segunda-feira, abril 13, 2009

Viva João Ubaldo Ribeiro


Segue artigo do mulato, baiano e brasileiro João Ubaldo Ribeiro, um escritor que - felizmente - não sucumbiu à onda "politicamente correta" que quer nos convencer que o Brasil é um país bicolor onde impera um racismo tão ou mais funesto do que o que vigorou, um dia, na terra de Nelson Mandela. Saiu n'O Globo de 5/04.

João Ubaldo, como de hábito, acerta em cheio e deixa claro que coisas como raça são para mamíferos de quatro patas da família dos canídeos, não para seres humanos. Simplesmente perfeito, a começar pelo título, que já diz tudo. Uma resposta inteligente e bem-humorada a quem, sob o pretexto de combater o racismo (sempre da "elite, branca e de olhos azuis", como diria o Apedeuta, aliás ele próprio, como escreveu certa vez João Ubaldo, um ex-mulato), está disposto a tudo - inclusive a torná-lo oficial. Assino embaixo.

Quem tem raça é cachorro

05/04/2009

No domingo passado, citei aqui a frase de meu amigo e conterrâneo Zecamunista que hoje uso como título. Ele de fato diz isso, como eu também digo, nas conversas intermináveis havidas com amigos desde a juventude, quando nos ocorre a felicidade de revê-los. Coroas meio ou bastante chatos, compreendemos quando os mais novos nos cumprimentam com a possível afabilidade, depois mantendo prudente distância. Portanto, a maior parte de nossas conversas não passa mesmo do papo de dois velhotes irresignados e rezinguentos, que não sai, e geralmente não deve ou não precisa sair dali, pois costuma ser algo sem o qual ou com o qual tudo permanece tal e qual, como sentenciava minha avó Pequena Osório, a respeito de meus livros.

Mas, no caso, quando estamos ameaçados de ver consagrada nas leis do País a divisão do povo basileiro entre raças, acho que devemos fazer o nosso papo transcender os limites do Largo da Quitanda, a ágora da Denodada Vila de Itaparica, onde hoje vultos menores, como Zeca e eu, ocupam com bem pouco brilho o lugar de tribunos da plebe legendários, como Piroca (Piroca é um apelido para Pedro, no Recôncavo Baiano; não tem nada demais, é um fenômeno que atinge o nome “Pedro” de forma curiosa; quer ver, pergunte a um amigo americano o que quer dizer “peter”, com P minúsculo) e Zé de Honorina, este negro pouco misturado com branco, aquele mulato. Zé, aliás, um dos homens mais inteligentes, argutos e eloquentes que já conheci – e cito o que se segue como um dado interessante – não tinha muita noção de que era negro e uma vez me pediu explicações sobre “negritude” e “irmandade” entre negros, conceitos que lhe eram pelo menos parcialmente estranhos.

Mas vou deixar de nariz de cera e de vaselina, porque creio que o assunto merece ser tratado na grossura mesmo, como vem sendo por muita gente, em todas as faixas de opinião. Quem tem raça é cachorro (em inglês, breed, não race), gente não tem raça. Não vou repetir, porque qualquer um com acesso ao Google pode se encher de dados sobre isto, os argumentos científicos que desmoralizam a raça como um conceito antropologicamente irrelevante e equivocado, sem apoio algum entre os que estudam a genética humana. Entretanto, o atraso da espécie (ou raça) humana leva a que continuemos a lhe emprestar importância desmedida e irracional, odiando por causa dele, matando por causa dele e até ameaçando o planeta por causa dele. De qualquer forma, incorporando o conceito de raça a seu sistema jurídico, o Brasil estará dando um ridículo (mas de consequências possivelmente temíveis, ou no mínimo indesejadas) passo atrás, mais ou menos como se o Ministério da Saúde consagrasse a geração espontânea de micro-organismos como fonte de infecções.

Mais ridículo e até grotesco é que os defensores do reconhecimento das “raças” que compõem o povo brasileiro façam isso depender de uma declaração ou opção da pessoa racialmente classificada, até mesmo em circunstâncias nas quais essa opção pode não ser honesta, mas apenas de conveniência, como nos casos, já acontecidos, de gente que se considerava branca declarar-se negra para obter a vaga destinada a um “negro”. Ao se verem num mato sem cachorro para definir a raça de alguém, exceto copiando manuais nazistas e tornando Gobineau e Gumplovicz autores básicos para a formação de nossos cientistas sociais, médicos, dentistas, músicos, atletas e profissionais de outras áreas onde as diferenças de aptidão ou fisiologia são “visíveis”, assim como era visível a superioridade dos atletas de Hitler que o negro Jesse Owen botou num chinelo, os defensores de cotas raciais se valeram desse recurso atrasado, burro, grotesco e patético em sua hipocrisia básica. Não há como defender critério tão estapafúrdio e destituído de qualquer fundamento.

Outra coisa chata, enquanto vemos o Brasil querer botar na letra da lei, o que outros países onde houve e há até mesmo apartheid, como nos Estados Unidos, não só de ontem como ainda de hoje, apesar do presidente Obama, fazem força para retirar, é a persistência do que eu poderia chamar de síndrome de Mama África, contra a qual quem eu mais vejo protestar são escritores amigos meus de países africanos, que não aguentam mais ser embolados num mesmo pacote como “africanos”, transformando em folclore disneyano a enorme complexidade cultural de um continente como a África. Burrice falar em “cultura africana”, “comida africana” e similares, em vez de pluralizar essas entidades, porque são plurais. Além disso, nada mais racista e simplório do que achar que os negros são “irmãos”. Os negros são tão irmãos entre si quanto os europeus entre si, ou seja, irmãos em Cristo, tudo bem. Mas o racismo contra si mesmos de muitos que se acham negros insiste em que há essa irmandade. Documentos escravagistas do Segundo Império, no Brasil, recomendavam que se mantivessem escravos de nacionalidades diversas na mesma senzala, porque muitos se odiavam ou desprezavam entre si mais do que ao opressor. Quem já viu um alemão racista olhar um polonês (eslavo, que curiosamente tem a mesma origem que “escravo”) sabe o que estou dizendo. Desumaniza-se o negro, tornando-o imune à baixeza de seus companheiros de humanidade (mas não de raça). Isto, claro, é outra asnice desmentida pelos fatos ontem e hoje. Ontem, quando mercadores negros de escravos vendiam outros negros por eles mesmos escravizados; hoje, quando negros continuam a escravizar negros e a guerrear entre si, exatamente como os homens de outras raças, o que lá seja isso, desgraça de atraso de vida na cabeça das pessoas, triste exemplo de um país misturado pela graça de Deus querer jogar no lixo esse dom inestimável e irreproduzível, “modernizando-se” pela condenação por vontade própria ao que a História não o condenou.

quinta-feira, abril 09, 2009

UMA VOZ DA RAZÃO EM MEIO À BARBÁRIE

Nonie Darwish é uma escritora e palestrante nascida no Egito em 1948. Quando criança, sua família mudou-se para a Faixa de Gaza, então controlada pelo governo egípcio. Seu pai, um oficial do Exército, era o Chefe do Serviço de Inteligência do Exército egípcio em Gaza. Como tal, organizou diversos ataques terroristas levados a cabo por militantes árabes ("fedayeen") contra a população de Israel - àquela época, anos 50, já havia terrorismo árabe contra Israel; não foi algo que surgiu somente após a derrota árabe na Guerra dos Seis Dias, em 1967, como se convencionou dizer depois.
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Em 1956, comandos israelenses assassinaram, em represália, o pai de Nonie Darwish, que se tornou assim um "shahid" (mártir) da causa árabe. Em discurso, o então presidente do Egito, o coronel Gamal Abdel Nasser, então um ídolo para milhões de árabes, chegou a perguntar às duas filhas do militar assassinado, uma delas Nonie Darwish, ainda crianças: "qual de vocês duas irá vingar a morte de seu pai matando judeus?"
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Diante do que está aí em cima, seria de esperar que Nonie Darwish, que nasceu no mesmo ano da criação do Estado de Israel, fosse uma antiisraelense e antissionista raivosa, uma aliada ou simpatizante, quando não militante ostensiva, de organizações palestinas radicais, como outrora foi a OLP de Yasser Arafat, ou uma devota fanática do terrorismo islamita praticado pelo Hamas ou pelo Hezbollah. Seria de esperar que ela fosse uma senhora amargurada, cheia de ódio e ressentimento, desejando do fundo de sua alma a destruição completa do Estado de Israel, com a consequente aniquilação de sua população. Certo?
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Pois é. Se você pensou assim, sinto informar, mas você está errado. Completamente errado. Dolorosamente errado.
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Pois Nonie Darwish não apenas NÃO é uma inimiga jurada de Israel e dos israelenses, como se transformou numa das mais ardorosas defensoras da paz com Israel. Mais que isso: ela é uma das poucas vozes árabes que defendem abertamente Israel e seu direito de existir. Em seu site, arabsforisrael.com, ela não poupa críticas aos governos árabes, aos quais acusa de se utilizarem do drama do povo palestino com objetivos políticos a fim de atacar Israel, negando, por exemplo, o direito dos palestinos adotarem a nacionalidade dos países em que se encontram, mesmo se forem casados com um nacional da Síria ou da Arábia Saudita. É essa estratégia claramente demagógica, e não a ação de Israel, aponta Darwish, a responsável pela miséria do povo palestino, que se arrasta por décadas.
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Sobre a morte de seu pai, Darwish dá o seguinte depoimento: "Eu sempre culpei Israel pela morte de meu pai, porque foi isso que me foi ensinado. Eu nunca procurei saber por que Israel matou meu pai. Meu pai foi morto porque os fedayeen estavam matando israelenses. Meu pai foi morto porque, quando eu era menina, tínhamos que recitar poesia que pregava a jihad contra Israel. Ficávamos com lágrimas nos olhos, prometendo que queríamos morrer. Eu falo para gente que pensa que não havia terrorismo contra Israel antes da guerra de 67. Como podem negar isso? Meu pai morreu por isso."
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Quanto ao Islã, com quem rompeu há anos, Darwish é também incisiva. Ela afirma que o Islã é uma ideologia retrógrada e autoritária que está tentando impor ao mundo normas de comportamento e de pensamento do século VII. Vai mais além: o Islã é uma força sinistra a que devemos resistir e conter. Ela diz ser difícil compreender como toda uma religião e uma cultura acredita que Deus ordena a matança de não-crentes, e acusa o Islã e a Sharia (a lei islâmica, vigente em países como o Irã) de, com sua incitação ao ódio e à violência, aumentar a miséria no mundo. Para ela, o Corão é um texto "violento, incendiário e desrespeitoso", que enaltece a brutalização de mulheres, a perseguição de homossexuais, assassinatos por honra, a decapitação de apóstatas e o apedrejamento de adúlteros, entre outras barbaridades.
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Naturalmente, Nonie Darwish é um alvo frequente de ameaças de morte por parte dos fundamentalistas islamitas, que veem nela uma "traidora" da causa islâmica, ainda mais porque ela se converteu ao cristianismo e é hoje cidadã dos EUA. Mas, como ocorre com todos os que lutam o bom combate, ela não se intimida. Pelo contrário: as acusações de heresia e de apostasia apenas fortalecem sua disposição de combater o obscurantismo islamofascista e defender a paz com Israel. Seu último livro, aliás, tem um título sugestivo: Now They Call me Infidel (Agora eles me chamam de infiel).
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Os idiotas e cretinos de todos os tipos, que se acostumaram a atacar sem trégua a ação militar de Israel contra seus inimigos mas se omitem de condenar o islamofascismo e o terrorismo islamita, certamente veem em Nonie Darwish uma aberração, ou nada mais que uma "traidora" da causa árabe e palestina. Sobretudo nossos esquerdiotas, que adoram posar de bons-moços e adorariam ver Israel riscado do mapa, mas não ousam admiti-lo em público, veem nela só mais uma conservadora de direita - como se "conservador" e "de direita" fossem verdadeiros anátemas. Certamente, imaginam que uma mulher com sua história de vida, obrigatoriamente, deveria estar vociferando contra o "terrorismo de Israel", ou até mesmo se lançando em um ataque homicida-suicida como mulher-bomba contra algum mercado israelense cheio de gente. Diante de uma mulher corajosa que faz exatamente o contrário, e não hesita em criticar duramente os ditos "moderados" que silenciam diante da violência terrorista e genocida de grupos como o Hamas, ficam estarrecidos. Não percebem, em sua estupidez, que é exatamente por causa de sua história de vida, e não apesar dela, que Nonie Darwish se converteu numa defensora de Israel e adversária implacável do terror islamita. Ela ousou desafiar o discurso do ódio pregado durante décadas contra os judeus e demais habitantes de Israel por mulás fanáticos e governos despóticos do Oriente Médio. Ao fazer isso, ela percebeu o óbvio: que a única solução para o problema israelo-palestino é o reconhecimento do direito de Israel à existência. Enquanto tanta gente não perceber isso, não haverá qualquer chance para a paz na região, e o ciclo de violência se perpetuará.
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Acrescentei o site de Nonie Darwish à minha lista de favoritos no blog. Vale a pena dar uma olhada. É um raio de luz em meio à escuridão. Uma voz da razão em meio à barbárie.

quarta-feira, abril 08, 2009

IDIOTAS ÚTEIS OU AGENTES DA TIRANIA?

Os jornais do mundo inteiro estamparam ontem a manchete com estardalhaço: "delegação de congressistas norte-americanos visita Raúl Castro em Cuba". A notícia foi saudada, por dez em cada dez grandes veículos de imprensa, como um "passo histórico" rumo à "normalização das relações" entre Cuba e os EUA. Uma demonstração clara da nova política do governo de Barack Obama para a ilha etc. etc.
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Os deputados que foram a Cuba são do Partido Democrata, o mesmo de Obama, e foram a Cuba como emissários do novo presidente norte-americano. É motivo suficiente para muita gente, especialmente nos círculos esquerdistas, ficar ouriçada com as brilhantes possibilidades de um futuro radioso pela frente. Afinal, tudo que diz respeito a Obama é imediatamente coroado com o adjetivo "histórico", ainda que seja a mera repetição de platitudes. Desconfio até que, se ele disser que a Terra é redonda, muita gente irá erguer a sobrancelha e exclamar que não sabia, até aquele momento. Há alguns dias ele esteve na Turquia, onde, para variar, fez mais uma declaração "histórica", ao dizer que a luta dos EUA era contra o terrorismo, não contra o Islã. Esqueceram-se que a frase vem sendo dita desde 2001, tendo sido repetida até a exaustão por ninguém mais, ninguém menos do que George W. Bush, o belzebu aposentado. Ah, esse Obama...
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E a visita dos sete congressistas americanos à ilha-prisão dos irmãos Castro? Também está sendo tratada, como não poderia deixar de ser, com confete e serpentina, mais um evento "histórico". Os deputados democratas avistaram-se com Raúl e com Fidel Castro, que classificou o encontro como "magnífico" (hummm...). É motivo suficiente, a meu ver, para ficar com o pé atrás. Os deputados falaram em acabar com o "bloqueio" americano à Cuba (hummm...), esquecendo-se que o único bloqueio existente é o que a ditadura dos irmãos Castro impõs ao povo cubano, já se vão mais de cinquenta anos. Após encontro com Fidel Castro, a chefe da delegação, a deputada Barbara Lee, disse, cheia de entusiasmo, que o Coma Andante "nos pareceu cheio de energia, nos reunimos em sua casa, uma casa muito modesta. Sua mulher estava lá, seu filho tirou fotos, foi um encontro muito emotivo, de certa maneira". Comovente, sem dúvida. Desnecessário dizer, mas as excelências não mencionaram em momento algum os presos políticos na ilha, nem se dignaram a se encontrar com nenhum deles.
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Até aí, você poderia dizer, nada de novo no front da desinformação esquerdista: visitas como essa ocorrem desde o governo Carter, que também ensaiou uma aproximação com Havana, recompensada em 1979 com o apoio de Fidel Castro à invasão do Afeganistão pela então URSS, e no ano seguinte com um dos maiores êxodos de refugiados dos tempos modernos, no qual o tirano aproveitou para se livrar de milhares de elementos "indesejáveis" na ilha-presídio. A visita seria apenas - de fato, foi - apenas mais um capítulo na interminável novela de enganação e auto-enganação patrocinada pela esquerda ocidental, que acredita piamente, ou finge acreditar, sei lá eu, que a ditadura castrista um dia chegará ao fim, bastando que para isso os EUA - sempre os EUA - deem o "primeiro passo". É uma lorota das grandes, claro. Mas o que me chamou a atenção, nesse caso, foi que, até mesmo para o nível habitual de enganação que cobre todas as notícias que nos chegam sobre Cuba, a visita dos parlamentares americanos ultrapassou todos os limites de mentira e manipulação.
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Vejamos a chefe da torcida organizada pró-tirania cubana, a deputada pela Califórnia Barbara Lee. Querem conhecer um pouco da referida? Dei uma pesquisada na internet. A mencionada foi, simplesmente, a única parlamentar que votou contra a decisão do governo norte-americano de usar a força contra a Al-Qaeda no Afeganistão depois dos ataques de 11 de setembro. Querem saber mais? Ela é uma militante esquerdista de longa data, tendo começado a carreira como simpatizante do grupo Panteras Negras, que pregava o racismo negro nos anos 60 e 70. Natural, portanto, que tenha feito boca de siri em relação à situação dos direitos humanos na ilha de Cuba, e se empenhado, em vez disso, em conseguir, junto ao governo dos EUA, a libertação de cinco espiões cubanos presos há anos nos EUA, onde foram condenados após julgamento, na forma da lei, tendo-lhes sido garantidas todas as possibilidades de defesa (coisa que não se pode dizer dos presos políticos cubanos). Uma pessoa altamente gabaritada para cumprir tão importante missão, não acham?
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"Ah Gustavo, mas que preconceito! Só porque ela é de esquerda..." Pudera. Se fosse só o que está aí em cima, já seria o suficiente para duvidar de mais essa tentativa de "aproximação". O problema, porém, vai mais além. A tirania castrista - a ditadura mais antiga do Ocidente - só existe e se mantém há mais de meio século por causa da repressão interna, implacável, e do apoio declarado de governos favoráveis, como os da Venezuela e do Brasil, e de idiotas úteis, que insistem em ver na ditadura castrista um exemplo de "dignidade" e de "resistência", enxergando na suposta intransigência da política norte-americana a verdadeira culpada pela... ditadura castrista, ora pois! Afirmam, nesse sentido, que basta o governo norte-americano - o culpado por tudo - fazer alguns gestos de boa vontade, como levantar o embargo comercial, e a ilha se tornará, um dia, uma democracia sueca. É uma mentira deslavada, que só se sustenta pela repetição incessante nos cérebros mal-informados. Cuba não é uma tirania por vontade dos EUA, nem deixará de sê-lo por causa disso. Nem, muito menos, vai virar uma democracia sendo adulada.
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Gente como Barbara Lee e os palhaços que a acompanharam a Havana para lamber as botas de Raúl Castro e de seu irmão moribundo não merecem sequer ser chamados de idiotas úteis. Ao contrário desses, eles não podem alegar ignorância ou ingenuidade. São, isso sim, agentes conscientes de uma das tiranias mais sanguinárias da História da América Latina. E não são os únicos.

terça-feira, abril 07, 2009

Eu, defensor da extrema-direita...

Vejam que gracinha o que me escreveu um anônimo:
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Blog do contra:
Contra a esquerda
Contra todos
Mas defende com unhas e dentes a extrema direita.
Você é contra o que?
Os idiotas!
Os sem cultura!
As barbáries!
Os ignorantes!
Você é contra o que mesmo?
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Comento ou ignoro? Confesso que fiquei na dúvida. "Mas defende com unhas e dentes a extrema direita"... Presumo que o cidadão está se referindo aos textos em que critico sem ambiguidade as ditaduras de esquerda, como a de Cuba e da Coreia do Norte. Contraponho a esses regimes totalitários e às ideologias que lhes dão sustentação, e nisso tento ser o mais claro possível, os direitos do Indivíduo, o Império da Lei e o Estado de Direito Democrático. Isso faz de mim um defensor empedernido da extrema-direita mais hidrófoba, não? Claro, porque, se eu ouso criticar os dogmas esquerdistas, eu só posso ser um fascista, não é mesmo? Que falta de imaginação!
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Para que eu não tenha de acionar a tecla SAP: sou contra todas as ditaduras, de esquerda ou direita; acho-as todas, sem exceção, execráveis, aberrantes. Para mim, Stálin e Hitler, Fidel e Pinochet, são a escória da humanidade. E nossos esquerdiotas e esquerdopatas, será que podem dizer o mesmo?
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É impressionante como há imbecis que creem, de boa ou má-fé, que criticar as empulhações e atrocidades da extrema-esquerda é o mesmo que bater palmas para os desmandos da extrema-direita. Como se ambas não fossem, na verdade, as duas faces da mesma moeda. Infelizmente para eles, existe uma coisa chamada Liberalismo - ainda pouco conhecido no Brasil, é verdade, mas um dia chegamos lá...
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Você é contra o que?
Os idiotas!
Os sem cultura!
As barbáries!
Os ignorantes!
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Exatamente.
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quarta-feira, abril 01, 2009

LULA NA "NEWSWEEK": UM FESTIVAL DE BESTEIRA E CINISMO


(Na foto, uma legítima cachapa venezuelana)
Para Lula, impor uma ditadura é uma questão da "cultura local"


Lula deu uma entrevista ao jornalista Fareed Zakaria, da Newsweek. Está na edição desta semana da revista. Na capa, a foto dele, Lula, com a chamada "Precisamos ser ousados". Original, não?
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Comecei a ler a entrevista, que também está no site da revista, e fui logo tomado de um sentimento de tédio irresistível. As perguntas do entrevistador, um conhecido esquerdista norte-americano (lá eles são chamados de "liberais"), parecem ter sido feitas sob medida para apresentar o Apedeuta como um grande estadista. "Seu encontro com o presidente Obama durou mais do que esperado. Sobre o que falaram?", "O senhor se deu muito bem com o presidente Bush. Em que eles são diferentes?", "O senhor é provavelmente o líder mais popular do mundo, com 80 por cento de aprovação. Por quê?", e por aí vai.
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As respostas de Lula, como esperado, não trazem nada de novo, são as mesmas a que já nos acostumamos faz mais de seis anos. Sobre o encontro com Obama, Lula disse que falaram de crise econômica e etc. coisa e tal. Disse que reza mais por Obama do que por ele mesmo, "porque os problemas dele são muito mais delicados do que os meus" (ou, antes da tradução: "pruquê us pobrêma dele sum mais cumpricadu que us mêu") . Na hora de explicar sua popularidade, a mesma lengalenga de sempre: o governo vem conciliando crescimento da economia com distribuição de renda, fazendo muito pelos pobres, já retirou 20 milhões da linha de pobreza, já entregou luz elétrica a cerca de 10 milhões de lares, vem aumentando o salário mínimo etc. etc. E aí por diante. Quase se vê o Lula com seu sorrisinho, gesticulando, dizendo "sabe", "ou seja" com a mão levantada, como se estivesse esticando um varal imaginário para dar ênfase ao que diz, enquanto pensa: "esse gringo já está no papo; já engoliu minha conversa direitinho hehe". Enfim, um trololó danado.
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Lula, com aquele seu jeitão de tiozinho que joga toda quinta-feira no bicho, e que muitos na "zelite" tomam por genuína espontaneidade de quem "é do povo", respondeu em seguida uma pergunta oblíqua sobre a reunião de dezembro passado de 33 chefes de estado latino-americanos na Costa do Sauípe - aquela em que Cuba foi admitida no Grupo do Rio sem que ninguém falasse em democracia na ilha-presídio. Lula disse que a reunião foi importante porque pela primeira vez (quase vejo ele dizendo: "nunca antes na história do mundo"...), os países da região haviam se reunido sem uma superpotência econômica como os EUA, e isso era uma forma de ter uma presença maior no cenário mundial. Repetiu ainda a conversa manjada - e furada - de que espera que, com a crise, os países em desenvolvimento tenham uma maior influência na política mundial, tanto em instituições como o Banco Mundial e o FMI quanto no Conselho de Segurança da ONU etc. e tal.
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A essa altura, eu já estava quase arrependido de ter comprado a revista, já havia começado a procurar uma lata de lixo para lhe servir de túmulo, quando resolvi fazer um esforço adicional e ler as duas últimas perguntas da entrevista. Traduzi-as para vocês, com as respectivas respostas:
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O senhor é considerado um grande símbolo da democracia nas Américas. E entretanto algumas pessoas dizem que o senhor tem ficado calado enquanto Hugo Chávez tem destruído a democracia na Venezuela. Por que não falar? Se o Brasil quer um papel maior no mundo, não seria o caso de se colocar a favor de certos valores? Bem, talvez não possamos concordar com a democracia venezuelana, mas ninguém pode dizer que não existe democracia na Venezuela. Ele [Chávez] passou por cinco, seis eleições. Eu só tive duas.
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Ele tem bandos armados nas ruas. Isso não é democracia de verdade. Olha, temos que respeitar as culturas locais, as tradições políticas de cada país. Já que eu tenho 84 por cento de apoio nas pesquisas de opinião, eu poderia propor uma emenda à Constituição para um terceiro mandato. Eu não acredito nisso. Mas Chávez quis ficar... Eu acredito que mudar de presidente é importante para o fortalecimento da própria democracia.
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O que dizer do que está aí em cima? Fico imaginando que, a cada pergunta, Celso Amorim ou, talvez, Marco Aurélio "Top, Top" Garcia estariam do lado, cutucando o Apedeuta e dizendo baixinho no ouvido dele: "repete aquilo que combinamos, presidente; sempre dá certo com esses americanos trouxas" etc. Pois é... Ninguém pode negar que a Venezuela é uma democracia, diz Lula, pois, afinal, lá já houve umas cinco ou seis eleições... Como se democracia fosse sinônimo de plebiscitos, não de exercício democrático do poder ou de respeito ao Estado de Direito Democrático.
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Mas o pior foi o que veio em seguida: é preciso respeitar as culturas e tradições locais, disse o Babalorixá, como o hábito de alguns presidentes de ter bandos armados nas ruas... Chávez já mandou fechar uma emissora de TV que lhe fazia oposição e já expulsou deputados e jornalistas estrangeiros que falaram mal de seu governo (assim como Lula), além de ter fortes laços comprovados com as FARC, os narcoterroristas colombianos. Mas, e daí? Isso tudo é parte da cultura local, como uma cachapa ou uma arepa, os pãezinhos típicos venezuelanos, ou das tradições políticas do país... A Venezuela esteve livre durante quarenta anos de candidatos a ditadores como Chávez, mas é ele que expressa a tradição política venezuelana... Nesse momento, Zakaria deve ter pensado: "pô, esse Lula é um dos meus mesmo, um verdadeiro multiculturalista".
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Não é preciso muita imaginação para perceber que o mesmo critério antropológico se aplica à perfeição a outros governos que Lula admira, como a ditadura dos irmãos Castro em Cuba. Há fuzilamentos e presos políticos? "É da cultura local", claro. E os 2 milhões que fugiram da ilha? "É parte da tradição política"... Claro, claro. Apenas uma coisa me intriga: por que esse mesmo tipo de argumento não foi usado pelos companheiros petistas quando se referiam à ditadura de Pinochet no Chile, anos atrás? Deixa pra lá.
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Se mente de forma tão descarada em relação a outros presidentes, Lula não fica atrás em relação a si mesmo. Talvez Zakaria e o público americano acreditem que ele, Lula, jamais pensou em terceiro mandato, e que - vejam só -, mesmo com 84 % de popularidade, ele não cogitou da ideia, e que acredita mesmo em coisas como alternância política e democracia. Como se ele não tivesse deixado sua tropa de choque ficar meses e meses cozinhando a ideia no Congresso, para ver se dava certo. Não deu. E, agora, ele prepara a companheira Dilma e diz acreditar na democracia.
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Mas, afinal, por que ele se diz tão interessado em democracia? Afinal, ela não faz parte de nossa cultura local, nem de nossa tradição política, não é mesmo?
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Quanta besteira! Quanto cinismo!

A FARSA DA "DOUTRINA OBAMA" - UM TEXTO IMPECÁVEL

Um diplomata do Talibã negociando com uma mulher que ousou mostrar os olhos em público...


Reinaldo Azevedo escreveu em seu blog o texto que eu gostaria de ter escrito sobre o mais novo oba-oba em torno da tal "Doutrina Obama", segundo a qual o novo Messias encarnado irá fazer a paz com o Irã e com os Talibãs e nos conduzir todos a uma Terra Prometida de paz e amor infinitos. Eis o texto. A única coisa que lamento nele é que não fui eu que o escrevi.
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P.S.: Atenção para o link no texto abaixo. É coisa pesada mesmo. Recomendo que, quem tiver coração fraco, não olhe. Basta dizer que é com esse tipo de gente que muitas almas puras ou nem tanto acham possível negociar. Extremamente não recomendável para pessoas sensíveis ou para idiotas úteis.
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AS MISTIFICAÇÔES DA SUPOSTA DOUTRINA OBAMA
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Sempre que alguém fala em morte das ideologias, dou um certo risinho de... desconsolo. Às vezes, rebato. Com freqüência, me calo. Sim, admito: essa conversa mole começou entre os, vá lá, conservadores. As idéias de, como é mesmo?, “justiça social e igualdade” que embalam o discurso esquerdista são tão sedutoras, que os seus adversários resolveram opor ao embate ideológico aquele que seria um termo neutro: "eficiência". Assim, uma medida seria boa ou má não em razão de seu viés ideológico, mas de sua eficácia supostamente neutra. Ou no que já virou clichê da esperteza chinesa: pouco importa a cor do gato desde que ele cace o rato. Adiante.
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E, no entanto, as ideologias não morreram, é claro. Estão aí. Com freqüência, quando lemos sites, jornais, revistas, blogs, lemos mais ideologia propriamente do que fatos; lemos mais uma reconstrução da realidade segundo uma visão de mundo hegemônica do que propriamente fatos. Falei até agora em tese. Vamos ao caso concreto: a conferência de hoje em Haia sobre o Afeganistão, liderada por Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA. Aqui e no mundo, noticia-se o que chamam de “mudança da política americana” para a região. É mesmo?
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Bem, se querem chamar de mudança o aumento da dose de remédio que a administração Bush vinha aplicando no país, tudo bem: Obama decidiu mandar mais soldados pra lá. E Hillary Clinton, em sua intervenção, pregou a necessidade de eleições limpas no país — que vem a ser a versão do Partido Democrata para, como é mesmo?, a implantação de regimes democráticos em ditaduras islâmicas. Até anteontem, isso não passava, dizia-se, de um delírio dos neoconservadores. A turma de Obama e de Clinton seria mais realista e voltaria ao paradigma de “ditador bom é ditador que é nosso amigo”.
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Outra grande novidade estaria sintetizada nesta frase de Hillary: “Devemos apoiar os esforços do governo do Afeganistão em separar os extremistas da Al-Qaeda dos taleban que se uniram ao grupo não por convicção, mas por sinal de desespero". Se você quer conhecer o que é o Taleban de fato, clique aqui. AVISO: É PARA QUEM TEM ESTÔMAGO FORTE. É A PRÓPRIA MANIFESTAÇÃO DO HORROR. Um garoto de 12 anos degola um inimigo, um “traidor”, e o faz com gosto. É o mal! É o coração das trevas. REITERO: NÃO É PARA QUALQUER UM. EU NÃO RECOMENDO QUE VOCÊS VEJAM.
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Sim, essa “visão” — porque não passa disto: uma leitura — não deixa de representar uma inflexão em relação àquela que o governo Bush fazia. Há uma leitura bastante influente, de que discordo absolutamente, segundo a qual é possível fazer uma distinção entre o jihadismo, à moda Al Qaeda, e o que seriam radicalismos de caráter, no fundo, nacionalista. A turma do Osama seria basicamente diferente do Hamas, do Hezbollah e do próprio Taleban, todos estes envolvidos com demandas locais. Embora recorram ao terror, os motivos os distinguiriam.
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Um cavalo é diferente de uma vaca, mas a diferença é irrelevante se eles forem trocar uma lâmpada. O terrorismo não é um desvio de conduta que conserva as informações essenciais da norma, mas pervertendo seu sentido. Acreditem: um regime ditatorial, que não recorra ao terror e busque uma aparência de legalidade, está ainda marcado pela democracia, mesmo que a renegue. Talvez tenha cura. O terrorismo tem outra natureza. Mais ainda quando seu horizonte é religioso, escatológico. Digamos, só por hipótese, que os israelenses todo escolhessem um novo Moisés para levá-los a uma nova terra prometida... No dia seguinte, além de o Hamas ter imposto a toda a região o regime tirânico que já vige em Gaza, o que mais aconteceria? Huuummm... Começariam os esforços para, vamos dizer, chegar a Paris... O programa do Hamas prevê combater os infiéis onde quer que eles estejam. A sua demanda local é só a mais urgente.
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Se isso é verdade para Hamas e Hezbollah, que têm como pauta imediata a destruição de Israel, o que não dizer dos talebans? Pesquisem um pouco. Eles já são, desde a origem, uma cria do que se chama “jihadismo”. Já nascem sem nem mesmo um limite territorial: ficam por ali, nas terras ignotas das fronteiras entre o Afeganistão e o Paquistão, transitando de um lado para o outro. Mais: na origem, contaram com amplo financiamento de estados islâmicos organizados. E se transformaram numa hidra. Acreditar que haja diálogo com taleban moderado corresponde a pedir à serpente que mude a sua natureza. A prova? Forneço: eles já chegaram ao poder, já foram governo, já tiveram a chance de seguir os passos da institucionalidade. Ocorre que eles só sabem praticar o terror. Como o Hamas. Como o Hezbollah.
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A nota final — para mim, uma ironia a caminho de ser uma piada — que indicaria a mudança de postura do governo americano seria o apelo à colaboração do Irã. É mesmo? Os aiatolás combateriam o mau terrorismo dos telebans em sua fronteiras, mas continuariam a financiar o terrorismo (devo chamar de “bom") do Hezbollah e do Hamas muito além de suas fronteiras? Eu realmente não acredito em terror islâmico local e terror islâmico global. Ainda que acreditasse, eu me negaria a criar uma “terrorômetro” para saber a partir de que temperatura ou grau a gente poderia ou não negociar com alguns deles.
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Volto ao começo. A despeito disso tudo, lê-se aqui e no mundo que está em curso uma fantástica mudança da ordem global: a doutrina Obama, não raro apresentada como muito melhor do que a “doutrina Bush”. Assim será até um novo atentado terrorista nos próprios EUA ou em algum outro palco influente do Ocidente. E então nos lembraremos, dramaticamente, da distinção entre retórica e realidade, entre fato e ideologia.

terça-feira, março 31, 2009

FALÁCIAS SOBRE 1964

Hoje, dia 31 de março, há exatos 45 anos, um movimento político civil-militar - chamado de golpe de Estado, por seus detratores, e de revolução ou contra-golpe, por seus apoiadores - depôs, pela força das armas e com rapidez surpreendente, sem quase nenhum derramamento de sangue, o presidente João Goulart. Começava aí um período que até hoje, quase cinco décadas depois, lança sua sombra e divide opiniões no Brasil - e permanece, paradoxalmente, desconhecido, no sentido de que as versões (ou melhor, uma versão, a dos "vencidos") se sobrepuseram aos próprios fatos, a ponto de se confundirem com eles.

O golpe/revolução/contra-golpe de 64 - não há consenso sequer sobre que denominação lhe dar - é, certamente, o momento definidor da vida política e cultural brasileira na segunda metade do século XX. E, no entanto, o conhecimento que temos sobre o que de fato aconteceu, sobre as circunstâncias e os personagens que levaram à derrubada do governo Jango e à instauração de um governo militar, permanece turvado, resvalando quase sempre para a propaganda ideológica pura e simples. Este é um campo em que, ainda hoje, as falácias proliferam.

Em um processo curioso de inversão, a "História dos vencidos" conquistou a hegemonia quase inconstrastável dos estudos sobre o período. Isso resultou no predomínio, durante décadas e gerações, de uma visão histórica contaminada de proselitismo esquerdista, gestada durante o próprio período militar. Paralelamente, a visão "oficial", militar, dos acontecimentos de 64, transmitida na mesma época em insípidos textos ufanistas e intragáveis lições de educação moral e cívica, era cada vez mais desmoralizada e se tornava motivo de chacota.

Tendo nascido dez anos depois da "Redentora", em 1974, passei praticamente toda a infância sob o signo dessa visão histórico-ideológica, que me foi passada nas aulas de História e OSPB - o sucessor das aulas de educação moral e cívica - por professores admiradores do socialismo cubano e da teologia da libertação. Aprendi desde cedo, portanto, que ter "senso crítico" era contestar as "injustiças socais" e o governo do general de plantão - João Figueiredo -, o que significava, quase sempre e sem que eu tivesse a menor consciência disso, endossar as teses de esquerda.

Assim, aprendi desde cedo, a exemplo de milhões de crianças iguais a mim, que o golpe - era sempre chamado de golpe, jamais de "revolução" - fora desfechado por um bando de generais truculentos ("gorilas") com o apoio (ou mesmo a participação direta) dos EUA e da CIA contra um governo democrático e popular - eram as palavras exatas que se diziam na sala de aula -, o único governo, dizia-se, que teve coragem de "fazer alguma coisa" pelos pobres do país etc. e tal. Segundo essa visão míope, o golpe fora o resultado de uma conspiração das elites (diríamos hoje "brancas e de olhos azuis"), latifundiários, empresários, banqueiros, especuladores, donos de jornais e, por fim, dos militares, que nada mais foram do que seus agentes a soldo. Enfim, uma quartelada contra a democracia etc. e tal. Já os "vencidos", os que haviam sido derrubados e lutavam naquele momento (1982, 83) pelas eleições diretas - inclusive um certo sindicalista barbudo de língua presa, que aliás disse em depoimento ter apoiado o golpe de 64 -, eram, eles sim, os verdadeiros defensores da liberdade. Ao mesmo tempo, de forma esquizôfrenica, éramos obrigados, crianças de sete ou oito anos de idade, a cantar todas as quintas-feiras o hino nacional no pátio da escola.

É impressionante como, após tanto tempo, os mesmos mitos e meias-verdades que nos eram passados na terceira série ainda são repetidos ad nauseam nas salas de aula de todo o País. A ponto de não haver praticamente nenhuma "História alternativa" de 1964 - é sempre a visão da esquerda, dos que foram "derrotados", que prevalece.

Vejamos alguns desses mitos, e como eles estão presentes, de forma quase inconsciente, em nossa forma de pensar.

Uma das principais lendas criadas sobre 1964 diz que o governo João Goulart era um governo democrático, que foi derrubado exatamente por isso. Ou seja: os militares que o depuseram o fizeram com o único objetivo de acabar com a democracia e impor um regime tirânico - por pura maldade, só falta dizer. Na minha mente infantil, carregada de estereótipos do tipo bem contra o mal, decorrente da leitura voraz de revistas em quadrinhos, não foi difícil para mim engolir essa tese. Desconfio que é esse mesmo mecanismo mental que leva tantos adolescentes a venerarem, ainda hoje, os ícones da esquerda do período, como Che Guevara.

Pois bem. Hoje, no distanciamento histórico, não há motivo para ter essa visão maniqueísta e simplista. O golpe - e foi golpe mesmo - de fato marcou uma ruptura com a ordem constitucional, abrindo o caminho para o que veio depois. Mas, pode-se dizer que o governo deposto, o governo de João Goulart, era um modelo de respeito às normas da vida democrática? Melhor: pode-se dizer que ele foi derrubado exatamente porque era democrático? A tese é falsa e é absurda.

Vamos aos fatos: em março de 1964, precisamente após o famoso comício da Central do Brasil, no dia 13 de março, o presidente João Goulart e seu governo já haviam dado claras demonstrações de que estavam se colocando, quando não já haviam se colocado, fora da ordem democrática. Desde que retomara plenamente os poderes presidenciais, em janeiro de 63, João Goulart não fez outra coisa senão minar as bases da legalidade constitucional - mesma legalidade em nome da qual fora empossado presidente, após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Cercado de elementos esquerdistas e ultra-esquerdistas, como seu cunhado Leonel Brizola, Goulart passara a chefiar, ou se tornara prisioneiro, de um gigantesco esquema de subversão política - a palavra é feia, eu sei, é mais uma que ficou desgastada e desmoralizada pelo uso posterior pelos militares, mas é correta -, que visava, em última instância, à instalação, no Brasil, de uma república socialista, ou sindicalista, nos moldes do peronismo argentino. Para tanto, sua base de sustentação política se transferira do Congresso e de outro órgãos legais para os partidos de esquerda como o PCB (então ilegal, mas bastante ativo), os sindicatos (CGT, PUA etc.) e, finalmente, os setores subalternos das Forças Armadas, especialmente os sargentos e os marinheiros - decisão esta que foi, aliás, a gota d'água para sua deposição.

Os fatos não mentem. Em outubro de 1963, logo após uma rebelião de sargentos que deixou dois mortos em Brasília - e cujos líderes foram tratados com benevolência pelo governo -, Goulart tentou fazer aprovar, no Congresso, a decretação do estado de sítio no Brasil. A medida não foi aprovada, em parte, pela oposição da própria esquerda, que temia um golpe... do próprio Goulart! Era quase um consenso, no começo de 1964, de que haveria um golpe - só não se saberia se da esquerda ou da direita. O PCB, então sob a chefia de Luiz Carlos Prestes, acreditava piamente que as condições estavam maduras para tomar o poder e transformar o Brasil num país comunista ("já estamos no governo; falta apenas tomarmos o poder", chegou a dizer Prestes às vésperas da queda de Goulart).

Entre os setores que apoiavam o governo, era quase unanimidade que o golpe viria não dos militares, mas do próprio governo - convicção compartilhada pelo embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon, que não cansava de repetir, em seus telegramas a Washington, que Goulart estava preparando o caminho para instalar uma espécie de ditadura, mediante um auto-golpe semelhante ao desfechado por Getúlio Vargas em 1937.

Diante de tudo isso, com a radicalização política avançando a níveis galopantes, juntamente com a inflação de 80% ao ano (um record para a época), Goulart - por ambição desmedida, por inabilidade política, por ingenuidade, ou por tudo isso junto -, apostou todas as fichas não na contenção, mas no apoio da esquerda radical, trocando a hierarquia e a disciplina militares pelo patrocínio às sublevações de sargentos e marinheiros - no dia 30 de março, ele discursou, no Automóvel Clube do Rio de Janeiro, para sargentos e marinheiros que se haviam amotinado apenas uma semana antes, inclusive o famoso Cabo Anselmo. Para os comandos militares e para a parcela da opinião pública que não compartilhava dos objetivos esquerdistas, a opção de Goulart pela ilegalidade revolucionária era um fato irreversível e inquestionável.

Não surpreende, portanto, que o movimento para derrubar Goulart tenha mobilizado e contado com o apoio entusiasmado de camadas significativas da população - a classe média, a Igreja católica, a imprensa - com exceção da Última Hora, jornal do getulista Samuel Wainer, toda a grande imprensa brasileira apoiou entusiasticamente o golpe -, bem como dos principais governadores de estado e políticos que, posteriormente, passariam à oposição, como Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek - e inclusive de um então relativamente desconhecido deputado chamado Ulysses Guimarães.

Tais fatos hoje em dia são pouco lembrados, uma vez que é muito dificil para a historiografia de esquerda reconhecer que o movimento que depõs Goulart contou com amplo apoio popular - e não apenas de meia dúzia de beatas de rosário na mão, como passaram a ser caricaturados os milhares de manifestantes que saíram às ruas de São Paulo na "Marcha com Deus pela Família e pela Liberdade". Do mesmo modo, os historiadores esquerdistas jamais irão admitir que, quando os militares deram o golpe, a democracia já estava morta: eles apenas trataram de enterrá-la. Simplesmente ninguém estava interessado em defender a democracia: o conflito passou a ser entre golpistas de direita e golpistas de esquerda. Ganharam os de direita.

Um outro grande mal-entendido sobre 1964 diz respeito à suposta participação dos EUA no golpe. A versão de esquerda sobre o papel que a Casa Branca teria tido na deposição de Goulart foi de tal modo propagandeada por autores como Moniz Bandeira e outros, que já se tornou uma espécie de dogma da História nacional. Não adiantou sequer ter sido revelado, em fins dos anos 70, que os americanos não tiveram qualquer participação na queda de Jango, tendo-se limitado a acompanhar os acontecimentos, para desmentir essa versão, que se tornou corrente. Nem mesmo a observação unânime entre os conspiradores civis e militares de que o golpe foi 100% nacional, e que pegou até os próprios americanos de surpresa, foi capaz de retirar essa impressão. O fato de que os EUA tinham um plano de ação militar para intervir no Brasil em caso de revolta militar contra Goulart - a Operação Brother Sam -, e que no final se mostrou desnecessário, apenas reforçou a ideia de que o golpe, como disse um escritor da época, "nasceu em Washington".

Nem em Washington, nem mesmo em algum lugar específico do Brasil. Um fato que passa despercebido até hoje é que os militares e civis golpistas de 64 não contavam, sequer, com uma liderança única, nem tampouco sabiam o que fariam ao tomar o poder. Unia-os, única e simplesmente, o desejo comum de tirar Goulart do poder e acabar com a baderna. Daí porque, deposto Goulart, passaram-se dias sem que houvesse um consenso sobre quem assumiria o governo em nome da "revolução". Até que se chegou ao nome do marechal Humberto Castello Branco - que fora, aliás, inicialmente contra o golpe no dia 31 de março. A ideia - algo também esquecido hoje em dia - era não instaurar uma ditadura que durou 21 anos, mas expurgar a vida política dos elementos "subversivos" e "corruptos" e então devolver o poder ao civis. A falta completa de um programa político e a divisão entre militares "duros" e "moderados" - além do aparecimento do terrorismo de esquerda após 1966 - foi o que levou, mais tarde, ao adiamento da prometida redemocratização, resultando na marginalização dos próprios líderes civis do golpe de 64, como Carlos Lacerda. Não por acaso, já em 1965, o jornalista da revista O Cruzeiro, David Nasser - um dos mais ardorosos apoiadores da queda de Goulart - escreve um livro atacando duramente os novos governantes militares, chamado "A Revolução que se Perdeu a Si Mesma".

E os militares, foram realmente os agentes do imperialismo e do capital estrangeiro, como são pintados ainda hoje? Difícil endossar essa tese. A própria marginalização da direita civil que apoiou o golpe de 64 depõe contra a afirmação, repetida ainda hoje por muitos professores, de que os generais brasileiros agiram em nome da Shell ou da Coca-Cola. Pelo contrário: um dos fatos mais embaraçosos para os esquerdistas hoje no poder é que o regime militar brasileiro, sobretudo quando se inicia seu período mais duro, a partir de 1967, se afasta cada vez mais da influência norte-americana e adota, na prática, uma política nacionalista de forte presença e intervenção estatal na economia. Lembremos do governo Ernesto Geisel (1974-1979), no qual as relações entre o Brasil e os EUA estiveram estremecidas devido a uma política externa terceiro-mundista e antiamericana, demonstrada por fatos como o reconhecimento do governo marxista de Angola e o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha. No mesmo período, assistiu-se a um processo de criação de estatais jamais visto antes, nem depois, na História brasileira. O aumento do intervencionismo e do dirigismo estatal, aliás, é um dos maiores legados do regime militar para o Brasil de hoje. Não é à toa que Lula fez recentemente tantos elogios à política nacionalista de Geisel e considera Delfim Netto um de seus gurus na área econômica.

Outra questão: é possível chamar o período 1964-1968 (da queda de Goulart à decretação do AI-5) de ditadura? Penso que não, se formos levar em conta a intensa efervescência cultural desses anos, que deixaram sua marca profunda na vida artística e intelectual do país (é a época do Tropicalismo e dos Festivais da Canção). Sem falar que, nesse período, a censura ainda não se instalara nos meios de comunicação, e o número de prisões políticas, passada a onda de cassações e punições em 1964, não chega a algumas dezenas, se tanto. O golpe, ao contrário do que se convencionou dizer, não instaurou a ditadura; esta veio aos poucos, à medida que ia se acentuando a divisão entre as facções militares e se instalava aquilo que Elio Gaspari chamou de "anarquia militar" - a permanência indefinida dos militares no poder não era um dos objetivos do movimento que depôs Goulart. Não é violentar a verdade classificar esse regime, portanto, de ditabranda - principalmente se o compararmos às ditaDURAS de esquerda, como em Cuba ou na Coreia do Norte.
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Mas a falácia mais recorrente, e, em minha opinião, a mais inimiga da verdade histórica, é a que classifica o regime militar de "fascista". "Golpe fascista", "ditadura fascista" - para se referir indiscriminadamente ao movimento que derrubou Jango e aos 21 anos de regime militar - são expressões que, de tão usadas por motivos de propaganda, já se incorporaram, de certo modo, a nosso vocabulário político. Isso porque "fascista", como xingamento, permanece uma expressão extremamente eficaz, portanto útil - mais do que, por exemplo, "comunista", que em nossas mentes impregnadas de vulgata esquerdóide não remete ainda aos 100 milhões de mortos na URSS e na China no século XX. Não se trata, porém, de simples semântica ou jogo de palavras: rotular o regime de 64 de "fascista" ou "totalitário" demonstra não apenas desconhecimento do que vem a ser o fascismo e o totalitarismo, mas até mesmo manipulação ideológica e má-fé.
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O regime de 64, para começo de conversa, não foi totalitário - totalitarismo é um regime político baseado, entre outras coisas, na existência de um partido único no poder e na mobilização constante das massas, duas coisas que estiveram ausentes no Brasil pós-64. Além do mais, no fascismo, além de haver as características apontadas acima, as Forças Armadas estão submetidas ao controle ideológico do Partido. Desnecessário dizer que nada disso também existiu no Brasil. O regime militar brasileiro, sobretudo durante o período de vigência do AI-5 (dezembro de 1968 a dezembro de 1978) foi, na verdade, um regime autoritário, como foram as ditaduras militares latino-americanas, desprovido de ideologia dominante de partido único, e com forte presença de tecnocratas (os militares extinguiram os partidos e desmobilizaram a sociedade, exatamente o contrário que se espera de um regime fascista e totalitário). Curiosamente, muito mais próximos do fascismo, por totalitários, eram os regimes com os quais a esquerda brasileira se identificava, e se identifica até hoje, como a ex-URSS, a China de Mao Tsé-tung e a Cuba de Fidel Castro.
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Ditaduras fascistas, ao contrário de regimes como o de 64 no Brasil, não se contentam em eliminar a oposição: fazem questão de impor, por meio de uma poderosa máquina de propaganda governamental e terror policial, a ideologia do Partido, transformando cada indivíduo em militante devotado e intervindo inclusive na vida privada dos cidadãos, em questões como a religião, por exemplo. No Brasil, não houve nada sequer parecido com isso: a repressão foi dura contra os que se opunham ao governo, com armas ou não, e houve tortura e assassinatos de adversários políticos, mas, via de regra, o cidadão médio não foi atingido pela repressão política, e suas crenças individuais e religiosas foram mantidas intactas. Tratou-se de um regime que, mesmo em seus piores momentos, percebia-se como de emergência, ao contrário das ditaduras totalitárias, que ou são derrubadas ou se perpetuam.
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A censura à imprensa, por exemplo, não tinha por finalidade criar uma imprensa que servisse de instrumento de propaganda do Estado - como é o caso em Cuba -, mas unicamente impedir a divulgação de notícias consideradas inapropriadas ou embaraçosas para os governantes (coisa que jornais como O Estado de S. Paulo e revistas como Veja conseguiram driblar brilhantemente, colocando receitas de bolo ou versos de Camões no lugar das notícias censuradas - algo impensável em verdadeiros regimes totalitários). Aliás, mesmo no período de mais dura repressão, durante o governo Médici, havia oposição - fraca, temerosa, acuada, mas havia. E hoje, com exceção de algumas vozes isoladas e logo abafadas, como a de Jarbas Vasconcelos, pode-se dizer a mesma coisa?

Um outro exemplo bastante ilustrativo é o da educação e da cultura em geral. Não obstante os atritos com os estudantes em 1968 - motivados muito mais pela presença de radicais de esquerda em seu meio do que de descontentamento genuíno contra o regime militar -, houve uma extraordinária expansão do ensino universitário no Brasil. Além disso, o regime não buscou, ao contrário do que ocorre em ditaduras totalitárias, tutelar o que era ensinado nas salas de aula. O máximo que os generais-presidentes tentaram foi enxertar nos currículos escolares a matéria de educação moral e cívica, já mencionada, que logo se voltou contra o próprio regime, tendo sido cooptada pela esquerda. Provavelmente, nunca se leu tanto Marx e Gramsci nas universidades brasileiras quanto nos anos 60 e 70 - o resultado, basta ir a uma sala de aula de uma unversidade pública ou particular hoje em dia para constatar. Na cultura, em plena época de porralouquice generalizada dos anos 60, com toda sua psicodelia e liberação sexual, e mesmo com censura, o governo investia milhões na realização de filmes nacionais, a maioria intragáveis, muitos dos quais de forte crítica política e social ao próprio regime. Foi um tipo muito estranho de ditadura, convenhamos: uma que renunciou totalmente à hegemonia cultural e ao controle mental sobre os estudantes, dando plena liberdade aos professores para fazer proselitismo ideológico esquerdista em sala de aula, e abrindo generosamente os cofres do Estado para que cineastas comunistas falassem mal do governo.

Tudo isso que está aí em cima, eu nem precisaria dizer, não visa a justificar o que ocorreu após 1964 no Brasil. Nada disso. Trata-se apenas de repor as coisas no seu devido lugar histórico. Os generais que deram o golpe e afastaram Goulart do poder não estavam lutando contra fantasmas - o risco de o Brasil se tornar uma ditadura de esquerda era real, como admite Jacob Gorender -: isso é um FATO, não uma conclusão resultante de qualquer simpatia minha pelos militares - aliás, inexistente.

O leitor inteligente e sem preconceitos ideológicos - aquele a quem este texto se dirige - já deve ter percebido, se chegou até aqui, que não estou me posicionando a favor do regime militar, nem da censura ou da tortura. O que não significa que eu não me coloque frontalmente contra as tentativas de manipulação e mistificação da História, que no caso em questão vêm principalmente da esquerda. Há, na verdade, mais continuidade do que ruptura entre 1964 e o Brasil de hoje. Um bom exemplo disso é que o mesmo argumento usado até hoje por alguns nostálgicos da ditadura, de que o País crescia e havia desenvolvimento econômico, é usado pelos defensores do governo Lula para justificar ou desviar a atenção de mensalões e corrupções afins (pelo menos era assim até alguns meses atrás, quando a "marolinha" não tinha virado ainda um maremoto...).

O regime militar inaugurado em 1964 não foi nem tão sanguinário quanto o pinta a propaganda esquerdista, nem tão benéfico quanto defendem seus saudosistas. Nem o governo de João Goulart foi uma espécie de éden democrático, interrompido pelos demônios de farda. A História, felizmente, é feita de fatos, não de conveniências.

segunda-feira, março 30, 2009

Sobre o caso Battisti - resposta a um leitor que se acha muito justo

E ele ainda ri...
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Um leitor, de nome Marcos Cunha, que se acha dono de um sentido muito particular de justiça, escreveu um comentário curioso sobre meu texto "Brasil, paraíso de assassinos". Diz ele (comento em seguida):

A questão é quem é mais criminoso?

Um terrorista que matou 4 e feriu outros tantos, ou um educado empresário que desviou 1,5 bilhão de um país tão carente como o Brasil e depois fugiu para Itália onde encontrou abrigo seguro e liberdade?

Mesmo considerando as ineficiências, esse 1,5 bilhão roubados poderiam salvar centenas ou milhares de pessoas carentes que dependem dos serviços públicos de saúde.

Portanto, se a civilizada Itália se recusou a nos devolver quem nos fez mal, devemos mostrar para eles que podemos responder na mesma moeda.

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Sabem o que me deixa mais fulo da vida? Não é quando me escrevem para justificar, ou até mesmo louvar, o que é injustificável, como a corrupção dos petralhas e o terrorismo - o que tem, pelo menos, o mérito da sinceridade. É quando acham que, porque o "outro" também fez, então tudo passa a ser permitido.

Lembro que, quando eu era criança, se eu fizesse uma arte qualquer e se, para escapar de uma palmada ou do cinto de meu pai, eu dissesse "o Juquinha fez pior", era mais um motivo para levar uns cascudos. E ainda recebia lição de moral: "Do Juquinha cuida a mãe dele! Dois erros não fazem um acerto, seu moleque!".

Parece que, hoje ainda, há pessoas adultas que precisam dessa lição. A questão, meu senhor, não é "quem é mais criminoso". A questão é: CRIME É CRIME, NÃO IMPORTA QUEM OU POR QUÊ TENHA SIDO COMETIDO. Um roubo de um rico e educado empresário não justifica a morte de 4 (ou 100 milhões) pelo terrorismo de esquerda. Ponto final.

Já seria desonestidade intelectual suficiente querer que um erro justificasse o outro se o caso do "educado empresário que roubou 1,5 bilhão de reais de um país carente como o Brasil" não tivesse absolutamente nada a ver com o do facínora Battisti. O empresário de que fala o leitor, presumo, é o ex-dono do falido Banco Marka, Salvatore Cacciola, preso pela Interpol em Mônaco e extraditado para o Brasil, onde cumpre pena por fraude. Pois bem. Não conheço os detalhes do caso, mas sei que Cacciola, ao contrário de Battisti, tem dupla cidadania (brasileira e italiana). Logo, pela Lei, não poderia ter sido extraditado da Itália, para onde fugiu para escapar à prisão no Brasil. Battisti, ao contrário, foi presenteado por Tarso Genro com o status de refugiado político! Por ter matado 4 pessoas! E por ser de esquerda!

Isso mostra que Cacciola é inocente, ao contrário de Battisti? NÃO! Mostra apenas que ambos são criminosos, mas cada caso é um caso. No de Cacciola, havia uma questão legal que impedia sua extradição da Itália. No de Battisti, nem isso. Em um caso, seguiu-se estritamente o que está na Lei, tanto de cada país quanto internacional. No outro, o que houve foi um critério simplesmente ideológico para conceder refúgio político a um assassino de esquerda.

Dizer - ou insinuar que -, ao não nos devolver Cacciola, a civilizada Itália estaria nos dando motivos para "responder a eles na mesma moeda" demonstra, além da óbvia visão deturpada típica dos ressentidos (afinal, é a Itália, um país rico, de gente branca, muitos de olhos azuis, como diria o Apedeuta), um senso de justiça completamente torto. A Itália cumpriu a Lei, ao contrário de Tarso Genro.

Em resumo, segundo o leitor, se a Itália cumpriu a Lei e não extraditou um ex-banqueiro corrupto, o Brasil, para dar o troco, deveria fazer o mesmo com um terrorista e virar um valhacouto de bandidos e assassinos. Ora, tenham santa paciência!

A propósito: também acho que o 1,5 bilhão que Cacciola roubou do Brasil fez falta à saúde etc., assim como os milhões roubados pela quadrilha petralha no poder, com seus esquemas de mensalões e sanguessugas. Quando será que estes irão ver o sol nascer quadrado?

CRIME É CRIME. LEI É LEI. Por que é tão difícil para algumas pessoas perceber - e aceitar - algo que deveria ser tão óbvio, até para crianças de cinco anos de idade?

OS "BRANCOS DE OLHOS AZUIS" DE LULA












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"Essa crise foi causada por gente branca de olhos azuis".
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"Nunca vi um banqueiro negro ou índio".
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As duas frases acima foram ditas pelo presidente Lula, durante encontro no dia 26/03 com o primeiro-ministro britânico Gordon Brown (que não é exatamente um moreninho). Lula estava mais uma vez praticando seu esporte favorito, depois de ter visto ir por água abaixo sua tentativa de tachar de "marolinha" o que todos sabem ser um tsunami: culpar os "países ricos" pela crise. No caso, os "brancos, loiros de olhos azuis".

E os dois senhores mostrados acima, quem são? O da esquerda é Stanley O'Neal, até recentemente CEO do banco de investimentos Merryl Lynch, um das maiores dos EUA e que faliu ano passado. O outro é Vikram Pandit, indiano, Presidente da Citi. Não são casos isolados. Como eles, há inúmeros outros altos executivos de empresas norte-americanas que não têm exatamente o tipo nórdico de olhos claros. A começar pelo supremo mandatário da Nação, um tal de Barack Hussein Obama.

Nada a comentar.
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P.S.: Na realidade, um comentário apenas: se o ex-presidente FHC, no auge da crise de 1999, tivesse colocado a culpa pela crise asiática na "gente de pele amarela e olhos puxados", o que seria dito disso? Racismo boçal, sem dúvida.

quinta-feira, março 26, 2009

UM LEITOR ME MANDA UM ARTIGO - E ME DÁ MAIS MOTIVOS PARA DEFENDER ISRAEL


Um leitor me mandou um comentário muito interessante. Ele diz que lê constantemente meu blog e tem aprendido um pouco sobre a questão palestino-israelense (ou seja: sobre a luta de Israel contra quem quer destruí-lo, como o Hamas e o Hezbollah, pois a questão palestino-israelense, na prática, deixou de existir com os Acordos de Oslo, em 1993). Ele se diz horrorizado perante as ações do Hamas e toda a barbárie terrorista etc.

Até aí, maravilha. O problema começa com o artigo que ele transcreveu parcialmente, o qual apresenta uma visão totalmente diferente da que venho expondo neste blog, visão esta que seria (ao contrário da minha, presumo), "baseada em fatos". Já vou falar do artigo. Primeiro, vou dizer algumas palavras sobre o autor do mesmo, Norman Finkelstein.

Sem querer cair na armadilha de uma argumentação ad hominen, tão ao gosto das esquerdas ("você é um direitista, logo está errado"), creio que é preciso chamar a atenção, aqui, para o autor do artigo. Ao contrário do que um leitor distraído ou incauto poderia imaginar, Norman Finkelstein está longe, muito longe, de ser um observador "neutro" ou "imparcial" da questão (eu também não sou; aliás, rejeito esse rótulo, como escrevi aqui antes: a diferença é que não finjo sê-lo para não ser acusado de "direitista", ao contrário dos "isentistas" que pregam a neutralidade entre o fuzil e o peito). Pelo contrário: ele é, ao lado de medalhões da esquerda-caviar como Noam Chomsky e Tariq Ali, um dos mais ativos propagandistas anti-Israel no cenário acadêmico e intelectual norte-americano e mundial.

Toda a argumentação de Finkelstein sobre a questão israelo-palestino pode ser sintetizada em duas ideias muito simples: 1) a violência terrorista de grupos como o Hamas e a ação militar israelense se equivalem moralmente; e 2) Israel não tem o direito de se defender (nem de existir).

Finkelstein ficou famoso mundialmente por causa de um pequeno livro, A indústria do Holocausto, no qual, sob o pretexto de criticar a "instrumentalização" do genocídio de 6 milhões de judeus nas mãos dos nazistas com objetivos políticos ("justificar a política de Israel") e mercantis ("obter reparações da Alemanha e da Suiça"), ataca a própria memória do Holocausto. Em outras palavras: confunde propositalmente as duas coisas, aproximando-se bastante de opiniões antissionistas e mesmo antissemitas (não chega ao ponto de negar o Holocausto, mas não está muito longe disso). O fato de ser judeu e, além disso, filho de sobreviventes de campos de concentração nazistas, lhe confere, na opinião de muitos, uma "autoridade" especial para falar do assunto - como se, para falar mal do Brasil, por exemplo, a única coisa necessária fosse ser brasileiro. Por suas opiniões, Finkelstein já perdeu vários empregos universitários (é que lá, ao contrário daqui, eles dão importância ao que é ensinado nas salas de aula). Isso, aliás, pode ser uma vantagem para ele, afinal lhe dá um ar assim, como direi?, de "rebelde", de "mártir" - mesma pose que ele tanto condena nos sobreviventes do Holocausto. Enfim, mais uma "vítima do sistema" - e um perfeito delinquente intelectual.

Já falamos do homem. Falemos agora da obra. No tal trecho de artigo transcrito pelo leitor, Finkelstein afirma o seguinte: “Os registros existem e são muito claros. Qualquer pessoa encontra na Internet, na página do governo de Israel e, também, na página do seu ministério das Relações Exteriores. Israel desrespeitou o cessar-fogo, invadiu Gaza e matou seis ou sete (há controvérsias quanto ao número de assassinados, não quanto ao crime de assassinato) militantes palestinos, dia 4/11/2008. Depois, o Hamas respondeu ou, como se lê nas páginas do governo de Israel, ‘o Hamas retaliou contra Israel e lançou mísseis’".

Resumindo: para Finkelstein, foi Israel, e não o Hamas, o responsável pelo fim da trégua e pela recente guerra em Gaza. O mesmo pode ser dito, por dedução, de todos os conflitos ocorridos entre Israel e os palestinos: são os israelenses que dão o primeiro tiro, mediante uma provocação, e o outro lado apenas reage.

Eu poderia dizer que essa visão é desonesta porque o cessar-fogo entre Israel e o Hamas, acordado no ano passado, não significou, infelizmente, o fim das hostilidades, sobretudo do Hamas contra Israel. Mas tudo bem: admitamos, por um momento, que Finkelstein está certo, e que foi o lado israelense que deu o primeiro tiro. Isso significa que a culpa pelas mortes e tudo o mais é de Israel, certo? Nada disso. Para o grupo terrorista palestino, qualquer trégua com Israel é apenas temporária, uma oportunidade de reagrupar-se e preparar novos ataques contra Israel. Em outras palavras, o objetivo do grupo é EXTERMINAR ISRAEL E INSTALAR, EM SEU LUGAR, UM ESTADO ISLÂMICO. Parafraseando Finkelstein, os registros são muitos e são claros. Basta pesquisar na Internet.

Prossegue Finkelstein, em sua arenga contra Israel:

Quanto aos motivos, os documentos oficiais também são claros. O jornal Haaretz já informou que Barak, ministro da Defesa de Israel, começou a planejar o massacre de Gaza muito antes.

Vou deixar de lado a conversa de que Barak planejou a ofensiva "antes". Vamos supor - mais uma vez - que isso seja verdade. Nesse caso, o ministro da Defesa de Israel teria planejado com antecipação uma ação militar contra uma força que tem como objetivo último a destruição total de seu país. Estaria, portanto, cumprindo sua função, não acham? Mas essa não é a questão. Vamos nos concentrar nos números do "massacre": durante os dois meses que durou a ofensiva israelense contra o Hamas em Gaza, morreram 1.300 pessoas, muitas delas escudos humanos usados pelo Hamas - principal fonte de indignação da opinião pública (contra o Hamas? Não, contra Israel...). Isso numa área urbana reduzida e densamente povoada.
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É muito? É pouco? Não sei, nem sei se é moral raciocinar nesses termos. Sei apenas que, se a situação fosse inversa, a quantidade de mortos seria certamente multiplicada por dez, ou por mil. Não sei quanto a vocês, mas para mim os números da guerra revelam não um massacre indiscriminado contra a população palestina, mas uma alta dose de precisão e eficiência militares por parte de Israel - que não foi maior, infelizmente, devido ao costume dos islamofascistas do Hamas de usar suas próprias crianças e mulheres como escudos... Mesmo assim, Finkelstein chama o que Israel (e não o Hamas) fez de "massacre" - mesma denominação que ele acha ser "instrumentalizada" pelos judeus atualmente para extrair dividendos políticos ou monetários do Holocausto.
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Finkelstein:
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Quanto às principais razões do massacre [sic], acho, há duas. Número um: restaurar o que Israel chama de ‘capacidade de contenção do exército’, o que, em linguagem de leigo, significa a capacidade de Israel para semear pânico e morte em toda a região e submete-la mediante a pressão das armas, da chantagem, do medo.

Pois é... A capacidade de contenção de Israel é tão-somente - diz Finkelstein - a "capacidade de semear pânico e morte em toda a região e submetê-la mediante a pressão das armas, da chantagem, do medo". Trocando em miúdos: o uso da força por parte de Israel tem como finalidade não caçar e eliminar terroristas que explodem ônibus cheios de gente e disparam foguetes indiscriminadamente contra sua população, mas única e simplesmente levar medo e terror a todo mundo... Assim, por pura maldade. Gente má, esses israelenses, sem dúvida. Nem precisa dizer, mas eu digo assim mesmo: onde está, no texto de Finkelstein, alguma menção ao terrorismo do Hamas e ao objetivo declarado desse grupo de transformar Israel numa pilha de ossos fumegantes? Tudo se resume ao seguinte: Israel é mau, e ponto.

Mas o pior ainda está por vir, caro leitor. Vejam só o que Finkelstein diz:

A segunda razão pela qual Israel atacou Gaza é culpa do Hamas: o Hamas começou a dar sinais muito claros de que deseja construir um novo acordo diplomático a respeito das fronteiras demarcadas desde junho de 1967 e jamais respeitadas por Israel. Em outras palavras, Hamas sinalizou que está interessado em fazer respeitar exatamente os mesmos termos e conceitos que toda a comunidade internacional respeita e que, em vez de resolver os problemas a canhão e com campanhas de mentiras por jornais e televisão, estaria interessado em construir um acordo diplomático.

Creio que, depois disso que está aí em cima, fica faltando muito pouco sobre o que argumentar. É exatamente isso que vocês leram, minha gente: o Hamas, esse agrupamento de almas doces e gentis, queria "construir um acordo diplomático"... São amantes da paz e da diplomacia, uns verdadeiros anjos. Mas aí vieram os israelenses cruéis, com sua sede de sangue, e estragaram tudo... Que coisa, não?

Eu poderia repetir aqui pela enésima vez quais são os objetivos, nada secretos, do Hamas, mas aí eu estaria apenas repetindo a mim mesmo. Dou a palavra, portanto, ao próprio Hamas:

O Hamas quer “trabalhar para impor a palavra de Alá sobre cada centímetro da Palestina” (Artigo 6º) (detalhe: “Palestina” aqui, é a histórica: ou seja, o território que hoje inclui Israel, Gaza e Cisjordânia.) Essa formulação prega a destruição de Israel e a criação de um Estado islâmico, governado pela sharia (a lei muçulmana).

(Citando Maomé): “A hora do julgamento não chegará até que os muçulmanos combatam os judeus e terminem por mata-los e mesmo que os judeus se abriguem por detrás de árvores e pedras, cada árvore e cada pedra gritará: Oh! Muçulmanos, Oh! Servos de Alá, há um judeu por detrás de mim, venha e mate-o [...].” (Artigo 7º).

"Alá é a finalidade, o Profeta o modelo a ser seguido, o Alcorão a Constituição, a Jihad é o caminho e a morte por Alá é a sublime aspiração". (Artigo 8º)

O Hamas declara que a Palestina é um “Waqf”: terra sagrada e inalienável para os muçulmanos até o Dia da Ressurreição e que, pela origem religiosa, não pode, no todo ou em parte, ser negociada ou devolvida a ninguém (Artigo 11).

De onde eu tirei o que vai acima? Da CARTA DE FUNDAÇÃO DO HAMAS, de 1988, que é até hoje o principal documento do grupo, sem ter passado por nenhuma revisão. Ela é facilmente encontrada na Internet.

Que coisa meiga, não acham? E é esse o grupo que quer "construir um acordo diplomático..."

Na conclusão, o leitor que me mandou o artigo, impressionado pela argumentação persuasiva de Finkelstein, afirma o seguinte:

O artigo continua, mas creio já ter posto uma boa parte, para demonstrar uma opinião (baseada em fatos) bem diferente da tua, o que me fez colocar em dúvida boa parte do que você vem dizendo. Afinal, descobri que o Hamas foi eleito. Sim, eleito! Isso muda tudo. Há democracia entre os palestinos. Não são um bando de fanáticos terroristas como você vem dizendo. Depois também descobri que Israel promovia e, depois que Hamas foi eleito, aumentou ainda mais o bloqueio econômico aos palestinos. Isto é grave! E por último, descobri que Israel insatisfeito com a vitória democrática do Hamas, vem tentando derrubar este governo. Como explicar estes fatos???

São três as afirmações feitas no parágrafo acima. Vamos a cada uma delas (comento em seguida):

1) O Hamas foi eleito democraticamente; logo, existe democracia entre os palestinos;

2) Logo, o Hamas não é um grupo de fanáticos terroristas; e

3) Israel impôs o bloqueio econômico à Faixa de Gaza porque está insatisfeito com o resultado das eleições e a "vitória democrática do Hamas".

Vamos lá:

1) Sim, o Hamas foi eleito. Mas isso, ao contrário do que conclui o leitor, não muda nada. Por quê? Porque não basta chegar ao poder pelo voto, é preciso governar democraticamente. É isso, mais do que a simples eleição direta, o que caracteriza a democracia (essa é uma verdade tão elementar que me dá até uma certa vergonha ter de repeti-la aqui).
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Eu poderia citar o exemplo de Hitler, que chegou ao poder na Alemanha também pelas urnas, ou de Hugo Chávez, que está usando a democracia para destruí-la na Venezuela, mas acho esses exemplos históricos bastante manjados. Vou me limitar a lembrar o que o próprio Hamas vem fazendo, desde que foi democraticamente conduzido ao poder na Faixa de Gaza: intensificou seus ataques com foguetes contra Israel (só em 2006, ano em que tomou o poder, foram 4.000) e passou a fio de espada centenas de militantes da facção rival Fatah, no que foi, na prática, um golpe de Estado. Além disso, impôs um regime de absoluto terror sobre a população palestina da Faixa de Gaza, baseado na lei islâmica. Do mesmo modo, seus pistoleiros fuzilaram dezenas de palestinos acusados de "traição" logo após a saída das tropas israelenses, e continuam a fazê-lo. Democraticamente.
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Tudo isso, nem precisa dizer, são fatos, não opiniões. É só pesquisar (aliás, pergunto: por que nada disso mereceu o mesmo destaque e o mesmo tratamento das notícias sobre os bombardeios - fictícios, revelou-se depois - de Israel a escolas da ONU em Gaza? Por que não se viu nenhum protesto?). Portanto, dizer que "há democracia entre os palestinos" é concorrer ao prêmio Lorota do Ano. Há tanta democracia na Faixa de Gaza quanto há no Irã.

2) Dizer que a vitória do Hamas nas eleições torna legítimo seu governo - e os ataques contra Israel - já é demais. Afirmar que, por causa disso, o Hamas não é uma organização terrorista é simplesmente cometer um atentado contra a inteligência. É o mesmo que dizer que Hitler e os nazistas - a inspiração dessa gente - não eram racistas e genocidas. Afinal, eles foram eleitos democraticamente...

3) Israel não impôs o bloqueio a Gaza e não quer derrubar o Hamas porque está "insatisfeito com a vitória democrática do Hamas". Impôs o bloqueio e quer acabar com o Hamas porque este jurou varrer Israel do mapa. Fale-se o que se quiser de Israel, mas por favor não digam que Israel quer exterminar os palestinos (até porque, se o quisesse, já o teria feito) ou, então, convertê-los à força ao judaísmo. Não ver essa diferença é fechar os olhos para as diferenças entre os nazistas (e seus êmulos, os islamofascistas) e suas vítimas.

Resumindo, a situação é a seguinte:

- Há um país, Israel, que luta para garantir sua sobrevivência;

- Seus inimigos, como o Hamas, querem riscá-lo do mapa e usar as cinzas de sua população como fertilizante;

- Diante dessa ameaça clara e iminente, não resta outra coisa a Israel senão se defender, tentando prevenir ataques terroristas;

- Há uma legião de idiotas úteis e militontos que não levam nada disso em conta e acham que Israel é a encarnação do mal. Um deles é Norman Finkelstein.

Presumo que o leitor pretendia me convencer que estou errado ao defender Israel de quem quer aniquilá-lo, e que a razão está com o Hamas. Se foi esse o caso, sinto informar, mas o efeito foi exatamente o contrário: ele só me deu mais motivos para reforçar minha opinião. Israel tem o direito de existir e se defender. O resto é justificação da barbárie.