quarta-feira, dezembro 09, 2009

UMA MENTIRA CONVENIENTE


Capa da revista Time de 1977: há trinta anos, a preocupação era com o esfriamento global...
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A reunião sobre mudanças climáticas que ora ocorre em Copenhague, Dinamarca, encerra importantes lições. A começar pelo próprio motivo do encontro: discutir formas de reduzir as emissões de carbono na atmosfera e diminuir os efeitos do "aquecimento global". Aquecimento este, dizem, provocado pelo homem.

Eu gostaria de saber mais sobre o aquecimento global. Principalmente diante da enxurrada de "notícias" alarmistas sobre o assunto. Quem assistir ao noticiário por esses dias ficará com a nítida impressão - na verdade, com a certeza - de que o nível dos oceanos irá aumentar drasticamente e vai engolir cidades e países inteiros, e que a Terra vai se transformar num deserto ou numa imensa bola de fogo em alguns anos. Mais: ficará convencido que tudo isso é causado pela ação humana.

Aí é que está. Não sou especialista em meio ambiente, e meus conhecimentos na área não passam do que aprendi naquelas chatíssimas aulas de Ciências na 5a série primária. Mas onde estão as provas científicas de que o tal aquecimento global é uma realidade, e ainda por cima um fenômeno artificial, criado pela humanidade? Quem se limita a assistir ao Jornal Nacional ou a ler os editoriais apocalípticos da grande imprensa certamente irá estranhar o que digo aqui, pois a tese do man-made global warming já constitui um dogma religioso, por assim dizer, tendo ganho mesmo as telas do cinema (como os filmes O Dia Depois de Amanhã e 2012, de Rolland Emerich, demonstram). Mas a verdade inconveniente, parafraseando o título de outra obra de ficção cinematográfica, é que essas provas simplesmente não existem.

É isso mesmo que vocês leram. Pesquisem na internet. Não há uma prova contundente e irrefutável de que o chamado aquecimento global realmente existe, ou de que, se existe, é mesmo provocado pela mão do homem. Não há um consenso minimamente consistente sobre o tema na comunidade científica internacional. Pelo contrário: o que há, isso sim, é muito debate inconcluso, muita polêmica sobre o assunto. Entre os especialistas, as opiniões se encontram bastante divididas, havendo desde os que afirmam peremptoriamente que as temperaturas do planeta estão se elevando de forma acelerada e que, se não fizermos nada, a humanidade perecerá, até os que admitem o aquecimento global como um fenômeno natural ou que, mais céticos, simplesmente descartam a tese por completo. Enfim, não há um consenso, nada que confirme a tese do aquecimento global como um fato ou uma verdade científica. E, mesmo assim, representantes de 192 países estão reunidos para decidir "o que fazer" diante disso em Copenhague...

O nível de mistificação e de inverdade por trás da atual histeria aquecimentista pode ser facilmente verificado até por quem não tem a menor idéia do que sejam créditos de carbono. Há alguns meses, um comercial, se não me engano do World Wildlife Fund - uma das principais ONGs ambientalistas do mundo, ao lado do barulhento e marqueteiro Greenpeace - foi retirado do ar após uma série de protestos. A peça publicitária, aliás feita no Brasil, mostrava centenas de aviões comerciais voando em alta velocidade contra o prédio do World Trade Center, em Nova York. A mensagem, nada sutil, dizia: "Em 2004, um tsunami matou mais de 100 mil pessoas na Ásia. Equivale a tantos aviões que se chocaram contra as Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001". A idéia era que é preciso cuidar do meio ambiente, pois a natureza se vinga. O comercial foi retirado, após protestos dos americanos, não tanto por causa do absurdo científico envolvendo tsunamis - um fenômeno absolutamente natural, logo sem nada a ver com a ação humana -, mas pelo mau gosto referente aos atentados terroristas nos EUA.

O verdadeiro absurdo em relação ao comercial vetado da WWF estava na explicação do tsunami como um fenômeno humano, e não natural, uma espécie de "vingança da natureza" pela poluição dos mares ou pelas emissões de gás carbônico. É uma explicação tão idiota e fora da realidade quanto culpar a queda de árvores pelos vulcões ou terremotos. Mas, por incrível que pareça, há muita gente que parece acreditar piamente nisso, ou seja, na "ação humana" como motor das "mudanças climáticas". Tanto é que a atual reunião de Copenhague já parte da premissa de que o aquecimento global é um fato, tão verdadeiro quanto o nascer do sol - e, o mais grave, "criado pelo homem".

Coincidência ou não, a reunião de Copenhague começa uma semana após ter sido revelado um dos maiores escândalos acadêmicos de que se tem notícia: um grupo de hackers invadiu os computadores da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, e roubou diversos e-mails trocados entre os pesquisadores. Em vários deles, cientistas informavam como tinham manipulado dados estatísticos, escondendo números que contrariam a tese do aquecimento global. Foi assim que o mundo descobriu como a religião aquecimentista se alimenta da fraude e do engodo. Na mesma semana, a Academia de Cinema de Hollywood anunciou estar cogitando cassar o Oscar que Al Gore recebeu em 2007 por seu pseudo-documentário Uma Verdade Inconveniente, devido à visão claramente anti-científica do filme (não sei quanto a vocês, mas fiquei ainda mais cético depois que Al Gore ganhou o Oscar e o Nobel da Paz; pena que, até o momento em que escrevo, a Academia de Ciências de Estocolmo não tenha anunciado que vai fazer o mesmo que a Academia de Hollywood). Ambas as notícias passaram como um raio nos principais telejornais, dando logo lugar a matérias que mostravam repetidamente imagens de geleiras derretendo no Pólo Norte.

O que justifica tamanha histeria, tamanho alarmismo e escatologia? Aqui, as dúvidas parecem ser bem menores: há tempos o discurso ambientalista-apocalíptico vem sendo brandido pelos inimigos do capitalismo como uma forma indireta de combater os "países ricos" e deles exigir uma "compensação" pelo "dano ambiental" provocado por suas fábricas, obrigando-os, por exemplo, a reduzir o ritmo de suas economias. De uns tempos para cá, esse discurso, de cunho claramente ideológico, tomou conta da ONU, hoje uma mistura de mega-ONG e abrigo de ditadores, a ponto de o IPCC, o Painel sobre Mudanças Climáticas da organização, ter dividido o Nobel da Paz em 2007 com Al Gore. O discurso ecológico, além de politicamente correto e "chique", tornou-se, assim, uma espécie de substituto conveniente para os velhos chavões esquerdistas e terceiro-mundistas, e bem mais eficiente. Afinal, quem não se enche de pânico diante da visão de cidades inteiras engolidas pelo oceano devido à "ação do homem"? O discurso do fim do mundo sempre terá ouvintes atentos e seguidores devotos.

No caso de Copenhague, o roteiro parece claro: antes mesmo de a reunião ter começado, os "países ricos", em especial EUA e China, já eram malhados na imprensa por não se mostrarem muito dispostos a seguir a cartilha aquecimentista, e já eram responsabilizados por um provável futuro fracasso da conferência. Iniciados os trabalhos da reunião, o script está sendo seguido à risca, com representantes africanos e asiáticos - e da diplomacia brasileira, claro - esbravejando contra a "intransigência" dos "poluidores do mundo" por suas "metas muito brandas". No final, tal como em outras reuniões semelhantes, ficará tudo na mesma: os "países ricos", sobretudo os EUA, continuarão sendo os vilões da história, enquanto o mundo continuará caminhando inexoravelmente para a destruição. Quanto às provas de que essa destruição é um fato, e não mera retórica ideológica feita sob medida para abrigar os órfãos da utopia socialista... Bem, pelo visto vamos ter que esperar até que o nível dos oceanos se eleve e as calotas polares derretam.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

ANOS DE CHUMBO: AS VÍTIMAS ESQUECIDAS


No dia 19 de março de 1968, o estudante Orlando Lovecchio Filho estava passando em frente à biblioteca do consulado dos EUA em São Paulo, na Avenida Paulista, quando percebeu um pacote estranho. Ao aproximar-se do objeto, foi atingido por uma forte explosão. Levado ao hospital, teve a perna esquerda, dilacerada pelo choque e pelos fragmentos, amputada. Era o fim do sonho de Lovecchio, 22 anos, de tornar-se piloto de avião.

O pacote que mutilou Lovecchio era uma bomba. Quem a colocou foram militantes de uma organização clandestina de esquerda, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que pretendia assim "protestar" contra o "imperialismo ianque". Um dos que colocaram o petardo, Diógenes Carvalho de Oliveira, o "Diógenes do PT", foi recompensado com uma polpuda indenização do governo federal, como ex-preso político (há alguns anos, ele foi apanhado em flagrante tentando proteger bicheiros no Rio Grande do Sul, onde era secretário do governo). Quanto a Lovecchio, até hoje tem que conviver com as seqüelas do atentado que o incapacitou para o resto da vida, e é obrigado a sobreviver com uma magra pensão de R$ 500 mensais. Para cúmulo da desgraça, ele chegou a ser interrogado como suspeito da explosão que o vitimou, há mais de quarenta anos: somente em 1992, um dos participantes, o artista plástico Sergio Ferro, admitiu a autoria do atentado.

A história de Orlando Lovecchio é o tema do documentário "Reparação". Filmado em alta definição, sem nenhum apoio oficial (o que é raro, e, dado o tema, não é de se estranhar), o filme parte do caso de Lovecchio para fazer algo jamais visto, até agora, na cinematografia brasileira, em especial na produção cinematográfica sobre os "anos de chumbo" do regime militar: um debate sobre a violência e o terrorismo das organizações armadas de esquerda que, nos anos 60 e 70, praticaram dezenas de atentados, ataques à bomba e assassinatos em nome da "resistência contra a ditadura".

Com depoimentos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do historiador Marco Antonio Villa e do geógrafo e cientista político Demétrio Magnoli, além do próprio Lovecchio, o documentário vai direto na jugular, ajudando a demolir velhos mitos e falácias que persistem até hoje sobre o período. Em primeiro lugar, os "guerrilheiros" que pegaram em armas contra o regime de 64 eram, sim, terroristas, viam na violência e no terrorismo o caminho para uma revolução socialista no Brasil, e não somente para "resistir à ditadura". Mais: não lutavam pela democracia, como se tornou usual afirmar, mas por uma forma de ditadura revolucionária, inspirada em regimes totalitários como o de Cuba e o da Coréia da Norte (dos quais, aliás, recebiam apoio material e treinamento). Antes mesmo de 1964, como mostram a historiadora Denise Rollemberg e o jornalista Elio Gaspari, já havia luta armada no Brasil - o que prova que a esquerda era, ela também, golpista, como afirma Marco Antonio Villa. Enfim, uma visão completamente diferente e oposta à romântica (e inteiramente falsa) versão oficial da esquerda como defensora da democracia e dos guerrilheiros como lutadores da liberdade.

Mas o mais importante no filme está na maneira como resgata um dos aspectos menos conhecidos dos "anos de chumbo", coberto até hoje com uma cortina de silêncio. Diga as palavras "ditadura" e "vítimas" e o que lhe virá à cabeça? A associação automática será, provavelmente, com heróicos guerrilheiros, em sua maioria muito jovens (o que lhes dá um ar de pureza angelical), imolados em tiroteios ou assassinados sob tortura pelos "agentes da repressão". No máximo, se alguém lembrar que houve mortos e feridos também do outro lado, você pinçará o nome deste ou daquele militar ou empresário "justiçado" por um comando guerrilheiro por participar ou dar apoio à repressão. Nunca, jamais, as pessoas inocentes que foram vitimas das balas ou bombas da esquerda radical.

Pois é esse tabu que o documentário vem quebrar. Ao centralizar a atenção no caso de Orlando Lovecchio Filho, o filme crava o último prego no caixão da mitologia esquerdista sobre o período e mostra que, muito mais do que os "agentes da repressão", as maiores vítimas da luta armada de esquerda foram cidadãos comuns, simples transeuntes alheios à política, que tiveram a má sorte de estar no lugar errado, na hora errada. Pessoas como Lovecchio, que casualmente se encontrava no consulado norte-americano quando teve a perna arrancada por uma bomba assassina, ou que estavam em uma fila de banco quando se viram no meio do fogo cruzado entre agentes de segurança e os "guerrilheiros" que praticavam uma "expropriação revolucionária".

Para essas pessoas, vítimas inocentes de uma guerra suja, não houve até hoje qualquer homenagem. Nenhuma delas virou estátua, como a que se pretende erguer no sertão da Bahia para Carlos Lamarca, ou de rua, como Carlos Mariguella, cujo nome se pretende dar a uma praça no Rio de Janeiro, e que Frei Betto quer que vire nome do aeroporto de Salvador. Anônimas, sem rosto e, principalmente, sem o glamour da militância revolucionária, as vítimas da violência terrorista de esquerda não mereceram ainda sequer o reconhecimento oficial, ou um singelo pedido de desculpas. Muito menos indenizações milionárias, como as que a secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, não por acaso comandada por um ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), Paulo Vanucchi, distribui fartamente para todos aqueles que aleguem ter passado algumas horas no DOPS. Inútil também procurar o nome de alguma dessas pessoas em algum livro sobre os mortos e desaparecidos políticos no Brasil desde 1964.

O que explica tamanha duplicidade de discurso, tão clara adoção de pesos e medidas diferentes para os mortos e feridos de cada lado, e até para os que não estavam em lado algum, durante o passado brasileiro recente? A resposta é simples: para a esquerda, hoje no poder no Brasil, os mortos só valem se fizerem parte de sua grei. Isso significa que um "guerrilheiro" morto em combate contra policiais vale muito mais do que suas vítimas, inocentes ou não. Um militar, por exemplo, mesmo um que não tivesse qualquer relação com o aparato repressivo, é, nessa visão, um alvo perfeitamente legítimo, ainda que "simbólico" - os "guerrilheiros" chegaram a metralhar um marinheiro inglês no Rio de Janeiro, em 1972, em "protesto" pela repressão britânica na Irlanda do Norte... Quanto aos civis, os pacatos cidadãos atingidos por bombas ou projéteis, esses seriam, de acordo com a esquerda, "danos colaterais" da luta pela revolução e pelo socialismo. Em outras palavras: apenas os que tombaram na luta merecem reverência e reparação estatal, inclusive monetária: todos os demais, ou eram malditos inimigos que mereciam morrer como cães ou pereceram porque estavam do lado errado. De qualquer maneira, de acordo com essa visão, somente os cadáveres de esquerda merecem homenagem: o fato de terem sido caçados pela repressão e muitos terem sofrido torturas funciona como um álibi para o terrorismo.

O documentário surge no momento certo, quando membros do governo Lula - ele mesmo, beneficiado como ex-preso político -, pretendem revisar a Lei de Anistia, a fim de punir somente um lado do conflito ideológico dos anos 60/70 - o lado dos militares, claro. Desnecessário dizer, mas nenhum nome de vítima da luta armada de esquerda foi lembrado pelos que querem rever a Lei, como o ministro da Justiça, Tarso Genro, que no entanto se mostra muito preocupado com os "direitos humanos" do terrorista Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua na Itália por quatro assassinatos. Nomes como o de Orlando Lovecchio Filho, ou do jornalista Edson Régis e do almirante Nelson Fernandes, mortos em atentado à bomba no aeroporto dos Guararapes, em Recife (PE), em 1966 - dois anos antes do AI-5 -, entre tantos outros, não são mencionados. Nem mesmo de militantes da própria esquerda, assassinados pelos próprios companheiros de organização, em pleno auge da repressão política, como Márcio Leite de Toledo, fuzilado no centro de São Paulo em 1971 por discordar dos rumos da organização a que pertencia, a ALN - o que mostra que, mesmo cercados e perseguidos pela polícia, os terroristas brasileiros ainda encontravam tempo para se matarem uns aos outros.

Todos esses fatos são conhecidos. Basta pesquisar, e o interessado irá encontrar dezenas de casos semelhantes, alguns realmente estapafúrdios - segundo relato do jornalista Hugo Studart, um guerrilheiro do PCdoB no Araguaia foi "justiçado" por seus companheiros pelo "crime" de ter um caso amoroso com uma militante casada... No entanto, até agora, jamais tinham vindo à luz do grande público, nem muito menos haviam ganho as telas do cinema, pelo menos como fato principal. Até agora.

Como mostra o documentário "Reparação", os dias da hegemonia esquerdista na cinematografia brasileira sobre o período militar estão contados. As vítimas desconhecidas dos "anos de chumbo", finalmente, estão sendo resgatadas do limbo a que foram relegadas por décadas de propaganda ideológica marxista. Falta ainda receberem o mesmo tratamento dos heróis da esquerda. Se depender de gente como Paulo Vanucchi e Tarso Genro, porém, isso não vai acontecer tão cedo.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

PERFEITO

É isso que eu chamo de uma comparação perfeita. Em seu blog, Augusto Nunes resumiu com precisão matemática o fiasco da diplomacia lulista em Honduras. Quisera eu ter esse poder de síntese:
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"A potência imaginária encontrou na América Central o seu menino do MEP. Em defesa da democracia, o parceiro mais fraco resistiu. Também Honduras não se deixou subjugar."

HONDURAS, LULA E O RESPEITO ÀS CONSTITUIÇÕES


Acabou a comédia em Honduras. Por 111 votos a 14 - repito: 111 a 14! - o Congresso do país decidiu, ontem, pela não restituição do golpista Manuel Zelaya à presidência da República. De quebra, ainda manteve todas as acusações contra ele, como tentativa de violação da Constituição e traição à pátria. Não só ele não irá voltar ao poder, como permanece um fora-da-lei.

O processo de afastamento de Zelaya foi limpo e transparente. A decisão do Congresso de ratificá-lo ocorreu inteiramente dentro do estipulado pelo Acordo de San José-Tegucigalpa, que, ao contrário do que andaram espalhando os zelaystas de lá e de cá, não previu, em momento algum, o retorno de Zelaya como pré-condição para qualquer coisa. Com o detalhe de que a votação no Congresso foi uma exigência dele, Zelaya, pois o governo interino de Roberto Micheletti queria que a decisão fosse da Suprema Corte do país (e - vejam só - dos 25 parlamentares zelaystas, 11 votaram CONTRA a volta de Zelaya à presidência). O calendário eleitoral foi mantido e as eleições presidenciais - das quais participaram dois candidatos aliados de Zelaya - transcorreram de forma limpa e democrática, normalmente, apesar das ameaças dos zelaystas. A vontade popular não cedeu às pressões da "comunidade internacional", e elegeu um candidato adversário do zelayismo. Apesar de tudo, o país resguardou sua soberania e a democracia. Não há o que contestar.

É a derrota total dos bolivarianos. E é a maior humilhação da política externa petista, talvez a maior da História da diplomacia brasileira. O governo Lula permitiu que a embaixada do Brasil em Tegucigalpa fosse transformada em escritório político de Manuel Zelaya. Agora as principais instituições do país vêm confirmar aquilo que este escriba e mais uma meia dúzia de blogueiros vêm dizendo desde o dia 28 de junho: a deposição de Zelaya foi legal. O Brasil abrigou um golpista. Não só isso: interveio diretamente nos negócios políticos de Honduras. Um vexame total.


Você deve estar se perguntando: afinal, o que levou a diplomacia brasileira a cometer erro tão grosseiro, enterrando sua credibilidade e reputação em Honduras? A resposta pode ser encontrada num episódio acontecido no Brasil em 2003.

Era o começo do governo Lula. A lua-de-mel deste com a imprensa estava no auge. Praticamente não passava um dia sem que algum jornalista basbaque falasse na onda de "esperança" criada pela eleição do "presidente-operário" etc. Foi então que um jornalista estrangeiro - norte-americano, para ser mais exato - resolveu botar um pouquinho de areia no oba-oba generalizado. Ele começou a publicar no jornal para o qual trabalhava umas matérias meio esquisitas: em vez de enaltecer o "primeiro-presidente-de-origem-popular-da-história-do-Brasil" e outras patacoadas do tipo, ele publicou umas reportagens em que descrevia o hábito do presidente de tomar uns uísques e rabos-de-galo, e a preocupação de alguns políticos de que o presidente estava "passando da dose" em suas jornadas etílicas.

O governo chiou. O presidente da República quis saber quem era aquele gringo atrevido, que ousava chamá-lo de bêbado na imprensa. Disse que queria vê-lo expulso do Brasil. Ficou sabendo que ele era casado com uma brasileira, logo, pela Constituição de 1988, não poderia ser expulso do País. Não adiantou. Lula bateu pé. Tamanha ofensa ao supremo mandatário da nação não poderia ficar impune, vociferou, espumando de ódio. Diante da informação de que havia um impedimento constitucional à expulsão do jornalista estrangeiro, ele não titubeou:

Lula replicou, batendo na mesa, berrando, exaltado: "Que se foda a Constituição! Quero que ele vá embora!"

A frase acima, incluindo o relato completo do episódio, está no livro Deu no New York Times (Rio de Janeiro, Objetiva, 2008), na página 186. O jornalista em questão, e autor do livro, chama-se Larry Rohter, ex-correspondente do NYT no Brasil. Ele foi expulso do País por ordem de Lula.

O que isso tem a ver com o fracasso do Itamaraty lulista em Honduras? Tudo. Leiam novamente a frase de Lula, e como ele "resolveu" a questão. Lula passou por cima da Constituição do Brasil para se livrar de um jornalista que o incomodava. Mostrou, enfim, total desprezo pela Carta Magna do País. Se ele está se lixando para a Lei Maior do Brasil, por que haveria de se preocupar com o que diz a Constituição de um país insignificante como Honduras?

Em Honduras, Manuel Zelaya, com apoio de Hugo Chávez, quis fazer algo proibido pela Constituição hondurenha. Tentou rasgar uma cláusula pétrea da Constituição (não importa se essa tal cláusula pétrea não existe em outras constituições: o fato é que ela existe na de Honduras). Por isso foi deposto. O governo Lula, juntamente com Chávez e outros governos latino-americanos, além da OEA e da ONU e, num primeiro momento, também os EUA, condenaram imediatamente o "golpe militar" e passaram a exigir a volta de Zelaya. O Brasil, em particular, esperava que ninguém se lembrasse de ler a Constituição de Honduras. Como quase ninguém o fez nos primeiros dias, durante algum tempo a tese do "golpe" se impõs e se criou um quase-consenso da "comunidade internacional" contra o "governo golpista" de Honduras e a favor de Zelaya.

O que levou a esse consenso fabricado, que pareceu convencer a todos, durante certo período, de que houve "golpe" em Honduras, resultando em uma das maiores pressões internacionais a que um país foi submetido nos últimos tempos? Apenas isso: a pura e simples ignorância do que diz a Constituição hondurenha, em especial seu artigo 239, que pune com a perda IMEDIATA do mandato quem propuser a reeleição do presidente da República. O governo brasileiro, assim como o venezuelano e o nicaragüense, acreditou que ninguém se daria à pachorra de ler o que está lá escrito. Daí ter martelado, insistentemente, a tese do "golpe" contra Zelaya, contra todas as evidências. Contou para tanto com um erro dos militares que, atendendo à determinação judicial, detiveram Zelaya: em vez de tê-lo prendido e levado a julgamento, onde deveria estar agora, eles o expulsaram do país, dando munição aos bolivarianos, que passaram a dizer que houve golpe porque, afinal, o presidente "foi deposto e expulso de pijamas". Desse modo, os defensores de Zelaya deram uma contribuição completamente original à Ciência Política, criando a teoria do pijama. Segundo esta, o que caracteriza golpe de Estado não é a ruptura da ordem legal, mediante, por exemplo, a tentativa de convocação de uma consulta inconstitucional, mas algo muito mais importante e transcendente - o tipo de roupa que o presidente está usando na hora de sua deposição...

A farsa, felizmente, não durou muito. Quando parecia que Zelaya voltaria na marra, tendo retornado clandestinamente ao país em um plano arquitetado por Hugo Chávez e Daniel Ortega, e instalando seu QG político na embaixada do Brasil, de onde passou a incitar a uma guerra civil no país e defender teorias sobre raios de alta freqüência e mercenários israelenses, eis que a verdade, essa dama indócil, pediu passagem. Foi então que alguns começaram a dizer Epa! e lembraram que Honduras, ao contrário do que diziam os bolivarianos e a "comunidade internacional", tem, vejam só!, uma Constituição. Isso mesmo, senhores: HONDURAS TEM UMA CONSTITUIÇÃO! E ELA DEVE SER RESPEITADA!

Súbito, o governo de Barack Obama, até então cúmplice e avalista da fraude, percebeu que dar apoio a um golpista travestido de democrata contra um país que lutava para preservar suas instituições era demais até para ele, Obama, e se rendeu ao óbvio: a volta de Zelaya e seu abrigo na embaixada brasileira foi uma irresponsabilidade, para usar a linguagem diplomática, e o melhor caminho para encerrar a crise era garantir a realização das eleições e reconhecer o resultado das urnas. Os EUA, enfim, se deram conta que Honduras tem instituições. Outros países, como Colômbia e Peru, também fizeram o mesmo. Menos o governo do Brasil, que insiste na pantomima, e agora está bufando de raiva contra os "golpistas" que impediram seu golpista de estimação de rasgar as leis do país.

Assim como aconteceu no episódio de Larry Rohter, o fiasco brasileiro em Honduras demonstra aquilo que somente a cegueira voluntária ou a cretinice irremediável, além, claro, da safadeza ideológica, ainda insistem em esconder: em um e em outro caso, o que guiou a política brasileira foi a arrogância presidencial, o supremo desdém petista pela democracia e pelas instituições em nome de um projeto ideológico e pessoal. Em outras palavras: se em 2003 Lula esbravejou contra a Constituição brasileira, que o impedia de expulsar um jornalista incômodo, em 2009 o Itamaraty petista justificou seu apoio incondicional ao golpismo bolivariano batendo na mesa e berrando: "Que se foda a Constituição de Honduras! Queremos que ele, Zelaya, volte ao poder!"

Agora, derrotado e cada vez mais isolado na questão, o que fará o governo brasileiro com Manuel Zelaya e sua trupe, aquartelados na embaixada em Tegucigalpa? Talvez seja melhor contratá-lo para o serviço diplomático, já que o governo Lula se recusa a lhe conceder o asilo político. Ou, então, fechar de vez a embaixada, transformando-a no que ela já é há mais de 70 dias: um cortiço e comitê eleitoral dos zelaystas. Que tal enviar para lá Lula, Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, para fazer companhia ao golpista frustrado e a seus militantes? Estes poderiam ficar lá indefinidamente, e até reproduzir-se, criando uma espécie nova, cada vez menos bípede. Quem sabe o Brasil poderia até ganhar uma graninha, cobrando ingresso para que todos vejam essa nova espécie, os bolivarianos que se recusam a ler o que diz as constituições de seus próprios países e enxergam democracia na Venezuela e no Irã, mas não em Honduras. Nem seria necessário se preocupar com a alimentação: os jardins da embaixada, com seus gramados, poderiam fornecê-la em abundância.

O governo Lula participou ativamente de uma das tentativas de fraude mais toscas de todos os tempos. Raras vezes a política externa de um país desceu tão baixo, cobriu-se de forma tão ignominiosa de vergonha e de ridículo.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

ESTE É MEU CREDO

Um leitor me mandou um link que me deixou intrigado. Junto, um comentário: "Abre o olho. Os caras mais inteligentes já estão pulando fora".

Por curiosidade, abri o link. Queria saber quem estava "pulando fora" e de quê. Fui parar num blog, de um tal Andrew Sullivan. Confesso que nunca tinha ouvido falar nele. Andrew Sullivan, pelo que eu li, é um liberal inglês - liberal no sentido clássico do termo, não no norte-americano (onde "liberal" quer dizer o mesmo que "esquerdista"), nem no brasileiro (onde significa algo como "filho do tinhoso, crápula, canalha" etc). O texto em questão chama-se "Leaving the Right" (Abandonando a Direita) e, pelo que eu entendi, é uma crítica de um liberal desencantado com os conservadores norte-americanos.
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Como eu disse, fiquei intrigado. Por que o leitor me remeteu a um artigo de um liberal que discorda dos "neocons" americanos? Imagino que ele deva achar que eu sou um "neocon" também, do tipo que abomina o "casamento gay", defende o criacionismo nas escolas e se opõe às pesquisas científicas com células-tronco. Se for esse o caso, sinto desapontá-lo: não sou, não.
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Aliás, faço questão de dizer: não me enquadro em nenhum "movimento". A última vez em que fiz parte de um eu ainda tinha espinhas no rosto, e acreditava que o marxismo iria mudar o mundo para melhor. Felizmente, abri os olhos a tempo, e pulei fora dessa canoa furada.
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Hoje, chamam-me de direitista e outras coisas que tais porque minhas opiniões batem com as da "direita" em vários pontos importantes. Houve um tempo em que isso me incomodava um pouco - será que a verdade é de direita?, eu pensava. Hoje, não me incomoda mais. Podem me chamar de direitista que eu nem vou ligar. Não tenho receio em dizer o que penso, por exemplo, sobre terrorismo e ditaduras, para não ser associado a um Donald Rumsfeld ou a um Paul Wolfowitz. Se minhas opiniões coincidem com a deles sobre esses assuntos, fazer o quê? Não vou deixar de dizer o que penso para não ser tachado de "direitista" ou "reacionário". Esse medo infantil das patrulhas ideológicas, esse receio idiota em desagradar a fulano ou beltrano, eu perdi faz tempo, juntamente com as espinhas e minha devoção a Marx e Trotsky.
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Se há uma coisa que distingue os liberais e conservadores dos esquerdistas, aliás, é a pluralidade de opiniões. Ou melhor: a capacidade de debater sem cair no rótulo fácil, na esparrela de chamar o outro disso ou daquilo. Nos EUA, por exemplo, muitos conservadores sangue-puro se distanciaram do governo Bush, que consideravam e consideram, pasmem, estatista demais, logo traidor das causas liberais e conservadoras. Os liberais, pelo menos os de verdade, não hesitam em discordar do que discordam e em concordar com o que concordam, defendendo um debate livre de amarras ideológicas. Defendem mesmo o direito de os inimigos da liberdade e da democracia, como os comunistas, defenderem em público suas teses totalitárias. É que uma das características essenciais do pensamento conservador, desde Burke e Voltaire, é a tolerância. Pode-se dizer o mesmo dos radicais, ou mesmo "moderados", de esquerda?
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Mas voltemos ao artigo de Sullivan. No final, ele faz uma espécie de manifesto político, explicando porque está "abandonando a direita" (pelo menos, a direita atual norte-americana). Como todo liberal clássico, ele começa com questões relativas ao tamanho do Estado (fiz uma tradução meio literal):
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"Não posso apoiar um movimento que alega acreditar em governo limitado mas apoiou uma política presidencial externa e doméstica ilimitada que adotou poderes ilegais e extra-constitucionais até ser forçado pelo sistema a retornar ao império da lei.
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Não posso apoiar um movimento que estourou os gastos e empréstimos e culpa seu sucessor pela dívida.
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Não posso apoiar um movimento que abandonou o papel mínimo e vital do governo de policiar os mercados e gerenciar desastres naturais que nos deu o Katrina e o colapso financeiro de 2008."
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Notem que, no primeiro de seus "não posso", Sullivan diz que o tal "movimento" a que ele alude (que, imagino, foi o governo Bush) foi "forçado pelo sistema" a retornar ao império da lei. Pois bem: é esse sistema, e não o governo Bush (ou Obama, ou Clinton, ou Reagan...) que eu defendo! Alguém consegue vislumbrar algo parecido acontecendo na Venezuela ou em Cuba, por exemplo? (Nem falo do Irã e da Coréia do Norte, pois aí já seria covardia.)
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No segundo "não posso", proponho um exercício: troque sucessor por "antecessor" e você terá um retrato perfeito do governo... Lula!
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Sobre o terceiro ponto, acho justo e correto que parte da direita norte-americana esteja fula da vida com Bush por causa da resposta insuficiente do governo ao furacão Katrina. Se o governo não agiu direito, deve levar pau. Mas isso deve ser creditado a que "movimento" em particular? Deve-se dizer que a culpa pelos mortos em Nova Orleans foi, sei lá, do "neoconservadorismo"? As vítimas das enchentes no Sul do Brasil e no Nordeste algum tempo atrás foram, então, vítimas do petismo? Quanto ao papel do Estado, concordo que o governo deve policiar os mercados, não mandar neles. Até porque o único jeito de evitar crises no capitalismo é extinguindo o capitalismo. Coisa que já tentaram fazer, e todos sabem no que deu.
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Em seguida, Sullivan passa a questões políticas propriamente ditas:
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"Não posso apoiar um movimento que considera a tortura um valor essencial.
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Não posso apoiar um movimento que considera que uma doutrina puramente religiosa deve governar as decisões políticas civis e que usa a santidade da fé religiosa para buscar o poder mundial.
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Não posso apoiar um movimento que é profundamente homofóbico e cinicamente propaga o medo de homossexuais ganharem eleições [...].
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Não posso apoiar um movimento que não tem respeito de verdade pelas instituições do governo e está preparado para usar qualquer tática e quaisquer meios para travar a guerra política em vez de conduzir uma conversação política.
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Não posso apoiar um movimento que vê a guerra permanente como compatível com as normas democráticas liberais e o governo limitado."
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Responda rápido: em que governo você pensou ao ler o que está acima? Não sei quanto a quem lê estas linhas, mas eu pensei no... Irã (ou em Cuba, ou na Coréia do Norte...).
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Pois são os governos desses países - apoiados pelo governo Lula - que 1) consideram a tortura um valor essencial, e a praticam sistematicamente contra os opositores políticos; 2) têm na religião (ou no marxismo, o que dá quase no mesmo) a base do governo e da busca pelo poder mundial; 3) são profundamente homofóbicos; 4) desrespeitam qualquer lei e convenção que se anteponha a seus planos; e 5) mantêm suas populações em estado de guerra permanente, incompatível com as normas democráticas liberais.
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Sullivan diz ainda, em seu "manifesto":
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"Não posso apoiar um movimento que criminaliza o comportamento particular na guerra às drogas."
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Sullivan é um liberal, e deve rezar nessa questão das drogas pela cartilha de John Stuart Mill, que considerava essa uma questão de foro íntimo e de liberdade individual, como o suicídio. Já vi alguns auto-proclamados liberais repetirem essa tese, e confesso que já acreditei nela um dia. Só tem um probleminha: à época de John Stuart Mill, o consumo de drogas poderia até ser uma questão individual, sem implicações para o resto da sociedade. Mas na época de J.S. Mill não havia tráfico internacional de drogas, pelo menos não como existe hoje, nem a violência e criminalidade que o acompanham. Logo, fumar um baseado ou cheirar uma carreira de pó não tem nada a ver com "liberdade individual". É alimentar o narcotráfico, logo cumplicidade com o crime. Ponto.
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Sullivan deve achar, como muitos liberais, que a liberdade individual em questões como as drogas deve ser ilimitada. Eu penso um pouco diferente: acho que a liberdade deve harmonizar-se com a sociedade. Acredito que isso não faz de mim um inimigo da liberdade e defensor da ditadura do proletariado, faz?
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"Não posso apoiar um movimento que considera os gays ameaças a suas próprias famílias."
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Também não posso apoiar esse tipo de coisa. É por isso que apoiar governos como o iraniano, em que os homossexuais são perseguidos e assassinados, é um absurdo.
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"Não posso apoiar um movimento que não aceita a evolução como um fato."
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Não somente a "direita" norte-americana se recusa a aceitar a evolução como um fato, como em certos setores "progressistas" o chamado "criacionismo" vem ganhando força. Se tem dúvidas, pergunte o que a ex-ministra e candidata à presidência em 2010 Marina Silva acha a respeito.
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Mas, aceitando ou não a evolução darwiniana, uma coisa é certa: discordar dela, apegando-se a uma leitura literal da Bíblia ou do Corão, é, numa sociedade democrática, um direito. Podemos discordar totalmente do criacionismo (como eu discordo, deixo claro), mas pode-se, em nome da ciência, proibir quem nele acredita de professar sua fé? Desde que essa crença não se torne oficial, ou seja, desde que não seja imposta à sociedade como obrigatória, permanecendo na esfera puramente particular, não vejo problema algum em que haja quem creia que a o universo foi criado em seis dias e que a humanidade descende de Adão e Eva no Paraíso (até porque, se fôssemos adotar o princípio da racionalidade em questões religiosas, teríamos que proibir todas as religiões). Enfim, acho que a religião é uma questão individual. Creio que não sou um fanático religioso por causa disso. Ou sou?
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"Não posso apoiar um movimento que vê a mudança climática como uma farsa e oferece a exploração doméstica de petróleo como a base da política energética."
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Sobre a mudança climática, até agora não vi nenhum intelectual conservador ou cientista dizer que ela não existe: vi apenas um grande debate inconcluso sobre se - vejam bem: se - ela é causada pela ação humana, e uma tentativa obviamente ideológica de transformar essa tese num "consenso científico". Quanto à exploração do petróleo como a base da política de energia, estou curioso para saber o que Hugo Chávez ou Lula têm a dizer sobre esse absurdo ataque ao meio ambiente - no caso do último, principalmente depois do "pré-sal"...
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"Não posso apoiar um movimento que se recusa a aumentar impostos, enquanto não propõe nenhuma redução significativa nos gastos governamentais."
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Bom, pelo menos o Bush se recusava a aumentar impostos... Por aqui, o governo Lula não só aumenta impostos, como a famigerada CPMF, como aumentou os gastos públicos, em grande parte para acomodar sua corriola.
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E assim segue a coisa. Sullivan afirma ainda:
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"Não posso apoiar um movimento que acredita que os Estados Unidos devem ser a única potência global, sustentar uma máquina de guerra permanente para policiar todo o planeta, e considerar a violência como o instrumento essencial para as relações internacionais."
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OK, os EUA não devem ser a única potência global. Nesse caso, pergunto a Sullivan: que outro país deveria ser elevado à condição de potência global - a China? a Rússia? o Irã?
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Estimulado pelo texto de Sullivan, também escrevi meu próprio manifesto, ou credo político. Aí vai:
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Não posso apoiar um movimento que flerta com o terrorismo, declarando-se "neutro" em relação aos narcobandoleiros das FARC, enquanto participa, ao lado destes, das reuniões do Foro de São Paulo.
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Não posso apoiar um movimento que justifica a acolhida com tapete vermelho a genocidas financiadores do terrorismo e negadores do Holocausto como Mahmoud Ahmadinejad, e que defende inclusive seu programa nuclear secreto.
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Não posso apoiar um movimento que, "para aproximar-se dos países árabes", fecha os olhos para o genocídio em Darfur.
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Não posso apoiar um movimento que dá seu aval ao antissemitismo e à intolerância, apoiando um antissemita e queimador de livros para a direção da UNESCO.
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Não posso apoiar um movimento que nega a Israel o direito de se defender e ignora o terrorismo do Hamas e do Hezbollah.
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Não posso apoiar um movimento que se diz moderado, mas aplaude ditaduras como a dos irmãos Castro em Cuba e justifica os ataques de Hugo Chávez à liberdade de imprensa na Venezuela e suas investidas em outros países.
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Não posso apoiar um movimento que vê golpe de Estado em Honduras e acolhe em sua embaixada o golpista bolivariano Manuel Zelaya, intervindo diretamente na situação interna de outro país, ignorando suas instituições.
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Não posso apoiar um movimento que substituiu o realismo em política externa pela megalomania e pelo terceiro-mundismo.
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Não posso apoiar um movimento que, em nome dos direitos humanos, defende o refúgio político a assassinos e terroristas de esquerda condenados em seus próprios países, zombando de suas vítimas e das instituições democráticas.
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Não posso apoiar um movimento que defende a revisão de uma Lei de Anistia para punir apenas um dos lados dos "anos de chumbo" da ditadura militar, isentando os terroristas de esquerda de qualquer culpa ou responsabilidade.
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Não posso apoiar um movimento que falsifica despudoradamente a História, e que usa até livros didáticos e exame de estudantes para fazer propaganda oficial.
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Não posso apoiar um movimento que instituiu o coitadismo e o culto da ignorância, uma ofensa aos pobres que estudam.
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Não posso apoiar um movimento que transformou o marketing e o cinismo em supremas virtudes políticas.
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Não posso apoiar um movimento que usa a máquina do Estado para fazer propaganda eleitoral antecipada e para aparelhá-la com critérios partidários e ideológicos.
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Não posso apoiar um movimento que age como se tudo o que veio antes não tivesse existido, apropriando-se de políticas que antes condenava e apresentando-se como fundador da Nação.
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Não posso apoiar um movimento que transformou o assistencialismo, o clientelismo e o fisiologismo em sinônimos de "política social", aplicando na prática o que antes condenava com veemência.
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Não posso apoiar um movimento que se diz convertido às regras do mercado, mas não se confessa nem se arrepende do discurso socialista do passado (passado?).
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Não posso apoiar um movimento que se diz democrata, mas investe quase diariamente contra a liberdade de imprensa, dizendo que "a imprensa existe para informar, não fiscalizar".
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Não posso apoiar um movimento que promove o culto à personalidade do presidente da República, inclusive com um filme financiado por empresas com contratos com o governo.
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Não posso apoiar um movimento que aceita tranqüilamente, e até justifica, o assassinato de cem milhões de pessoas pelo comunismo no século XX.
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Não posso apoiar um movimento que idolatra assassinos seriais e psicopatas como Che Guevara, Fidel Castro, Mao Tsé-Tung e Stálin.
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Não posso apoiar um movimento que, a pretexto de combater a discriminação e o preconceito, cria tribunais de pureza racial e institui oficialmente a divisão por raça, instaurando o racismo no País.
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Não posso apoiar um movimento que, em nome da tolerância e dos direitos das minorias como os gays, pretende criminalizar o pensamento e a liberdade religiosa, enquanto ignora a perseguição aos homossexuais em países como o Irã.
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Não posso apoiar um movimento que se diz defensor dos direitos das mulheres e das minorias, mas não diz uma palavra sobre a repressão às mulheres e às minorias religiosas nos países islâmicos.
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Não posso apoiar um movimento que se enche de indignação diante de qualquer manifestação de "intolerância" do papa contra os muçulmanos, mas ignora as passagens claramente intolerantes do Corão e justifica o terrorismo islamita como uma forma de "resistência contra o imperialismo".
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Não posso apoiar um movimento que considera a democracia e os direitos humanos valores relativos, e não universais, e que, em nome do "multiculturalismo", justifica a perpetuação de formas despóticas de governo - enquanto desfruta de todas as facilidades da democracia.
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Não posso apoiar um movimento que prega a "descriminalização das drogas" como uma forma eficiente de combater o narcotráfico.
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Não posso apoiar um movimento que defende o fim do direito legal a portar armas como a solução do problema da criminalidade.
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Não posso apoiar um movimento que considera a responsabiliade penal de menores de 18 anos, vigente em países como Inglaterra e Suiça, uma medida "fascista".
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Não posso apoiar um movimento que não perde a oportunidade de atacar a violência policial, mas enxerga a criminalidade como o resultado automático da "injustiça social" e os bandidos como "vítimas da sociedade".
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Não posso apoiar um movimento que aperta o cerco contra o cigarro e o álcool, ao mesmo tempo em que defende a liberalização de "drogas leves" como a maconha.
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Não posso apoiar um movimento que transformou o ambientalismo e o "aquecimento global", um tema sobre o qual não há consenso entre os cientistas, em discurso dogmático e escatológico.
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Não posso apoiar um movimento que considera o aborto um direito maior do que o de livre expressão religiosa.
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Não posso apoiar um movimento que se diz favorável a todas as religiões, menos à católica apostólica romana.
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Não posso apoiar um movimento que, dizendo-se cumpridor das leis e defensor do estado de direito democrático, financia com dinheiro público e fecha os olhos para as depredações e violências do MST, um movimento revolucionário comunista.
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Não posso apoiar um movimento que se recusa a se distanciar de um demagogo como João Pedro Stédile e de um bestalhão como Marco Aurélio Garcia.
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Não posso apoiar um movimento que passou décadas batendo-se pela "ética na política" e terminou aliando-se ao que há de mais podre na política brasileira em nome do "realismo".
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Não posso apoiar um movimento que, diante de revelações assustadoras de corrupção, limita-se a dizer que foi tudo uma "conspiração" e aposta na corrupção alheia para "zerar o jogo".
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Não posso apoiar um movimento que rejeita o livre debate de idéias e considera qualquer crítica a ele dirigida como coisa de reacionários, vendidos, imperialistas, impatriotas, preconceituosos, racistas, homofóbicos ou fascistas.
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No final de seu texto, Andrew Sullivan pergunta, retoricamente: "Isso faz de mim um esquerdista radical?". Ao que ele mesmo responde: "De forma enfática, não. Mas certamente me afasta da atual direita norte-americana".
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Do mesmo modo, parafraseando Andrew Sullivan, eu pergunto: o que escrevi aí em cima me torna um extremista de direita? Certamente não. Mas me afasta dos que estão no poder no Brasil atualmente.
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Finalmente: eu posso falar mal de Bush e de Ahmadinejad, assim como posso falar mal de Pinochet e de Fidel Castro, ou de Hitler e Stálin.
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E os esquerdistas, podem?
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Um aviso aos petralhas: não adianta tentar me pautar


Sorry petralhas, este blogueiro não é boneco de ventríloco...

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Tenho recebido algumas mensagens que dizem mais ou menos assim: "Que tal agora falar da corrupção da direita? Não vai falar do escândalo no DF? Cadê sua imparcialidade?" etc.
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Ai, ai... Houve uma época em que era mais divertido lidar com esquerdistas. Bastava chegar perto de um e era como apertar um botão: ele ia logo subindo num caixote e soltando o verbo contra o capitalismo, o imperialismo, a burguesia, os latifundiários, as multinacionais etc. Ficava horas e horas arengando "às massas" - geralmente, os colegas de cerveja no boteco - sobre coisas como justiça social e distribuição de renda, e condenando ferozmente a corrupção, que era sempre vista como exclusividade da "direita" etc. etc. Era idiota, claro, mas pelo menos dava pra tentar discutir.
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Hoje, como as coisas mudaram! Critique um esquerdista e o que você terá de volta não será nenhum discurso revolucionário do tipo descrito acima, mas o "todos fazem igual" imortalizado pelo Apedeuta. Critique a esquerda e você receberá um "e aí, não vai falar também da corrupção da direita"? Ou seja: antes, eram os puros, os diferentes; agora, exigem ser colocados na mesma vala comum dos demais políticos. Que pobreza, que indigência!
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Que direita, cara-pálida? O DEM? O PSDB? Veja de novo a foto que ilustra o texto "Um álibi perfeito" que fala da maneira como o petismo vagabundo instrumentaliza a corrupção alheia, transformando-a numa aliada. Nem precisa ler o texto, basta ver a foto. Um dos motivos por que criei este blog é, justamente, a inexistência de qualquer partido ou corrente política, no Brasil, que possa ser considerado, programática e ideologicamente, conservador e de direita. Quem é o Churchill ou o Edmund Burke brasileiro? José Roberto Arruda?
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Acreditem, gostaria que um dia me fizessem uma provocação inteligente, que realmente valesse a pena responder. Que algum esquerdista viesse com argumentos que se sustentam, no mínimo, em duas pernas, e não quatro, para iniciar um debate. Mas já percebi que é inútil. Não há nada mais previsível do que cabeça de esquerdista. Não há nada mais cretino.
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Não, não vou falar do que vocês querem que eu fale, se é essa a intenção. Há outros blogs para isso: dezenas, centenas deles, alguns subvencionados com o leite de pata estatal. Querem que eu coloque "direita" e esquerda no mesmo saco, para "zerar o jogo" e fazer esquecer o assalto petista aos cofres do Estado? Não farei isso. Esse blog tem ambições modestas: quer apenas debater a mentira esquerdista, e como ela se aproveita até do que fazem os adversários para se incrustar na mente dos incautos. Aliás, é sobre isso que escrevi no post sobre o caso do DF. Não adianta tentar, vocês não vão me pautar. Este blogueiro não é boneco de ventríloco.
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Durante décadas - sem exagero -, petistas e afins se erigiram à condição de campeões da moralidade e dos bons costumes em política, disparando condenações a torto e a direito (ou à direita). Hoje, confrontados com sua própria roubalheira, exigem "imparcialidade".
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Imparcialidade? Não aqui. Este blog tem lado. E não é o dos que roubam consciências e ofendem a inteligência alheia. Não é o dos que banalizam o mal, com a desculpa de que todos o praticam.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Ainda sobre o "menino do MEP": Por que SÓ agora?


O futuro do Brasil está nas mãos desse homem...

Impecável o texto de César Queiroz Benjamin publicado hoje na Folha de S. Paulo. Vai na íntegra, com os principais trechos em negrito.
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O autor deixa claro que os motivos que o levaram a lembrar do episódio de Lula e do "menino do MEP" têm a ver com a onda de mistificação stalinista em torno da figura de Lula, e bate firme no culto à personalidade e na canonização do Apedeuta. Ele fala com propriedade e lógica.
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Fica apenas uma questão não respondida: Por que SÓ agora?
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Deleitem-se.
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POR QUE AGORA?
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César Queiroz Benjamin


DEIXO de lado os insultos e as versões fantasiosas sobre os “verdadeiros motivos” do meu artigo “Os Filhos do Brasil”. Creio, porém, que devo esclarecer uma indagação legítima: “por quê?”, ou, em forma um pouco expandida, “por que agora?”. A rigor, a resposta já está no artigo, mas de forma concisa. Eu a reitero: o motivo é o filme, o contexto que o cerca e o que ele sinaliza.
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Há meses a Presidência da República acompanha e participa da produção desse filme, financiado por grandes empresas que mantêm contratos com o governo federal.
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Antes de finalizado, ele foi analisado por especialistas em marketing, que propuseram ajustes para torná-lo mais emotivo.
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O timing do lançamento foi calculado para que ele gire pelo Brasil durante o ano eleitoral. Recursos oriundos do imposto sindical -ou seja, recolhidos por imposição do Estado- estão sendo mobilizados para comprar e distribuir gratuitamente milhares de ingressos. Reativam-se salas pelo interior do país e fala-se na montagem de cines volantes para percorrerem localidades que não têm esses espaços. O objetivo é que o filme seja visto por cerca de 5 milhões de pessoas, principalmente pobres.
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Como se fosse pouco, prepara-se uma minissérie com o mesmo título para ser exibida em 2010 pela nossa maior rede de televisão que, como as demais, também recebe publicidade oficial.
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Desconheço que uma operação desse tipo e dessa abrangência tenha sido feita em qualquer época, em qualquer país, por qualquer governante. Ela sinaliza um salto de qualidade em um perigoso processo em curso: a concentração pessoal do poder, a calculada construção do culto à personalidade e a degradação da política em mitologia e espetáculo. Em outros contextos históricos isso deu em fascismo.
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O presidente Lula sabe o que faz. Mais de uma vez declarou como ficou impressionado com o belo “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore, que narra o impacto dos primeiros filmes na mente de uma criança. “O Filho do Brasil” será a primeira -e talvez a única- oportunidade de milhões de pessoas irem a um cinema. Elas não esquecerão.
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Em quase oito anos de governo, o loteamento de cargos enfraqueceu o Estado. A generalização do fisiologismo demoliu o Congresso Nacional. Não existem mais partidos. A política ficou diminuída, alienada dos grandes temas nacionais. Nesse ambiente, o presidente determinou sozinho a candidata que deverá sucedê-lo, escolhendo uma pessoa que, se eleita, será porque ele quis. Intervém na sucessão em cada Estado, indicando, abençoando e vetando. Tudo isso porque é popular. Precisa, agora, do filme.
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Embalado pelas pré-estreias, anunciou que “não há mais formadores de opinião no Brasil”. Compreendi que, doravante, ele reserva para si, com exclusividade, esse papel. Os generais não ambicionaram tanto poder.
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A acusação mais branda que tenho recebido é a de que mudei de lado. Porém os que me acusam estão preparando uma campanha milionária para o ano que vem, baseada em cabos eleitorais remunerados e financiada por grandes grupos econômicos. Em quase todos os Estados, estarão juntos com os esquemas mais retrógrados da política brasileira. E o conteúdo de sua pregação, como o filme mostra, estará centrado no endeusamento de um líder.
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Não há nada de emancipatório nisso. Perpetuar-se no poder tornou-se mais importante do que construir uma nação. Quem, afinal, mudou de lado?
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Aos que viram no texto uma agressão, peço desculpas. Nunca tive essa intenção. Meu artigo trata, antes de tudo, de relações humanas e é, antes de tudo, uma denúncia do círculo vicioso da extrema pobreza e da violência que oprime um sem-número de filhos do Brasil. Pois o Brasil não tem só um filho.
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Reitero: o que escrevi está além da política. Recuso-me a pensar o nosso país enquadrado pela lógica da disputa eleitoral entre PT e PSDB. Mas, se quiserem privilegiar uma leitura política, que também é legítima, vejam o texto como um alerta contra a banalização do culto à personalidade com os instrumentos de poder da República. O imaginário nacional não pode ser sequestrado por ninguém, muito menos por um governante.
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Alguns amigos disseram-me que, com o artigo, cometi um ato de imolação. Se isso for verdadeiro, terá sido por uma boa causa.

O ÁLIBI PERFEITO


A política no Brasil nunca esteve tão desinteressante.

Não faz muito tempo, sempre que estourava um escândalo de corrupção em algum governo, nem era preciso piscar duas vezes para ver uma multidão de petistas, cheios de indignação e afetando santidade virginal, berrando e exigindo que rolassem cabeças. Eram os tempos da "ética na política", identificada automaticamente com os companheiros da estrela vermelha e com seu líder barbudo. Este gostava de rugir contra os "300 picaretas" do Congresso e de chamar o governante de plantão de "pai dos ladrões", distribuindo atestados de honestidade ou de cafajestice conforme seu próprio critério particular e inquestionável.

Hoje, as coisas mudaram bastante. É verdade que persiste a gritaria localizada de alguns setores juvenis do petismo, como no caso da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, do PSDB, ou do "mensalão mineiro" do ex-governador e atual senador Eduardo Azeredo, do mesmo partido. Mas é só fachada, ou simples politicagem regional. Nada que se compare ao barulho que o PT fez no passado. Hoje, quando adversários nominais do petismo se vêem encrencados em algum rolo político-jurídico, sabem que sempre poderão contar com a compreensão e a solidariedade do companheiro Lula e do PT.

É o que está acontecendo agora, com o escândalo do "mensalão do DEM" no governo do Distrito Federal, que ameaça custar o cargo e a carreira política do governador José Roberto Arruda. Para surpresa de alguns, o que fez Lula diante da crise que explodiu como uma bomba no governo do DF? Saiu em defesa de Arruda, minimizando as provas e dizendo que as imagens gravadas dele e de seus assessores recebendo dinheiro vivo de corrupção "não falam por si". Aproveitou para dizer que é preciso garantir a "ampla defesa" do governador, como se fosse um advogado.

O escândalo no governo do DF é uma bênção para Lula e o PT, não há dúvida. É uma oportunidade de ouro para eles praticarem seu esporte favorito: banalizar o mal. "Viu só? Eles também roubam", parece ser o mantra dos petistas nesses dias. Como se duas ilegalidades, somadas, resultassem em uma legalidade. Como se, enxovalhando a reputação alheia, fosse possível lavar a própria. Os petistas estão exultantes, certamente, porque acreditam que o escândalo no DF irá "zerar o jogo" em 2010, retirando do DEM e do PSDB a possibilidade de mencionar o mensalão na campanha eleitoral. Com isso, esperam que todos se esqueçam que o mensalão petista de 2005 existiu.

O caso do DF tem, aliás, muitos pontos em comum com o maior escândalo de corrupção da História do País: o denunciante que vem das entranhas da corrupção governamental, a compra de consciências de parlamentares, até o detalhe simbolicamente poderoso dos maços de dinheiro guardados na cueca (com a diferença de que, desta vez, o pagamento foi em moeda nacional, não em dólares). Mas nada disso parece convencer Lula a fazer o que ele antes chamava de defesa da ética e agora chama de "prejulgamento".

Se, até 2005, o PT e seus aliados de esquerda se arvoravam como os monopolistas da ética e da virtude, hoje se agarram ao argumento de que não são em nada diferentes dos demais políticos e partidos. É a tática do "todos fazem igual" defendida por Lula naquela famosa entrevista em Paris, quatro anos atrás: se todos agem do mesmo modo em relação ao Erário Público, se todos mentem e roubam, então por que esquentar a cabeça e atacar o PT, que sempre condenou os outros exatamente por isso? Nivelados todos, indistinguíveis no mesmo mar de lama, fica impossível condenar X ou Y. Desse modo, a corrupção, que antes causava nojo e escândalo, deixa de enojar e escandalizar. Banaliza-se.

É nesses momentos que se revela uma certa irmandade entre os corruptos, que vai além de qualquer diferença política ou ideológica. É a mesma irmandade que deve existir, creio eu, entre os demais tipos de bandidos, como traficantes e assaltantes de bancos. Lula está escaldado pelo que houve em 2005, tendo dito recentemente que o mensalão foi uma "conspiração" contra seu governo, e teme o "efeito bumerangue" que um provável impeachment de Arruda poderá acarretar: não tendo mais moral para condenar a roubalheira de ninguém, ele prefere a cautela e o espírito de porco, digo, de corpo. Tendo escapado, por pura incompetência da oposição, de um processo de impeachment em 2005, Lula não quer nem ouvir falar em algo parecido, mesmo com políticos de partidos adversários. Que diferença do líder operário, do oposicionista que até um dia desses gritava "Fora FHC"...

É assim que pensam os petistas e seus assemelhados: para eles, a corrupção alheia virou uma aliada, uma verdadeira tábua de salvação. Agora entendo perfeitamente por que Lula elegeu José Sarney e Fernando Collor como seus novos parceiros e amigos de infância. Antes, a corrupção era condenável. Hoje, é o álibi perfeito. É, amigo velho, o poder realmente faz milagres.

Resposta a um leitor muito sábio

Um leitor, que por motivos que posso imaginar prefere se esconder no anonimato virtual, escreveu o seguinte na área de espaços de meu texto "Zé Celso, o malucão chapa-branca", aqui postado em 12 de novembro:

Seu texto é de reacionário do rebanho, ignorante e colonizado. Vc sabe bem seguir regras, como as do Português, mas te falta muita arte ainda para compreender o que não compreende. Quando você se orgulha da sua ignorância e baforeja a raiva que afinal deve ter de si mesmo, porque não há outra razão para tamanha necessidade de ser o juiz supremo, dá a maior bandeira de sua burrice. Mas ainda deve haver tempo para você nesse mundo, para livrar-se de si, libertar-se. Corra, pois tem de recuperar o tempo perdido!
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Após meditar um pouco diante de tamanha sabedoria, enviei a seguinte resposta ao distinto leitor:
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Meu caro Anônimo, vc tem razão: sou um reacionário "de rebanho", além de ignorante e colonizado. Isso porque, como vc disse, eu sigo regras, como as de Português (ao contrário de Lula) e, sobretudo, da lógica (ao contrário do Zé Celso e outros aduladores do Apedeuta).
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Quem sabe vc não seja a pessoa que será capaz de sanar essa minha falta de "arte" para compreender o que não compreendo, como, por exemplo, o que leva alguém a escrever um texto bajulatório a um sujeito analfabeto e cafona que despreza a própria educação e que transformou esse desprezo pelas luzes em trunfo eleitoral... Devo mesmo ser alguém que se orgulha da própria ignorância e burrice (será que sou lulista e não sei?) e que baforeja a raiva que afinal devo ter de mim mesmo, pois sou incapaz de enxergar a auréola que muita gente jura ver em torno da cabeça de nosso Mestre Iluminado.
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Faço apenas uma pequena ressalva ao que vc disse: não pretendo arvorar-me em juiz supremo, pois esta posição, mesmo se eu a quisesse para mim, seria impotente diante do Deus-Pai-Todo-Poderoso-de-Caetés-filho-de-uma-mulher-que-nasceu-analfabeta. Mas, por via das dúvidas, vou seguir seu conselho. Vou tentar livrar-me de mim mesmo e libertar-me. Vou correr agora mesmo para o cinema para assistir e reassistir umas trinta vezes à hagiografia cinematográfica de Nosso Líder e Guia Genial, até que minhas lágrimas sequem e meu cérebro vire um maracujá. Quem sabe assim eu veja a luz e me torne petista. Amém.

terça-feira, dezembro 01, 2009

"NÃO SE PODE FAZER CONCESSÃO A GOLPISTA". E NÃO PODE MESMO, LULA!


Notaram a foto atrás do golpista chapeludo?
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Acabei de ver o Lula falar em entrevista na TV alguma coisa mais ou menos assim, na 19a cúpula ibero-americana que ora acontecesse em Estoril, Portugal (sobre se aceitará ou não o resultado das eleições em Honduras): "Não, não. Não se pode fazer concessão a golpista".
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Exatamente! O presidente está coberto de razão! Concordo em gênero, número e grau!

De fato, não se deve mesmo fazer concessões a golpistas. Nada de conversa com esse tipo de gente, nem tapinha nas costas, nem aperto de mão. Nada de dar guarida, por exemplo, a quem tentou rasgar a Constituição de um país, em primeiro lugar, nem muito menos permitir que ele transforme a embaixada do País em seu escritório político para fazer arruaça.

Também não se deve, de maneira alguma, cortejar ditadores. Isso significa que não se deve, por exemplo, reconhecer a vitória de um candidato em eleições claramente fraudulentas, antes mesmo do resultado oficial. Muito menos comparar protestos por democracia e a repressão aos opositores da fraude com choradeira de torcida de time de futebol. Isso é o mínimo que se espera de quem se diz civilizado e democrata.

É claro que vocês sabem do que, ou melhor, de quem estou falando, não? Dos GOLPISTAS Manuel Zelaya e Mahmoud Ahmadinejad. De Zelaya, que foi deposto para que se cumprisse a Lei. De Ahmadinejad, que roubou uma eleição e governa na base do cacete. Com esses, não se deve condescender de jeito nenhum. Não merecem conviver com gente decente e honesta.

Lula se antecipou aos aiatolás do Irã e reconheceu a vitória fraudulenta do fanático negador do Holocausto e patrocinador do terrorismo Mahmoud Ahmadinejad, em eleições contestadíssimas e marcadas pela violência. Agora se recusa a reconhecer as eleições limpas e democráticas de Honduras porque o companheiro Zelaya, que tentou dar um golpe contra a Constituição e se encontra "hospedado" na pensão que um dia foi a embaixada brasileira, não foi restituído incondicionalmente ao poder. É preciso encontrar uma palavra nova para definir a estupidez da política externa lulista.

Nunca pensei que diria isso, mas Lula está certíssimo. Não se deve fazer concessões a golpistas. Principalmente os golpistas civis, que tentam usar os instrumentos da democracia para destruí-la. Lugar de golpista, civil ou militar, é mesmo na cadeia, e não fazendo comício em embaixada alheia. Lei e Civilização neles!

domingo, novembro 29, 2009

Somos todos "meninos do MEP"


Na sexta-feira passada, dia 27/11, a Folha de S. Paulo publicou um artigo que deveria ser lido e refletido por todos. Principalmente pelos que irão se emocionar nos cinemas diante da hagiografia lacrimosa do Apedeuta dirigida por Fábio Barreto.

Intitulado "Os Filhos do Brasil", o texto de César Queiroz Benjamin, um esquerdista histórico (foi um dos fundadores do PT), é um dos golpes mais duros já assestados no culto à personalidade lulista. A ser verdade o que está lá escrito, trata-se de uma das revelações mais escabrosas sobre um dos mais escabrosos fenômenos de marketing da História brasileira.

No texto, César, conhecido como "Cesinha", relata sua experiência como preso político da ditadura militar, com a idade de apenas 17 anos. Ele recorda a dureza da vida na prisão, e como os carcereiros o atiraram para ser "usado" pelos presos comuns. Ele se emociona ao dizer que, embora sozinho e indefeso, os demais detentos - assaltantes, homicidas e demais delinqüentes - não lhe tocaram num fio de cabelo; pelo contrário: foram até solidários com ele, mostrando nobreza quando deles se esperava nada mais do que um comportamento bestial.

Salto no tempo. Estamos em 1994, na segunda campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. César Queiroz Benjamin é então um dos coordenadores da campanha do candidato petista. Em um almoço em São Paulo, estão ele, Lula, um marqueteiro norte-americano e outras pessoas. Ocorre então o seguinte diálogo:

Na mesa, estávamos eu, o americano ao meu lado, Lula e o publicitário Paulo de Tarso na frente e, nas cabeceiras, Espinoza (segurança de Lula) e outro publicitário brasileiro que trabalhava conosco, cujo nome também esqueci. Lula puxou conversa: "Você esteve preso, não é Cesinha?" "Estive." "Quanto tempo?" "Alguns anos...", desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: "Eu não aguentaria. Não vivo sem boceta".

Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o de "menino do MEP", em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do "menino", que frustrara a investida com cotoveladas e socos.

Foi um dos momentos mais kafkianos que já vivi. Enquanto ouvia a narrativa de nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o "menino do MEP" nas mãos de criminosos comuns considerados perigosos, condenados a penas longas, que, não obstante essas condições, sempre me respeitaram.

César Queiroz Benjamin prossegue em suas lembranças, prestando uma homenagem aos autênticos filhos do Brasil, como aqueles que estiveram presos com ele e que se portaram com a maior dignidade ou, pelo menos, com humanidade e decência. Diz não saber quem seria o tal "menino do MEP" (sigla de "Movimento de Emancipação do Proletariado"), lembrando apenas que o homem que diz que o atacou é hoje presidente da República, é conciliador e, dizem, faz um bom governo, tendo alcançado projeção internacional. Deseja-lhe boa sorte, para o bem do Brasil, e espera que ele tenha melhorado com o tempo.

No final, César diz que não pretende assistir a "Lula, o filho do Brasil", que, como ele diz, "exala o mau cheiro das mistificações". "Li nos jornais que o filme mostra cenas dos 30 dias em que Lula esteve detido e lembrei das passagens que registrei neste texto, que está além da política. Não pretende acusar, rotular ou julgar, mas refletir sobre a complexidade da condição humana, justamente o que um filme assim, a serviço do culto à personalidade, tenta esconder."

Alguém poderia supor que relutei antes de escrever esse texto. Que o que está transcrito aí em cima é uma baixaria e um assunto puramente privado. Nada disso. Não hesitei um só momento em comentar o assunto aqui. Baixaria, é claro que é. Mas não é, de modo algum, uma questão privada. Dificilmente se poderia imaginar metáfora melhor para descrever quem é Lula e o lulismo, e sua relação com os brasileiros, do que o "menino do MEP". Questão privada, uma ova!

A reação do governo às revelações de César Queiroz Benjamin foi mais do que previsível. "Psicopata", foi a palavra usada pelo Planalto para descrevê-lo. "Triste e abatido", foi como o secretário de Lula, Gilberto Carvalho, descreveu seu chefe após este ter sabido do artigo no jornal em que é acusado de tentar molestar um colega de prisão. Estranhamente, porém, Lula disse que não vai processar César Queiroz Benjamin por esse ataque à sua honra.

Previsíveis também foram as palavras dos adeptos do lulo-petismo para proteger seu ídolo. O cineasta Silvio Tendler, um dos personagens não-identificados que presenciaram a conversa sobre o "menino do MEP", tentou pôr panos quentes, afirmando que tudo não passou de uma piada, da qual todos riram muito. É, pode ter sido mesmo... O senso de humor do Apedeuta, como sabemos, não costuma ser muito sutil, e suas tiradas, para citar apenas uma das mais recentes, incluem comparar o espancamento e assassinato de manifestantes iranianos a uma questão de vascaínos contra flamenguistas. Mas isso não diminui nem um pouco a gravidade da revelação. Muito pelo contrário.
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Fazer piada, se é que foi apenas piada, com o molestamento de um prisioneiro na cadeia é uma coisa assim que, como direi?, deveria provocar não gargalhadas, mas engulhos e ânsia de vômito. Quando ex-presos políticos dizem que sofreram abusos sexuais nas mãos de torturadores quando estavam na cadeia, deve-se encarar isso também como piada? O que diriam os defensores dos direitos humanos se alguém dissesse que os relatos de prisioneiros sendo violentados e estuprados nas prisões do DOI-CODI não passaram de blague?

Os devotos do lulismo gostam de mostrar a prisão de Lula em 1980 como uma passagem especialmente heróica de sua biografia, ou, mais exatamente, como uma via-crúcis, o Martírio do Messias antes da Ascensão ao Céu. Agora se sabe, pela pena de um esquerdista de grosso calibre, que o comportamento de Lula na prisão não se distinguiu da do mais vulgar e reles bandido. Ou melhor, distinguiu-se, sim: César Benjamin afirma que, quando esteve preso, os bandidos comuns o respeitaram. Bem diferente de Lula com o "menino do MEP".

O artigo de César Queiroz Benjamin veio em boa hora. Quando um filme que endeusa a personalidade de Lula está prestes a estrear nos cinemas, mostrando uma versão edulcorada de sua biografia, talvez seja útil lembrar do "menino do MEP". Aí, quem sabe, aqueles que assistirão ao filme se darão conta de que o "menino do MEP" são todos eles. Pior: o "menino do MEP" somos todos nós, presos com Lula em uma cela do DOPS.

sexta-feira, novembro 27, 2009

DE VEXAME EM VEXAME


Olha, pode parecer que não, mas a verdade é que não torço contra a diplomacia brasileira. Nem mesmo contra a diplomacia do governo Lula, dos chanceleres Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia. Muito pelo contrário. Apesar de o nome deste blog poder sugerir o contrário, não sou da turma do quanto pior, melhor. Adoraria ver o Brasil ocupando o espaço que merece no concerto das nações, sendo respeitado e admirado pelo resto do mundo, ao menos pela parte do mundo que presta, o mundo civilizado. Torço mesmo para que tudo aquilo que a propaganda lulista pinta sobre o aumento da influência internacional do Brasil deixe de ser o que é, apenas marketing e confete, e se torne, um dia, realidade.

É exatamente por isso - porque, acreditem ou não, sou um patriota e quero ver o nome do Brasil elevado lá fora - que eu só posso me encher de vergonha diante da sucessão interminável de vexames que vêm sendo colecionados pelo Itamaraty nos últimos anos. Se depender dos que mandam atualmente em Brasília, a política externa brasileira será lembrada, durante anos, como motivo não de orgulho, mas de chacota.

Praticamente não passa uma semana sem que o Brasil não dê apoio a um ditador, ou procure justificar sua opção pelo lado mal da humanidade, apelando para um antiamericanismo primitivo e para um terceiro-mundismo da época da brilhantina. É constrangedor.

Seria extenuante e extremamente tedioso elencar todos os fracassos da política externa lulista neste espaço. Vou apenas citar dois fiascos monumentais que ocorreram na semana que passou.

O primeiro vexame aconteceu na segunda-feira, com a visita completamente desnecessária e indesejável, sob qualquer ponto de vista, do genocida e patrocinador do terrorismo Mahmoud Ahmadinejad do Irã. Esta, além de não trazer nenhum benefício concreto ao Brasil - se é para aumentar o comércio bilateral, isso pode perfeitamente ser alcançado sem a vinda do negador do Holocausto -, serviu apenas para deixar claro que o governo Lula não dá a mínima para a democracia e os direitos humanos. Além disso, a visita expôs o megalonanismo da atual política exterior brasileira, particularmente embaraçoso diante das ofertas brasileiras de servir de "mediador" no conflito do Oriente Médio - o que, como se já não fosse absurdo o bastante pelo fato de o Irã se recusar sequer a reconhecer Israel (logo, se opõe a qualquer processo de paz na região), levou a uma das maiores saias-justas dos últimos tempos: durante a visita de Ahmadinejad, Lula, para agradar ao visitante, defendeu publicamente o programa nuclear iraniano "para fins pacíficos" - na sexta-feira, o governo brasileiro desmentiu a si próprio, abstendo-se de condenar a recusa do Irã em cooperar com a Agência Internacional de Energia Atômica, em Viena (até a China e a Rússia votaram pela condenação ao regime de Teerã). Com isso, a diplomacia tupiniquim foi exposta ao ridículo - um vexame político e moral de proporções incomensuráveis.

O segundo vexame se arrasta há cinco meses, e irá atingir o ápice no próximo domingo, dia 29/11, em Honduras. O governo Lula, pela boca do chanceler oficial Celso Amorim, declarou que não vai reconhecer o resultado das eleições presidenciais marcadas para este fim-de-semana naquele pequenino país da América Central. Motivo: considera Manuel Zelaya, o presidente deposto em 28/06 por tentar violar uma cláusula pétrea da Constituição do país, e que se encontra "hospedado" na embaixada do Brasil em Tegucigalpa, subitamente convertida em seu palanque e escritório político, o legítimo governante de Honduras, e insiste na tese de que ele foi derrubado por um "golpe de estado". Tese essa que, se conseguiu impor-se durante algum tempo após a deposição de Zelaya, por força única e simplesmente do espírito de rebanho e de um consenso forjado no seio da "comunidade internacional", só se sustenta pela ignorância mais completa sobre o que diz a Constituição hondurenha - passada a onda unanimista inicial, atiçada pela OEA do socialista José Miguel Insulza e pela ONU do sandinista Miguel D'Escoto, a razão e a simples leitura da Carta Magna hondurenha deixam claro que nada que se disse sobre Honduras é verdadeiro. Mesmo o governo Obama, que no começo engrossou o coro dos que condenaram o "golpe" e exigiram o "retorno imediato" do golpista Zelaya ao poder, percebeu que ele, Zelaya, é um encrenqueiro apoiado por Hugo Chávez e um fator de desestabilização, e que o melhor caminho para superar a crise em Honduras é garantir a realização das eleições presidenciais. Inclusive organizações importantes, como a Human Rights Foundation, reconheceram que o "golpe" que afastou Zelaya foi desfechado, na verdade, para garantir o cumprimento da Lei e preservar o estado de direito democrático. Mas o Brasil persiste no erro e, tal qual criança embirrada, encasquetou que, se Zelaya não retomar o trono, não haverá democracia. Zelaya, sim; eleições, não: esta é a fórmula da diplomacia lulo-petista para "normalizar" a situação no país.

Já escrevi bastante neste blog sobre a crise em Honduras. Provei - repito: provei - que a tese de que houve golpe em 28/06 contra Zelaya é uma fraude, uma mentira. Também provei - e desafio qualquer um a mostrar que estou errado - que o abrigo a Zelaya na embaixada brasileira contraria todas as normas e convenções internacionais, e que, ao fazê-lo, o governo Lula interveio na situação política de um país soberano, o que é uma violação da própria Constituição brasileira de 1988. Agora o governo Lula vem somar a tudo isso a infâmia, ao não aceitar a legitimidade de uma eleição democrática - cuja realização foi garantida pelo governo "golpista" que manteve o calendário eleitoral - porque quem tentou rasgar a lei maior do país não voltará ao poder. É algo de um ridículo atroz: entre a realização de eleições e a volta de um golpista à presidência, o Brasil prefere esta última. Desse modo, caminha juntamente com Zelaya para a irrelevância - exatamente o oposto do tão falado "protagonismo" brasileiro na questão hondurenha.

O mais risível nisso tudo é que a política do Itamaraty lulista para Honduras, assim como para o Irã, terá a partir de agora mais uma "justificativa", o antiamericanismo velho de guerra, tão manjado quanto idiota, uma vez que agora Obama está no lado oposto nessas duas questões. É que Obama, embora continue a ser o queridinho de Muamar Kadafi, pode até ser esquerdista, mas não é burro: ele já percebeu que apoiar Zelaya é o mesmo que dar apoio a Hugo Chávez e a suas pretensões megalomaníacas na região, além de respaldar um sujeito que diz ouvir vozes e ser vítima de raios emitidos por mercenários israelenses... Embora esquerdista e apaziguador como é, ele não quer jogar o prestígio de seu país na lama por tão pouco. Não é o caso do Brasil. Em Honduras, assim como na visita de Ahmadinejad, o governo Lula, por motivos ideológicos, psicológicos ou o que seja, não se acanha em jogar na lata de lixo a credibilidade de sua política externa. Honduras é o túmulo da diplomacia brasileira.

Como afirmei no início deste texto, não torço contra os objetivos proclamados pela política exterior de Lula e companhia, mesmo conhecendo seu caráter nitidamente ideológico. Lamento apenas que, com seus atuais protagonistas, ela traga tanta vergonha a quem ainda a tem.