segunda-feira, junho 22, 2009

NÃO SOU MORALISTA - POR ISSO REPUDIO A MORAL DELES

Se tem uma coisa que realmente me tira do sério é ser chamado de "moralista". Esse adjetivo me causa um repúdio instintivo, mais até do que os caricatos "reaça" e "direitão" com o quais sou geralmente brindado, e que me provocam mais riso do que raiva. Sei que às vezes pode parecer que sou isso mesmo, e que posso ser assim interpretado. Mas, acreditem, não tenho nada de moralista, pelo menos não na acepção corrente do termo. Tenho, aliás, fortes razões para não ser. Acompanhem-me, por favor.
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Tenho horror, asco, ojeriza, repúdio a ser chamado de, ou considerado, moralista. E não faço isso por qualquer concessão minha ao relativismo moral ou ao politicamente correto, essa moda filosófica que parece ter vindo para ficar em certos círculos e que encobre, na maioria dos casos, o medo de ter uma opinião. Nada disso. Rejeito o rótulo por uma questão racional ou, se preferirem, de coerência.

Em primeiro lugar, o que caracteriza o moralista é sua pretensão de "converter" alguém a suas idéias. Não tenho essa pretensão, que julgo, aliás, arrogante. Não "prego" nada, para ninguém. Quem "prega" é martelo ou padre (ou pastor, ou mulá etc.). Acima de tudo, quem "prega" quer seguidores. Eu quero, no máximo, leitores. E mesmo que eu não tivesse nenhum, continuaria escrevendo. Escrevo não para converter quem quer que seja ao que eu penso, mas para desabafar, como uma espécie de terapia, ou como uma trincheira na qual me refugio ante a mediocridade reinante à minha volta. Acredito que é a consciência individual, e não qualquer imposição de fora, o verdadeiro repositório da liberdade. É por esse motivo, aliás, que não participo de nenhum "movimento", mesmo que eu o considere justo. Não me calo, mas também não tenho vocação para palmatória do mundo.
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Em segundo lugar, o moralista se caracteriza pela pretensão de julgar ou regular a vida pessoal, confundindo-a com a vida social e política. É, assim, uma espécie de juiz da virtude alheia, inclusive do comportamento privado de cada um. Também não tenho essa pretensão totalitária. Para mim, a vida pessoal, como o próprio nome indica, é pessoal, ou seja, pertence a cada um, e não à Família, à Igreja, ao Partido ou ao Estado. A vida particular das outras pessoas não me interessa nem um pouco. Se for descoberto, por exemplo, que Lula tem uma filha fora do casamento, ou que Obama tem uma amante, isso vai me interessar tanto quanto, digamos, o nome do costureiro que faz os vestidos de dona Marisa ou de Michelle Obama. Ou seja: nada! Tenho mesmo uma visão meio pessimista sobre a natureza humana, e acredito que todas as pessoas, sem exceção, escondem ou já esconderam algum segredo íntimo. Concordo plenamente com a frase de Nelson Rodrigues, segundo a qual, se conhecêssemos a vida sexual de cada um, ninguém se cumprimentaria. Mas isso, como já disse, não é da minha conta. Esses assuntos não me dizem respeito absolutamente, e não tenho nada a dizer sobre eles. Moralistas são os aiatolás do Irã, não eu.
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Claro, quando a questão diz respeito a assuntos de Estado, ou da política, a coisa muda de figura. Mas aí já está além da esfera puramente pessoal, e por isso - e somente por isso - merece comentário. Se Carlos Minc gosta de fumar um baseado depois do expediente, é problema dele, não tenho nada a ver com isso. Mas se ele, na condição de ministro de Estado, participa de uma passeata pela liberalização da maconha, ao lado de um bando de doidões cantando "vou apertar, mas não vou acender agora", obviamente isso não constitui mais uma questão pessoal, dele, Minc: é um ministro de Estado fazendo a apologia da droga e da ilegalidade. Do mesmo modo, se Renan Calheiros, quando era presidente do Senado, teve uma filha com a amante, isso não me diz respeito: o que me interessa na questão é que suas contas pessoais eram pagas por um lobista de empreiteira, motivo pelo qual ele perdeu o cargo (mas, pelo visto, não o poder). Também não dou a mínima se, na cabeça dessa gente, suas ações - políticas, não pessoais - não tiveram nada de imorais: isso só mostra a moral torta deles (também não vale dizer que o outro fez igual para fugir à responsabilidade, como sói acontecer). Para usar outro exemplo: se dois homens ou duas mulheres, maiores de idade, se apaixonarem e decidirem viver juntos como marido-marido ou mulher-mulher, isso tampouco é da minha conta. Mas isso não lhes dá o direito de quererem usar o poder coercitivo do Estado para calar e punir judicialmente quem, por qualquer motivo (religiosos, por exemplo), tem uma opinião diferente sobre esse tipo de união. Espero ter sido claro.
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Do mesmo modo, quando Lula compara o assassinato e espancamento de opositores do regime fundamentalista do Irã a uma briga entre vascaínos e flamenguistas, ou quando afirma que José Sarney não é uma "pessoa comum", rasgando o princípio constitucional da igualdade de todos perante a Lei e legitimando assim uma mentalidade colonial, ele não está emitindo uma simples opinião pessoal, dele. Em casa, em sua vida particular, o cidadão Luiz Inácio da Silva pode fazer, dizer ou pensar o que quiser. Mas o presidente Lula não tem o direito de banalizar a barbárie e justificar a impunidade. Quem me interessa é o político, não o indivíduo.
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Em outras palavras: minha crítica aos desmandos de petistas e esquerdistas em geral não é moralista, embora a conduta deles seja imoral e eles cometam atentados contra a ética todos os dias. Em meus textos, uso mais a Razão do que a Moral, embora, nos casos de Lula e de Minc, Razão e Ética sejam a mesma coisa. Minha crítica a esses senhores e suas práticas não significa que eu me arvore em polícia de costumes. Fui claro?
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Os esquerdistas e seu principais representantes no Brasil, os petistas, se arrogaram durante décadas o papel de vestais, reivindicando para si a condição de únicos defensores da ética na política. É por isso, e não pelo que fazem na cama ou no armário, que precisam ser desmascarados. Não é preciso ser moralista ou madre Teresa de Calcutá para perceber coisa tão óbvia.

segunda-feira, junho 15, 2009

Mais uma do Apedeuta, o sábio de Banânia: luta pela democracia no Irã, para ele, é como um jogo entre Vasco e Flamengo...

Polícia reprime manifestante no Irã: para Lula, isso é apenas uma questão de vascaínos versus flamengistas


Deu na BBC Brasil, no Estadão Online de hoje. Pensei inicialmente em começar o post fazendo algumas citações pontuais da notícia, mas, diante da enormidade do que vai a seguir, achei melhor transcrevê-la na íntegra (alguém poderia dizer que eu estava exagerando ou coisa parecida). Os grifos são meus.

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta segunda-feira, em Genebra, que “não há provas” de que tenha havido fraude nas eleições iranianas e afirmou que pretende definir uma data para visitar o país no ano que vem. “Veja, o presidente [iraniano Mahmoud Ahmadinejad] teve uma votação de 61, 62%. É uma votação muito grande para a gente imaginar que possa ter havido fraude”, disse Lula em entrevista coletiva.“Eu não conheço ninguém, a não ser a oposição, que tenha discordado da eleição do Irã. Não tem número, não tem prova. Por enquanto, é apenas, sabe, uma coisa entre flamenguistas e vascaínos”, afirmou o presidente.

Lula afirmou ainda que a polêmica em torno da reeleição de Ahmadinejad não muda os planos de visitas entre representantes dos dois países.Ahmadinejad cancelou uma visita ao Brasil marcada para maio passado, afirmando que queria esperar o fim do processo eleitoral no país. “Ele viria, pediu para esperar o processo eleitoral, mas pode vir na hora que quiser, eu recebo do mesmo jeito”, disse Lula.

Questionado se pretende ir ao Irã, o presidente também foi assertivo. “Eu pretendo ir ao Irã. Pretendo arrumar uma data para o ano que vem e fazer uma visita ao Irã porque nós temos interesses em construir parcerias com o Irã, em trocas comerciais com o Irã”, afirmou. “O Brasil vai fazer todas as incursões que precisarem ser feitas para estabelecer as melhores relações com todos os países do mundo, e o Irã é um deles.”
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O que está aí em cima, principalmente no primeiro parágrafo, é uma das maiores barbaridades já ditas pelo Apedeuta em sete anos - e olhem que esses últimos sete anos foram pródigos em barbaridades ditas pelo personagem (a quantidade de batatadas, gafes ou imbecilidades pronunciadas pelo excelentíssimo, somente para ficar no período de 2003 para cá, seria suficiente para preencher vários livros). Não estou exagerando: trata-se de uma das coisas mais absurdas que alguém poderia dizer, em qualquer época, em qualquer lugar. Dessa vez, nosso Guia Genial se superou em estupidez e boçalidade. Numa tacada só, o Babalorixá de Banânia conseguiu o seguinte:

1) reconheceu, antes mesmo da ONU ou do próprio governo iraniano, o resultado altamente suspeito das eleições presidenciais no Irã, contra diversas evidências de fraude e as suspeitas da comunidade internacional ("não há provas") - algo que só pode ser classificado como precipitação ou irresponsabilidade;

2) justificou esse reconhecimento com um critério extremamente duvidoso - a porcentagem de votos obtida por Ahmadinejad -, como se esta, por si só, eliminasse qualquer possibilidade de fraude - esquecendo-se de exemplos como o do Iraque na época de Saddam Hussein, quando o tirano costumava ser "eleito" com mais de 90% (até mesmo 100%!) dos votos -, como se democracia fosse uma mera questão de números, e não de império da lei e de estado de direito;

3) finalmente, ao colocar a eleição no Irã na mesma categoria de uma disputa entre vascaínos e flamenguistas, Lula, o Rei da Metáfora, reduziu a luta pela democracia no Irã, que inclui eleições provavelmente fraudadas e apoiadores do candidato de oposição espancados pela polícia religiosa, a uma simples questão de ponto de vista, a um bafafá entre torcidas adversárias em um jogo de futebol. Difícil imaginar leviandade maior, em qualquer época, em qualquer lugar, por parte de qualquer pessoa.

Assim como banalizou a corrupção, ao afirmar, em pleno auge do escândalo do mensalão (será que alguém ainda se lembra?), que caixa dois é algo "normal, porque todo mundo faz", o Apedeuta agora banaliza a opressão política e religiosa em terras alheias, ao comparar a luta contra a teocracia islamita do Irã a um jogo de futebol entre vascaínos e flamenguistas. Nisso, ele parece seguir os passos de outro ícone da esquerda na atualidade, Barack Obama, que foi recentemente incensado pela imprensa mundial por ter, num discurso perante uma platéia muçulmana no Cairo, relativizado a democracia e defendido o "direito" dos muçulmanos apedrejarem mulheres adúlteras ou que não seguem rigorosamente o que está no Corão. Para sustentar esse ponto de vista, Obama apelou para a História, ou melhor, para uma versão mitificada e edulcorada da História do Islã, tratando de podar da mesma as passagens menos abonadoras ou que desmentem frontalmente sua tese de uma religião "tolerante", até mesmo "iluminista". Lula, como se sabe, prefere métodos mais diretos e menos sofisticados para defender o indefensável e justificar o crime: comparou tudo a um jogo entre Flamengo e Vasco, e pronto!

Ah sim: Lula aproveitou o gancho para dizer que quer ir ao Irã encontrar-se com Ahmadinejad, essa flor de pessoa, esse campeão dos direitos humanos e da tolerância - vejam o que ele quer fazer com Israel...

Esse é "O Cara", o grande estadista mundial, o paladino da democracia na América Latina (e agora, também, no Oriente Médio). O que estão esperando para lançar a candidatura de Lula ao Prêmio Nobel da Paz ou à Secretaria-Geral da ONU? Quanto querem apostar que haverá quem ainda tente justificar as declarações do Apedeuta como o supra-sumo do pragmatismo e da inteligência? Inacreditável...

sexta-feira, junho 12, 2009

OBAMA E O ISLÃ (OU: QUANDO O EXTREMO VIRA A NORMA)


Cometi uma pequena injustiça em meu post anterior, quando afirmei que somente o Reinaldo Azevedo e o Diogo Mainardi tiveram a ousadia suficiente para mangar do discurso "histórico" do demiurgo Barack Obama no Cairo (deveriam colocar o Obama em cima de um trio elétrico, cantando e rebolando ao som de Ivete Sangalo: o efeito sobre os cérebros da platéia seria o mesmo). É que eu tinha me limitado, até então, a ler as aves-marias e padres-nossos da nossa imprensa brazuca. Não tinha, ainda, lido o texto que vai a seguir, de autoria de Christopher Hitchens, publicado na revista eletrônica Slate em 08/06 (original aqui: http://www.slate.com/id/2220000/). A tradução, como sempre, é minha. As idéias bem que poderiam ser também.

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QUANDO O EXTREMO VIRA A NORMA

Há uma conexão fascinante entre o que o presidente Barack Obama disse sobre véus muçulmanos para mulheres em seu discurso de 4 de junho no Cairo e o debate sobre os prisioneiros de Guantánamo liberados que têm sido desde então encontrados, ou encontrados de novo, nas fileiras do Talibã e da Al-Qaeda. Não tente adivinhar, mas, por favor, leia.

Desde que o ex-vice-presidente Dick Cheney fez a maioria das manchetes do New York Times de 21 de maio, usando estatísticas do Departamento de Defesa para sugerir que um em cada sete detentos de Guantánamo tinha “voltado ao terrorismo ou à atividade militante”, tem havido uma enorme discussão sobre se isso é verdadeiro e, se é, por que é. Pode não ser o caso, por exemplo, de que uma pessoa inocente que passou pela experiência de Guantánamo possa tornar-se “radicalizada” e decidir juntar-se às fileiras da jihad pela primeira vez?

A última explicação certamente não é verdadeira para vários dos reincidentes que têm sido positivamente identificados; conhecemos o passado e o presente de alguns desses personagens. Em minha própria visita a Guantánamo, deram-me uma lista – oficialmente com somente 11 nomes – de ex-militantes do Talibã como Abdullah Mehsud, detido em fevereiro de 2002 e liberado em março de 2004, que mais tarde preferiu se matar a não se render às forças de segurança paquistanesas. Se é uma ofensa à justiça manter presas pessoas que podem ter sido vítimas de erro de identificação ou de vingança de outras facções, então é também uma ofensa à justiça liberar assassinos psicopatas que acreditam ter permissão divina para jogar ácido nos rostos de meninas que querem ir à escola.

Entretanto, se cremos ser provável ou possível que um homem somente se transmudaria em tal monstro depois de passar pela experiência de Guantánamo, então eu posso sugerir um motivo pelo qual isso possa ocorrer. Nada me preparou para a maneira como as autoridades no campo de Guantánamo permitiram aos devotos religiosos mais extremados entre os detentos serem os organizadores da rotina diária dos prisioneiros. Suponha que você fosse uma pessoa secular ou não-fanática apanhada na rede por engano; você ainda se acharia obrigado a rezar cinco vezes por dia (os guardas não têm permissão de interromper), a ter um Corão em sua cela e a comer alimentos preparados pelos padrões do halal (ou Sharia). Suponho que você poderia pedir para abster-se, mas, nesse caso, eu não apostaria muito em suas chances. Os oficiais em comando estavam tão contentes por causa da habilidade deles de exibir suas mentes extremamente abertas a respeito do Islã que eles pareceram quase magoados quando eu os indaguei como eles justificavam o uso do dinheiro do contribuinte para criar uma instituição dedicada à prática fervorosa da versão mais extremada de apenas uma religião. À imensa lista de motivos para fechar Guantánamo, acrescente esse: é uma madraçal patrocinada pelo Estado.

A mesma insistência quase masoquista em tomar o extremo como norma também esteve presente no discurso suavemente pronunciado de Obama na capital egípcia. Algo do que ele disse foi bem-intencionado, ainda que mal-informado. Os Estados Unidos não deveriam ter derrubado o governo eleito do Irã em 1953, mas quando o fizeram, usaram mulás e aiatolás subornados para açular o sentimento anti-comunista contra um regime secular. O governo de John Adams no Tratado de Trípoli de 1796 de fato proclamou que os Estados Unidos não tinham nenhuma rixa com o Islã como tal (e, ainda mais importante, que os Estados Unidos em si não eram uma nação cristã), mas o tratado fracassou em impedir os estados da Berberia em invocarem o Corão como permissão para raptar e escravizar viajantes dos altos mares, e assim Thomas Jefferson foi mais tarde obrigado a enviar uma frota e os Fuzileiros Navais para dar cabo do comércio. Espera-se que Obama não prefira Adams a Jefferson a esse respeito.

Qualquer pessoa com a menor pretensão ao alfabetismo cultural sabe que não há tal lugar ou coisa chamada “o mundo muçulmano”, ou, ao invés disso, que este consiste em muitos lugares e em muitas coisas. (É precisamente o objetivo dos jihadistas colocá-lo todo sob um domínio preparatório para tornar o Islã a única religião do mundo.) Mas Obama não disse nada sobre o cisma entre sunitas e xiitas, ou sobre o debate sobre o sufismo, ou sobre as formas Ahmadi e ismaelita de culto e prática. Tudo isso foi reunido na umma: a noção altamente ideológica de que uma pessoa é antes de tudo definida por sua adesão a uma religião e de que todos os conceitos de cidadania e direitos estão em segundo lugar em relação a esse diktat teocrático. Nada poderia ser mais reacionário.

Tomem o único caso em que nosso presidente tocou o fato mais conhecido sobre o “mundo” islâmico: sua tendência em fazer das mulheres cidadãos de segunda classe. Ele mencionou isso somente para dizer que os “países ocidentais” estavam discriminando as mulheres muçulmanas! E como essa discriminação é imposta? Ao se limitar o uso do véu de cabeça ou hijab (uma palavra que Obama pronunciou como hajib – imaginem a gritaria se George Bush tivesse feito isso). A implicação clara foi um ataque à lei francesa que proíbe o uso de objetos ou símbolos religiosos nas escolas públicas. De fato, no dia seguinte em Paris, Obama tocou nesse assunto ainda mais explicitamente. Faço uma citação de um excelente comentário de um professor visitante argelino-americano na Faculdade de Direito da Universidade de Michigan, Karima Bennoune, que diz:

Acabei de publicar uma pesquisa conduzida entre muitas pessoas de ascendência muçulmana, árabe e norte-africana na França que apóiam a lei nacional de 2004 banindo símbolos religiosos em escolas públicas, que eles vêem como um desdobramento necessário da “lei da república” para conter a “lei dos irmãos”, uma regra informal imposta não-democraticamente a muitas mulheres e meninas em vizinhanças e em casa e por fundamentalistas.

Mas para as mulheres que são obrigadas a se vestirem de acordo com as exigências de outros, Obama não teve nada a dizer absolutamente, como se o único “direito” em jogo fosse o direito de obedecer uma instrução que, de fato – se isso tem alguma importância – não é encontrada no Corão. Na Turquia, também, véus de cabeça para mulheres são proibidos pela lei em alguns contextos. Isso é, também, islamofobia? O presidente pensa que o véu e a burca também são declarações de moda livremente escolhidas? Esse tipo de ingenuidade é preocupante, e significa que entre a platéia muçulmana global, o tipo errado de gente estava rindo de nós, enquanto os que deveriam ser nossos amigos e aliados estavam vertendo uma lágrima de desapontamento.

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Voltei
E pensar que houve um tempo em que os "progressistas" do mundo inteiro condenavam o governo dos EUA por defender regimes despóticos e ditatoriais... Hoje, ao contrário, a mesma turma cobre o presidente norte-americano de elogios por defender o "direito" de meninas serem apedrejadas e chicoteadas por não seguiram uma religião. Se isso não é duplo padrão e hipocrisia, então eu não entendo mais nada.

segunda-feira, junho 08, 2009

"YES, HE CAN"... OBAMA, O NOVO DEMIURGO DA ESQUERDA MUNDIAL


Olha, eu sei que é difícil ir contra Deus. Principalmente - e bota principalmente nisso - quando Ele se chama Barack Hussein Obama. Mas vou cometer esse sacrilégio. Alguém precisa fazê-lo. Minha alma pode não ir para o Céu, mas a Razão agradece.

Nos últimos dias, assistimos a mais uma das demonstrações de tietagem explícita da imprensa mundial - "a mídia burguesa", como gostam de dizer os esquerdopatas - que já se tornaram corriqueiras em relação a Obama. Refiro-me ao mais recente discurso "histórico" do presidente norte-americano, proferido na Universidade Al-Azhar, no Cairo, Egito.

Procurei nos jornais e revistas, além da internet, alguma análise mais crítica, ou, pelo menos, menos servil sobre o discurso de Obama. Com exceção do Reinaldo Azevedo e do Diogo Mainardi, não encontrei nada, nadinha. Este último, aliás, escreveu na VEJA um dos textos mais lúcidos que eu li nos últimos tempos, uma análise concisa e demolidora do enorme vazio intelectual que perpassa a retórica obamista (veja no final do post). Tirando esses dois arautos da "direita" midiática - logo, espiões da CIA e do imperialismo ianque, além de dedos-duros da ditadura militar de 64 e lacaios de Wall Street e do General Pinochet, segundo nossas esquerdas, elas sim donas da verdade e da razão -, só encontrei, ao invés de crítica, muita louvação, muita babação de ovo e sabujice. Tudo embalado por um "Discurso histórico de Obama inaugura nova relação com mundo árabe" aqui, um "Obama propõe novo começo nas relaçoes com o Islã" acolá, e outros chavões do tipo, junto com as louvações de praxe.

"Novo começo", é? Sei... A quase totalidade da imprensa mundial (a mesma "mídia burguesa" e "de direita", lembram?), ao que parece, jogou às favas o espírito crítico e comprou gostosamente a gigantesca operação de marketing que é Obama, e tem assinado embaixo de toda e qualquer palavra ou ação sua, ainda que seja - como, de fato, é (vide Afeganistão, por exemplo) - apenas mais um pouco do mesmo, com uma roupagem change. Obama, o novo Messias, está em plena campanha de relações públicas junto aos países árabes e muçulmanos, e é nesse contexto que deve ser entendido seu discurso no Cairo. Até aí, nada demais. Qual o problema, então? O problema, atentai leitor!, é que o discurso de Obama não passou de uma coleção de platitudes e lugares-comuns sobre o Islã e os muçulmanos, ditos com aquele vazio grandiloquente que tanto o caracteriza e que parece encantar as redações dos jornais aqui e alhures. Mais: incorreu em erros históricos, quando, ao tentar qualificar o Islã como uma "religião de paz", apelou para um passado mítico islâmico, de suposta harmonia e tolerância com outras crenças, inclusive de luminosidade científica e intelectual - tese desmentida de forma cabal pela História (vide a expansão islâmica a partir do século VII e a ocupação da Península Ibérica, feitas todas na ponta da espada), bem como todos os dias pelo noticiário (onde estão os "moderados" líderes islâmicos na hora de condenar, sem ambiguidade, os atentados terroristas do Hamas e do Hizbollah?). Mais ainda: serviu para reforçar os argumentos dos que odeiam os EUA e o Ocidente, ao transmitir a noção de que não haveria terrorismo islamita se não fosse por causa dos... EUA e do Ocidente! Enfim, uma mistura de anacronismo histórico com o velho Blame America First. Uma empulhação total.

Nada disso, é claro, importa para nove em cada dez meios de imprensa. Afinal, foi ela, a grande imprensa norte-americana ("burguesa", "de direita" etc.) que pariu e amamentou o mito Obama, deixando de cumprir seu papel básico de apurar sobre seu passado e suas relações - políticas e pessoais - até agora mal-explicadas com figuras sinistras como Bill Ayers e Jeremiah Wright para se debruçar sobre os vestidos e penteados de Sarah Palin, como demonstra de forma bastante didática o jornalista (ainda sobraram alguns) Bernard Goldberg, em seu livro imperdível A Slobbering Love Affair: The True (and Pathetic) Story of the Torrid Romance Between Barack Obama and the Mainstream Media (numa tradução livre: Um Caso de Amor Babão: A Verdadeira e Patética História do Tórrido Romance Entre Barack Obama e a Grande Imprensa). Não é surpresa, portanto, que discursos como o do Cairo já nasçam "históricos" antes mesmo de serem pronunciados, mesmo que se baseiem, como de fato se baseiam, numa interpretação completamente mitológica e falseada do Islã e de sua História.

Isso se aplica também a qualquer coisa que Obama faça em política externa. Quem não se lembra dos acenos de Obama à teocracia islamita do Irã do louco Mahmoud Ahmadinejad, o mesmo que esnobou o convite do Itamaraty para visitar o Brasil no mês passado? Pois este já respondeu prontamente à política de "mão estendida" da Casa Branca... intensificando seu programa nuclear e testando um míssil capaz de atingir Israel! Outro louco, o ditador Kim Jong-il da Coreia do Norte, provavelmente estimulado pelas sábias palavras de paz e concórdia de Obama, também se aproveitou desse "novo momento" das relações dos EUA com o restante do mundo, anunciada com pompa e fanfarra pelo demiurgo Obama, lançando mísseis e ameaçando o mundo com a arma atômica. E os assasinos e terroristas do Hamas, certamente, devem estar se sentindo o máximo depois de terem sido colocados no mesmo nível político dos malvados israelenses pelo presidente dos EUA - e de terem visto o New York Times aplaudir entusiasticamente isso.

Houve uma época, não faz tanto tempo assim - estou falando não de vinte ou dez, mas de uns seis anos atrás -, em que as palavras dos políticos eram recebidas geralmente com um saudável ceticismo por parte da imprensa séria e dos "formadores de opinião". Era uma época em que o espírito crítico falava mais alto do que o oba-oba, ou em que, quando isso se mostrava, era com um certo pudor, uma certa vergonha, os elogios deslavados cobertos por uma série de subterfúgios. Essa época acabou. Hoje, com Obama lá e Lula aqui, a tietagem mais explícita e desavergonhada tomou conta das redações dos jornais e da "mídia", não deixando qualquer espaço para a análise fria e o ceticismo. A ponto de qualquer bobagem que Obama disser vir apresentada automaticamente como as Novas Tábuas da Lei. Yes, he can. Ou melhor: Yes, they can...

Definitivamente, o marketing e os chavões tomaram o lugar da análise política, e isso tanto nos EUA quanto no Brasil. Quem perde com isso é a verdade. Ou seja: todos nós.

Para fechar com chave de ouro, reproduzo a seguir o artigo de Diogo Mainardi na VEJA desta semana. Nada poderia ser mais eloquente e sucinto. Por isso o transcrevo integralmente.


PLATITUDES E ASNICES

Giotto era do Hamas?

Barack Obama, em sua viagem ao Egito, tentou reconciliar o mundo maometano com os Estados Unidos. Em vez de bombardear os terroristas com um Predator, ele os bombardeou com platitudes: "O ciclo de suspeita e desentendimento tem de acabar... Estou aqui em busca de um recomeço... Baseado no interesse mútuo e no respeito mútuo... Em princípios comuns – princípios de justiça e de progresso, de tolerância e de dignidade para todos os seres humanos". Dá até para imaginar um carrasco pashtun, subitamente iluminado pelo discurso de Barack Obama, largando suas pedras, um instante antes de apedrejar uma adúltera.

E onde entra Giotto nisso tudo?

Barack Obama, a certa altura de seu pronunciamento, disse: "Como estudante de história, eu aprendi que foi o islamismo – em lugares como a Universidade Al-Azhar – que conduziu o lume da sabedoria por séculos e séculos, pavimentando o caminho na Europa para o Renascimento e o Iluminismo". Ele só pode ter aprendido isso com Edward Said, em seus tempos de estudante na Universidade Colúmbia. Os árabes, na Idade Média, tinham grandes conhecimentos de álgebra e de caligrafia, como citou o próprio Barack Obama, num trechinho tirado diretamente da Wikipédia. Mas o principal papel do islamismo para o estabelecimento do Renascimento e do Iluminismo – está igualmente na Wikipédia – foi o massacre de milhares de cristãos em Constantinopla, que obrigou os helenistas bizantinos a se refugiarem na Europa, com seus clássicos gregos e latinos. O Oriente revitalizou o Ocidente perseguindo-o, aterrorizando-o, assassinando-o.

Barack Obama realmente acredita em sua capacidade de seduzir e desarmar os fanáticos religiosos e os tiranos genocidas que prometem destruir Estados Unidos e Israel. Apesar dos aplausos entusiasmados de editorialistas do mundo inteiro, seu discurso é de uma asnice assustadora: ele apela retoricamente para um passado remoto do islamismo, um passado mítico, que só se encontra nas salas de aula da Universidade Colúmbia. Foi o que ele fez quando se referiu à Universidade Al-Azhar, aquela que teria conduzido "o lume da sabedoria por séculos e séculos". A Universidade Al-Azhar tem uma história antiga e gloriosa. Mas a realidade é que, nos últimos 100 anos, ali se formaram o fundador do grupo terrorista Mão Negra, o fundador do grupo terrorista Irmandade Muçulmana e o fundador do grupo terrorista Hamas. Barack Obama procurou instaurar um diálogo com o islamismo que produziu o Renascimento – que produziu Giotto. Como se Giotto, depois de pintar afrescos numa capela, fosse fabricar um foguete Qassam. É melhor Barack Obama clicar o nome de Giotto na Wikipédia.

Dizer o quê? Disse tudo.

Respondendo a quem não merece (ou: um pouco de pérolas aos porcos)


Mais um da aparentemente infindável tribo dos desocupados e descerebrados - como diz o ditado: Asinus Asinum Fricat (um jumento se esfrega em outro jumento) - me escreveu um recadinho muito simpático. Relutei um pouco antes de publicá-lo aqui, pois o, digamos, comentário do valente é, como vocês verão, auto-explicativo. Mas acho que vale a pena, pelo valor didático. Aí vai a pérola, no idioma exótico em que foi escrito:

Apedeuta eh vc e seus textos mal formados, sem expressão, sem nada! Não duvido que seja algum pau mandado de algum espião da CIA. Pau mandado não: ido. Pq vc eh muito retardado para alguem com um minimo de inteligencia mandar fazer algum coisa!

E Marighela imbecil nunca foi terrorista!

Voce eh muito sem noção AFFFFf

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Afff... (adoro esses faniquitos afetadinhos...). O que dizer do que está aí em cima? Não muito, é verdade. É difícil, para dizer o mínimo, manter algum diálogo com quem acusa alguém de ser "pau mandado de algum espião da CIA" - e, aliás, não quero mesmo dialogar com esse tipo de gente. Pra eles, só camisa-de-força e Gardenal.

Fico até com um pé atrás quando recebo um excremento desses, pois desconfio de que pode se tratar de alguma pegadinha, de alguma brincadeira de algum amigo ou colega meu que está só tentando se divertir um pouquinho às minhas custas. "Vamos escrever uma coisa bem cretina para ver o Gustavo achar que está dando umas chineladas num esquerdiota", algo assim. Se for esse o caso, já disse aqui, não tem a menor importância. Coisas como essas são perfeitamente possíveis de serem ditas - aliás, como são ditas! - pela tribo da Al Qaeda eletrônica, que espuma de raiva quando alguém tenta trazê-los de volta à realidade. Além do mais, não posso negar: ler - e, principalmente, rebater - tanta sandice tem seu lado divertido.

É uma pena que a mesma disposição que "eles" têm para xingar e caluniar quase nunca venha acompanhada de um pouquinho de leitura. Nesse caso, bastaria dar uma olhadinha, por mais rápida que seja, em outro post meu, de 26/10/2007. Nele, ao responder a outro leitor que disse praticamente a mesma coisa, sobre o mesmo assunto ("Ah e só pra lembrar, o Carlos Marighela não era uma (sic) terrorista não seu imbecil. Ass. Paulo"), eu escrevi o seguinte (os grifos são meus):

Paulo, você tem razão. Carlos Mariguella - e Lamarca, e todos os demais que praticaram assaltos, seqüestros e assassinatos nos anos 60 e 70 - não era terrorista. Era, na verdade, um grande mentiroso. Senão, não teria escrito coisas como:

"Hoje, ser terrorista é uma condição que enobrece qualquer homem de honra porque isto significa exatamente a atitude digna do revolucionário que luta, com as armas na mão, contra a vergonhosa ditadura militar e suas monstruosidades". Citado em Elio Gaspari, A Ditadura Escancarada, 2002, p. 142.

"Sendo o nosso caminho o da violência, do radicalismo e do terrorismo (as únicas armas que podem ser antepostas com eficiência à violência inominável da ditadura), os que afluem à nossa organização não virão enganados, e sim, atraídos pela violência que nos caracteriza" ("O papel da ação revolucionária na Organização"). Citado em Daniel Aarão Reis Filho e Jair Fernandes de Sá, Imagens da Revolução, 1985, p. 212.

"Ao terrorismo que a ditadura emprega contra o povo, nós contrapomos o terrorismo revolucionário" - "La lutte armée au Brésil", novembro de 1969 - citado em Elio Gaspari, A Ditadura Envergonhada, 2002, p. 106.

Como se vê, eles não eram nada terroristas.
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E eu, claro, sou um imbecil.
Um abraço.

É isso. Como quem tiver a pachorra de procurar saber o que o próprio Mariguella escreveu (e fez) perceberá com facilidade, o sujeito era uma flor de pessoa, não tinha nada de terrorista. E a agradável criatura que me mandou o comentário deve ser professor de Português.
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Agora, com licença que eu, o sem-noção, vou recolher meus caraminguás de pau-mandado da CIA...

quinta-feira, junho 04, 2009

TIANAMEN: 20 ANOS DEPOIS






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Quando será que estas imagens pertencerão unicamente ao passado?
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Minha pequena homenagem
ao desconhecido da camisa branca
- e a todos aqueles
que deram suas vidas
por algo chamado
LIBERDADE.

quarta-feira, junho 03, 2009

Cuba de volta à OEA: vitória do lobby pró-tirania, derrota da democracia

Adivinhem em que país foi tirada esta foto...


Acabo de saber pelos sites de notícias que os representantes dos 34 países americanos reunidos em Honduras decidiram, por consenso, pela revogação da resolução que excluiu Cuba da Organização dos Estados Americanos (OEA). A decisão abre o caminho para anular a expulsão do regime de Fidel e Raúl Castro da organização, ocorrida durante a VIII reunião de chanceleres americanos de Punta del Este (Uruguai), em fevereiro de 1962.
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Anotem o que digo: a camarilha bolivariana e a imprensa vendida a essa turma dirão que a reintegração de Cuba ao organismo interamericano é um passo importante para as boas relações diplomáticas na região, que a exclusão de Cuba da OEA era um resquício anacrônico da época da Guerra Fria etc. Dirão também que Cuba não mais representa qualquer ameaça à segurança continental, e que sua reincorporação à OEA poderá mesmo ser o caminho para a realização de reformas democráticas na ilha etc. etc. Falarão em "fim da Guerra Fria" e outras coisas que tais.
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Tudo balela. A Guerra Fria acabou, o Muro de Berlim caiu, a URSS virou fumaça - mas Cuba continua uma ditadura comunista. E não há nada no horizonte que pareça indicar que deixará de ser um dia. A revogação da expulsão de Cuba da OEA é uma óbvia vitória do lobby pró-tirania e um respiro a mais para a ditadura cubana. É um retrocesso democrático, uma derrota da democracia e dos direitos humanos, em todos os sentidos.
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Isso, mais uma vez, não é assim porque eu quero. Basta atentar para o seguinte fato: a decisão de reincorporar Cuba à OEA não foi acompanhada de nenhuma condição, nenhum compromisso, colocado ante o regime cubano. O único país que apresentou um projeto de resolução impondo condições para a eventual reintegração da ilha foi, claro, os EUA, que, vendo que seria voto vencido, logo se retirou da reunião. Durante dias, os 34 países americanos estiveram divididos não quanto ao reingresso de Cuba na OEA, mas no tocante a se haveria ou não condições para que isso se efetuasse. Inicialmente, um grupo de países, preocupado com o fato inegável e indisfarçável de que Cuba é uma ditadura, queria a revogação da resolução sem que necessariamente Cuba voltasse imediatamente para a OEA. No final, porém, venceu a proposta da Nicarágua, apoiada pela Venezuela, em favor da retirada de todas as precondições para que Cuba volte a integrar o grupo. Ou seja: não foi colocada nenhuma condição para que Cuba fosse reintegrada à OEA e seja aceita de novo no pleno convívio com os demais países americanos. Em bom português: não se falou, nem se falará, em democracia, eleições livres, liberdade para presos políticos, liberdade de imprensa e direitos humanos. Absolutamente nada. É mais um passo rumo à eternização da ditadura dos irmãos Castro, que já dura meio século.
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A decisão de reintegrar a ditadura cubana ao convívio com os demais países das Américas é um absurdo político, moral e também legal. Isso porque tal decisão não está apenas em contradição com a Carta Democrática da OEA de 2001 (que foi assinada, é bom lembrar, por países como a Venezuela de Hugo Chávez, que agora a rasga solenemente ao fechar canais de TV e prender opositores). Está em franca oposição, também, à própria Carta da OEA, de 1948. Vejamos.
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Já em seu preâmbulo, a Carta da OEA deixa claro que os países-membros estão "Seguros de que a democracia representativa é condição indispensável para a estabilidade, a paz e o desenvolvimento da região" e "Certos de que o verdadeiro sentido da solidariedade americana e da boa vizinhança não pode ser outro senão o de consolidar neste Continente, dentro do quadro das instituições democráticas, um regime de liberdade individual e de justiça social, fundado no respeito dos direitos essenciais do Homem". Exatamente o contrário do que existe em Cuba.
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No Artigo 2, que trata dos princípios da Organização, a Carta estabelece, entre seus "princípios essenciais", além de "Garantir a paz e a segurança continentais", "b) Promover e consolidar a democracia representativa, respeitado o princípio da não-intervenção" (Cuba não somente é uma ditadura como interveio diretamente em vários países da região, promovendo guerrilhas e atentados, inclusive contra governos democráticos).
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No mesmo tom, o Artigo 17 não deixa dúvida sobre quem pode participar da Organização: "Cada Estado tem o direito de desenvolver, livre e espontaneamente, a sua vida cultural, política e econômica. No seu livre desenvolvimento, o Estado respeitará os direitos da pessoa humana e os princípios da moral universal." Precisa comentar?
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E por aí vai. Desnecessário dizer que nenhum desses princípios correspondem à realidade da ilha caribenha. Os 34 países que votaram a favor da reincorporação de Cuba mandaram a Carta da OEA para o mesmo lugar aonde foi mandada a democracia na ilha: a lata de lixo.
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Ao contrário da lenda bastante difundida, Cuba não foi expulsa da OEA por pressão dos EUA, que teria inclusive subornado diplomatas latino-americanos - na verdade, ela própria se expulsou. Isso ocorreu quando Fidel Castro, em dezembro de 1961, pronunciou um discurso em que se declarou, pela primeira vez oficialmente, marxista-leninista (e ainda acrescentou: "e o serei até morrer"). Com isso, o tirano deixou claro sua filiação a um dos blocos geopolíticos da Guerra Fria - o bloco comunista -, o que o colocava frontalmente em oposição à Carta da OEA, que, como está claro acima, exige de seus integrantes o respeito pela democracia. Além disso, vários acordos e resoluções proíbiam terminantemente os países da região de qualquer aliança com uma potência extracontinental (era o caso da antiga URSS), o que era considerado uma forma de intervenção.
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E antes que alguém diga: não, o desrespeito da tirania cubana pela Carta da OEA começa muito antes de qualquer "agressão" norte-americana a Cuba. Já em abril de 1959 - repito: abril de 1959! -, quatro meses depois da chegada de Fidel Castro ao poder e muito antes de qualquer atitude dos EUA contra a ilha, o regime cubano patrocinava incursões guerrilheiras em quatro países latino-americanos (Panamá, Nicarágua, República Dominicana e Haiti). Nos anos seguintes, tais incursões se intensificaram, levando todos os países das Américas (com exceção do México e do Canadá) a romperem relações com Cuba em 1964, após ser revelado que Havana fornecia armas para os guerrilheiros comunistas que combatiam o governo constitucional da Venezuela.
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Isso, repito, não foi assim porque eu quero que tenha sido (há livros sobre o assunto; leiam, se quiserem). A partir do momento em que a Revolução Cubana degenerou em ditadura comunista, não havia mais espaço para que Cuba permanecesse no sistema interamericano. Sua exclusão da OEA, portanto, seguiu plenamente os preceitos da própria organização. O mesmo não pode ser dito de seu retorno.
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O curioso é que, mesmo com todo o lobby pelo reingresso de Cuba, o tirano Fidel Castro jamais escondeu seu desprezo pela OEA. Foi, aliás, contra a própria criação da OEA que ele, ainda estudante, meteu-se em sua primeira aventura estrangeira, quando se envolveu nos distúrbios de rua conhecidos como El Bogotazo, na capital da Colômbia, em 1948. Naquela ocasião, ele estava em Bogotá como membro de uma delegação estudantil cubana convidada pelo então ditador argentino Juan Domingo Perón para participar de uma conferência de protesto contra a Nona Conferência dos Países Americanos, da qual resultou a criação da OEA. Natural, portanto, que ele sempre tenha desdenhado a organização - em várias oportunidades, Fidel a chamou de "ministério de colônias" e coisas do mesmo naipe. O jornal oficial cubano Granma - ou seja, o jornal dos Castro - publicou no dia 29/05 que a ilha "nunca" retornaria à OEA e classificou a organização de um "pestilento cadáver" e "vetusto casarão de Washington"...
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Pelo menos em algo há que se concordar com os porta-vozes da tirania castrista: a OEA está, a cada dia, mais parecida com um cadáver. Com o retorno de Cuba, a organização cavou sua própria cova, caminhando célere para a irrelevância. Com o apoio explícito dos governos de esquerda latino-americanos, a ditadura cubana - a mais antiga do Ocidente - está cada dia mais longe de seu fim. Para a alegria do "carnívoro" Hugo Chávez e do "vegetariano" Lula.

segunda-feira, junho 01, 2009

LOBOS EM PELE DE CORDEIRO


Às vezes me perguntam por que pego tanto no pé dos esquerdistas, e dos petistas em particular. Por que, enfim, reservo a eles minha fúria crítica, poupando dos mesmos adjetivos os partidos e políticos de direita.

A pergunta em si traz um desconhecimento total do assunto. Tudo bem, eu respondo. Faço-o por vários motivos. O primeiro deles é que, até que me convençam do contrário, não há nada nem ninguém no horizonte político brasileiro que possa ser encaixado, mesmo remotamente, no rótulo "direita", o que é uma pena (a menos que se considere o adesismo oportunista de um DEM ou o esquerdismo envergonhado de um PSDB como legítimas manifestações do pensamento conservador, mas isso é tema para outro texto...). Em segundo lugar, e o mais importante, é que, ao contrário da direita, que inexiste entre nós, pode-se dizer, sim, com toda segurança, que existe uma esquerda brasileira extremamente organizada - a tal ponto que esta domina inteiramente o cenário político nacional, e inclusive já conseguiu enganar até mesmo setores insuspeitos da opinião pública e da imprensa.

Um exemplo dessa enganação é a revista VEJA desta semana - sim, ela mesma! -, que traz uma reportagem que se derrama em elogios ao caráter "moderado" do governo Lula e do PT. A reportagem, assinada por Otávio Cabral - e que dificilmente, ao contrário de outras reportagens da revista sobre corrupção, será contestada pelo PT -, se refere à "exportação" do modelo petista de governar, que seria caracterizado pelo pragmatismo, em oposição ao dogmatismo tradicional da esquerda jurássica, para países como El Salvador, onde o presidente recém-empossado, Maurício Funes, da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), estaria seguindo os mesmos passos dos "leões vegetarianos" de Lula e do PT. Inclusive, técnicos do PT estariam ensinando o novo governo salvadorenho a implementar versões locais do Bolsa-Família e do PAC (um mau sinal, mas isso também fica para outro post). A mensagem do texto é clara: assim como o PT fez a partir de 2002, a FMLN abandonou as teses radicais de esquerda e abraçou a legalidade democrática e a economia de mercado, deixando para trás o marxismo-leninismo e os anos de luta armada, que deixaram cerca de 75 mil mortos no país. Mais que isso: esse "modelo" supostamente criado pelos petistas seria uma espécie de contraponto, ou de antídoto, à influência do radicalismo tosco de caudilhos como Hugo Chávez e Evo Morales, com seus socialismos bolivarianos e indigenistas e receitas econômicas anacrônicas.

Já escrevi aqui várias vezes que essa dicotomia entre duas esquerdas - uma radical e outra moderada; uma revolucionária e outra reformista; ou, como virou moda dizer, uma "carnívora" e outra "vegetariana" - é um dos maiores engodos que já apareceram em todos os tempos. Tão forte é essa tese que até mesmo críticos contumazes dos delírios e fantasias esquerdistas, como o escritor peruano Mario Vargas Llosa, que esteve na Venezuela há alguns dias para participar de um colóquio sobre liberdade, se deixaram levar por ela, rasgando-se em elogios à suposta moderação do governo Lula, em comparação com a "revolução bolivariana" de Chávez e companhia. Que a revista semanal mais "direitista" do Brasil tenha engolido a isca não é algo, portanto, surpreendente.

Não sei se Mario Vargas Llosa e os editores de VEJA leram Gramsci. Também não sei se sua crença em uma esquerda responsável e moderada seria fruto de uma análise acurada da realidade ou de wishful thinking - acredito que seja este último caso o mais provável. Na verdade, por trás do aparente antagonismo esquerda carnívora-esquerda vegetariana (ou herbívora, como seria mais apropriado chamá-la), o que se esconde é tão-somente uma tentativa de, como se diz no Oriente, "salvar a face" da esquerda, cujas teses principais caíram por terra depois da queda do Muro de Berlim, em 1989. Uma grande enganação, enfim.

A primeira coisa a ser sublinhada é que a adesão de uma parte da esquerda à ortodoxia econômica e à responsabilidade fiscal não significa nenhuma evolução genuína, pelo simples motivo de que tal adesão não se deu de dentro para fora, mas de fora para dentro. Foi, dito de outro modo, uma imposição da realidade, e não uma ruptura verdadeira, decorrente de um gesto de coragem ou inteligência. Não é preciso coragem, nem inteligência, para saltar de um barco que está afundando. Era esse exatamente o caso do modelo socialista, marxista-leninista, no final dos anos 80. Pular fora dessa canoa furada foi o, por assim dizer, "mérito" do pragmatismo lulista, que tanto encanta empresários agradecidos - e iludidos -, os mesmos que não se importam com o fato de a China ser um sistema totalitário, desde que "funcione" economicamente. Em resumo: se os petistas deixaram de lado as teses marxistizantes e abraçaram a economia de mercado, não foi por nenhum compromisso deontológico, mas por puro oportunismo político e vigarice intelectual - ou alguém duvida que, se os ventos soprassem favoravelmente na direção do estatismo leninista, e não do capitalismo liberal, os petistas estariam, até hoje, defendendo a expropriação das grandes empresas multinacionais estrangeiras? Com a economia mundial marchando de vento em popa, era conveniente adotar uma postura favorável aos negócios e à livre iniciativa. A questão é: numa situação de crise, como a que o mundo vive atualmente (lembram da marolinha? pois é...), o que impede os cumpanhêru de promoverem uma recaída estatista?

Tanto em relação à economia quanto no tocante à democracia, o que houve foi uma conversão sem confissão, nem arrependimento. Ou seja: uma falsa conversão, motivada apenas por conveniências políticas. Os petistas jamais se arrependeram publicamente dos anos de demagogia antiliberal, em que não passava um dia sem que Lula ou algum outro caudilho esquerdista esbravejasse contra a política econômica de FHC e do FMI etc. e tal. Por que, agora, devemos dar crédito ao que dizem? (Só para comparar: imagine se os nazistas reaparecessem dizendo-se convertidos à democracia e aos direitos humanos, mas sem confessar nem se arrepender de seus crimes; essa "conversão" seria levada a sério?).

Não é assim porque eu quero. Lula e sua camarilha já deram mostras de sobra de que estão se lixando para a democracia, assim como estão se lixando para a ética (aí estão o mensalão e os delúbios da vida para comprovar isso). Apenas a título de exemplo, basta lembrar que praticamente não passa um dia sem que não se veja alguma tentativa por parte de algum ministro petista de controlar, regular, manietar a sociedade. Idem para as articulações para o terceiro mandato. Se Lula e os petistas não rasgam a Constituição e instalam de vez um regime ditatorial no Brasil, não é porque não queiram - é porque (ainda) não podem. Querem saber qual o modelo de Estado ideal e de sociedade ideal para os esquerdistas? Olhem para Cuba ou para a Venezuela.

Assim como os defensores da tese da "esquerda responsável" não levam o que está aí em cima em consideração, preferindo descansar na ilusão narcotizante de que "eles mudaram", acreditam piamente que Lula é uma alternativa, e não um parceiro de Chávez, Morales ou Correa. Mesmo com todos os fatos demonstrando sem sombra de dúvida que todos esses governos estão no mesmo barco, unidos pelo Foro de São Paulo - a organização revolucionária de esquerda criada por Lula e pelo tirano Fidel Castro em 1990 para "reconstruir na América Latina o que se perdeu no Leste Europeu", e cuja própria existência foi mantida em segredo, com a cumplicidade de grande parte da imprensa, por mais de quinze anos! A política externa "moderada" e "responsável" de Lula não tem feito outra coisa senão referendar os delírios totalitários de um Hugo Chávez - Lula já chegou a declarar que, na Venezuela, há democracia "até demais"... - ou proclamar-se "neutra" em relação aos narcoterroristas colombianos das FARC. Do mesmo modo, nosso presidente "pragmático" e "moderno" não hesita um segundo antes de elogiar a tirania cubana dos irmãos Castro, considerando-a um modelo de igualdade e justiça. O governo Lula fez vista grossa para o encampamento das refinarias da Petrobrás pelo índio de araque Evo Morales na Bolívia e para ações semelhantes de Rafael Correa no Equador contra uma empreiteira brasileira, e se tem negado sistematicamente a votar contra o regime genocida do Sudão na Comissão de Direitos Humanos da ONU. O mesmo governo modelo de moderação e democracia não vê nenhum problema em convidar para visitar o Brasil o patrocinador do terrorismo islamita e notório negador do Holocausto Mahmoud Ahmadinejad do Irã, e em apoiar um conhecido antissemita e queimador de livros para a direção-geral da UNESCO. É essa a esquerda vegetariana e responsável, comprometida com a democracia e os direitos humanos?

Os mesmos "moderados" que não têm qualquer pudor em se colocarem ao lado de tiranos e genocidas enquanto fazem juras de amor à democracia se revelam quando se trata de difamar seus adversários. Há alguns dias, assisti ao programa eleitoral do PT na televisão. Vários ministros do governo Lula, como Guido Mantega e Patrus Ananias, sem falar na presidenciável Dilma Rousseff, passaram boa parte do tempo demonizando a política econômica de FHC - a mesma a qual se converteram depois de chegarem ao poder! É por causa desse tipo de discurso vigarista que eu não me canso de pegar no pé da esquerda e dos petistas.

Há uma grande diferença entre conversão - que implica, necessariamente, abjurar e arrepender-se da crença anterior - e uma operação plástica. Como demonstram Dilma Rousseff e o PT, é dessa última que se trata, quando se fala de uma esquerda "responsável" e "vegetariana". Eles mudaram, sim - mas não por dentro.

Jogando um osso para um leitor muito ético


Obama e seu cachorrinho, "Press", digo, "Bo"

Um desses petralhas que não têm o que fazer resolveu passar por aqui e descarregar um pouco de sua bile. Eis o que escreveu o valente:
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Continua defendendo a grande inteligêncio neoliberal? A ética americana? É, tem pessoas que, como as cães, andam sempre a procura de um dono...
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Pois é... Continuo, sim, a defender, neste espaço, a inteligência "liberal" e a ética "americana". Com o detalhe de que, até o momento, achei que estava defendendo a inteligência e a ética (assim, sem adjetivos). Agradeço ao distinto leitor por ter me chamado a atenção para o fato de que a inteligência e a ética devem vir acompanhadas desses dois adjetivos. Aliás, devo dizer que já desconfiava disso, pois dificilmente alguém me verá defendendo uma "inteligência" ou uma "ética" comunistas - até porque, a "inteligência" e a "ética" comunistas foram responsáveis por 100 milhões de mortos...
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É, tem pessoas que, como os cães, andam sempre à procura de um dono... Principalmente se esse dono tiver transformado o Estado num aparelho do partido para ser distribuído entre seus apaniguados. O mundo está cheio de gente que, diante de um cargo oficial ou das palavras sábias de um messias político, babam de excitação e abanam o rabo como um chihuaha. Diante de um Lula ou de um Obama, não hesitam em atender todos os seus comandos de "Senta", "Rola", "finge de morto" etc.
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Falando nisso: já deu a patinha para seu dono hoje, petralha?

sexta-feira, maio 22, 2009

Saiba um pouco mais sobre Farouk Hosny, o candidato apoiado pelo Brasil para dirigir a UNESCO...


O que vem a seguir é a tradução, feita por mim, de um texto publicado no Le Monde de 21/05, assinado por três importantes intelectuais (um dos quais, Prêmio Nobel da Paz). Deveria ser lido e relido por todos os diplomatas brasileiros, ou pelo menos por qualquer pessoa que ainda leve a sério coisas como tolerância e liberdade de pensamento. Isso não inclui, obviamente, quem está à frente da diplomacia brasileira hoje. .

UNESCO: A VERGONHA DE UM NAUFRÁGIO ANUNCIADO

Quem declarou, em abril de 2001: “Israel jamais contribuiu para a civilização em qualquer época que seja, pois jamais fez mais do que se apropriar do bem dos outros” – e reiterou dois meses depois: “A cultura israelense é uma cultura inumana; é uma cultura agressiva, racista, pretensiosa, que se baseia em um princípio muito simples: roubar o que não lhe pertence”?

Quem explicou em 1997, e o repetiu depois em todos os tons, que era “o inimigo ferrenho” de toda tentativa de normalização de relações de seu país com Israel? Ou ainda, em 2008, quem respondeu a um deputado do Parlamento egípcio que se alarmava que livros israelenses pudessem ser introduzidos na biblioteca de Alexandria: “Queimemos esses livros; se eu os encontrar, eu mesmo os queimarei na sua frente”?

Quem, em 2001, no jornal Ruz Al-Yusuf, disse que Israel era “ajudado”, nas sombras, pela “infiltração de judeus na mídia internacional” e por sua habilidade diabólica de “espalhar mentiras”? A quem devemos essas declarações insensatas, esse florilégio do ódio, da burrice e do conspiracionismo mais descarado?

INCENDIÁRIO DE CORAÇÕES

A Farouk Hosni, ministro da Cultura egípcio há mais de quinze anos e, sem dúvida, o próximo diretor-geral da UNESCO se nada for feito antes de 30 de maio, data de encerramento das candidaturas, para deter sua marcha irresistível rumo a um dos postos de responsabilidade cultural mais importantes do planeta.

Pior: as frases que acabamos de citar são só algumas – e não as mais nauseabundas – das inumeráveis declarações de mesmo teor que marcam a carreira de Farouk Hosni há uma quinzena de anos, e que, por conseguinte, o precedem quando ele postula um papel cultural federativo na escala do mundo contemporâneo.

A evidência é assim clara: Farouk Hosni não é digno desse papel; Farouk Hosni é o contrário de um homem de paz, de diálogo e de cultura; Farouk Hosni é um homem perigoso, um incendiário de corações e de espíritos; resta muito pouco tempo para evitar que se cometa o erro maior que seria a elevação de Farouk Hosni a esse posto eminente entre todos.

Apelamos assim à comunidade internacional a se poupar da vergonha que seria a designação, já dada por quase certa pelo próprio interessado, de Farouk Hosni ao posto de diretor-geral da UNESCO. Convidamos todos os países amantes da liberdade e da cultura a tomar as iniciativas que se impõem a fim de conjurar essa ameaça e de evitar à UNESCO o naufrágio que constituiria essa nomeação.

Convidamos o próprio presidente egípcio, em lembrança de seu compatriota Naguib Mahfouz, Prêmio Nobel de Literatura, que deve, a essa hora, se revirar em sua tumba, nós o convidamos, pela honra de seu país e da alta civilização da qual ele é herdeiro, a tomar consciência da situação, a desabilitar urgentemente seu ministro e a retirar, em todo caso, sua candidatura. A UNESCO cometeu, certamente, outros erros no passado – mas essa impostura seria tão enorme, tão odiosa, tão incompreensível, seria uma provocação tão manifesta e tão manifestamente contrária aos ideais proclamados da Organização que ela não se ergueria mais. Não há um minuto a perder para impedir que seja cometido o irreparável.

É preciso, sem demora, apelar à consciência de cada um para evitar que a UNESCO caia nas mãos de um homem que, quando ouve a palavra cultura, responde com um auto-de-fé.


Bernard-Henri Lévy, filósofo ;
Claude Lanzmann, cineasta e diretor da revista Les Temps modernes ;
Elie Wiesel, escritor e Prêmio Nobel da Paz em 1986.

terça-feira, maio 19, 2009

WILSON SIMONAL, UM CASO EXEMPLAR DE PERSEGUIÇÃO IDEOLÓGICA NO "SHOW BUSINESS" BRASILEIRO


Está em cartaz um documentário que vale a pena assistir. É Simonal: Ninguém Sabe o Duro que Dei, assinado, entre outros, pelo humorista Claudio Manoel, do Casseta & Planeta. Ainda não vi, mas o tema em si justifica a ida ao cinema. Trata-se de algo, até onde eu sei, inédito na cinematografia brasileira. O que o torna um filme que, a meu ver, deveria ser exibido em todas as escolas e universidades do País.

O documentário narra a trajetória de um dos cantores de maior sucesso no Brasil no final dos anos 60 - época de ouro da Tropicália e dos festivais da Canção -: Wilson Simonal. Mais especificamente, documenta a escalada para o sucesso e a rápida e dolorosa decadência, acompanhada de anos e anos de completo declínio e obscurantismo, de um ídolo da música brasileira do período. Decadência, declínio e obscurantismo que não foram provocados por nenhum demérito artístico ou musical do cantor, mas por fatores políticos, alheios à música.

Simonal é um caso exemplar de artista que, por causa de um erro, explorado até as últimas consequências pelas patrulhas ideológicas esquerdistas, viu sua carreira - e sua vida - transformada em poeira da noite para o dia. Sua débâcle é creditada a um fato ocorrido em 1971, no auge de sua carreira e da ditadura militar, quando Simonal, desconfiado que seu contador, Raphael Viviani, estava lhe roubando, pediu a "ajuda" de dois seguranças amigos seus "para resolver o problema". Ocorre que um dos seguranças a quem recorreu dava expediente no DOPS, a temida polícia política da ditadura militar. Viviani foi sequestrado e espancado. Sua mulher botou a boca no mundo. Para piorar, Simonal tentou se safar apelando para um expediente idiota: perante a imprensa, gabou-se de suas conexões "com os homens", os generais do regime...

Foi seu fim. Desde então, Simonal ficou marcado: era "dedo duro" e "agente da repressão". Nunca mais sua carreira foi a mesma. Os convites para shows escassearam, as gravadoras lhe fecharam as portas, as rádios e a TV o baniram de sua programação. Do dia para a noite, de ídolo das multidões, capaz de reger um coro de 30 mil vozes no Maracanãzinho cantando Meu limão, meu limoeiro, Wilson Simonal tornou-se um pária, um leproso, banido dos rádios e da TV e estigmatizado como vinculado aos órgãos de repressão político-militar do regime de 64. No final da vida, com a carreira já acabada e corroído pelo alcoolismo, Simonal fazia shows em cima de caminhões para dez ou quinze pessoas. Terminou topando fazer comerciais do Supermercado São Cristóvao em Natal (RN), uma sombra do que fora um dia.

Não gosto da música de Simonal e, mesmo se gostasse, não é da minha época. Inclusive, não simpatizo com a figura. Acredito mesmo que o rótulo que recebeu, de arrogante e deslumbrado com a fama, não seja totalmente falso. Se vivesse hoje e tivesse o mesmo sucesso que chegou a alcançar em seu período áureo, é provável que Simonal estivesse tocando em algum grupo de pagode, coberto de jóias, com os cabelos descoloridos e agarrado a alguma loura, siliconada e oxigenada. Também não tenho a pretensão de dizer aqui que ele foi uma espécie de anjo: o erro que cometeu, e que selaria seu destino, só pode ser visto, ainda hoje, como uma canalhice. Mas nada disso diminui o fato de que ele foi, sim, com todos os seus defeitos, vítima de uma das mais insidiosas, desproporcionais e, no fim, injustas campanhas de calúnia e difamação já montadas pela gigantesca máquina de propaganda esquerdista que se instalou no Brasil, sobretudo no terreno artítistico e cultural. Daí porque o filme, que o reabilita, vale a pena ser visto.

Em primeiro lugar, jamais foi provado que, tirando o episódio com o contador, Simonal tivesse qualquer envolvimento com qualquer órgão da repressão. Isso ficou comprovado ao final de sua vida, quando o governo federal reconheceu, oficialmente, que tal alegação era falsa. Mas, àquela altura, isso pouco ou de nada adiantou. O dano à reputação de Simonal já estava feito e era irreversível. Isso porque o pecado de Simonal foi muito além do episódio com o contador. Seu pecado, na verdade, foi não ter rezado pela cartilha da esquerda.

Simonal era um artista que não se incomodava em cantar, cheio de ginga e "pilantragem", País Tropical, de Jorge Benjor (então apenas Jorge Ben), em plena época do ufanismo da ditadura militar. Cantava as glórias das belezas naturais do País e da seleção canarinho na Copa de 70 - com a qual viajou para o México, ao lado de Pelé -, sem dar a menor bola para a pecha, então em voga, de "alienado". Fazia música para divertir, no que era bastante competente, não para "conscientizar" ou "de protesto". Isso, por si só, o colocou na lista negra dos artistas "malditos" pela esquerda, que, com Chico Buarque à frente, passou a monopolizar a cultura "pensante" no Brasil. Era alguém feito sob medida para ser enterrado em vida caso fizesse uma besteira. Quando a fez, a esquerda se banqueteou.

Além do mais, no linchamento a que foi submetido coube também um forte elemento de preconceito racial. Simonal era negro (ou afro-brasileiro, como queiram). Mais que isso, viera da pobreza (era filho de empregada doméstica). Isso o levava a destoar ainda mais do estereótipo cultuado pelas esquerdas. Era negro e nascera pobre, mas não fazia o gênero coitadinho, vítima de preconceito, tão ao gosto do "movimento". Também não erguia nenhuma bandeira de luta, do tipo black power ou a favor de cotas raciais, por exemplo. Pelo contrário: com o dinheiro que conseguiu, fazia questão de ostentar sua riqueza. Roberto Carlos tinha um carrão? Pois Simonal tinha três Mercedes na garagem. E fazia questão que todos soubessem. Como também adorava se exibir com suas namoradas (quase todas, brancas). Às críticas, Simonal respondia, sorrindo: "ninguém sabe o duro que dei" (daí o título do documentário). Um negro que canta músicas alienadas e que gosta de exibir luxo e riqueza? E que ainda por cima transa com brancas? Aí é demais, pensaram os bem-pensantes de nossa esquerda festiva, em geral brancos e bem-nascidos.

O estereótipo do "negro arrogante", deslumbrado com a fama e com tudo que esta e o dinheiro podem trazer - carrões, ostentação, mulheres - caiu em Simonal como uma luva, servindo à perfeição para a máquina de demolir reputações da esquerda. O Pasquim, em particular, com Ziraldo e Jaguar à frente, não lhe deu trégua. Outros nomes da cultura nacional, como Nelson Rodrigues, Gilberto Freyre e José Guilherme Merquior, foram alvos da artilharia esquerdista, mas Simonal foi simplesmente destruído (também, pudera: era um alvo muito mais fácil). A polícia do pensamento esquerdista, que hoje está nos gabinetes oficiais, não se contentou em difamá-lo - ainda há quem pense que ele pessoalmente torturou prisioneiros... -; era preciso mais: era preciso calá-lo para sempre. Era preciso sepultá-lo vivo.

A morte em vida de Wilson Simonal é mais um exemplo didático de como a esquerda brasileira, que na mesma época era censurada pelo regime militar, não hesita em utilizar métodos ditatoriais e stalinistas para se livrar de figuras incômodas. Ao mesmo tempo em que a "direita" - representada pelos militares - punha-os na cadeia, os esquerdistas tupiniquins trataram de impor, praticamente sem serem incomodados, sua ditadura ideológica no terreno da cultura, desde as universidades até o show business. Assim, a música de massas, malgrado seu óbvio apelo comercial, tornou-se, ela também, uma trincheira da "luta contra a ditadura". Criou-se mesmo uma sigla - MPB - para designar esse "movimento" representado pelos Chicos Buarques e Geraldos Vandrés, que, apesar do "popular" no rótulo, era consumida principalmente pelas elites instruídas e pela classe média dourada de Ipanema e de Copacabana. Música, para esse pessoal, só se fosse cabeça, "de protesto", cheia de metáforas e com manual de interpretação. Simonal estava em outra.

Enquanto Simonal era silenciado pela patrulha ideológica esquerdista, o povão não estava nem aí para esses marxistas de galinheiro e revolucionários de opereta. O povão gostava mesmo é de Wilson Simonal, de Waldick Soriano, enfim, de cantores "bregas" e "alienados". Por não ser da turma, Simonal pagou um alto preço. A esquerda, que monopoliza a cultura dita "alta" no Brasil, jamais o perdoou. Não por ter feito uma besteira. Mas por não ser um deles. Nâo podendo cooptá-lo, destruíram-no.

segunda-feira, maio 18, 2009

ELES ESTÃO SE LIXANDO


O egípcio Farouk Hosny é o candidato apoiado pelo Brasil para a direção-geral da UNESCO. A UNESCO é o órgão da ONU encarregado da educação, ciência e cultura. Como tal, espera-se de seu diretor-geral que seja alguém afinado com os ideais do humanismo, da liberdade de expressão e de pensamento. Tal é o entusiasmo do governo brasileiro com a candidatura de Hosny que o Itamaraty deixou de apoiar o nome de um brasileiro, Márcio Barbosa, que cogita lançar-se candidato por um outro país.

Mas quem é o preferido do Brasil para assumir a direção da UNESCO? Farouk Hosny, o candidato apoiado pelo governo Lula e pelo Itamaraty, é o ministro da Cultura do presidente egípcio Hosni Mubarak, no poder há 28 anos. Mubarak, um general da Força Aérea, não dá trégua à oposição, que invariavelmente acaba na cadeia. Hosny é seu ministro desde 1987. Um candidato afinado com os ideais de humanismo e de liberdade de pensamento que deveriam nortear a UNESCO, como se vê.

Mas isso não é o mais grave.

Farouk Hosny, o candidato preferido de Lula e Celso Amorim, é conhecido principalmente por uma declaração, digamos, controversa sobre a literatura judaica. Ele não é muito fã de obras como o Talmude ou o Pentateuco. Tanto que, certa vez, disse o seguinte: "Se eu encontrasse livros em hebraico numa biblioteca egípcia, eu os queimaria".

A frase acima deveria, pelo menos em teoria, desqualificar seu autor como um antissemita hidrófobo e um inimigo da cultura e do humanismo, certo? Não para Lula. Não para o Itamaraty. Em ocasiões como essa, o discurso oficial brasileiro já vem pronto: "Não podemos ter relações apenas com quem concordamos", foi a frase-clichê repetida por Celso Amorim para justificar o voto brasileiro em Hosny. Também se costuma alegar altas razões geopolíticas, como a "aproximação com os países árabes" etc. É verdade. Nenhum país pode dar-se ao luxo de relacionar-se somente com quem está de acordo. As eleições em organismos internacionais obedecem a complexos cálculos geopolíticos e estratégicos. Tudo isso é verdade. Como verdade também é o fato elementar de que não se pode apoiar para a direção da UNESCO um conhecido antissemita e queimador de livros.

Nossos sábios do Itamaraty acreditam que é sempre melhor dialogar com figuras como Hosny do que firmar posição em defesa de coisas como democracia e direitos humanos. Com isso, acreditam que o Brasil, do alto de seu poder, poderia influenciar, de algum modo, governos como o do Irã e da Coreia do Norte. Como se fosse possível influenciar e trazer à razão quem nega o Holocausto e queima livros. A essa atitude auto-proclamada pragmática chamam de smart power. Recentemente, tivemos uma amostra bastante didática desse smart power, com o convite feito por Lula e Celso Amorim para que o antissemita e negador do Holocausto Mahmoud Ahmadinejad visitasse o Brasil. Na última hora, e sem avisar o Itamaraty, Ahmadinejad cancelou a visita. Esnobado, o Itamaraty teve como único resultado concreto uma chuva de críticas de todos os lados pelo convite ao sucessor de Hitler. Isso é smart power...

Pensando bem, não deveria causar surpresa o apoio do Brasil a tipos como Farouk Hosny. Defender a candidatura à direção da UNESCO de um queimador de livros é mesmo a atitude mais coerente de um governo que se nega a condenar o genocídio de 300 mil pessoas pelo governo do Sudão e que recusa a Israel o direito de se defender, além de ver "democracia até de mais" em países como Cuba e a Venezuela. Pensando bem, é mesmo algo coerente. Assim como coerente foi a declaração do Apedeuta a respeito da farra das passagens áreas no Congresso, de que não se tratava, afinal, de crime tão grave assim... Sabem como é: para quem tem um mensalão nas costas e já disse que caixa dois é algo "normal, porque todo mundo faz", alguns milhões de reais dos cofres públicos para levar a namorada para passear não é grande coisa mesmo.

Nas últimas semanas, um deputado causou furor ao dizer que se lixa para a opinião pública. Foi, com justiça, linchado pela imprensa. O governo Lula, o Itamaraty, estão se lixando para os direitos humanos. Estão cantando e andando para a democracia. E parece que ninguém está dando a mínima.


segunda-feira, maio 11, 2009

O MINISTRO MACONHEIRO


Mais um texto impecável do blog do Reinaldo Azevedo. Até pensei em escrever algo sobre o assunto, mas fico acanhado de fazê-lo quando me deparo com algo assim: um artigo preciso, claro, cortante como uma navalha bem afiada. RA não dá trégua aos petralhas e aos cultuadores da ilegalidade como suprema virtude revolucionária. Diante de uma paulada dessas, qualquer coisa que eu pudesse escrever seria supérflua.

Só um comentário breve, se me permitem. Há duas maneiras de encarar o crime: uma, é combatê-lo sem contemplação e defender a Lei como válida para todos; outra, é se render à prática ilegal, "descriminalizando-a". Quem defende a primeira é tido como careta e reacionário. Quem defende a segunda vira ministro de Estado do governo Lula.

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TIREM O COLETE DE MINC E LHE METAM UMA CAMISA-DE-FORÇA

O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, como sabem, foi à Marcha da Maconha. O homem é mesmo um revolucionário. Numa das ações armadas de que participou quando pertencia a um grupo terrorista, o mesmo de Dilma Rousseff, um inocente foi assassinado. O homem já treinava os dedos para mudar o mundo. Que coisa! Minc é ministro de Lula. A menos que seja ainda mais irresponsável do que dá a entender, foi à tal manifestação com autorização de seu chefe. Na prática, é como se o governo se mobilizasse contra uma lei que ele tem de fazer cumprir. E a presença de Minc na tal marcha se torna, então, um emblema do real comprometimento do governo com o combate às drogas.

Sua fala no evento não poderia ser mais clara: “A lei atual despenalizou, mas não descriminalizou. Ainda é crime [fumar maconha], e eu acho que nós deveríamos avançar". Como se vê, trata-se da fala de quem tem uma agenda, de quem sabe que é preciso caminhar aos poucos, mas “avançar” sempre. Hoje a maconha; depois, a cocaína; amanhã, sabe Deus. Botaremos todos os brasileiros na legalidade extinguindo as ilegalidades, entenderam? Corolário: se voltarmos ao estado da natureza, os crimes deixam de existir. Como já escrevi aqui, em vez de a sociedade corrigir os Marcolas, os Marcolas é que vão reeducar a sociedade.

Pouco me importa, já escrevi quinhentas vezes, o que cada um fuma, cheira ou injeta. Não tenho nada com isso. Ocorre que a droga, infelizmente, não é só uma mera questão de adesão ou não a um hábito ou vício.

Pensemos um pouco sobre a fala do “Coroa do Rio”, com aquela sua pinta de Tio Sukita do surf. O efeito da liberação total da maconha — descriminada, na prática, ela já está — no que respeita ao crime organizado seria ZERO. Para que houvesse alguma mudança nessa área, seria preciso descriminar todas as drogas, especialmente a cocaína. E o Brasil adotaria sozinho tal posição. O resto do mundo continuaria a reprimir as drogas. Passaríamos a ser um centro mundial de atração de cérebros derretidos. Como se não nos bastassem os nossos próprios idiotas — alguns deles no topo da República.

Esse ministro bocó deveria estudar um pouquinho, um pouquinho só, de lógica e de economia antes de disparar suas tolices. O que Minc acha que aconteceria com a mão-de-obra criminosa que hoje se dedica ao narcotráfico? Todos se converteriam em trabalhadores? Até o mais rematado dos imbecis, menos Minc, pode intuir o óbvio: ela migraria para outros crimes.

“Ah, te peguei, Reinaldo! Então você está dizendo que o narcotráfico é até uma solução?” Não! Estou afirmando que o governo não cumpre a sua parte na repressão ao tráfico de drogas e suas conseqüências, como o tráfico de armas. Elas chegam de barco em plena Baía da Guanabara! As fronteiras brasileiras são terra (e águas) de ninguém. E esse estado continuaria a ser omisso. A legalização das drogas, que levaria a uma explosão de consumo — com as suas previsíveis e óbvias conseqüências na saúde pública —, faria o país mergulhar no caos social. Acreditem: o estado necessário para cuidar dos efeitos da liberação teria de ser muito mais competente do que aquele que se encarrega — e mal — da repressão. Ou seja...

Alguns dos meus leitores devem fumar maconha. Outros podem se emocionar quando uma linha reta, de repente, dá uma entortadinha. Alguns talvez gostem do Bolero de Ravel. Tenho certeza de que há quem vá ao cinema e mande colocar aquela manteiga nauseabunda na pipoca — pelo amor de Deus, gente! Cinema é lugar de namorar, não de entupir as coronárias... O ser humano é variado, às vezes estranho. Digo, com Terêncio, que nada do que é humano me é estranho. Mas não imito Fernando Lugo, o garanhão de batina (levantada) do Paraguai. Não recorro a Terêncio para justificar minha falta de limites. Ao contrário: ele me serve como convite à tolerância com o Outro (o que não quer dizer, claro, condescendência com o vale-tudo). Pois bem: digamos que não haja nada de intrinsecamente mal na maconha (não é a opinião de um bom número de estudiosos) e que consumi-la possa ser igual a ouvir, como faz alguém em algum apartamento aqui das redondezas, o Bolero no último volume (a minha sorte é que há um bando de maritacas que mora entre o meu prédio e o prédio vizinho...).

Bem, se o mundo decidir proibir o Bolero ou a nauseabunda manteiga derretida na pipoca — sei que não contarei com essa graça, hehe... —, por mais que eu considere que seja mera questão de gosto e direito individual consumir ou não aquelas drogas, será preciso que eu reflita sobre as conseqüências de integrar a cadeia certamente criminosa que se vai formar para comercializar o Bolero e a manteiga. Por alguma razão, o Bolero e a manteira são liberados mundo afora, mas as drogas não. A questão não é de moral privada, mas de ética coletiva. Essa história de que “sou apenas o consumidor e não tenho culpa se a maconha é proibida” é típica do infantilismo ético do nosso tempo. Tem, sim. Ao fazer certas escolhas, amigão, você escolhe um mundo. O fato de haver pessoas nefastas que não consomem drogas e consumidores que podem ser gente boa não serve como critério para orientar políticas públicas.

IRRESPONSÁVEL. É isso o que Minc é. Ele é ministro de Estado. Se vai a uma marcha da maconha, leva a voz do governo. A música que embalou a passeata, como se noticiou, era a tal “Vou apertar, mas não vou acender agora”, toda ela feita de referências um tanto desairosas à Polícia — e, pois, ao estado —, em oposição à suposta esperteza da nata da malandragem. Nada mais patético do que ver os bacanas do Rio (ou de qualquer lugar) macaqueando a suposta linguagem dos pobres — pobres que, diga-se, não compareceram ao evento. Pais e mães de família dos morros e das periferias das grandes cidades detestam as drogas. Sabem que seus filhos, se vitimados pelo mal, terminam assassinados antes dos 20. Já os usuários de Copacabana, Ipanema ou Leblon terão vida longa. Podem consumir droga à vontade, que seu futuro está mais ou menos garantido. Os de mais sorte chegam a ministros de estado.

Imaginem se um comportamento como esse de Minc não viraria um escândalo político em qualquer democracia do mundo! Imaginem o que a oposição não faria... Por aqui, não vai acontecer nada. Ou melhor, vai: as drogas continuarão proibidas; a polícia continuará corrompida; o estado continuará omisso; 50 mil pessoas continuarão a ser assassinadas todo ano; os Mincs da vida continuarão a ir a marchas da maconha, e os marchadores da erva logo organizam uma outra marcha, aí pela paz. No sábado, dão dinheiro para os bandidos comprar rifles; no domingo, protestam contra o uso que eles fazem dos rifles que compraram. Entenderam?

Minc precisa trocar os seus coletes transadinhos por uma camisa-de-força. Pronto! Fumei um ministro inteiro. E não tou sentindo nada...