sexta-feira, dezembro 11, 2009

DIPLOMACIA LULISTA: ENTRE O ENIGMA E A VERGONHA - UMA ENTREVISTA COM ANDRES OPPENHEIMER

Pouco a pouco, as pessoas começam a acordar para a grande farsa que é a diplomacia megalonanica lulista. Vejam o que diz o colunista Andres Oppenheimer, em entrevista para a Folha de S. Paulo, em 9/12.
.
Vejam que Oppenheimer se refere ao que aconteceu em Honduras em 28/06 - a deposição legal do golpista bolivariano Manuel Zelaya - como "golpe", posição da qual discordo totalmente, como já demonstrei aqui neste blog várias vezes, com argumentos legais que ainda não vi serem desmentidos. Mas isso não o impede de acertar em cheio ao mostrar que a política do governo Lula para Honduras, assim como o Irã, não tem pé nem cabeça: ainda que a gritaria sobre golpe estivesse correta (e não está), a decisão brasileira de não reconhecer as eleições presidenciais hondurenhas é um contra-senso: as eleições foram convocadas antes da queda de Zelaya, logo não há qualquer razão lógica ou legal para não reconhecê-las. Notem também o que ele diz sobre a confusão reinante no governo Obama durante a crise hondurenha, especialmente sobre a ignorância de Obama a respeito da América Latina.
.
Há outras pontos da entrevista que devem ser vistos cum granu salis, com um grão de sal: por exemplo, os elogios às "políticas sociais" de Lula, que mais parecem coisa de gringo deslumbrado com o país das mulatas e do carnaval. Mas, no geral, a entrevista é bastante interessante por mostrar um ponto de vista que destoa frontalmente da propaganda oficial lulista. É mais uma chinelada na retórica lulo-bolivariana que, nestes dias tenebrosos, apossou-se do Itaramarty. Os grifos são meus.
.
***
Política externa brasileira varia entre enigma e vergonha, diz colunista; leia entrevista
.
SÉRGIO DÁVILA
.
da Folha de S.Paulo, em Washington
.
A política externa brasileira, em seus melhores momentos, é um enigma; nos piores, uma vergonha. Nesse campo, o Brasil frequentemente se parece com um país de quarto mundo. Ambas as afirmações são do mais respeitado colunista de assuntos latino-americanos da imprensa norte-americana, Andres Oppenheimer, cujos textos são publicados no jornal "Miami Herald" e em 60 outros pelo mundo.
.
O jornalista norte-americano de origem argentina, autor do recém-lançado "Los Estados Desunidos de Latinoamérica" (editora Debate), ainda inédito no Brasil, e de "Contos-do-Vigário" (editora Record, 2007), entre outros livros, falou à Folha de S.Paulo anteontem, por telefone de Miami, sobre a crise hondurenha, a relação do governo Barack Obama com a América Latina e a recente visita do iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil.
.
Leia a íntegra abaixo:
.
FOLHA - Em sua coluna mais recente, o Sr. escreveu que Brasil, EUA e OEA erraram no caso de Honduras. O que poderia ter sido feito e não foi?
.
ANDRES OPPENHEIMER - O Brasil deveria ter sido mais cauteloso antes de começar a grita de que não reconheceria as eleições em Honduras. É uma posição ridícula: por um lado, o país pede a suspensão do embargo dos EUA a Cuba, país que não tem eleição multipartidária há 50 anos; por outro, quer impor sanções econômicas a Honduras, que realizou eleições multilaterais. Não faz o menor sentido.
.
Além disso, Porfirio Lobo, o vencedor das eleições hondurenhas, não teve nada a ver com o golpe. Em terceiro lugar, a eleição em Honduras foi convocada antes do golpe. Então, denunciar as eleições e dizer que não é aceitável foi uma ação mal estudada por Lula. Há um quarto motivo pelo qual a posição do Brasil não é tão séria: a maior parte das democracias latino-americanas é resultado de eleições convocadas sob ditaduras ou regimes de facto, a começar pelas de 1989, no Chile, que começaram o ciclo democrático, nascido após o referendo convocado pelo regime do [ditador Augusto] Pinochet.
.
O Brasil agiu corretamente no começo da crise, ao denunciar o golpe. Concordo que Roberto Micheletti desrespeitou a lei ao não se restringir a prender Manuel Zelaya, mas colocá-lo num avião e mandá-lo para fora do país. Ele tinha a decisão da Suprema Corte para prendê-lo, mas deveria tê-lo dado um julgamento justo em Honduras. Mas quando o país declarou que não aceitaria os resultados das eleições, adotou um padrão totalmente contraditório a sua política em Cuba, por exemplo, mas também amarrou as próprias mãos e agora vai ter de retroceder, porque todo o resto vai reconhecer as eleições e o Brasil vai ficar isolado.
.
Os EUA adotaram posição oposta, Colômbia, Peru, Costa Rica, Panamá adotaram a mesma posição, os 27 países da União Europeia estão indo em direção à posição norte-americana e, após 27 de janeiro, depois que Porfirio Lobo assumir o poder, mais e mais países o vão reconhecer.
.
Já os EUA nos deixaram coçando a cabeça, porque o que eles fizeram foi bastante confuso. Começaram condenando o golpe como todos os outros, depois disseram "sim, mas não", com vozes diferentes vindas do Departamento de Estado e da Casa Branca, pelo menos com graus diferentes de reprovação, com a Casa Branca muito mais forte em condenar o golpe do que a chancelaria. O que eles deveriam ter feito diferente no começo era condenar o golpe, como fizeram, mas marcar posição de que havia dois culpados aqui, Micheletti e Zelaya, que estava orquestrando seu próprio golpe constitucional à la Hugo Chávez. E ter uma mensagem mais clara.
.
Por fim, a OEA foi a primeira a vir com uma posição unilateral condenando o golpe, o que foi certo, também, mas não lidava com o que Zelaya vinha tentando fazer, que era passar por cima de algumas instituições e convocar um referendo constitucional e se reeleger. Diplomatas são conhecidos por adotar a atitude de esperar para ver, mas nesse caso nenhum deles fez isso.
.
FOLHA - O Sr. mencionou a posição dúbia norte-americana. Seria fruto de a política dos EUA para a região estar sempre refém das divisões políticas internas do país?
OPPENHEIMER - Acho que tem mais a ver com quem está no comando dessa política. Não esqueçamos que, durante toda a crise hondurenha e até o mês passado, ninguém estava à frente do setor para a América Latina no Departamento de Estado. Então, quase toda a política foi comandada da Casa Branca, por Dan Restrepo. Eu gosto da política em geral da administração de Obama, mas infelizmente ela não é muito focada na América Latina.
.
Primeiro, porque eles têm problemas maiores, como Iraque, Afeganistão e outras partes do mundo. Mas também porque ninguém ali tem interesse pessoal na região. Eu entrevistei Obama duas vezes. Na primeira, em 2007, perguntei quais eram os três presidentes latino-americanos que mais respeitava e ele não conseguiu mencionar nenhum. Disse que tinha muito interesse pela presidente do Chile, lembrava-se de que era uma mulher, mas não o seu nome. Da segunda vez, em 2008, já tinha se preparado, assim que sentou citou cinco nomes de presidentes. [Risos]
.
Mas ele nunca tinha estado na região até virar presidente e não tem um histórico de conexão com a região. Clinton e Bush foram governadores de Estados fronteiriços [ou quase, no caso do democrata], que pelo menos têm muitos negócios com o México; Obama vem de Illinois. Então não é coincidência que sua primeira viagem como presidente tenha sido ao Canadá e depois ao México, quando Bush fez o oposto. Obama é um presidente melhor do que Bush foi, mas infelizmente não tem histórico de interesse pessoal pela região.
.
FOLHA - Agora ele tem o seu time mais ou menos constituído, com Arturo Valenzuela, Dan Restrepo, Thomas Shannon. O que acha deles?
OPPENHEIMER - Os três que você mencionou conhecem muito sobre a América Latina, têm muita experiência na região, falam espanhol fluente, alguns até português, e são inteligentes. A questão é se eles têm peso dentro do governo. Porque proximidade é poder, como me disse uma vez um ex-assessor de Clinton. Você pode ser secretário-assistente para a América Latina, mas se tem acesso direto ao presidente, poderá ser mais poderoso que seu chefe imediato.
.
Na gestão Clinton, havia Mack McLarty como enviado especial às Américas, e ele tinha sido aluno na mesma classe de jardim de infância de Clinton, então quando ele pegava o telefone e dizia que o presidente do Brasil tinha um problema urgente para resolver, Clinton atendia. Obama vai atender quando Shannon ou Valenzuela ou Dan Restrepo ligarem para ele? Provavelmente não. Não por falha deles, mas, por mais inteligentes e eficientes que sejam, não estão no círculo íntimo de Obama.
.
FOLHA - O Sr. vê o presidente cumprindo a promessa de campanha de ter um enviado especial à região?
OPPENHEIMER - Já passou um ano, eu perguntei sobre isso a um alto funcionário da administração na sexta passada e ele me disse que eles ainda não decidiram e não me parece que vão. Obama me disse na campanha que organizaria um encontro anual das Américas, em vez de um a cada três, quatro anos, e até agora nada.
.
FOLHA - Esse argumento de que os EUA têm assuntos mais importantes tem sido usado por uma década já. Como mudar as prioridades?
OPPENHEIMER - Um enviado especial à região com proximidade ao presidente seria um passo, outro seria o encontro anual das Américas, porque ele força o presidente a prestar atenção à região e ter algo a dizer a ela. Sem reunião anual, não há motivo para ele se concentrar nas Américas por três ou quatro anos.
.
Uma vez eu perguntei a Madeleine Albright quanto tempo ela se dedicava à América Latina por dia, ela pensou e me disse cerca de 20 minutos. Seus assessores riram quando eu contei a eles, me disseram que era muito menos. Se a secretária de Estado, que é a responsável pela política externa dos EUA, passa menos de vinte minutos pensando na região, imagine o presidente, que cuida também da política externa, doméstica, militar, ambiental etc. Talvez uma vez a cada vários dias.
.
FOLHA - O Sr. vê alguma grande mudança no futuro próximo em relação a Cuba?OPPENHEIMER - Obama fez as coisas certas, ele deveria ir um pouco além e cancelar mais sanções, se não todas, em relação a viagens, porque comunicação e contato pessoal não vão derrubar o regime, mas podem ajudar a romper o isolamento de Cuba do mundo. Não acho que muito vá mudar no país até que Fidel morra, mas, diferentemente de outros estudiosos, acho que as coisas vão mudar no minuto seguinte à morte dele.
.
FOLHA - O Sr. vê os EUA suspendendo o embargo econômico em curto prazo?
OPPENHEIMER - Não. Não há pressão nem muito apoio para isso. Há apoio nos Estados do Meio Oeste que querem exportar mais alimento para Cuba, mas há muito mais eleitores na Flórida e em Nova Jersey que votam baseados na questão cubana do que no Meio Oeste. O apoio para o embargo está enfraquecendo nos EUA e também entre os cubano-americanos, mas no futuro próximo ainda há uma porção considerável da comunidade que quer essa medida e essas pessoas votam e eu não acho que a administração de Obama queira jogar fora esses votos.
.
FOLHA - Nem num eventual segundo mandato, quando ele não terá mais tanto a perder?
OPPENHEIMER - Ele ainda vai precisar do Congresso, do maior número possível de democratas eleitos e, como demonstrado nas últimas eleições, muitos cubano-americanos votaram em Obama, mas votaram em senadores e congressistas republicanos pró-embargo ao mesmo tempo. Acho que o mais factível no futuro próximo é a suspensão da proibição das viagens
.
FOLHA - Um ponto de atrito entre a região e o governo Obama foi a ampliação da presença nas bases militares da Colômbia. Como avalia o episódio?
OPPENHEIMER - Havia uma base americana no Equador e ninguém disse nada. Então, os EUA negociaram algo que já existia na Colômbia, mas tiveram de colocar no papel por conta do orçamento no Congresso. E eles lidaram mal com a questão, em vez de dizer que era uma continuação do que já havia, não disseram nada, aí vazou para a mídia e então Chávez entrou no assunto.
.
Só não entendo por que não chamaram pelo nome, extensão de acordo que já havia. Entrevistei o chanceler colombiano, que me disse que não haverá um soldado americano a mais do que já existe. Esse deveria ser estudado como um caso exemplar de como lidar mal com relações públicas... Fizeram uma grande besteira.
.
FOLHA - Outra questão é o aumento da presença iraniana na região.
OPPENHEIMER - Você viu o discurso do [promotor público de Nova York] Robert Morgenthau em Washington, quando ele disse que o Irã pode usar a Venezuela como um lugar para esconder armas nucleares. É uma denúncia muito grave. Suspeita-se em Washington que as declarações do [vice-presidente brasileiro] José Alencar de que o Brasil tem direito a ter armas nucleares tenha sido resposta direta ao temor de que a Venezuela possa vir a ter essas armas.
.
O acordo nuclear entre Irã e Venezuela deixa as pessoas nervosas. Não necessariamente na Casa Branca --ainda. Perguntei a altos funcionários há um mês e eles me disseram que Chávez e Ahmadinejad falam muito, mas que não há evidência de que nada disso seja serio ainda. Mas outros, em outras partes do governo, estão mais preocupados.
.
FOLHA - Nesse contexto, como o Sr. avalia a visita de Ahmadinejad ao Brasil?
OPPENHEIMER - Foi um dos piores erros da história recente da América Latina, especialmente do Brasil, um país que cada vez mais pessoas, e eu me incluo entre elas, vê como um modelo para a região em vários sentidos. Foi um erro terrível, mandou uma mensagem terrível, a de que, num momento em que toda a comunidade internacional, incluindo Rússia, China e Índia, estão criticando o Irã e votando na ONU para criticar o Irã e seu programa nuclear, o Brasil o apoia. No momento em que todo o mundo está tentando mandar uma mensagem ao Irã de que eles não podem desenvolver armas nucleares fora das convenções da ONU, o Brasil dá a legitimidade que eles buscam domesticamente.
.
Em segundo lugar, dá a Ahmadinejad uma injeção de relações públicas logo após ele ter sido eleito em um pleito muito dúbio, que a oposição iraniana diz que ele roubou, e exatamente quando as cortes iranianas estão condenando à morte nove pessoas por protestar pacificamente contra as fraudes eleitorais. A política externa brasileira, em seus melhores momentos, é um enigma; nos piores, uma vergonha.
.
FOLHA - O Sr. acha que o Brasil está pronto para o papel que deseja ter ou que se espera que tenha na arena internacional?
OPPENHEIMER - O país é um modelo em muitos sentidos para o resto da América Latina. Mostrou que se pode ter mudança política com estabilidade econômica, que se pode ter um governo de esquerda que não assusta investidores e ao mesmo tempo tem programas sociais muito eficientes para ajudar os pobres
.
É um modelo em participação de ONGs em políticas públicas, tem vários grupos não governamentais como o Todos pela Educação, que está fazendo coisas muito interessantes para melhorar o setor. Nisso e em muitas outras coisas é um país crescentemente de Primeiro Mundo. Em sua política externa, frequentemente se parece com um país de quarto mundo.

PARA LER E GUARDAR: UM TEXTO SOBRE A DIPLOMACIA LULISTA


"Companheiro Lula, olhemos juntos na mesma direção contra o Satã imperialista..."
.
.
Reproduzo a seguir artigo de José Augusto Guilhon Albuquerque, publicado na Folha de S. Paulo em 9/12. Certamente, haverá quem prefira não ler porque o autor é "tucano", porque não gosta dele etc. - como se isso fosse um atestado de que o que ele diz não é verdade. Quanto a mim, tucano ou não, prefiro ver o que diz a mensagem, em vez de saber para que time torce o mensageiro.

Ah sim: nem é preciso dizer, mas, quanto ao texto em si, assino embaixo (os grifos são meus, como sempre).

***
Cumplicidade inaceitável

O objetivo de manter relações diplomáticas ecumênicas não implica apoiar políticas condenadas pela carta das Nações Unidas

A RECEPÇÃO calorosa dada pelo governo Lula ao chefe do regime fundamentalista do Irã não é apenas uma iniciativa controversa da diplomacia lulista. Ela é exemplar de um governo incapaz de fazer distinção entre os interesses nacionais e a obsessão presidencial por liderança entre os grandes deste mundo.

Nenhuma chancelaria ignora que o regime de Teerã e o presidente Ahmadinejad representam hoje um dos mais sérios desafios à paz mundial. São, por isso mesmo, objeto de um imenso esforço diplomático para que respeitem os compromissos assumidos no regime internacional de controle da proliferação nuclear e na contenção do terrorismo internacional.Teerã deu início a um programa de nuclearização que despertou suspeitas de ter objetivos bélicos e vem desrespeitando repetidamente as medidas de controle e de cautela solicitadas pela Agência Internacional de Energia Atômica.

Além disso, intervém abertamente na Palestina e no Líbano, dando apoio militar a movimentos armados que não somente recusam qualquer solução de paz com Israel como também contestam e combatem militarmente a própria Autoridade Palestina.

Regime teocrático de índole totalitária, Teerã tem-se notabilizado pela perseguição feroz às minorias religiosas, aos opositores e até às lideranças divergentes do próprio regime.

Nesse particular, Ahmadinejad, além de beneficiar-se de fraude eleitoral generalizada, reconhecida por toda a comunidade internacional e por setores do próprio regime, promoveu uma repressão sangrenta às maciças manifestações populares contra sua reeleição.

Voz solitária na comunidade internacional, o governo brasileiro foi o único a se solidarizar não com o povo sofrido e violentado do Irã, mas com seus algozes, e o fez no tom irônico e desqualificador adotado pelo próprio presidente Lula.

Ademais, Ahmadinejad fez questão de distinguir-se pela intolerância racial e religiosa, negando o Holocausto e pregando a extinção do Estado de Israel, no que contraria a posição reiterada por nossa política externa nos últimos 60 anos, em consonância com todas as resoluções da ONU sobre o conflito israelo-palestino.

Diversas vozes, entre as quais me incluo, alertaram, como era seu direito e seu dever, sobre os prejuízos políticos e morais que as circunstâncias da visita do líder fundamentalista poderiam representar para os interesses do Estado e do povo brasileiro.

Essencialmente, os argumentos avançados por José Serra, Celso Lafer e diplomatas brasileiros de elevada reputação, e que desde já subscrevo integralmente, são muito claros.

O objetivo de manter relações diplomáticas ecumênicas, inclusive relações comerciais e até mesmo políticas com qualquer país, não implica dar um atestado público de bom comportamento nem muito menos apoiar políticas condenadas pela carta das Nações Unidas e que colidem com nossos interesses econômicos, políticos, morais e militares.

A alternativa excludente entre omissão e endosso moral e político é falaciosa. Existe uma imensa variedade de ações afirmativas de política externa que permitem intervir nas questões globais sem confundir engajamento e cumplicidade.

A visita de Ahmadinejad, pelo valor simbólico de que foi revestida, com a fraterna acolhida pelo chefe de Estado brasileiro e com as reiteradas manifestações de identidade de interesses e de visões da política internacional, foi extremamente lucrativa para Teerã, que teve sua política nuclear santificada e encorajada por uma das maiores e mais importantes democracias do mundo.Isso lhe deu fôlego para recusar o acordo já negociado anteriormente e para anunciar a construção de mais dez refinarias de urânio, em claro desafio a seus interlocutores e à AIEA.

Enquanto isso, o voto de censura do Conselho da AIEA às violações de Teerã, aprovado, entre outros, por China e Rússia, não teve apoio do governo brasileiro, que se absteve. Se isso é uma contribuição à "paz desejável", como afirma o principal porta-voz diplomático da presidência, Marco Aurélio Garcia, em artigo publicado nesta página em 26/11, não sabemos mais o que é paz nem o que é desejável.Também não sabemos o que justificou tanto empenho em agradar ao líder xiita, pois o autor se esmerou mais em distribuir ofensas do que em oferecer argumentos plausíveis.

JOSÉ AUGUSTO GUILHON ALBUQUERQUE , 68, é professor titular aposentado da FEA-USP e pesquisador sênior do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP. É autor de "O Legado de Franco Montoro".

MENTIRAS TELEVISIVAS


Assisti ontem, como também devem ter feito o Ahmadinejad e o Chávez, ao programa eleitoreiro, digo eleitoral, do PT na TV. Aprendi o seguinte:

- O Brasil em 2002 era a parte mais ocidental da África; desde então, é a parte mais setentrional da Europa.
.
- A estabilidade econômica foi alcançada só depois da chegada de Lula ao governo, que, como todos sabem, foi em 1994.
..
- O PAC, o Bolsa-Família e o Pré-Sal são os maiores programas governamentais desde a arca de Noé e as pirâmides do Egito.
.
- As privatizações foram uma desgraça pior do que a Peste Negra, como sabe qualquer um que tenha celular.
..
- FHC e o PSDB odeiam os nordestinos e querem que eles virem jabá.

- Antes, "eles" se humilhavam no exterior em inglês; agora, o Brasil se humilha em português mesmo, ou em cucaracha.

- "Eles" acham que filé e universidade é coisa de rico; os petistas acham que não, e trabalham para que todos tenham direito ao seu mensalãozinho particular ou a ficarem analfabetos em alguma universidade de má qualidade.

- Dilma Rousseff aprendeu interpretação com Reinaldo Gianecchini e Ivo Pitanguy.

- Lula, ao contrário do que muitos acham, não faz tudo sozinho - o Sol e as estrelas ele deixou para que outro, menos importante que ele, fizesse.

Sem falar em outras coisas: o mensalão, por exemplo, não existiu. Ou existiu, mas foi uma conspiração das elites e da mídia contra Cristo-Rei.

Por falar nisso, acho que foi o Reinaldo Azevedo quem escreveu um dia desses que Lula quer ser Cristo - menos na hora da crucificação, pois aí ele ia dar um jeito de fazer um acordo com Judas.

E isso é só o começo, heim? É... 2010 promete.

UM POUCO DE HUMOR CONTRA AS DITADURAS

Só rindo mesmo pra agüentar Lula e suas lulices... Transcrevo a seguir a coluna de Agamenon Mendes Pedreira, publicada n'O Globo em 27/11. Adivinhem quem não gostou? O embaixador do Irã, aquele país cujo governo adora judeus e humoristas, mandou uma carta protestando. Sabem como é: ditaduras, assim como os petistas, não têm lá muito senso de humor. Sobretudo a iraniana, que acha graça, assim como Lula, em mandar bala em alguns manifestantes pró-democracia... A carta do embaixador acrescenta um elemento a mais de graça na piada. Quase supera o próprio Agamenon Mendes Pedreira. Como diziam os antigos: Ridendo castigat mores.
---
BAJULA , O FILHO DO BRASIL !
.
Enquanto crítico de cinema isento, não costumo assistir os filmes que vou criticar para não deixar que a obra interfira na minha análise rigorosa e independente. Por isso, graças à contribuição do meu amigo Barretão, junto com outras empresas que preferiram manter o anonimato, consegui engordar a minha outrora minguada e caída conta bancária. Ainda bem! Eu estava mais duro que o pau-de-arara que trouxe o Lula do Nordeste, e esse trabalho de crítica imparcial chegou em boa hora.
.
Infelizmente, o presidente não pôde comparecer à première da sua autobiografia filmográfica no Teatro Nacional em Brasília porque a segurança vetou. A quantidade de puxa-sacos e bajuladores que queriam se pendurar nos Primeiro e Segundo Testículos da Nação era enorme, e essa parte da anatomia presidencial ainda não é blindada.
.
Poucos filmes me deixaram tão emocionado quanto o filme Lula, o Molusco do Brasil. Eu, um crítico espada, frio e calculista, só tinha chorado assim, aos prantos, quando assisto aos filmes pornô do Alexandre Frota. Apesar de ser um melocudrama épico, o filme é cheio de surpresas. Eu não sabia que o Lula era filho da Gloria Pires e também não tinha idéia de como era a cara da Dona Marisa antes de se transformar na Marta Suplicy.
.
Pobre e semi-analfabeto, Lula chegou do Nordeste e teve que ficar no ABC. Infelizmente, o futuro presidente do Brasil não se interessou em aprender as outras letras e arrumou um emprego de entorneiro mecânico no time do Corinthians. Numa cena dramática, vemos o exato momento em que Lula, num acidente de botequim, perde o mindinho ao pedir dois dedos de pinga. Líder sindical perseguido pela ditadura, Lula foi preso pelos militares, mas, na época, ele achou uma boa: só assim se livrou de sua namorada, Miriam Cordeiro, que, mais tarde, foi a estrela da campanha política do Collor. Tempos depois, os milicos soltaram o Lula, mas a sua língua continuou presa.
.
Os invejosos de plantão acusam o filme de ser oportunista e eleitoreiro. Mas, agora que o cheque já compensou, posso afirmar sem erro: o filme Lula, o Filho do Barril não é uma deslavada propaganda política visando às eleições de 2010. Até porque os produtores deixaram de fora as principais realizações do governo Lula: o mensalão, o apagão e a invenção da Dilma Roussef.
.
PENSAMENTO DO DIA, QUER DIZER, DO GLOBO
O Cinema é a maior bajulação . “
.
FIGURAÇA DA SEMANA
.


Ahmadinejad
.

Depois da Madonna, quem está chegando esta semana ao Brasil pra pedir dinheiro ao Eike Batista é o presidente do Irã. Mahmoud Ahmadinejad é o terrorista preferido do Lula, depois do César Battisti, é claro. O Brasil, além de ser o destino preferido dos gays, tradicionalmente sempre foi o refúgio de criminosos, bandidos, facínoras e genocidas internacionais. O Brasil, além de ”gay friendly”, também é um país “criminal friendly”. Um país que abriu suas pernas, quer dizer, seus braços, para acolher o nazista Mengele e o ditador Stroessner não pode negar guarida ao Ahmadinejad. O presidente do Irã, ao lado de Kim Jong Il, Chávez e Kadhafi, é sócio fundador do Eixo do Mal, mas veio ao Brasil com um único objetivo em mente: assistir ao filme do Lula, fazer umas cópias-pirata para vender nas ruas de Teerã. O belicoso iraniano acredita que o filme vai bombar, e olha que disso ele entende. Anti-semita assumido, Ahmadinejad nega o Holocausto, não reconhece o estado de Israel e as colônias de Guarujalém e Teresópolis. Mahmoud Ahmadinejad é um sujeito revoltado. Antes de ser presidente do Irã, Ahmadinejad ganhava a vida imitando a Madonna nos clubes de travesti de Teerã e ficou uma fera quando a popstar se converteu ao judaísmo e fez circuncisão.
..

Agamenon Mendes Pedreira é o filho da p*!!****!!##!** do Brasil .

quarta-feira, dezembro 09, 2009

UMA MENTIRA CONVENIENTE


Capa da revista Time de 1977: há trinta anos, a preocupação era com o esfriamento global...
.
.
.
A reunião sobre mudanças climáticas que ora ocorre em Copenhague, Dinamarca, encerra importantes lições. A começar pelo próprio motivo do encontro: discutir formas de reduzir as emissões de carbono na atmosfera e diminuir os efeitos do "aquecimento global". Aquecimento este, dizem, provocado pelo homem.

Eu gostaria de saber mais sobre o aquecimento global. Principalmente diante da enxurrada de "notícias" alarmistas sobre o assunto. Quem assistir ao noticiário por esses dias ficará com a nítida impressão - na verdade, com a certeza - de que o nível dos oceanos irá aumentar drasticamente e vai engolir cidades e países inteiros, e que a Terra vai se transformar num deserto ou numa imensa bola de fogo em alguns anos. Mais: ficará convencido que tudo isso é causado pela ação humana.

Aí é que está. Não sou especialista em meio ambiente, e meus conhecimentos na área não passam do que aprendi naquelas chatíssimas aulas de Ciências na 5a série primária. Mas onde estão as provas científicas de que o tal aquecimento global é uma realidade, e ainda por cima um fenômeno artificial, criado pela humanidade? Quem se limita a assistir ao Jornal Nacional ou a ler os editoriais apocalípticos da grande imprensa certamente irá estranhar o que digo aqui, pois a tese do man-made global warming já constitui um dogma religioso, por assim dizer, tendo ganho mesmo as telas do cinema (como os filmes O Dia Depois de Amanhã e 2012, de Rolland Emerich, demonstram). Mas a verdade inconveniente, parafraseando o título de outra obra de ficção cinematográfica, é que essas provas simplesmente não existem.

É isso mesmo que vocês leram. Pesquisem na internet. Não há uma prova contundente e irrefutável de que o chamado aquecimento global realmente existe, ou de que, se existe, é mesmo provocado pela mão do homem. Não há um consenso minimamente consistente sobre o tema na comunidade científica internacional. Pelo contrário: o que há, isso sim, é muito debate inconcluso, muita polêmica sobre o assunto. Entre os especialistas, as opiniões se encontram bastante divididas, havendo desde os que afirmam peremptoriamente que as temperaturas do planeta estão se elevando de forma acelerada e que, se não fizermos nada, a humanidade perecerá, até os que admitem o aquecimento global como um fenômeno natural ou que, mais céticos, simplesmente descartam a tese por completo. Enfim, não há um consenso, nada que confirme a tese do aquecimento global como um fato ou uma verdade científica. E, mesmo assim, representantes de 192 países estão reunidos para decidir "o que fazer" diante disso em Copenhague...

O nível de mistificação e de inverdade por trás da atual histeria aquecimentista pode ser facilmente verificado até por quem não tem a menor idéia do que sejam créditos de carbono. Há alguns meses, um comercial, se não me engano do World Wildlife Fund - uma das principais ONGs ambientalistas do mundo, ao lado do barulhento e marqueteiro Greenpeace - foi retirado do ar após uma série de protestos. A peça publicitária, aliás feita no Brasil, mostrava centenas de aviões comerciais voando em alta velocidade contra o prédio do World Trade Center, em Nova York. A mensagem, nada sutil, dizia: "Em 2004, um tsunami matou mais de 100 mil pessoas na Ásia. Equivale a tantos aviões que se chocaram contra as Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001". A idéia era que é preciso cuidar do meio ambiente, pois a natureza se vinga. O comercial foi retirado, após protestos dos americanos, não tanto por causa do absurdo científico envolvendo tsunamis - um fenômeno absolutamente natural, logo sem nada a ver com a ação humana -, mas pelo mau gosto referente aos atentados terroristas nos EUA.

O verdadeiro absurdo em relação ao comercial vetado da WWF estava na explicação do tsunami como um fenômeno humano, e não natural, uma espécie de "vingança da natureza" pela poluição dos mares ou pelas emissões de gás carbônico. É uma explicação tão idiota e fora da realidade quanto culpar a queda de árvores pelos vulcões ou terremotos. Mas, por incrível que pareça, há muita gente que parece acreditar piamente nisso, ou seja, na "ação humana" como motor das "mudanças climáticas". Tanto é que a atual reunião de Copenhague já parte da premissa de que o aquecimento global é um fato, tão verdadeiro quanto o nascer do sol - e, o mais grave, "criado pelo homem".

Coincidência ou não, a reunião de Copenhague começa uma semana após ter sido revelado um dos maiores escândalos acadêmicos de que se tem notícia: um grupo de hackers invadiu os computadores da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, e roubou diversos e-mails trocados entre os pesquisadores. Em vários deles, cientistas informavam como tinham manipulado dados estatísticos, escondendo números que contrariam a tese do aquecimento global. Foi assim que o mundo descobriu como a religião aquecimentista se alimenta da fraude e do engodo. Na mesma semana, a Academia de Cinema de Hollywood anunciou estar cogitando cassar o Oscar que Al Gore recebeu em 2007 por seu pseudo-documentário Uma Verdade Inconveniente, devido à visão claramente anti-científica do filme (não sei quanto a vocês, mas fiquei ainda mais cético depois que Al Gore ganhou o Oscar e o Nobel da Paz; pena que, até o momento em que escrevo, a Academia de Ciências de Estocolmo não tenha anunciado que vai fazer o mesmo que a Academia de Hollywood). Ambas as notícias passaram como um raio nos principais telejornais, dando logo lugar a matérias que mostravam repetidamente imagens de geleiras derretendo no Pólo Norte.

O que justifica tamanha histeria, tamanho alarmismo e escatologia? Aqui, as dúvidas parecem ser bem menores: há tempos o discurso ambientalista-apocalíptico vem sendo brandido pelos inimigos do capitalismo como uma forma indireta de combater os "países ricos" e deles exigir uma "compensação" pelo "dano ambiental" provocado por suas fábricas, obrigando-os, por exemplo, a reduzir o ritmo de suas economias. De uns tempos para cá, esse discurso, de cunho claramente ideológico, tomou conta da ONU, hoje uma mistura de mega-ONG e abrigo de ditadores, a ponto de o IPCC, o Painel sobre Mudanças Climáticas da organização, ter dividido o Nobel da Paz em 2007 com Al Gore. O discurso ecológico, além de politicamente correto e "chique", tornou-se, assim, uma espécie de substituto conveniente para os velhos chavões esquerdistas e terceiro-mundistas, e bem mais eficiente. Afinal, quem não se enche de pânico diante da visão de cidades inteiras engolidas pelo oceano devido à "ação do homem"? O discurso do fim do mundo sempre terá ouvintes atentos e seguidores devotos.

No caso de Copenhague, o roteiro parece claro: antes mesmo de a reunião ter começado, os "países ricos", em especial EUA e China, já eram malhados na imprensa por não se mostrarem muito dispostos a seguir a cartilha aquecimentista, e já eram responsabilizados por um provável futuro fracasso da conferência. Iniciados os trabalhos da reunião, o script está sendo seguido à risca, com representantes africanos e asiáticos - e da diplomacia brasileira, claro - esbravejando contra a "intransigência" dos "poluidores do mundo" por suas "metas muito brandas". No final, tal como em outras reuniões semelhantes, ficará tudo na mesma: os "países ricos", sobretudo os EUA, continuarão sendo os vilões da história, enquanto o mundo continuará caminhando inexoravelmente para a destruição. Quanto às provas de que essa destruição é um fato, e não mera retórica ideológica feita sob medida para abrigar os órfãos da utopia socialista... Bem, pelo visto vamos ter que esperar até que o nível dos oceanos se eleve e as calotas polares derretam.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

ANOS DE CHUMBO: AS VÍTIMAS ESQUECIDAS


No dia 19 de março de 1968, o estudante Orlando Lovecchio Filho estava passando em frente à biblioteca do consulado dos EUA em São Paulo, na Avenida Paulista, quando percebeu um pacote estranho. Ao aproximar-se do objeto, foi atingido por uma forte explosão. Levado ao hospital, teve a perna esquerda, dilacerada pelo choque e pelos fragmentos, amputada. Era o fim do sonho de Lovecchio, 22 anos, de tornar-se piloto de avião.

O pacote que mutilou Lovecchio era uma bomba. Quem a colocou foram militantes de uma organização clandestina de esquerda, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que pretendia assim "protestar" contra o "imperialismo ianque". Um dos que colocaram o petardo, Diógenes Carvalho de Oliveira, o "Diógenes do PT", foi recompensado com uma polpuda indenização do governo federal, como ex-preso político (há alguns anos, ele foi apanhado em flagrante tentando proteger bicheiros no Rio Grande do Sul, onde era secretário do governo). Quanto a Lovecchio, até hoje tem que conviver com as seqüelas do atentado que o incapacitou para o resto da vida, e é obrigado a sobreviver com uma magra pensão de R$ 500 mensais. Para cúmulo da desgraça, ele chegou a ser interrogado como suspeito da explosão que o vitimou, há mais de quarenta anos: somente em 1992, um dos participantes, o artista plástico Sergio Ferro, admitiu a autoria do atentado.

A história de Orlando Lovecchio é o tema do documentário "Reparação". Filmado em alta definição, sem nenhum apoio oficial (o que é raro, e, dado o tema, não é de se estranhar), o filme parte do caso de Lovecchio para fazer algo jamais visto, até agora, na cinematografia brasileira, em especial na produção cinematográfica sobre os "anos de chumbo" do regime militar: um debate sobre a violência e o terrorismo das organizações armadas de esquerda que, nos anos 60 e 70, praticaram dezenas de atentados, ataques à bomba e assassinatos em nome da "resistência contra a ditadura".

Com depoimentos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do historiador Marco Antonio Villa e do geógrafo e cientista político Demétrio Magnoli, além do próprio Lovecchio, o documentário vai direto na jugular, ajudando a demolir velhos mitos e falácias que persistem até hoje sobre o período. Em primeiro lugar, os "guerrilheiros" que pegaram em armas contra o regime de 64 eram, sim, terroristas, viam na violência e no terrorismo o caminho para uma revolução socialista no Brasil, e não somente para "resistir à ditadura". Mais: não lutavam pela democracia, como se tornou usual afirmar, mas por uma forma de ditadura revolucionária, inspirada em regimes totalitários como o de Cuba e o da Coréia da Norte (dos quais, aliás, recebiam apoio material e treinamento). Antes mesmo de 1964, como mostram a historiadora Denise Rollemberg e o jornalista Elio Gaspari, já havia luta armada no Brasil - o que prova que a esquerda era, ela também, golpista, como afirma Marco Antonio Villa. Enfim, uma visão completamente diferente e oposta à romântica (e inteiramente falsa) versão oficial da esquerda como defensora da democracia e dos guerrilheiros como lutadores da liberdade.

Mas o mais importante no filme está na maneira como resgata um dos aspectos menos conhecidos dos "anos de chumbo", coberto até hoje com uma cortina de silêncio. Diga as palavras "ditadura" e "vítimas" e o que lhe virá à cabeça? A associação automática será, provavelmente, com heróicos guerrilheiros, em sua maioria muito jovens (o que lhes dá um ar de pureza angelical), imolados em tiroteios ou assassinados sob tortura pelos "agentes da repressão". No máximo, se alguém lembrar que houve mortos e feridos também do outro lado, você pinçará o nome deste ou daquele militar ou empresário "justiçado" por um comando guerrilheiro por participar ou dar apoio à repressão. Nunca, jamais, as pessoas inocentes que foram vitimas das balas ou bombas da esquerda radical.

Pois é esse tabu que o documentário vem quebrar. Ao centralizar a atenção no caso de Orlando Lovecchio Filho, o filme crava o último prego no caixão da mitologia esquerdista sobre o período e mostra que, muito mais do que os "agentes da repressão", as maiores vítimas da luta armada de esquerda foram cidadãos comuns, simples transeuntes alheios à política, que tiveram a má sorte de estar no lugar errado, na hora errada. Pessoas como Lovecchio, que casualmente se encontrava no consulado norte-americano quando teve a perna arrancada por uma bomba assassina, ou que estavam em uma fila de banco quando se viram no meio do fogo cruzado entre agentes de segurança e os "guerrilheiros" que praticavam uma "expropriação revolucionária".

Para essas pessoas, vítimas inocentes de uma guerra suja, não houve até hoje qualquer homenagem. Nenhuma delas virou estátua, como a que se pretende erguer no sertão da Bahia para Carlos Lamarca, ou de rua, como Carlos Mariguella, cujo nome se pretende dar a uma praça no Rio de Janeiro, e que Frei Betto quer que vire nome do aeroporto de Salvador. Anônimas, sem rosto e, principalmente, sem o glamour da militância revolucionária, as vítimas da violência terrorista de esquerda não mereceram ainda sequer o reconhecimento oficial, ou um singelo pedido de desculpas. Muito menos indenizações milionárias, como as que a secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, não por acaso comandada por um ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), Paulo Vanucchi, distribui fartamente para todos aqueles que aleguem ter passado algumas horas no DOPS. Inútil também procurar o nome de alguma dessas pessoas em algum livro sobre os mortos e desaparecidos políticos no Brasil desde 1964.

O que explica tamanha duplicidade de discurso, tão clara adoção de pesos e medidas diferentes para os mortos e feridos de cada lado, e até para os que não estavam em lado algum, durante o passado brasileiro recente? A resposta é simples: para a esquerda, hoje no poder no Brasil, os mortos só valem se fizerem parte de sua grei. Isso significa que um "guerrilheiro" morto em combate contra policiais vale muito mais do que suas vítimas, inocentes ou não. Um militar, por exemplo, mesmo um que não tivesse qualquer relação com o aparato repressivo, é, nessa visão, um alvo perfeitamente legítimo, ainda que "simbólico" - os "guerrilheiros" chegaram a metralhar um marinheiro inglês no Rio de Janeiro, em 1972, em "protesto" pela repressão britânica na Irlanda do Norte... Quanto aos civis, os pacatos cidadãos atingidos por bombas ou projéteis, esses seriam, de acordo com a esquerda, "danos colaterais" da luta pela revolução e pelo socialismo. Em outras palavras: apenas os que tombaram na luta merecem reverência e reparação estatal, inclusive monetária: todos os demais, ou eram malditos inimigos que mereciam morrer como cães ou pereceram porque estavam do lado errado. De qualquer maneira, de acordo com essa visão, somente os cadáveres de esquerda merecem homenagem: o fato de terem sido caçados pela repressão e muitos terem sofrido torturas funciona como um álibi para o terrorismo.

O documentário surge no momento certo, quando membros do governo Lula - ele mesmo, beneficiado como ex-preso político -, pretendem revisar a Lei de Anistia, a fim de punir somente um lado do conflito ideológico dos anos 60/70 - o lado dos militares, claro. Desnecessário dizer, mas nenhum nome de vítima da luta armada de esquerda foi lembrado pelos que querem rever a Lei, como o ministro da Justiça, Tarso Genro, que no entanto se mostra muito preocupado com os "direitos humanos" do terrorista Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua na Itália por quatro assassinatos. Nomes como o de Orlando Lovecchio Filho, ou do jornalista Edson Régis e do almirante Nelson Fernandes, mortos em atentado à bomba no aeroporto dos Guararapes, em Recife (PE), em 1966 - dois anos antes do AI-5 -, entre tantos outros, não são mencionados. Nem mesmo de militantes da própria esquerda, assassinados pelos próprios companheiros de organização, em pleno auge da repressão política, como Márcio Leite de Toledo, fuzilado no centro de São Paulo em 1971 por discordar dos rumos da organização a que pertencia, a ALN - o que mostra que, mesmo cercados e perseguidos pela polícia, os terroristas brasileiros ainda encontravam tempo para se matarem uns aos outros.

Todos esses fatos são conhecidos. Basta pesquisar, e o interessado irá encontrar dezenas de casos semelhantes, alguns realmente estapafúrdios - segundo relato do jornalista Hugo Studart, um guerrilheiro do PCdoB no Araguaia foi "justiçado" por seus companheiros pelo "crime" de ter um caso amoroso com uma militante casada... No entanto, até agora, jamais tinham vindo à luz do grande público, nem muito menos haviam ganho as telas do cinema, pelo menos como fato principal. Até agora.

Como mostra o documentário "Reparação", os dias da hegemonia esquerdista na cinematografia brasileira sobre o período militar estão contados. As vítimas desconhecidas dos "anos de chumbo", finalmente, estão sendo resgatadas do limbo a que foram relegadas por décadas de propaganda ideológica marxista. Falta ainda receberem o mesmo tratamento dos heróis da esquerda. Se depender de gente como Paulo Vanucchi e Tarso Genro, porém, isso não vai acontecer tão cedo.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

PERFEITO

É isso que eu chamo de uma comparação perfeita. Em seu blog, Augusto Nunes resumiu com precisão matemática o fiasco da diplomacia lulista em Honduras. Quisera eu ter esse poder de síntese:
.
"A potência imaginária encontrou na América Central o seu menino do MEP. Em defesa da democracia, o parceiro mais fraco resistiu. Também Honduras não se deixou subjugar."

HONDURAS, LULA E O RESPEITO ÀS CONSTITUIÇÕES


Acabou a comédia em Honduras. Por 111 votos a 14 - repito: 111 a 14! - o Congresso do país decidiu, ontem, pela não restituição do golpista Manuel Zelaya à presidência da República. De quebra, ainda manteve todas as acusações contra ele, como tentativa de violação da Constituição e traição à pátria. Não só ele não irá voltar ao poder, como permanece um fora-da-lei.

O processo de afastamento de Zelaya foi limpo e transparente. A decisão do Congresso de ratificá-lo ocorreu inteiramente dentro do estipulado pelo Acordo de San José-Tegucigalpa, que, ao contrário do que andaram espalhando os zelaystas de lá e de cá, não previu, em momento algum, o retorno de Zelaya como pré-condição para qualquer coisa. Com o detalhe de que a votação no Congresso foi uma exigência dele, Zelaya, pois o governo interino de Roberto Micheletti queria que a decisão fosse da Suprema Corte do país (e - vejam só - dos 25 parlamentares zelaystas, 11 votaram CONTRA a volta de Zelaya à presidência). O calendário eleitoral foi mantido e as eleições presidenciais - das quais participaram dois candidatos aliados de Zelaya - transcorreram de forma limpa e democrática, normalmente, apesar das ameaças dos zelaystas. A vontade popular não cedeu às pressões da "comunidade internacional", e elegeu um candidato adversário do zelayismo. Apesar de tudo, o país resguardou sua soberania e a democracia. Não há o que contestar.

É a derrota total dos bolivarianos. E é a maior humilhação da política externa petista, talvez a maior da História da diplomacia brasileira. O governo Lula permitiu que a embaixada do Brasil em Tegucigalpa fosse transformada em escritório político de Manuel Zelaya. Agora as principais instituições do país vêm confirmar aquilo que este escriba e mais uma meia dúzia de blogueiros vêm dizendo desde o dia 28 de junho: a deposição de Zelaya foi legal. O Brasil abrigou um golpista. Não só isso: interveio diretamente nos negócios políticos de Honduras. Um vexame total.


Você deve estar se perguntando: afinal, o que levou a diplomacia brasileira a cometer erro tão grosseiro, enterrando sua credibilidade e reputação em Honduras? A resposta pode ser encontrada num episódio acontecido no Brasil em 2003.

Era o começo do governo Lula. A lua-de-mel deste com a imprensa estava no auge. Praticamente não passava um dia sem que algum jornalista basbaque falasse na onda de "esperança" criada pela eleição do "presidente-operário" etc. Foi então que um jornalista estrangeiro - norte-americano, para ser mais exato - resolveu botar um pouquinho de areia no oba-oba generalizado. Ele começou a publicar no jornal para o qual trabalhava umas matérias meio esquisitas: em vez de enaltecer o "primeiro-presidente-de-origem-popular-da-história-do-Brasil" e outras patacoadas do tipo, ele publicou umas reportagens em que descrevia o hábito do presidente de tomar uns uísques e rabos-de-galo, e a preocupação de alguns políticos de que o presidente estava "passando da dose" em suas jornadas etílicas.

O governo chiou. O presidente da República quis saber quem era aquele gringo atrevido, que ousava chamá-lo de bêbado na imprensa. Disse que queria vê-lo expulso do Brasil. Ficou sabendo que ele era casado com uma brasileira, logo, pela Constituição de 1988, não poderia ser expulso do País. Não adiantou. Lula bateu pé. Tamanha ofensa ao supremo mandatário da nação não poderia ficar impune, vociferou, espumando de ódio. Diante da informação de que havia um impedimento constitucional à expulsão do jornalista estrangeiro, ele não titubeou:

Lula replicou, batendo na mesa, berrando, exaltado: "Que se foda a Constituição! Quero que ele vá embora!"

A frase acima, incluindo o relato completo do episódio, está no livro Deu no New York Times (Rio de Janeiro, Objetiva, 2008), na página 186. O jornalista em questão, e autor do livro, chama-se Larry Rohter, ex-correspondente do NYT no Brasil. Ele foi expulso do País por ordem de Lula.

O que isso tem a ver com o fracasso do Itamaraty lulista em Honduras? Tudo. Leiam novamente a frase de Lula, e como ele "resolveu" a questão. Lula passou por cima da Constituição do Brasil para se livrar de um jornalista que o incomodava. Mostrou, enfim, total desprezo pela Carta Magna do País. Se ele está se lixando para a Lei Maior do Brasil, por que haveria de se preocupar com o que diz a Constituição de um país insignificante como Honduras?

Em Honduras, Manuel Zelaya, com apoio de Hugo Chávez, quis fazer algo proibido pela Constituição hondurenha. Tentou rasgar uma cláusula pétrea da Constituição (não importa se essa tal cláusula pétrea não existe em outras constituições: o fato é que ela existe na de Honduras). Por isso foi deposto. O governo Lula, juntamente com Chávez e outros governos latino-americanos, além da OEA e da ONU e, num primeiro momento, também os EUA, condenaram imediatamente o "golpe militar" e passaram a exigir a volta de Zelaya. O Brasil, em particular, esperava que ninguém se lembrasse de ler a Constituição de Honduras. Como quase ninguém o fez nos primeiros dias, durante algum tempo a tese do "golpe" se impõs e se criou um quase-consenso da "comunidade internacional" contra o "governo golpista" de Honduras e a favor de Zelaya.

O que levou a esse consenso fabricado, que pareceu convencer a todos, durante certo período, de que houve "golpe" em Honduras, resultando em uma das maiores pressões internacionais a que um país foi submetido nos últimos tempos? Apenas isso: a pura e simples ignorância do que diz a Constituição hondurenha, em especial seu artigo 239, que pune com a perda IMEDIATA do mandato quem propuser a reeleição do presidente da República. O governo brasileiro, assim como o venezuelano e o nicaragüense, acreditou que ninguém se daria à pachorra de ler o que está lá escrito. Daí ter martelado, insistentemente, a tese do "golpe" contra Zelaya, contra todas as evidências. Contou para tanto com um erro dos militares que, atendendo à determinação judicial, detiveram Zelaya: em vez de tê-lo prendido e levado a julgamento, onde deveria estar agora, eles o expulsaram do país, dando munição aos bolivarianos, que passaram a dizer que houve golpe porque, afinal, o presidente "foi deposto e expulso de pijamas". Desse modo, os defensores de Zelaya deram uma contribuição completamente original à Ciência Política, criando a teoria do pijama. Segundo esta, o que caracteriza golpe de Estado não é a ruptura da ordem legal, mediante, por exemplo, a tentativa de convocação de uma consulta inconstitucional, mas algo muito mais importante e transcendente - o tipo de roupa que o presidente está usando na hora de sua deposição...

A farsa, felizmente, não durou muito. Quando parecia que Zelaya voltaria na marra, tendo retornado clandestinamente ao país em um plano arquitetado por Hugo Chávez e Daniel Ortega, e instalando seu QG político na embaixada do Brasil, de onde passou a incitar a uma guerra civil no país e defender teorias sobre raios de alta freqüência e mercenários israelenses, eis que a verdade, essa dama indócil, pediu passagem. Foi então que alguns começaram a dizer Epa! e lembraram que Honduras, ao contrário do que diziam os bolivarianos e a "comunidade internacional", tem, vejam só!, uma Constituição. Isso mesmo, senhores: HONDURAS TEM UMA CONSTITUIÇÃO! E ELA DEVE SER RESPEITADA!

Súbito, o governo de Barack Obama, até então cúmplice e avalista da fraude, percebeu que dar apoio a um golpista travestido de democrata contra um país que lutava para preservar suas instituições era demais até para ele, Obama, e se rendeu ao óbvio: a volta de Zelaya e seu abrigo na embaixada brasileira foi uma irresponsabilidade, para usar a linguagem diplomática, e o melhor caminho para encerrar a crise era garantir a realização das eleições e reconhecer o resultado das urnas. Os EUA, enfim, se deram conta que Honduras tem instituições. Outros países, como Colômbia e Peru, também fizeram o mesmo. Menos o governo do Brasil, que insiste na pantomima, e agora está bufando de raiva contra os "golpistas" que impediram seu golpista de estimação de rasgar as leis do país.

Assim como aconteceu no episódio de Larry Rohter, o fiasco brasileiro em Honduras demonstra aquilo que somente a cegueira voluntária ou a cretinice irremediável, além, claro, da safadeza ideológica, ainda insistem em esconder: em um e em outro caso, o que guiou a política brasileira foi a arrogância presidencial, o supremo desdém petista pela democracia e pelas instituições em nome de um projeto ideológico e pessoal. Em outras palavras: se em 2003 Lula esbravejou contra a Constituição brasileira, que o impedia de expulsar um jornalista incômodo, em 2009 o Itamaraty petista justificou seu apoio incondicional ao golpismo bolivariano batendo na mesa e berrando: "Que se foda a Constituição de Honduras! Queremos que ele, Zelaya, volte ao poder!"

Agora, derrotado e cada vez mais isolado na questão, o que fará o governo brasileiro com Manuel Zelaya e sua trupe, aquartelados na embaixada em Tegucigalpa? Talvez seja melhor contratá-lo para o serviço diplomático, já que o governo Lula se recusa a lhe conceder o asilo político. Ou, então, fechar de vez a embaixada, transformando-a no que ela já é há mais de 70 dias: um cortiço e comitê eleitoral dos zelaystas. Que tal enviar para lá Lula, Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, para fazer companhia ao golpista frustrado e a seus militantes? Estes poderiam ficar lá indefinidamente, e até reproduzir-se, criando uma espécie nova, cada vez menos bípede. Quem sabe o Brasil poderia até ganhar uma graninha, cobrando ingresso para que todos vejam essa nova espécie, os bolivarianos que se recusam a ler o que diz as constituições de seus próprios países e enxergam democracia na Venezuela e no Irã, mas não em Honduras. Nem seria necessário se preocupar com a alimentação: os jardins da embaixada, com seus gramados, poderiam fornecê-la em abundância.

O governo Lula participou ativamente de uma das tentativas de fraude mais toscas de todos os tempos. Raras vezes a política externa de um país desceu tão baixo, cobriu-se de forma tão ignominiosa de vergonha e de ridículo.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

ESTE É MEU CREDO

Um leitor me mandou um link que me deixou intrigado. Junto, um comentário: "Abre o olho. Os caras mais inteligentes já estão pulando fora".

Por curiosidade, abri o link. Queria saber quem estava "pulando fora" e de quê. Fui parar num blog, de um tal Andrew Sullivan. Confesso que nunca tinha ouvido falar nele. Andrew Sullivan, pelo que eu li, é um liberal inglês - liberal no sentido clássico do termo, não no norte-americano (onde "liberal" quer dizer o mesmo que "esquerdista"), nem no brasileiro (onde significa algo como "filho do tinhoso, crápula, canalha" etc). O texto em questão chama-se "Leaving the Right" (Abandonando a Direita) e, pelo que eu entendi, é uma crítica de um liberal desencantado com os conservadores norte-americanos.
.
Como eu disse, fiquei intrigado. Por que o leitor me remeteu a um artigo de um liberal que discorda dos "neocons" americanos? Imagino que ele deva achar que eu sou um "neocon" também, do tipo que abomina o "casamento gay", defende o criacionismo nas escolas e se opõe às pesquisas científicas com células-tronco. Se for esse o caso, sinto desapontá-lo: não sou, não.
.
Aliás, faço questão de dizer: não me enquadro em nenhum "movimento". A última vez em que fiz parte de um eu ainda tinha espinhas no rosto, e acreditava que o marxismo iria mudar o mundo para melhor. Felizmente, abri os olhos a tempo, e pulei fora dessa canoa furada.
.
Hoje, chamam-me de direitista e outras coisas que tais porque minhas opiniões batem com as da "direita" em vários pontos importantes. Houve um tempo em que isso me incomodava um pouco - será que a verdade é de direita?, eu pensava. Hoje, não me incomoda mais. Podem me chamar de direitista que eu nem vou ligar. Não tenho receio em dizer o que penso, por exemplo, sobre terrorismo e ditaduras, para não ser associado a um Donald Rumsfeld ou a um Paul Wolfowitz. Se minhas opiniões coincidem com a deles sobre esses assuntos, fazer o quê? Não vou deixar de dizer o que penso para não ser tachado de "direitista" ou "reacionário". Esse medo infantil das patrulhas ideológicas, esse receio idiota em desagradar a fulano ou beltrano, eu perdi faz tempo, juntamente com as espinhas e minha devoção a Marx e Trotsky.
.
Se há uma coisa que distingue os liberais e conservadores dos esquerdistas, aliás, é a pluralidade de opiniões. Ou melhor: a capacidade de debater sem cair no rótulo fácil, na esparrela de chamar o outro disso ou daquilo. Nos EUA, por exemplo, muitos conservadores sangue-puro se distanciaram do governo Bush, que consideravam e consideram, pasmem, estatista demais, logo traidor das causas liberais e conservadoras. Os liberais, pelo menos os de verdade, não hesitam em discordar do que discordam e em concordar com o que concordam, defendendo um debate livre de amarras ideológicas. Defendem mesmo o direito de os inimigos da liberdade e da democracia, como os comunistas, defenderem em público suas teses totalitárias. É que uma das características essenciais do pensamento conservador, desde Burke e Voltaire, é a tolerância. Pode-se dizer o mesmo dos radicais, ou mesmo "moderados", de esquerda?
.
Mas voltemos ao artigo de Sullivan. No final, ele faz uma espécie de manifesto político, explicando porque está "abandonando a direita" (pelo menos, a direita atual norte-americana). Como todo liberal clássico, ele começa com questões relativas ao tamanho do Estado (fiz uma tradução meio literal):
.
"Não posso apoiar um movimento que alega acreditar em governo limitado mas apoiou uma política presidencial externa e doméstica ilimitada que adotou poderes ilegais e extra-constitucionais até ser forçado pelo sistema a retornar ao império da lei.
.
Não posso apoiar um movimento que estourou os gastos e empréstimos e culpa seu sucessor pela dívida.
.
Não posso apoiar um movimento que abandonou o papel mínimo e vital do governo de policiar os mercados e gerenciar desastres naturais que nos deu o Katrina e o colapso financeiro de 2008."
.
Notem que, no primeiro de seus "não posso", Sullivan diz que o tal "movimento" a que ele alude (que, imagino, foi o governo Bush) foi "forçado pelo sistema" a retornar ao império da lei. Pois bem: é esse sistema, e não o governo Bush (ou Obama, ou Clinton, ou Reagan...) que eu defendo! Alguém consegue vislumbrar algo parecido acontecendo na Venezuela ou em Cuba, por exemplo? (Nem falo do Irã e da Coréia do Norte, pois aí já seria covardia.)
.
No segundo "não posso", proponho um exercício: troque sucessor por "antecessor" e você terá um retrato perfeito do governo... Lula!
.
Sobre o terceiro ponto, acho justo e correto que parte da direita norte-americana esteja fula da vida com Bush por causa da resposta insuficiente do governo ao furacão Katrina. Se o governo não agiu direito, deve levar pau. Mas isso deve ser creditado a que "movimento" em particular? Deve-se dizer que a culpa pelos mortos em Nova Orleans foi, sei lá, do "neoconservadorismo"? As vítimas das enchentes no Sul do Brasil e no Nordeste algum tempo atrás foram, então, vítimas do petismo? Quanto ao papel do Estado, concordo que o governo deve policiar os mercados, não mandar neles. Até porque o único jeito de evitar crises no capitalismo é extinguindo o capitalismo. Coisa que já tentaram fazer, e todos sabem no que deu.
.
Em seguida, Sullivan passa a questões políticas propriamente ditas:
.
"Não posso apoiar um movimento que considera a tortura um valor essencial.
.
Não posso apoiar um movimento que considera que uma doutrina puramente religiosa deve governar as decisões políticas civis e que usa a santidade da fé religiosa para buscar o poder mundial.
.
Não posso apoiar um movimento que é profundamente homofóbico e cinicamente propaga o medo de homossexuais ganharem eleições [...].
.
Não posso apoiar um movimento que não tem respeito de verdade pelas instituições do governo e está preparado para usar qualquer tática e quaisquer meios para travar a guerra política em vez de conduzir uma conversação política.
.
Não posso apoiar um movimento que vê a guerra permanente como compatível com as normas democráticas liberais e o governo limitado."
.
Responda rápido: em que governo você pensou ao ler o que está acima? Não sei quanto a quem lê estas linhas, mas eu pensei no... Irã (ou em Cuba, ou na Coréia do Norte...).
.
Pois são os governos desses países - apoiados pelo governo Lula - que 1) consideram a tortura um valor essencial, e a praticam sistematicamente contra os opositores políticos; 2) têm na religião (ou no marxismo, o que dá quase no mesmo) a base do governo e da busca pelo poder mundial; 3) são profundamente homofóbicos; 4) desrespeitam qualquer lei e convenção que se anteponha a seus planos; e 5) mantêm suas populações em estado de guerra permanente, incompatível com as normas democráticas liberais.
.
Sullivan diz ainda, em seu "manifesto":
.
"Não posso apoiar um movimento que criminaliza o comportamento particular na guerra às drogas."
.
Sullivan é um liberal, e deve rezar nessa questão das drogas pela cartilha de John Stuart Mill, que considerava essa uma questão de foro íntimo e de liberdade individual, como o suicídio. Já vi alguns auto-proclamados liberais repetirem essa tese, e confesso que já acreditei nela um dia. Só tem um probleminha: à época de John Stuart Mill, o consumo de drogas poderia até ser uma questão individual, sem implicações para o resto da sociedade. Mas na época de J.S. Mill não havia tráfico internacional de drogas, pelo menos não como existe hoje, nem a violência e criminalidade que o acompanham. Logo, fumar um baseado ou cheirar uma carreira de pó não tem nada a ver com "liberdade individual". É alimentar o narcotráfico, logo cumplicidade com o crime. Ponto.
.
Sullivan deve achar, como muitos liberais, que a liberdade individual em questões como as drogas deve ser ilimitada. Eu penso um pouco diferente: acho que a liberdade deve harmonizar-se com a sociedade. Acredito que isso não faz de mim um inimigo da liberdade e defensor da ditadura do proletariado, faz?
.
"Não posso apoiar um movimento que considera os gays ameaças a suas próprias famílias."
.
Também não posso apoiar esse tipo de coisa. É por isso que apoiar governos como o iraniano, em que os homossexuais são perseguidos e assassinados, é um absurdo.
.
"Não posso apoiar um movimento que não aceita a evolução como um fato."
.
Não somente a "direita" norte-americana se recusa a aceitar a evolução como um fato, como em certos setores "progressistas" o chamado "criacionismo" vem ganhando força. Se tem dúvidas, pergunte o que a ex-ministra e candidata à presidência em 2010 Marina Silva acha a respeito.
.
Mas, aceitando ou não a evolução darwiniana, uma coisa é certa: discordar dela, apegando-se a uma leitura literal da Bíblia ou do Corão, é, numa sociedade democrática, um direito. Podemos discordar totalmente do criacionismo (como eu discordo, deixo claro), mas pode-se, em nome da ciência, proibir quem nele acredita de professar sua fé? Desde que essa crença não se torne oficial, ou seja, desde que não seja imposta à sociedade como obrigatória, permanecendo na esfera puramente particular, não vejo problema algum em que haja quem creia que a o universo foi criado em seis dias e que a humanidade descende de Adão e Eva no Paraíso (até porque, se fôssemos adotar o princípio da racionalidade em questões religiosas, teríamos que proibir todas as religiões). Enfim, acho que a religião é uma questão individual. Creio que não sou um fanático religioso por causa disso. Ou sou?
..;
"Não posso apoiar um movimento que vê a mudança climática como uma farsa e oferece a exploração doméstica de petróleo como a base da política energética."
.
Sobre a mudança climática, até agora não vi nenhum intelectual conservador ou cientista dizer que ela não existe: vi apenas um grande debate inconcluso sobre se - vejam bem: se - ela é causada pela ação humana, e uma tentativa obviamente ideológica de transformar essa tese num "consenso científico". Quanto à exploração do petróleo como a base da política de energia, estou curioso para saber o que Hugo Chávez ou Lula têm a dizer sobre esse absurdo ataque ao meio ambiente - no caso do último, principalmente depois do "pré-sal"...
.
"Não posso apoiar um movimento que se recusa a aumentar impostos, enquanto não propõe nenhuma redução significativa nos gastos governamentais."
.
Bom, pelo menos o Bush se recusava a aumentar impostos... Por aqui, o governo Lula não só aumenta impostos, como a famigerada CPMF, como aumentou os gastos públicos, em grande parte para acomodar sua corriola.
.
E assim segue a coisa. Sullivan afirma ainda:
.
"Não posso apoiar um movimento que acredita que os Estados Unidos devem ser a única potência global, sustentar uma máquina de guerra permanente para policiar todo o planeta, e considerar a violência como o instrumento essencial para as relações internacionais."
.
OK, os EUA não devem ser a única potência global. Nesse caso, pergunto a Sullivan: que outro país deveria ser elevado à condição de potência global - a China? a Rússia? o Irã?
.
Estimulado pelo texto de Sullivan, também escrevi meu próprio manifesto, ou credo político. Aí vai:
.
Não posso apoiar um movimento que flerta com o terrorismo, declarando-se "neutro" em relação aos narcobandoleiros das FARC, enquanto participa, ao lado destes, das reuniões do Foro de São Paulo.
.
Não posso apoiar um movimento que justifica a acolhida com tapete vermelho a genocidas financiadores do terrorismo e negadores do Holocausto como Mahmoud Ahmadinejad, e que defende inclusive seu programa nuclear secreto.
.
Não posso apoiar um movimento que, "para aproximar-se dos países árabes", fecha os olhos para o genocídio em Darfur.
..
Não posso apoiar um movimento que dá seu aval ao antissemitismo e à intolerância, apoiando um antissemita e queimador de livros para a direção da UNESCO.
.
Não posso apoiar um movimento que nega a Israel o direito de se defender e ignora o terrorismo do Hamas e do Hezbollah.
...
Não posso apoiar um movimento que se diz moderado, mas aplaude ditaduras como a dos irmãos Castro em Cuba e justifica os ataques de Hugo Chávez à liberdade de imprensa na Venezuela e suas investidas em outros países.
.
Não posso apoiar um movimento que vê golpe de Estado em Honduras e acolhe em sua embaixada o golpista bolivariano Manuel Zelaya, intervindo diretamente na situação interna de outro país, ignorando suas instituições.
..
Não posso apoiar um movimento que substituiu o realismo em política externa pela megalomania e pelo terceiro-mundismo.
.
Não posso apoiar um movimento que, em nome dos direitos humanos, defende o refúgio político a assassinos e terroristas de esquerda condenados em seus próprios países, zombando de suas vítimas e das instituições democráticas.
.
Não posso apoiar um movimento que defende a revisão de uma Lei de Anistia para punir apenas um dos lados dos "anos de chumbo" da ditadura militar, isentando os terroristas de esquerda de qualquer culpa ou responsabilidade.
.
Não posso apoiar um movimento que falsifica despudoradamente a História, e que usa até livros didáticos e exame de estudantes para fazer propaganda oficial.
..
Não posso apoiar um movimento que instituiu o coitadismo e o culto da ignorância, uma ofensa aos pobres que estudam.
.
Não posso apoiar um movimento que transformou o marketing e o cinismo em supremas virtudes políticas.
..
Não posso apoiar um movimento que usa a máquina do Estado para fazer propaganda eleitoral antecipada e para aparelhá-la com critérios partidários e ideológicos.
.
Não posso apoiar um movimento que age como se tudo o que veio antes não tivesse existido, apropriando-se de políticas que antes condenava e apresentando-se como fundador da Nação.
.
Não posso apoiar um movimento que transformou o assistencialismo, o clientelismo e o fisiologismo em sinônimos de "política social", aplicando na prática o que antes condenava com veemência.
.... .
Não posso apoiar um movimento que se diz convertido às regras do mercado, mas não se confessa nem se arrepende do discurso socialista do passado (passado?).
.
Não posso apoiar um movimento que se diz democrata, mas investe quase diariamente contra a liberdade de imprensa, dizendo que "a imprensa existe para informar, não fiscalizar".
.
Não posso apoiar um movimento que promove o culto à personalidade do presidente da República, inclusive com um filme financiado por empresas com contratos com o governo.
. .
Não posso apoiar um movimento que aceita tranqüilamente, e até justifica, o assassinato de cem milhões de pessoas pelo comunismo no século XX.
.
Não posso apoiar um movimento que idolatra assassinos seriais e psicopatas como Che Guevara, Fidel Castro, Mao Tsé-Tung e Stálin.
.
Não posso apoiar um movimento que, a pretexto de combater a discriminação e o preconceito, cria tribunais de pureza racial e institui oficialmente a divisão por raça, instaurando o racismo no País.
.
Não posso apoiar um movimento que, em nome da tolerância e dos direitos das minorias como os gays, pretende criminalizar o pensamento e a liberdade religiosa, enquanto ignora a perseguição aos homossexuais em países como o Irã.
..
Não posso apoiar um movimento que se diz defensor dos direitos das mulheres e das minorias, mas não diz uma palavra sobre a repressão às mulheres e às minorias religiosas nos países islâmicos.
..
Não posso apoiar um movimento que se enche de indignação diante de qualquer manifestação de "intolerância" do papa contra os muçulmanos, mas ignora as passagens claramente intolerantes do Corão e justifica o terrorismo islamita como uma forma de "resistência contra o imperialismo".
..
Não posso apoiar um movimento que considera a democracia e os direitos humanos valores relativos, e não universais, e que, em nome do "multiculturalismo", justifica a perpetuação de formas despóticas de governo - enquanto desfruta de todas as facilidades da democracia.
..
Não posso apoiar um movimento que prega a "descriminalização das drogas" como uma forma eficiente de combater o narcotráfico.
..
Não posso apoiar um movimento que defende o fim do direito legal a portar armas como a solução do problema da criminalidade.
..
Não posso apoiar um movimento que considera a responsabiliade penal de menores de 18 anos, vigente em países como Inglaterra e Suiça, uma medida "fascista".
..
Não posso apoiar um movimento que não perde a oportunidade de atacar a violência policial, mas enxerga a criminalidade como o resultado automático da "injustiça social" e os bandidos como "vítimas da sociedade".
.
Não posso apoiar um movimento que aperta o cerco contra o cigarro e o álcool, ao mesmo tempo em que defende a liberalização de "drogas leves" como a maconha.
..
Não posso apoiar um movimento que transformou o ambientalismo e o "aquecimento global", um tema sobre o qual não há consenso entre os cientistas, em discurso dogmático e escatológico.
.
Não posso apoiar um movimento que considera o aborto um direito maior do que o de livre expressão religiosa.
.
Não posso apoiar um movimento que se diz favorável a todas as religiões, menos à católica apostólica romana.
.
Não posso apoiar um movimento que, dizendo-se cumpridor das leis e defensor do estado de direito democrático, financia com dinheiro público e fecha os olhos para as depredações e violências do MST, um movimento revolucionário comunista.
.
Não posso apoiar um movimento que se recusa a se distanciar de um demagogo como João Pedro Stédile e de um bestalhão como Marco Aurélio Garcia.
.
Não posso apoiar um movimento que passou décadas batendo-se pela "ética na política" e terminou aliando-se ao que há de mais podre na política brasileira em nome do "realismo".
. .
Não posso apoiar um movimento que, diante de revelações assustadoras de corrupção, limita-se a dizer que foi tudo uma "conspiração" e aposta na corrupção alheia para "zerar o jogo".
..
Não posso apoiar um movimento que rejeita o livre debate de idéias e considera qualquer crítica a ele dirigida como coisa de reacionários, vendidos, imperialistas, impatriotas, preconceituosos, racistas, homofóbicos ou fascistas.
...
No final de seu texto, Andrew Sullivan pergunta, retoricamente: "Isso faz de mim um esquerdista radical?". Ao que ele mesmo responde: "De forma enfática, não. Mas certamente me afasta da atual direita norte-americana".
.
Do mesmo modo, parafraseando Andrew Sullivan, eu pergunto: o que escrevi aí em cima me torna um extremista de direita? Certamente não. Mas me afasta dos que estão no poder no Brasil atualmente.
.
Finalmente: eu posso falar mal de Bush e de Ahmadinejad, assim como posso falar mal de Pinochet e de Fidel Castro, ou de Hitler e Stálin.
.
E os esquerdistas, podem?
.
.

Um aviso aos petralhas: não adianta tentar me pautar


Sorry petralhas, este blogueiro não é boneco de ventríloco...

.
Tenho recebido algumas mensagens que dizem mais ou menos assim: "Que tal agora falar da corrupção da direita? Não vai falar do escândalo no DF? Cadê sua imparcialidade?" etc.
.
Ai, ai... Houve uma época em que era mais divertido lidar com esquerdistas. Bastava chegar perto de um e era como apertar um botão: ele ia logo subindo num caixote e soltando o verbo contra o capitalismo, o imperialismo, a burguesia, os latifundiários, as multinacionais etc. Ficava horas e horas arengando "às massas" - geralmente, os colegas de cerveja no boteco - sobre coisas como justiça social e distribuição de renda, e condenando ferozmente a corrupção, que era sempre vista como exclusividade da "direita" etc. etc. Era idiota, claro, mas pelo menos dava pra tentar discutir.
.
Hoje, como as coisas mudaram! Critique um esquerdista e o que você terá de volta não será nenhum discurso revolucionário do tipo descrito acima, mas o "todos fazem igual" imortalizado pelo Apedeuta. Critique a esquerda e você receberá um "e aí, não vai falar também da corrupção da direita"? Ou seja: antes, eram os puros, os diferentes; agora, exigem ser colocados na mesma vala comum dos demais políticos. Que pobreza, que indigência!
.
Que direita, cara-pálida? O DEM? O PSDB? Veja de novo a foto que ilustra o texto "Um álibi perfeito" que fala da maneira como o petismo vagabundo instrumentaliza a corrupção alheia, transformando-a numa aliada. Nem precisa ler o texto, basta ver a foto. Um dos motivos por que criei este blog é, justamente, a inexistência de qualquer partido ou corrente política, no Brasil, que possa ser considerado, programática e ideologicamente, conservador e de direita. Quem é o Churchill ou o Edmund Burke brasileiro? José Roberto Arruda?
.
Acreditem, gostaria que um dia me fizessem uma provocação inteligente, que realmente valesse a pena responder. Que algum esquerdista viesse com argumentos que se sustentam, no mínimo, em duas pernas, e não quatro, para iniciar um debate. Mas já percebi que é inútil. Não há nada mais previsível do que cabeça de esquerdista. Não há nada mais cretino.
.
Não, não vou falar do que vocês querem que eu fale, se é essa a intenção. Há outros blogs para isso: dezenas, centenas deles, alguns subvencionados com o leite de pata estatal. Querem que eu coloque "direita" e esquerda no mesmo saco, para "zerar o jogo" e fazer esquecer o assalto petista aos cofres do Estado? Não farei isso. Esse blog tem ambições modestas: quer apenas debater a mentira esquerdista, e como ela se aproveita até do que fazem os adversários para se incrustar na mente dos incautos. Aliás, é sobre isso que escrevi no post sobre o caso do DF. Não adianta tentar, vocês não vão me pautar. Este blogueiro não é boneco de ventríloco.
.
Durante décadas - sem exagero -, petistas e afins se erigiram à condição de campeões da moralidade e dos bons costumes em política, disparando condenações a torto e a direito (ou à direita). Hoje, confrontados com sua própria roubalheira, exigem "imparcialidade".
.
Imparcialidade? Não aqui. Este blog tem lado. E não é o dos que roubam consciências e ofendem a inteligência alheia. Não é o dos que banalizam o mal, com a desculpa de que todos o praticam.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Ainda sobre o "menino do MEP": Por que SÓ agora?


O futuro do Brasil está nas mãos desse homem...

Impecável o texto de César Queiroz Benjamin publicado hoje na Folha de S. Paulo. Vai na íntegra, com os principais trechos em negrito.
.
O autor deixa claro que os motivos que o levaram a lembrar do episódio de Lula e do "menino do MEP" têm a ver com a onda de mistificação stalinista em torno da figura de Lula, e bate firme no culto à personalidade e na canonização do Apedeuta. Ele fala com propriedade e lógica.
.
Fica apenas uma questão não respondida: Por que SÓ agora?
.
Deleitem-se.
---
POR QUE AGORA?
.
César Queiroz Benjamin


DEIXO de lado os insultos e as versões fantasiosas sobre os “verdadeiros motivos” do meu artigo “Os Filhos do Brasil”. Creio, porém, que devo esclarecer uma indagação legítima: “por quê?”, ou, em forma um pouco expandida, “por que agora?”. A rigor, a resposta já está no artigo, mas de forma concisa. Eu a reitero: o motivo é o filme, o contexto que o cerca e o que ele sinaliza.
.
Há meses a Presidência da República acompanha e participa da produção desse filme, financiado por grandes empresas que mantêm contratos com o governo federal.
.
Antes de finalizado, ele foi analisado por especialistas em marketing, que propuseram ajustes para torná-lo mais emotivo.
.
O timing do lançamento foi calculado para que ele gire pelo Brasil durante o ano eleitoral. Recursos oriundos do imposto sindical -ou seja, recolhidos por imposição do Estado- estão sendo mobilizados para comprar e distribuir gratuitamente milhares de ingressos. Reativam-se salas pelo interior do país e fala-se na montagem de cines volantes para percorrerem localidades que não têm esses espaços. O objetivo é que o filme seja visto por cerca de 5 milhões de pessoas, principalmente pobres.
.
Como se fosse pouco, prepara-se uma minissérie com o mesmo título para ser exibida em 2010 pela nossa maior rede de televisão que, como as demais, também recebe publicidade oficial.
.
Desconheço que uma operação desse tipo e dessa abrangência tenha sido feita em qualquer época, em qualquer país, por qualquer governante. Ela sinaliza um salto de qualidade em um perigoso processo em curso: a concentração pessoal do poder, a calculada construção do culto à personalidade e a degradação da política em mitologia e espetáculo. Em outros contextos históricos isso deu em fascismo.
.
O presidente Lula sabe o que faz. Mais de uma vez declarou como ficou impressionado com o belo “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore, que narra o impacto dos primeiros filmes na mente de uma criança. “O Filho do Brasil” será a primeira -e talvez a única- oportunidade de milhões de pessoas irem a um cinema. Elas não esquecerão.
.
Em quase oito anos de governo, o loteamento de cargos enfraqueceu o Estado. A generalização do fisiologismo demoliu o Congresso Nacional. Não existem mais partidos. A política ficou diminuída, alienada dos grandes temas nacionais. Nesse ambiente, o presidente determinou sozinho a candidata que deverá sucedê-lo, escolhendo uma pessoa que, se eleita, será porque ele quis. Intervém na sucessão em cada Estado, indicando, abençoando e vetando. Tudo isso porque é popular. Precisa, agora, do filme.
.
Embalado pelas pré-estreias, anunciou que “não há mais formadores de opinião no Brasil”. Compreendi que, doravante, ele reserva para si, com exclusividade, esse papel. Os generais não ambicionaram tanto poder.
.
A acusação mais branda que tenho recebido é a de que mudei de lado. Porém os que me acusam estão preparando uma campanha milionária para o ano que vem, baseada em cabos eleitorais remunerados e financiada por grandes grupos econômicos. Em quase todos os Estados, estarão juntos com os esquemas mais retrógrados da política brasileira. E o conteúdo de sua pregação, como o filme mostra, estará centrado no endeusamento de um líder.
.
Não há nada de emancipatório nisso. Perpetuar-se no poder tornou-se mais importante do que construir uma nação. Quem, afinal, mudou de lado?
.
Aos que viram no texto uma agressão, peço desculpas. Nunca tive essa intenção. Meu artigo trata, antes de tudo, de relações humanas e é, antes de tudo, uma denúncia do círculo vicioso da extrema pobreza e da violência que oprime um sem-número de filhos do Brasil. Pois o Brasil não tem só um filho.
.
Reitero: o que escrevi está além da política. Recuso-me a pensar o nosso país enquadrado pela lógica da disputa eleitoral entre PT e PSDB. Mas, se quiserem privilegiar uma leitura política, que também é legítima, vejam o texto como um alerta contra a banalização do culto à personalidade com os instrumentos de poder da República. O imaginário nacional não pode ser sequestrado por ninguém, muito menos por um governante.
.
Alguns amigos disseram-me que, com o artigo, cometi um ato de imolação. Se isso for verdadeiro, terá sido por uma boa causa.