quinta-feira, fevereiro 19, 2009

RESPOSTA A UMA BOA ALMA (OU: POR QUE O PACIFISMO NÃO É UMA BOA PALAVRA)


O primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, que acreditava poder apaziguar Hitler, mostrando o acordo assinado com o ditador alemão em Munique em 1938, e que seria "a paz de nosso tempo": ele também achava a guerra intolerável

Escrevi alguns posts respondendo a um leitor que, de uns dias para cá, vem tentando me convencer que Israel não tem o direito de se defender. Parece que ele não se deu por satisfeito com minhas observações. Respondo-lhe, então, mais uma vez. Como vocês verão, ele é pacifista; eu, não. Ele acha que a ação de Israel e do Hamas são a única e mesma coisa; eu, não. Ele acredita que a força jamais deve ser empregada, em nenhuma circunstância; eu, não. Ele é, enfim, uma boa pessoa, uma alma piedosa. Ele em vermelho, eu em preto, como sempre.

Gustavo,

Entendo o que queira dizer, mas é difícil aceitar de todo. Sou pacifista (creio que esta é uma boa palavra), e não consigo aceitar nenhum tipo de violência. Não aceito a manifestação do Hamas e nem a de Israel. Não creio que ser contra a violência (venha ela de quem vier) seja ser necessariamente contra Israel. Vejo o mundo por uma perspectiva diferente, onde me é intolerável qualquer tipo de guerra.
Não peço ao caro leitor que aceite o que eu digo. Peço-lhe apenas que aceite os fatos. E os fatos são inquestionáveis: há um país, Israel, que há sessenta anos enfrenta inimigos que querem destruí-lo e transformar sua população em adubo. E há quem ignore completamente isso, defendendo que Israel "dialogue" com quem quer provocar um novo Holocausto. Ponto e parágrafo.

O leitor se declara pacifista e contrário a qualquer tipo de violência, seja de onde vier. Nesse caso, só confirmou para mim o que eu já tinha concluído há muito tempo: que o pacifismo, na verdade, não passa de uma desculpa para fechar os olhos para uma forma de violência - sobretudo, se essa violência vier acompanhada de um verniz de defesa dos "oprimidos" contra os "opressores" etc. Isso pode ocorrer por malícia ou por ingenuidade. Se eu não fosse caridoso, eu diria que é por malícia. Como sou caridoso, digo que é por ingenuidade.

Vamos deixar os eufemismos de lado e chamar as coisas pelo nome: a que "manifestações" do Hamas o leitor se refere? À prática de lançar foguetes a esmo contra Israel, esperando com isso provocar o máximo possível de mortes e feridos entre a população israelense? Ou à prática de enviar homens-bombas (muitos dos quais, adolescentes que sofreram lavagem cerebral ou com problemas mentais) para, também de forma indiscriminada, matar e mutilar o maior número possível de civis israelenses? Gostaria que o leitor fosse um pouco mais claro.

Do mesmo modo, gostaria de saber exatamente qual manifestação de Israel ele condena. Seria a prática de reagir da única maneira possível aos atos de terrorismo genocida descritos acima, ou seja, caçando os responsáveis e punindo-os, onde quer que estejam? Seria a prática de recorrer à força para neutralizar e deter quem não reconhece seu direito de existir e jurou riscá-lo do mapa e transformar o país num mar de sangue?

Se o leitor condena igualmente as duas formas de ação, se realmente não vê diferença alguma entre elas, se de fato acha que ambas se equivalem do ponto de vista moral e ético, então, só posso concluir uma coisa: para ele, não há qualquer diferença entre o criminoso e a vítima, ou entre o agressor e o agredido. O Hamas e o Hezbollah agradecem comovidos.

O leitor afirma que, para ele, é intolerável qualquer tipo de guerra. Essa é uma afirmação muito fácil de ser feita, é como dizer que a dor é algo intolerável. Já afirmei antes que a guerra nunca é uma boa opção, mas isso não quer dizer que, em certas situações, não seja a única opção possível. Aqueles que tentaram apaziguar Hitler na década de 30 também consideravam a guerra algo intolerável, e acredito que alguns deles tinham até boas intenções. Nada disso impediu a carnificina que veio em seguida. Pelo contrário: foi justamente esse pacifismo, essa "perspectiva diferente", que preparou o caminho da tragédia. Pergunto: por mais intolerável que seja a guerra, havia outro meio de impedir a barbárie nazista?

Pergunto-te: Que direito tem os EUA de atacar o Irã se o quiserem? Talvez Israel pudesse atacar, mas os EUA? Não vejo porque o mundo deveria permitir isto... A morte de um único inocente não vale para mim o bônus que se possa ganhar posteriormente com a guerra.
Respondo a sua pergunta: nem os EUA, nem o Brasil, nem as Ilhas Fiji, nem Botsuana, têm o direito de atacar o Irã ou qualquer outro país "se o quiserem". A questão, mais uma vez, é desonesta: não se trata de atacar pela mera vontade, como se fosse por capricho, mas porque há boas razões para fazê-lo. Os Aliados não atacaram a Alemanha nazista porque "quiseram", mas porque a Alemanha nazista era uma ameaça à paz e à humanidade. Mesmo assim, não creio que os EUA deveriam atacar o Irã - em momento algum eu defendo isso. Defendo, sim, é que um acordo de paz entre os EUA e o Irã sob Ahmadinejad é uma farsa e uma fantasia. Pelo menos enquanto os líderes iranianos continuarem a defender a destruição de Israel e a patrocinar o terrorismo do Hamas e do Hezbollah. Assim como defendo que dialogar com o Hamas ou o Hezbollah é um passaporte para o suicídio. Preciso explicar por quê?

PS: Agradeço a paciência e as explicações.
De nada. Estarei aqui sempre disposto a esclarecer esse e mais pontos. Vou me permitir apenas mais uma observação.

É muito fácil se dizer pacifista, declarar-se contra a violência de uma maneira geral e idílica, condenar todas as guerras e depois ir dormir com a consciência tranqüila. Mas isso não elimina o fato de que há quem se aproveite do pacifismo, ingênuo ou não, para promover massacres e atrocidades contra a humanidade. Dizer-se contra toda forma de violência é o mesmo que se dizer igualmente contra o bandido e a polícia. É o mesmo que defender o fim das leis, pois a lei nada mais é do que a violência organizada para manter a paz e a ordem na sociedade. É defender, pois, a inação e o imobilismo contra a violência terrorista e genocida. É, enfim, preparar o caminho para o terror e a morte de milhões de pessoas - o exato oposto da paz, portanto.

É um erro dos mais terríveis acreditar que, ao não fazer nada diante da morte, ou ao condenar em geral a violência, está-se deixando de tomar partido. No caso de Israel, grupos de fanáticos como o Hamas só precisam da condescendência, não do apoio explícito, da opinião mundial para porem em prática seus planos assassinos. Só precisam que se condene Israel, ou que se coloque a ação israelense no mesmo patamar moral que o deles próprios, para alcançar legitimidade. E isso estão conseguindo, graças à propaganda midiática que insiste em equiparar a violência dos dois lados.

P.S.: É por essas e outras que não sou pacifista. Definitivamente, o pacifismo não é uma boa palavra.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

UM DESABAFO CÍVICO

Quem também matou a pau foi o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). Em entrevista à revista VEJA desta semana, o senador pernambucano e ex-governador de Pernambuco desceu o malho em seu próprio partido, o PMDB, classificando-o de corrupto. Entre outras verdades, Jarbas afirmou que a eleição de seu colega José Sarney para a presidência do Senado é um retrocesso e que Renan Calheiros, que atualmente preside a legenda, não tem condições éticas de presidir partido nenhum. Ataca duramente o governo Lula e termina denunciando, meio desesperançoso, o clientelismo e a mediocrização geral da política brasileira. Uma verdadeira paulada.
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Não tenho o hábito de elogiar políticos. Mas abro aqui uma exceção. A entrevista do senador Jarbas Vasconcelos para a VEJA entrará para a História como um momento de rara honestidade e lucidez na política brasileira. Um verdadeiro desabafo, de um político e parlamentar pertencente à outra época, em que a política era algo mais do que um simples jogo de interesses para conseguir cargos e benesses, não importa de que governo. Minhas passagens favoritas são as seguintes:

A favor do governo Lula há o fato de o país ter voltado a crescer e os indicadores sociais terem melhorado. O grande mérito de Lula foi não ter mexido na economia. Mas foi só. O país não tem infraestrutura, as estradas são ruins, os aeroportos acanhados, os portos estão estrangulados, o setor elétrico vem se arrastando. A política externa do governo é outra piada de mau gosto. Um governo que deixou a ética de lado, que não fez as reformas nem fez nada pela infraestrutura agora tem como bandeira o PAC, que é um amontoado de projetos velhos reunidos em um pacote eleitoreiro. É um governo medíocre. E o mais grave é que essa mediocridade contamina vários setores do país. Não é à toa que o Senado e a Câmara estão piores. Lula não é o único responsável, mas é óbvio que a mediocridade do governo dele leva a isso.

Mas esse presidente que o senhor aponta como medíocre é recordista de popularidade. Em seu estado, Pernambuco, o presidente beira os 100% de aprovação. O marketing e o assistencialismo de Lula conseguem mexer com o país inteiro. Imagine isso no Nordeste, que é a região mais pobre. Imagine em Pernambuco, que é a terra dele. Ele fez essa opção clara pelo assistencialismo para milhões de famílias, o que é uma chave para a popularidade em um país pobre. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo.

O senhor não acha que o Bolsa Família tem virtudes? Há um benefício imediato e uma consequência futura nefasta, pois o programa não tem compromisso com a educação, com a qualificação, com a formação de quadros para o trabalho. Em algumas regiões de Pernambuco, como a Zona da Mata e o agreste, já há uma grande carência de mão-de-obra. Famílias com dois ou três beneficiados pelo programa deixam o trabalho de lado, preferem viver de assistencialismo. Há um restaurante que eu frequento há mais de trinta anos no bairro de Brasília Teimosa, no Recife. Na semana passada cheguei lá e não encontrei o garçom que sempre me atendeu. Perguntei ao gerente e descobri que ele conseguiu uma bolsa para ele e outra para o filho e desistiu de trabalhar. Esse é um retrato do Bolsa Família. A situação imediata do nordestino melhorou, mas a miséria social permanece.

A oposição está acuada pela popularidade de Lula? Eu fui oposição ao governo militar como deputado e me lembro de que o general Médici também era endeusado no Nordeste. Se Lula criou o Bolsa Família, naquela época havia o Funrural, que tinha o mesmo efeito. Mas ninguém desistiu de combater a ditadura por isso. A popularidade de Lula não deveria ser motivo para a extinção da oposição. Temos aqui trinta senadores contrários ao governo. Sempre defendi que cada um de nós fiscalizasse um setor importante do governo. Olhasse com lupa o Banco do Brasil, o PAC, a Petrobras, as licitações, o Bolsa Família, as pajelanças e bondades do governo. Mas ninguém faz nada. Na única vez em que nos organizamos, derrotamos a CPMF. Não é uma batalha perdida, mas a oposição precisa ser mais efetiva. Há um diagnóstico claro de que o governo é medíocre e está comprometendo nosso futuro. A oposição tem de mostrar isso à população.

Como não poderia deixar de ser, os caciques do PMDB e o governo Lula, auxiliados por seus porta-vozes na imprensa dita "imparcial", já começaram a campanha de difamação contra Jarbas. Mal saiu a entrevista, e começou-se a cobrar do senador pernambucano provas do que disse. Como assim, "provas"? Leiam de novo o que está aí em cima, principalmente sobre a mediocridade do governo Lula e o enorme embuste eleitoreiro que é o Bolsa-Família. Isso precisa de provas? Trata-se de uma realidade evidente por si mesma, não há necessidade de provas. Ah, querem nomes? Jarbas denuncia práticas, mas se quiserem nomes, basta lembrar o noticiário nos últimos dez ou quinze anos. É curioso como Collor foi derrubado sem que se apresentasse nenhuma prova concreta contra ele. Foi, inclusive, absolvido pelo STF alguns anos depois. Quando se trata do governo Lula e de seus aliados, porém, a escrita é diferente. Por quê?

Na impossibilidade de refutar o que diz Jarbas, a petralhada de todos os partidos agora está dizendo também que ele só resolveu falar porque está armando alguma jogada. Estaria preparando seu caminho para desligar-se do PMDB e "tucanar", de olho na candidatura à vice-presidência numa eventual chapa com o PSDB de José Serra em 2010. É, pode ser. E daí? Isso por acaso diminui o peso de suas declarações? Na verdade, tais ilações não passam de uma manobra para desviar a atenção e evitar o debate, reduzindo tudo à velha política miúda de sempre, a mesma prática denunciada por Jarbas na entrevista. Jarbas é um dissidente. E dissidentes não costumam ser perdoados pelos medíocres e conformistas.

É raríssimo ver um político, ainda mais de um partido governista, abrir o jogo e chamar as coisas pelo nome. Por isso a entrevista de Jarbas Vasconcelos é tão importante. É um marco. Um verdadeiro desabafo cívico.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

MATOU A PAU

Segue texto de hoje do blog do Reinaldo Azevedo, sobre a patetice que virou o caso da brasileira que teria sido agredida e marcada a canivete por skinheads neonazistas na Suiça. A notícia foi anunciada, alguns dias atrás, como um exemplo de agressão covarde e xenofobia ("brasileira torturada por neonazistas perde bebês gêmeos"), provocando indignação e revolta. Passaram-se alguns dias, alguns detalhes do caso vieram a público, a polícia suiça revelou que a moça, que ao que tudo indica sofre de algum tipo de distúrbio mental, não estava grávida no momento da agressão (ao que parece, nem antes) e que os ferimentos teriam sido auto-infligidos. Como que por encanto, a cobertura pela imprensa mudou drasticamente de tom ("brasileira diz que foi agredida por neonazistas"...). No meio tempo, o governo do Brasil e, em especial, o Itamaraty, fez papel de palhaço, transformando o caso numa patriotada ridícula e numa patética demonstração de orgulho terceiromundista contra os "racistas" ricos, ameaçando ir até a Comissão de Direitos Humanos da ONU contra a Suiça... RA, como de praxe, recoloca as coisas em seu devido lugar. Matou a pau.
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A HORA DOS RIDÍCULOS
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Os que deram partida nas reações histéricas contra a Suíça e os suíços ainda não se renderam e continuam em suas ridicularias, agora lembrando episódios em que a polícia do país teria sido violenta com estrangeiros. Como não têm o bom senso de se desculpar pela patacoada e dizer simplesmente um “erramos”, ficam em busca de argumentos para justificar a acusação. É o chamado “PECAC”. O PECAC é o Paradigma Eliane Cantanhede de Atribuição de Culpas: a Suíça pode não ser culpada agora, mas já foi um dia. E é a verdadeira responsável por ter sido acusada daquilo que não fez. Assim, se Paula tivesse sido agredida por neonazistas, seria uma vítima, e a Suíça, a ré. Como, tudo indica, isso não aconteceu, a Suíça, então, é ré, e Paula, a vítima. Entenderam, ou preciso repetir o, digamos assim, argumento???
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Agora, parece, a moça já flerta com a possibilidade de ter sofrido um aborto antes da agressão. Entendo. Aborto de gêmeos, três meses de gestação, mas sem qualquer anormalidade que chamasse a atenção, como cólica ou sangramento... Deus do céu! Essa história, reitero, é terrível para família de Paula e para ela própria. Ajudaria muito se a delinqüência intelectual, política, ideológica e jornalística que resolveu transformar o caso numa guerra dos “opressores” contra os “oprimidos” retirasse o time de campo. DIREI DE NOVO: AINDA QUE OS SUÍÇOS APRESENTASSEM AMANHÃ OS TRÊS SUPOSTOS NEONAZISTAS QUE TERIAM AGREDIDO A BRASILEIRA, TRATAR-SE-IA DE UM CASO DE TRÊS NEONAZISTAS AGREDINDO UMA BRASILEIRA. A reação do Itamaraty continuaria ridícula; a reação de setores da imprensa continuaria ridícula; a baixa exploração nacionalisteira dos urubus continuaria ridícula.
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E, claro, se ridículo faltasse nessa história, bastaria chamar Marco Aurélio Top Top Garcia, o assessor especial de Lula para assuntos internacionais. E ele compareceu ao debate. Leiam: “Se não tivéssemos tido uma reação naquele momento, fundada nas informações que nos chegavam, que a grande verdade é essa, o governo sem dúvida nenhuma seria acusado de leniência no que diz respeito à defesa dessa cidadã brasileira". Não sei se percebem a sutileza do Rei do Tártaro. Há uma insinuação de que o governo foi induzido a erro pela... imprensa. Ocorre que um governo, especialmente a sua chancelaria, existe justamente para que a moderação tome o lugar da imprudência.
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A propósito: militantes dos sem-terra paraguaios — que têm contanto, diga-se, com o MST tupiniquim — estão pondo agricultores brasileiros para correr, tomando-lhes a propriedade, a produção, as máquinas... Cadê a reação de Celso Amorim e deste inefável Garcia?
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Ridículos todos eles. Ridículos no sentido mesquinho e infame da ridicularia.
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Comento
A história toda é muito esquisita, e ainda é cedo para especular sobre se a brasileira Paula Oliveira foi ou não agredida, e se perdeu ou não os bebês que disse estar esperando. Nem sou médico legista para dar a última palavra sobre os detalhes até agora pouco esclarecidos desse caso em particular (embora, tendo visto as fotos da suposta agressão, fiquei intrigado com a estranha simetria dos cortes nas pernas da suposta vítima, e um caso de aborto de gêmeos deveria ter deixado pelo menos alguns vestígios no local...). Uma conclusão, porém, sairá inevitavelmente desse episódio: independentente de qual seja o resultado final das investigações, o Brasil fez um tremendo papelão, tentando aproveitar o caso para demonstrar ao mundo todo nosso complexo de inferioridade, travestido de revolta contra os brancos racistas xenófobos suiços - como se fosse a Suiça, o povo suiço, o "país rico" enfim, e não um bando de neonazistas (se é que existiram) o lado agressor. De qualquer maneira, graças a mais essa mancada de Lula, Celso Amorim e companhia, o Brasil ficou um pouco mais bananeiro perante o mundo. Um pouco mais ridículo, como diz Reinaldo Azevedo. .

É curioso como estamos sempre predispostos a aceitar como verdade, sem questionar, qualquer rumor como uma manifestação de racismo e intolerância em países como a Suiça, mesmo correndo o risco de passarmos por idiotas. Ao mesmo tempo, estamos condicionados a fechar os olhos e até a justificar casos concretos de ódio e intolerância contra outros conterrâneos nossos em países como o Paraguai e a Bolívia, mesmo quando os fatos são irrefutáveis. Do mesmo modo, rasgamos as vestes de indignação contra uma suposta demonstração de intolerância racista na Europa, mas somos em geral condescendentes, quando não apoiamos abertamente, o terrorismo genocida do Hamas contra Israel, encarando com naturalidade o fato de alguns quererem convertê-lo num monte de cinzas e ossos, em um novo Holocausto.

Esse duplo padrão não raro leva a desmentidos constrangedores, que dificilmente aparecem na grande mídia. Por exemplo: alguns dias atrás, funcionários da ONU admitiram que o suposto bombardeio israelense a uma escola da organização na Faixa de Gaza em 6 de janeiro ocorreu fora do edifício da escola. Mas nenhum grande jornal ocidental apresentou o desmentido com o mesmo estardalhaço com que noticiou o suposto ataque israelense à escola da ONU, que ocorreu, vejam só, quase um mês antes... A Israel, assim como à Suiça no caso da brasileira supostamente agredida, não se concedeu o benefício da dúvida.
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Certamente, estamos diante de mais um caso de histeria patrioteira, de complexo de vira-lata que dispensa provas e se baseia tão-só, ao que parece, numa visão estereotipada e preconceituosa, balizada pela dicotomia "países ricos" (ou centrais) versus "países pobres" (ou periféricos). É mais uma prova de que os fatos são teimosos, e quase nunca justificam as teorias. Principalmente se a teoria em questão é um terceiromundismo de quinta categoria.

SOBRE ISRAEL E A CONDESCENDÊNCIA COM A BARBÁRIE TERRORISTA - A SAIDEIRA

Aí vai mais uma resposta - que espero seja a última - ao leitor que há dois posts vem tentando me convencer que Israel é um Estado terrorista, equivalente ao Hamas e ao Irã. Faço questão de responder pois, apesar do óbvio desconhecimento e da aparente malícia de algumas de suas perguntas, a pessoa em questão parece demonstrar alguma vontade de superação e de entender o que se passa verdadeiramente no Oriente Médio. Por isso, respondo. Considero isso um dever didático, um serviço de esclarecimento público. Ele em vermelho.

Gustavo,

Creio ter no momento todas as perguntas respondidas. E aceito-as plenamente.

Mas é difícil acreditar que assim como o Hamas não quer a paz, Israel a quer. Simplesmente porque quando atacamos (seja a forma que for) estaremos promovendo a violência. O ditado velho, não é mentiroso: "Violência gera violência", e enquanto um dos lados não for capaz de fazer a paz não poderemos tê-la efetivamente.

Por fim, mais uma pergunta: Deve todo o povo inocente do Irã responder pelos erros de Ahmadinejad? Deve os EUA bombardear o Irã, unicamente para punir Ahmadinejad???

Comento
Bom, Felipe - é esse o nome do leitor -, só posso parabenizá-lo por ter deixado um pouco de lado os preconceitos contra Israel e aceitado plenamente minhas respostas. Isso demonstra humildade e sabedoria de sua parte (as duas coisas sempre vêm juntas). Bom saber que minha ajuda serviu. Fiz a minha parte.

Entretanto, noto que esse seu preconceito antiisraelense não sumiu de todo. Ele se expressa na sua afirmação de que, "assim como o Hamas, Israel não quer a paz". E isso porque "violência gera violência" etc. etc. Com isso, você está repetindo, sob a capa de um aparente discurso fácil pacifista, um dos mitos mais profundamente arraigados na questão: o terrorismo de grupos como o Hamas e o Hezbollah seria o resultado da ação militar de Israel etc. Segundo essa visão, bastaria que Israel não agisse e o Hamas e o Hezbollah deixariam de lançar mísseis e explodir homens-bombas contra Israel etc. etc.

É uma pena que, pelo visto, você não leu meus outros posts sobre a questão, pois isso me obriga a ser repetitivo. Tudo bem, não me importo em ser repetitivo, assim como não me importo em ser didático: a ideia de que a violência do Hamas e assemelhados vem como uma reação à violência - ou à "opressão", dizem os mais cínicos - de Israel contra os palestinos é uma das maiores mentiras de todos os tempos. Por que digo isso? Por um motivo simples: porque, não importa o que Israel faça ou deixe de fazer, o terrorismo islamita contra seu povo prosseguirá. Isso porque suas raízes são muito mais profundas. Se tem alguma dúvida, então peço que não acredite em nada do que eu estou falando. Peço apenas que acredite nos seguintes fatos:

- Em 2000, Israel ofereceu ao Fatah de Yasser Arafat mais de 90% (noventa por cento) de todo o território ocupado por Israel desde 1967. A resposta de Arafat? Achou a oferta inaceitável e deu início à segunda revolta palestina, a intifada, que provocou centenas de mortos e fortaleceu ainda mais grupos como o Hamas;

- No mesmo ano de 2000, Israel retirou-se do sul do Líbano, que ocupava desde 1978. O que aconteceu desde então? O Hezbollah assumiu o controle da área, e multiplicou os ataques contra civis israelenses na fronteira, levando a uma guerra com Israel em 2006;

- Em 2005, o governo israelense (presidido por Ariel Sharon) retirou, UNILATERALMENTE E SEM PEDIR NADA EM TROCA, os colonos e soldados israelenses da Faixa de Gaza. No ano seguinte, o Hamas tomou o poder na região. Preciso dizer o que ocorreu desde então?

Isso tudo aí em cima são fatos, não são opiniões. Pesquise no Google. Grupos terroristas e genocidas como o Hamas e o Hezbollah não querem a paz, não querem dois Estados convivendo lado a lado na região - querem destruir Israel. E cada aceno de paz de Israel em direção a esses grupos só resultou, até agora, não no fim dos ataques terroristas, mas na sua intensificação. O mesmo se aplica ao terrorismo da Al-Qaeda e à sua suposta relação com o que quer que faça ou não faça o governo dos EUA. Pergunto: diante de um inimigo assim, que não quer a paz nem reconhece seu direito à existência, o que você faria?

Há apenas uma solução para o problema do Oriente Médio. E ela passa necessariamente pelo reconhecimento de Israel. E isso vale não só para o Hamas ou o Hezbollah, mas para grande parte da mídia ocidental, que ainda insiste em enxergar Israel como o lado agressor. Lembre da cobertura da guerra de Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza, há pouco mais de um mês. Quantas vezes você leu ou ouviu as expressões "reação desproporcional", "massacre" e até "terrorismo" e "genocídio" aplicadas à ação militar de Israel? Houve até quem - e não foram poucos! - comparasse a ação israelense às práticas nazistas... Agora, compare isso com quantas vezes você leu/ouviu as palavras "escudos humanos" aplicada ao Hamas em relação à população palestina. Aliás, quantas vezes você leu/ouviu as palavras "terrorista" e "genocida" aplicadas ao Hamas?

Sobre o Irã: não, Felipe, não acho que todo o povo iraniano deva pagar pelos "erros" (prefiro chamar de crimes, a menos que ser antissemita e pregar a destruição de um Estado inteiro por razões religiosas, sem falar na opressão sobre o próprio povo, sejam apenas erros, e não crimes) de Ahmadinejad e sua corja. Assim como não acho que todo o povo alemão deveria ter pago com os bombardeios aliados pelos crimes de Hitler e dos nazistas. Mas isso não significa aceitar passivamente que fanáticos como Ahmadinejad utilizem a população inocente do Irã, como fazem os seus aliados do Hamas na Faixa da Gaza, como reféns e escudos humanos. Será preciso muita perspicácia para perceber que os maiores responsáveis pela tragédia que se abateria sobre o Irã em caso de ataque americano seriam não os EUA, mas Ahmadinejad e sua turma?

É isso. Se o caro leitor tiver lido direito o que está aí em cima, e resolver enxergar a situação do Oriente Médio com olhos críticos, e não com a visão deturpada anti-Israel e antiamericana (na verdade, antiocidental) que nos é passada diariamente pelos veículos de imprensa, não terá dificuldades em perceber de que lado está a civilização e de que lado está a barbárie. Só posso garantir uma coisa: o lado da civilização e da humanidade, certamente, não é o lado dos que querem aniquilar Israel e dos que fecham os olhos para essa realidade.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Mais algumas respostas a um leitor anti-Israel

Segue mais uma troca de ideias com o leitor que me mandou três perguntas sobre (na verdade, contra) Israel, que eu respondi no último post. Parece que ele ainda não desistiu de seu intento de equiparar Israel ao terrorismo do Hamas. Faço novamente a sua vontade e respondo as suas novas fabulações (ele em vermelho, eu em preto):
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Gustavo,
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Parece-me que a resposta 2 foi bem respondida e não cabe voltarmos nela. No entanto, a primeira e a terceira ainda não se resolveram.
Da minha parte, as questões todas já foram devidamente respondidas. Mas vamos lá.
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Quanto a primeira, você utilizou como exemplo um criminoso que faz reféns e dispara contra você. Temos como opção (segundo você disse) atirar contra o criminoso ou não. Considero que na minha opinião, um policial deveria fazer de tudo para preservar os reféns. Ou seja, inocentes não devem morrer, pois isto seria injusto. Um criminoso sempre será criminoso e matará inocentes (isto vale para um terrorista). Mas um policial não deve se valer da mesma opinião e matar inocentes com o intuito único de se defender do criminoso. A vida do inocente é tão valiosa quanto.
Praticamente repetiu o que eu disse, com outras palavras. Pois é exatamente essa posição - eliminar o terrorista, fazer o possível para poupar os inocentes - a posição de Israel. Já quanto ao Hamas, Hezbollah etc., sabemos muito bem o que eles querem: destruir Israel, provocar um novo Holocausto. Entre um e outro, portanto, não há como se falar em equivalência moral. Por que é tão difícil para algumas pessoas perceber algo tão óbvio? Aliás, por que o leitor não cita, em momento algum, o Hamas?
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Mais uma vez, vou tentar ser o mais didático possível: numa situação de tomada de reféns, com um terrorista usando-os como escudos humanos para disparar indiscriminadamente, pode-se colocar no mesmo saco o terrorista e o policial que, na tentativa de eliminá-lo e libertar os reféns, provoca acidentalmente a morte de um dos reféns? Pode-se dizer que, nesse caso, os dois lados - os terroristas e os policiais - se equivalem moralmente?
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Se dessa vez o caro leitor não compreender a analogia, acho que vou ter que inserir a tecla SAP no blog.
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Na terceira, você disse a palavra mágica: ONU. Lembremos que os palestinos não aceitaram a divisão estabelecida pela ONU, pois consideram-na injusta. E, portanto, a criação de Israel se deu com a tomada de territórios que eram considerados dos palestinos pelos próprios. Lembremos também que Israel tomou a faixa de Gaza e passou a administrá-la.
Não foram "os palestinos" que não aceitaram a divisão estabelecida pela ONU em 1947 - foram os árabes. Árabe não é o mesmo que palestino. Vou repetir o que disse antes: só se começa a falar em palestinos, Estado palestino etc., depois da derrota árabe na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Até então, a luta era entre árabes (egípcios, jordanianos, sírios etc.) e israelenses. Quem não aceitou a partilha da ONU, lembremos, foram os árabes, que atacaram em bloco Israel. A única opção deixada aos israelenses foi defender-se dessa agressão e lutar pelas próprias vidas. Tem gente que acha até hoje isso injusto, e prefere que os árabes tivessem vencido a guerra - ou seja: que Israel fosse destruído. Penso diferente desses, e acho que Israel tem o direito de existir.
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Quanto à Faixa de Gaza, Israel só a tomou em 1967, quando até então ela pertencia ao Egito. Em 2005, Ariel Sharon - sim, ele mesmo! - ordenou a retirada dos colonos e soldados israelenses da Faixa de Gaza. De forma unilateral, sem pedir nada em troca. Imperialistas cruéis, esses israelenses, como se vê...
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Quanto à ONU, eu teria mais alguma coisa para falar, mas vou deixar para outra oportunidade. Já falei de como essa organização é hoje bem diferente do que era quando foi criada. Basta lembrar da tal escola da ONU, que teria sido bombardeada por Israel na Faixa de Gaza, e de como os próprios funcionários da ONU admitiram que o bombardeio foi do lado de fora da escola - quase um mês depois...
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Por último, novas perguntas: Por que você sempre é contra o Islã? Por que é ruim fazer acordos, mas bom fazer a guerra? Por que é errado Obama negociar com Ahmadinejad ao invés de atirar misseis no Irã?
O quê??? Eu li certo??? O caro leitor está dizendo que este escrevinhador é "sempre contra o Islã"? E que considero fazer acordos algo "sempre ruim" e a guerra, algo "sempre bom"? Peraí, deixa eu me recompor do choque...
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Meu caro, aponte onde, em que texto, em que parágrafo, em que linha eu digo que sou contra o Islã (ou o cristianismo, ou o budismo, ou o hinduísmo, ou a seita do Santo Daime...). Tenho minhas próprias opiniões sobre religião, que eu não faço questão nenhuma que alguém compartilhe comigo, mas não tenho absolutamente nada contra (nem a favor) esta ou aquela crença. Sou, isso sim, contra grupos terroristas como o Hamas e o Hezbollah, assim como sou radicalmente contra tiranias teocráticas como a do Irã. Isso me torna um inimigo do Islã?
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Outra coisa: onde foi que eu escrevi que é "sempre ruim" fazer acordos? E que é "sempre bom" fazer a guerra? Aponte onde eu disse algo parecido com isso. O que eu disse e repetirei quantas vezes for necessário é que NEM SEMPRE é bom fazer acordos - depende de com quem você negocia. É bom lembrar que foi o desejo de fazer acordos e apaziguar Hitler que abriu o caminho para a Segunda Guerra Mundial (como disse Churchill, entre a desonra e a guerra, os defensores da paz com Hitler a qualquer preço escolheram a desonra - e tiveram a guerra). Por que acho errado Obama negociar com Ahmadinejad? Pelos seguintes motivos (escolha o seu preferido):
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- Porque Ahmadinejad é um antissemita fanático que nega o Holocausto;
- Porque Ahmadinejad não reconhece o direito de Israel à existência;
- Porque Ahmadinejad já declarou inúmeras vezes que deseja varrer Israel do mapa;
- Porque Ahmadinejad financia o terrorismo do Hamas.
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É mole ou quer mais? Os acenos de Obama não estão sendo acompanhados de nenhum compromisso do Irã de que irá cessar seu programa nuclear, ou qualquer movimento semelhante. Alguém acredita realmente que será a paz que virá daí?
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A guerra NUNCA é uma boa opção. O que não significa que, às vezes, não seja a ÚNICA opção possível, além da própria destruição. Basta ver o caso da luta contra o nazi-fascismo. Há sessenta anos Israel convive com essa realidade. E há sessenta anos idiotas de todos os tipos tentam justificar, de todas as maneiras, o terrorismo contra Israel. Inclusive apelando para o pacifismo.
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Não queremos mais guerras. Somente pela diplomacia poderemos atingir a paz.
Primeiro: quem é o "nós" da frase? Sempre desconfiei de textos na primeira pessoa do plural que não especificam quem seria exatamente esse sujeito. Se o leitor está se referindo aos israelenses, a frase é correta. O mesmo não pode ser dito do Hamas, ou do Irã. Nem sempre a diplomacia é o único caminho para a paz. Se fosse assim, seria ótimo, não precisaria nem haver exércitos. Sem a força militar, a diplomacia não tem sentido, é mero exercício de retórica. A menos que se acredite piamente que o Hamas e o Irã estejam realmente interessados na paz, assim como Hitler.
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É impressionante como, para justificar o terrorismo, haja quem violente tão despudoradamente a Lógica e a História. E ainda falam em paz...

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Três respostas para um leitor anti-Israel

Comentando meu texto "Um diálogo sobre discursos (ou: da necessidade de recolocar frases no contexto)", um leitor, movido pela curiosidade ou pela malícia, escreveu-me fazendo três perguntas. O tema é o conflito israelo-palestino (que eu prefiro chamar de luta de Israel contra o terrorismo, pois o conflito israelo-palestino, desde os Acordos de Oslo de 1993, já deixou há muito de existir). Ele vai em vermelho. Minhas respostas vão em preto.
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Gustavo,
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Se for capaz, peço que responda sinceramente estas questões:
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1) Por que é justo Israel defender seu país atacando os Palestinos, mas é injusto os Palestinos defenderem seu povo atacando os israelenses?
A questão é desonesta. Israel não ataca os palestinos. Ataca, isto sim, grupos como o Hamas, que usam os palestinos como escudos. O Hamas não defende os palestinos atacando os israelenses. Ataca Israel porque quer destruí-lo, e com isso arrasta propositalmente a população civil palestina para a guerra. A Israel não resta outra alternativa senão se defender. Como? Tentando neutralizar a capacidade destrutiva do Hamas, por exemplo.
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Vou tentar ser mais didático: imagine uma situação em que um criminoso faz reféns e começa a disparar contra você. O objetivo do dito criminoso não é outro senão exterminá-lo, riscar você do mapa. O que você faria? Reagiria, tentando eliminar essa ameaça, sob o risco de atingir os reféns, ou não faria nada, ficaria sentado, servindo de alvo, para não provocar danos colaterais?
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2) Por que é justo os judeus terem um país próprio, mas injusto os palestinos terem um país para eles?
Epa! Alto lá! Quem está dizendo que é injusto os palestinos terem um país para si? Diga onde, quando, eu disse algo remotamente parecido com isso. Nem eu, nem muito menos Israel se opõe à existência de um Estado palestino. Pelo contrário! Desde os Acordos de Oslo, em 1993, a solução dos dois Estados - um israelense e um palestino - foi acordada entre as duas partes, Israel e o Fatah. A questão, portanto, já está resolvida. Quem não aceita essa solução, meu caro, não é Israel, são grupos como o Hamas, que não querem saber de dois Estados convivendo lado a lado, pois simplesmente juraram varrer Israel do mapa. A questão prima pela ignorância - ou pela má-fé.
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Apenas um adendo: Israel está longe de ser um Estado exclusivamente judeu. Há israelenses judeus, cristãos, ateus e até árabes muçulmanos (cerca de 1,5 milhão). Isso porque se trata de um país democrático - o único, aliás, do Oriente Médio. Agora, imagine o que seria dos judeus caso o Hamas ou o Hezbollah alcancem seu objetivo de instaurar uma teocracia islâmica na região...
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3) Por fim, a mais importante, por que é justo que Israel invada e tome a terra dos palestinos (que nela já estavam antes dos judeus), mas é injusto que os palestinos retomem dos judeus a terra que é deles por direito e usufruto?
Primeiro: não é verdade que Israel "invadiu e tomou" a "terra dos palestinos". O Estado de Israel foi criado por uma Resolução da ONU, em 1947, que previa também a criação de um Estado Árabe. Até então, a região estava sob mandato britânico, como esteve antes sob domínio otomano (turco) até a Primeira Guerra Mundial. Segundo: nesse período todo, nunca deixou de existir uma presença judaica na região, ao lado dos árabes (é um mito a ideia de que os judeus "vieram depois"). Terceiro: quanto aos palestinos, só se começou a falar deles depois da derrota árabe na Guerra dos Seis Dias, em 1967 - até então, a luta era entre "árabes" e "israelenses". A idéia de um Estado palestino (e não árabe) só surge muito depois, e contra a vontade dos governantes ÁRABES, é bom que se diga. Em suma: a questão peca por absoluta falta de sentido lógico e histórico.
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É impressionante como, entre o terrorismo de quem quer destruir um Estado democrático e o direito deste de se defender, ainda há quem defenda o primeiro, e negue o segundo, alegando, inclusive, pretensos objetivos humanistas. É triste ter que responder esse tipo de pergunta, mas é necessário, infelizmente.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

OUTRAS GUANTÁNAMOS

No post anterior, falei do paradoxo de se condenar a decisão da Igreja Católica de readmitir um arcebispo antissemita e saudar, ao mesmo tempo, o início de conversações "de paz" entre os EUA e o Irã do antissemita Mahmoud Ahmadinejad. Lembrei que os acenos do governo de Barack Obama a Teerã não estão sendo acompanhados de nenhum compromisso, por parte de Ahmadinejad, de que irá abandonar seu programa nuclear (alguém duvida para que este serve?), ou de que deixará de patrocinar o terrorismo palestino de grupos como o Hamas, ou de que reconhecerá o direito de Israel à existência. Logo, a possibilidade de que o resultado de tais conversações seja "a paz" no Oriente Médio é, sendo bastante otimista, algo mais do que remoto.
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Bem mais perto de nós, aqui mesmo na América Latina, um outro processo de conversações para "a paz" me chamou a atenção. Assim como no caso do Irã, trata-se de algo que está sendo celebrado pelos bem-pensantes e admiradores do novo presidente norte-americano, ou simplesmente pelos Cândidos da vida, como uma nova "esperança". Barack Obama, como se sabe, defende o início do diálogo com o regime de Cuba, capitaneado pelo primeiro-irmão, Raúl Castro. Também prometeu rever as políticas de seu antecessor, George W. Bush, no tocante ao combate ao terrorismo. Para assinalar que uma nova era estava começando, o novo Messias ungido anunciou, no primeiro dia de seu mandato, o cumprimento de uma promessa de campanha: o fechamento, no prazo de um ano, da prisão de Guantánamo, em território cubano. É a "mudança" em ação. (O que se fará dos prisioneiros, alguns dos quais já retornaram à faina terrorista, é, claro, assunto para outros resolverem...)

Pois bem. O anúncio do fechamento de Guantánamo está sendo celebrado por todos os que se opuseram à administração Bush como uma vitória dos Direitos Humanos. Em certo sentido, é mesmo, já que a tal prisão era mantida ao arrepio da lei internacional etc. e tal. Até aí, beleza. A essa altura, creio eu, todos querem o fechamento da prisão, onde, como fomos insistentemente bombardeados pela imprensa nos últimos oito anos, a tortura, ou algo parecido com a tortura, rolava solta. O.k., juridicamente, Guantánamo era uma aberração. O.k., os direitos humanos dos prisioneiros eram violados. O.k., havia mesmo alguns inocentes entre os detidos. O.k., a prisão precisava mesmo ser fechada. Tudo isso é certo. Mas tem uma coisa aí que não encaixa direito...

Não encaixa direito o fato de que a decisão de fechar a prisão tenha sido acompanhada do anúncio do começo de conversações com o regime de Cuba, um país que, como se sabe, tem não uma, mas cerca de trezentas Guantánamos, funcionando a todo vapor, há mais de cinquenta anos. Aliás, a ilha inteira é uma imensa prisão. No entanto, não se vê o mesmo tipo de pressão internacional sobre o regime de Havana para que feche suas cadeias e liberte os presos políticos. Pelo contrário. No final do ano passado, o governo do "democrata" Luiz Inácio Lula da Silva patrocinou a entrada de Cuba no Grupo do Rio, organização dos países da América Latina, sob a alegação de que é preciso evitar o "isolamento" de Cuba e "trazer de volta" a ilha para o "convívio democrático". Com um detalhe importante: não foi exigido absolutamente NADA do regime cubano para que fosse aceita sua entrada no tal Grupo. O que revela que há muito mais por trás de tais movimentos além de amor pela democracia e pelos direitos humanos...
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Do mesmo modo, os acenos de Obama em direção à ditadura cubana vieram acompanhados de alguma exigência de democracia e de respeito aos direitos humanos na ilha? Nenhuma. Nada, absolutamente nada, foi pedido a Havana. Pelo contrário: a exemplo do que ocorreu com Ahmadinejad, o regime castrista de Cuba não perdeu a chance de espicaçar o Grande Satã imperialista. Ao braço estendido de Obama, Havana respondeu com algum sinal de que irá permitir a liberdade de expressão e realizar eleições livres? Não. Em vez disso, apresentou uma longa lista de exigências à Casa Branca: entrega de Guantánamo a Cuba; fim do "bloqueio" à ilha; soltura de cinco cubanos presos nos EUA acusados de espionagem; e, de quebra, entrega de um cubano, Luís Posada Carriles, acusado de terrorismo contra o regime (será preciso dizer qual tipo de "justiça" será aplicada a Carriles, caso ele seja entregue à ditadura cubana?). Sobre permitir eleições livres e a livre circulação de opiniões, bem como libertar dezenas de pessoas presas há anos por desejarem a democracia para a ilha, nenhuma palavra, nem um pio sequer.

A ideia de que Cuba se tornará um dia uma democracia em função do que fará ou deixará de fazer o ocupante da presidência dos EUA é um dos mitos mais fortemente arraigados na psique coletiva ocidental nos últimos cinquenta anos. É uma forma de desviar a atenção dos verdadeiros culpados pela falta de liberdade no país, que são os irmãos Castro e sua camarilha, e, ao mesmo tempo, atirar a redemocratização da ilha para as calendas gregas. De acordo com essa visão, países como Cuba, Irã e Coreia do Norte só são ditaduras como uma forma de "reação" ao que os EUA fazem (os EUA são os culpados por tudo de ruim que acontece no mundo, desde as ditaduras e o terrorismo até a AIDS e a crise econômica). A conclusão daí decorrente é que, para que se tornem democracias, basta que os EUA "ajam". Na verdade, não há nada, exceto as teorias conspiratórias ou o wishful thinking, que corrobore essa tese. Cuba e o Irã não são regimes tirânicos porque assim determinou a política externa dos EUA, mas tão-somente porque seus líderes - os irmãos Castro e Ahmadinejad - não têm qualquer compromisso com os direitos humanos e a democracia. Daí que tais regimes não chegarão ao fim sendo adulados. Pelo contrário: é somente uma ação firme e decidida da comunidade internacional, mediante a pressão sobre tais regimes, o que poderá levar, um dia, à liberdade.

Alguns dias atrás, o ator Benicio Del Toro, que interpreta Che Guevara num filme, enrolou-se ao tentar justificar numa entrevista os fuzilamentos comandados por Che em Cuba, pois, segundo ele, muitos dos executados eram "terroristas". Essa, aliás, tem sido a justificativa-padrão repetida pelos defensores da tirania castrista para os fuzilamentos na ilha: "eram terroristas" etc. etc. Del Toro foi imediatamente desmentido, de maneira humilhante, pela entrevistadora, de origem cubana, que lembrou que a maioria dos fuzilados era de presos de consciência, não terroristas. Disso fica uma lição importante: em Guantánamo, até onde se sabe, nenhum dos acusados de terrorismo presos foi morto. Já em Cuba, o tratamento para aqueles acusados de terrorismo, como Posada Carriles, e mesmo para os que apenas se opõem ao regime, é o paredão, e isso é visto por muitos como algo plenamente justificável. Fico pensando o que diriam os "defensores dos direitos humanos" se alguém no governo dos EUA propusesse o fuzilamento sumário dos detidos em Guantánamo... Seria um escarcéu, sem dúvida. Essa diferença demonstra claramente quem está do lado da civilização e dos direitos humanos, e quem está se lixando para as duas coisas, usando-as apenas como armas de propaganda.

É por essas e outras que eu não canso de dizer que o mundo virou mesmo de cabeça para baixo (ou de ponta-cabeça). Graças, em grande parte, aos Lulas e Obamas da vida. Raúl Castro e Ahmadinejad podem ficar sossegados. Se depender do novo presidente dos EUA, eles ficarão no poder por muito tempo ainda.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

DE ANTISSEMITAS E GENOCIDAS


Pilha de mortos em Auschwitz: Isso, Ahmadinejad também nega

A Igreja Católica está - mais uma vez - sob fogo cerrado. Tudo porque o papa Bento XVI, numa decisão extrememente controversa, resolveu readmitir no seio da Igreja, alguns dias atrás, o arcebispo ultra-conservador Richard Williamson. Williamson, que pertence ao movimento cismático fundado em 1985 pelo falecido arcebispo Marcel Lefèbvre, que não aceita os rumos da Igreja após o Concílio Vaticano II, e que havia sido excomungado juntamente com Lefèbvre, deu uma entrevista a um canal de televisão negando o Holocausto judeu durante a Segunda Guerra Mundial. A gritaria foi geral. Imediatamente, o rabinato de Israel cortou relações com o Vaticano e o governo da Alemanha, presidido por Angela Merckel, deplorou a decisão da Santa Sé. Com as relações estremecidas com Berlim e Telavive, Bento XVI resolveu voltar atrás em sua decisão de readmitir Williamson, exigindo do arcebispo negacionista uma retratação - sob pena de excomunhão da Igreja. .

A onda de indignação contra Williamson é justa? É justa. Negar o Holocausto nazista é algo inadmissível, e tal atitude, que é crime na Alemanha, deve ser denunciada. Ainda mais se tratando de um prelado da Igreja Católica, tão atacada - muitas vezes, injustamente - por sua suposta condescendência com o genocídio judeu durante o conflito mundial. A questão da morte de 6 milhões de judeus nas mãos dos agentes de Hitler nos anos 30 e 40 é ainda hoje um assunto espinhoso para muita gente, dentro e fora da Igreja. Nessa perspectiva, as pressões sobre a Santa Sé são mais do que corretas e justas: são necessárias. Mas...

Na mesma semana em que o mundo inteiro se encheu de justa indignação contra Bento XVI por sua decisão de readmitir o antissemita Williamson, um outro fato me chamou a atenção. A imprensa norte-americana e mundial anunciou com fanfarra que o governo de Barack Obama iniciou conversações com o Irã. O que isso tem a ver com o caso Williamson? Muita coisa. A notícia do começo das conversações com o Irã foi saudada pelos setores "progressistas" - os mesmos que quase convocaram uma revolta geral contra o papa pelo caso Williamson - como uma esperança de paz. Beleza? Beleza. Mas há um detalhe aí para o qual, ao que parece, quase ninguém deu muita bola: o Irã é, desde 1979, uma teocracia islâmica, na qual vigora a sharia, a lei do Profeta. Seu líder é Mahmoud Ahmadinejad. Assim como o arcebispo católico Williamson, ele nega abertamente, e até com orgulho, que tenha havido o Holocausto nazista. Mais que isso: ele defende abertamente a destruição do Estado de Israel - um novo Holocausto, portanto.
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Por que a condenação de Williamson é algo justo e correto - o que de fato, é - e os acenos de Obama em direção ao Irã de Ahmadinejad são uma "esperança de paz"? Afinal, não são ambos, Williamson e Ahmadinejad, notórios antissemitas e negadores impenitentes do Holocausto? Notem que não se condicionou o início das negociações com o iraniano a nenhuma retratação pública sua em relação aos judeus. Pelo contrário: Ahmadinejad aproveitou o ramo de oliveira estendido pela Casa Branca para reforçar sua coleção de diatribes contra Israel e os EUA, exigindo que Washington, vejam só, peça desculpas pelo apoio ao Estado de Israel, entre outras coisas inaceitáveis. Em outras palavras: ele não deu nenhum sinal, até o momento, de que irá reconhecer o direito de Israel existir, nem de que está realmente interessado na paz na região.
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Além do mais, o arcebispo Williamson, até onde se sabe, é uma voz isolada, e fala por si mesmo. Já Ahmadinejad é um chefe de governo, e tem um poderoso exército à sua disposição. O Irã, aliás, é o principal financiador do Hamas, grupo terrorista que também jurou varrer Israel do mapa, e que travou uma guerra contra Israel no mês passado na Faixa de Gaza. Em um caso, o de Williamson, a questão é, no máximo, um assunto interno da Igreja. No caso de Ahmadinejad, o problema é da humanidade. Por que, então, a condenação exigida se restringe à Igreja Católica, não chegando também aos maiores antissemitas da atualidade, os fanáticos islamitas? Em um caso, indignação. Em outro, júbilo. Alguém me explique isso, por favor.

(Por falar no Hamas, aí vai um parêntese importante: lembram daquele bombardeio de Israel a um prédio da ONU, no dia 6 de janeiro passado, no auge da guerra entre Israel e o Hamas, que teria matado 43 pessoas na Faixa de Gaza e que causou uma onda de furor antiisraelense na opinião pública mundial? Pois é. Era tudo mentira. O tal bombardeio contra o prédio da ONU nunca aconteceu. O bombardeio aconteceu do lado de fora do prédio. Quem admitiu isso foi a própria ONU - na segunda-feira passada, quase um mês depois do bombardeio. Foram os próprios funcionários da ONU que reconheceram que a informação era falsa, e que esconderam isso durante quase um mês. A notícia está no jornal Haaretz, de Israel. Pergunto: onde estão as manchetes nos grandes jornais ocidentais sobre essa farsa? Também não vi ninguém na imprensa humanista ocidental indignar-se contra as execuções de membros do Fatah por militantes do Hamas após a saída das tropas israelenses de Gaza. Fechemos o parêntese.)

De tudo que está aí em cima, o que se depreende é o seguinte: muitos dos que estão indignados com Bento XVI não se opõem ao antissemitismo, mas à Igreja Católica. A prova disso é que aplaudem a decisão de Obama de conversar com o antissemita Ahmadinejad. Para eles, o arcebispo Williamson deve ser punido não por ser antissemita, mas por ser católico. Antissemitas de outras religiões, como Ahmadinejad, segundo essa visão, devem ser não punidos, mas readmitidos na ordem internacional. Difícil entender.
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O antissemitismo é um crime abjeto e imperdoável. A negação do Holocausto também. Seus defensores são inimigos da paz e da humanidade. Daí porque é tão difícil compreender porque o antissemitismo de uns é mais aceitável, ou menos inaceitável, do que o de outros. Em outros tempos, isso se chamava hipocrisia. Hoje, é "tolerância" ou "pragmatismo". O mundo virou mesmo de pernas para o ar.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

AINDA SOBRE O PORCO FEDORENTO - UM VERMELHO-E-PRETO COM DOIS "CHEDÓLATRAS"


Um devoto do culto a Santo Che Guevara, em luta contra um cruel agente do imperialismo da Terra-do-Nunca


Ainda no embalo da imperdível entrevista em que a jornalista Marlen Gonzalez fez picadinho do idiota útil Benicio Del Toro, resolvi fazer uma rápida pesquisa na internet, em busca de artigos sobre Che Guevara. Procurei sobretudo artigos sobre uma reportagem de capa da revista VEJA, publicada em setembro de 2007, a qual desconstrói o Porco Fedorento. A reportagem, para quem lembra, causou alvoroço e indignação entre muitos esquerdistas. Alguns deles, tomados de Síndrome de Peter Pan e revoltados com esse crime de lesa-divindade, até então inédito na imprensa brasileira, reencarnaram Torquemada e fizeram uma fogueira com a revista em frente à editora Abril - é assim que os totalitários costumam reagir diante de algo que leram e não gostaram (ou que não leram e não gostaram, dá na mesma).
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Pois bem. Não tive dificuldade em achar vários artigos e textos em blogs de esquerdiotas que saíram em defesa de El Chancho, o fuzilador-mor de La Cabaña. Resolvi analisar um deles, com um titúlo até vistoso - "Che, a Veja e a amnésia seletiva"-, de autoria de um tal Bruno Fiuza e de uma certa Maíra Kubík Mano. Peguei-o como exemplo, pois os "argumentos" utilizados no texto são basicamente os mesmos repetidos por outros chedólatras ou guevaradólatras. Aí vai o texto, em vermelho, com meus comentários em preto.
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A revista Veja traz, na capa da edição corrente, um perfil de Ernesto Che Guevara, com o suposto objetivo de desconstruir o mito criado pela esquerda em torno do revolucionário argentino.
Não foi um "suposto" objetivo, mas o objetivo claro e declarado da matéria a desconstrução do mito Che Guevara. O que não é algo difícil de fazer, é preciso admitir.
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A tese apresentada pelos jornalistas Diogo Schelp e Duda Teixeira é a de que Che não foi o herói romântico e idealista de um mundo melhor, mas sim um assassino “cruel e maníaco”. E ponto.
Acham pouco? Só para lembrar: foram necessárias décadas para que se revelasse o caráter cruel e maníaco de outro assassino cultuado pela esquerda, Stálin. Até então, ele era visto também como um herói romântico e idealista, lutando por um mundo melhor... Sempre a cantar e a dançar alegremente, como escreveu um dia desses um de seus maiores fãs, Oscar Niemeyer.
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Para defender seu argumento, os autores da matéria fazem, na verdade, o oposto do que se propõem: ao invés de desconstruírem um mito e apresentar um ser humano complexo e contraditório, eles criam um outro mito.
Vejamos que "outro mito" seria esse que a revista estaria criando. Adiante.
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O Che Guevara apresentado por Veja é unidimensional. Para chegar a isso, é preciso uma brutal descontextualização. Apenas alguns pontos:
Antes de entrar no mérito do tema, é bom nos concentrarmos nessa palavra, "unidimensional". O que seria isso? Simples: a VEJA, assim como todos os que denunciam os crimes de Che, estaria pecando por ver apenas um lado do personagem, o lado mau, esquecendo-se de uma outra sua dimensão, positiva, seu lado bom, enfim. Eu fico aqui pensando se alguém teria a coragem de tentar reabilitar Hitler, por exemplo, criticando a visão "unidimensional" que esquece que o ditador nazista gostava, por exemplo, de doces e cachorros... Alguém aí se habilita a, em nome de uma visão, digamos, "multidimensional" do Führer, deixar de lado, por um momento, questões como o Holocausto?
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1) Em nenhum momento os autores apresentam o cenário político cubano antes da revolução de 1959. A ditadura de Fulgêncio Batista e suas ações são completamente ignoradas.
A matéria era sobre Che Guevara, não sobre Cuba antes de 1959. Mas tudo bem, eu faço a vontade dos adoradores de Che, e lembro alguns fatos sobre Cuba antes da tomada do poder por Fidel e seus barbudos. Eis alguns dados interessantes sobre a realidade cubana antes da revolução:
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- A ditadura de Batista perdera o apoio dos EUA; aliás, foi por isso que caiu;
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- A luta contra Batista, encabeçada pelo Movimento Revolucionário 26 de Julho (M-26-7), pelo Diretório Revolucionário e por uma miríade de organizações políticas visava, primordialmente, ao restabelecimento da democracia e das eleições diretas, com a restauração da Constituição liberal de 1940. Todas essas promessas foram convenientemente esquecidas por Fidel Castro após tomar o poder;
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- No plano econômico e social, Cuba detinha o terceiro lugar entre os países com o maior PIB e estava entre os cinco com o melhor padrão de vida na América Latina em 1958, inclusive em setores como saúde e educação.
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Como se vê, se a revista tivesse citado esses dados, teria reforçado sua tese, ajudando a desconstruir ainda mais o mito do revolucionário argentino.
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2) Em todos os cenários de luta armada apresentados (Cuba, Congo e Bolívia), a situação local e as forças envolvidas nesses combates não são apresentadas ao leitor eo “instinto assassino” de Guevara surge quase como uma segunda natureza, imanente à sua personalidade. A frase de Jon Lee Anderson é pinçada entre as mais de mil páginas de seu livro, uma importante e completa biografia de Che, para justificar isso: “para ele, a realidade era apenas uma questão de preto e branco. Despertava toda manhã com a perspectiva de matar ou morrer pela causa”. Num contexto de guerrilha, chega a soar engraçado esperar que a atitude de um combatente não fosse essa.
Mais uma vez, façamos a vontade de quem escreveu o que está aí em cima, e falemos um pouco sobre a situação local em cada cenário e as forças envolvidas. Já falei sobre a situação em Cuba pré-1959. No Congo, onde Guevara esteve em 1965, ele colocou-se ao lado de forças guerrilheiras lideradas, entre outros personagens, por um tal Laurent-Desiré Kabila, que se tornaria ditador do país em 1997 e estaria à frente do massacre de milhares de pessoas, até ser, ele mesmo, assassinado em circunstâncias misteriosas. Na Bolívia, o maior fracasso de Che, que acabaria custando-lhe a vida, ele esbarrou na desconfiança e hostilidade da população indígena local, que via os guerrilheiros não como libertadores, mas como invasores (em certo momento, como está em seu famoso diário, ele chegou a cogitar usar a "tática do terror" para conquistar o apoio dos camponeses). Sem falar no Partido Comunista local, que lhe deu as costas, e de uma até hoje mal-explicada omissão por parte do governo de Havana (segundo um dos três únicos sobreviventes da guerrilha boliviana, Dariel Alarcón Ramírez, "Benigno", Che teria sido "traído" por Fidel Castro). Enfim, esses eram os cenários em que Che queria deslanchar sua "revolução internacional".
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Uma correção: o tal instinto assassino de Che, citado pela revista - cerca de 400 prisioneiros, a maioria presos de consciência, executados no paredón em alguns meses em 1959 -, ao contrário do que está escrito aí em cima, não era sua segunda natureza: era a única que ele tinha. Era sua própria personalidade. Se têm alguma dúvida, então por favor me expliquem como deve ser classificado quem louva "o ódio como fator de luta, o ódio intransigente ao inimigo, que o impulsiona além das limitações naturais do ser humano e o converte em uma efetiva, violenta, seletiva e fria máquina de matar". Convenhamos, até no contexto da luta guerrilheira, deve-se esperar que haja limites. É nesse contexto que a frase retirada do livro de Jon Lee Anderson deve ser analisada.
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3) Em determinado trecho da matéria, Guevara é acusado de ser o responsável pelo colapso econômico do país: “No comando do Banco Central e depois do Ministério da Indústria, Che começou a nacionalizar a indústria e foi o principal defensor do controle estatal das fábricas. ‘Che era um utópico que acreditava que as coisas podiam ser feitas usando-se apenas a força de vontade’, diz o historiador Pedro Corzo, do Instituto da Memória Histórica Cubana, em Miami. Como resultado de sua ‘força de vontade’, a produção agrícola caiu pela metade ea indústria açucareira, o principal produto de exportação de Cuba, entrou em colapso. Em 1963, em estado de penúria, a ilha passou a viver da mesada enviada pela então União Soviética”. Pois bem, o que os autores não falam é que no ano anterior, em 1962, foi decretado o embargo econômico dos Estados Unidos a Cuba, que continua até hoje apesar de ter sido vetado inúmeras vezes pela Assembléia Geral da ONU.
A ideia por trás dessa última afirmação é de que a culpa pelo descalabro econômico da ilha, e dos desmandos na área por parte de Guevara, seria do tal embargo econômico dos EUA a Cuba, que teria, inclusive, levado a ilha para a dependência em relação à URSS. É mentira. A ajuda econômica da ex-URSS a Cuba começa antes de qualquer embargo norte-americano à ilha, datando de 1960, quando o então Ministro do Comércio da URSS, Anastas Mikoyan, visita o país a convite de Fidel e Raúl Castro. Não há qualquer relação entre o embargo e a dependência de Cuba da URSS, assim como não há qualquer relação entre qualquer ação do governo dos EUA e a falência econômica do regime cubano, que é o resultado única e exclusivamente da incompetência crônica da ditadura castrista.
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Como mostra a citação acima, uma das fontes consultadas é um professor que vive em Miami. No início, o texto já diz que mesmo cheios de rancor, os cubanos dissidentes são uma fonte “da maior credibilidade”. Assim como os agentes da CIA que capturaram e assassinaram Guevara. Isso demonstra o outro pilar essencial para construir a tese da matéria: ouvir apenas um dos lados da história.
Aqui está em ação um dos instrumentos mais caros à esquerda: a velha argumentação ad hominem. As fontes consultadas pela revista, como se compõem de dissidentes que vivem em Miami, não mereceriam nenhuma credibilidade porque, afinal, trata-se de... dissidentes que vivem em Miami! Assim como os "agentes da CIA que capturaram e assassinaram Guevara" - como se todos os exilados em Miami pertencessem a essa categoria. Desqualifica-se, assim, toda uma comunidade - cerca de 2 milhões de pessoas -, simplesmente por fazerem parte dessa mesma comunidade de exilados. Se fosse para levar esse tipo de argumentação a sério, nenhum exilado deveria ter suas palavras levadas em conta. A começar por José Martí, herói nacional cubano, que passou boa parte de sua vida no exílio.

Sem falar que não foram "agentes da CIA", mas sim o Exército boliviano, que capturou e matou Guevara em 1967 (havia apenas um agente da CIA na operação, Félix Rodríguez, que chegou ao local onde Guevara foi fuzilado depois de sua captura e não teve qualquer participação em sua execução).

Os autores gostariam que a revista ouvisse "o outro lado" da história. O outro lado é o governo cubano. Seu ponto de vista já é por demais conhecido. Basta ler o Granma. A reportagem busca exatamente ir além da visão heroica oficial e revelar o verdadeiro Che, o Che por trás do pôster e da camiseta. E o consegue.

Refugiando-se na afirmação de que o regime castrista é “policialesco” e não permite a livre circulação de informações, a matéria se desincumbe de entrar em contato com qualquer fonte igualmente próxima de Che mas que tivesse outra visão sobre os acontecimentos.
Notaram as aspas em "policialesco"? Pois é. Os autores dessa fábula devem acreditar que Cuba é uma democracia em que todos têm livre direito de expressar seu pensamento. Mas deixemos isso de lado, por ora. Acharam estranho que VEJA não tenha entrado em contato com qualquer fonte próxima de Che com "outra visão" sobre o personagem? Quem seria? Um dos filhos de Che, que morreu quando eram todos ainda crianças pequenas e só sabem do pai aquilo que a propaganda oficial cubana repete? Ou Fidel e Raúl Castro? A opinião desses já é sobejamente conhecida. Ah, esse pretenso jornalismo isentista, que pretende ouvir todos os lados e que cultua a neutralidade....

Isso porque nem entramos aqui no mérito do “tom” do texto, que desqualifica com adjetivos seus personagens e se distancia de um jornalismo equilibrado: “Enquanto Che foi cristalizado na foto hipnótica de Alberto Korda, ele próprio, o supremo comandante, aparece cada dia mais roto, macilento, caduco, enquanto se desmancha lentamente dentro de um ridículo agasalho esportivo diante das lentes das câmeras da televisão estatal cubana”.
Viram só? O problema agora é com o "tom" do texto, que se distanciaria de um - vou repetir a expressão - "jornalismo equilibrado"... Fica a pergunta: que "jornalismo equlibrado" seria esse? Não é a VEJA, certamente, pois esta tem, sim, lado, e não esconde isso de ninguém. Provavelmente, claro, os autores devem estar se referindo a monumentos de imparcialidade jornalística como a Caros Amigos...

Não deixo de ficar intrigado com esse tipo de, vá lá, "argumento": "não gostei do 'tom' do texto, achei desrespeitoso etc.". Como se um órgão de imprensa devesse prestar reverência a um dos maiores engodos do século XX e a um tirano assassino e caduco, cada vez mais ridículo e deplorável diante do mito, eternamente jovem, que ele criou para dar sustentação a seu regime totalitário. Os autores devem estar tristes porque, infelizmente para eles, os tiranos envelhecem, ainda não encontraram um meio de fazer o tempo obedecer a suas ordens.

Por fim, a visão de história apresentada é, no mínimo, discutível. Ao afirmar que Che Guevara deveria ser “jogado na lata de lixo onde a história já arremessou há tempos outros teóricos e práticos do comunismo, como Lenin, Stalin, Trotsky, Mao e Fidel Castro”, os autores assumem uma perspectiva que reúne o pior da escola positivista do século XIX - como se a história fosse uma sucessão de etapas, uma melhor que a outra - ea notória concepção de Francis Fukuyama, segundo a qual “a história acabou” com o triunfo do capitalismo.
Finalmente, a cereja do bolo: a afirmação da revista, de que Guevara deve ir para o lugar onde já estão outros próceres do totalitarismo esquerdista, seria o resultado de uma "perspectiva que reúne o pior da escola positivista do século XIX" - como se o Positivismo, na verdade, não fosse uma doutrina filosófica com traços em comum com o marxismo, em especial a crença nas etapas sucessivas e progressivas da História (feudalismo, capitalismo, socialismo... até a pretensa "sociedade comunista perfeita"). Enfim, tenta-se atribuir aos inimigos do totalitarismo - como a VEJA - uma visão que é, ironicamente, partilhada pelo marxismo. Assim, a frase de Fukuyama é distorcida - na verdade, ele fala em triunfo das ideias liberais - para tentar "recuperar" algo de legitimidade ao totalitarismo marxista, do qual Guevara foi um dos representantes. O mesmo poderiam dizer os seguidores de outros líderes totalitários, como Hitler e Mussolini. Qual visão histórica não seria discutível para os autores do texto? A marxista, ora.
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Certamente, o culto de Che Guevara continuará, e os mesmos que queimaram exemplares da VEJA dois anos atrás encherão páginas e páginas de blogs com protestos contra a jornalista Marlen Gonzalez e a favor de Benicio Del Toro. É algo normal, e acharia até estranho se fosse diferente. Afinal, a Síndrome de Peter Pan é uma doença que atinge a muitos, que se recusam a crescer e se apegam, doentiamente, a seus mitos de infância. Não lembro bem, mas eu certamente devo ter levado um choque tremendo quando descobri, com cinco ou seis anos, que Papai Noel não existe. Quem sabe um dia os esquerdóides e idiotas úteis que idolatram Che Guevara cairão finalmente na realidade?
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Enfim, toda a lengalenga contra a reportagem de VEJA, assim como contra qualquer um que tenha a coragem de desmascarar o verdadeiro Che, não passa de uma tentativa desesperada e ideológica de preservar um mito, semelhante a outros mitos que alguns idiotas ainda insistem em idolatrar, como Stálin e Mao Tsé-tung. Uma simples questão de propaganda. Mas contra os fatos não há propaganda que resista. Pelo menos enquanto houver imprensa livre.

A INCRÍVEL IGNORÂNCIA DE UM IDIOTA ÚTIL


O ator porto-riquenho Benicio Del Toro, que interpreta Che Guevara num filme que está para estrear por estas plagas, passou por uma saia-justíssima ao ser entrevistado pela bela jornalista de origem cubana Marlen Gonzalez, no programa Primer Plano, do canal "41 Noticias", de Miami. O video da entrevista, que desde a semana passada foi bastante visto no Youtube, mostra um Del Toro totalmente despreparado e balbuciante diante das perguntas incisivas da estonteante apresentadora. Em uma verdadeira aula de como deve ser uma entrevista, simplesmente o rapaz foi humilhado, deixando claro que não sabe nadinha de nada sobre o personagem, El Chancho ("O Porco"), que encarna no filme de Steven Soderbergh. Dá vontade de dar pena. Creio que, de agora em diante, Del Toro deverá mudar de nome para Del Becerrito ou Del Burro.

A jornalista começa a entrevista perguntando a Del Toro se ele não considerava uma provocação lançar o filme, que faz a apologia de Guevara, em Miami, onde vivem tantas vítimas do regime castrista. Del Toro, completamente surpreso e apatetado pela pergunta inesperada, esboça uma negativa. Marlen lhe pergunta então se um filme que mostrasse o "lado bom" de Hitler não ofenderia 15 milhões de judeus e a memória de 6 milhões de judeus mortos no Holocausto. Aí Del Toro veio com a seguinte pérola: gaguejando, ele diz que não crê que Guevara, ao contrário de Hitler, tenha criado algum campo de concentração... Pois é: o rapaz não sabe nada sobre a carreira do carcereiro-mor de Cuba, quando o bravo revolucionário argentino foi o criador dos primeiros campos de concentração da ditadura castrista.

Estamos falando de assassinatos. Não é igualmente assassino quem mata um, cem, cem mil...?”, continua Marlen, deixando Del Toro ainda mais incomodado. Sem resposta, coitado, ele tentou comparar Che a um general durante a guerra... Um vexame.

Mas a saia-justa não terminou por aí. Ao lembrar as opiniões de Del Toro favoráveis sobre Che, feitas em uma infinidade de entrevistas, ela pergunta, na bucha, se ele sabia que o valente revolucionário, quando comandava a prisão de La Cabaña, mandou fuzilar mais de 400 prisioneiros. Del Toro dá uma resposta que já se tornou padrão em certos círculos: "Sabia. Muitos dos que foram fuzilados eram terroristas..." Aí é que Marlen completa o massacre: Nada disso, ela diz. “Noventa por cento eram presos de consciência. [morreram] Simplesmente por discordar do sistema nascente, por pensar diferente”. “Ah, não sabia disso”, suspira o ator...

No final, a apresentadora lembra uma frase de Che, o humanista: “A ação mais positiva e forte, independentemente de qualquer ideologia, é um tiro bem dado, no momento certo, em quem merece”. Uma frase típica de um bravo general em campo de batalha, como se vê. Del Toro, que àquela altura já havia virado um bezerrinho, pergunta a Marlen de onde ela retirou aquelas informações. Marlen então lhe presenteou com o livro Guevara: Misionero de la Violencia, do historiador cubano e ex-preso político Pedro Corzo.

Alguns podem dizer que Del Toro é apenas um ator, e que suas opiniões não devem ser levadas em conta. Nada disso. Dele não se espera, claro, um conhecimento acadêmico sobre Che e a Revolução Cubana. Mas, como qualquer pessoa, não lhe é dado flertar com a mentira e a mistificação, repetindo bobagens como se fossem a verdade. Em uma infinidade de entrevistas, ele andou pelo mundo declarando seu amor pela figura do revolucionário-fuzilador, posando de "engajado". Criticou, inclusive, o embargo norte-americano à ilha de Cuba, embora não tenha feito nenhuma menção à ditadura castrista, a verdadeira causa da penúria e da falta de liberdade na ilha-prisão. Chegou a dizer, com aquela atitude frívola típica de tantos em Hollywood, que comparava Guevara ao Batman. Fidel, pelo visto, deve ser o Homem-Aranha. E Stálin é o Super-Homem.

A ideia de que "é apenas um ator" não é desculpa para a ignorância. Ainda mais quando o sujeito não cansa de repetir que, para interpretar o personagem, ele se preparou por SETE ANOS (pelo visto, a preparação de Del Toro deve ter sido lendo os livros de Frei Betto e Emir Sader...). No momento em que aceitou estrelar e produzir um filme que enaltece um assassino como Guevara, Del Toro deveria saber que um filme sobre tal personagem não seria apenas uma "obra de arte", e que estava assumindo um papel também de formador de opinião. Não por acaso, o filme está sendo bastante elogiado em Cuba.

Benicio Del Burro, digo, Del Toro, não é "apenas um ator", assim como José Saramago não é "apenas" um escritor, nem Oscar Niemeyer é "apenas" um arquiteto. Todos esses são conhecidos, principalmente, pelas suas opiniões políticas pró-comunistas e pró-totalitárias. Ao revelar todo seu despreparo e todo seu desconhecimento sobre um personagem histórico que não cansa de elogiar, Del Toro entrou para a mesma galeria dos Jimmy Carter, dos Sean Penn, dos Michael Moore e dos Oliver Stone, ou seja: dos idiotas úteis e cretinos fundamentais.

Meus parabéns a Marlen Gonzalez, que mostrou que beleza e inteligência podem ser compatíveis e deu um show de bom jornalismo, ao não se deixar deslumbrar pelas luzes do show business e encostar na parede mais um "useful idiot". É uma pena que nós aqui só tenhamos os Zecas Camargos da vida...

terça-feira, fevereiro 03, 2009

SAIBA O QUE ACONTECEU NO FORUM SOCIAL MUNDIAL DE BELÉM DO PARÁ


Aí vai uma pequena reportagem do jornal O Liberal, de Belém (PA), sobre o tal Forum Social Mundial, que aconteceu na semana passada na capital paraense. Dá uma ideia geral sobre o que foi o tal encontro dos que defendem "um outro mundo possível". Leia aqui o que você não viu no Jornal Nacional e veja para o que serviram os mais de R$ 100 milhões que o governo Lula investiu na brincadeira:
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Cotidiano de um mundo “alternativo”

JOSUÉ COSTA


Da Redação

Afinal, qual o perfil do novo mundo que o Fórum Social Mundial (FSM) 2009 acha possível construir? As respostas dos seus participantes não são uníssonas. Os dois territórios do evento mostram um abismo entre o que se diz e o que se faz. O clamor por uma sociedade mais justa que vem das tendas parece conviver de mãos dadas com cenas de ilegalidade, consumo de drogas e exploração do trabalho infantil, entre outras mazelas distantes do propósito do evento, mas que se tornaram corriqueiras no cotidiano dele.

'Não acredito que outro mundo é possível com essa dispersão', criticou, em alta voz, para uma platéia de cerca de 30 universitários, o jovem Fábio Felix, coordenador do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Brasília (UnB). A crítica do estudante candango repousa, em parte, no que vê: nem todos os participantes do evento estão nos territórios para reunir, discutir, aprovar ou reprovar demandas voltadas para a construção do tão sonhado mundo novo.

Os territórios das universidades federais do Pará (UFPA) e Rural da Amazônia (Ufra) servem de chão para muitos participantes que vivem completamente indiferentes ao que acontece nas tendas e outros palcos de discussão das propostas. São tantos que não se pode dizer se são minoria ou maioria. Estão por toda parte, no vai-e-vém dos corredores asfaltados, sequer se importando com o propósito do FSM. Na Ufra, as cenas que reforçam o abismo são mais frequentes.

COMÉRCIO

Nas universidades, acontece de tudo - ou quase tudo. Dentro das tendas, nem sempre com seus assentos todos ocupados, vê-se gente valorizando o evento, fazendo valer o propósito do encontro, expondo e debatendo a pauta programada. Fora delas, no entanto, o cenário é degradante: trabalho infantil, consumo de drogas, comércio informal desorganizado e comercialização de produções piratas, como CDs e DVDs, aqueles mesmos que a Polícia combate fora desses territórios.

Na manhã de ontem, por exemplo, por volta das 10 horas, no território da Ufra, a reportagem acompanhou parte dos passos de um grupo de cinco estudantes que, mais tarde, descobriu-se, veio de Feira de Santana, na Bahia. Nesse horário, o grupo tomava o café da manhã numa barraca. Tapioquinha, pão, café, cigarro de maconha e o 'Loló', que é a inalação de jatos de um spray sobre uma flaneja, faziam parte do cardápio. Tudo a céu aberto, em meio à multidão, sem qualquer discrição. Terminaram e caminharam. Tomaram rumo contrário a todas as tendas de discussão.

DROGAS

Na perspectiva dos valores que abraçam, nada de errado no comportamento do grupo nordestino se, pertinho da barraca do café da manhã, não estivesse acontecendo um encontro de estudantes, cuja postura estava afinadíssima com o propósito do evento. Eram em torno de 30. Muita tenda para pouca gente. A quantidade, pelo que se via e ouvia, era superada pela qualidade. Foi lá que a reportagem entrevistou Fábio Felix.

O estudante da UnB esbravejava exatamente contra os 'dois' FSMs que acontecem em Belém: o dos que valorizam a proposta e dos que, mesmo presente nos territórios, estão para outros fins. Felix, como quem fala de cima de um trio-elétrico disparava críticas à organização do evento. 'Não tenhamos dúvidas de que este fórum, financiado pelo governo, foi preparado exatamente para esse fim: dispersar. Ele (governo) preparou uma programação e montou uma infraestrutura nitidamente para provocar dispersão, desinteresse e, assim, evitar críticas, críticas contra o governo Lula e contra o governo Ana Júlia', disparou o rapaz, recebendo demorados aplausos.

Nem Eduardo Freitas, da organização da Associação Secreta dos Maconheiros Assumidos, concordava com o que via. 'Nossa orientação não reprime o consumo da maconha, mas pede discrição, orientando o consumidor a não se expor, fumando, por exemplo, na frente das crianças', ponderou o rapaz, discordando das cenas que lhe eram apontadas.
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Uso de entorpecentes como a maconha foi frequente durante a semana
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Se fumar maconha na frente de crianças é desaconselhável, muito mais é submeter essas mesmas crianças ao trabalho. Trabalho infantil, aliás, conforme soam as vozes das tendas, é crime. Mas, enquanto o combate está reservado para outras circunstâncias, nos territórios do Fórum Social Mundial (FSM) 2009 é comum ver crianças trabalhando. 'É R$ 1, R$ 1. Água mineral geladinha. Só R$ 1', gritava João Paulo dos Santos, 12 anos, na Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), na manhã de ontem.

Morador da Terra Firme, disse que estava judando o pai, que estava perto do filho, com outra venda. E perto deles, o comércio de CDs e DVDs piratas. Outra cena de ilegalidade. Indagado se havia orientação para reprimir o consumo de drogas, o bombeiro militar Pessoa não quis responder. Limitou-se a dizer que só o oficialato da corporação poderia conceder entrevista. Ele, oficial, e mais quatro colegas estavam de prontidão perto de uma barraca onde a fumaceira da erva tragada lhes chegava no rosto.
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COELHOS
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'Isso era previsto', avaliou Trajano de Jesus, chefe de Segurança da Ufra. Trajano, que conta com um efetivo de 38 homens desarmados, diz que a única preocupação de sua tropa é defender o patrimônio. Nesse sentido, tudo em ordem, à exceção do sumiço de quatro coelhos, que foram parar numa panela de um acampamento. 'Nesses dias, quem manda são eles. Deixamos de ser Ufra para sermos o território do Fórum', contemporiza.
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Outras preocupações, afirma Trajano, existem. E dizem respeito ao comportamento de grupos de participantes. Na última quinta-feira, por exemplo, ele saiu de casa para o trabalho às 6 horas e retornou à meia-noite. À 1 hora da madrugada o telefone tocou. Foi chamado para resolver um problema de um som que tocava em alto volume, numa tenda de acampamento. (J. C.)
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Comento
Pois é... Como é mesmo aquela conversa, de que "um outro mundo é possível"? Não tenho nada contra o sujeito encher os pulmões de fumaça de erva se quiser, desde que não seja com o dinheiro público - quer dizer, com o meu, o seu, o nosso suado dinheirinho. Também não tenho nada contra organizar uma bacanal, com muito sexo e bebida, desde que o façam às próprias expensas. Fiquei sabendo que o governo - que paizão é o governo Lula! - distribuiu 600 mil camisinhas no evento. Querem fumar? Que fumem. Querem cheirar? Que cheirem até virarem uma uva passa. Querem transar? Que transem até esfolar o couro. Só não aceito que façam isso às custas dos impostos que todos pagamos. Também não me peçam para levar a sério esse papo furado de "outro mundo é possível", por favor...

Esse Forum Social Mundial já virou uma piada, um misto de Woodstock com feira de produtos ideológicos com data de validade vencida. Não passa de uma gigantesca convenção de bichos-grilos, um convescote esquerdista-indigenista que serve apenas para fazer a alegria de quem está no cio e de palanque para os Hugo Chávez da vida. Ao contrário do que dizem alguns, que acreditam que esse tipo de encontro serve para alguma coisa útil. Nenhum debate sério, nenhuma discussão substantiva sobre nenhum assunto. Apenas a eterna reiteração de velhos chavões e slogans esquerdóides e anticapitalistas, gritados em geral por adolescentes de classe média entediados e em busca de um estilo de vida, digamos, "alternativo". Uma esbórnia, enfim, bancada com o dinheiro público. Até a "Associação Secreta dos Maconheiros Assumidos" (!) achou que a "galera" extrapolou.

Já estive em alguns encontros de estudantes, quando eu estava na faculdade, e, francamente, é tudo uma palhaçada! Ainda há quem insista em dizer que esses encontros servem para alguma coisa, mas é tudo uma grande presepada. O que há é muita bebedeira, muito sexo inconseqüente, muita maconha e outras coisas mais pesadas, e nada, absolutamente zero de seriedade. Acreditem: esse tipo de encontro serve só para isso, e nada mais. A diferença é que nós mesmos bancávamos nossas idas para esses festivais etílico-ideológicos, não recebíamos um centavo do governo para nossas farras homéricas. Fazíamos nossas presepadas, mas com nossos caraminguás. Também não explorávamos o trabalho infantil enquanto discursávamos contra o neoliberalismo, a globalização etc.
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Depois do Bolsa-Família e do Bolsa-Terrorismo, eis aí o Bolsa-Maconha e o Bolsa-Camisinha. Aonde mais os lulistas vão chegar?