segunda-feira, abril 19, 2010

EM MÁ COMPANHIA


Vejam um momento da política brasileira.
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Um já foi. Agora só faltam 199.999...
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"Dize-me com quem andas e eu direi se vou contigo" (Aparício Torelly, o Barão de Itararé)
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A OPÇÃO POR PARCERIAS REPULSIVAS

Por Augusto Nunes

A retrospectiva da sequência de espantos desencadeada em 2003 informa que existe lógica na loucura aparente da política externa. Em pouco mais de sete anos, o governo brasileiro foi confrontado com numerosas escolhas: a Venezuela bolivariana ou os Estados Unidos, os narcoterroristas das FARC ou o presidente reeleito Alvaro Uribe, o psicopata Muammar Khadaffi ou o Tribunal Internacional de Haia, a ditadura dos irmãos Castro ou os presos de consciência, o terrorista italiano Cesare Battisti ou os pugilistas cubanos Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux, o golpista Manuel Zelaya ou a Constituição hondurenha, o genocida Omar al-Bashir ou o Darfur dilacerado. Coerentemente, errou todas. Errou outras. E vai continuar errando, avisa a infame aliança com o Irã.

A opção preferencial por parcerias repulsivas torna a associação com os aiatolás atômicos tão inevitável quanto um drible de Garrincha. Entre o primitivismo e a civilização, entre Mahmoud Ahmadinejad e Barack Obama, a escolha feita por um Itamaraty redesenhado pela Era da Mediocridade só reafirmou que de onde menos se espera é que não vem nada mesmo. Formulada por nostálgicos do stalinismo sem compromisso com valores democráticos, avalizada por um presidente sem compromisso com valores morais, a política externa atende à vaidade de um governante na fronteira da mitomania, serve aos desígnios do PT e não tem compromisso com o Brasil.
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Lula convive em fraternal promiscuidade com gente que o insultou, como Fernando Collor, ou que ofendeu gravemente, como José Sarney. Não há por que sentir-se constrangido na lida com abjeções que a esquerda psicótica reverencia. Como não sabe sequer se Karl Marx é um daqueles irmãos do cinema, como não leu uma única orelha de livro sobre geopolítica, contraterniza com todas as peças ─ principalmente revolucionários de galinheiro ─ do populoso museu dos desprezíveis administrado por Marco Aurélio Garcia, Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimarães e outros comissários que garantem o crachá de conselheiro internacional com declarações de guerra ao imperialismo ianque.
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“Não conheço nenhum presidente que não tenha apertado a mão de um ditador”, alega o chanceler de bolso. Conversa fiada de um diplomata deformado pela alma subalterna, pela compulsão para a vassalagem, pelo servilismo que protege o emprego. É verdade que todo presidente vive exposto a shake hands constrangedores. Mas Amorim sabe desde sempre que Lula ultrapassa com muito prazer o aperto de mão protocolar. Nenhum governante que se declara democrata troca cumprimentos efusivos com apóstolos da infâmia como Khadaffi ou Fidel Castro. Só Lula.
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Só Lula nega a presidentes eleitos democraticamente, como o hondurenho Porfirio Lobo e o chileno Sebastián Piñera, o abraço que conforta o golpista Manuel Zelaya ou anima o ditador aprendiz Hugo Chávez. Só Lula incumbiu um ministro de Estado de entregar a Ahmadinejad, ambos com sorriso de comparsa, a camisa da Seleção Brasileira. Só Lula ousou rebaixar os oposicionistas iranianos que protestavam contra a imensa fraude eleitoral a torcedores inconformados com a derrota do time. Só Lula comparou presos políticos aos bandidos das cadeias de São Paulo.
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O presidente Fernando Henrique Cardoso foi o condutor das negociações que encerraram o sangrento conflito fronteiriço entre o Peru e o Equador, e nem por isso posou de especialista em impasses internacionais. Lula não deu um pio para ao menos abrandar a crise gerada pela construção de fábricas de celulose uruguaias na divisa com a Argentina. Mas resolveu nomear-se consultor-geral do mundo e liquidar com quatro conversas, três improvisos e duas piadas os becos sem saída do Oriente Médio.
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A política externa de um país democrático atende aos interesses nacionais. Se atende aos interesses do chefe de governo ou de um partido, então não há democracia. Essa regra encontrou no Brasil uma perturbadora exceção. Por enquanto, não existe um tirano, nem foi instituído o regime de partido único. Mas há mais de sete anos o Itamaraty só faz o que o PT propõe e Lula endossa.
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As ações internacionais escancaram a alma do presidente e a cabeça do partido. Lula é um animador de auditório, deslumbrado com plateias de áulicos, auditórios amestrados ou encontros de governantes que não compreendem português. O PT é a cara dos parceiros que escolhe. Todos infelicitam países que são hoje o que a companheirada quer que o Brasil seja amanhã.

sexta-feira, abril 09, 2010

AS CHUVAS E A POLITICAGEM


Uma das coisas mais nojentas que existem é a tentativa de politizar desastres naturais. Mesmo que não sejam tão naturais assim. Como a chuva torrencial que desabou sobre o Rio de Janeiro nesta semana - e que já deixou, segundo as últimas contagens, mais de 180 mortos. É por isso que as declarações de Lula e sua turma nesses dias exalam a esgoto.

A tragédia no Rio provocou uma onda de pesar e solidariedade raras vezes vista antes no Brasil. Jornalistas, políticos, artistas, todos enfim, demonstraram um ar compungido e de respeito às vítimas, no melhor espírito "somos todos cariocas (ou fluminenses)". De repente, todos pareceram se unir, concentrando-se no socorro aos desabrigados e deixando a política de lado, como os americanos depois do 11 de setembro. E isso é muito bom. É algo extremamente louvável. Tragédias como a do Rio não devem mesmo ser exploradas politicamente por ninguém. Quem o fizer deve ser execrado em praça pública e expulso da convivência com gente decente. Mortos não têm partido.

Exatamente por isso, a pergunta que fica no ar é: por que essa atitude serena, equilibrada, "isenta", não foi adotada por muitos que hoje choram os mortos no Rio quando das chuvas que atingiram São Paulo, há apenas algumas semanas? Por que ninguém disse, então, "agora, somos todos paulistas"?

Em São Paulo, choveu durante 47 dias ininterruptos, e o número de mortos foi bem menor do que os mais de cem que morreram no Rio (detalhe: em apenas UM DIA de temporal). Mesmo assim, petistas e assemelhados deleitaram-se com o episódio, mal contendo a alegria em atacar a "incompetência" e a "negligência" do prefeito Kassab e do agora ex-governador José Serra, em busca de dividendos eleitorais. A mesma atitude serena e compungida que os petistas e seus aliados na imprensa demonstram agora em relação aos mortos no Rio não tiveram em relação aos mortos de São Paulo. Será que é porque São Paulo é governada por tucanos e o Rio por aliados de Lula e Dilma Rousseff? Não, isso seria pensar muito mal dessa gente boa e honesta, não é mesmo?

O pior é que motivo para acusar a irresponsabilidade das autoridades lulistas na catástrofe fluminense é o que não falta. Um dia depois de um barranco desabar em Niterói e deixar mais de 200 pessoas desaparecidas, soterrando casas que haviam sido construídas em cima de um lixão (com conhecimento da prefeitura), os jornais noticiam que o governo Lula transferiu nos últimos tempos, via Ministério da Integração Nacional, algo como 64% do orçamento em "ajuda de emergência" para a Bahia, cabendo ao Estado do Rio de Janeiro 0,9% do total. O Ministério da Integração Regional, a quem cabe, entre outras atribuições, lidar com calamidades, era comandado até a semana passada por Geddel Vieira Lima (apelido: "agatunado"), que vem a ser baiano e está de olho na cadeira de governador do Estado nas eleições deste ano. O atual governador da Bahia, por sua vez, é Jaques Wagner, do PT. Lula reagiu à notícia da maneira que lhe é peculiar: chamou-a de "leviandade", considerando-a, certamente, uma tentativa calhorda de se politizar uma questão que deveria estar acima de picuinhas eleitorais. É, Lula, você tem razão. Calamidades como a do Rio devem mesmo estar acima de considerações políticas. Pergunte a Geddel Vieira Lima.

Mas, pensando bem, por que se surpreender com mais essa tragédia anunciada, tornada ainda mais grave e revoltante pela leviandade petista? Afinal, esse é o mesmo governo que considerou uma "intervenção imperialista" a pronta ajuda dos EUA às vítimas do terremoto no Haiti, transformando o desastre numa ocasião para uma disputa mesquinha com Washington em nome do "protagonismo internacional", não foi?

Nem São Pedro escapou da policanalhada lulista. Ninguém está a salvo.
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PARA PENSAR


(ler primeiro o post anterior)

Para quem ainda não entendeu direito o que eu quis dizer em meu último post, aí vai um pequeno exercício.

Suponha que apareça alguém se dizendo totalmente neutro, imparcial, isento e sem preconceitos em política. Alguém que se declara pós-moderno, niilista, que não acredita em fatos, mas em interpretações etc.

Diante de regimes como o comunista, esse alguém não esconde sua total condenação ao Gulag e ao paredón. Revela-se um inimigo feroz e implacável do totalitarismo stalinista e suas variantes.

Perante o regime nazista, porém, essa mesma pessoa muda subitamente o discurso: não quer emitir nenhum juízo de valor, defende a neutralidade e a imparcialidade. Instado a tomar partido, enche-se de dedos e, pisando em ovos, recusa-se a "demonizar" Hitler e seus seguidores, adotando uma postura ambígua. Vai mais além, e considera a condenação ao nazismo um anacronismo histórico, um "resquício dos anos 30".

E aí? O que vocês diriam?

Entenderam o que eu quis dizer com "atitude intelectualmente desonesta"?
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segunda-feira, abril 05, 2010

A ARTE DE TERGIVERSAR


Estive, por esses dias, no site de um conhecido meu, o Pablo Capistrano, com quem costumo - ou costumava, se depender dele - debater às vezes. Na verdade, "debater" é forma de dizer, porque, como vocês verão, Pablo não é muito de debate. Mesmo assim, como sou um chato, fui lá cutucar e deixar meu recado. O assunto era o Irã. Fiz uma provocação inicial, afirmando que, se Israel atacasse o Irã, estaria no seu direito, devido às intenções declaradas de Ahmadinejad de varrer Israel do mapa etc. Até aí, nada demais. O problema foi quando Pablo respondeu o comentário de um amigo dele, um certo Robson. Aí a coisa desandou.

Robson trouxe a discussão para o plano interno, e chegou, inevitavelmente, ao assunto "eleições presidenciais", com um viés claramente pró-petista, senão claramente petista. Ele mencionou os "analistas conservadores" como os colunistas da VEJA e até Arnaldo Jabor (que nem conservador é), que se aproveitariam de fatos como a recente visita desastrosa de Lula ao Oriente Médio para criar "factóides" contra o governo etc. Aí é que veio minha surpresa. Em sua resposta, Pablo não apenas corroborou essas afirmações, como também mencionou um suposto "partido da imprensa golpista" (PIG), uma invenção da esquerda chapa-branca.

Fiquei intrigado. "Pablo é um cara inteligente, não deve ter dito isso a sério", pensei. Mandei, então, outro comentário, no qual deixei claro meu espanto e fiz questão de relacionar a política externa lulista - o tema em debate - com a opção ideológica pró-ditaduras do governo Lula. Fui mais além, e citei o Foro de São Paulo. Quão maior não foi minha surpresa quando vi Pablo, um sujeito descolado, que se diz relativista e pós-moderno, autor de dois livros e professor de Filosofia, dizer que o Foro de São Paulo é algo assim como uma ficção criada por mentes paranóicas, comparável aos "Protocolos dos Sábios de Sião"...

Aquilo foi demais para mim. Como um auto-proclamado relativista, que, em suas próprias palavras, não acredita em "fatos", mas em "interpretações", encara o PIG como uma verdade objetiva e o FSP como um delírio? Passei a importunar Pablo com essa pergunta. A cada comentário que eu mandava, apontando esse duplo padrão, eu recebia não uma resposta, mas uma tergiversação de sua parte. "Você não entendeu o que eu disse", ou "Não enxergo a realidade com base na dicotomia esquerda-direita", eram as respostas de Pablo. Para mim, ficou cada vez mais claro que Pablo estava se amparando numa visão seletivamente relativista (o que é uma contradição) para não dizer abertamente sua preferência ideológica.

Para encurtar a história, que é bem longa: outro leitor, o David, mandou uma mensagem ao Pablo afirmando que, assim como eu, ele também achava que Pablo era um esquerdista, mas um que não "saía do armário". Ao contrário de Pablo, David se declarava abertamente de esquerda, e reproduziu em seu comentário algumas platitudes esquerdistas. Então mandei o seguinte comentário (com as intervenções de Pablo em vermelho):

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Bom, vamos lá. Talvez não adiante nada, mas é sempre bom marcar posição.

David, eu sei de que lado Pablo está. Ele também sabe. A diferença é que ele não assume. Esta é a nossa diferença.

Você diz não gostar de rótulos, mas que não consegue “enchergar (sic) democracia, liberdade, ou respeito aos direitos humanos no sistema capitalista, no governo direitista, conservador, no neoliberalismo” etc. etc. Ok, respeito essa sua opinião. Respeito mais ainda sua coragem de dizer isso abertamente, no que você difere do Pablo. Apenas me diga, então: que país não-capitalista, não-direitista, não-conservador, não-neoliberal (sic) é ou foi um dia, ao mesmo tempo, uma democracia política, com liberdade de expressão e de consciência? Por favor me responda, se puder.

Não gosta de vendedores? Eu também não gosto. Gostaria menos ainda se eu não tivesse a liberdade de escolher comprar ou não, e de quem comprar. Em regimes totalitários, como o comunismo, essa liberdade, assim como todas as outras liberdades individuais, simplesmente não existe. Acho que você já ouviu falar na URSS, não?

Mas estou perdendo meu tempo. Nem vou tentar rebater o que diz o David. Quem defende estrovengas totalitárias como a CONFECON – uma clara tentativa de tutelar a imprensa, à moda chavista –, chama de “prática necrófila" o uso legal da força pelo Estado democrático de direito contra grevistas baderneiros, afirma que chamar os criminosos do MST de criminosos é “criminalizar os movimentos sociais” e admira Cuba como “exemplo de respeito à dignidade humana” (???!!!) não precisa de resposta, precisa de ajuda psiquiátrica. Mas um mérito pelo menos ele tem: ele não esconde o que pensa sob a capa de uma retórica relativista. A visão do David é míope, eu diria mesmo cretina e idiota, mas é pelo menos honesta. A sua, Pablo, não tem sequer esse mérito. Eu sou carne e o David é frango, mas vc prefere ser chester.
( Intervenção do Pablo: È uma pena Gustavo que você tenha que apelar para esse exediente em uma argumentação. Esse tipo de desqualificação chula empobrece mais ainda seu pensamento)

Entendo, Pablo, que você não queira assumir globalmente nenhuma legenda. Você é que não entendeu, ou finge não entender, que minha crítica não é ao fato de você se declarar um relativista, niilista, heideggeriano etc.: é, sim, ao fato de você restringir esse relativismo a um lado apenas. Vou repetir apenas um exemplo que dei.

Falei do Foro de São Paulo, uma entidade real, cuja existência e fins estão amplamente documentados, que foi criada por Lula e Fidel Castro em 1990. Trata-se de um fato, portanto algo cuja existência está além da sua ou da minha vontade. Você disse que o FSP é uma ficção comparável aos “Protocolos dos Sábios de Sião”. Disse também que o “PIG” (“partido da imprensa golpista”) é uma realidade. Segundo essa sua “interpretação”, seletivamente relativista, o FSP não existe, mas o PIG, sim. Ou seja: um fato não lhe agrada, e você diz que ele não existe. Se ele for conveniente a uma certa visão ideológica, que é a sua, mas que você não ousa dizer, então é verdadeiro.

Lembro que alguns anos atrás tive com você um debate interessante sobre Cuba. Recordo que deixei bem clara minha opinião (“interpretação”, você diria) sobre o tirano Fidel Castro e como ele arruinou um país e hipnotizou gerações inteiras de idiotas latino-americanos. Deixei claro que condenar a ditadura castrista era uma obrigação moral de qualquer pessoa decente e humanista. Sua resposta: “não quero dar uma opinião sobre isso” (lembro que você até comparou o debate sobre Cuba a uma dispura entre vascaínos e flamenguistas…). Comentei em meu blog sobre a questão, e fiz a pergunta: se fosse Pinochet, e não Fidel, você diria que a condenação à ditadura é ou não uma obrigação moral? Até agora não tive resposta.

Isso, Pablo, chama-se duplo padrão moral. Uma atitude intelectualmente desonesta, para dizer o mínimo.
(Intervenção do Pablo: Acho que aqui também você perdeu um pouco a compostura e me agrediu em um sentido que ultrapassa as ideias. Ao me considerar intelectualmente desonesto você atenta de certa forma contra a minha honra e minha integridade moral. Gostaria de um pedido de desculpas, tendo em vista que eu nunca atentei contra a sua integridade moral em nossas discussões)

Em outras palavras: condenei e condeno ambos os ditadores, jogo lama, cuspo neles. E você, pode fazer o mesmo? E se condena um, por que não condena o outro?

Veja que eu até admito que você não condene nenhum dos dois, e se feche em copas numa torre de marfim filosófico-relativista. O que não dá para entender é considerar a condenação de um deles uma obrigação moral (o que de fato é), mas a de outro, um “extremismo de direita”, “resquício da guerra fria” etc.

O mesmo pode ser dito do nazismo e do comunismo. Para mim, são ambas ideologias totalitárias e anti-humanistas. Condeno-as com igual fervor. E você?

Você diz que concorda com algumas coisas e com outras não, como se a realidade fosse uma espécie de supermercado em que se poderia escolher essa ou aquela posição, ter esse ou aquele ponto de vista, fazer uma salada, e isso não teria nenhuma conseqüência. Talvez por você ser filósofo, você acredita que as idéias podem ser reduzidas a um nível totalmente abstrato de subjetividade, sem qualquer peso na realidade. Acontece que elas têm peso, sim. Por mais que se tente fugir da realidade, ela sempre termina nos alcançando.

Seus elogios ao governo Lula, em especial à sua política social “melhor do que a de FHC”, demonstram claramente uma preferência ideológica de sua parte. Somente alguém comprometido ideologicamente com um viés estatista e antiliberal poderia criticar um governo por “vender o patrimônio público a preço de banana” (o que é, aliás, uma tremenda balela) e rasgar seda para um governo que transformou o assistencialismo e o coronelismo em políticas oficiais. Sem falar que, no que diz respeito à política externa lulista, o caso do Irã é apenas um entre tantos outros (cito Cuba, Venezuela e Honduras, para ficar nos mais importantes), que seguem um padrão ideológico.

Repito: o que não “entendo” é como alguém que se diz relativista só o é para a esquerda, e não para a direita.

Não é preciso “adotar uma visão de mundo e um conjunto sistemático de crenças” para ter uma opinião minimamente coerente. Basta ter honestidade intelectual. Eu, por exemplo, não concordo 100%, talvez nem 50%, com o que dizem pensadores conservadores e de direita em alguns temas (religião, por exemplo). Mas nem por isso deixo de me identificar como liberal-democrata, anti-estatista, anti-comunista, pró-liberdade e direitos humanos. Isso porque, mais do que as diferenças que me separam desses autores, sou unido a eles por um denominador comum político e moral – a defesa da democracia e da liberdade individual, valores universais. Adotar uma postura relativista a respeito desses valores, a meu ver, é o mesmo que negá-los. E isso SIM corresponde a uma visão de mundo – a visão de mundo pró-totalitária.

Não sou “absolutista” (a partir de agora vou adotar o rótulo, pois minha visão sobre liberdade é mesmo absoluta e não admite relativizações) porque eu teria dificuldades em compreender “como alguém pode ter interpretações sem usar um dos dois sistemas de crenças que ele [eu] conhece (direita e esquerda)”. Parece que aqui você, Pablo, é que não entendeu o que escrevi. Lendo o que você diz, fica parecendo que não consigo enxergar nada além da dicotomia direita-esquerda. Não é nada disso. Tudo que venho dizendo é que é possível, mesmo sem ser “de esquerda”, referendar as posições identificadas com essa corrente ideológica. Basta relativizar, por exemplo, a realidade de regimes como o cubano, o que você, Pablo, faz à larga. (Certamente você, Pablo, não conhece as expressões “inocente útil” e “companheiro de viagem”.) Sem falar que, se formos adotar as definições clássicas de direita e esquerda, eu estaria à sua esquerda, pois considero o regime teocrático iraniano uma aberração, enquanto você tem uma “interpretação” diferente e mais condescendente em relação à tirania dos aiatolás.

Não Pablo, não acho que você seja um “esquerdista enrustido”. Pelo que você tem escrito, você não é enrustido: é de esquerda mesmo. Só que, sabe-se lá por quê, não tem coragem ou disposição de dizê-lo francamente. E se ampara no relativismo para fugir a essa realidade. Só que você se trai, quando o cacoete esquerdista se manifesta na forma seletiva com que você trata, com base numa visão relativista, regimes “de esquerda” e “de direita”. Você já caiu nessa contradição diversas vezes.

A diferença entre minha posição e a sua é que eu não me escondo por trás desse palavreado. E tenho, sim, consciência do mecanismo que me leva a pensar dessa forma. Já quanto a você, não tenho certeza.

Não acho nosso debate frustrante. Pelo contrário: acho que está sendo bastante revelador. Pelo menos para mim, está sendo bastante elucidativo.
Intervenção do Pablo: Gustavo, você não tem um interesse real de compreender o que eu escrevo. Você lê e distorce o que eu escrevo para encaixar meu texto naquilo que você pensa sobre minhas ideias. Não há interesse real seu em compreender minha posição. Você precisa me reduzir e me simplificar para que eu possa fazer sentido justamente a esse sistema de crenças que você adota. Até ai tudo bem, mas acho que nesse seu comentário você cruzou um limite que eu não gostaria que fosse ultrapassado nesse site. Você me acusou de ser desonesto intelectualmente (isso me ofendeu). O que de certa forma torna nossa discussão inutil, porque se eu sou intelectualmente desonesto não adianta nada que você escreva aqui nem é interesante que você perca seu tempo me lendo. acho que uma atitude coerente sua seria assumir que não se pode nem se deve dialogar com gente intelectualmente desonesta porque um dos pressupostos para uma discussão justa e construtiva é a confiança na honestidade intelectual dos interlocutores. Se isso não acontece é inútil continuar conversando. Uma sugestão seria a de um pedido formal de desculpas ou que você poderia responder a meus textos em seu blog, agindo de modo a desmascarar para seus poucos leitores essa minha “desonestidade intelectual”. Como eu sou filho de sertanejos e aprendi que não se deve onfender os anfitriões em sua própria casa espero que você reveja sua posição em relação a isso. Que a paz te acompanhe e boa sorte na sua cruzada

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Como vocês viram, Pablo fez algumas intervenções em meu texto. Mandei então outro comentário. Por algum motivo, porém, ele foi retirado de seu site:


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Pablo,

Você ignorou praticamente toda minha resposta a você e ao David, e preferiu se concentrar em algumas palavras que você julgou pessoalmente ofensivas. Tudo bem, é um direito seu não ler o texto todo, assim como é seu direito interpretá-lo da maneira que lhe for mais conveniente. Mas, por favor, não coloque palavras – nem intenções – em minha boca.

É uma pena que você não conheça a expressão “eu sou carne e fulano é frango, mas beltrano prefere ser chester”. Francamente, não vejo em que ela pode ser ofensiva. É uma metáfora usada comumente em política, sem qualquer conotação pejorativa (a menos que ser “chester”, “carne” ou “frango” tenha algum significado depreciativo oculto). Mesmo retirada do contexto, como é o caso, não se trata de uma forma de desqualificar nada nem ninguém, muito menos chula. Se você tem essa “interpretação”, paciência. Demonstra apenas que você não está acostumado a debater.

Pablo, você disse que eu perdi a compostura e lhe agredi em um sentido que ultrapassa as idéias etc. Sugiro que você releia o que escrevi. Primeiro, eu NÃO disse que você é intelectualmente desonesto. Disse que você tem uma atitude intelectual – é relativista para uns e não para outros – que só pode ser encarada, segundo uma interpretação que não é somente minha, como um DUPLO PADRÃO político e moral, e que essa, sim, é uma ATITUDE DESONESTA. Afirmei inclusive que isso se deve, creio eu, a um ranço ideológico de sua parte, e não à uma desonestidade pessoal, sua. (Aliás, o fato de eu estar aqui escrevendo demonstra que acreditei em sua honestidade intelectual.) Em nenhum momento julguei você como pessoa: julguei essa sua atitude. Dei exemplos bem concretos para demonstrar a forma seletiva como você emprega o discurso relativista (O Foro de São Paulo, Cuba etc.). Se isso é atentar contra sua “honra” e “integridade moral”, então qualquer debate de idéias para você é uma briga de rua e deve ser resolvido na ponta da peixeira. Francamente, não vejo por que eu deveria pedir desculpas por expor o que penso sobre uma atitude intelectual. Desculpar-me? Por quê? Por eu desprezar todas as ditaduras e você apenas algumas?

Pablo, você tem todo direito de achar que não tenho interesse em entender o que você escreve etc. e tal – o que é uma forma de me chamar de intelectualmente desonesto, mas não ligo –, e realmente tenho dificuldade em entender um pensamento que cultiva a ambigüidade, mas somente para certos casos. Não sei se você percebeu, mas minha crítica a você não é por você ser relativista, mas, exatamente o contrário: é por você NÃO SER relativista para TODAS as situações (ou seja: por não mostrar coerência). Apontei as contradições no seu pensamento, quis provocar um debate, mas você, pelo visto, é que não tem qualquer interesse em levá-lo adiante. É uma pena, pois, até agora, ao contrário do que você escreveu, eu acreditava na sua disposição intelectual em fazê-lo. Se você se ofende com argumentos, isso mostra que é inútil mesmo tentar debater com você. Sobre qualquer assunto.

Quanto a mim, não me ofendo se me chamarem de reacionário, direitista, agente da CIA, lacaio de Wall Street etc., ou qualquer desses epítetos que os esquerdistas usam para desqualificar quem ousa pensar diferente. Até mesmo se enveredarem pela ofensa pessoal e gratuita, eu não me importo. Aprendi que ofensas pessoais e adjetivação “ad hominem” se respondem com argumentos e idéias, não com demonstrações de suscetibilidade arranhada e exigências de desculpas.

Mas OK, já entendi que não sou bem-vindo aqui, em sua “casa”. É difícil debater com quem se ofende com argumentos, e acho que não vale a pena insistir. Essa sua última mensagem mostrou que corro mesmo o risco de ficar falando sozinho aqui. Quanto a mim, meu blog está aberto a que você comente meus posts e coloque seus pensamentos. Pode até me xingar, se quiser. Desde que o xingamento venha acompanhado de argumentos, e desde que não se bote minha mãe no meio, não vejo problema. O politicamente correto não existe para mim. Pode me chamar do que quiser, sem medo. Eu não vou lhe exigir um pedido formal de desculpas por você discordar do que penso.

Um abraço de quem acha que a verdade não ofende: liberta.

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Pablo não pareceu muito indignado quando argumentei que sua visão relativista seletiva servia como uma luva aos objetivos de tiranos e terroristas. Mas me exigiu uma "desculpa formal" por causa de uma metáfora culinária. Ainda por cima, tomou como uma agressão pessoal uma crítica à sua atitude intelectual. E me baniu de seu site.

É... Gente esquisita, esse pessoal pós-moderno.

sexta-feira, março 26, 2010

"FODA-SE A CONSTITUIÇÃO!"


Lula fez um discurso no dia 25 em que deixou claro para quem quiser saber qual a idéia que ele tem sobre o que deve ser a imprensa no califado lulista. Afirmou, pela enésima vez, que imprensa boa é a que fala bem dele, Lula. Certamente inspirado pelo exemplo de sua ilha do coração, onde manda e desmanda há mais de cinqüenta anos um par de tiranos decrépitos, e onde a única imprensa existente é a que diz a "coisa certa" (ou seja: a favor do governo), ele, Lula, deitou falação contra um de seus principais inimigos, a liberdade de imprensa.

O Estadão não perdoou. Reproduzo aqui o editorial de hoje, dia 26. Ele menciona um episódio que já citei aqui, envolvendo um jornalista estrangeiro, e que é bastante revelador do apreço que nosso presidente tem pelas leis do País. É mais um texto que deveria ser guardado para ser lido daqui a alguns anos, quando os historiadores se debruçarão sobre essa quadra tenebrosa que estamos atravessando.

Mais uma vez: parabéns ao Estadão!

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Luiz Inácio Lula da Silva não é o primeiro nem será o último chefe de governo, em qualquer instância e de qualquer país democrático, a se queixar da imprensa. Para não ir muito atrás, nem muito longe, o que se falava mal da mídia no Palácio do Planalto do presidente Fernando Henrique e o que se fala no Palácio dos Bandeirantes do ainda governador José Serra, por exemplo, ocupariam páginas inteiras de um periódico. Jornalistas - essa a reclamação recorrente nos palácios de todas as cores - ignoram na maior parte do tempo o que se faz de bom (e o esforço que isso demanda), só destacam o que vai mal (sem se aprofundar nas causas dos problemas) e preferem a fofoca aos fatos relevantes (porque estes dão mais trabalho para apurar).

Há, no entanto, uma diferença - não de grau, mas de natureza - entre os protestos dos que se julgam injustiçados pelos meios de comunicação e os sistemáticos ataques de Lula à imprensa a que acusa, indistintamente, de tratar o seu governo com “má-fé”. Governadores e prefeitos, ministros e secretários podem deplorar a suposta miopia do noticiário, mas reconhecem a carga inerente de tensão no seu relacionamento com o jornalismo que a eles não se subordina. Já o caso de Lula é obsessão. Desde o escândalo do mensalão, em 2005, ele está em campanha para demolir a credibilidade dos órgãos de informação. As suas diatribes, como a de anteontem, durante um evento, são uma mistura de vezo autoritário com ressentimento de classe, agravada pelo descontrole emocional diante da mera expectativa de receber críticas.

No passado, Lula dizia que não teria se tornado o que se tornou, a ponto de disputar a Presidência da República, não fosse a liberdade de imprensa no Brasil. Foi ela quem de fato propeliu o seu nome, cobrindo passo a passo a sua trajetória, fossem quais fossem os julgamentos que pudesse fazer a seu respeito. Isso não mudou, mas o que Lula hoje entende por liberdade de imprensa é uma caricatura grotesca. “É triste”, investiu, “quando as pessoas têm o direito de escrever as coisas certas e escrevem as coisas erradas.” Nas democracias, as pessoas têm o direito de escrever ? ponto. Nas ditaduras, quem diz o que é certo ou errado é o ditador. Para Lula, o certo seria a imprensa dizer que o PAC é uma maravilha. O errado, informar que apenas 11% de suas obras foram concluídas e 54% não saíram do papel.

Certo também seria a imprensa olhar para o outro lado enquanto ele promove, com assombroso despudor, a candidatura Dilma Rousseff. Na mesma ocasião em que vociferou contra a mídia, deu a deixa para a platéia gritar o nome da ministra, ao afirmar: “Eu não posso dizer quem vai ser (o sucessor), eu não posso dizer, porque, porque? vamos aguardar.” Errado é noticiar que Dilma inaugura obras que não estão concluídas. Lula afirma que a imprensa tem predileção pela desgraça “para dizer: “viu, o menino não era letrado, o menino nasceu para ser torneiro mecânico. A partir daí já é abuso”". Ele jamais se cansará de fazer praça de suas origens ? menos por justo orgulho do que para insuflar o eleitorado pobre. Mas nunca pôs a sua formidável popularidade a serviço da educação, dizendo algo como “se sou o que sou sem ter estudado, imaginem o que eu seria se tivesse”.

Os historiadores do futuro certamente terão muito a dizer sobre a contribuição do governo Lula para o prosseguimento das transformações pelas quais o País começou a passar nos anos 1990. Tampouco deixarão de registrar que a democracia lhe deve a decisão de não buscar um terceiro mandato mediante emenda constitucional. Mas haverão de lembrar que nunca antes neste país, em regime democrático, um presidente havia manifestado tanto ódio pela imprensa livre. Lula é o governante que, com pouco mais de um ano no poder, tentou expulsar do País o correspondente do New York Times por ter escrito uma reportagem (de duvidosa qualidade, por sinal) sobre o que seria o seu gosto pela bebida. Alertado pelo então ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, de que a expulsão seria inconstitucional (o jornalista era casado com uma brasileira), Lula explodiu: “F-se a Constituição.”

LULA, O PACIFISTA (OU: COMO CONSEGUIR A PAZ CONVERSANDO COM QUEM NÃO QUER... A PAZ!)


O cavalheiro à direita também não queria a paz...
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“As pessoas não percebem que o acordo no Oriente Médio não acontece exatamente porque não se conversa com quem não quer a paz”.

“Não se conversa com todos os interlocutores que estão envolvidos. Por exemplo, quem é que vai conversar com o Hamas? Com o Hezbollah? Quem é que vai conversar com a Síria? Quem é que vai conversar com Irã?”

As palavras acima, vocês já devem ter adivinhado, foram ditas por ele, vocês-sabem-quem. O presidente do mundo e candidato a Messias Universal as proferiu em um evento no dia 25, para comemorar o Dia da Cultura Árabe, em São Paulo. Houve quem aplaudisse. Ele disse outras barbaridades sobre outros assuntos também, como a crise econômica mundial (que não teria sido tão grave no Brasil por causa da "diversificação dos contatos comerciais com o mundo árabe" etc.). Mas fico com as duas afirmações lapidares acima. Elas resumem com exatidão quem é, o que é e o que "pensa" nosso Mestre e Guia Genial, o estadista global, o homem que mais entende de política externa na História do Universo, a ponto de agora querer ensinar a paz a israelenses, palestinos, árabes e iranianos.

Quer saber como destrinchar o nó e alcançar a paz no conflito do Oriente Médio, que já dura mais de sessenta anos? A ONU não sabe, os EUA não sabem, a União Européia não sabe. Mas Lula sabe. Lula tem a resposta. Basta conversar com todo mundo, diz o Demiurgo. Com todo mundo? Com todo mundo. Com quem quer a paz? Sim, claro. E com quem NÃO QUER a paz também? Também, segundo Lula. Aliás, principalmente com estes. É aí que está a grande sacada! De acordo com esse grande sábio, só não há paz na região exatamente porque não se conversa com os inimigos da... paz! Segundo esse raciocínio brilhante, os israelenses, ao invés de se defenderem quando atacados, deveriam baixar as armas e se deixar imolar. Outros já tentaram no passado, inclusive com idéias de uma "solução final" para o "problema judaico". Mas com o Hamas, o Hezbollah, a Síria e o Irã seria diferente, afirma Lula... Ele deve achar que os seis milhões de judeus mortos pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial não foram o bastante. Deve acreditar que morreram tantos porque alguns, uma minoria, resistiram, e que, se todos tivessem se deixado assassinar passivamente e conversado com seus carrascos, o Holocausto não teria existido.

Não é genial? Acho que, a essa altura, Barack Obama e Benjamin Netanyahu devem estar batendo a cabeça na parede e se perguntando: "Como é que eu não pensei nisso antes?" O Hamas, o Hezbollah, a Síria, o Irã - que patrocinam os dois primeiros -, enfim, todos os que não querem a paz, que fazem tudo para sabotá-la, os que não reconhecem o direito do outro existir são... interlocutores da paz! Ora vejam só! Que descoberta incrível! Basta chamá-los para conversar, segundo Lula, que eles irão parar de lançar homens-bomba contra alvos israelenses e vão desistir do seu plano juramentado de transformar Israel numa pilha de ossos e num mar de sangue. Onde está a Academia Sueca, que não deu ainda o Prêmio Nobel a esse grande pacifista, a esse eminente pensador e filósofo da paz?

Fico cá pensando: imagine que um louco fanático com idéias homicidas e armado atés os dentes jurou que vai lhe matar e a toda sua família. Ele não reconhece seu direito a continuar respirando, e já deixou claro, com palavras e atos, que não sossegará enquanto não lhe vir com a boca cheia de formiga ou debaixo de sete palmos de terra. Ele não quer a paz, quer a guerra. Você, claro, como bom pacifista e seguidor de Lula, não tomará nenhuma providência para se defender. Em vez disso, irá ignorar essa intenção de seu inimigo e, imitando Gandhi, vai chamá-lo para um jantar ou para um bate-papo no bar. O que irão debater? Tenho um palpite: a data de seu enterro...

Já citei várias vezes esse exemplo, mas não custa nada repetir: em 1938, gente pacifista e bem-intencionada acreditou que era possível garantir a paz conversando com quem não queria a paz. Resultado: em vez da paz, tiveram a guerra, a mais destrutiva de todos os tempos. E a vergonha eterna de ter ajudado a desencadeá-la. Mas Lula não sabe do que estou falando. Ele não conhece História. Ele não sabe nada.

Estou comparando Lula com o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, que passou para a História como o idiota enganado por Hitler com a promessa de "paz para o nosso tempo" e que foi, involuntariamente, um dos causadores da Segunda Guerra Mundial? Estou sendo injusto. Com Chamberlain, não com Lula. O inglês era pelo menos bem-intencionado, e acreditava que poderia apaziguar o ditador nazista, atendendo suas exigências territoriais em troca de paz. Lula é diferente. Ele não é um bobalhão equivocado, um estadista iludido pelas boas intenções. É, isso sim, um aliado incondicional da tirania iraniana. O que significa dizer: também do Hamas e do Hezbollah, que aquela patrocina e financia. Ao contrário de Chamberlain, Lula escolheu um lado - o lado dos que não querem a paz, dos que lutam contra ela.

Assim como tem lado e acredita ter descoberto a fórmula mágica para a paz no Oriente Médio, Lula já escolheu um culpado: Israel. Para ele, a culpa pelo conflito na região é dos israelenses, que não se deixam matar pelos "interlocutores" do Hamas e do Hezbollah. Assim como deve acreditar que foi deles, dos judeus, e não dos nazistas, a culpa pelo Holocausto. Para Lula, terroristas são interlocutores confiáveis numa negociação para a paz. Para Lula, a paz é feita por quem a despreza.

Em maio, Lula estará em visita ao Irã. Vai retribuir a visita espalhafatosa que seu amigo e interlocutor Mahmoud Ahmadinejad fez a Brasília, em novembro. O iraniano já disse que não quer a paz com Israel. Pelo contrário: quer destruir Israel, varrê-lo do mapa, exterminar sua população. E trabalha intensamente nesse sentido, dando armas aos terroristas do Hamas e do Hezbollah. Mas isso, para Lula, não tem importância. Sob ahmadinejad, o Irã está afrontando o mundo com um programa nuclear secreto, que até cegos de nascença já perceberam que visa a obter armas nucleares e que tem endereço certo: Israel. Mas isso, para Lula, não importa. O importante é que é preciso conversar com todo mundo, principalmente com quem não quer a paz. Com isso, Lula e Celso Amorim esperam dar um grande passo à frente, e elevar o Brasil à condição de importante mediador do conflito mais antigo do mundo. Só não sabem que o salto, no caso, será para um abismo. E que o Brasil irá, sim, converter-se em medidador internacional, mas de uma negociação para trocar cadáveres. Ou cinzas.

Lula acha que a questão do Oriente Médio é igual a uma negociação entre a CUT e a FIESP. Acredita, sinceramente ou não, que tem algo a dizer sobre o assunto, e que todos devem ouvi-lo. E ainda há quem ache que eu pego demais no pé de Lula e de sua política externa aloprada e megalonanica.

segunda-feira, março 22, 2010

RESPONDO A UM LEITOR. E APROVEITO PARA LEMBRAR CERTAS REGRAS GRAMATICAIS


Leitor anônimo me escreve. Eu respondo. E aproveito para prestar uma homenagem à Inculta e Bela - cada vez mais Inculta e cada vez menos Bela, por culpa de comentários como o que transcrevo a seguir.
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Acho interessante o fato de que você preza pelo Nobel de Arias e zomba do Nobel de Obama, isso mostra o quão equilibrado você é em suas reflexões.
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Você acredita mesmo então que os Americanos não tem nenhuma responsabilidade com o que acontece na America Latina, eles são vitima de um pensamento esquerdista que não encherga a imconpetencia do proprio umbigo?
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Citando somente o comercio internacional, os EUA e a UE possuem centenas de salvaguardas com os produtos brasileiros, são sobretaxas que tornam nosso produto praticametne inconsumiveis no exterior, isso sem tocar no assunto do algodão no qual os produtores locais são subsidiados pelo governo ou até nosso Etanol. Em contrapartida este ano as medidas governamentais causaram estranheza ao sobretaxar as importações americanas.
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Me deti apenas na área comercial veja o porque os americanos enriqueceram tanto, você conhece a historia a partir da 2 guerra mundial e assim como todos sabe porque os americanos prosperaram tanto, as custa de que, de quem e quantos povos explorados, e no mais Costa Rica é quintal americano e todos sabemos disso.
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Seu leitor anonimo.
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Contei quatorze erros de português (regência, concordância, conjugação, acentuação e ortografia, sem contar os de pontuação, como a falta de vírgulas) no comentário acima. Tratarei disso mais adiante. Por enquanto, vamos aos "argumentos" expostos.
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Primeiro: quem lhe disse que eu sou "equilibrado" em minhas reflexões? Não sou "equilibrado" coisa nenhuma. Para mim, entre Oscar Arias e Barack Obama, assim como entre Bush e Saddam, ou entre Israel e o Irã, fico com os primeiros contra os últimos. "Equilibrado" é um eufemismo para designar os isentistas, os nenhumladistas que acham que todos se equivalem moralmente - o que significa, em 100% dos casos, atacar a democracia e justificar o crime e a opressão. Basta ler qualquer texto meu para perceber que não tenho qualquer pretensão em ser "equilibrado" entre o bem e o mal. Deixo isso para Lula e seus bajuladores.
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Além disso, Oscar Arias ganhou o Nobel da Paz por ter intermediado o processo de paz na América Central nos anos 80. E Obama, o que fez para merecer o prêmio? - concedido 12 (doze) dias depois de sua posse, ainda por cima.
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Não, não digo que os americanos "não têm nenhuma responsabilidade" pelo que ocorre abaixo do Rio Grande. Jamais disse isso. Acredito que os americanos não têm responsabilidade pelo que de pior acontece na América Latina. Diga-me que responsabilidade têm os americanos pela prisão e tortura de opositores políticos em Cuba, ou pela supressão das liberdades na Venezuela, ou pelo narcoterrorismo das FARC, ou pelo Foro de São Paulo, ou pela corrupção do PT. Acredito, sim, que o antiamericanismo é uma excelente forma de transferir responsabilidades e, portanto, perpetuar o atraso. É um discurso feito sob medida para esconder as verdadeiras causas dos problemas e para garantir que eles se perpetuem.
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Sobre comércio internacional: salvaguardas e taxações existem também da parte do governo brasileiro em relação a produtos americanos, assim como europeus ou japoneses, e não vi ninguém até agora, muito menos os americanos, dizendo que o Brasil é responsável pelos problemas nesses países.
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Aliás, é curioso: lembro que, durante a campanha presidencial nos EUA, muita gente no setor empresarial torcia secretamente pelo McCain, porque os republicanos sempre foram mais inclinados ao livre-comércio e ao fim de salvaguardas do que os democratas. Agora vêm os antiamericanos, os mesmos que torceram pelo Obama, e se queixam dele por seu protecionismo... Que irônico, não? (Ou melhor: que esquizofrênico, não?)
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Deixe-me ver se entendi... Então, os americanos enriqueceram às custas de nós, pobres latino-americanos, devido à exploração das multinacionais etc.? Por que será que eu senti um cheiro de mofo aí? Mas tudo bem, vou levar a sério, por um momento, essa discurseira terceiromundista e nacionalisteira (sou uma pessoa caridosa). Digamos, por um instante, que os EUA são mesmo o lobo feroz imperialista de que falam os esquerdistas. Nesse caso, o "quintal" Costa Rica é uma prova de que esse tal imperialismo é uma coisa muito boa. Sim, porque, ao contrário de outros países que bravamente resistem ao imperialismo ianque, como Cuba e Venezuela, o país exibe alguns dos melhores índices econômicos e sociais da América Latina. Se não acredita em mim, faça uma pesquisa e compare. Bendito imperialismo!
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Analisemos agora a qualidade do idioma em que foi escrito o comentário, que imagino ser o Português:
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- O verbo "prezar" (sinônimos: respeitar, considerar) tem a mesma regência e mesma conjugação de verbos derivados, como "desprezar". Não se diz "você preza pelo", mas você preza "o/a" ou "os/as", ou "o quê", "quem". Por exemplo: "Prezo quem usa corretamente as regras gramaticas". E: "Desprezo quem violenta a Língua Portuguesa".
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- O verbo "ter", no sentido de "possuir", deve concordar com o sujeito, como qualquer verbo, aliás. Isso significa que, na terceira pessoa do plural do presente do indicativo, ele leva acento circunflexo, justamente para distinguir-se da terceira pessoa do singular. Assim, o correto é "eles não têm".
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- Quem tem responsabilidade a tem por alguma coisa ou alguém, e não "com". O certo é "eles têm responsabilidade pelo que acontece", e não "com o que".
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- Assim como os verbos concordam com o sujeito, os substantivos também concordam com os artigos e pronomes. O correto não é "as vitima", e sim "as vítimas" - e com acento agudo, pois do contrário o substantivo se transforma em verbo.
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- O que significa "encherga"? Conheço o verbo enxergar, com "x". E "imconpetencia"? Só conheço a palavra "incompetência", que designa quem é incapaz de escrever corretamente no próprio idioma.
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- O que é "enchergar a imconpetencia do próprio umbigo" (sic)?
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- Imagino que o caro leitor quis dizer "comércio", não "comercio". A primeira palavra é substantivo; a segunda, verbo.
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- Até onde sei, a palavra salvaguarda não leva "com" como complemento. O certo é "salvaguardas aos produtos brasileiros", ou "contra os produtos brasileiros".
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- "Praticametne" eu até deixo passar, deve ter sido erro de digitação. Mas, "inconsumiveis"? Onde foi parar o acento agudo no segundo "i"? E cadê a concordância do adjetivo com o substantivo ao qual aquele se refere, "produto", que vem no singular (logo, deveria ser "inconsumível", e não "inconsumíveis")?
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- Desconheço essa construção verbal, "me deti". Além de a posição do pronome estar incorreta - em começo de frase, ou após pausa, usa-se ênclise, não próclise -, confesso que ignoro totalmente o que significa a palavra "deti". Presumo, por pura especulação minha, que o que o autor quis dizer foi detive-me - o verbo pronominal "deter-se" conjugado na primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do modo indicativo, da mesma forma que o verbo "ter" ("eu tive, tu tiveste, ele teve..."). É assim que se escreve.
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- Do mesmo modo, a palavra "porque", junta e sem acento, denota resposta, para se diferenciar de "por que", usada como pergunta. Quando é precedida do artigo definido "o" ou "os", deve levar, necessariamente, acento circunflexo, transformando-se em "o porquê". Por exemplo: "Não entendo o porquê de alguém se sujeitar a tanta humilhação".
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- Novamente, o uso errado do "porque" na frase "(...) você (...) sabe porque os americanos prosperaram". O "porque", junto e sem acento, é usado como resposta, como disse acima. Quando é usado como explicação, podendo ser acrescido da palavra "razão" ou "motivo", ou quando pode ser substituído por "pelo qual" e derivados ("pela qual", "pelos quais", "pelas quais") vem separado e sem acento. Exemplos: "Eu sei por que é importante estudar a Gramática". "Esse é o motivo por que você deve ler o que escreve".
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- A expressão "as custa de" carece de qualquer sentido. Se o leitor quis dizer "às custas de", com crase e no plural, aí sim, temos um exemplo de uma expressão da Língua Portuguesa, e não de um barbarismo.
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- Finalmente, o correto é "anônimo" (ou "anónimo", se for em Portugal), com acento circunflexo no primeiro "o", e não "anonimo".
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Por que corrijo o português dos outros? Não por pedantismo, mas porque o bom uso do idioma significa também o bom uso da Lógica. Onde falta um, geralmente - quase sempre - falta o outro. E é esse precisamente o caso. Mais uma vez.

quinta-feira, março 18, 2010

A "COISA MÁGICA QUE FALTAVA" NA TERRA MÉDIA DE LUIZ INÁCIO - E MAIS UM VEXAME DA DIPLOMACIA MEGALONANICA


Novamente, Augusto Nunes abrilhanta este blog com sua inteligência e perspicácia. Mais uma denúncia certeira da chanchada em que se transformou a política externa brasileira sob a batuta dos petralhas e esquerdiotas de plantão. Estes transferiram para Israel o ódio recalcado que sentem pelos EUA, esquecendo-se, como ocorre com mentes paralisadas pelo fanatismo antiamericano, que o primeiro está muito longe de ser um mero títere do último. Ao contrário deles, esquerdopatas, que alegremente se prestam ao papel de tocadores de tuba e chefes de torcida dos chávez e castro da vida.

Esses são dias tristes para o Itamaraty, outrora um lugar de excelência. Felizmente, porém, há quem esteja atento.

P.S.: Outro dia falei aqui da "Síndrome de Brüno", que tomou conta da diplomacia lulista, numa referência ao personagem impagável de Sacha Baron Cohen, que vai à "Terra Média" (o Oriente Médio) para "fazer a paz" entre palestinos e israelenses e ficar famoso. Na "Terra Média" de Lula e Marco Aurélio Garcia, o obstáculo à paz são os israelenses, não o Hamas e o Irã. E ainda se apresentam como "mediadores" no conflito em que têm lado. Em matéria de coisas ridículas, Brüno é um amador. Os petistas o deixam no chinelo.
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OS CULPADOS SÃO SEMPRE OS OUTROS
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“Quem sabe a divergência entre Estados Unidos e Israel seja a coisa mágica que faltava para se chegar a um acordo”, entusiasmou-se o presidente Lula nesta quarta-feira, declamando o que lhe sopraram Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia. ”Em fala tão breve, boçalidade tão longa, que reafirma o que o pior do antiamericanismo pode produzir”, resumiu meu amigo e vizinho Reinaldo Azevedo, sempre em ótima forma.
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A frase contém mais cretinices do que sugere uma leitura ligeira. Não se limita a informar que, para Lula, o eventual esgarçamento dos laços históricos entre os dois parceiros encerraria a crise no Oriente Médio. Também confirma que a atual política externa brasileira é um conjunto de ações internacionais contrárias aos ianques e seus aliados, ou favoráveis a quem hostiliza os Estados Unidos e seus amigos.
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Deformado por esse antiamericanismo de grotão, o olhar de Lula é tão imparcial quanto opinião de mãe de candidata a miss. O Oriente Médio visto pelo monoglota militante é uma região pertencente a nações companheiras cercadas por uma província palestina rebatizada de Israel por invasores judeus. Para chegar-se à paz, o mais forte deve render-se ao vizinho sem chances no confronto militar. E qualquer acordo começa pelo enquadramento do Grande Satã do planeta, porque da crise no Oriente Médio ao primitivismo da América Latina, fora o resto, é tudo culpa dos americanos.
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“Eu disse ao Bush e tenho dito a todo o governo americano que está na hora deles apresentarem uma política sadia e objetiva para a América Latina, os Estados Unidos nunca fazem nada para ajudar os pobres”, lamuriou-se Lula no ano passado, na reunião do clube dos cucarachas em Trinidad-Tobago. De novo, a comparação com um trecho do discurso lido no mesmo encontro pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias, é perturbadora para o Brasil que pensa.
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“Quase sempre culpamos os Estados Unidos por nossos males passados, presentes e futuros”, constatou o ganhador do prêmio Nobel da Paz. ”Não creio que isso seja de todo justo. Em 1950, cada cidadão norte-americano era 4 vezes mais rico que um cidadão latino-americano. Hoje em dia, é 10, 15 ou 20 vezes mais rico. Não por culpa dos Estados Unidos. A culpa é nossa. Não podemos esquecer que pelo menos até 1750 todos os americanos eram praticamente iguais: todos eram pobres”.
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“Alguma coisa fizemos de errado”, ensinou Arias já no título do discurso. Lula continua achando que foi tudo culpa dos americanos ─ isso quando está longe do Brasil. Nos palanques domésticos, não para de cumprimentar-se por ter reconstruído um país devastado por todos os antecessores, principalmente FHC. São todos brasileiros.
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Os culpados, afinal, são nativos ou estrangeiros? Qual dos discursos é o verdadeiro? Nenhum, sabe quem tem mais de dez neurônios.

quarta-feira, março 17, 2010

LULA EM ISRAEL: UM FESTIVAL GROTESCO DE CINISMO


Lula, como vocês sabem, esteve em visita a Israel, como parte de um périplo maior pelo Oriente Médio, que incluiu também a Jordânia e os Territórios Palestinos. O criador de Dilma Rousseff quer aparecer como o "pacificador" da região. É isso mesmo: o Brasil ficou pequeno para os delírios de grandeza do maior dos megalonanicos. E, como não há ninguém por perto que tenha o mau gosto de lhe trazer de volta à realidade, ele segue em frente com mais essa patacoada.

Mesmo assim, a visita do "Estadista Global" a Israel veio a propósito. Mesmo tendo esperado o último ano de seu mandato para fazer uma visita ao país, única democracia do Oriente Médio, e (coincidência?) o único da região que ele não tinha ainda visitado. Lula deixou para o final de seu governo a visita a Israel, pois antes quis conhecer países mais importantes e certamente mais democráticos, como a Síria e a Líbia... Visitas como a que acabou de ocorrer servem, portanto, para baixar um pouco o véu da diplomacia lulista, revelando que, por trás de toda uma retórica adiposa sobre neutralidade, esconde-se o compromisso com um dos lados, precisamente o lado mau da humanidade. E foi exatamente isso o que aconteceu, como esperado.

Logo no primeiro dia da visita a Israel, o "profeta do diálogo" - como o chamou o diário esquerdista israelense Haaretz, certamente embalado pelo mesmo espírito que elegeu Lula o "homem do ano" do Le Monde em 2009, e o campeão da ética e da decência no Brasil por três décadas - mostrou a que veio, deixando de visitar o túmulo de ninguém mais, ninguém menos do que o fundador do Sionismo, o movimento que deu origem a Israel, Theodor Herzl. Algo assim como um chefe de Estado estrangeiro que visita o Brasil e deixa, por exemplo, de comparecer a uma cerimônia em homenagem a Tiradentes. O Chanceler de Israel, Avigdor Lieberman, que deveria, pelo protocolo, ciceronear o visitante, não perdeu a chance de dar um recado, e não compareceu ao discurso de Lula no Knesset, o Parlamento israelense, sendo seguido por cerca de metade dos parlamentares do país. Um gesto "descortês", segundo o professor de boas maneiras e movimentos manuais heterodoxos Marco Aurélio Top, Top Garcia - como se equiparar Israel a seus inimigos, como veremos, fosse o supra-sumo da cortesia diplomática.

Perante um Parlamento esvaziado, ao lado do presidente Shimon Peres (que deveria estar sem nada melhor para fazer na hora) e da líder da oposição, Lula se dedicou durante uma hora a atacar o país anfitrião, enquanto não deu um pio sobre o terrorismo palestino e as intenções nucleares de países como o Irã. Falou sobre sua fórmula mágica para alcançar a "paz" na região: basta Israel deixar de fazer novos assentamentos e derrubar o muro que o separa dos Territórios Palestinos, afirmou o Demiurgo, que todos se darão as mãos e viverão fraternalmente. Sobre o terrorismo de grupos como o Hamas e o Hezbollah, que independe de assentamentos israelenses para existir - na Faixa de Gaza, por exemplo, o Hamas intensificou seus ataques a Israel depois da saída de TODOS os colonos israelenses da região, em 2005 -, nenhuma palavra. O mesmo em relação aos motivos que levaram Israel à construção do muro, bem como sobre o fato de que, desde que ele começou a ser erguido, nenhum atentado terrorista de vulto tenha ocorrido em Israel. Silêncio total.

Em seguida, o auto-proclamado reformador da geografia comercial e política do mundo fez uma visita ao Museu do Holocausto em Jerusalém, lugar dedicado à memória dos 6 milhões de judeus assassinados pelos nazistas na Segunda Guerra. Dessa vez não deu pra evitar, deve ter pensado o sábio para quem os iranianos são árabes, não persas. Lula plantou uma árvore e fez um discurso de praxe contra a barbárie do Holocausto, afirmando que crimes como aquele "nunca mais, nunca mais" deveriam se repetir etc. Até parecia que o presidente que estava ali proferindo essas palavras não era o mesmo que fez festa para receber em Brasília o negador do Holocausto Mahmoud Ahmadinejad, em novembro passado, e que irá reencontrá-lo, dessa vez em Teerã, dentro de algumas semanas. Como se o chefe de Estado ali presente fosse mesmo um humanista e um democrata, alguém sinceramente interessado na defesa dos direitos humanos, e não o aliado incondicional de ditaduras como a de Cuba, que comparou os dissidentes da tirania mais antiga do Ocidente a bandidos, enquanto posava sorridente para fotos ao lado de Fidel e Raúl Castro.

Terminada a programação em Israel, foi a vez de Lula visitar os Territórios Palestinos. Lá chegando, o Guia Genial demonstrou mais uma vez toda sua eqüidistância na questão israelo-palestina, que o credencia a se colocar como mediador no conflito, ao colocar uma coroa de flores no túmulo de Yasser Arafat. O fato de ele não ter feito o mesmo no túmulo de Theodor Herzl, claro, foi só um detalhe, nada que deponha contra a "neutralidade" do governo Lula na questão, ou um simples problema de cerimonial, apressaram-se a explicar os puxa-sacos de plantão. O fato de Arafat, uma figura de proa do terrorismo internacional nas décadas de 60 e 70, que só renunciou à luta armada e aceitou a existência de Israel em 1988, ter as mãos sujas de sangue, muito do qual de gente inocente, ao contrário de Herzl, que jamais matou alguém, é também, claro, só um detalhe insignificante.

E assim prosseguiu mais essa visita "exitosa" (segundo o Itamaraty, para o qual toda visita é "exitosa") de Lula ao estrangeiro. Tão exitosa que, acredito, Lula provavelmente não irá mais se contentar com o modesto papel de "negociador" e "peace-builder" entre Israel e seus inimigos: após equiparar moralmente Israel (uma democracia) e o Irã (uma teocracia), o Gandhi de Garanhuns e futuro secretário-geral da Organização das Galáxias Unidas vai tentar impor a paz na região com o apoio de seu notável charme e carisma e de seu aliado incondicional Ahmadinejad. Como numa reunião entre a CUT e a Força Sindical, ele vai convencer israelenses, a Fatah, o Hamas e os iranianos a se darem as mãos. E, como são todos iguais do ponto de vista moral, vai convencer os israelenses e o restante do mundo que o Irã - e, por extensão, o Hamas e o Hezbollah - tem o direito a ter armas nucleares ("afinal, Israel também não tem?", afirmam os defensores do "desarmamentismo global"). Novamente, o fato de Israel não ameaçar varrer ninguém do mapa, ao contrário do Irã, não faz a menor diferença para essa estratégia tão sábia do maior estadista e maior pacifista da história do sistema solar.

Lula não é capaz de dizer uma palavra sobre direitos humanos em Cuba ou sobre democracia na Venezuela, nem de distinguir entre um golpista destituído e um governo constitucional em Honduras, mas acha que tem alguma coisa a dizer na questão do Oriente Médio. Acredita, ou finge acreditar, que pode acabar com décadas de conflito entre israelenses e iranianos, entre israelenses e palestinos, e entre os próprios palestinos, com base unicamente na vontade, no gogó. Será apenas cinismo? Ou é loucura mesmo?

Honduras, Cuba, Israel, Irã... é o Brasil caminhando, célere, para se tornar um "global player". Nesse caso, um "global loser".

A GRANDEZA QUE LULA JAMAIS TERÁ


Em 1979, o senador alagoano Teotônio Vilela surpreendeu o Brasil. Naquele ano, o parlamentar da ARENA, percebendo a maré contra a ditadura e a favor da democracia que tomava conta de todos - foi o ano da Anistia e da volta dos exilados políticos -, bandeou-se para o lado do MDB, o partido da oposição ao regime militar. Até morrer, de câncer, em 1983, o velho político conservador, rico usineiro ligado às oligarquias em Alagoas, ex-udenista e apoiador entusiasmado do golpe de 64, tornou-se um símbolo da redemocratização, um dos lutadores mais aguerridos pelo fim do arbítrio e pela volta das liberdades civis. Milton Nascimento dedicou-lhe uma bela canção, O Menestrel das Alagoas, parte da trilha sonora política dos anos 80.(Quem é esse viajante/Quem é esse menestrel/Que espalha esperança/E transforma sal em mel?)

Um dia, em visita a presos políticos brasileiros, que faziam greve de fome contra as condições carcerárias a que eram submetidos pelo regime dos generais, reivindicando, entre outras coisas, não ser misturados aos criminosos comuns, Teotônio Vilela aproximou-se deles e, ajoelhando-se, entre lágrimas, humildemente pediu-lhes perdão. "Perdão por não ter visto antes essa barbárie", foram as palavras emocionadas e emocionantes do Menestrel das Alagoas.

Não está claro se a guinada de Teotônio Vilela, de apoiador a opositor do regime militar, ocorreu por convicção democrática ou por cálculo político. Provavelmente, jamais saberemos. Mas uma coisa é certa: seu gesto de contrição foi genuíno. Seu arrependimento, até prova em contrário, foi sincero. Seu pedido de perdão foi um momento da consciência nacional. Por sua atitude de grandeza, Teotônio Vilela é até hoje lembrado como um gigante da luta pela democracia no Brasil. Uma voz da razão.

Bem diferente foi a atitude de Luiz Inácio Lula da Silva quando, em visita a seus amigos Raúl e Fidel Castro em Cuba, ignorou solenemente o pedido de socorro de dissidentes cubanos. Mais que isso: chamou de "pretexto" a greve de fome como forma de luta pelos direitos humanos na ilha-cárcere. Mais que isso: comparou a bandidos comuns os opositores dos Castro. Mais que isso: legitimou a repressão de que são vítimas. Mais que isso: acusou um deles, Orlando Zapata Tamayo, morto após 85 dias de greve de fome, pela própria morte. Seus auxiliares diretos não ficaram atrás em ignomínia. Celso Amorim tentou pôr panos quentes, e aproveitou para dar mais corda no culto da personalidade do chefe, ao comparar a greve de fome até a morte de Zapata com o jejum de quatro dias que Lula fez em 1980, à base de guloseimas escondidas. Marco Aurélio Garcia banalizou a repressão na ilha-presídio, dizendo que violações aos direitos humanos ocorrem no mundo todo.

Entre os prisioneiros políticos a quem Teotônio Vilela suplicou pelo perdão por seus anos de apoio a um regime que torturava e matava estavam terroristas condenados por crimes de sangue, como assassinato, seqüestro, assaltos a banco e atentados à bomba. Dificilmente algum deles, se estivesse no lugar de Vilela, faria o mesmo em relação a seus inimigos aprisionados. Não eram prisioneiros de consciência, detidos pelo "crime" de discordarem do governo. Orlando Zapata Tamayo era. Assim como Guillermo Fariñas, outro opositor do totalitarismo castrista, também em greve de fome contra o regime arbitrário idolatrado por Lula e pela esquerda brasileira. Em entrevista à Folha de S. Paulo, Fariñas deixou claro o abismo moral que separa Lula de Teotônio Vilela: "Considero Lula da Silva um assassino, um cúmplice da tirania dos Castro".

Teotônio Vilela era um político de direita que não se furtou em pedir perdão às vítimas do regime autoritário que apoiara e em abraçar a causa da democracia e dos direitos humanos. Até então, ele era visto apenas como um conservador, um velho oligarca nordestino, até mesmo um reacionário. Teve a hombridade de reconhecer que estava do lado errado e se arrependeu disso, passando à História como o Menestrel das Alagoas, um monumento de decência, um arauto do Bem e do Justo. Lula não teve essa grandeza, nem a terá.
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Teotônio Vilela era de direita. Lula, embora diga que não, é de esquerda. Qual dos dois, Vilela ou Lula, é um progressista, um humanista, um defensor da liberdade e da humanidade?

terça-feira, março 16, 2010

PERNA CURTA



Lembram de um certo presidente da República que disse "não sei nada, não vi nada"?
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Pois é.
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Ele mentiu.
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Dedicado a todos aqueles que caíram no maior conto-do-vigário da História destepaiz.

A MEGALOMANIA LULISTA ALÉM-FRONTEIRAS


Para registro. Editorial do Estadão desta terça-feira, 16/03.

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“O ‘vírus’ da paz de Lula”

Desta vez, a proverbial sorte do presidente Lula parece tê-lo deserdado. Ele desembarcou domingo em Tel-Aviv em meio a uma rara crise entre Israel e os Estados Unidos e a mais um bloqueio da Cisjordânia em represália a um novo surto de manifestações palestinas contra a política israelense de anexações em Jerusalém Oriental. Nesse ambiente, a pretensão de Lula de ser o “profeta do diálogo”, como foi chamado dias antes pelo jornal israelense Haaretz, se revelou, no mínimo, fútil. Enquanto o brasileiro fazia as malas para a viagem de 5 dias que o levará também aos territórios ocupados sob o controle nominal da Autoridade Palestina (AP) e, por fim, à Jordânia, um ministro israelense ainda mais à direita do que o premiê Benjamin Netanyahu fez o que em outras circunstâncias seria impensável.

Em plena visita do vice-presidente americano, Joe Biden, ele anunciou a construção de 1.600 moradias em Jerusalém Oriental, onde os palestinos querem instalar a capital do seu futuro país. Foi um golpe deliberado nos esforços do governo Obama para ressuscitar as negociações de paz na região, congeladas desde dezembro de 2008. Biden saiu humilhado de Israel. Em Washington, a secretária de Estado Hillary Clinton se disse “insultada” e o principal assessor do presidente, David Axelrod, falou em “afronta”. Se Israel se permite ofender a tal ponto o seu maior e mais poderoso protetor, para não dar aos palestinos o Estado contínuo e viável reclamado pela comunidade internacional, incluídos os EUA, que diferença Lula imagina que poderá fazer?

Ontem, ele disse ser portador, “desde que estava no útero da minha mãe”, do “vírus da paz”. O metafórico micróbio não contaminou os israelenses. O presidente Shimon Peres foi absolutamente protocolar quando disse em discurso saber que o brasileiro trazia uma mensagem de paz, e que “sua contribuição será bem-vinda”. Do lado israelense é que não será. Primeiro, porque a ideia lulista de “ouvir mais gente”, como já não bastassem a ONU, a União Europeia, os Estados Unidos e a Rússia, é anátema para um governo que acha que a maioria dos países tende a ser pró-palestinos e quer forçar Israel a concessões “inaceitáveis” (como coibir os assentamentos na Cisjordânia e dividir Jerusalém em duas). Segundo, porque a “gente” em que Lula pensa inclui ninguém menos do que o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, que prega a erradicação de Israel (perto disso, a negação do Holocausto é detalhe).

Segundo o assessor Marco Aurélio Garcia, o Irã não pode ser ignorado porque tem “influência de peso” na questão. É o contrário. A República Islâmica é que não poderá ignorar o eventual acordo de paz a que se opõe porque legitimaria o Estado judeu. Influência de peso na questão, isso sim, tem a Liga Árabe, a começar da Arábia Saudita. Em 2002, os sauditas conseguiram que a entidade aprovasse um plano de paz pelo qual, em troca da devolução dos territórios tomados na Guerra dos Seis Dias as relações entre Israel e o mundo árabe seriam “normalizadas”. Deu em nada. Há pouco, a Liga defendeu a retomada de negociações, indiretas, entre Israel e a Autoridade Palestina. (Dezessete anos depois do aperto de mãos de Yitzhak Rabin e Yasser Arafat na Casa Branca, fala-se em conversações indiretas como se fosse um progresso.)

Lula e o Itamaraty parecem ignorar ainda que a aproximação do Brasil com o Irã, valha o que valer, não é malvista só em Israel, na região. A Arábia Saudita e o Egito, os dois principais países árabes, tampouco se rejubilam com isso. Enfim, a soberba da diplomacia lulista chega ao disparate de supor que a atual posição “cética e dura” dos EUA em relação a Israel, nas palavras de Garcia, facilitará o ingresso de outros atores, um deles o Brasil, no processo de paz no Oriente Médio. É, de novo, o mundo de ponta-cabeça. Se Netanyahu não ceder a Obama, cederá a quem? A Lula? O sonho faraônico de se transformar no estadista global que entrará para a história por ter tido êxito ali onde todos fracassaram nos últimos 60 anos conduz Lula da futilidade à ridicularia. E isso porque a diplomacia lulista, partidária e eleitoreira, só visa a promover a imagem de seu guia perante o público interno.

Propondo-se a mediar não apenas o conflito histórico entre judeus e palestinos, mas também o conflito interno entre palestinos do Hamas e do Fatah, Lula exibe o grau de exacerbação da sua megalomania.

O SILÊNCIO DOS INTELECTUAIS


Com algum atraso, reproduzo a seguir o excelente artigo de Fernando de Barros e Silva que saiu na semana passada, na Folha de S. Paulo. Simples, direto ao ponto, incisivo. A começar pelo título.

E a pergunta que fica é: onde estão eles, os "intelequituais" esquerdistas, numa hora dessas?

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???

Fernando de Barros e Silva

SÃO PAULO - Os intelectuais de esquerda adoram um abaixo-assinado. Na luta pela redemocratização, ele foi um instrumento importante de mobilização da sociedade civil.

Hoje, não se sabe ao certo o que seja (nem se existe) "a sociedade civil". E os intelectuais, sobretudo de esquerda, perderam em boa medida o protagonismo público.

Ainda assim, vira e mexe há abaixo-assinados por aí. Alguns em torno de causas abrangentes e justas, outros que parecem só um cacoete de antigamente. Diante de tudo isso, devemos nos perguntar agora: onde está o abaixo-assinado?

Sim. Ou os intelectuais de esquerda não estão incomodados com a fala bestial de Lula sobre Cuba? O assunto não comove a ponto de solicitar um repúdio coletivo?
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Seria demais exigir a retratação pública do presidente por igualar as vítimas de uma ditadura que liquidou seus opositores aos presos comuns de um país democrático?

Seria demais pressionar o governo brasileiro para que interceda em favor de dissidentes presos arbitrariamente e/ou a caminho da morte?

Seria demais reafirmar (ou assumir, no caso de alguns) a defesa da democracia e dos direitos humanos como valores universais?

O silêncio de certa intelligentsia, que insiste em tratar Cuba como um caso à parte, uma ilha da fantasia rodeada de piratas, é tão cúmplice das atrocidades de Fidel e seu asseclas quanto a fala boçal de Lula.

Até quando a esquerda nativa (com exceções honrosas) vai encarar a crítica à tirania cubana como uma pauta da direita? Até quando irá confundir o justo apelo dos dissidentes com a "máfia de Miami"?

Até quando irão invocar avanços sociais hoje mais do que duvidosos como pretexto -aí, sim- para justificar os horrores do regime? O dissidente Guillermo Fariñas precisará morrer -ou nem isso bastará para romper a omissão criminosa?

A Paquetá vermelha que incendiou bons corações nos anos 60 não existe, não passa de uma quimera mumificada. Então, apesar do atraso: cadê, cadê o abaixo-assinado?

segunda-feira, março 15, 2010

É ASSIM QUE FALA UM DEMOCRATA


Deu no blog de Augusto Nunes. Leiam e vejam como se comportam, de um lado, um populista babão amigo de ditadores e, de outro, um democrata de verdade diante do mesmo fato. Uma aula de liberdade contra os que compactuam com a barbárie.
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Porque a democracia precisa de líderes que estejam à altura.

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A COLISÃO ENTRE UM POLÍTICO SEM GRANDEZA E UM ESTADISTA

Traídos pela indiferença ultrajante do Itamaraty, afrontados pela infame hostilidade do presidente da República, presos políticos cubanos e dissidentes em liberdade vigiada endereçaram ao presidente da Costa Rica o mesmo pedido de socorro que Lula rechaçou. Fiel à biografia admirável, Oscar Arias nem esperara pela chegada do apelo (que o colega brasileiro ainda não leu) para colocar-se ao lado das vítimas do arbítrio. Já estava em ação ─ e em ação continua.

Neste sábado, Arias escreveu sobre o tema no jornal espanhol El País. O confronto entre o falatório de Lula e trechos do artigo permite uma pedagógica comparação entre os dois chefes de governo:

LULA: “Lamento profundamente que uma pessoa se deixe morrer por fazer uma greve de fome. Vocês sabem que sou contra greve de fome porque já fiz greve de fome”.
ARIAS: “Uma greve de fome de 85 dias não foi suficiente para convencer o governo cubano de que era necessário preservar a vida de uma pessoa, acima de qualquer diferença ideológica. Não foi suficiente para induzir à compaixão um regime que se vangloria da solidariedade que, na prática, só aplica a seus simpatizantes. Nada podemos fazer agora para salvar Orlando Zapata, mas podemos erguer a voz em nome de Guillermo Fariñas Hernández, que há 17 dias está em greve de fome em Santa Clara, reivindicando a libertação de outros presos políticos, especialmente aqueles em precário estado de saúde”.

LULA: “Eu acho que a greve de fome não pode ser utilizada como pretexto para libertar pessoas em nome dos direitos humanos. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade”.
ARIAS: “Seria perigoso se um Estado de Direito se visse obrigado a libertar todos os presos que decidirem deixar de alimentar-se. Mas esses presos cubanos não são como os outros, nem há em Cuba um Estado de Direiro. São presos políticos ou de consciência, que não cometeram nenhum delito além de opor-se a um regime”.

LULA: “Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos”.
ARIAS: “Não existem presos políticos nas democracias. Em nenhum país verdadeiramente livre alguém vai para a prisão por pensar de modo diferente. Cuba pode fazer todos os esforços retóricos para vender a ideia de que é uma “democracia especial”. Cada preso político nega essa afirmação. Cada preso político é uma prova irrefutável de autoritarismo. Todos foram julgados por um sistema de independência questionável e sofreram punições excessivas sem terem causado danos a qualquer pessoa”.

LULA: “Cada país tem o direito de decidir o que é melhor para ele”.
ARIAS: “Sempre lutei para que Cuba faça a transição para a democracia. (…) O governo de Raúl Castro tem outra oportunidade para mostrar que pode aprender a respeitar os direitos humanos, sobretudo os direitos dos opositores. Se o governo cubano libertasse os presos políticos, teria mais autoridade para reclamar respeito a seu sistema político e à sua forma de fazer as coisas”.

LULA: “Não vou dar palpites nos assuntos de outros países, principalmente um país amigo”.
ARIAS: “Estou consciente de que, ao fazer estas afirmações, eu me exponho a todo tipo de acusação. O regime cubano me acusará de imiscuir-me em assuntos internos, de violar sua soberania e, quase com certeza, de ser um lacaio do império. Sem dúvida, sou um lacaio do império: do império da razão, da compaixão e da liberdade. Não me calo quando os direitos humanos são desrespeitados. Não posso calar-me se a simples existência de um regime como o de Cuba é uma afronta à democracia. Não me calo quando seres humanos estão com a vida em jogo só por terem contestado uma causa ideológica que prescreveu há anos. Vivi o suficiente para saber que não há nada pior que ter medo de dizer a verdade”.

Oscar Arias é um chefe de Estado. Lula é chefe de uma seita com cara de bando. Arias é um pensador, conhece a História e tenta moldar um futuro mais luminoso. Lula nunca leu um livro, não sabe o que aconteceu e só pensa na próxima eleição. Arias é justo e generoso. Lula é mesquinho e oportunista. Arias se guia por princípios e valores. Lula menospreza irrelevâncias como direitos humanos, liberdade ou democracia.

O artigo do presidente da Costa Rica, um homem digno, honra o Nobel da Paz que recebeu. A discurseira do presidente brasileiro, um falastrão sem compromisso com valores morais, tornou-o tão candidato ao prêmio quanto Fidel, Chávez ou Ahmadinejad. A colisão frontal entre o que Lula disse e o que Arias escreveu escancarou a distância abissal que separa um político sem grandeza de um estadista.