula voltou a defender o diálogo com Mahmoud Ahmadinejad, que já mostrou que não quer diálogo com ninguém. Coerente com sua tese de que a paz no Oriente Médio deve ser alcançada conversando com quem a quer e também com quem não a quer, o Demiurgo se opõs às sanções da ONU contra o Irã na Conferência sobre Segurança Nuclear em Washington. Num gesto de reconhecimento da grande importância conquistada pelo Brasil no cenário internacional durante o governo Lula, Barack Obama concedeu a "o cara" três minutos de sua agenda para que este o convencesse de que deixar de pressionar Ahmadinejad é a melhor maneira de fazê-lo desistir de seus planos genocidas. Mais tarde, durante as Cúpulas do IBAS e do BRIC, em Brasília, o Guia Genial aproveitou para retomar essa idéia.

O que leva Lula e o Itamaraty a atuarem de forma tão veemente como advogados de Ahmadinejad? A resposta, em parte, está no apego ao fetiche da "igualdade dos Estados". O governo Lula não esconde que vê com maus olhos o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), ao qual o Brasil aderiu em 1998, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Isso porque o TNP é considerado, por uma visão terceiro-mundista que voltou a ter força no atual governo, um acordo discriminatório, uma espécie de "clube das grandes potências" que asseguraria para estas o monopólio da energia nuclear para fins bélicos e excluiria os países em desenvolvimento. "Não podemos aceitar que se arme os armados e se desarme os desarmados", dizia o ex-chanceler do governo Geisel (1974-1979), Azeredo da Silveira. "Somos favoráveis a que um país disponha de armas nucleares para fins pacíficos, como a dissuasão", afirmou o vice-presidente do governo Lula, José Alencar, torcendo completamente o sentido das palavras "armas nucleares" e "fins pacíficos".

"É preciso acabar com as armas atômicas em todos os países", gosta de repetir Lula, sempre que o assunto do Irã vem à baila. À primeira vista, uma atitude bastante lógica, pacifista, louvável até. O problema é que esse discurso não se dirige ao Irã, que tem um programa nuclear secreto, ou à Coréia do Norte, que teve um durante décadas, mas aos EUA, aos que já têm a bomba. Seu significado nas entrelinhas é o seguinte: "Se os EUA têm a bomba, por que o Irã não pode ter?". Há um mês, EUA e Rússia assinaram um acordo de redução de armas nucleares. O Irã, por sua vez, não dá qualquer sinal de que irá desistir de um artefato atômico, nem de seu propósito declarado de transformar Israel num monte de escombros. Ou seja: os armados estão se desarmando, mas os (até agora) desarmados, não. E, no caso, o "desarmado" é um país governado por um sujeito que jurou destruir outro país, exterminá-lo, varrê-lo do mapa. Algum problema para Lula? Não, nenhum.

A igualdade dos Estados é uma idéia aparentemente muito boa, mas está sendo usada como álibi para a proliferação nuclear. O que é pior: disfarçada como "desarmamento de todos". Em nome da igualdade dos países e do pacifismo, o governo Lula está abrindo o caminho para uma tragédia no Oriente Médio. Seu discurso não é da paz: é da guerra. É o discurso da loucura, da intolerância, do fanatismo, da barbárie. Albert Einstein já sabia disso.

EM MÁ COMPANHIA


Vejam um momento da política brasileira.
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Um já foi. Agora só faltam 199.999...
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"Dize-me com quem andas e eu direi se vou contigo" (Aparício Torelly, o Barão de Itararé)
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A OPÇÃO POR PARCERIAS REPULSIVAS

Por Augusto Nunes

A retrospectiva da sequência de espantos desencadeada em 2003 informa que existe lógica na loucura aparente da política externa. Em pouco mais de sete anos, o governo brasileiro foi confrontado com numerosas escolhas: a Venezuela bolivariana ou os Estados Unidos, os narcoterroristas das FARC ou o presidente reeleito Alvaro Uribe, o psicopata Muammar Khadaffi ou o Tribunal Internacional de Haia, a ditadura dos irmãos Castro ou os presos de consciência, o terrorista italiano Cesare Battisti ou os pugilistas cubanos Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux, o golpista Manuel Zelaya ou a Constituição hondurenha, o genocida Omar al-Bashir ou o Darfur dilacerado. Coerentemente, errou todas. Errou outras. E vai continuar errando, avisa a infame aliança com o Irã.

A opção preferencial por parcerias repulsivas torna a associação com os aiatolás atômicos tão inevitável quanto um drible de Garrincha. Entre o primitivismo e a civilização, entre Mahmoud Ahmadinejad e Barack Obama, a escolha feita por um Itamaraty redesenhado pela Era da Mediocridade só reafirmou que de onde menos se espera é que não vem nada mesmo. Formulada por nostálgicos do stalinismo sem compromisso com valores democráticos, avalizada por um presidente sem compromisso com valores morais, a política externa atende à vaidade de um governante na fronteira da mitomania, serve aos desígnios do PT e não tem compromisso com o Brasil.
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Lula convive em fraternal promiscuidade com gente que o insultou, como Fernando Collor, ou que ofendeu gravemente, como José Sarney. Não há por que sentir-se constrangido na lida com abjeções que a esquerda psicótica reverencia. Como não sabe sequer se Karl Marx é um daqueles irmãos do cinema, como não leu uma única orelha de livro sobre geopolítica, contraterniza com todas as peças ─ principalmente revolucionários de galinheiro ─ do populoso museu dos desprezíveis administrado por Marco Aurélio Garcia, Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimarães e outros comissários que garantem o crachá de conselheiro internacional com declarações de guerra ao imperialismo ianque.
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“Não conheço nenhum presidente que não tenha apertado a mão de um ditador”, alega o chanceler de bolso. Conversa fiada de um diplomata deformado pela alma subalterna, pela compulsão para a vassalagem, pelo servilismo que protege o emprego. É verdade que todo presidente vive exposto a shake hands constrangedores. Mas Amorim sabe desde sempre que Lula ultrapassa com muito prazer o aperto de mão protocolar. Nenhum governante que se declara democrata troca cumprimentos efusivos com apóstolos da infâmia como Khadaffi ou Fidel Castro. Só Lula.
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Só Lula nega a presidentes eleitos democraticamente, como o hondurenho Porfirio Lobo e o chileno Sebastián Piñera, o abraço que conforta o golpista Manuel Zelaya ou anima o ditador aprendiz Hugo Chávez. Só Lula incumbiu um ministro de Estado de entregar a Ahmadinejad, ambos com sorriso de comparsa, a camisa da Seleção Brasileira. Só Lula ousou rebaixar os oposicionistas iranianos que protestavam contra a imensa fraude eleitoral a torcedores inconformados com a derrota do time. Só Lula comparou presos políticos aos bandidos das cadeias de São Paulo.
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O presidente Fernando Henrique Cardoso foi o condutor das negociações que encerraram o sangrento conflito fronteiriço entre o Peru e o Equador, e nem por isso posou de especialista em impasses internacionais. Lula não deu um pio para ao menos abrandar a crise gerada pela construção de fábricas de celulose uruguaias na divisa com a Argentina. Mas resolveu nomear-se consultor-geral do mundo e liquidar com quatro conversas, três improvisos e duas piadas os becos sem saída do Oriente Médio.
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A política externa de um país democrático atende aos interesses nacionais. Se atende aos interesses do chefe de governo ou de um partido, então não há democracia. Essa regra encontrou no Brasil uma perturbadora exceção. Por enquanto, não existe um tirano, nem foi instituído o regime de partido único. Mas há mais de sete anos o Itamaraty só faz o que o PT propõe e Lula endossa.
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As ações internacionais escancaram a alma do presidente e a cabeça do partido. Lula é um animador de auditório, deslumbrado com plateias de áulicos, auditórios amestrados ou encontros de governantes que não compreendem português. O PT é a cara dos parceiros que escolhe. Todos infelicitam países que são hoje o que a companheirada quer que o Brasil seja amanhã.

sexta-feira, abril 09, 2010

AS CHUVAS E A POLITICAGEM


Uma das coisas mais nojentas que existem é a tentativa de politizar desastres naturais. Mesmo que não sejam tão naturais assim. Como a chuva torrencial que desabou sobre o Rio de Janeiro nesta semana - e que já deixou, segundo as últimas contagens, mais de 180 mortos. É por isso que as declarações de Lula e sua turma nesses dias exalam a esgoto.

A tragédia no Rio provocou uma onda de pesar e solidariedade raras vezes vista antes no Brasil. Jornalistas, políticos, artistas, todos enfim, demonstraram um ar compungido e de respeito às vítimas, no melhor espírito "somos todos cariocas (ou fluminenses)". De repente, todos pareceram se unir, concentrando-se no socorro aos desabrigados e deixando a política de lado, como os americanos depois do 11 de setembro. E isso é muito bom. É algo extremamente louvável. Tragédias como a do Rio não devem mesmo ser exploradas politicamente por ninguém. Quem o fizer deve ser execrado em praça pública e expulso da convivência com gente decente. Mortos não têm partido.

Exatamente por isso, a pergunta que fica no ar é: por que essa atitude serena, equilibrada, "isenta", não foi adotada por muitos que hoje choram os mortos no Rio quando das chuvas que atingiram São Paulo, há apenas algumas semanas? Por que ninguém disse, então, "agora, somos todos paulistas"?

Em São Paulo, choveu durante 47 dias ininterruptos, e o número de mortos foi bem menor do que os mais de cem que morreram no Rio (detalhe: em apenas UM DIA de temporal). Mesmo assim, petistas e assemelhados deleitaram-se com o episódio, mal contendo a alegria em atacar a "incompetência" e a "negligência" do prefeito Kassab e do agora ex-governador José Serra, em busca de dividendos eleitorais. A mesma atitude serena e compungida que os petistas e seus aliados na imprensa demonstram agora em relação aos mortos no Rio não tiveram em relação aos mortos de São Paulo. Será que é porque São Paulo é governada por tucanos e o Rio por aliados de Lula e Dilma Rousseff? Não, isso seria pensar muito mal dessa gente boa e honesta, não é mesmo?

O pior é que motivo para acusar a irresponsabilidade das autoridades lulistas na catástrofe fluminense é o que não falta. Um dia depois de um barranco desabar em Niterói e deixar mais de 200 pessoas desaparecidas, soterrando casas que haviam sido construídas em cima de um lixão (com conhecimento da prefeitura), os jornais noticiam que o governo Lula transferiu nos últimos tempos, via Ministério da Integração Nacional, algo como 64% do orçamento em "ajuda de emergência" para a Bahia, cabendo ao Estado do Rio de Janeiro 0,9% do total. O Ministério da Integração Regional, a quem cabe, entre outras atribuições, lidar com calamidades, era comandado até a semana passada por Geddel Vieira Lima (apelido: "agatunado"), que vem a ser baiano e está de olho na cadeira de governador do Estado nas eleições deste ano. O atual governador da Bahia, por sua vez, é Jaques Wagner, do PT. Lula reagiu à notícia da maneira que lhe é peculiar: chamou-a de "leviandade", considerando-a, certamente, uma tentativa calhorda de se politizar uma questão que deveria estar acima de picuinhas eleitorais. É, Lula, você tem razão. Calamidades como a do Rio devem mesmo estar acima de considerações políticas. Pergunte a Geddel Vieira Lima.

Mas, pensando bem, por que se surpreender com mais essa tragédia anunciada, tornada ainda mais grave e revoltante pela leviandade petista? Afinal, esse é o mesmo governo que considerou uma "intervenção imperialista" a pronta ajuda dos EUA às vítimas do terremoto no Haiti, transformando o desastre numa ocasião para uma disputa mesquinha com Washington em nome do "protagonismo internacional", não foi?

Nem São Pedro escapou da policanalhada lulista. Ninguém está a salvo.
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PARA PENSAR


(ler primeiro o post anterior)

Para quem ainda não entendeu direito o que eu quis dizer em meu último post, aí vai um pequeno exercício.

Suponha que apareça alguém se dizendo totalmente neutro, imparcial, isento e sem preconceitos em política. Alguém que se declara pós-moderno, niilista, que não acredita em fatos, mas em interpretações etc.

Diante de regimes como o comunista, esse alguém não esconde sua total condenação ao Gulag e ao paredón. Revela-se um inimigo feroz e implacável do totalitarismo stalinista e suas variantes.

Perante o regime nazista, porém, essa mesma pessoa muda subitamente o discurso: não quer emitir nenhum juízo de valor, defende a neutralidade e a imparcialidade. Instado a tomar partido, enche-se de dedos e, pisando em ovos, recusa-se a "demonizar" Hitler e seus seguidores, adotando uma postura ambígua. Vai mais além, e considera a condenação ao nazismo um anacronismo histórico, um "resquício dos anos 30".

E aí? O que vocês diriam?

Entenderam o que eu quis dizer com "atitude intelectualmente desonesta"?
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segunda-feira, abril 05, 2010

A ARTE DE TERGIVERSAR


Estive, por esses dias, no site de um conhecido meu, o Pablo Capistrano, com quem costumo - ou costumava, se depender dele - debater às vezes. Na verdade, "debater" é forma de dizer, porque, como vocês verão, Pablo não é muito de debate. Mesmo assim, como sou um chato, fui lá cutucar e deixar meu recado. O assunto era o Irã. Fiz uma provocação inicial, afirmando que, se Israel atacasse o Irã, estaria no seu direito, devido às intenções declaradas de Ahmadinejad de varrer Israel do mapa etc. Até aí, nada demais. O problema foi quando Pablo respondeu o comentário de um amigo dele, um certo Robson. Aí a coisa desandou.

Robson trouxe a discussão para o plano interno, e chegou, inevitavelmente, ao assunto "eleições presidenciais", com um viés claramente pró-petista, senão claramente petista. Ele mencionou os "analistas conservadores" como os colunistas da VEJA e até Arnaldo Jabor (que nem conservador é), que se aproveitariam de fatos como a recente visita desastrosa de Lula ao Oriente Médio para criar "factóides" contra o governo etc. Aí é que veio minha surpresa. Em sua resposta, Pablo não apenas corroborou essas afirmações, como também mencionou um suposto "partido da imprensa golpista" (PIG), uma invenção da esquerda chapa-branca.

Fiquei intrigado. "Pablo é um cara inteligente, não deve ter dito isso a sério", pensei. Mandei, então, outro comentário, no qual deixei claro meu espanto e fiz questão de relacionar a política externa lulista - o tema em debate - com a opção ideológica pró-ditaduras do governo Lula. Fui mais além, e citei o Foro de São Paulo. Quão maior não foi minha surpresa quando vi Pablo, um sujeito descolado, que se diz relativista e pós-moderno, autor de dois livros e professor de Filosofia, dizer que o Foro de São Paulo é algo assim como uma ficção criada por mentes paranóicas, comparável aos "Protocolos dos Sábios de Sião"...

Aquilo foi demais para mim. Como um auto-proclamado relativista, que, em suas próprias palavras, não acredita em "fatos", mas em "interpretações", encara o PIG como uma verdade objetiva e o FSP como um delírio? Passei a importunar Pablo com essa pergunta. A cada comentário que eu mandava, apontando esse duplo padrão, eu recebia não uma resposta, mas uma tergiversação de sua parte. "Você não entendeu o que eu disse", ou "Não enxergo a realidade com base na dicotomia esquerda-direita", eram as respostas de Pablo. Para mim, ficou cada vez mais claro que Pablo estava se amparando numa visão seletivamente relativista (o que é uma contradição) para não dizer abertamente sua preferência ideológica.

Para encurtar a história, que é bem longa: outro leitor, o David, mandou uma mensagem ao Pablo afirmando que, assim como eu, ele também achava que Pablo era um esquerdista, mas um que não "saía do armário". Ao contrário de Pablo, David se declarava abertamente de esquerda, e reproduziu em seu comentário algumas platitudes esquerdistas. Então mandei o seguinte comentário (com as intervenções de Pablo em vermelho):

***
Bom, vamos lá. Talvez não adiante nada, mas é sempre bom marcar posição.

David, eu sei de que lado Pablo está. Ele também sabe. A diferença é que ele não assume. Esta é a nossa diferença.

Você diz não gostar de rótulos, mas que não consegue “enchergar (sic) democracia, liberdade, ou respeito aos direitos humanos no sistema capitalista, no governo direitista, conservador, no neoliberalismo” etc. etc. Ok, respeito essa sua opinião. Respeito mais ainda sua coragem de dizer isso abertamente, no que você difere do Pablo. Apenas me diga, então: que país não-capitalista, não-direitista, não-conservador, não-neoliberal (sic) é ou foi um dia, ao mesmo tempo, uma democracia política, com liberdade de expressão e de consciência? Por favor me responda, se puder.

Não gosta de vendedores? Eu também não gosto. Gostaria menos ainda se eu não tivesse a liberdade de escolher comprar ou não, e de quem comprar. Em regimes totalitários, como o comunismo, essa liberdade, assim como todas as outras liberdades individuais, simplesmente não existe. Acho que você já ouviu falar na URSS, não?

Mas estou perdendo meu tempo. Nem vou tentar rebater o que diz o David. Quem defende estrovengas totalitárias como a CONFECON – uma clara tentativa de tutelar a imprensa, à moda chavista –, chama de “prática necrófila" o uso legal da força pelo Estado democrático de direito contra grevistas baderneiros, afirma que chamar os criminosos do MST de criminosos é “criminalizar os movimentos sociais” e admira Cuba como “exemplo de respeito à dignidade humana” (???!!!) não precisa de resposta, precisa de ajuda psiquiátrica. Mas um mérito pelo menos ele tem: ele não esconde o que pensa sob a capa de uma retórica relativista. A visão do David é míope, eu diria mesmo cretina e idiota, mas é pelo menos honesta. A sua, Pablo, não tem sequer esse mérito. Eu sou carne e o David é frango, mas vc prefere ser chester.
( Intervenção do Pablo: È uma pena Gustavo que você tenha que apelar para esse exediente em uma argumentação. Esse tipo de desqualificação chula empobrece mais ainda seu pensamento)

Entendo, Pablo, que você não queira assumir globalmente nenhuma legenda. Você é que não entendeu, ou finge não entender, que minha crítica não é ao fato de você se declarar um relativista, niilista, heideggeriano etc.: é, sim, ao fato de você restringir esse relativismo a um lado apenas. Vou repetir apenas um exemplo que dei.

Falei do Foro de São Paulo, uma entidade real, cuja existência e fins estão amplamente documentados, que foi criada por Lula e Fidel Castro em 1990. Trata-se de um fato, portanto algo cuja existência está além da sua ou da minha vontade. Você disse que o FSP é uma ficção comparável aos “Protocolos dos Sábios de Sião”. Disse também que o “PIG” (“partido da imprensa golpista”) é uma realidade. Segundo essa sua “interpretação”, seletivamente relativista, o FSP não existe, mas o PIG, sim. Ou seja: um fato não lhe agrada, e você diz que ele não existe. Se ele for conveniente a uma certa visão ideológica, que é a sua, mas que você não ousa dizer, então é verdadeiro.

Lembro que alguns anos atrás tive com você um debate interessante sobre Cuba. Recordo que deixei bem clara minha opinião (“interpretação”, você diria) sobre o tirano Fidel Castro e como ele arruinou um país e hipnotizou gerações inteiras de idiotas latino-americanos. Deixei claro que condenar a ditadura castrista era uma obrigação moral de qualquer pessoa decente e humanista. Sua resposta: “não quero dar uma opinião sobre isso” (lembro que você até comparou o debate sobre Cuba a uma dispura entre vascaínos e flamenguistas…). Comentei em meu blog sobre a questão, e fiz a pergunta: se fosse Pinochet, e não Fidel, você diria que a condenação à ditadura é ou não uma obrigação moral? Até agora não tive resposta.

Isso, Pablo, chama-se duplo padrão moral. Uma atitude intelectualmente desonesta, para dizer o mínimo.
(Intervenção do Pablo: Acho que aqui também você perdeu um pouco a compostura e me agrediu em um sentido que ultrapassa as ideias. Ao me considerar intelectualmente desonesto você atenta de certa forma contra a minha honra e minha integridade moral. Gostaria de um pedido de desculpas, tendo em vista que eu nunca atentei contra a sua integridade moral em nossas discussões)

Em outras palavras: condenei e condeno ambos os ditadores, jogo lama, cuspo neles. E você, pode fazer o mesmo? E se condena um, por que não condena o outro?

Veja que eu até admito que você não condene nenhum dos dois, e se feche em copas numa torre de marfim filosófico-relativista. O que não dá para entender é considerar a condenação de um deles uma obrigação moral (o que de fato é), mas a de outro, um “extremismo de direita”, “resquício da guerra fria” etc.

O mesmo pode ser dito do nazismo e do comunismo. Para mim, são ambas ideologias totalitárias e anti-humanistas. Condeno-as com igual fervor. E você?

Você diz que concorda com algumas coisas e com outras não, como se a realidade fosse uma espécie de supermercado em que se poderia escolher essa ou aquela posição, ter esse ou aquele ponto de vista, fazer uma salada, e isso não teria nenhuma conseqüência. Talvez por você ser filósofo, você acredita que as idéias podem ser reduzidas a um nível totalmente abstrato de subjetividade, sem qualquer peso na realidade. Acontece que elas têm peso, sim. Por mais que se tente fugir da realidade, ela sempre termina nos alcançando.

Seus elogios ao governo Lula, em especial à sua política social “melhor do que a de FHC”, demonstram claramente uma preferência ideológica de sua parte. Somente alguém comprometido ideologicamente com um viés estatista e antiliberal poderia criticar um governo por “vender o patrimônio público a preço de banana” (o que é, aliás, uma tremenda balela) e rasgar seda para um governo que transformou o assistencialismo e o coronelismo em políticas oficiais. Sem falar que, no que diz respeito à política externa lulista, o caso do Irã é apenas um entre tantos outros (cito Cuba, Venezuela e Honduras, para ficar nos mais importantes), que seguem um padrão ideológico.

Repito: o que não “entendo” é como alguém que se diz relativista só o é para a esquerda, e não para a direita.

Não é preciso “adotar uma visão de mundo e um conjunto sistemático de crenças” para ter uma opinião minimamente coerente. Basta ter honestidade intelectual. Eu, por exemplo, não concordo 100%, talvez nem 50%, com o que dizem pensadores conservadores e de direita em alguns temas (religião, por exemplo). Mas nem por isso deixo de me identificar como liberal-democrata, anti-estatista, anti-comunista, pró-liberdade e direitos humanos. Isso porque, mais do que as diferenças que me separam desses autores, sou unido a eles por um denominador comum político e moral – a defesa da democracia e da liberdade individual, valores universais. Adotar uma postura relativista a respeito desses valores, a meu ver, é o mesmo que negá-los. E isso SIM corresponde a uma visão de mundo – a visão de mundo pró-totalitária.

Não sou “absolutista” (a partir de agora vou adotar o rótulo, pois minha visão sobre liberdade é mesmo absoluta e não admite relativizações) porque eu teria dificuldades em compreender “como alguém pode ter interpretações sem usar um dos dois sistemas de crenças que ele [eu] conhece (direita e esquerda)”. Parece que aqui você, Pablo, é que não entendeu o que escrevi. Lendo o que você diz, fica parecendo que não consigo enxergar nada além da dicotomia direita-esquerda. Não é nada disso. Tudo que venho dizendo é que é possível, mesmo sem ser “de esquerda”, referendar as posições identificadas com essa corrente ideológica. Basta relativizar, por exemplo, a realidade de regimes como o cubano, o que você, Pablo, faz à larga. (Certamente você, Pablo, não conhece as expressões “inocente útil” e “companheiro de viagem”.) Sem falar que, se formos adotar as definições clássicas de direita e esquerda, eu estaria à sua esquerda, pois considero o regime teocrático iraniano uma aberração, enquanto você tem uma “interpretação” diferente e mais condescendente em relação à tirania dos aiatolás.

Não Pablo, não acho que você seja um “esquerdista enrustido”. Pelo que você tem escrito, você não é enrustido: é de esquerda mesmo. Só que, sabe-se lá por quê, não tem coragem ou disposição de dizê-lo francamente. E se ampara no relativismo para fugir a essa realidade. Só que você se trai, quando o cacoete esquerdista se manifesta na forma seletiva com que você trata, com base numa visão relativista, regimes “de esquerda” e “de direita”. Você já caiu nessa contradição diversas vezes.

A diferença entre minha posição e a sua é que eu não me escondo por trás desse palavreado. E tenho, sim, consciência do mecanismo que me leva a pensar dessa forma. Já quanto a você, não tenho certeza.

Não acho nosso debate frustrante. Pelo contrário: acho que está sendo bastante revelador. Pelo menos para mim, está sendo bastante elucidativo.
Intervenção do Pablo: Gustavo, você não tem um interesse real de compreender o que eu escrevo. Você lê e distorce o que eu escrevo para encaixar meu texto naquilo que você pensa sobre minhas ideias. Não há interesse real seu em compreender minha posição. Você precisa me reduzir e me simplificar para que eu possa fazer sentido justamente a esse sistema de crenças que você adota. Até ai tudo bem, mas acho que nesse seu comentário você cruzou um limite que eu não gostaria que fosse ultrapassado nesse site. Você me acusou de ser desonesto intelectualmente (isso me ofendeu). O que de certa forma torna nossa discussão inutil, porque se eu sou intelectualmente desonesto não adianta nada que você escreva aqui nem é interesante que você perca seu tempo me lendo. acho que uma atitude coerente sua seria assumir que não se pode nem se deve dialogar com gente intelectualmente desonesta porque um dos pressupostos para uma discussão justa e construtiva é a confiança na honestidade intelectual dos interlocutores. Se isso não acontece é inútil continuar conversando. Uma sugestão seria a de um pedido formal de desculpas ou que você poderia responder a meus textos em seu blog, agindo de modo a desmascarar para seus poucos leitores essa minha “desonestidade intelectual”. Como eu sou filho de sertanejos e aprendi que não se deve onfender os anfitriões em sua própria casa espero que você reveja sua posição em relação a isso. Que a paz te acompanhe e boa sorte na sua cruzada

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Como vocês viram, Pablo fez algumas intervenções em meu texto. Mandei então outro comentário. Por algum motivo, porém, ele foi retirado de seu site:


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Pablo,

Você ignorou praticamente toda minha resposta a você e ao David, e preferiu se concentrar em algumas palavras que você julgou pessoalmente ofensivas. Tudo bem, é um direito seu não ler o texto todo, assim como é seu direito interpretá-lo da maneira que lhe for mais conveniente. Mas, por favor, não coloque palavras – nem intenções – em minha boca.

É uma pena que você não conheça a expressão “eu sou carne e fulano é frango, mas beltrano prefere ser chester”. Francamente, não vejo em que ela pode ser ofensiva. É uma metáfora usada comumente em política, sem qualquer conotação pejorativa (a menos que ser “chester”, “carne” ou “frango” tenha algum significado depreciativo oculto). Mesmo retirada do contexto, como é o caso, não se trata de uma forma de desqualificar nada nem ninguém, muito menos chula. Se você tem essa “interpretação”, paciência. Demonstra apenas que você não está acostumado a debater.

Pablo, você disse que eu perdi a compostura e lhe agredi em um sentido que ultrapassa as idéias etc. Sugiro que você releia o que escrevi. Primeiro, eu NÃO disse que você é intelectualmente desonesto. Disse que você tem uma atitude intelectual – é relativista para uns e não para outros – que só pode ser encarada, segundo uma interpretação que não é somente minha, como um DUPLO PADRÃO político e moral, e que essa, sim, é uma ATITUDE DESONESTA. Afirmei inclusive que isso se deve, creio eu, a um ranço ideológico de sua parte, e não à uma desonestidade pessoal, sua. (Aliás, o fato de eu estar aqui escrevendo demonstra que acreditei em sua honestidade intelectual.) Em nenhum momento julguei você como pessoa: julguei essa sua atitude. Dei exemplos bem concretos para demonstrar a forma seletiva como você emprega o discurso relativista (O Foro de São Paulo, Cuba etc.). Se isso é atentar contra sua “honra” e “integridade moral”, então qualquer debate de idéias para você é uma briga de rua e deve ser resolvido na ponta da peixeira. Francamente, não vejo por que eu deveria pedir desculpas por expor o que penso sobre uma atitude intelectual. Desculpar-me? Por quê? Por eu desprezar todas as ditaduras e você apenas algumas?

Pablo, você tem todo direito de achar que não tenho interesse em entender o que você escreve etc. e tal – o que é uma forma de me chamar de intelectualmente desonesto, mas não ligo –, e realmente tenho dificuldade em entender um pensamento que cultiva a ambigüidade, mas somente para certos casos. Não sei se você percebeu, mas minha crítica a você não é por você ser relativista, mas, exatamente o contrário: é por você NÃO SER relativista para TODAS as situações (ou seja: por não mostrar coerência). Apontei as contradições no seu pensamento, quis provocar um debate, mas você, pelo visto, é que não tem qualquer interesse em levá-lo adiante. É uma pena, pois, até agora, ao contrário do que você escreveu, eu acreditava na sua disposição intelectual em fazê-lo. Se você se ofende com argumentos, isso mostra que é inútil mesmo tentar debater com você. Sobre qualquer assunto.

Quanto a mim, não me ofendo se me chamarem de reacionário, direitista, agente da CIA, lacaio de Wall Street etc., ou qualquer desses epítetos que os esquerdistas usam para desqualificar quem ousa pensar diferente. Até mesmo se enveredarem pela ofensa pessoal e gratuita, eu não me importo. Aprendi que ofensas pessoais e adjetivação “ad hominem” se respondem com argumentos e idéias, não com demonstrações de suscetibilidade arranhada e exigências de desculpas.

Mas OK, já entendi que não sou bem-vindo aqui, em sua “casa”. É difícil debater com quem se ofende com argumentos, e acho que não vale a pena insistir. Essa sua última mensagem mostrou que corro mesmo o risco de ficar falando sozinho aqui. Quanto a mim, meu blog está aberto a que você comente meus posts e coloque seus pensamentos. Pode até me xingar, se quiser. Desde que o xingamento venha acompanhado de argumentos, e desde que não se bote minha mãe no meio, não vejo problema. O politicamente correto não existe para mim. Pode me chamar do que quiser, sem medo. Eu não vou lhe exigir um pedido formal de desculpas por você discordar do que penso.

Um abraço de quem acha que a verdade não ofende: liberta.

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Pablo não pareceu muito indignado quando argumentei que sua visão relativista seletiva servia como uma luva aos objetivos de tiranos e terroristas. Mas me exigiu uma "desculpa formal" por causa de uma metáfora culinária. Ainda por cima, tomou como uma agressão pessoal uma crítica à sua atitude intelectual. E me baniu de seu site.

É... Gente esquisita, esse pessoal pós-moderno.