segunda-feira, julho 20, 2009

UMA INICIATIVA HISTÓRICA

Vem de Portugal uma das iniciativas mais transcendentes e importantes dos últimos tempos. O deputado Alberto João Jardim, do PSD (Partido Social-Democrático) da Ilha da Madeira, irá apresentar projeto de revisão constitucional no qual defende a inclusão, na Lei, do comunismo ao lado do fascismo no rol das ideologias autoritárias e contrárias ao Estado de direito democrático. Ele propõe a reforma dos artigos 46, n. 4, e 160, n. 1, alínea d, da Constituição Portuguesa, que citam nominalmente o fascismo como uma ideologia a ser proibida pelo Estado.
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A Constituição Portuguesa, promulgada em 1976 - dois anos apenas depois da "Revolução dos Cravos" que pôs fim à ditadura direitista de Antonio de Oliveira Salazar - é uma das poucas do mundo a se referir nominalmente ao fascismo. No Art. 46 ("liberdade de associação"), está dito textualmente:
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"4. Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista."
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O Art. 160 ("Perda e renúncia do mandato") reforça essa idéia, deixando claro que "1. Perdem o mandato os Deputados que: (...) d) Sejam judicialmente condenados por crime de responsabilidade no exercício da sua função em tal pena ou por participação em organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista."
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Na nota introdutória ao projeto de reforma constitucional de autoria de Alberto João Jardim (Ponto VII. Outras Alterações), destaca-se a referência ao "esclarecimento de que a Democracia não deve tolerar comportamentos e ideologias autoritárias e totalitárias, não apenas de Direita, como é o caso do Fascismo" - esta expressamente prevista no texto constitucional - "como vem a ser o caso do Comunismo" - não previsto no texto constitucional.
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O projeto do deputado madeirense merece entrar para a História como um dos mais importantes, em todos os tempos. Deveria ser imitado por todos os países que prezam pela democracia e pelos direitos humanos. Trata-se de uma verdadeira revolução, no sentido positivo da palavra: pela primeira vez - pelo menos até onde eu sei - um deputado de um país democrático propõe colocar o comunismo no mesmo patamar do fascismo num texto legal. Com isso, percebeu o óbvio, vindo a público tocar o dedo na ferida e recolocar as coisas no lugar. Merece, pois, todo o aplauso. Parabéns a Alberto João Jardim pela inteligente e corajosa iniciativa!
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Apesar de uma tendência minha a concordar com a frase de Paulo Francis, segundo a qual, para desmascarar um comunista, a única coisa necessária é deixá-lo falar, sou obrigado a dizer que o deputado português está certíssimo. O comunismo, assim como o fascismo, é uma ideologia totalitária, logo inimiga da liberdade e da democracia. Não tem por que estar ausente, portanto, de um texto constitucional nascido da luta pela democracia e que faz referência clara à ideologia concorrente fascista. Se há algo que a História dos últimos oitenta anos demonstra com clareza, é que não se pode ser tolerante com os intolerantes, com os que usam a democracia para sabotá-la e destruí-la. Se iniciativas semelhantes tivessem sido adotadas em países como a Venezuela e a Bolívia, palhaços como Hugo Chávez e Evo Morales não teriam usado os mecanismos da democracia para acabar com ela. Entendeu, José Saramago?
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Como é natural, já se ouvem vozes criticando o projeto. Não somente da parte dos óbvios prejudicados pela iniciativa - os comunistas e seus simpatizantes -, mas, principalmente, da legião infindável de idiotas úteis que vêem no projeto um "atentado à liberdade de associação e de expressão" etc. Besteira. Em primeiro lugar, porque os comunistas estão se lixando para a liberdade de expressão ou de associação, como basta olhar para Cuba para constatar. E, em segundo lugar, porque a proibição das organizações comunistas está perfeitamente em sintonia com a proibição - que ninguém contesta - das fascistas e racistas, presentes no texto constitucional. Do contrário, ou seja, se não se inclui o comunismo ao lado do fascismo, há uma clara discriminação - inconstitucional em todos os sentidos - a favor de uma corrente totalitária em detrimento da outra. Não faz sentido proibir o fascismo se não se condena, também, o comunismo. Ou se condena a ambos ou não se faz referência a nenhum. Simples assim.
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No Brasil, iniciativas semelhantes a de Alberto João Jardim jamais teriam sucesso. Por um motivo muito simples: os comunistas estão no poder. E não somente nos órgãos de Estado. Eles estão em todos os lugares: na imprensa, nas escolas, nos sindicatos, nas universidades, nas artes etc. São uma verdadeira elite, dona da hegemonia intelectual e cultural no País, no sentido gramsciano do termo. Criticá-los, ainda que seja por cuspir no chão, ainda é visto por estas plagas como o máximo da "intolerância" e até "autoritarismo".
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De fato, dizer-se anticomunista, aqui, é um tabu, corresponde a se excluir automaticamente do debate político. Ainda persiste entre nós a lenda de que comunismo e fascismo são antípodas, quando são, na verdade, irmãos siameses, unidos no mesmo ódio à liberdade. Duas décadas de regime militar e sete décadas de intensa propaganda ideológica criaram a ilusão de que o comunismo e os comunistas estão do lado da democracia, e que todos que se lhes opõem são "fascistas" e "reacionários". Aqui, um idiota político como Chico Buarque de Holanda, que age há décadas como embaixador informal da ditadura comunista cubana, é considerado um verdadeiro deus, e um stalinista senil como Oscar Niemeyer ainda é tido na alta conta de "gênio", em que pesem suas declarações absurdas e claramente mentirosas - como o artigo que escreveu enaltecendo uma biografia de Stálin como se esta reabilitasse o ditador soviético, quando na verdade o livro faz exatamente o contrário. O governo Lula e seus associados na imprensa e na academia não vêem problema algum em estar cercados de comunistas, e até se orgulham disso. Afinal, eles são de esquerda, e a esquerda é o lado bom e brilhante da humanidade, como sabemos...
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A iniciativa é tão mais importante por vir de Portugal, país que esteve submetido, durante quarenta anos, a um regime político, o salazarismo, de laivos claramente fascistizantes (embora não tanto quanto na Itália ou na Espanha). Algo que jamais ocorreu no Brasil, pelo menos não com a mesma intensidade - o Estado Novo varguista de 1937-1945 é o que mais se aproxima do que teria sido uma ditadura "fascista" em terras tupiniquins (quanto ao regime de 64, não teve nada de fascista, como já expliquei aqui antes: foi, na verdade, um regime autoritário, não totalitário). Isso significa que lá, ao contrário de cá, há uma noção mais clara do que seja o fascismo. Isso deveria, em tese, tornar o país mais tolerante em relação ao comunismo, certo? Nada disso. O fato de se mencionar abertamente o fascismo em sua Constituição não quer dizer que se deve dar respaldo ou ter simpatia com o totalitarismo comunista, é o que diz o projeto de revisão constitucional. Trata-se de um imperativo lógico e moral: sendo ambas ideologias antidemocráticas, devem ser ambas igualmente rechaçadas em uma Constituição democrática. O comunismo é tão condenável quanto o fascismo, assim como o obscurantismo religioso católico ou protestante devem ser condenados do mesmo modo que o fundamentalismo islamita, malgrado as suscetibilidades "politicamente corretas". E isso não é intolerância, muito pelo contrário. Assim como se pode falar em islamofascismo, pode-se falar perfeitamente em comunofascismo.
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Nós, brasileiros, gostamos de fazer piada com os portugueses, a quem, talvez por algum ressentimento de ex-colonizado, julgamos pouco inteligentes. Com projetos como o do deputado Alberto João Jardim, verifica-se que os pouco dotados de luzes não são nossos primos lusitanos, mas nós, os "malandros" e "espertos", que fechamos os olhos para questões como essa. É uma pena que no Brasil não tenhamos um Alberto João Jardim para mandar o "politicamento correto" às favas e chamar as coisas pelo devido nome. Por aqui, o Muro de Berlim ainda não caiu.

sexta-feira, julho 17, 2009

FÉ: UM DELÍRIO


Dizem que religião, assim como futebol e política, não se discute. Eu discordo totalmente, e já escrevi aqui por quê. Religião se discute, sim. A velha questão, tão antiga quanto a humanidade - Deus existe? -, é, mais do que nunca, discutível. Mais que isso: colocá-la em debate, hoje, não tem nada de inútil, é algo extremamente necessário. Uma questão até mesmo de saúde mental, digamos assim.
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Atualmente há um certo boom editorial de autores que se declaram abertamente ateus, e que questionam a religião e a crença em Deus, santos e demônios. Alguns desses livros, como Deus: Um Delírio, do biólogo evolucionista inglês Richard Dawkins, já viraram verdadeiros best-sellers. Trata-se de uma novidade, certamente bem-vinda, que esse tema esteja sendo objeto de debate - sobretudo em um país como o Brasil, onde mais de 95% da população diz acreditar em Deus e onde se dizer ateu ainda é sinônimo de ser visto de esguelha, como um criminoso ou um louco. Mas, nesse terreno movediço, é bom ir devagar com o santo porque, como dizem os crentes, o andor é de barro.
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Pode-se dividir os autores da atual safra de literatura ateísta em duas grandes categorias. De um lado, há os adeptos do ateísmo científico, como Dawkins, Sam Harris (The End of Faith, Carta a uma Nação Cristã) e Daniel C. Dennet (Quebrando o encanto: a religião como um fenômeno natural), que usam as ferramentas da ciência - no caso de Dawkins, a biologia evolutiva; no de Harris e Dennet, a neurociência - para desacreditar a fé, apresentando as religiões como o produto de temores irracionais ou de atavismos supersticiosos, quando não de certa programação neurolingüística. De outro, há os que professam o que se poderia chamar de ateísmo moral ou filosófico - Michel Onfray (Tratado de Ateologia) e Christopher Hitchens (Deus Não é Grande) são seus principais representantes -, que questionam a religião e seu principal dogma, a crença em Deus, a partir dos pressupostos éticos dessa crença. A idéia de que a ética religiosa é necessariamente superior a uma ética atéia é implacavelmente demolida por esses autores, que apresentam o fenômeno do fundamentalismo religioso (sobretudo das três grandes religiões monotéistas - judaísmo, cristianismo e islamismo) como prova irrefutável de que crer em Deus, ao contrário do que afirma o senso comum, não torna ninguém mais pacífico e bondoso. Pelo contrário: como demonstram o 11 de setembro de 2001 e Osama Bin Laden, não há qualquer contradição entre ser um fiel devoto e em promover um banho de sangue, movido a fanatismo e intolerância.
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O sucesso editorial de algumas dessas obras, principalmente a de Dawkins, tem suscitado, é claro, críticas severas. E, pelo caráter deliberadamente polêmico desses livros, não poderia ser diferente. As críticas partem não somente de quem seria óbvio esperar uma reação desfavorável, como padres, pastores, imans e rabinos, mas também de gente que não tem nada de carola, muito pelo contrário. Acabei de ler um artigo de um filósofo conhecido meu, o Pablo Capistrano (http://colunas.digi.com.br/pablo/dawkins-um-delirio/), aliás insuspeito de qualquer ultramontanismo, em que ele desce o pau em Dawkins, o qual acusa de não ver a beleza intrínseca às religiões, pois não enxerga que “doutrinas religiosas são construções literárias que servem como instrumentos de produção de experiências místicas e precisam ser lidas com ferramentas hermenêuticas específicas”. De fato, se formos analisar o livro de Dawkins, ou qualquer outro autor, com base nessas "ferramentas hermenêuticas específicas", estaremos fazendo não ciência ou filosofia, mas literatura ou teologia, e a obra de Dawkins não é, em nenhum aspecto, literária ou teológica. Trata-se, na verdade, de um livro de divulgação científica, que usa os instrumentos da ciência e da razão para se contrapor à crença religiosa. O que faz, diga-se de passagem, de forma razoavelmente competente.
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O mais curioso é que muitos dos argumentos utilizados agora contra Dawkins e outros autores partem de pessoas que costumam usar pesos diferentes para medir o mesmo fenômeno. Muita gente que contesta Dawkins com argumentos filosóficos e mesmo literários enche-se de indignação contra alguma declaração considerada ultra-ortodoxa do Papa Bento XVI sobre aborto e casamento gay, assim como não hesita em apontar "intolerância" em algumas charges do Profeta Maomé publicadas em um jornal dinamarquês. São as mesmas pessoas que não vêem problema algum em defender com unhas e dentes, em nome do "multiculturalismo" e do "respeito às diferenças", o "direito" de os muçulmanos apedrejarem mulheres adúlteras ou arrancar com gilette o clitóris de meninas em idade pré-púbere. Também não vêem contradição alguma em condenar o que lhes parece "intolerância" na Igreja Católica em relação a homossexuais e fechar os olhos para, ou mesmo justificar, intolerância bem maior contra os mesmos homossexuais nos países islâmicos. É que condenar a Igreja é algo "progressista", enquanto fazer o mesmo com os muçulmanos é "eurocentrismo"... Por que o que é condenável no cristianismo é aceitável no Islã?
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Vejam o caso acontecido alguns meses atrás em Pernambuco, da menina de 9 anos que teve que abortar por estar grávida do padrasto, que a estuprara. O caso incendiou a opinião pública, e levou à condenação praticamente unânime do arcebispo local, que excomungou a mãe da menina e os médicos que realizaram o aborto. Até o ministro da Saúde entrou na discussão, condenando de forma veemente o "obscurantismo" do clérigo. O que ninguém parece ter se dado conta é que a excomunhão, nesse caso, não foi um ato da vontade do arcebispo, mas uma medida automática da Igreja Católica, que considera o aborto, em qualquer circunstância, um pecado mortal. Mais importante, ninguém pareceu se preocupar com o fato de que a condenação da Igreja, em casos assim, não tem efeito algum sobre a integridade física ou a liberdade de quem quer que seja, sendo, antes, uma questão teológica da Igreja Católica e dos que nela acreditam. Em outras palavras: ninguém será queimado na fogueira por causa da decisão da Igreja. Já quanto às fatwas muçulmanas, como a que foi decretada pelo falecido aiatolá Khomeini contra o escritor Salman Rushdie, prometendo o Paraíso a quem o assassinasse em nome de Alá, não se pode negar que se trata de algo muito mais grave e literalmente letal, pois diz respeito não somente a crer ou não num artigo de fé, mas a intolerância e obscurantismo puro e simples. Mas ainda há quem se escandalize com a atitude de um arcebispo católico num país laico, e não veja problema algum na jihad.
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Sempre que se toca no assunto religião, nunca me contento com argumentos do tipo "isso é uma questão de foro íntimo" ou "acredito em Deus porque eu sinto que Ele existe" etc. Também acho fraquíssimas afirmações como "não existem ateus na hora da morte". Francamente, não vejo diferença entre esse tipo de afirmação e uma alucinação ou expressão de vontade - e contra uma expressão de vontade, a Razão é impotente. Mas, ao mesmo tempo, sei que muita gente se declara atéia por modismo, ou por desesperança, ou, ainda, no caso dos marxistas, por ideologia. Uns poucos o são por motivos puramente fiósóficos ou morais. Procuro situar-me nesse último grupo.
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Sou ateu. Isso significa que não sou dado a arroubos místicos, nem considero qualquer "experiência transcedental" um critério de verdade objetiva. Mas nem por isso deixo de reconhecer, em algumas religiões, ensinamentos morais importantes ("não matarás" e "não furtarás", por exemplo, parecem-me ensinamentos bastante razoáveis). Assim como nem por isso deixarei de defender até o fim o direito dos crentes professarem suas crenças, por mais que eu discorde delas e as considere irracionais e até perigosas para a saúde. Ao contrário dos marxistas, que se opõem à religião muito mais para se livrar de um rival incômodo a seus deuses profanos, e dos multiculturalistas, que restringem suas críticas geralmente ao cristianismo (na verdade, à moral judaico-cristã ocidental), coloco-me a favor da liberdade, inclusive, e sobretudo, da liberdade religiosa. Exatamente por isso, ou seja, exatamente por reconhecer e defender que cristãos, muçulmanos, judeus, budistas e macumbeiros professem suas crenças sem serem perturbados, espero não ser apedrejado ou linchado na rua por, se me perguntarem, responder que não creio em Deus. Crer, ou não crer, para mim, mais do que uma questão de fé, é um direito. Fora disso, só existem as trevas, o obscurantismo, a barbárie.

quinta-feira, julho 16, 2009

SLAVOJ ZIZEK, OU: O DEVER DE ENTERRAR A "HIPÓTESE COMUNISTA"


Alguns anos atrás, quando eu ainda nutria alguma simpatia pelo marxismo - era, então, simpatizante trotskista -, escrevi um artigo para um jornal local, intitulado "O mal que o Stalinismo fez". Era uma crítica meio pedante, embora sincera e apaixonada, ao totalitarismo soviético e suas variantes, que eu, reverberando minhas leituras de Trotsky e Victor Serge, considerava um desvirtuamento, uma traição ao "verdadeiro" comunismo, o comunismo de Marx, Engels e Lênin, supostamente seqüestrado e deformado por Stálin e sua gangue burocrática, e representado pelo "profeta banido" Leon Trotsky. Eu acreditava, à época, que tudo que se dizia na imprensa e nos livros didáticos sobre "fim do comunismo" e coisas que tais estava errado, era fruto da ignorância ou da "propaganda burguesa": bastaria retomar o curso do marxismo original, pensava, expulsando os traidores e construindo uma autêntica liderança revolucionária dos trabalhadores, tal como defendia Trotsky após sua expulsão da URSS, que a História faria o resto.

Passados mais de dez anos daquele artigo - felizmente, hoje, esquecido -, é com uma mistura de alívio e certa melancolia que constato: tola ilusão! Como eu estava enganado! A derrocada do comunismo (ou dos "Estados operários burocraticamente degenerados", como dizíamos), bem como o próprio totalitarismo soviético, não foram o produto de nenhuma falsificação dos belos e nobres ideais marxistas pela brutal e infame camarilha stalinista, mas, sim, o resultado lógico e quase inevitável desses mesmos ideais. Hoje, isso está claríssimo para mim, e ainda espero ser desmentido pelos trotskistas, os sebastianistas da esquerda.

Minha convicção de que o marxismo é uma ideologia essencialmente totalitária, logo incompatível com a democracia, sai reforçada diante da leitura de textos como o do filósofo esloveno Slavoj Zizek (revista PIAUÍ, n. 34, páginas 58-60). Com o título "A hipótese comunista: começar do começo", Zizek, uma espécie de celebridade pop em certos círculos esquerdistas europeus, seguidor de Marx e Lacan e editor de coletâneas de textos de Lênin e de Mao Tsé-tung, propõe uma retomada da "hipótese" ou "Idéia" comunista. A cada frase, ele parece repetir o refrão daquela música de Raul Seixas: "tente outra vez". Parece parafrasear, quando se refere a "começar do começo", uma propaganda governamental até há pouco veiculada na TV: "sou comunista e não desisto nunca".
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Vejamos o que diz Zizek, para quem os acontecimentos de 1989 no Leste Europeu foram um "désastre obscur": citando Kierkegaard, ele diz que "um processo revolucionário não é um progresso gradual, mas um movimento de repetir o começo e voltar a repeti-lo muitas vezes". O que ele quer dizer com isso? O seguinte: que, após o fim da pátria-mãe soviética e a queda do Muro de Berlim, os comunistas encontram-se diante da possibilidade - melhor, do dever - de voltar ao ponto onde pararam e "começar do começo". Mais que isso: citando Lênin, ele afirma que é necessário "reafirmar a hipótese comunista" constantemente, sem dar bola para o coro das vozes derrotistas que vêm de baixo e torcem, maldosamente, para que o excursionista caia da montanha. "Tente de novo. Fracasse de novo. Fracasse melhor", ele diz textualmente. Nisso, Zizek proclama sua total concordância com seu colega marxista Alain Badiou, que, na mesma PIAUÍ* (n. 23), afirmou o seguinte: "Se precisarmos abandonar essa hipótese, então não valerá mais a pena fazer nada no campo da ação coletiva. Sem o horizonte do comunismo, sem essa Idéia, nada no devir histórico e político tem qualquer interesse para um filósofo". Logo, prossegue Badiou, "o que cabe a nós filósofos como tarefa, e até mesmo obrigação, é ajudar no surgimento de uma nova modalidade de existência da hipótese comunista".

Pausa para reflexão. O que está aí em cima é bastante revelador. Nas palavras sábias de M. Badiou (e também, portanto, de Zizek), "sem o horizonte comunista, sem essa Idéia" - com I maiúsculo - "nada no devir histórico e político tem qualquer interesse para um filósofo". O que isso significa, exatamente? Significa que, sem a gloriosa e redentora Idéia comunista, sem esse fetiche, nada, absolutamente nada, se pode fazer, nem pensar. A própria Filosofia (com F maiúsculo) torna-se, portanto, impossível. Ou, dito de outro modo: sem o marxismo, sem a perspectiva comunista e revolucionária, não há Filosofia. Toda a enorme tradição filosófica de milênios, portanto - desde Platão e Aristóteles até Heidegger e Wittgeinstein, de Confúcio a Karl Popper, passando por S. Agostinho e S. Tomás de Aquino -, perderia todo o sentido, seria nada mais do que um exercício fútil e descartável de onanismo mental. A Filosofia, se não estiver a serviço da "hipótese comunista", não é Filosofia, é isso que nos dizem Badiou e Zizek. Daí não ser surpreendente a afirmação que vem logo em seguida: a tarefa dos filósofos - na verdade, sua obrigação, como diz Badiou - se resume a tentar ressuscitar o cadáver, "ajudar no surgimento de uma nova modalidade de existência da hipótese comunista". Tudo o mais - as complexas questões da metafísica e do ser, o debate interminável sobre a realidade das coisas e o infinito etc. - perde completamente qualquer relevância diante desse objetivo sublime (pelo visto, Raymond Aron não estava sendo metafórico quando definiu o marxismo, em um lance de genialidade, como o ópio dos intelectuais...).

Não é preciso ser filósofo para perceber que, por trás desse palavreado empolado, o que existe é uma tremenda picaretagem, a mais pura vigarice intelectual - uma tentativa canhestra de negar o óbvio, a fim de manter acesa a chama da "Idéia" que a História tratou de jogar na lata de lixo junto com outras ideologias totalitárias, como o fascismo e o nazismo. Isso fica claro quando Zizek apresenta a definição do que seria a tal "hipótese comunista", que deve ser preservada apesar de tudo.

Segundo Zizek, o capitalismo global está assentado em quatro antagonismos, a saber: 1) "a ameaça premente de catástrofe ecológica"; 2) "a inadequação da propriedade privada para a chamada propriedade intelectual"; 3) "as implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos tecnocientíficos, especialmente no campo da engenharia genética"; e - o mais importante para Zizek - 4) "as novas formas de segregação social - os novos muros e favelas". Os três primeiros são o que Zizek chama de "commons", usando uma terminologia emprestada dos teóricos marxistas Michael Hardt e Antonio Negri: são os bens comuns a toda a humanidade, que constituem "a substância compartilhada do nosso ser social, cuja privatização é um ato violento ao qual se deve resistir, se necessário, pela força". "Contudo", prossegue Zizek, "é apenas o quarto antagonismo, o dos excluídos, que justifica o termo comunismo".

Olhemos um pouco mais de perto esses quatro "antagonismos do capitalismo global", no dizer de Zizek. O primeiro, a "ameaça premente de catástrofe ecológica", pode ser traduzido assim: o capitalismo é mau, frio e perverso, movido unicamente pela ganância e pelo lucro, o que resulta, inexoravelmente, em destruição do meio ambiente e em poluição. Uma caracterização muito atraente, sem dúvida, que cairia bem em uma cartilha ginasiana ou em uma escolinha do MST. A dedução lógica é que o sistema antagônico ao capitalismo - o socialismo, o comunismo, enfim a "hipótese comunista" -, por colocar o "coletivo" acima do vil egoísmo e da ambição individual, é automaticamente superior e deve-se, portanto, lutar por ele. Objetivo certamente sedutor, sobretudo para adolescentes revoltados de classe média em busca de uma "causa", mas que, infelizmente, não responde às seguintes questões inconvenientes: 1) onde está cientificamente comprovado, senão na mente paranóica dos ecoxiitas, que o capitalismo é necessariamente incompatível com a preservação do meio ambiente e conduzirá, inexoravelmente, a uma catástrofe ecológica? (o desenvolvimento sustentável e o eco-turismo, por exemplo, seriam, nesse sentido, atividades sem fins lucrativos - o próprio Zizek, aliás, parece reconhecer a fragilidade desse "antagonismo"); e 2) se a "hipótese comunista" é mesmo superior ao capitalismo no quesito preservação ambiental, então se deveria concluir que tragédias como a de Chernobyl e o secamento do Mar de Aral, sem falar nas fábricas mais poluentes do mundo, ocorreram em outro lugar, e não na finada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Quanto a isso, Zizek silencia.

Sobre o segundo "antagonismo" (a "inadequação da propriedade privada para a propriedade intelectual"), suponhamos, por um momento, que a propriedade privada seja mesmo inadequada à propriedade intelectual. Nesse caso, teríamos que admitir que os artistas e intelectuais, sem falar nos cientistas, que lucram com as patentes e royalties de seus livros, filmes e invenções, viveriam em outro planeta. Já os escritores, músicos e cineastas vinculados à UNEAC - União dos Escritores e Artistas de Cuba -, obrigados a entregar seus direitos autorais ao Estado, e que vivem em um país onde vigora, segundo Zizek, a "idéia comunista", seriam os mais ricos do mundo.

Quanto ao terceiro ponto ("as implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos tecnocientíficos" etc.), parece-me que Zizek confunde o avanço da ciência com o próprio capitalismo (no que, aliás, pode estar certo: afinal, foi o capitalismo, e não qualquer outro sistema socieconômico, o responsável pelas maiores descobertas científicas e pelo maior salto de qualidade na vida da humanidade, em toda a História). Além do mais, comete um erro crasso, ao inferir que, por estarem supostamente submetidos à lógica implacável do mercado, tais avanços estariam além de qualquer controle: qualquer ameaça potencial à segurança genética da humanidade - a clonagem de embriões humanos ou os vegetais transgênicos, por exemplo - encontra-se, há anos, sob intenso escrutínio governamental e da opinião pública na maioria dos países, e o simples debate acalorado entre defensores e inimigos da engenharia genética demonstra-o cabalmente. O mesmo não pode ser dito, porém, dos antigos países socialistas, nos quais a vigência da "Idéia" levou a aberrações como o lyssenkismo, com todos os funestos resultados conhecidos na produção de alimentos. É inegável que, em sociedades totalitárias, a ciência, como tudo o mais, está subordinada ao Estado, constituindo, assim, uma ameaça muito mais temível. O problema, portanto, não é a ciência em si, mas sua utilização por regimes totalitários. Quem leu Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, sabe do que estou falando.

Mas é no quarto "antagonismo" apontado por Zizek ("as novas formas de segregação social") que a "idéia comunista" se mostra, para ele, mais forte e necessária. Para Zizek, o pecado maior do capitalismo, aquilo que ele, Zizek, não pode perdoar, não é a devastação dos rios e florestas, a incompatibilidade com a noção de propriedade intelectual ou as ameaças inerentes à manipulação dos genes, mas o antagonismo incluídos (a "classe dominante" de outrora), de um lado, e excluídos (a "classe dominada"), de outro. É, enfim, a velha luta de classes, hoje ampliada para além da dicotomia clássica "burguesia versus proletariado" para abarcar a questão dos muros e favelas etc. A "hipótese comunista", nesse sentido, seria a busca por reduzir a distância - social e geográfica - entre esses dois setores, ao mesmo tempo em que rejeita a "noção liberal predominante" de democracia como inclusão dos excluídos "como vozes minoritárias" em favor da "universalidade corporificada dos excluídos". Esta seria, segundo Zizek, a concretização da "hipótese comunista" em seu mais alto grau: "Desde a Grécia Antiga, temos um nome para a intrusão dos excluídos no espaço sociopolítico: democracia". E arremata: "Em contraste com a imagem clássica dos proletários que não têm 'nada a perder além de seus grilhões', o que nos une é o perigo de perdermos tudo".

Mais uma vez: algo muito lírico, muito bonito, poético até. Pena que essa descrição da "hipótese comunista" como o éden dos excluídos-tornados-incluídos seja tão verdadeira quanto o conto de fadas marxista que quer preservar a qualquer custo. Em primeiro lugar, a definição dessa "idéia" como "a intrusão dos excluídos no espaço sociopolítico" - que corresponde, de fato, ao conceito clássico de democracia, desde Atenas - tem tudo a ver com o capitalismo da atualidade, e nada a ver com o que quer que seja identificado com o comunismo, seja como realidade estatal, seja como "hipótese" ou "idéia". Pois é somente no capitalismo que floresceram, até agora, sociedades plenamente democráticas - se Zizek tem alguma dúvida quanto a isso, sugiro olhar para os países da Europa onde vive, por exemplo. É verdade que o capitalismo pode conviver com regimes autoritários (o Chile de Pinochet e a China atual são dois exemplos), mas é um fato inegável que, até o momento em que escrevo estas linhas, não surgiu ainda nenhum exemplo de país não-capitalista que fosse, também, uma democracia. Isso sem mencionar a brutal separação incluídos/excluídos nas "democracias populares" do Leste Europeu entre 1945 e 1989, onde uma elite privilegiada de burocratas do Partido excluía a maioria da população das delícias da "ditadura do proletariado" (foi o que ocorreu em TODOS os países socialistas). Inclusive com o mais famoso Muro da História - o Muro de Berlim -, uma prova cabal de separação política e social não só interna, mas de um regime em relação ao resto da humanidade. Zizek jamais irá reconhecer, mas a inclusão dos excluídos nos espaços de decisão coletiva é, na verdade, uma característica do... capitalismo.

A obstinação dos marxistas de hoje, como Slavoj Zizek, no que chamam de "hipótese comunista" só se explica por uma necessidade platônica e psicológica de separar o "ideal" do "real', da mesma forma como ainda hoje muitos filósofos e cientistas sociais persistem na distinção entre "socialismo ideal" (a "hipótese comunista" de Zizek e Badiou) e "socialismo real" (a dura e feia realidade dos países comunistas). Assim, pretendem manter as consciências limpas, preservando o ideal da juventude ao mesmo tempo em que o inocentam de qualquer responsabilidade pelos crimes dos comunistas. Estes seriam culpa da maldita realidade, que insiste no péssimo hábito de não se curvar ante nossos mais puros desejos...
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É uma tática eficiente, não se pode negar. Muitos que jamais leram uma linha de Marx na vida, e que sabem tanto sobre o comunismo e a Revolução Russa quanto de física quântica, repetem automaticamente essa tese. Mas isso demonstra apenas o triunfo não da verdade, mas da propaganda e do wishful thinking. É fora de dúvida que, por mais que queiram o contrário os órfãos da utopia marxista, o fato é que a realidade comunista é inseparável da "Idéia". O Gulag e os processos de Moscou, os milhões de mortos em sangrentos expurgos ou em fomes generalizadas e induzidas pelo Estado na Ucrânia e na China, os campos da morte no Camboja, o paredón em Cuba... nada disso surgiu do nada, do vazio; tampouco foi o resultado de um desvio de rota, de um desvirtuamento do plano revolucionário original, supostamente puro e imaculado, devido, talvez, ao caráter intrinsecamente mau e pervertido da natureza humana, ainda não tocada pela vara de condão redentora do marxismo. Pensar assim é pura auto-ilusão, mera racionalização da derrota. O "socialismo real" nada mais foi do que a aplicação, na prática, do "socialismo ideal"; a tradução, no plano da realidade, dos pressupostos e dogmas marxistas e comunistas. Os que hoje negam esse fato e se refugiam no engano neomarxista ou neocomunista - como se repetir o mesmo erro resultasse, um dia, em acerto -, deveriam ter a honestidade e a coragem intelectual de admitir que toda a obra marxista, e inclusive o comunismo pré-marxista, contém em germe a semente do totalitarismo, assim como as teorias eugenistas e racistas do século XIX forneceram a base pseudo-científica à "Solução Final" e a Auschwitz - tese que nenhum estudioso sério do nazismo ousa contestar.
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Os verdadeiros pais intelectuais do extermínio de 100 milhões de seres humanos não foram Stálin ou Mao, nem Lênin e Trotsky, mas Marx e Engels. Aqueles foram apenas seus operadores, tendo acrescentado muito pouco ao que os mestres disseram. Querer dar uma nova chance a essa "Idéia" responsável por tanta morte e sofrimento é, para usar uma imagem do próprio Marx, tentar fazer a História repetir-se, seja como tragédia, seja como farsa (ou, o que é mais provável, como as duas coisas ao mesmo tempo). Transformar a distopia em utopia é a melhor maneira de iludir os incautos. Contra essa monumental impostura, contra essa tentativa de coletivização do pensamento, é necessário resistir, aqui sim, se necessário, pela força. Comunismo nunca mais. Nem como hipótese.
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* = A PIAUÍ é aquela revista moderninha que posa de "independente" e que vez ou outra publica artigos de Tariq Ali ou de Alain Badiou, mas que nunca publicou nada, pelo menos não que eu saiba, de Jean-François Revel, Bernard Lewis ou Victor Davis Hanson. É, novamente, a "imparcialidade" a favor de um lado só.

quarta-feira, julho 15, 2009

terça-feira, julho 14, 2009

Ainda sobre a falácia relativista (ou: por que é impossível ser neutro diante do crime)

Pode-se ficar neutro diante disto?
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"Atrevo-me a dizer que as ditaduras de esquerda são piores, pois contra as de direita pode-se lutar de peito aberto; quem o fizer contra as de esquerda será tachado de reacionário, vendido, traidor". (Jorge Amado)
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"Não se pode ser neutro diante da morte: não fazer nada já é tomar uma posição". (Do filme No Man's Land - Terra de Ninguém)


No meu último post, analisei aquilo que está classificado nos manuais de filosofia como falácia relativista - o cacoete mental que insiste na afirmação de que a verdade, pelo menos em política, é inalcançável e que qualquer afirmação nesse terreno não passa, portanto, de um ponto de vista. Vou me estender um pouco mais sobre o assunto, se me permitem.
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Como mencionei em meu texto anterior, o discurso "neutro" e politicamente correto, que se pretende acima das ideologias e se recusa a emitir uma opinião clara e sem ambigüidades sobre ditaduras e terroristas é, na verdade, uma contradição em si, pois não está livre, ele também, de uma visão ideológica. Isso fica claro quando se observa que esse discurso, construído sob o signo da "imparcialidade", revela-se, na prática, bastante seletivo (logo, o contrário de imparcial) - para ditadores e terroristas de direita, condenação total e implacável; para os de esquerda, compreensão e neutralidade antisséptica. Daí a pergunta, que provavelmente continuará sem resposta por muito tempo: por que, pelo menos nos círculos mais intelectualizados, quando se trata de Hitler e Pinochet, o repúdio é unânime, mas, quando se trata de Stálin e Fidel, pede-se moderação e "equilíbrio"?
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O discurso "neutro" teria alguma legitimidade caso se abstivesse de condenar a todos, indistintamente. Como geralmente não o faz, reservando sua neutralidade e imparcialidade aos regimes e movimentos de esquerda, a conclusão lógica e inevitável é que não passa da mais grossa vigarice, de mera trapaça intelectual. E note-se bem: mesmo que o fizesse, enxergando com as mesmas lentes o nazismo e o comunismo - não para condená-los, mas para se recusar a emitir qualquer juízo moral sobre eles -, ao se recusar a tomar posição em relação a tiranos e assassinos, continuaria a ser um discurso desonesto. Corresponderia à anedota do Barão de Munchausen, o famoso mentiroso, em que este, para sair do pântano em que atolara juntamente com seu cavalo, descobre uma maneira ideal de fazê-lo: puxando-se, a ele e ao cavalo, pelos cabelos...
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Nos últimes meses, três episódios ilustram perfeitamente a falácia do relativismo moral. Vou elencá-los, um a um:

- O conflito Israel-Hamas, na Faixa de Gaza - Todos acompanharam pelos jornais e pela TV: a imprensa "isenta" e "imparcial" bombardeou o público com relatos do "massacre" e do "genocídio" que estaria sendo praticado pelos soldados israelenses. De fato, muita gente ficou com a impressão de que Israel estava promovendo um massacre indiscriminado contra a indefesa população palestina, e que a ofensiva israelense em Gaza não tinha outro objetivo senão provocar dor e morte entre os civis. No auge dos combates, Israel foi quase unanimente condenado - novamente, em nome da "isenção" e da "imparcialidade" jornalísticas - pela suposta "desproporcionalidade" de sua reação militar aos foguetes do Hamas. O que quase ninguém se lembrou de dizer é que, se há um lado genocida na história, não é Israel, mas os terroristas do Hamas, que juraram varrer Israel do mapa e aniquilar sua população, ou convertê-la à força ao Islã. Também se esqueceram - mais uma vez, os analistas "neutros" e "equilibrados" - que a "desproporcionalidade" tão condenada entre os dois lados é, felizmente, de meios, não de fins - ao que se sabe, Israel, ao contrário do Hamas e do Hezbollah, não deseja a destruição da Palestina e a conversão à força de sua população ao judaísmo. Para ser "proporcional", no sentido em que falava a grande imprensa, os soldados israelenses deveriam não se contentar em caçar e eliminar os terroristas do Hamas, mas exterminar toda a população palestina. Em outras palavras, inverteu-se a realidade, apresentando-se o agredido (Israel, não o Hamas) como o lado agressor, como se não houvesse mesmo Hamas e terrorismo islamita. Nesse caso, o discurso da "neutralidade" tinha um endereço certo: a condenação do direito de Israel de se defender e a condescendência com o terrorismo islamita, que quer destruí-lo. Algo muito equilibrado, como se vê...

- A fraude nas eleições do Irã - Aconteceu no mês passado, e ainda está fresca na memória. O atual presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ganhou de forma extremamente suspeita as eleições presidenciais. Seguiram-se protestos e manifestações de rua, brutalmente reprimidas pela polícia religiosa do regime, com dezenas de mortos do lado dos opositores. Novamente, os "neutros" apareceram em cena para demonstrar toda sua noção de justiça salomônica: no caso em questão, foi o presidente Lula da Silva, que, numa declaração inesquecível, entrou para o rol dos grandes frasistas da História. Eis o que disse nosso rei-filósofo: os protestos no Irã, assim como a repressão aos manifestantes que pediam democracia, eram uma briga de torcidas, uma simples questão de "vascaínos e flamenguistas" (!). Muito mais do que uma declaração infeliz, que banalizou a luta contra a teocracia islamita iraniana ao nível de um jogo de futebol, reduzindo a luta por liberdade num país dominado por fanáticos religiosos a um chororô de perdedores, a frase de Lula denota um padrão da política externa lulista, de adulação a tiranos e genocidas. Mais que uma gafe, foi uma confissão de cumplicidade com um regime que assassina pessoas. Muito mais grave pelo fato de o Apedeuta em pessoa ter reafirmado o que disse dias depois, desmentindo assim seu próprio ministro das Relações Exteriores que, diante da enormidade da frase, tentou justificar o injustificável, dizendo que ele não disse o que disse. Não colou.

- O "golpe" que não houve em Honduras - A mais recente prova do comprometimento ideológico do discurso relativista e nenhumladista foi dada pela crise institucional que se abateu sobre o pequeno país centro-americano. Um presidente, Manuel Zelaya, com o apoio explícito de Hugo Chávez e Evo Morales, e o silêncio complacente do resto do mundo, tentou violar afrontosamente a Constituição do país, tendo sido por isso deposto por decisão do Legislativo e do Judiciário, que declararam seu governo ilegal e inconstitucional. Novamente, o que fizeram os defensores da visão "neutra" e "imparcial"? Condenaram, no mesmo instante, o "golpe militar" e exigiram o retorno do golpista. Defenderam, inclusive, o boicote internacional ao país, e chegaram mesmo a flertar com a idéia de intervenção - algo que foi realizado explicitamente pelo governo de Hugo Chávez e do nicaragüense Daniel Ortega. Enquanto isso, a mesma OEA que condena os "golpistas" que depuseram Zelaya para salvaguardar a Constituição decide suspender a exclusão da ditadura comunista de Cuba da organização. Tudo em nome da "neutralidade", claro.

Os exemplos listados acima demonstram de forma bastante didática a falácia do discurso relativista aplicado à política. Há muitos outros exemplos, infinitos, que revelam que essa retórica não passa de uma capa para encobrir interesses inconfessáveis. Mas creio que esses três são eloqüentes o suficiente para revelar a fraude por trás do argumento. É impossível ser neutro diante do crime e da mentira. E isso não é uma opinião: é um fato.

segunda-feira, julho 13, 2009

A FALÁCIA RELATIVISTA

Acredito que, entre os obstinados que me lêem, alguns concordam totalmente com o que escrevo, outros discordam absolutamente, e outros assumem uma posição intermediária, concordando aqui e ali, discordando nesse ou naquele ponto, assustando-se, talvez, com uma expressão mais dura ou desbocada. Esses últimos, mais do que os outros dois, são, digamos assim, meu público-alvo. São aqueles que poderíamos dizer que encarnam a forma de pensar da maioria, o mainstream, os que não querem nem tentam se comprometer com causa nenhuma; pelo contrário, esforçam-se ao máximo para não sair de sua posição de equilíbrio, cultuando em todos os assuntos uma posição o mais possível "neutra", "imparcial", "justa", "equilibrada". Enfim, são os que estão em cima do muro; não são nem contra nem a favor, muito pelo contrário.
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São pessoas assim, que vêem beleza em colocar-se no ângulo de visão do "outro", entendido sempre como quem pensa e age de forma diferente, e que consideram o máximo da sabedoria e da inteligência o cultuar a dúvida e a moderação em relação aos próprios pontos de vista, que me escrevem de vez em quando, ou me mandam textos, queixando-se de minha linguagem "extremada" e "enfática" e cantando as virtudes da moderação e do politicamente correto. Para eles, não faz sentido condenar o regime X ou Y, pois, no fundo, dizem, todos têm alguma parcela de verdade e, no final, os radicalismos se equivalem, pois "são todos iguais" etc. Assim, a verdade seria um simples ponto de vista, ou nada mais do que a soma de "verdades" individuais.
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Com a devida vênia aos que acham que eu sou um doutrinador arrogante e acreditam que a verdade é sempre o juste milieu, permitam-me ser, mais uma vez, enfático: Não! A verdade NÃO é um ponto de vista. Existe o Bem e o Mal, assim como existe verdade e mentira, certo e errado, fato e opinião - e existe quem não veja diferença entre uma coisa e outra, ou não enxergue problema algum em transigir com o mal. Ponto e parágrafo.
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Não sou "neutro", "imparcial" ou "equilibrado" coisa nenhuma. Nem pretendo sê-lo. Nem preciso, aliás, repetir aqui que não sou mesmo: basta passar os olhos em qualquer texto meu neste blog para constatar isso. Neutro, para mim, é juiz de futebol ou xampu de pobre. Procuro ter, em tudo que escrevo, uma posição bem clara - a favor da Liberdade e da Democracia. Isso significa, necessariamente, opor-me (de forma enfática, sim) a quem é inimigo ou tenta solapar esses princípios em nome do que quer que seja ("igualdade", "justiça social" etc.). Isso inclui aqueles que, de boa ou má fé, por ingenuidade ou safadeza, confundem neutralidade com justiça. O maior exemplo de governante neutro e justo, no sentido em que essas pessoas tomam as palavras neutralidade e justiça, foi o Rei Salomão, que, diante de duas mulheres que reivindicavam a maternidade de uma criança, não teve dúvidas: mandou cortar a criança ao meio, para que cada uma fosse mãe de metade. Não penso dessa maneira. Também não me venham dizer que Democracia e Direitos Humanos são conceitos relativos, meros preconceitos ocidentais, válidos para uma parte da humanidade e não para outra, como se garantir a igualdade entre homens e mulheres fosse uma imposição colonialista e torturar e decapitar alguém, uma legítima expressão da "cultura local". Eu me recuso a enxergar o mundo a partir da janela do "outro" se o "outro" em questão for quem quer mandar a Democracia para o espaço, ou cortar a cabeça dos infiéis. Há poucas coisas inegociáveis na vida, mas certamente, entre as que são, estão a Democracia e a Liberdade.
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Sei que, na área em que eu atuo, das relações internacionais, falar com franqueza e sinceridade nem sempre é algo visto com bons olhos, e raramente é considerado boa política. Sei também que, muitas vezes, a diplomacia é confundida com bons modos, e que, em certas circunstâncias, é preciso ser condescedente com quem pensa diferente, inclusive com ditaduras. Mas isso não significa que eu deva aplaudir quem está se lixando para a Democracia e os Direitos Humanos, como fazem Lula e Obama, que, em nome da multipolaridade, da diversidade ou do sei lá o quê, fecham os olhos para os piores crimes contra a humanidade, imitando Henry Kissinger. Quando se trata de coisas como Liberdade e Democracia, ser enfático é mais do que um jeito de ser ou falar: é uma obrigação moral. Deixar de se indignar, ou dar de ombros diante de uma tentativa flagrante de solapamento da Democracia como a que recentemente ocorreu em Honduras por parte de um golpista bolivariano, por exemplo, é não somente demonstração de alienação e irresponsabilidade: é cumplicidade mesmo com a farsa e a mentira. Do mesmo modo, deixar de se enfurecer, com todas as forças, diante do que deve causar ira e indignação, como as tentativas de justificar o totalitarismo e o terrorismo onde quer que seja, é, como dizia Aristóteles dois mil e trezentos anos atrás, uma atitude própria de tolos e idiotas. Inversamente, firmar posição em favor dos princípios democráticos não é ser tacanho ou intolerante: é, em certas circunstâncias, a única política responsável e realista (sim, realista: vejam o exemplo de Munique em 1938, um caso clássico do mal que o apaziguamento de ditadores pode causar). Por favor, não me peçam para ter uma linguagem suave ou para ser condescendente com quem quer destruir a Democracia. Não vejo o mundo pela janela de ditadores e assassinos. Nisso, como em culinária, sigo o velho preceito: gosto de quente ou frio; morno, eu vomito.
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O mais curioso é que o discurso relativista e politicamente correto, que se pretende neutro ante regimes e ideologias, é, ele mesmo, uma construção ideológica. É, por isso, facilmente desmascarado. Atentem: qual "moderado" de hoje se atreve a manter um discurso que não seja o da condenação enfática e incondicional ao nazismo ou às ditaduras militares do Brasil e do Chile das décadas de 60 e 70? (e não deve ter outra posição mesmo: o nazismo e a ditadura não merecem senão a condenação e o répúdio de qualquer pessoa decente). Com efeito, quem ousar assumir uma posição "neutra" em relação a esses regimes será tachado imediatamente, e sem contemplação, de cúmplice de seus crimes. Se bobear, será mesmo chamado na rua de torturador e nazista. Agora, pergunte a si mesmo quantos desses seres angelicais, verdadeiros poços de justiça, têm a mesma postura de condenação enfática em relação a regimes tão ou mais ditatoriais, como o de Cuba, do Sudão ou da Coréia do Norte... Pelo visto, ter uma posição clara e definida só é algo condenável quando se trata de criticar regimes de esquerda. É somente a esses, os esquerdistas, que é concedido o benefício da dúvida. Pergunto (na verdade, repito a pergunta, pois já a fiz aqui antes, permanecendo até hoje sem resposta): por que condenar enfática e veementemente o nazismo e Pinochet é uma obrigação moral (o que, de fato, é), mas fazer o mesmo em relação ao comunismo e a Fidel Castro é uma mostra de desequilíbrio e reacionarismo? Não é preciso ser um gênio para perceber que o discurso relativista, quando aplicado a ditaduras, é uma falácia. Na maioria dos casos, ouso dizer, esconde apenas o medo patológico de ter uma opinião (ou de escondê-la sob o manto da "imparcialidade"). O que se toma por sabedoria não passa, nesse caso, de covardia moral.
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Afirmar que "todos estão certos e todos estão errados em algum aspecto" não diz nada. Ou melhor, diz, sim: diz que, como o regime hitlerista teve alguns méritos (acabou com o desemprego, por exemplo), assim como o comunismo (lutou contra a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial), deveríamos todos enfiar nossas idiossincrasias democráticas no saco e nos abstermos de falar mal deles. Deveríamos, segundo essa visão imparcialista, deixar figuras como Kadafi, Ahmadinejad, Fidel Castro, Chávez, Omar Al-Bashir e Kim Jong-Il em paz e cuidar de nossas próprias vidas. Afinal, à maneira deles, esses personagens e os regimes que eles encarnam possuem, de certo modo, uma "parcela da verdade" etc. e tal. Não é difícil perceber quem mais se beneficia com esse tipo de discurso. Nem sempre a verdade está no caminho do meio; pelo contrário, com cada vez mais freqüência, é preciso chamar as coisas pelo nome. Um copo pode estar meio cheio ou meio vazio, dependendo da sede de quem vê. Mas não deixa, por isso, de ser um copo, não uma mesa ou uma cadeira.
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É normal que, em um país como o Brasil, em que são cultuadas acima de tudo a ambigüidade e a superficialidade, e onde o como as coisas são ditas tem mais importância do que o quê é dito, o discurso fácil relativista tenha grande audiência, conquistando adeptos principalmente entre os setores letrados, mais "sofisticados" intelectualmente. Sobretudo grande parte da imprensa brasileira parece ter sucumbido, há anos, ao discurso "nem-nem" (de "nem isso, nem aquilo"), isentista e nenhumladista, contentando-se com o papel de eunucos morais. É hoje praticamente uma condição para ser aceito no seletíssimo clube da beutiful people, da gente linda e maravilhosa, colocar-se no lugar e enxergar o mundo com o olhar do "outro". Principalmente se o "outro" em questão for um fanático terrorista islamita ou um ditador stalinista e genocida.
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Tão arraigada está entre nós essa filosofia de socialites, baseada na antropologia mais vagabunda e em manuais de auto-ajuda, que a diferença entre realidade e ficção já deixou, há muito, de existir nos círculos "intelectualizados". A tal ponto que afirmar fatos elementares e dizer o óbvio, por exemplo, é visto como um pecado nefando, a expressão da mais terrível das heresias, ou como demonstração de "intolerância" e de falta de educação. Experimente dizer, por exemplo, que Lula é uma farsa, um demagogo corrupto e bravateiro; que a ditadura castrista em Cuba é uma ditadura; ou que o comunismo é uma ideologia genocida que deixou um saldo de 100 milhões de mortos: você será imediatamente segregado do convívio das pessoas "respeitáveis", que considerarão tais declarações o cúmulo do absurdo - não fatos, mas simples opiniões (e opiniões de que discordam radicalmente, mas não têm coragem de dizê-lo abertamente, muito menos de debater a sério essas questões).
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Para essa gente chique e iluminada, leitores de Foucault e Derrida, não são os fatos, mas somente a visão do "outro", o que importa. Já quanto ao verdadeiro "outro", as vítimas dos atentados terroristas e os presos de consciência, por exemplo, estas não podem fazer outra coisa senão se resignarem, pois a causa dos Direitos Humanos e da Democracia, como dizem os sábios relativistas, não é tão verdadeira nem tão justa quanto a do "respeito às diferenças". Provavelmente, servirá de consolo pensarem, antes de serem executados ou feitos em pedacinhos por um homem-bomba, que estão morrendo por uma causa justa. É o triunfo da barbárie pós-moderna.

sexta-feira, julho 10, 2009

A DOUTRINA OBAMA EM AÇÃO (OU: O SIGNIFICADO DE UM APERTO DE MÃO)


A foto acima já está circulando na internet. Ela mostra Barack Hussein apertando a mão do ditador líbio Muamar Kadafi, durante a Cúpula do G-8 que ora se celebra em L'Aquila, na Itália. Barack Hussein faz cara de contrição, como se estivesse confessando algum pecado a Kadafi. Este, por sua vez, não esconde o sorriso de satisfação, parecendo deliciar-se com o momento. Um observador menos atento poderia até achar que é um pai-de-santo atendendo um de seus "filhos" em busca de conselho e orientação espiritual.

Confesso que nem eu, em meus piores pesadelos, poderia imaginar que um dia veria cena tão degradante. O chefe da maior potência mundial, o líder do Mundo Livre, curvando-se ante o coronel Kadafi, o mesmo que Lula chamou de "meu amigo, meu irmão". Dessa vez Barack Hussein conseguiu superar até mesmo o Apedeuta.

Mais surpreendente do que o aperto de mão em si - outro momento "histórico" do governo "histórico" de Obama, como não se cansará de repetir a imprensa obamista - foi a circunstância em que ele ocorreu: a saudação foi dada por iniciativa de Barack Hussein, logo após Kadafi ter insultado os EUA, chamando o país de "terrorista" e comparando-o a Osama Bin Laden. A reação de Barack Hussein à ofensa foi ter corrido até Kadafi e apertado sua mão. Com isso, ele corroborou a afirmação de Kadafi, reconhecendo que os EUA são um país terrorista, comparável a Bin Laden.

Surpreendente, também, mas no pior sentido da palavra, é a forma como a imprensa mundial está tratando o episódio, derramando-se em elogios e rapapés à "atitude altiva" e ao gesto de "estadista" de Barack Hussein. Sim, isso mesmo: a imprensa está aplaudindo Obama por ele ter apertado a mão de um ditador por ele ter insultado seu país e o comparado ao maior terrorista da História...

A ofensa é ainda mais surrealista por ter vindo de quem veio: Kadafi, há 40 (quarenta!) anos no poder na Líbia, onde manda e desmanda com mão de ferro, não é somente um ditador: é um ditador terrorista. Em seu currículo, está uma ampla folha de serviços prestados ao terrorismo internacional, que vai de grupos extremistas palestinos como o Setembro Negro (massacre de Munique, 1972) até o IRA norte-irlandês nas décadas de 70 e 80. Sua obra-prima foi a explosão de um Jumbo da Pan Am sobre a cidade de Lockerbie, na Escócia, em 1988 (270 mortos). Mas, sejamos justos: de uns tempos para cá - mais especificamente, desde que os EUA perderam a paciência com ele e mandaram bomba em sua cabeça, e após o país ter sido ameaçado de pesadas sanções internacionais -, ele tem-se mostrado bastante moderado, até bondoso: imaginem só, ele até aceitou indenizar os parentes das vítimas de Lockerbie...

O aperto de mão entre Barack Hussein e o coronel Kadafi é um gesto significativo. Significa que Barack Hussein quer ficar amigo de ditadores. Significa que ele realmente acredita que o problema do mundo é os EUA, e não bandoleiros como Kadafi ou Bin Laden. Significa que o discurso antiamericano e pró-terrorista finalmente chegou à Casa Branca. Obama deve ter lido e levado a sério a maçaroca antiamericana que Hugo Chávez lhe deu de "presente" alguns meses atrás, "As Véias Abertas da América Latina", de Eduardo Galeano. Só isso explica tamanha complacência com tiranos e assassinos, tamanha inversão da realidade.

Qual será o próximo passo do grande estadista Barack Hussein? Talvez marcar uma partida de beisebol com Fidel Castro, como fez Jimmy Carter. Ou, quem sabe, uma rodada de biriba com Ahmadinejad, enquanto discute com o líder iraniano se o Holocausto existiu ou não. Melhor ainda: um tête-à-tête com Bin Laden nas montanhas do Afeganistão, com cobertura pela CNN e anúncio de mais um feito "histórico" da diplomacia obamista. Entre a decapitação de um infiel e o apedrejamento de uma adúltera, os dois líderes poderão trocar algumas idéias interessantes sobre respeito às diferenças e multiculturalismo.

Na foto em que aparece pedindo a bênção ao tirano Kadafi, Barack Hussein parece estar pedindo desculpas. De fato, é isso o que o gesto demonstra. Kadafi, por sua vez, deve ter pensado: "é, parece que décadas de antiamericanismo raivoso deram resultado; agora sou respeitado e o chefe do Satã imperialista em pessoa vem se rebaixar perante mim e me fazer reverência". Ahmadinejad e Kim Jong-Il podem se regozijar. Pelo visto, terrorism works: o terrorismo funciona. Principalmente se, do outro lado, estiver um governo que prefere capitular a enfrentá-lo.

Tragam o Bush de volta!

quinta-feira, julho 09, 2009

SOCIALISMO OLIGÁRQUICO


Sarney e Lula: discurso de esquerda legitima velhos hábitos políticos


Uma das lorotas mais repetidas de todos os tempos é a de que os revolucionários e reformadores sociais, seja lá como se denominem - antes eram os comunistas, agora são os "bolivarianos" - têm por objetivo final a reparação de uma situação social injusta, na qual uma minoria se apropriaria do produto do trabalho coletivo e das riquezas do país em detrimento da maioria da população, condenada a viver na miséria. Trata-se de uma dessas mentiras que, como dizia o Dr. Goebbels (ele também, aliás, um socialista - ou vai dizer que o nacional-socialismo era uma ideologia adepta do livre mercado?), de tão repetida, acaba virando verdade na mente das pessoas.
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Em nome desse objetivo utópico - a "justiça social", como se convencionou dizer -, os revolucionários de ontem e de hoje estão dispostos a sacrificar tudo: a democracia, a legalidade constitucional etc., tidas invariavelmente como meras formalidades jurídicas, uma "forma disfarçada de ditadura da classe exploradora sobre a classe explorada", como gostam de dizer. A idéia subjacente é que as insituições democráticas - a Constituição, as eleições, o Parlamento - são mesmo um obstáculo à realização dessas reformas necessárias, um instrumento de conservação da opressão social, e não a manifestação da vontade soberana do povo. Logo, segundo os justiceiros sociais, tais instituições devem ser destruídas, substituídas por outras, mais adequadas à "vontade das massas", seja na forma da ditadura do proletariado ou da "democracia participativa e protagônica", ou outro rótulo qualquer.
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Tão fundo penetrou no senso comum essa forma de propaganda ideológica que muitos que não concordam com a idéia de revolução violenta, ou que apresentam reservas quanto às intenções autoritários de comunistas e socialistas em geral - o grosso da opinião pública -, fazem questão de dizer que estão de acordo, porém, com a necessidade de "mudança" e de "quebrar o poder das oligarquias". Desse modo, mesmo sem o saber, terminam comprando o discurso dos que querem destruir a democracia. "Fidel Castro é um ditador, mas fez algo por seu povo", ou "Hugo Chávez é um caudilho populista, mas está olhando pelos mais pobres", é o que se ouve há anos. A conclusão daí resultante é que todo aquele que se opuser a esses líderes personalistas é necessariamente um "gusano", um membro da burguesia ou da oligarquia, e que é movido muito mais por interesse próprio ou de sua classe do que por amor à democracia. Os que repetem esse discurso certamente não se dão conta, mas esse palavrório era utilizado por muitos liberais e democratas quando se referiam aos regimes de Hitler e Mussolini na década de 30 (Hitler, particularmente, adorava espezinhar a "aristocracia e a burguesia liberal e decadente"). Com a diferença de que, ao contrário de Cuba, por exemplo, na Alemanha e na itália a falta de liberdades veio acompanhada de certa melhoria do nível de vida da população (mas isso também é ignorado pela maioria das pessoas).
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Ainda que esse discurso fajuto de justificação da tirania tivesse algum pingo de verdade; ainda que, digamos, todos os opositores de Chávez ou de Fidel Castro não passassem de reacionários odientos e barões da indústria (o que está bem longe de ser verdade), eu continuaria dizendo que NADA, absolutamente NADA justifica o paredón e a censura. Vou mais além: nada disso justifica uma só gota de sangue, uma só violação da ordem constitucional, em nome do que quer que seja. Parafraseando Orwell, a finalidade da revolução não é outra coisa senão a própria revolução. Ou melhor: a finalidade da "mudança" não é a melhoria do nível de vida da população mais pobre - objetivo que pode perfeitamente ser atingido sem nenhuma ruptura institucional, como comprovam países como a Suiça e o Canadá -, mas unicamente o PODER. No caso dos revolucionários, o poder ABSOLUTO. É por esse objetivo, e não por qualquer outra coisa, que eles estão dispostos a sacrificar tudo - sobretudo a liberdade e a vida alheias. Se têm alguma dúvida, dêem uma olhada na Rússia após 1917 ou na China de Mao Tsé-tung e sua pilha de 100 milhões de cadáveres.
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Por que estou dizendo isso? Porque há muitos que, quando olham para países como Honduras ou a Venezuela, vêem não uma conspiração diabólica para a usurpação do poder e a instauração de uma ditadura por um autoproclamado salvador da pátria, mas tão-somente a disputa entre reformadores sociais e setores oligárquicos. Um amigo meu filósofo chegou a afirmar num artigo, meses atrás, que o debate sobre a tirania castrista de Cuba era uma questão de Vasco versus Flamengo (antecipando, assim, o Apedeuta, que usou a mesma metáfora futebolística para minimizar o massacre da oposição pela política religiosa no Irã). Ele não viu, ou não quis ver, que entre um ditador assassino que transformou seu país numa imensa prisão para dissidentes e os que se opõem a esse tipo de coisa está muito mais do que as paíxões de duas torcidas num jogo de futebol. O mesmo fenômeno se repete, agora, com relação a Manuel Zelaya, o presidente defenestrado de Honduras por tentar mudar inconstitucionalmente a Constituição e se eternizar no poder à la Chávez: muitos até concordam que ele seja um ridículo caudilho bananeiro, e que deseja mesmo mandar a democracia hondurenha às favas, mas acreditam piamente no discurso de que ele só quer o melhor para seu povo, sobretudo para os mais explorados, e que os opositores são todo teleguiados da CIA etc. etc.
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Bobagem. Besteira. Vejamos por quê.
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Manuel Zelaya, ao contrário do que já estão dizendo por aí, não é nenhum expoente das classes populares. Pelo contrário: é um oligarca, rico fazendeiro, anticomunista e "de direita". Quando foi eleito, em 2006, foi com uma plataforma claramente "neoliberal". Uma vez no poder, porém, converteu-se ao bolivarianismo. Não se contentou em ser dono de terras: queria ser dono do país. Queria, em outras palavras, transformá-lo em sua fazenda, onde pudesse mandar e desmandar a seu bel-prazer. E a "revolução bolivariana", com seu desprezo pela democracia e promessa de poder total, caiu como uma luva para esse seu plano. Nisso, aliás, Zelaya segue fielmente a trajetória de seu principal mentor, Hugo Chávez: guardo até hoje os panfletos de campanha de Chávez em 1998, quando, recém-saído da cadeia, para onde foi após a frustrada tentativa de golpe militar seis anos antes, ele se derrama em garantias retóricas ao empresariado venezuelano, prometendo implementar políticas econômicas responsáveis e não fazendo qualquer referência à "revolução bolivariana" ou "socialismo do século XXI". Esses slogans só apareceram no discurso chavista depois de consolidado seu poder pessoal, mediante frequentes referendos e mudanças constitucionais.
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Que Manuel Zelaya seja, ele mesmo, um representante da mesma classe que agora seus apoiadores bolivarianos acusam de reacionarismo não é de surpreender. Ao longo da História, os líderes revolucionários vieram não das camadas mais baixas, mas da elite (das "zelite"). Lênin nunca foi operário, assim como Fidel Castro, advogado filho de um latifundiário (já o ditador Fulgencio Batista, que ele substituiu, ex-sargento taquígrafo do exército e, além de tudo, mulato, era um verdadeiro representante das classes populares). Do mesmo modo, Salvador Allende era em tudo, até no trajar, muito mais um lorde inglês do que um campesino chileno. E o nosso João Goulart, tão incensado pelas esquerdas, estava mais interessado em cuidar de suas estâncias no Rio Grande do Sul e no Uruguai do que em melhorar o padrão de vida dos trabalhadores. Para citar apenas alguns.
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Não se trata apenas de demagogia: o fato de os revolucionários, com ou sem aspas, virem dos setores mais altos da sociedade demonstra que a chamada revolução bolivariana, assim como o esquerdismo em geral, não passa de um golpe de marketing e de uma técnica para políticos espertalhões que desejam se livrar dos empecilhos da democracia para se perpetuarem no poder. Para tanto, estão dispostos até mesmo a engolir o que disseram sobre antigos adversários, servindo de sustentação ao poder oligárquico que dizem combater. É o caso de José Sarney, antes inimigo, hoje o maior aliado do governo Lula. Este, que até bem pouco tempo atrás se apresentava como o sumo sacerdote da "ética" e que brindava em seus discursos o senador maranhense com adjetivos não menos gentis do que "corrupto" ou "ladrão", hoje defende com todos os meios a permanência do oligarca Sarney na presidência do Senado, com atos secretos e tudo, a ponto de declarar que este "não é uma pessoa comum", estando, antes, acima do restante dos mortais. Do mesmo modo, os petistas e seus aliados, antes inimigos do assistencialismo ("uma forma de adiar as transformações sociais", diziam), agora são seus maiores promotores, na forma do Bolsa-Família, o maior engodo eleitoreiro da História do Brasil, que não faz mais do que reproduzir as formas oligárquicas de dominação nas regiões mais atrasadas do País. Não, é mais do que simples demagogia e safadeza política: é uma clara demonstração de inversão psicótica.
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Repito: mesmo que Zelaya fosse um autêntico representante do povo, dos "excluídos" - como gosta de se apresentar o Apedeuta, aliás um ex-pobre -, isso não seria justificativa para o que ele quis fazer em Honduras. Seria até um motivo a mais para impedi-lo de concretizar seu golpe civil, mergulhando o país na guerra de classes. O golpismo dos ressentidos não é melhor do que o golpismo dos abastados.
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É uma enorme ilusão achar que os esquerdistas querem transformar a sociedade e diminuir as diferenças sociais: seu único objetivo é agarrar-se ao poder, custe o que custar - inclusive preservando velhos hábitos e vícios políticos. Sarney e Zelaya que o digam.

terça-feira, julho 07, 2009

A NOVA DOUTRINA MONROE, SEGUNDO BARACK HUSSEIN: A AMÉRICA PARA OS... BOLIVARIANOS


"- Compañero Obama, como está?
- Rumbo a la revolución bolvariana, compañero".


Para muita gente, a atitude do governo norte-americano de Barack Hussein - esse é seu nome, e não somente "Obama" - em relação à crise institucional em Honduras é surpreendente. Washington não só condenou o "golpe" que retirou o golpista bolivariano Manuel Zelaya do poder, como engrossou a fileira dos governos latino-americanos e da OEA que exigem a devolução do trono a Zelaya. Não somente denunciou os "golpistas" como fechou os olhos ao que Zelaya vinha fazendo - e certamente fará, se voltar ao poder -, colocando-se assim no mesmo grupo de Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa, Daniel Ortega, Fernando Lugo, Cristina Kirchner, o esquerdista de miolo mole José Miguel Insulza (OEA) e o ex-ministro sandinista Miguel D'Escoto (Assembléia-Geral da ONU). Além do Apedeuta, claro - o exemplo-mor de esquerdista "vegetariano", segundo muita gente desavisada.
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Os bolivarianos não deixaram de saudar essa nova atitude do "império". O próprio Zelaya solicitou audiência com Hillary Clinton, sua mais nova aliada, e, em declarações à imprensa, defendeu que os EUA - vejam só - intervenham em Honduras... Os bolivarianos defendendo a intervenção de Washington num assunto interno de um país da região... quem poderia imaginar isso? (é... pelo visto, aquela discurseira toda contra o "imperialismo ianque" com que bombardeavam nossos ouvidos era mesmo conversa pra boi dormir).
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Como não poderia deixar de ser, a posição de Washington na questão hondurenha está sendo exaustivamente elogiada pela imprensa norte-americana, a qual, com o New York Times à frente, entregou-se com prazer à tarefa de ser um comitê de apoio, primeiro ao candidato, e agora ao presidente, Barack Hussein. De fato, quem passar os olhos pelo NYT ou pelo Washington Post nesses dias, sem falar na CNN - impropriadamente demonizada pelos esquerdistas, aliás - verá articulistas e comentaristas se revezando nos elogios à mais essa "mudança histórica", a esse "novo olhar" do governo dos EUA em relação à América Latina. Ao invés de se livrar dos bolivarianos, como tentaria o demônio Jorjibúxi, Barack Hussein quer encontrar um modus vivendi com eles. E isso é bom, segundo dizem. Será mesmo?
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Analisemos o fenômeno um pouco mais detidamente. Barack Hussein acredita ter encontrado o melhor caminho para lidar com a atual onda bolivariana que, iniciada na Venezuela e inspirada no exemplo de Cuba, ameaça tomar conta de toda a América Latina. Ao invés de se opor a ela, firmando posição em defesa do respeito à democracia e à legalidade - ameaçada em Honduras não pelo Congresso e pela Suprema Corte, mas por Zelaya -, ele deseja "mudar a imagem" dos EUA na região. Em outras palavras, ele quer entrar num concurso de popularidade com Hugo Chávez. Imagina, com isso, ser capaz de reverter o antiamericanismo endêmico na região e reverter a maré bolivariana. Posição semelhante a que ele vem adotando em relação ao islamofascismo e ao terrorismo islamita: tente amansá-los, mostrando que os EUA não são um país tão mau assim, e eles deixarão de apedrejar mulheres adúlteras e explodir bombas em mercados israelenses, é o que está dizendo Barack Hussein, entre um discurso "histórico" e outro.
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O que há de mais primário na retórica obamista é que ela parte da ideia idiota de que só há terrorismo islamita, assim como só há um Chávez ou um Zelaya, porque os EUA fizeram alguma coisa errada antes. Enfim, Blame America First, culpe primeiro os EUA, é o que diz o novo demiurgo da esquerda mundial, e tudo será resolvido. Como se o problema fosse os EUA, e não a Al-Qaeda ou Hugo Chávez. Como se estes odiassem os EUA pelo que o país fez um dia, e não pelo que é - um farol da Liberdade e da Democracia num mundo cada vez mais condescendente com tiranos e genocidas. Mas em vez de firmar posição em torno dessas bandeiras, o que faz Barack Hussein? Defende o retorno do golpista Zelaya ao poder, e tenta cair nas graças dos bolivarianos, esperando que, com isso, eles cessem seus ataques retóricos aos EUA. Não há tese mais furada. Não há empulhação maior.
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Imaginem se Franklin Roosevelt ou Winston Churchil tivessem resolvido, para se contraporem à onda totalitária do final dos anos 30 na Europa, disputar popularidade com Adolf Hitler. Quebrariam a cara, claro: o totalitarismo nazista, em seu auge, contava com o apoio entusiasmado e fanático de praticamente a totalidade da população alemã, assim como o totalitarismo soviético se sustentou, durante décadas, devido ao enorme poder da máquina de propaganda comunista (que persiste hoje, é bom que se diga). Assim como quebraram a cara, também, e de forma ignominiosa, Neville Chamberlain e Edouard Daladier, respectivamente o primeiro-ministro britânico e o presidente da França, quando acreditaram ter conseguido apaziguar Hitler em 1938, concedendo-lhe territórios em troca da "paz de nosso tempo". Todos conhecem - pelo menos todos que estudam a História - a lição da Conferência de Munique: tiranos, assim como terroristas, não devem ser adulados, nem podem ser apaziguados. Também não será uma campanha de relações públicas que os demoverá de suas intenções totalitárias. O único meio de lidar com ditadores e candidatos a ditadores é confrontando-os. Pelo menos se o objetivo em mente for a preservação da Democracia. É uma pena que essa lição, que tanto mal teria poupado no passado, tenha sido totalmente esquecida.
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O apoio de fato de Barack Hussein ao golpista Zelaya em Honduras entrará para a História como um dos momentos mais baixos, talvez o mais baixo, a que chegou o governo dos EUA, em toda sua história. Ao dar seu apoio, na prática, a quem quer jogar a democracia na lata do lixo Barack Hussein está reescrevendo a famosa Doutrina Monroe, de 1823, que queria salvaguardar a América do colonialismo europeu, assim como, mais tarde, os EUA salvaguardaram a América do marxismo. A diferença é que, em vez de "América para os americanos", temos hoje um novo lema: "A América para os bolivarianos". Não por acaso, o presidente norte-americano já está sendo chamado de Barack Hussein "Fidel Che" Obama por alguns colunistas conservadores (nos EUA, eles existem). Diogo Mainardi tem razão: Barack Hussein é um Henry Kissinger para ginasianos politicamente corretos.
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Quem diria... Enquanto a pequena Honduras está dando uma lição ao resto do mundo, tendo enxotado um farsante que queria usar as instituições do país para destruir a democracia e se recusando a recebê-lo de volta, a maior superpotência do planeta, governada por apaziguadores esquerdistas, capitula ante a maré bolivariana, perfilando-se ao lado de ditadores e caudilhos. Thomas Jefferson e Abraham Lincoln devem estar se revirando no túmulo.

segunda-feira, julho 06, 2009

O GOLPISMO BOLIVARIANO EM AÇÃO


O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya,
recebendo aulas de democracia de um conhecido amante da liberdade:
dize-me com quem andas...


De todas as mentiras, falácias, engodos e falsificações que nos são diuturnamente, há décadas, empurrados goela abaixo pela formidável máquina de propaganda esquerdista ou filo-esquerdista incrustrada em todos os setores da sociedade, uma das mais sórdidas e mais persistentes é, certamente, a de que é o apaziguamento o melhor caminho para lidar com ditaduras. Se a ditadura em questão for a cubana ou a norte-coreana, então essa política assume ares de verdadeiro imperativo moral. Tão entranhada está essa visão míope e distorcida da realidade que a mesma já adquiriu o status de verdadeiro dogma das relações internacionais, a tal ponto que quem tiver a ousadia de contestá-la será imediatamente rotulado de insensato e direitista fanático, entre outros adjetivos do mesmo teor.
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Essa mentira grotesca, que nos leva a ignorar exemplos históricos como o da Alemanha hitlerista e o da África do Sul dos tempos do apartheid - exemplos, respectivamente, de tirania totalitária que se consolidou e levou o mundo a uma catástrofe sem precedentes graças à leniência covarde das democracias ocidentais e de regime racista e segregacionista que só caiu devido à política oposta, de firmes pressões e sanções internacionais -, deriva de outra visão igualmente cínica e falaciosa, que melhor pertenceria aos anais da psiquiatria clínica do que da política, e que pode ser classificada como inversão psicótica. Tal patologia mental consiste, como o nome indica, em inverter a realidade, de modo a enxergar conspirações onde estas não existem, e desprezá-las onde elas existem de fato; em transformar inimigos da democracia em defensores da democracia; defensores da liberdade em golpistas; criminosos e assassinos em benfeitores da humanidade; corruptos em vestais da "ética" - e assim por diante, como numa imagem reflexa num espelho. Até que a linha tênue entre realidade e ficção se esfume totalmente, levando todos a esquecerem a noção de verdade e mentira, ignorando fatos elementares da vida como se fossem fantasiosos e vivendo na mentira como se fosse verdade.
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O caso de Honduras reflete à perfeição essa patologia política. Lembremos, mais uma vez, o que ocorreu naquele país da América Central. Um presidente, Manuel Zelaya, foi destituído porque queria impor um plebiscito julgado ilegal e inconstitucional pelo Legislativo e pela mais alta Corte do país, violando abertamente o estabelecido no Artigo 239 da Constituição nacional. Foi deposto porque queria, em resumo, rasgar a Carta Magna e destruir a democracia, num rompante de inspiração chavista e bolivariana. É, portanto, um inimigo da democracia, a qual tenciona destruir usando seus próprios mecanismos, tal como fazem sistematicamente, e de maneira coordenada, outros caudilhos e demagogos latino-americanos, como Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa. Pois bem. Como foi chamado pela imprensa o movimento cívico-militar que expulsou Zelaya do poder, em nome da Constituição e da alternância democrática? De "golpe de Estado". E qual a reação da ONU, da OEA, de Barack Hussein Obama e de Lula da Silva? Resposta: condenaram imediatamente o "golpe", não reconheceram o governo provisório, e exigiram o retorno imediato de Zelaya ao poder. Agora, esses santos homens clamam, cheios de indignação, contra o toque de recolher e a censura provisória aos meios de comunicação decretados pelo governo provisório de Honduras - talvez se a censura fosse permanente, como é em Cuba, ou se os "golpistas" de Tegucigalpa resolvessem fechar emissoras de TV oposicionistas, como fez Hugo Chávez na Venezuela, essas medidas mereceriam não reprovação, mas aplauso. E o que a ONU, a OEA, Obama e Lula disseram quando Zelaya tratava de minar a frágil democracia hondurenha e afrontava acintosamente os demais Poderes? Nada. Absolutamente nada.
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Vou repetir, para que fique bem claro: o "golpe" que expulsou Zelaya foi desfechado pelo Judiciário e pelo Legislativo, que empossou o novo presidente, Roberto Micheletti, para salvaguardar a Constituição que estava sendo violada pelo chefe do Executivo e preservar as eleições presidenciais de novembro. Zelaya caiu porque queria mudar as regras do jogo e reeleger-se, o que é proibido pela Constituição. ISSO, SIM, É GOLPISMO! Afastar do governo quem tenta rasgar a Lei para perpetuar-se no poder não é golpismo. Mas não foi assim que interpretaram os fatos grande parte da imprensa e Barack Obama. Este, aliás, declarou que o "golpe" em Honduras abria um "perigoso precedente" na América Latina, esquecendo-se de mencionar o não menos perigoso precedente da violação da Constituição pelos bolivarianos. No mesmo (des)caminho seguiu a OEA.
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Por falar na OEA, esta tem dado mostras bastante didáticas da inversão psicótica de que falei no começo deste texto. A mesma organização criada em 1948 sob a égide da defesa da democracia representativa como um princípio básico a todos os seus membros ameaça Honduras de expulsão enquanto o golpista Zelaya não for restituído ao poder, onde certamente, caso retorne, tentará violar de novo a Constituição e seguir o roteiro bolivariano. Mas não diz uma palavra sobre a ditadura totalitária comunista dos irmãos Castro em Cuba, onde a última eleição livre ocorreu há mais de meio século. Ou melhor: diz sim, mas a favor, recebendo de volta a tirania castrista de braços abertos (a propósito: a reunião da OEA que decidiu pela suspensão da exclusão de Cuba da organização ocorreu, coincidentemente, em Honduras, e um dos que mais exultaram com a decisão foi - advinhem quem - Manuel Zelaya). E é essa organização que agora fala em "golpe" e pede o restabelecimento do "estado de direito" em Honduras...
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Como não poderia deixar de ser, o Apedeuta tratou de dar sua contribuição à inversão psicótica. Dessa vez ele não comparou o sucedido em Honduras a um jogo de futebol, como fez no caso do Irã, mas fez questão de condenar o afastamento do companheiro Zelaya, enxergando "golpismo" numa reação legal e constitucional a um aprendiz de déspota bananeiro e coonestando o golpismo bolivariano. Da Líbia, onde apropriadamente derreteu-se em rapapés a luminares da democracia e da liberdade como Muamar Kadafi e Omar Al-Bashir, nosso Guia Genial e Farol da Sabedoria reforçou o coro dos que condenaram o "golpe". Chegou a defender, inclusive, o isolamento de Honduras, até que Zelaya fosse restituído ao poder. O que levanta uma questão interessante. Lula e seus companheiros bolivarianos saem a público para defender o isolamento de um país supostamente como uma forma de pressionar pela democracia. No entanto, sempre se opuseram a isolar diplomaticamente Cuba em nome do mesmo objetivo. Alegam que isolar a ilha-cárcere em nada contribuiria para sua redemocratização. A questão que daí se depreende é a seguinte: como explicar que a mesma política que foi tida, durante décadas, como ineficaz e contraproducente no caso do totalitarismo cubano seja preconizada, agora, no caso do governo provisório de Honduras? É claro que a resposta está na cara, mas não convém à grande imprensa fazer esta pergunta.
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Vale a pena olhar mais de perto essa questão. Em um nível um pouco mais sofisticado, um dos argumentos utilizados pelo Itamaraty lulista é que isolar Cuba - somente Cuba - seria uma forma de violação do princípio sacrossanto da "autodeterminação" da ilha-presídio. Sem mencionar o fato de que a autodeterminação do povo cubano já foi pro brejo há muito tempo (desde que Fidel Castro tomou o poder e instalou uma ditadura comunista, para ser mais exato), o argumento poderia perfeitamente aplicar-se ao caso hondurenho. A maioria da população de Honduras quer ver o golpista Zelaya, cujo índice de apoio não ultrapassa cerca de 30%, pelas costas. O "golpe", portanto, conta com respaldo popular. E, mesmo que não tivesse, trata-se de um assunto interno do povo hondurenho (ao contrário da tirania comunista de Cuba, que constituiu uma ameaça séria aos países vizinhos e quase levou ao fim do mundo num holocausto nuclear em 1962 - quem estuda História sabe do que estou falando). Em Honduras, sim, pode-se falar em autodeterminação e em soberania. Então, por que isolar Honduras seria uma forma de garantir a democracia, e fazer o mesmo com Cuba é um atentado à sua autodeterminação? Gostaria que algum sábio do governo Lula me explicasse essa lógica tão peculiar...
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É claro que nada disso importa para a ONU, a OEA, a União Européia, Lula e Barack Obama. Estes reservam sua indignação para o fato de a sociedade hondurenha ter reagido às intenções autoritárias e personalistas de Zelaya, e não ao plano deste de transformar Honduras, com a ajuda de Hugo Chávez, numa nova Venezuela ou numa nova Bolívia.
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Quando golpistas de verdade são tidos na conta de democratas respeitáveis e os que tentam opor-se a eles são execrados como gorilas nefastos e militaristas, a ponto de serem unanimemente condenados como tal pela ONU, OEA, União Europeia e pela quase totalidade dos governos latino-americanos, é porque a inversão psicótica atingiu níveis de verdadeira pandemia. Trata-se de um caso em que, infelizmente, o simples debate de ideias e a contra-propaganda não são suficientes para consertar o dano provocado e restaurar a razão, sendo necessário, em casos como esse, uma verdadeira reprogramação neurolinguística. Goebbels ficaria com inveja: nunca, em toda a história da humanidade, a mentira sistemática atingiu, pela simples repetição, tamanhas proporções e apoderou-se de tantos cérebros incautos.

Mais um quadrúpede

Aí, um energúmeno me escreve o que vai em seguida, supostamente como comentário a meu texto "Obama, o Lula americano" de 11/06/2008 (mais de ano atrás) - digo "supostamente" porque, por mais que eu tentasse, não consegui ver nenhuma relação entre o texto e o que o dito-cujo escreveu. É uma daquelas coisas que me deixam em dúvida se publico ou não - e que me fazem ter mais certeza sobre a infinita capacidade de alguns cérebros de não entenderem absolutamente nada de nada. Vai na língua original, como sempre.
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Perai cara, vc é do PSDB? seu blog é uma declaração de amor ao LULA do primeiro ao ultimo post. E tambem acho que vc é de ESQUERDA. Ah, eu também não sabia que em paises capitalista as pessoas são rescucitadas e só são assassinadas nos socialistas (vide toda as guerras mundiais, onde os americanos iam rescucitando os inimigos pelo caminho. kkkk). Os dois lados são assassinos seu xiita.
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Vou responder da única maneira como esses seres de quatro patas conseguem entender: não, cara, não sou do PSDB. E você, é do PCO?
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Ah, e a tentativa de ironia sobre Lula e ser de esquerda não funcionou, viu? A ironia é para ser usada por quem tem um mínimo de inteligência. Para quem não a tem, é apenas patetice bizarra. Algo assim como um orangotango tentando recitar Shakespeare.
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Quanto aos "dois lados" serem assassinos, etc. etc., bem... já tratei disso em outros posts. Não adiantaria nada eu repetir o que já escrevi aqui sobre o assunto. Como não adiantaria muito eu lembrar que o Gulag foi o Gulag, e que 100 milhões de mortos são 100 milhões de mortos. Para isso, há os livros de História. Mas para quem escreve "rescucitadas" e "rescucitando", em vez de ressuscitadas e ressuscitando, sei que essa dica não adianta nada. Talvez umas aulas de soletração nível "Massinha I" ajudem.
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Só uma coisa eu não entendi: afinal, eu sou do PSDB ou sou xiita?
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Esses esquerdiotas... Se eles não existissem, alguém precisaria inventá-los.