quarta-feira, dezembro 16, 2009

HONDURAS: ENTERRANDO A FALÁCIA DO "GOLPE"

Ontem fiz uma coisa inédita neste blog: estimulado por um leitor que encasquetou que sou um defensor do "vale-tudo institucional" e da execução sumária porque, ao contrário da maioria, eu li a Constituição de Honduras e não vi golpe de Estado no país (a não ser o tentado por Zelaya e sua trupe), postei dois textos num único dia, sobre o mesmo assunto.
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Quem acompanha o blog deve ter percebido que ando meio monotemático ultimamente. Não é por falta de vontade minha de tratar de outros temas. É que os comentários do leitor anônimo, além do colossal fiasco brasileiro em Honduras, me levaram a me concentrar na questão. Os ensinamentos advindos daquele país, em especial sobre como age o golpismo bolivariano e como ele encara coisas como a Constituição e a democracia, são importantes demais para ser ignorados. A esse respeito, terminei meu meu último post com uma pergunta. Até agora não recebi resposta. Começo a desconfiar que não a terei nunca.
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Creio que, a esta altura, está mais do que claro, para qualquer pessoa que tenha algo além de vento acima dos ombros, que a trapalhada em que o governo Lula se meteu em Honduras foi uma das maiores da História. Está mais do que claro, pelo menos para os 0,01% da humanidade que pensam, que golpistas, no caso, são Manuel Zelaya e Hugo Chávez, além de Daniel Ortega e seus amigos brasileiros. Mesmo assim, vou me permitir uma última observação.
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Falou-se muito, desde que Zelaya foi deposto e expulso de Honduras, em "devido processo legal". O leitor que insiste na tese do golpe contra Zelaya mencionou-o diversas vezes. Confrontado com o impeachment de Fernando Colllor no Brasil em 1992, este disse mesmo que o próprio impeachment foi o devido processo legal etc., e que em Honduras não houve nada disso. Deixando de lado o fato de que o impeachment é um processo político, e não jurídico, e que o STF absolveu Collor de todas as acusações - foi isso que chamei de devido processo legal -, OK, digamos que o impeachment foi, ele próprio, o devido processo legal etc. e tal. Nesse caso, teria havido golpe de Estado em Honduras em 28/06 porque esse "devido processo legal" não foi obedecido, certo?
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Errado! E PROVO por quê.
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Mesmo admitindo-se que o impeachment em 92 foi o "devido processo legal", isso não muda em absolutamente nada a legalidade da deposição de Zelaya. Por um motivo muito simples, para o qual quase ninguém, inclusive o chanceler Celso Amorim, prestou atenção: não existe impeachment na Constituição de Honduras. Simples assim.
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Se não há impeachment, que foi o "devido processo legal" para afastar um presidente no Brasil em 92, então a deposição de Zelaya foi um golpe, certo? Mais uma vez: NÃO, ERRADO! A Constituição de Honduras, nesse ponto específico, é falha, até omissa, como já disse. Mas as condições para o impedimento do presidente estão colocadas, de forma clara, no Artigo 239 da Constituição, já por mim tantas vezes mencionado. O que diz o Artigo 239? Que qualquer um que propuser a reforma da Carta a fim de reeleger o presidente ou vice-presidente - o que Zelaya tentou fazer com sua "consulta popular não-vinculante" - perde DE IMEDIATO ("de inmediato") o cargo que exerce e fica inelegível por dez anos. Está lá, é só ler o que está escrito.
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O que isso significa, na prática? O seguinte: que - repito para ficar ainda mais claro -, quando Manuel Zelaya foi preso pelos militares, vestindo, dizem, pijama, ele JÁ NÃO ERA MAIS PRESIDENTE. Do mesmo modo que Fernando Collor, após o impeachment, perdeu o cargo. A expulsão extralegal de Zelaya do país não muda esse fato, assim como a absolvição de Collor no STF não alterou um milímetro a constitucionalidade do impeachment. Em outras palavras: assim como o impeachment foi o "devido processo legal" no caso de Collor, a deposição imediata de Zelaya foi o "devido processo legal" no caso de Honduras.
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Grande parte da confusão jurídica, decorrente da ignorância da Constituição de Honduras (em especial do Artigo 239), poderia ter sido evitada, é verdade, se existisse na Carta Magna hondurenha o instrumento do impeachment. Mas isso não muda nada na questão. Com ou sem impeachment, a Constituição hondurenha prevê a perda imediata do cargo do presidente que tentar reformá-la. E ponto. Pode-se achar isso uma tolice, discordar dessa forma de resolver as questões, mas é o que está na Constituição do país. E o que está na Constituição, seja no Brasil, em Honduras ou em Kiribati, deve ser respeitado. Alguma objeção?
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Resumindo: os hondurenhos conseguiram depor um presidente, de forma legal e sem derramamento de sangue, com os recursos legais à sua disposição - recursos falhos, como toda obra humana, mas, ainda assim, é o que eles têm. Mesmo assim, o governo Lula e a "comunidade internacional" se recusaram a levar em conta o que diz a Lei Maior de Honduras e condenaram o "golpe de Estado", enquanto pressionaram pela volta "imediata e incondicional" de um golpista, ameaçando lançar o país numa guerra civil. Mas esbarraram na determinação de um povo que se recusou a virar súdito de Hugo Chávez. De forma legal, constitucional. Sim, constitucional! Apesar da expulsão de Zelaya.
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Os bolivarianos e seus parceiros basearam toda a teoria do "golpe" na seguinte mentira: entre um Artigo da Constituição que proíbe a expulsão de qualquer cidadão hondurenho (o 102) e outro que pune com a perda imediata do mandato quem propuser a reeleição (o 239), escolheram o primeiro Artigo e mandaram o segundo às cucuias. Ou seja: entre uma democracia imperfeita e democracia nenhuma, preferem democracia nenhuma!
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Como se não fosse o bastante, a teoria do "golpe" em Honduras foi totalmente desmoralizada pelas eleições presidenciais de 29/11. Desde então, a "comunidade internacional", antes unânime na condenação ao "golpe", se dividiu: os EUA e outros países anunciaram que vão reconhecer o novo governo hondurenho saído das urnas. Ao fazê-lo, caíram numa contradição: se o governo sob o qual as eleições foram realizadas é "golpista", como é possível reconhecer o pleito? O Itamaraty lulista, sempre mais sábio, sempre principista, achou a solução perfeita: simplesmente não vai reconhecer o próximo governo eleito democraticamente no país. Com isso, optou por manter-se coerente em relação à posição anterior. Ou seja: entre a contradição e a mentira, preferiu a mentira.
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Fico aqui pensando: se os militares brasileiros ou chilenos que tomaram o poder em 1964 e em 1973 tivessem agido como agiram os militares hondurenhos que depuseram Zelaya a pedido da Suprema Corte - de forma profissional, buscando seguir à risca o que está na Constituição -, será que teria havido o que ocorreu depois no Brasil e no Chile? Com certeza, não. Quanto sofrimento, quanto sangue e quanta mentira nos teriam sido poupados!
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Sei que, para certos cérebros, nada disso que está aí em cima vai adiantar muito. Estes já estão trabalhados na idéia de que, se os fatos - ou a Constituição - contrariam o discurso ideológico, pior para os fatos (ou para a Constituição). Felizmente, a democracia, pelo menos em Honduras, continua a se basear na Lei, não na vontade de Manuel Zelaya, Hugo Chávez ou Lula.

terça-feira, dezembro 15, 2009

MAIS HONDURAS: RESPOSTA A UM LEITOR QUE ENTENDE TUDO DE LEIS E GOLPES DE ESTADO

Ai, ai... (suspiro longo). Confesso que o tema já cansou. Mas não adianta: sempre vai aparecer alguém que me dá mais argumentos, enxergando golpismo onde há defesa da democracia e da Constituição, e negando-se a ver golpismo onde ele realmente existe, sempre que isso convenha a um certo viés ideológico. Refiro-me, claro, à questão de Honduras.
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Talvez um dia alguém escreva um livro, ou uma biblioteca inteira, com todas as mentiras, falácias, engodos, asneiras e cretinices que a turma zelaysta ou pró-zelaysta, inclusive alguns supostos "juristas", disseram sobre o famoso "golpe de Estado" desfechado em 28/06 para preservar a Carta Magna do país de um caudilho que queria atirá-la no ralo. Enquanto isso, sou obrigado a rebater os, digamos assim, "argumentos" dessa patota.
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Vamos lá. Respondo a um leitor que, por motivos que posso deduzir, prefere o anonimato (deve estar tão certo da justeza de seus argumentos que não quer aparecer...). Ele em vermelho, cor dos que acham que constituições são uma mera formalidade burguesa ou simples escadas para a "revolução":
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De alguém que se acha especialista em leis e em golpes de Estado para um verdadeiro especialista:
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Antes de mais nada: não sou especialista em leis e em golpes de Estado. Aliás, não sou especialista em coisa nenhuma: entendo tanto de leis, sobretudo estrangeiras, quanto Lula entende de gramática ou Al Gore entende de aquecimento global (a diferença deste é que não finjo entender). Sou apenas alguém que, embora não esconda de ninguém suas preferências ideológicas, não deixa que elas o ceguem para a realidade e a boa e velha lógica. Ao contrário de muita gente "neutra" ou "imparcial" que coonesta o golpismo bolivariano. Adiante.
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Eu disse “Bem ou mal” porque não interessa a correção ou erro da decisão. O importante é que foi (ou, ia ser, antes que fosse dada a ordem preventiva) descumprida.Agora:
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Ah, bom, que alívio! Estava pensando que o autor escreveu "bem ou mal" quando falou de uma decisão de uma Suprema Corte ("bem ou mal, ela decidiu que...") porque desconhece o que diz a Constituição de Honduras, especialmente seu Artigo 239. Mas, pelo visto, o autor, que insiste em ignorar esse detalhe, sabe tudo da Constituição de Honduras, como se verá mais à frente...
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Pois é, meu caro: Lei é Lei, é algo que se cumpre, não se discute. E o mané zé laia descumpriu uma cláusula pétrea da Constituição de seu país (lá vamos nós de novo...), tendo sido seu governo declarado ILEGAL e INCONSTITUCIONAL pela Suprema Corte do país. Isso é golpe?
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1- Por favor, me esclareça sobre essa história de devido processo legal para alterar cláusula pétrea. Não consigo imaginar uma cláusula pétrea que preveja o modo de sua própria modificação.
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O distinto leitor não sabe como se dá o "devido processo legal" para alterar uma cláusula pétrea da Constituição? Tudo bem, eu esclareço. Já ouviu falar em Assembléia Constituinte?
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2- Se o devido processo legal (que você erroneamente exige para a alteração de cláusula pétrea) é irrelevante para depor o presidente, uma vez que o Zelaya descumpriu a constituição, você deve considerar correta a execução sumária, se o sujeito for criminoso mesmo, não? Eu discordo disso, acho que, mesmo tendo praticado o ato, o tipo deveria ter a possibilidade de expor suas razões e o órgão competente deveria avaliar a pena adequada a aplicar. Essas coisas às quais você não dá importância. Quanto ao Collor, devido processo legal houve e foi o próprio processo de impeachment (um juízo político, com defesa, advogado e tudo, o que não houve com o Zelaya).
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Já respondi sobre o devido processo legal para mudar cláusula pétrea. Mesmo assim, repito para que fique claro: não, não acho que o devido processo legal é "irrelevante" para "depor o presidente". Aponte onde eu falo isso. O que disse, e repito porque o leitor parece que não entendeu, é que, no caso hondurenho, o que se fez de Zelaya após sua deposição é irrelevante para caracterizar golpe de Estado (lembremos: quando ele foi expulso, ele já não era mais presidente, segundo o Artigo 239 da Constituição). Quando foi detido e embarcado para a Costa Rica, ele, Zelaya, poderia até ser fuzilado, e isso seria qualquer outra coisa (assassinato etc.), menos GOLPE DE ESTADO. Creio que deixei isso muito claro em meu último post.
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Também já respondi sobre o fato de a deposição de Zelaya ter sido legal. Só não entendi o que tem a ver isso que eu escrevi com a idéia de ser a favor de execução sumária de criminosos... (!!??) De onde o leitor tirou esse raciocínio brilhante? Deve ter sido do mesmo balaio de idéias desconexas de onde tirou a tese do "golpe" dado para preservar a Lei em Honduras...
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Não, meu amigo, não sou a favor da execução sumária, nem se o sujeito for pego em flagrante matando ou estuprando minha avó. Sou a favor de que todos tenham direito a se defenderem, assim como sou a favor de todas as coisas boas, belas e puras criadas pela humanidade. Enfim, para mim, ao contrário do que você diz, essas coisas têm importância, sim, tanto que não canso de denunciar o que se passa em lugares como Cuba e a Coréia do Norte, países da predileção de muitos que condenaram o "golpe" em Honduras. Só não consigo entender como é que se pode chamar de golpe de Estado (ou, pior, de "golpe militar") um movimento que cumpriu o que está na Lei para depor um governante que tentou rasgar a Constituição. Assim como não vejo como um erro de procedimento (a expulsão extralegal) pode anular o motivo mesmo da deposição (o Artigo 239). A menos que se considere o que está no Artigo 102 uma cláusula pétrea, ou algo mais importante do que o que está no artigo 239. Zelaya "deveria ter tido a possibilidade de expor suas razões e o órgão competente deveria avaliar a pena adequada a aplicar"? Claro que sim, concordo plenamente. Aliás, era isso que Micheletti queria que tivesse ocorrido, como ele disse em entrevista recentemente. Mas o fato de isso não ter acontecido invalida o que diz o Artigo 239 da Constituição de Honduras? Sim ou não?
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Quanto ao Collor, chegamos aqui a uma questão interessante. O leitor deve admitir que impeachment é um juízo político, como ele mesmo disse. "Devido processo legal", por sua vez, é como o nome diz: um julgamento jurídico, não político. Isso começou, efetivamente, DEPOIS do impeachment, e não antes ou durante. E Collor foi absolvido, pois juridicamente (não politicamente) o STF decidiu que não havia provas contra ele. E a legalidade do impeachment não ficou comprometida por causa disso. Ou ficou?
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Mais uma coisa: presumo que o caro leitor esteja sugerindo que em Honduras houve golpe porque, ao contrário do impeachment de Collor, o "devido processo legal" não foi seguido. Nesse caso, o "devido processo legal" seria o próprio impeachment, tal como o Celso Amorim disse em entrevista. Perfeito. Só tem um probleminha: o impeachment não existe na Constituição de Honduras...
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3- No mais, se a sua solução é que a primeira ilegalidade, inconstitucionalidade ou golpe (o nome que você desejar) abre espaço para um vale tudo institucional, você deveria dizer isso com todas as letras. E aplicar em outros casos também. Por exemplo, segundo essa tese, tudo que o Chavez fez depois de 2002, está plenamente justificado pela tentativa de deposição dele.
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Não, um golpe contra as instituições como o que Zelaya tentou dar não abre espaço para um "vale-tudo institucional". Essa conclusão só pode sair de mentes incapazes de distinguir o que é legal do que não é. Nem eu, nem, quero crer, o atual governo CONSTITUCIONAL de Honduras defenderia esse absurdo. Tanto que o que se viu em seguida à deposição legal de Zelaya não foi qualquer "vale-tudo" por parte do novo governo, muito pelo contrário: as instituições foram preservadas, a Constituição defendida, as eleições previstas realizadas normalmente (apesar das ameaças dos zelaystas). O único "vale-tudo" que se verificou foi o de Zelaya e sua turma (ou seja: Chávez, Ortega e o Itamaraty lulista, entre outros), que ignoraram solenemente a Constituição de Honduras e tentaram levá-lo ao poder na marra. A analogia com Chávez após 2002 não faz qualquer sentido, até porque, até o momento, apenas a versão chavista sobre o que aconteceu é que foi ouvida. A única coisa certa é que Honduras, ao enxotar o golpista Zelaya, se recusou a se tornar uma nova Venezuela.
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Assim, talvez provaria o seu ponto, que sua posição serve tanto para condenar a esquerda como a direita.O que não dá é ficar falando em “erro” do regime e “golpe” do zelaya, fingindo que essa manipulação de qualificações constitui uma argumentação decente, quando na verdade tudo é uma questão de preferência pessoal: você acha que um descumprimento de ordem judicial por um governo, justifica sua deposição, na lei ou na marra. Mas pensa assim, somente porque o governo deposto era (ou tendia a ser) aliado do Chavez.
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O leitor parece ter certa dificuldade em interpretar textos corretamente. Eu não disse que minha posição sobre Honduras "serve tanto para condenar a esquerda como a direita". Disse que serve para saber quem tentou violar a Lei e quem agiu para defendê-la. E quem tentou rasgar a Constituição e foi impedido legalmente de fazê-lo foi Manuel Zelaya. Ponto.
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Quanto a "erro" e "golpe", se o distinto leitor não sabe a diferença entre uma coisa e outra, entre descumprir uma norma legal e tentar abolir à força uma cláusula pétrea da Constituição, só posso lamentar sua falta de senso de proporções. É algo normal em quem coloca a ideologia, disfarçada ou não, acima da realidade. É só isso que explica, por exemplo, enxergar golpe num movimento respaldado pela Constituição, ou uma diplomacia que se recusa a reconhecer as eleições em Honduras mas as reconhece em Cuba ou no Irã.
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Gostaria que me explicasse uma coisa: como eu posso achar que o descumprimento de uma ordem judicial por um governo justifica sua deposição "na lei ou na marra"? Se não cumpriu a Lei, e existe uma ordem legal da Suprema Corte determinando a ilegalidade do governo, como isso pode ser "na marra"? Afinal, a Suprema Corte determinou que a consulta que Zelaya tentou fazer era ilegal ou não?
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Como se vê, não penso assim ou assado "somente porque o governo deposto era (ou tendia a ser) aliado de Chávez" (aliás, "tendia a ser", não: ERA aliado - Chávez violou inclusive a soberania de Honduras, planejando um banho de sangue e invadindo seu espaço aéreo para restabelecer o golpista bigodudo no muque). Mas de nada adianta dizer isso a quem já botou na cachola que golpismo é apanágio da "direita" e que os esquerdistas, sejam de que tipo forem, são sempre democratas. Para quem acredita que a expulsão extralegal de um presidente deposto invalida uma decisão da Suprema Corte determinando a ilegalidade de seu governo, isso é mais que natural.
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Finalmente, se o distinto leitor quiser responder a este post e não quiser lê-lo na íntegra, como não deve ter lido a Constituição de Honduras, vou poupá-lo desse sacrifício. Basta que me responda a seguinte pergunta, que já fiz neste post e repito aqui em termos jurídicos:
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O ARTIGO 102 DA CONSTITUIÇÃO DE HONDURAS, QUE PROÍBE A EXPULSÃO DE CIDADÃOS HONDURENHOS, INVALIDA, ANULA OU TORNA SEM EFEITO O ARTIGO 239, QUE PUNE COM A PERDA IMEDIATA DO MANDATO QUEM PROPUSER A REELEIÇÃO DO PRESIDENTE?
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Ou, em português mais claro:
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O FATO DE ZELAYA TER SIDO EXPULSO DO PAÍS, EM VEZ DE PRESO E LEVADO A JULGAMENTO, INVALIDA, ANULA OU TORNA SEM EFEITO O QUE ELE, ZELAYA, TENTOU FAZER EM HONDURAS?
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SIM OU NÃO?

AINDA SOBRE HONDURAS E O GOLPE QUE NÃO HOUVE


Precisa traduzir?
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Recebo um comentário contestando o que digo em meu último texto sobre Honduras. Pelo visto, trata-se de alguém que se acha especialista em leis e em golpes de Estado. Faço um rápido vermelho-e-preto:

Golpe de Estado não é violação de cláusula pétrea, mas a uma ruptura institucional promovida por um poder legitimado pela constituição. É um conceito vago, portanto.

Eu não disse que golpe de Estado é violação de cláusula pétrea. Vou repetir o que disse: "O que caracteriza golpe de Estado é a ruptura da legalidade constitucional no que ela tem de mais essencial, como sua cláusula pétrea". Uma cláusula pétrea é a base mesma sobre a qual se sustenta o edifício constitucional. Mesmo assim, pode ser mudada e até abolida, desde que seguido o devido processo legal. Isso significa que tentar a reeleição em um país onde a proibição da reeleição é cláusula pétrea da Constituição, como Honduras, como Manuel Zelaya tentou fazer, é golpe. Fazer o mesmo no Brasil, onde a reeleição não é cláusula pétrea, não é golpe. No primeiro caso, houve uma tentativa de violar a ordem constitucional; no Brasil, não. Ficou claro?

Esse assunto já deu o que tinha que dar, mas é importante se ater aos fatos (coisa que nenhum dos lados fez):

Pelo visto, o assunto ainda não deu o que tinha que dar, não. Ainda há gente que acredita ter havido golpe em Honduras em 28/06, ou que ambos os lados são golpistas e o jogo está, portanto, zerado. Essas pessoas precisam ler o que vai em seguida.

1- Zelaya queria convocar um plebiscito, não vinculante, para consultar a população sobre a eleição de uma constituinte a constituição no mesmo dia das eleições.

2- A Suprema Corte de Honduras, bem ou mal, considerou inconstitucional o plebiscito.

Por que "bem ou mal", cara-pálida? A tal consulta convocada por Zelaya era, sim, ILEGAL e INCONSTITUCIONAL de acordo com a Constituição hondurenha (Artigo 239 - que ninguém parece muito disposto a ler, pelo visto). O Artigo 239 deixa claro que quem propuser a reeleição perde DE IMEDIATO (ou seja: imediatamente, na hora) o mandato que exerce. Vou até transcrever o que ele diz aqui, em espanhol mesmo:

ARTICULO 239.- El ciudadano que haya desempeñado la titularidad del Poder Ejecutivo no podrá ser Presidente o Vicepresidente de la República.
El que quebrante esta disposición o proponga su reforma, así como aquellos que lo apoyen directa o indirectamente, cesarán de inmediato en el desempeño de sus respectivos cargos y quedarán inhabilitados por diez (10) años para el ejercicio de toda función pública.


Querem discutir se houve golpe ou não em Honduras? Então leiam a Constituição do país.

3- Zelaya queria reformar a constituição mesmo assim.

Ou seja: VIOLOU abertamente uma cláusula pétrea da Constituição, incorrendo automaticamente na perda imediata de seu mandato. Saiu da legalidade, enfim.

4- A Suprema Corte ordenou que fosse impedido.

Isso mesmo: a SUPREMA CORTE, ou seja, o Judiciário do país, ordenou que ele fosse impedido de levar adiante uma consulta ILEGAL e INCONSTITUCIONAL. O que ele fez, então? Insistiu no troço. Conclusão: perdeu IMEDIATAMENTE o mandato, de acordo com o que diz a Constituição (leiam acima o que diz o Artigo 239).

5- O presidente teve sua residência invadida e foi expulso do país de pijamas (de verdade), sem devido processo legal.

E daí? O "presidente" já não era mais presidente (perdeu DE IMEDIATO o cargo, é o que diz a Constituição). O procedimento foi equivocado? Sim, e já falei disso aqui exaustivamente. A expulsão contrariou o Artigo 102, que a proíbe. Mas isso anula o Artigo 239 da Constituição? De jeito nenhum: o 239 dispõe sobre uma cláusula pétrea, ao contrário do 102 (expulsar um cidadão de Honduras é ilegal, mas não é "golpe"). Então é isso que caracteriza golpe de Estado: o fato de o sujeito estar vestindo pijamas na hora de ser detido? Eu não sabia que pijama foi inventado para dar dignidade a quem quer que seja.

Sobre o "devido processo legal", é importante observar o seguinte: a Constituição hondurenha é omissa nesse ponto. Mas isso não muda nada: quando Zelaya foi detido e expulso do país, de pijamas, fraque ou baby-doll com rendinhas (não importa), ele já não era presidente da República. Mesmo se o tivessem fuzilado, não teria havido golpe de Estado, pois seria o assassinato de um cidadão comum, não do mandatário. O procedimento adotado em seguida à deposição é irrelevante para caracterizar o movimento como golpe. Com ou sem devido processo legal, a deposição foi constitucional. Não é assim porque eu quero: é o que está na Constituição de Honduras.

Para ficar mais claro: ninguém pode dizer que Fernando Collor foi vítima de golpe em 1992, embora o "devido processo legal" só tenha ocorrido após ele ter sido apeado do poder por um processo de impeachment (após o qual, aliás, ele foi inocentado pelo STF). Até onde eu sei, não houve golpe de Estado no Brasil em 92. Houve?

6- Foi lida uma carta de renúncia falsa do presidente no parlamento e eleito um substituto.
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A carta, que foi lida por um deputado da oposição, não teve nada a ver com a deposição de Zelaya. Ele perdeu o mandato por ter tentado estuprar a Constituição, não por causa da carta. O substituto eleito foi o presidente do Congresso, Roberto Micheletti, conforme estabelece a Constituição do país em caso de impedimento do titular e do vice (que havia se licenciado do cargo para concorrer às eleições). Tudo conforme a Lei.
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É óbvio que qualquer tentativa de qualificar um dos lados como golpista depende das preferências do analista e da gravidade que se atribua a cada um dos fatos ocorridos. O que não vale é distorcer os acontecimentos para dar aparência de objetividade à conclusão de cada um.
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A última frase está correta, mas não o resto do parágrafo. Qualquer que seja a preferência do analista (e eu, ao contrário de muitos, não a escondo, mas não a uso como biombo para fugir à realidade), golpe é golpe, ponto final. Honduras tem uma Constituição, e isso foi sistematicamente ignorado pelos que gritaram "golpe militar" após a deposição legal de Zelaya. Considerar golpe de Estado um movimento previsto na Constituição, realizado pelo Congresso e pelo Judiciário, com apoio popular, que manteve o calendário eleitoral e preservou a democracia não tem nada a ver com objetividade: é ignorância ou ingenuidade, ou safadeza ideológica mesmo.
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Resumindo: segundo os "imparciais" que acham que um erro cometido no calor da hora pelos que derrubaram Zelaya anula o golpe que ele tentou dar e "zera o jogo", ele, Zelaya, foi vitima de golpe porque:
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- O Artigo 102 da Constituição de Honduras anula o 239.
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- Alguém leu uma falsa carta de renúncia de Zelaya no Parlamento.

- Ele estava vestindo pijama.

Pelo visto, em Honduras não ocorreu apenas o maior fiasco da diplomacia brasileira em todos os tempos: lá surgiu uma verdadeira revolução na Ciência Política. É a Teoria do Pijama dos Golpes de Estado. Segundo essa teoria revolucionária, golpe só é golpe quando é praticado pela "direita", jamais pelos "companheiros bolivarianos". Estes estão sempre do lado do povo e da democracia, mesmo quando - na verdade, principalmente quando -tentam violar as leis de um país.
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Em Honduras, os bolivarianos tentaram dar um duplo golpe: primeiro, contra as instituições do país; depois, contra a inteligência. No primeiro, eles saíram derrotados; o segundo, porém, está em plena marcha, e muitos se deixam cair nele de forma voluntária e inconsciente.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

HONDURAS: POR QUE NÃO HOUVE GOLPE


Se há uma certeza na vida, além da morte e dos impostos, é que os esquerdistas sempre acharão um jeito de mentir um pouquinho mais, de agredir um pouco mais a verdade e o bom senso. Vejam o caso de Honduras. Há alguns dias, o país realizou eleições limpas e democráticas, do tipo que o Irã ou Cuba, por exemplo, não vêem há décadas, e o que fez a nossa diplomacia tupiniquim? Contrariando as normas mais comezinhas da lógica e até a posição oficial do governo dos EUA, que parece ter acordado para a realidade, o governo Lula se recusa a reconhecer o resultado das eleições. E por quê? Porque o governo que as convocou, dizem os sábios do Itamaraty, carece de legitimidade; é um governo "ilegal" e "golpista", dizem.

A posição da diplomacia lulista tem o mérito, pelo menos, da coerência em comparação com a confusão reinante no Departamento de Estado norte-americano nos dias da crise hondurenha. Mas isso não deve ser contado a seu favor. Pelo contrário: mostra apenas que, entre a confusão e a estupidez, o governo brasileiro escolheu a estupidez. Washington optou por reconhecer o resultado das eleições realizadas pelo governo "golpista" que manteve o calendário eleitoral (já viram algo parecido antes?). Com isso admitiu, tacitamente, que sua posição anterior, de condenação ao governo Micheletti, estava errada. Já o Brasil prefere persistir no erro mesmo, mantendo-se, coerentemente, do lado da mentira.

Já escrevi bastante neste blog mostrando, com fatos e argumentação lógica, que não houve golpe nenhum em Honduras, a não ser o tentado por Manuel Zelaya. Deixei claro - provei, para ser mais exato - que Zelaya foi deposto para que se cumprisse a Lei, e até agora não vi ninguém comprovar o contrário. Mostrei, mais de uma vez, que a idéia de que tenha havido golpe só se sustenta pela ignorância a respeito da Constituição de Honduras, em especial de seu Artigo 239, que pune com a perda IMEDIATA do mandato quem tentar reformá-la. Mesmo assim, ainda há quem acredite piamente que ele, Zelaya, foi vítima de golpe. Ainda há quem, embora reconheça que a atitude brasileira em relação às eleições presidenciais de 29/11 está errada, insiste na ladainha do golpe etc.

O mais novo argumento que defrontei foi o seguinte: houve golpe, pois Zelaya não teve o direito ao devido processo legal. Em vez disso, ele foi sumariamente deposto e expulso do país, não tendo sido respeitados seus direitos constitucionais. Enfim, houve golpe porque o procedimento que se seguiu à sua deposição foi ilegal etc. etc.

Já tratei aqui do que está acima, e faço questão de repetir: sim, a expulsão de Zelaya foi um erro, e foi, sim, ilegal, pois contraria o Artigo 102 da Constituição hondurenha. Ele não deveria ter sido expulso, mas preso e levado a julgamento. Já afirmei e reafirmei isso várias vezes. Do mesmo modo, já afirmei e reafirmei que não é isso - sua expulsão do país, supostamente de pijamas, como foi dito - o que caracteriza golpe de Estado.

Para dizer que houve golpe em Honduras em 28/06 baseado nisso - a expulsão extralegal de Zelaya para a Costa Rica - seria preciso ignorar completamente o que diz o Artigo 239 da Constituição, que deixa claro que quem tentar a reeleição perde - mais uma vez, é o que diz a Lei - DE IMEDIATO o cargo que exerce e ficará inelegível por dez anos. Pois bem: de acordo com esse Artigo, quando os militares bateram à porta de Zelaya, ele já não era mais presidente do país. A perda do mandato fora imediata. O que se seguiu à sua deposição legal é irrelevante para definir o que aconteceu. Não há o que discutir.

A expulsão de Zelaya de Honduras foi um erro? Certamente que sim. Foi um ato ilegal? Sem dúvida. Elimina o fato de que ele tentou rasgar a Constituição do país e caracteriza um golpe de Estado? Faço questão de dizer: Não! Mil vezes não!

A questão já foi colocada por Reinaldo Azevedo em resposta ao representante brasileiro na OEA, mas eu vou resumi-la aqui: o Artigo 102, que proíbe a extradição de cidadãos hondurenhos, pode ser defendido juntamente com o 239, que motivou a deposição de Zelaya - é possível conjugá-los e dizer que não houve golpe. Já para dizer que houve golpe é necessário, antes de tudo, aferrar-se ao Artigo 102 e jogar o Artigo 239 na lata de lixo, fazendo uma leitura seletiva da Constituição hondurenha, como se um Artigo tornasse o outro sem efeito. Foi exatamente isso o que fez o governo do Brasil e a chamada "comunidade internacional" na questão.

Na verdade, toda a gritaria que se ouviu nos últimos meses contra o governo "golpista" (ou "de facto") de Honduras, incluindo uma das maiores pressões internacionais a que um povo esteve submetido nos últimos tempos, não partiu de nenhuma análise jurídica, mas tão-somente política e ideológica, da situação hondurenha. Basta fazer um exercício simples para perceber isso. Digamos que os militares hondurenhos que depuseram Zelaya a pedido do Congresso e da Suprema Corte do país (mais uma vez: isso caracteriza golpe?) tivessem, em vez de o expulsado, o prendido e levado à barra dos tribunais. A gritaria contra o "golpe" teria sido menor? É pouco provável. Ainda mais porque os governos da região, entre os quais o do Brasil, condenaram desde o primeiro dia a queda de Zelaya e passaram a exigir seu retorno "imediato e incondicional" ao poder, mostrando com isso que estavam se lixando para o que ele tentou fazer com a Constituição do país. Se estão tão preocupados com o Artigo 102 da Carta Magna de Honduras, a tal ponto de dizerem que houve golpe porque este foi desrespeitado, então por que ignoram o Artigo 239, que motivou a queda de Zelaya?

É uma questão de lógica, claro. Mas não é assim que pensam os bolivarianos de todos os tipos. Para esse tipo de gente, que está além do alcance de qualquer racionalidade, um golpe só é golpe se dado por alguém "de direita", jamais por um de seu próprio grêmio. E, se são incapazes de sustentar uma mentira por muito tempo, tratam logo de inventar outra, a fim de se safar. Muita gente caiu no conto-do-vigário do "golpe militar" em Honduras, acreditando, por pura ignorância ou ingenuidade, que Manuel Zelaya é um democrata. Ao perceberem que ele foi deposto porque tentou estuprar a Constituição, viram que a situação eram bem menos maniqueísta. Mas não abandonaram a tese do "golpe": ambos os lados são golpistas, passou-se a dizer. Havendo golpistas de lado a lado, o jogo estaria zerado.

Discordo totalmente dessa tese. Não creio que, por causa de um erro dos militares encarregados de depor Zelaya, tomado no calor dos acontecimentos e por temor a uma reação violenta dos zelaystas, e de modo algum incompatível com o Artigo 239 da Constituição (a verdadeira razão de tudo), ambos os lados sejam golpistas e o jogo esteja, portanto, zerado. O lado golpista é claramente o de Zelaya. E isso pelos motivos já enumerados acima, e que continuam a ser ignorados pela maior parte da opinião pública, anestesiada pela propaganda bolivariana.

No tocante a Honduras, por influência de Hugo Chávez e da "comunidade internacional", inverteu-se a questão: a forma (ou o procedimento) como os militares se livraram de Zelaya no dia de sua queda passou a ser vista como mais importante do que o que ele, Zelaya, tentou fazer com as instituições do país. Se ele tivesse sido, digamos, morto pelos militares hondurenhos ao tentar resistir à prisão, ainda assim não teria havido golpe nenhum: talvez assassinato, mas não golpe. Isso porque, além de ele não ser mais presidente de acordo com a Constituição, o que caracteriza golpe de Estado não é como um governante é deposto - de dia ou à noite, com ou sem pijama, com ou sem o "devido processo legal" (embora, reitero, este seja necessário) -, mas, sim, a quebra da legalidade constitucional no que ela tem de mais essencial como sua cláusula pétrea. E a proibição da reeleição do presidente é, gostem ou não, uma cláusula pétrea da Constituição de Honduras. Diferentemente, até onde eu sei, da não-expulsão do presidente deposto por tentar violar esse preceito constitucional fundamental.
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O erro do governo Lula no imbróglio hondurenho não está somente em não reconhecer o resultado das eleições democráticas de Honduras, ou em ter permitido que Manuel Zelaya transformasse a embaixada em Tegucigalpa em seu cafofo e escritório de agitação política - o erro principal, o pai de todos os erros, foi não ter sabido, ou querido, distinguir um movimento para preservar a Constituição de uma clássica quartelada latino-americana. Foi ter-se colocado incondicionalmente do lado de um golpista como se ele fosse um democrata, ficando a reboque do golpismo bolivariano. Daí veio toda a trapalhada que se seguiu.
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Em Honduras, a legalidade e as instituições democráticas não somente não foram rompidas pelo governo "de facto", como foram por ele preservadas, inclusive mantendo-se o calendário eleitoral. O Congresso e o Judiciário não somente não foram fechados nem sofreram intervenção, como tomaram as rédeas do país, garantindo a alternância democrática no poder. Nenhum parlamentar foi preso ou teve os direitos políticos cassados, e os direitos individuais, como o de associação e reunião - inclusive dos zelaystas -, foram mantidos e respeitados. O estado de emergência, que durou apenas 15 dias, obedeceu inteiramente ao que diz a norma legal (Artigo 187 da Constituição). E isso a despeito de toda a pressão internacional, das ameças de sanções e das exortações à insurreição e à guerra civil, inclusive ao terrorismo, por parte de Zelaya em seu bunker no que foi um dia a embaixada brasileira em Tegucigalpa. Mas não é assim que parecem ter entendido muitas pessoas, para quem a verdadeira cláusula pétrea da Constituição hondurenha está no Artigo 102, e não no 239, da Carta Magna.

Os bolivarianos não se contentam mais em tentar mudar as constituições de seus próprios países para implementar seus projetos autoritários e continuístas. Agora tratam de reinterpretar as de outros países também, de acordo com suas próprias conveniências. Tomando a forma como o essencial, ou desprezando cláusulas pétreas em favor de filigranas jurídicas, o que pretendem é semear a confusão, pintando golpistas como democratas, e vice-versa. Em Honduras, pelo menos, eles quebraram a cara. A democracia venceu.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

DUAS PERGUNTINHAS AOS "IMPARCIAIS" QUE ACHAM QUE A CORRUPÇÃO DE LADO A LADO "ZERA O JOGO"

Outro dia respondi aqui a um engraçadinho que me perguntou se eu não ia falar também da "corrupção da direita". Muito bem: faço-o agora, mesmo sem saber ao certo o que o referido entende por "direita" (o DEM? o PSDB?). Não porque eu aceite ser pautado pelos petralhas (o que, ao que parece, era a intenção do dito-cujo), mas porque o atual escândalo que envolve diretamente o governador do DF, José Roberto Arruda, traz algumas lições importantes.
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Ao contrário do que podem estar pensando alguns, principalmente aqueles que acham que a corrupção alheia é uma espécie de álibi para mensalões petistas e aloprados, estou acompanhando com atenção as notícias sobre o tal "mensalão do DEM" no DF. Também ao contrário do que estes pensam, não tenho a menor intenção de defender Arruda e os outros envolvidos no caso. Pelo contrário: quero mais é que Arruda se dane, que perca o cargo e que os demais acusados sejam punidos conforme a lei. É justamente por isso que não posso aceitar uma manipulação grosseira que os petistas, essas vestais da ética e dos bons costumes políticos, estão fazendo do caso.
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A questão é: a corrupção do DEM, ou de que quem quer que seja, "zera o jogo" em 2010? Melhor dizendo: a ladroagem de um torna justificável e invisível a do outro? Ou, como está em A Arte de Furtar, texto anônimo (e atualíssimo) do século XVIII: devemos aceitar que haja ladrões que roubam e são enforcados, e ladrões que roubam e enforcam?
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A resposta, pelo menos para qualquer pessoa que ainda tenha um mínimo de decência, é, claro, um NÃO bem rotundo. Mas, desgraçadamente, não é assim que pensam muitos. Vejamos:
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- Não bastou uma semana após a divulgação das imagens de corrupção na TV para que estourassem protestos e manifestações indignadas de estudantes pedindo o impeachment de Arruda e a punição dos culpados. "Fora Arruda" já virou um bordão. Pois bem. Não vi nada parecido em 2005, quando estourou o escândalo do mensalão do PT - muto maior, em dimensão e gravidade, a qualquer coisa que veio antes ou depois. Não me recordo de ter visto ninguém com um cartaz escrito "Fora Lula", por exemplo, nem gente invadindo a Câmara dos Deputados, nem cargas de cavalaria contra manifestantes. Pelo contrário: lembro bem de uma passeata da UNE, a qual presenciei de meu local de trabalho, contra a corrupção e a favor de... Lula! Pergunto: POR QUE OS QUE AGORA SAEM ÀS RUAS PARA PEDIR O IMPEACHMENT DE ARRUDA POR CAUSA DO MENSALÃO DO DF SE NEGARAM A SAIR ÀS RUAS PARA PEDIR O IMPEACHMENT DE LULA POR CAUSA DO MENSALÃO PETISTA?
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- Ontem, Arruda anunciou que não faz mais parte das fileiras do DEM, e que não irá se candidatar no ano que vem. E quanto a José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, Sílvio Pereira, Luis Gushiken, Paulo Okamoto... foram desfiliados do PT? O DEM exigiu desde o início, e conseguiu, a saída de Arruda dos quadros do partido. Pergunto: E O PT, QUANDO FARÁ O MESMO COM SEUS MENSALEIROS E ALOPRADOS?
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Li que um dos deputados distritais do DF mais atuantes pelo impeachment de Arruda, um tal de Paulo Tadeu, compareceu um dia desses a uma confraternização num restaurante badalado de Brasília em homenagem a José Genoíno e a outros implicados no mensação petista de 2005. É assim que age esse pessoal: de dia, atacam e exigem a cabeça dos corruptos de outros partidos; à noite, trocam abraços e tomam uísque com os mensaleiros de sua própria grei.
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Trocando em miúdos: para os petistas e seus cúmplices, a corrupção dos outros é uma coisa muito feia e merece toda punição; já a corrupção própria, não, porque é feita por uma boa causa, com a melhor das intenções... Se eu não fosse caridoso, eu diria que isso é malandragem e safadeza da pior espécie. Como sou caridoso, digo que é duplo padrão moral. De qualquer jeito, é uma baita de uma enganação.

DIPLOMACIA LULISTA: ENTRE O ENIGMA E A VERGONHA - UMA ENTREVISTA COM ANDRES OPPENHEIMER

Pouco a pouco, as pessoas começam a acordar para a grande farsa que é a diplomacia megalonanica lulista. Vejam o que diz o colunista Andres Oppenheimer, em entrevista para a Folha de S. Paulo, em 9/12.
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Vejam que Oppenheimer se refere ao que aconteceu em Honduras em 28/06 - a deposição legal do golpista bolivariano Manuel Zelaya - como "golpe", posição da qual discordo totalmente, como já demonstrei aqui neste blog várias vezes, com argumentos legais que ainda não vi serem desmentidos. Mas isso não o impede de acertar em cheio ao mostrar que a política do governo Lula para Honduras, assim como o Irã, não tem pé nem cabeça: ainda que a gritaria sobre golpe estivesse correta (e não está), a decisão brasileira de não reconhecer as eleições presidenciais hondurenhas é um contra-senso: as eleições foram convocadas antes da queda de Zelaya, logo não há qualquer razão lógica ou legal para não reconhecê-las. Notem também o que ele diz sobre a confusão reinante no governo Obama durante a crise hondurenha, especialmente sobre a ignorância de Obama a respeito da América Latina.
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Há outras pontos da entrevista que devem ser vistos cum granu salis, com um grão de sal: por exemplo, os elogios às "políticas sociais" de Lula, que mais parecem coisa de gringo deslumbrado com o país das mulatas e do carnaval. Mas, no geral, a entrevista é bastante interessante por mostrar um ponto de vista que destoa frontalmente da propaganda oficial lulista. É mais uma chinelada na retórica lulo-bolivariana que, nestes dias tenebrosos, apossou-se do Itaramarty. Os grifos são meus.
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Política externa brasileira varia entre enigma e vergonha, diz colunista; leia entrevista
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SÉRGIO DÁVILA
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da Folha de S.Paulo, em Washington
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A política externa brasileira, em seus melhores momentos, é um enigma; nos piores, uma vergonha. Nesse campo, o Brasil frequentemente se parece com um país de quarto mundo. Ambas as afirmações são do mais respeitado colunista de assuntos latino-americanos da imprensa norte-americana, Andres Oppenheimer, cujos textos são publicados no jornal "Miami Herald" e em 60 outros pelo mundo.
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O jornalista norte-americano de origem argentina, autor do recém-lançado "Los Estados Desunidos de Latinoamérica" (editora Debate), ainda inédito no Brasil, e de "Contos-do-Vigário" (editora Record, 2007), entre outros livros, falou à Folha de S.Paulo anteontem, por telefone de Miami, sobre a crise hondurenha, a relação do governo Barack Obama com a América Latina e a recente visita do iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil.
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Leia a íntegra abaixo:
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FOLHA - Em sua coluna mais recente, o Sr. escreveu que Brasil, EUA e OEA erraram no caso de Honduras. O que poderia ter sido feito e não foi?
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ANDRES OPPENHEIMER - O Brasil deveria ter sido mais cauteloso antes de começar a grita de que não reconheceria as eleições em Honduras. É uma posição ridícula: por um lado, o país pede a suspensão do embargo dos EUA a Cuba, país que não tem eleição multipartidária há 50 anos; por outro, quer impor sanções econômicas a Honduras, que realizou eleições multilaterais. Não faz o menor sentido.
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Além disso, Porfirio Lobo, o vencedor das eleições hondurenhas, não teve nada a ver com o golpe. Em terceiro lugar, a eleição em Honduras foi convocada antes do golpe. Então, denunciar as eleições e dizer que não é aceitável foi uma ação mal estudada por Lula. Há um quarto motivo pelo qual a posição do Brasil não é tão séria: a maior parte das democracias latino-americanas é resultado de eleições convocadas sob ditaduras ou regimes de facto, a começar pelas de 1989, no Chile, que começaram o ciclo democrático, nascido após o referendo convocado pelo regime do [ditador Augusto] Pinochet.
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O Brasil agiu corretamente no começo da crise, ao denunciar o golpe. Concordo que Roberto Micheletti desrespeitou a lei ao não se restringir a prender Manuel Zelaya, mas colocá-lo num avião e mandá-lo para fora do país. Ele tinha a decisão da Suprema Corte para prendê-lo, mas deveria tê-lo dado um julgamento justo em Honduras. Mas quando o país declarou que não aceitaria os resultados das eleições, adotou um padrão totalmente contraditório a sua política em Cuba, por exemplo, mas também amarrou as próprias mãos e agora vai ter de retroceder, porque todo o resto vai reconhecer as eleições e o Brasil vai ficar isolado.
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Os EUA adotaram posição oposta, Colômbia, Peru, Costa Rica, Panamá adotaram a mesma posição, os 27 países da União Europeia estão indo em direção à posição norte-americana e, após 27 de janeiro, depois que Porfirio Lobo assumir o poder, mais e mais países o vão reconhecer.
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Já os EUA nos deixaram coçando a cabeça, porque o que eles fizeram foi bastante confuso. Começaram condenando o golpe como todos os outros, depois disseram "sim, mas não", com vozes diferentes vindas do Departamento de Estado e da Casa Branca, pelo menos com graus diferentes de reprovação, com a Casa Branca muito mais forte em condenar o golpe do que a chancelaria. O que eles deveriam ter feito diferente no começo era condenar o golpe, como fizeram, mas marcar posição de que havia dois culpados aqui, Micheletti e Zelaya, que estava orquestrando seu próprio golpe constitucional à la Hugo Chávez. E ter uma mensagem mais clara.
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Por fim, a OEA foi a primeira a vir com uma posição unilateral condenando o golpe, o que foi certo, também, mas não lidava com o que Zelaya vinha tentando fazer, que era passar por cima de algumas instituições e convocar um referendo constitucional e se reeleger. Diplomatas são conhecidos por adotar a atitude de esperar para ver, mas nesse caso nenhum deles fez isso.
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FOLHA - O Sr. mencionou a posição dúbia norte-americana. Seria fruto de a política dos EUA para a região estar sempre refém das divisões políticas internas do país?
OPPENHEIMER - Acho que tem mais a ver com quem está no comando dessa política. Não esqueçamos que, durante toda a crise hondurenha e até o mês passado, ninguém estava à frente do setor para a América Latina no Departamento de Estado. Então, quase toda a política foi comandada da Casa Branca, por Dan Restrepo. Eu gosto da política em geral da administração de Obama, mas infelizmente ela não é muito focada na América Latina.
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Primeiro, porque eles têm problemas maiores, como Iraque, Afeganistão e outras partes do mundo. Mas também porque ninguém ali tem interesse pessoal na região. Eu entrevistei Obama duas vezes. Na primeira, em 2007, perguntei quais eram os três presidentes latino-americanos que mais respeitava e ele não conseguiu mencionar nenhum. Disse que tinha muito interesse pela presidente do Chile, lembrava-se de que era uma mulher, mas não o seu nome. Da segunda vez, em 2008, já tinha se preparado, assim que sentou citou cinco nomes de presidentes. [Risos]
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Mas ele nunca tinha estado na região até virar presidente e não tem um histórico de conexão com a região. Clinton e Bush foram governadores de Estados fronteiriços [ou quase, no caso do democrata], que pelo menos têm muitos negócios com o México; Obama vem de Illinois. Então não é coincidência que sua primeira viagem como presidente tenha sido ao Canadá e depois ao México, quando Bush fez o oposto. Obama é um presidente melhor do que Bush foi, mas infelizmente não tem histórico de interesse pessoal pela região.
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FOLHA - Agora ele tem o seu time mais ou menos constituído, com Arturo Valenzuela, Dan Restrepo, Thomas Shannon. O que acha deles?
OPPENHEIMER - Os três que você mencionou conhecem muito sobre a América Latina, têm muita experiência na região, falam espanhol fluente, alguns até português, e são inteligentes. A questão é se eles têm peso dentro do governo. Porque proximidade é poder, como me disse uma vez um ex-assessor de Clinton. Você pode ser secretário-assistente para a América Latina, mas se tem acesso direto ao presidente, poderá ser mais poderoso que seu chefe imediato.
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Na gestão Clinton, havia Mack McLarty como enviado especial às Américas, e ele tinha sido aluno na mesma classe de jardim de infância de Clinton, então quando ele pegava o telefone e dizia que o presidente do Brasil tinha um problema urgente para resolver, Clinton atendia. Obama vai atender quando Shannon ou Valenzuela ou Dan Restrepo ligarem para ele? Provavelmente não. Não por falha deles, mas, por mais inteligentes e eficientes que sejam, não estão no círculo íntimo de Obama.
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FOLHA - O Sr. vê o presidente cumprindo a promessa de campanha de ter um enviado especial à região?
OPPENHEIMER - Já passou um ano, eu perguntei sobre isso a um alto funcionário da administração na sexta passada e ele me disse que eles ainda não decidiram e não me parece que vão. Obama me disse na campanha que organizaria um encontro anual das Américas, em vez de um a cada três, quatro anos, e até agora nada.
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FOLHA - Esse argumento de que os EUA têm assuntos mais importantes tem sido usado por uma década já. Como mudar as prioridades?
OPPENHEIMER - Um enviado especial à região com proximidade ao presidente seria um passo, outro seria o encontro anual das Américas, porque ele força o presidente a prestar atenção à região e ter algo a dizer a ela. Sem reunião anual, não há motivo para ele se concentrar nas Américas por três ou quatro anos.
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Uma vez eu perguntei a Madeleine Albright quanto tempo ela se dedicava à América Latina por dia, ela pensou e me disse cerca de 20 minutos. Seus assessores riram quando eu contei a eles, me disseram que era muito menos. Se a secretária de Estado, que é a responsável pela política externa dos EUA, passa menos de vinte minutos pensando na região, imagine o presidente, que cuida também da política externa, doméstica, militar, ambiental etc. Talvez uma vez a cada vários dias.
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FOLHA - O Sr. vê alguma grande mudança no futuro próximo em relação a Cuba?OPPENHEIMER - Obama fez as coisas certas, ele deveria ir um pouco além e cancelar mais sanções, se não todas, em relação a viagens, porque comunicação e contato pessoal não vão derrubar o regime, mas podem ajudar a romper o isolamento de Cuba do mundo. Não acho que muito vá mudar no país até que Fidel morra, mas, diferentemente de outros estudiosos, acho que as coisas vão mudar no minuto seguinte à morte dele.
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FOLHA - O Sr. vê os EUA suspendendo o embargo econômico em curto prazo?
OPPENHEIMER - Não. Não há pressão nem muito apoio para isso. Há apoio nos Estados do Meio Oeste que querem exportar mais alimento para Cuba, mas há muito mais eleitores na Flórida e em Nova Jersey que votam baseados na questão cubana do que no Meio Oeste. O apoio para o embargo está enfraquecendo nos EUA e também entre os cubano-americanos, mas no futuro próximo ainda há uma porção considerável da comunidade que quer essa medida e essas pessoas votam e eu não acho que a administração de Obama queira jogar fora esses votos.
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FOLHA - Nem num eventual segundo mandato, quando ele não terá mais tanto a perder?
OPPENHEIMER - Ele ainda vai precisar do Congresso, do maior número possível de democratas eleitos e, como demonstrado nas últimas eleições, muitos cubano-americanos votaram em Obama, mas votaram em senadores e congressistas republicanos pró-embargo ao mesmo tempo. Acho que o mais factível no futuro próximo é a suspensão da proibição das viagens
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FOLHA - Um ponto de atrito entre a região e o governo Obama foi a ampliação da presença nas bases militares da Colômbia. Como avalia o episódio?
OPPENHEIMER - Havia uma base americana no Equador e ninguém disse nada. Então, os EUA negociaram algo que já existia na Colômbia, mas tiveram de colocar no papel por conta do orçamento no Congresso. E eles lidaram mal com a questão, em vez de dizer que era uma continuação do que já havia, não disseram nada, aí vazou para a mídia e então Chávez entrou no assunto.
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Só não entendo por que não chamaram pelo nome, extensão de acordo que já havia. Entrevistei o chanceler colombiano, que me disse que não haverá um soldado americano a mais do que já existe. Esse deveria ser estudado como um caso exemplar de como lidar mal com relações públicas... Fizeram uma grande besteira.
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FOLHA - Outra questão é o aumento da presença iraniana na região.
OPPENHEIMER - Você viu o discurso do [promotor público de Nova York] Robert Morgenthau em Washington, quando ele disse que o Irã pode usar a Venezuela como um lugar para esconder armas nucleares. É uma denúncia muito grave. Suspeita-se em Washington que as declarações do [vice-presidente brasileiro] José Alencar de que o Brasil tem direito a ter armas nucleares tenha sido resposta direta ao temor de que a Venezuela possa vir a ter essas armas.
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O acordo nuclear entre Irã e Venezuela deixa as pessoas nervosas. Não necessariamente na Casa Branca --ainda. Perguntei a altos funcionários há um mês e eles me disseram que Chávez e Ahmadinejad falam muito, mas que não há evidência de que nada disso seja serio ainda. Mas outros, em outras partes do governo, estão mais preocupados.
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FOLHA - Nesse contexto, como o Sr. avalia a visita de Ahmadinejad ao Brasil?
OPPENHEIMER - Foi um dos piores erros da história recente da América Latina, especialmente do Brasil, um país que cada vez mais pessoas, e eu me incluo entre elas, vê como um modelo para a região em vários sentidos. Foi um erro terrível, mandou uma mensagem terrível, a de que, num momento em que toda a comunidade internacional, incluindo Rússia, China e Índia, estão criticando o Irã e votando na ONU para criticar o Irã e seu programa nuclear, o Brasil o apoia. No momento em que todo o mundo está tentando mandar uma mensagem ao Irã de que eles não podem desenvolver armas nucleares fora das convenções da ONU, o Brasil dá a legitimidade que eles buscam domesticamente.
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Em segundo lugar, dá a Ahmadinejad uma injeção de relações públicas logo após ele ter sido eleito em um pleito muito dúbio, que a oposição iraniana diz que ele roubou, e exatamente quando as cortes iranianas estão condenando à morte nove pessoas por protestar pacificamente contra as fraudes eleitorais. A política externa brasileira, em seus melhores momentos, é um enigma; nos piores, uma vergonha.
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FOLHA - O Sr. acha que o Brasil está pronto para o papel que deseja ter ou que se espera que tenha na arena internacional?
OPPENHEIMER - O país é um modelo em muitos sentidos para o resto da América Latina. Mostrou que se pode ter mudança política com estabilidade econômica, que se pode ter um governo de esquerda que não assusta investidores e ao mesmo tempo tem programas sociais muito eficientes para ajudar os pobres
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É um modelo em participação de ONGs em políticas públicas, tem vários grupos não governamentais como o Todos pela Educação, que está fazendo coisas muito interessantes para melhorar o setor. Nisso e em muitas outras coisas é um país crescentemente de Primeiro Mundo. Em sua política externa, frequentemente se parece com um país de quarto mundo.

PARA LER E GUARDAR: UM TEXTO SOBRE A DIPLOMACIA LULISTA


"Companheiro Lula, olhemos juntos na mesma direção contra o Satã imperialista..."
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Reproduzo a seguir artigo de José Augusto Guilhon Albuquerque, publicado na Folha de S. Paulo em 9/12. Certamente, haverá quem prefira não ler porque o autor é "tucano", porque não gosta dele etc. - como se isso fosse um atestado de que o que ele diz não é verdade. Quanto a mim, tucano ou não, prefiro ver o que diz a mensagem, em vez de saber para que time torce o mensageiro.

Ah sim: nem é preciso dizer, mas, quanto ao texto em si, assino embaixo (os grifos são meus, como sempre).

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Cumplicidade inaceitável

O objetivo de manter relações diplomáticas ecumênicas não implica apoiar políticas condenadas pela carta das Nações Unidas

A RECEPÇÃO calorosa dada pelo governo Lula ao chefe do regime fundamentalista do Irã não é apenas uma iniciativa controversa da diplomacia lulista. Ela é exemplar de um governo incapaz de fazer distinção entre os interesses nacionais e a obsessão presidencial por liderança entre os grandes deste mundo.

Nenhuma chancelaria ignora que o regime de Teerã e o presidente Ahmadinejad representam hoje um dos mais sérios desafios à paz mundial. São, por isso mesmo, objeto de um imenso esforço diplomático para que respeitem os compromissos assumidos no regime internacional de controle da proliferação nuclear e na contenção do terrorismo internacional.Teerã deu início a um programa de nuclearização que despertou suspeitas de ter objetivos bélicos e vem desrespeitando repetidamente as medidas de controle e de cautela solicitadas pela Agência Internacional de Energia Atômica.

Além disso, intervém abertamente na Palestina e no Líbano, dando apoio militar a movimentos armados que não somente recusam qualquer solução de paz com Israel como também contestam e combatem militarmente a própria Autoridade Palestina.

Regime teocrático de índole totalitária, Teerã tem-se notabilizado pela perseguição feroz às minorias religiosas, aos opositores e até às lideranças divergentes do próprio regime.

Nesse particular, Ahmadinejad, além de beneficiar-se de fraude eleitoral generalizada, reconhecida por toda a comunidade internacional e por setores do próprio regime, promoveu uma repressão sangrenta às maciças manifestações populares contra sua reeleição.

Voz solitária na comunidade internacional, o governo brasileiro foi o único a se solidarizar não com o povo sofrido e violentado do Irã, mas com seus algozes, e o fez no tom irônico e desqualificador adotado pelo próprio presidente Lula.

Ademais, Ahmadinejad fez questão de distinguir-se pela intolerância racial e religiosa, negando o Holocausto e pregando a extinção do Estado de Israel, no que contraria a posição reiterada por nossa política externa nos últimos 60 anos, em consonância com todas as resoluções da ONU sobre o conflito israelo-palestino.

Diversas vozes, entre as quais me incluo, alertaram, como era seu direito e seu dever, sobre os prejuízos políticos e morais que as circunstâncias da visita do líder fundamentalista poderiam representar para os interesses do Estado e do povo brasileiro.

Essencialmente, os argumentos avançados por José Serra, Celso Lafer e diplomatas brasileiros de elevada reputação, e que desde já subscrevo integralmente, são muito claros.

O objetivo de manter relações diplomáticas ecumênicas, inclusive relações comerciais e até mesmo políticas com qualquer país, não implica dar um atestado público de bom comportamento nem muito menos apoiar políticas condenadas pela carta das Nações Unidas e que colidem com nossos interesses econômicos, políticos, morais e militares.

A alternativa excludente entre omissão e endosso moral e político é falaciosa. Existe uma imensa variedade de ações afirmativas de política externa que permitem intervir nas questões globais sem confundir engajamento e cumplicidade.

A visita de Ahmadinejad, pelo valor simbólico de que foi revestida, com a fraterna acolhida pelo chefe de Estado brasileiro e com as reiteradas manifestações de identidade de interesses e de visões da política internacional, foi extremamente lucrativa para Teerã, que teve sua política nuclear santificada e encorajada por uma das maiores e mais importantes democracias do mundo.Isso lhe deu fôlego para recusar o acordo já negociado anteriormente e para anunciar a construção de mais dez refinarias de urânio, em claro desafio a seus interlocutores e à AIEA.

Enquanto isso, o voto de censura do Conselho da AIEA às violações de Teerã, aprovado, entre outros, por China e Rússia, não teve apoio do governo brasileiro, que se absteve. Se isso é uma contribuição à "paz desejável", como afirma o principal porta-voz diplomático da presidência, Marco Aurélio Garcia, em artigo publicado nesta página em 26/11, não sabemos mais o que é paz nem o que é desejável.Também não sabemos o que justificou tanto empenho em agradar ao líder xiita, pois o autor se esmerou mais em distribuir ofensas do que em oferecer argumentos plausíveis.

JOSÉ AUGUSTO GUILHON ALBUQUERQUE , 68, é professor titular aposentado da FEA-USP e pesquisador sênior do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP. É autor de "O Legado de Franco Montoro".

MENTIRAS TELEVISIVAS


Assisti ontem, como também devem ter feito o Ahmadinejad e o Chávez, ao programa eleitoreiro, digo eleitoral, do PT na TV. Aprendi o seguinte:

- O Brasil em 2002 era a parte mais ocidental da África; desde então, é a parte mais setentrional da Europa.
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- A estabilidade econômica foi alcançada só depois da chegada de Lula ao governo, que, como todos sabem, foi em 1994.
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- O PAC, o Bolsa-Família e o Pré-Sal são os maiores programas governamentais desde a arca de Noé e as pirâmides do Egito.
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- As privatizações foram uma desgraça pior do que a Peste Negra, como sabe qualquer um que tenha celular.
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- FHC e o PSDB odeiam os nordestinos e querem que eles virem jabá.

- Antes, "eles" se humilhavam no exterior em inglês; agora, o Brasil se humilha em português mesmo, ou em cucaracha.

- "Eles" acham que filé e universidade é coisa de rico; os petistas acham que não, e trabalham para que todos tenham direito ao seu mensalãozinho particular ou a ficarem analfabetos em alguma universidade de má qualidade.

- Dilma Rousseff aprendeu interpretação com Reinaldo Gianecchini e Ivo Pitanguy.

- Lula, ao contrário do que muitos acham, não faz tudo sozinho - o Sol e as estrelas ele deixou para que outro, menos importante que ele, fizesse.

Sem falar em outras coisas: o mensalão, por exemplo, não existiu. Ou existiu, mas foi uma conspiração das elites e da mídia contra Cristo-Rei.

Por falar nisso, acho que foi o Reinaldo Azevedo quem escreveu um dia desses que Lula quer ser Cristo - menos na hora da crucificação, pois aí ele ia dar um jeito de fazer um acordo com Judas.

E isso é só o começo, heim? É... 2010 promete.

UM POUCO DE HUMOR CONTRA AS DITADURAS

Só rindo mesmo pra agüentar Lula e suas lulices... Transcrevo a seguir a coluna de Agamenon Mendes Pedreira, publicada n'O Globo em 27/11. Adivinhem quem não gostou? O embaixador do Irã, aquele país cujo governo adora judeus e humoristas, mandou uma carta protestando. Sabem como é: ditaduras, assim como os petistas, não têm lá muito senso de humor. Sobretudo a iraniana, que acha graça, assim como Lula, em mandar bala em alguns manifestantes pró-democracia... A carta do embaixador acrescenta um elemento a mais de graça na piada. Quase supera o próprio Agamenon Mendes Pedreira. Como diziam os antigos: Ridendo castigat mores.
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BAJULA , O FILHO DO BRASIL !
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Enquanto crítico de cinema isento, não costumo assistir os filmes que vou criticar para não deixar que a obra interfira na minha análise rigorosa e independente. Por isso, graças à contribuição do meu amigo Barretão, junto com outras empresas que preferiram manter o anonimato, consegui engordar a minha outrora minguada e caída conta bancária. Ainda bem! Eu estava mais duro que o pau-de-arara que trouxe o Lula do Nordeste, e esse trabalho de crítica imparcial chegou em boa hora.
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Infelizmente, o presidente não pôde comparecer à première da sua autobiografia filmográfica no Teatro Nacional em Brasília porque a segurança vetou. A quantidade de puxa-sacos e bajuladores que queriam se pendurar nos Primeiro e Segundo Testículos da Nação era enorme, e essa parte da anatomia presidencial ainda não é blindada.
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Poucos filmes me deixaram tão emocionado quanto o filme Lula, o Molusco do Brasil. Eu, um crítico espada, frio e calculista, só tinha chorado assim, aos prantos, quando assisto aos filmes pornô do Alexandre Frota. Apesar de ser um melocudrama épico, o filme é cheio de surpresas. Eu não sabia que o Lula era filho da Gloria Pires e também não tinha idéia de como era a cara da Dona Marisa antes de se transformar na Marta Suplicy.
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Pobre e semi-analfabeto, Lula chegou do Nordeste e teve que ficar no ABC. Infelizmente, o futuro presidente do Brasil não se interessou em aprender as outras letras e arrumou um emprego de entorneiro mecânico no time do Corinthians. Numa cena dramática, vemos o exato momento em que Lula, num acidente de botequim, perde o mindinho ao pedir dois dedos de pinga. Líder sindical perseguido pela ditadura, Lula foi preso pelos militares, mas, na época, ele achou uma boa: só assim se livrou de sua namorada, Miriam Cordeiro, que, mais tarde, foi a estrela da campanha política do Collor. Tempos depois, os milicos soltaram o Lula, mas a sua língua continuou presa.
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Os invejosos de plantão acusam o filme de ser oportunista e eleitoreiro. Mas, agora que o cheque já compensou, posso afirmar sem erro: o filme Lula, o Filho do Barril não é uma deslavada propaganda política visando às eleições de 2010. Até porque os produtores deixaram de fora as principais realizações do governo Lula: o mensalão, o apagão e a invenção da Dilma Roussef.
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PENSAMENTO DO DIA, QUER DIZER, DO GLOBO
O Cinema é a maior bajulação . “
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FIGURAÇA DA SEMANA
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Ahmadinejad
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Depois da Madonna, quem está chegando esta semana ao Brasil pra pedir dinheiro ao Eike Batista é o presidente do Irã. Mahmoud Ahmadinejad é o terrorista preferido do Lula, depois do César Battisti, é claro. O Brasil, além de ser o destino preferido dos gays, tradicionalmente sempre foi o refúgio de criminosos, bandidos, facínoras e genocidas internacionais. O Brasil, além de ”gay friendly”, também é um país “criminal friendly”. Um país que abriu suas pernas, quer dizer, seus braços, para acolher o nazista Mengele e o ditador Stroessner não pode negar guarida ao Ahmadinejad. O presidente do Irã, ao lado de Kim Jong Il, Chávez e Kadhafi, é sócio fundador do Eixo do Mal, mas veio ao Brasil com um único objetivo em mente: assistir ao filme do Lula, fazer umas cópias-pirata para vender nas ruas de Teerã. O belicoso iraniano acredita que o filme vai bombar, e olha que disso ele entende. Anti-semita assumido, Ahmadinejad nega o Holocausto, não reconhece o estado de Israel e as colônias de Guarujalém e Teresópolis. Mahmoud Ahmadinejad é um sujeito revoltado. Antes de ser presidente do Irã, Ahmadinejad ganhava a vida imitando a Madonna nos clubes de travesti de Teerã e ficou uma fera quando a popstar se converteu ao judaísmo e fez circuncisão.
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Agamenon Mendes Pedreira é o filho da p*!!****!!##!** do Brasil .

quarta-feira, dezembro 09, 2009

UMA MENTIRA CONVENIENTE


Capa da revista Time de 1977: há trinta anos, a preocupação era com o esfriamento global...
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A reunião sobre mudanças climáticas que ora ocorre em Copenhague, Dinamarca, encerra importantes lições. A começar pelo próprio motivo do encontro: discutir formas de reduzir as emissões de carbono na atmosfera e diminuir os efeitos do "aquecimento global". Aquecimento este, dizem, provocado pelo homem.

Eu gostaria de saber mais sobre o aquecimento global. Principalmente diante da enxurrada de "notícias" alarmistas sobre o assunto. Quem assistir ao noticiário por esses dias ficará com a nítida impressão - na verdade, com a certeza - de que o nível dos oceanos irá aumentar drasticamente e vai engolir cidades e países inteiros, e que a Terra vai se transformar num deserto ou numa imensa bola de fogo em alguns anos. Mais: ficará convencido que tudo isso é causado pela ação humana.

Aí é que está. Não sou especialista em meio ambiente, e meus conhecimentos na área não passam do que aprendi naquelas chatíssimas aulas de Ciências na 5a série primária. Mas onde estão as provas científicas de que o tal aquecimento global é uma realidade, e ainda por cima um fenômeno artificial, criado pela humanidade? Quem se limita a assistir ao Jornal Nacional ou a ler os editoriais apocalípticos da grande imprensa certamente irá estranhar o que digo aqui, pois a tese do man-made global warming já constitui um dogma religioso, por assim dizer, tendo ganho mesmo as telas do cinema (como os filmes O Dia Depois de Amanhã e 2012, de Rolland Emerich, demonstram). Mas a verdade inconveniente, parafraseando o título de outra obra de ficção cinematográfica, é que essas provas simplesmente não existem.

É isso mesmo que vocês leram. Pesquisem na internet. Não há uma prova contundente e irrefutável de que o chamado aquecimento global realmente existe, ou de que, se existe, é mesmo provocado pela mão do homem. Não há um consenso minimamente consistente sobre o tema na comunidade científica internacional. Pelo contrário: o que há, isso sim, é muito debate inconcluso, muita polêmica sobre o assunto. Entre os especialistas, as opiniões se encontram bastante divididas, havendo desde os que afirmam peremptoriamente que as temperaturas do planeta estão se elevando de forma acelerada e que, se não fizermos nada, a humanidade perecerá, até os que admitem o aquecimento global como um fenômeno natural ou que, mais céticos, simplesmente descartam a tese por completo. Enfim, não há um consenso, nada que confirme a tese do aquecimento global como um fato ou uma verdade científica. E, mesmo assim, representantes de 192 países estão reunidos para decidir "o que fazer" diante disso em Copenhague...

O nível de mistificação e de inverdade por trás da atual histeria aquecimentista pode ser facilmente verificado até por quem não tem a menor idéia do que sejam créditos de carbono. Há alguns meses, um comercial, se não me engano do World Wildlife Fund - uma das principais ONGs ambientalistas do mundo, ao lado do barulhento e marqueteiro Greenpeace - foi retirado do ar após uma série de protestos. A peça publicitária, aliás feita no Brasil, mostrava centenas de aviões comerciais voando em alta velocidade contra o prédio do World Trade Center, em Nova York. A mensagem, nada sutil, dizia: "Em 2004, um tsunami matou mais de 100 mil pessoas na Ásia. Equivale a tantos aviões que se chocaram contra as Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001". A idéia era que é preciso cuidar do meio ambiente, pois a natureza se vinga. O comercial foi retirado, após protestos dos americanos, não tanto por causa do absurdo científico envolvendo tsunamis - um fenômeno absolutamente natural, logo sem nada a ver com a ação humana -, mas pelo mau gosto referente aos atentados terroristas nos EUA.

O verdadeiro absurdo em relação ao comercial vetado da WWF estava na explicação do tsunami como um fenômeno humano, e não natural, uma espécie de "vingança da natureza" pela poluição dos mares ou pelas emissões de gás carbônico. É uma explicação tão idiota e fora da realidade quanto culpar a queda de árvores pelos vulcões ou terremotos. Mas, por incrível que pareça, há muita gente que parece acreditar piamente nisso, ou seja, na "ação humana" como motor das "mudanças climáticas". Tanto é que a atual reunião de Copenhague já parte da premissa de que o aquecimento global é um fato, tão verdadeiro quanto o nascer do sol - e, o mais grave, "criado pelo homem".

Coincidência ou não, a reunião de Copenhague começa uma semana após ter sido revelado um dos maiores escândalos acadêmicos de que se tem notícia: um grupo de hackers invadiu os computadores da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, e roubou diversos e-mails trocados entre os pesquisadores. Em vários deles, cientistas informavam como tinham manipulado dados estatísticos, escondendo números que contrariam a tese do aquecimento global. Foi assim que o mundo descobriu como a religião aquecimentista se alimenta da fraude e do engodo. Na mesma semana, a Academia de Cinema de Hollywood anunciou estar cogitando cassar o Oscar que Al Gore recebeu em 2007 por seu pseudo-documentário Uma Verdade Inconveniente, devido à visão claramente anti-científica do filme (não sei quanto a vocês, mas fiquei ainda mais cético depois que Al Gore ganhou o Oscar e o Nobel da Paz; pena que, até o momento em que escrevo, a Academia de Ciências de Estocolmo não tenha anunciado que vai fazer o mesmo que a Academia de Hollywood). Ambas as notícias passaram como um raio nos principais telejornais, dando logo lugar a matérias que mostravam repetidamente imagens de geleiras derretendo no Pólo Norte.

O que justifica tamanha histeria, tamanho alarmismo e escatologia? Aqui, as dúvidas parecem ser bem menores: há tempos o discurso ambientalista-apocalíptico vem sendo brandido pelos inimigos do capitalismo como uma forma indireta de combater os "países ricos" e deles exigir uma "compensação" pelo "dano ambiental" provocado por suas fábricas, obrigando-os, por exemplo, a reduzir o ritmo de suas economias. De uns tempos para cá, esse discurso, de cunho claramente ideológico, tomou conta da ONU, hoje uma mistura de mega-ONG e abrigo de ditadores, a ponto de o IPCC, o Painel sobre Mudanças Climáticas da organização, ter dividido o Nobel da Paz em 2007 com Al Gore. O discurso ecológico, além de politicamente correto e "chique", tornou-se, assim, uma espécie de substituto conveniente para os velhos chavões esquerdistas e terceiro-mundistas, e bem mais eficiente. Afinal, quem não se enche de pânico diante da visão de cidades inteiras engolidas pelo oceano devido à "ação do homem"? O discurso do fim do mundo sempre terá ouvintes atentos e seguidores devotos.

No caso de Copenhague, o roteiro parece claro: antes mesmo de a reunião ter começado, os "países ricos", em especial EUA e China, já eram malhados na imprensa por não se mostrarem muito dispostos a seguir a cartilha aquecimentista, e já eram responsabilizados por um provável futuro fracasso da conferência. Iniciados os trabalhos da reunião, o script está sendo seguido à risca, com representantes africanos e asiáticos - e da diplomacia brasileira, claro - esbravejando contra a "intransigência" dos "poluidores do mundo" por suas "metas muito brandas". No final, tal como em outras reuniões semelhantes, ficará tudo na mesma: os "países ricos", sobretudo os EUA, continuarão sendo os vilões da história, enquanto o mundo continuará caminhando inexoravelmente para a destruição. Quanto às provas de que essa destruição é um fato, e não mera retórica ideológica feita sob medida para abrigar os órfãos da utopia socialista... Bem, pelo visto vamos ter que esperar até que o nível dos oceanos se eleve e as calotas polares derretam.